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-jornal-

Coluna

da

Hora

Edição 2  •  Sobral - CE  |  Faculdades INTA •  PAIXÃO JUNINA

Paixão Sobralense por quadrilhas juninas

Grupos de quadrilhas em Sobral mobilizam integrantes para apresentar cultura regional regional

•  MEIO AMBIENTE Poluição preocupa comunidades nas margens do rio Acaraú ▪  Cidade  P. 06

•  CARREIRA Educação profissionalizante é aposta para qualificação

As Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEP) funcionam no Ceará desde 2008, possibilitando ao aluno, além da sua qualificação profissional, a inserção no mercado de trabalho. ▪  Educação  P. 10 •  POLÍTICA Crise compromete credibilidade de classe política ▪ P. 08

•  Foto: Acervo pessoal de Ceiça Ferreira

“Viva São João, São Pedro e Santo Antônio”. É assim que milhares de jovens expressam suas alegrias durante o mês de junho, nas festas juninas por todo o Nordeste, com muita quadrilha e casamento matuto mostrando a cultura regional para todo o país. Em Sobral, no Ceará, desde 1997, acontece o Festival de Quadrilhas, que em 2016 realizou a sua 20ª Edição. •  INICIATIVA

Durante esses 20 anos, aliam tradição e •  MÚSICA inovações em apresentações cada vez mais Projeto estimula produção cultural profissionalizadas. A reportagem traz a ro- sobralense tina de alguns desses grupos que inserem as quadrilhas da região Norte no cenário estadual. ▪  Cultura  P. 12

•  ESPORTE

Canoeiros garantem alternativa Guarany insere basquete sobralense no cenário estadual de transporte em Sobral ▪  Economia  P. 07

▪  Esporte P. 16

Bandas disputam espaço em poucos palcos, mas propõem novas forma de incentivar a diversidade na cena sobralense ▪  Cultura  P. 15


Jornal Coluna da Hora Edição 2  •  Sobral - CE  |  Faculdades INTA

2 | Editorial

CARTA ao Leitor Prezado leitor,

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sta segunda edição do Coluna da Hora resgata o projeto do curso de Jornalismo das Faculdades INTA voltado à cobertura de temas de interesse de toda a região Norte do Ceará. Mantendo a proposta editorial voltada para uma identidade regional, esta edição traz abordagens sobre cultura, política, meio ambiente, economia, esporte, educação, segurança pública e saúde, contemplando uma diversidade de pautas para o leitor. A cultura local ganhou destaque nesta edição, sob três enfoques distintos. O primeiro, o trabalho dos grupos de quadrilhas juninas da região, que aliam o resgate da cultura popular a novas linguagens, com apresentações em festivais no Ceará e outros estados nordestinos. O segundo, o trabalho do projeto Quatro Portas, obra do artista sobralense Chico Expedito, trazendo para a arte local seu know-how de anos de experiência no teatro e televisão. Por fim, a atuação de bandas de rock sobralenses, na busca de espaços e de construção de uma cena musical local. O rio Acaraú, um dos símbolos da Zona Norte, foi tema de duas reportagens. Uma delas, sobre os problemas relacionados à poluição de suas águas e as alternativas de

enfrentamento dos danos ambientais, por parte dos órgãos públicos e das comunidades ribeirinhas. A outra, sobre o trabalho dos canoeiros que, diariamente, fazem transporte de pessoas de uma margem à outra do rio, sobrevivendo por meio de uma atividade econômica tradicional em Sobral. O cotidiano das cidades da região também ganhou pautas sobre educação, saúde e segurança pública. Em uma delas, temos experiências bem sucedidas de escolas profissionalizantes na Zona Norte. A realidade sobre doação de órgãos em Sobral e municípios vizinhos é tema de outra reportagem desta edição, que também traz um retrato de problemas estruturais enfrentados pela Polícia Civil na cidade. A segunda edição do Coluna da Hora mostra ainda a percepção de políticos, profissionais de Marketing e eleitores sobre imagem e credibilidade dos políticos no contexto de crise. Por fim, o leitor vai conhecer histórias sobre o time de basquete do Guarany de Sobral e o esforço de atletas e comissão técnica para inserir o esporte em um contexto de destaque no Ceará. A todas e todos, uma ótima leitura. Adilson Nóbrega

EXPEDIENTE Coluna da Hora – ano II – nº 2 Uma produção dos alunos do terceiro semestre do curso de Jornalismo das Faculdades INTA

Coordenadora do curso de Jornalismo: Liliane Luz Alves Professor responsável pela disciplina de Redação Jornalística II: Adilson Rodrigues da Nóbrega Editor: Adilson Rodrigues da Nóbrega (MTB/CE 01269 JP) Redação, edição e fotos: Adriano Furtado Ana Karine Cleivison Costa Carlos Henrique Brito Evarnio Cunha Nildo Mello Julivaldo Sousa Francisco Santana Júnior Gisélia Silveira José Marques Júnior Karmecita Oliveira Rodrigo Aguiar Thais Menezes Diagramação: João Paulo Oliveira


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Crônica | 3

A dor silenciosa na fila de espera •  Foto: pixabay.com

GISÉLIA SILVEIRA

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ostos apáticos em filas de espera com seus acompanhantes em cadeiras desconfortáveis. A emergência da Santa Casa de Sobral em plena 15h de uma segunda-feira está lotada. São pessoas que carregam suas dores por dias, meses, anos. Homens, mulheres que recorrem a medicamentos para aliviar a dor, suportar a espera pelo sistema de saúde precário e deficiente. O faxineiro começa a cantar uma mú-

sica qualquer e a outra faxineira completa a canção. Eles riem e já penso logo que aquele lugar não é tão ruim assim, mas o cheiro de formol já me deixa meio zonza e enjoada. Na espera de ser atendida, encontrei Antônia, meio curvada me olhava querendo saber de onde eu vinha, o meu crachá, o bloquinho de notas com caneta denunciava quem eu poderia ser. Mas tão educada me disse para bater à porta da assistente social. Agradeci e perguntei o que ela estava fazendo ali e ela me disse que esperava para marcar uma cirurgia. Foi daí que nossa conversa tomou um rumo. Antônia sofre há um ano de pedra na vesícula. A vesícula biliar é responsável por armazenar a bile, um líquido esverdeado que ajuda na digestão das gorduras. No momento da digestão, a bile atravessa os canais biliares e chega ao intestino, mas a presença de pedras pode bloquear esse caminho, causando inflamação da vesícula e dor. Também pode acontecer de as pedras serem pequenas e conseguirem atravessar os canais biliares até chegarem ao intesti-

no, onde serão eliminadas juntamente com as fezes. “Tem dias que eu sinto dor o dia todo. Aqui moça, não consigo nem mexer porque dói.” Fazia gestos com a mão apontando onde ela sentia dor. Não há nada mais brutal saber que alguém sente dor e não poder fazer nada para amenizá-la. “E o que faz pra passar, Antônia?” “O que tenho são medicamentos, mas não é sempre que posso ter os medicamentos.” Vinda do interior de Sobral, Antônia há um ano espera por uma cirurgia. Mãe de dois filhos, precisa trabalhar, mas a dor não deixa “Há um ano que apenas meu marido sustenta a casa. Preciso trabalhar, mas tem dias que a dor é muito grande, moça”. Famílias destruídas pelo atendimento precário e lento da saúde pública no país. São pessoas que aprenderam a conviver com a dor, a suportar a dor. Mas que nem por isso deixaram de viver bem, não deixaram de sorrir e muito menos deixaram de ser educadas. O sistema de saúde brasileiro é deficitário em sua assistência. A população pede socorro. A insatisfação é silenciosa. Muda. Dolorida.


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4 | Saúde

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Doação de órgãos: um ato de generosidade Em meio à fila invisível de mais de 60 mil pessoas que esperam transplantes no Brasil, histórias de doação mudam vidas GISÉLIA SILVEIRA

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o Brasil existe uma fila invisível de mais de 60 mil pessoas que esperam um transplante de órgão. O número de doadores efetivos em 2015 teve uma leve queda em comparação ao ano anterior em nível nacional, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgão (ABTO). O Brasil é o segundo país em número de doadores. O Ceará é o terceiro estado com doadores efetivos de tecidos e órgãos para transplante. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, em 2015 foram realizados 1.433 transplantes. Sobral conta com a Organização de Procura de Órgãos e Tecidos (OPO) que são responsáveis pela identificação, captação e manutenção dos órgãos coletados. Atuam junto aos estabelecimentos de saúde e se reportam à Central de Transplantes. São 55 OPO’s em todo o território brasileiro. Em todo o estado, existem 4 OPO’s, sendo duas em Fortaleza, uma em Sobral e uma no Cariri. A Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) organiza em âmbito hospitalar o processo de remoção de órgãos e tecidos para fins de transplantes. No Ceará existe 18 CIHDOTT’s, 14 delas em Fortaleza, 2 em Sobral e 2 na Região do Cariri. OPO’s e CIHDOTT’s são responsáveis pelo desempenho da rede de atenção à doação de órgãos e tecidos na sua área de abrangência. A retirada dos órgãos é feita través de uma equipe das centrais estaduais. A Santa Casa, em Sobral (CE), conta com uma equipe da OPO composta de um médico, três médicos assistentes, um oftalmologista, um auxiliar administrativo e bolsistas. No Ceará há uma fila de 1.259 pessoas que esperam por um transplante. Cerca de 610 pessoas esperam por transplante

O transplante de coração salvou a vida de João Fábio, que sofria de doença cardíaca (Foto: arquivo pessoal)

de córneas. A Santa Casa de Sobral, desde 2009, realiza o processo de captação de olhos. As córneas eram enviados para Fortaleza para serem conservadas lá. Em 2011 começou o transplante de córnea na cidade, a maior da Zona Norte do estado. Em janeiro de 2016 o Banco de Olhos da

“Quando se doa, se doa a alguém. O ato da doação transforma a vida de quem doou e de quem recebe. A doação é meio de continuação de vida, uma nova história”. Fabiana Vidal

Santa Casa foi credenciado pelo Ministério da Saúde para realizar a retirada, preservação, armazenamento e disponibilização dos tecidos oculares doados, onde são feitas captação, conservação e transplantes de córneas. Sobral é a única cidade no interior do Ceará a ter um banco de olhos.

A POTÊNCIA DA DOAÇÃO João Fábio aos 10 anos foi diagnosticado com cardiomiopatia dilatada viral, o diagnóstico brutal de uma doença dos músculos do coração que compromete o funcionamento do músculo cardíaco, deixando-os fracos e menos eficientes para o bombeamento do sangue. Da noite pro dia, Fabiana Vidal, a mãe, viu a realidade mudar. Sugada, não tinha tempo para sofrer, precisava ser forte, continuar a história, se reinventar. O menino foi internado em um hospital particular por 30 dias e depois transferido para o hospital de Messejana. Para ser incluído na lista de espera, o normal para o funcionamento cardíaco é 30%, o seu chegava aos 19%. Por conta da sua debilidade, foi incluído na lista de espera com prioridade. Aos dez anos de idade era maltratado pela espera silenciosa de um transplante. “Ele havia perdido 12 quilos, seu funcionamento cardíaco chegou aos 3% no Hospital de Messejana, era um caso quase irreversí-


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vel, tudo podia acontecer”, relembra a mãe. Os dias não se passavam delicados, apenas esperançosos. Precisavam da generosidade de alguém. Depois de uma semana internado no Hospital do Coração, no dia 13 de abril de 2011, João Fábio recebe um coração de um doador homem de 41 anos. “Quando se doa, se doa a alguém. O ato da doação transforma a vida de quem doou e de quem recebe. A doação é meio de continuação de vida, uma nova história”, destaca a mãe do garoto.

Uma pessoa pode salvar oito outras novas vidas. Para isso, são feitos exames completos para se ter a certeza. “O sucesso de um transplante já acontece no momento da doação”, diz o oftalmologista Ribamar Fernandes. “O ato de doar não significa dar algo que esteja sobrando, que não fará falta e sim, mesmo em momento tão delicado escolhe ajudar o outro.” Enfatiza Sinara Farias, bolsista da OPO.

MORTE ENCEFÁLICA, UM DESAFIO PARA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Como o corpo fica depois da retirada dos órgãos?

A Morte Encefálica é a definição legal de morte. É a completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro. No Brasil, a lei determina que a família autorize a doação de órgãos, o aumento da recusa devido ao não conhecimento do assunto. “Há uma diferença entre coma e morte cerebral. Coma é reversível, a morte cerebral não.” ressalta Fabiana Vidal O número de recusa a nível nacional tem aumentado, só pode haver doação total de órgãos quando existe a morte encefálica.

Tira-Dúvidas:

É determinado por lei que os médicos depois da retirada dos órgãos devem recuperar a aparência do paciente como antes. Quem pode doar órgãos? Todas as pessoas são identificadas como doadoras. No entanto, para a total doação dos órgãos sólidos, tecidos, é preciso haver morte cerebral. E em vida, poderão ser doado rins, uma parte do fígado, medula óssea e pulmão.

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Depois que morre o que pode ser doado? Córneas, Coração, Pulmão, Rins, Fígado, Pâncreas, Ossos, Médula Óssea, Pele e Valvas Cardíacas. O coração do meu ente ainda continua batendo, por que então “morte cerebral”? O coração continua batendo pois há aparelhos que o mantém vivo. O cérebro é o único responsável por dar vida a todo o corpo humano. Por isso, quando se diz que existe morte encefálica, o paciente já está morto. Como se tornar um doador? Avisar a família e dizer da sua vontade. Pois depois de declarada a morte do paciente, só a família poderá decidir pela doação. (Fontes: Secretaria de Saúde do Estado, SBTO, médico oftalmologista Ribamar Fernandes)


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6 | Cidade

Rio Acaraú: Das enchentes à poluição Impacto ambiental atinge população ribeirinha, que busca alternativas trabalhando, inclusive, como voluntária na limpeza do rio THAÍS MENEZES

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Rio Acaraú, segundo maior do estado do Ceará, nasce na Serra das Matas, um dos pontos mais altos da região Norte. Corta a cidade de Sobral e banha 18 municípios até chegar ao mar, em Acaraú. Com uma vista indescritível das igrejas mais antigas da cidade, vista da margem esquerda, o principal cartão postal de Sobral encontra-se com pouca água e coberto por macrófitas – plantas aquáticas – revelando um problema sério: o excesso de poluição na água em alguns trechos do Acaraú. A grande quantidade destas plantas impede que a luz do sol chegue até o fundo do rio onde ficam as algas, responsáveis pela oxigenação da água que dá vida aos peixes. Anos antes de a poluição instalar-se no Acaraú, era possível observar os rostos abatidos dos moradores em épocas de enchentes. Eles perdiam casas, roupas, móveis e comidas. Mas ganhavam um rio cheio, com água corrente e farturas de peixes, além do lazer aos sábados e domingos. É o que relata Maria Cleide Maciel Portela, 68 anos, residente desde os dois anos de idade no bairro Dom Expedito, margem direita do rio. Ela conta que durante as enchentes pelas quais passou – 1974 e 1984 – a casa em que vivia com a família era sempre atingida, forçando a família a procurar abrigo nas casas populares. “Apesar do sofrimento das enchentes, quando tudo passava, o rio ficava bonito. As pedras eram brilhantes e a areia muito fina em algumas partes, nós a chamávamos de ‘prainha’. Muitas moças iam lavar as roupas e conversar na beira do rio. Nas

Margem Esquerda do Rio Acaraú   •  Foto: Thales Menezes

épocas de cheias muitas pessoas pulavam da ponte. Eu também arriscava, mas minha mãe brigava muito comigo”, conta a moradora. Ainda segundo ela, quando falta água todos os moradores compram garrafões. “Antigamente eu ia para o rio com as bacias. Enchia todas e trazia para casa. Agora quando falta, vou de vez em quando olhar o rio. Mas e aí o que a gente faz? Um rio tão perto de casa, cheio de água e a gente sofrendo por não poder usufruir dele. Eu fico pensando: – Meu Deus quando será que vai melhorar?”, finaliza ela. Mesmo com a poluição, há moradores que se arriscam a manter atividades como a pesca. É o caso de Aprígio Fernandes Teófilo, 72 anos, aposentado por tempo de serviço e que também trabalha há três anos realizando a limpeza do rio. Ele também foi pescador há 20 anos e conta que a poluição sempre existiu, mas que não era nítida como hoje. O aposentado ainda afirma que não há problema em pescar, mesmo com a atual situação do rio. “Atualmente eu ainda pesco por esporte. Tem gente que cisma, mas se eu pescar um peixe hoje, depois de passar o sal e assar, eu ainda como. Muitos pescadores pescam para vender. Tem uma vizinha minha que ainda pesca e come”, disse ele. EM BUSCA DE SOLUÇÕES Bruno Gomes, Tecnólogo em Saneamento Ambiental pelo Instituto Federal de

Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), explica que a origem das plantas macrófitas acontece de forma natural, mas em relação ao Rio Acaraú percebe-se que a proliferação não é tão normal assim. Trata-se do excesso de nutrientes presentes nos esgotos que consequentemente são despejados no rio. De acordo com o assessor de comunicação do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sobral (SAAE), Jocelio Neves, os esgotos que vão em direção ao Acaraú são chamados de “galerias” – locais para onde a água da chuva deve seguir e desaguar no rio –, porém, existem neste mesmo local, esgotos clandestinos que foram construídos por moradores. Os resíduos das residências acabam despejados no rio sem nenhum tratamento, contribuindo assim para o aumento das macrófitas e a poluição das águas. A prefeitura municipal de Sobral através da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (Seconv) encaminha constantemente equipes para realizar a limpeza das margens esquerda e direita do rio Acaraú, retirando os entulhos e plantas aquáticas do local. Ainda de acordo com Bruno Gomes, isso é uma medida temporária. Para ser uma medida preventiva, os órgãos públicos deveriam investir mais em educação ambiental, já que a grande causa disso é a urbanização. “Sobral cresce, mas ao mesmo tempo carece de um planejamento”, finaliza o tecnólogo.


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Economia | 7

Sustento que chega de canoa Canoeiros no rio Acaraú garantem alternativa de transporte para população e fonte de renda para sobrevivência

HENRIQUE BRITO

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odos os dias, ao chegar às margens do rio Acaraú, no Bairro Dom Expedito, em Sobral (CE), é comum encontrar um grande número de moradores que buscam os serviços oferecidos por homens que trabalham, quase incansavelmente, remando em canoas. Estes canoeiros fazem de suas embarcações um veículo de deslocamento para a população e fonte de renda para suas sobrevivências. Passar de uma margem a outra do rio, ou seja, de um lado da cidade para o outro, custa apenas R$ 0,50 e não ultrapassa dois minutos. Um trajeto em qualquer outro veículo custaria mais dinheiro e tempo. O serviço dos canoeiros é de imensa importância para os moradores do bairro e vizinhança que os procuram diversas vezes ao dia para chegarem ao local de trabalho, resolver problemas pessoais no Centro e até mesmo para suprir necessidades de lazer, como afirma Raimundo da Silva Melo, 64 anos, que desde o seu nascimento mora no bairro e utiliza esse serviço diariamente. Ele também lembra que antigamente existiam oito canoas; hoje são apenas duas com grande serventia para quem necessita. Francisco José Sousa (32), que trabalha como canoeiro há seis meses, todos os dias da semana, depende exclusivamente da renda conseguida no rio para sustentar sua família. Ele conta que os dias mais movimentados são de segunda a sexta-feira em

Canoeiro Hélio Freitas afirma prezar sempre pela segurança das pessoas transportadas   •  Foto: Thales Menezes

que ele chega a apurar R$40,00 por dia, conseguindo uma renda mensal não fixa de aproximadamente R$1.200,00. Os cinco canoeiros que existem atualmente revezam os horários em turnos para melhor atender à população. Os serviços começam com dois canoeiros no período da manhã das 06 às 12 horas. No turno da tarde entram outros dois, das 12 às 16 horas e um último fica das 16 às 20 horas, cobrindo o turno da noite. O canoeiro Hélio Fernandes de Freitas afirma que a segurança das pessoas é sempre visada. Eles procuram sempre levar o máximo de passageiros que uma canoa suporta, seis pessoas. Poupar dinheiro no momento financeiro que o Brasil atravessa

é fundamental e, para as pessoas que utilizam o serviço das canoas no bairro Dom Expedito, este transporte é uma excelente forma de economizar. O usuário Raimundo da Silva Melo brinca com o momento de crise: “Ela não chegou aqui. Antigamente, os serviços eram R$ 0,10, depois aumentou para R$ 0,15, depois R$ 0,25 e faz tempo que está em R$ 0,50, mas a gente também pode dar mais se quiser”, o que faz lembrar-nos da quarta lei da economia, elaborada por Gregory Mankiw (professor de economia da Universidade de Harvard): “as pessoas reagem a incentivos”.


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8 | Política

Edição 2  •  Sobral - CE  |  Faculdades INTA

Crise compromete credibilidade de classe política

Denúncias de corrupção em diversas esferas de governo causam impacto na credibilidade de políticos. Para especialistas, mudança não se dará a curto prazo

POR ADRIANO FURTADO E JULIVALDO SOUSA

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política brasileira vive um de seus piores momentos com a deflagração de uma crise que afetou a credibilidade dos políticos há cerca de três anos, com a descoberta de vários escândalos de corrupção, envolvendo políticos influentes, em casos protagonizados por representantes de diversos partidos. O cenário tem se agravado a cada dia que passa e fragiliza ainda mais a reputação dos políticos de modo geral. O impacto negativo dessa crise poderá não ser revertido de

é muito lento e esse povo ainda não detém o conhecimento necessário para se “libertar” dos maus políticos. De acordo com Jânio, ainda é mínima a parcela da população que se interessa por política. Jânio acredita que o percentual de votos nulos ainda não vai aumentar nessa eleição e que a crise não prejudicará as siglas partidárias, pois para o eleitorado do interior, partidos não são relevantes para influenciar na escolha do voto. Na visão de presidentes de partidos políticos, a crise vivida no país pouco afetará as siglas, principalmente nessa região do estado. Para eles, na Zona Norte o eleitorado é bairrista e pouco se interessa pelo partido ao qual o candidato é filiado. Nes-

“As mudanças não terão resultados imediatos, a crise refletirá no ponto de vista crítico e moral e isso demanda tempo para ser digerido pela a população” Jânio Ferreira

Jânio Ferreira - Consultor Político  •  Foto: Adriano Furtado

imediato. Para o consultor em Marketing Político e publicitário Jânio Ferreira, a crise refletirá em toda classe política, inclusive na zona norte do estado do Ceará, porém ainda não afetará o resultado das próximas eleições. “As mudanças não terão resultados imediatos, a crise refletirá no ponto de vista crítico e moral e isso demanda tempo para ser digerido pela a população”, diz ele. Segundo o consultor, o processo de maturidade, sobretudo dos segmentos mais pobres,

se caso, o que contará é o nome que será colocado para apreciação popular, que na maioria das vezes já é figura publicamente conhecida. De acordo com Vicente Gonçalves Filho, presidente do Partido Social Liberal (PSL) de Irauçuba, a crise não afetará a postura dos partidos, porém fragilizou a imagem das siglas, pois não existe mais ideologia partidária e muito menos a filosofia de trabalhar para o povo. Vicente também acredita que esse é o momento dos partidos pequenos ganharem força: “essa é a oportunidade dos partidos pequenos mostrarem trabalho e sua força ideológica, pois as grandes siglas como PT, PMDB, PSDB e outras, já provaram incompetência”. Já o presidente do PDT de Itapajé, Cid Lira Braga, pensa um pouco diferente, pois para ele a crise, “apesar de dolorida é necessária”. Essa situação pode fragilizar os

“Esse é o momento para o eleitor refletir, analisar e decidir por votar em pessoas com a Ficha Limpa” Cid Lira Braga

partidos políticos, principalmente as pequenas siglas que atualmente são dependentes dos partidos maiores. Para Cid, os partidos têm o dever de qualificar seus candidatos e apresentar nomes dignos a população, caso contrário os partidos entrarão em falência. “Esse é o momento para o eleitor refletir, analisar e decidir por votar em pessoas com a Ficha Limpa”, afirma o pedestista. Na avaliação da população, a crise é um resultado do grave quadro estado de corrupção que o país vive. Os entrevistados afirmam que os políticos não gozam de prestígio algum, de forma generalizada. O vigia e atualmente estudante de Direito Danilson Mota, natural do município de Itapajé, avalia a classe política da pior forma possível: “o povo brasileiro em regra não é especializado e muito menos tem o interesse de fazer avaliações mais profundas dos seus representantes. Faço a pior avaliação possível, não me sinto representado por nenhum, passamos pela maior falta de identidade política de nossa história. Não temos mais nomes como: Leonel Brizola, Pedro Simon, dentre outros que ainda passavam um pouco de confiança para a sociedade”. Para o professor da rede municipal em Itapajé, Pedro de Aguiar Junior, falta comprometimento dos políticos em fiscalizar o dinheiro público, ética e uma conduta pautada na moralidade. O educador diz que pretende votar avaliando as propostas e optando por um candidato que ainda não teve mandato eleitoral. Mesmo insatisfeito com o quadro político atual, o professor acredita em dias melhores. “Um dia tudo pode mudar. Só não sei quando, mas, acredito”, opina ele.


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Segurança Pública | 9

Dificuldades estruturais na Polícia Civil em Sobral

Integrantes da corporação relatam dificuldades na estrutura de delegacias e cobram investimentos em efetivo e inteligência

Corredor de acesso a celas na Delegacia •  Foto: Júnior Santana

JÚNIOR SANTANA

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importância das forças de segurança pública para o Estado é incontestável. No entanto, muito se tem debatido nos últimos anos sobre esse tema. Vivemos em tempos onde os índices de criminalidade deixam a população com uma sensação de insegurança. A sociedade cobra das autoridades policiais providências contra a violência. Mas como elas tem feito para se desdobrar em meio à tamanha demanda? Em busca de entender melhor esse outro “lado da moeda”, procuramos a Polícia Civil da cidade de Sobral, para termos uma visão mais ampla de suas condições de trabalho e suas expectativas para o futuro da corporação.

De início conversamos com um inspetor que prefere não se identificar, que nos relatou sobre realidade do efetivo na cidade. “A Polícia Civil está desvalorizada, costumamos até dizer que somos ‘órfãos de pai e mãe’ pois não há ao menos um olhar digno por parte dos governantes para nós. E não é só em Sobral, mas em todo o estado do Ceará.”, afirmou ele. As situações de improviso são constantes. No prédio onde hoje funciona a delegacia regional de Sobral, funcionava a secretaria de saúde, mas parte da estrutura continua a mesma do órgão anterior. Em uma sala onde funcionava um equipamento de Raio X, lá está uma capsula de sésamo cheia de material radioativo. Como não houve uma retirada da mesma, os policiais ainda ficam expostos à radiação diariamente. Nos últimos anos, 80% das verbas destinadas à segurança pública foram para Policia Militar e apenas 20% para Policia Civil, afirma o inspetor. A Delegacia Regional de Sobral mesmo com um efetivo insuficiente, atualmente abrange mais de quatorze municípios da Região Norte. De acordo com o inspetor, além da necessidade de um efetivo maior, há carência de investimentos também em investigação criminal. “Nós procuramos sempre fazer o nosso melhor, investigamos e descobrimos crimes, vamos pela vontade, pois devemos um resposta à população. Temos a consciência da nossa prestação de serviços, e não podemos deixar a população perecer”, destacou ele. Segundo o delegado titular da Superintendência da Polícia Civil em Sobral, Junior Vieira, atualmente a Polícia Civil de Sobral conta com um efetivo de dez policiais atuantes e que este número não é suficiente já que hoje, Sobral tem cerca de duzentos mil habitantes, sem contar com as pessoas que vem a cidade para trabalhar, a chamada população flutuante. Sobre o serviço de inteligência atuante, ele ponderou: “é claro

que o Serviço de Inteligência poderia ser mais atuante na cidade, mas, devido exatamente a esta demanda, ou seja, falta de policiais suficientes, só é feito o possível.” O delegado afirmou também estar esperando por um novo concurso público para a corporação, para que possam vir reforços para a cidade. Procuramos a Assessoria de Comunicação da Superintendência da Polícia Civil do Estado do Ceará para uma resposta sobre os problemas estruturais apontados pelos entrevistados. O contato foi feito com a assessora Morgana Cruz, mas até o fechamento da edição do jornal Coluna da Hora não houve retorno. [N. do E.: durante o processo de diagramação e edição do Coluna da Hora, em dezembro de 2016, foi inaugurada uma nova Delegacia Regional de Polícia em Sobral, para atender a Sobral e outros 24 municípios da região Norte do Ceará] FUNÇÃO DAS POLÍCIAS MILITAR E CIVIL - A Polícia Militar atua de forma preventiva, ou seja, fazendo patrulhas para evitar que crimes aconteçam. É a chamada “polícia das ruas”, que também faz “blitze” e atua em locais onde há grande aglomeração de pessoas, (shows, manifestações). O trabalho é feito também a partir da detenção de indivíduos suspeitos, em que, geralmente há flagrante delito. - Depois do fato ocorrido a Polícia Civil atua diretamente. Se um crime de qualquer natureza foi registrado e não teve um flagrante por parte da PM, as autoridades civis entram em ação para investigações, interrogatórios, buscas e apreensões. Em suma, a Polícia Civil atua em investigações, na prisão de suspeitos e trabalhando em inquéritos, para que os autores de crimes respondam à Justiça.


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10 | Educação

Edição 2  •  Sobral - CE  |  Faculdades INTA

Educação Profissional: uma nova proposta de ensino Escolas profissionalizantes trazem a alternativa de ensino integral e qualificação direcionada para mercado de trabalho KARMECITA SOUSA

A

s Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEP) funcionam no Ceará desde 2008, possibilitando ao aluno, além da sua qualificação profissional, a inserção no mercado de trabalho. No último ano do ensino médio, o aluno passa por uma disciplina de estágio curricular, onde recebe uma bolsa e passa a vivenciar o mercado de trabalho, além de possuir um curso técnico no currículo. A proposta é que o ensino seja um diferencial dos alunos que estudam em uma escola de nível básico. O Ceará conta com cerca de 113 escolas de educação profissional: algumas já existentes foram adaptadas e, desde 2011, as novas escolas passaram a ser construídas segundo o padrão estabelecido pelo MEC (Ministério da Educação). De acordo com Vastilde Lima, coordenadora da escola Dom Walfrido Teixeira Vieira, de Sobral, a expansão desse ensino profissional corresponde a uma demanda do mercado de trabalho qualificada e especializada, que cresceu bastante nos últimos anos, mas também corresponde a uma necessidade de incluir e inserir a juventude no mundo moderno, fortalecendo as redes estaduais de educação por meio do ensino integral. Para o ingresso na escola, o aluno passa por uma seleção, que tem como critério destacado a avaliação do histórico escolar. Caso o aluno não alcance o perfil desejado, ele pode optar por outro curso menos concorrido. Depois da seleção vem o ato da matrícula, onde é obrigatório o aluno ter concluído o 9° ano do Ensino Fundamental (ou concluir até o ato da matrícula) e ter no mínimo 14 anos - essa restrição de idade deve-se à lei do estágio 11.788/08, que só autoriza os alunos a estagiarem com 16 anos. Os alunos entram na escola e ficam das 7h às 16h40, onde o horário das aulas é es-

tabelecido entre a coordenação e os professores. São disponibilizados dois lanches e uma refeição durante o dia e o aluno pode desfrutar das áreas e projetos da escola durante os intervalos. Os recursos destinados as EEEP’s são mais elevados do que os destinados a escolas regulares, em consequência do tempo no ambiente de ensino e investimentos nos cursos técnicos. As verbas vêm diretamente do Governo Federal por meio do programa Brasil Profissionalizado, que inclui as escolas profissionais, porém o Governo do Estado também arca com parte dos recursos. Segundo o professor de Filosofia João Mauricélio, da escola Dom Walfrido Teixeira Vieira, a educação em tempo integral é uma realidade predominante nos países de primeiro mundo ou naqueles mais desenvolvidos educacionalmente. Com essa carga horária maior, é esperado que os alunos sejam preparados e qualificados não só para o mercado de trabalho, mas também para exercer seu papel como cidadãos conscientes no mundo. Para alguns dos estudantes formados nessas escolas, a experiência do ensino profissionalizante foi muito importante para a formação. “No meu curso profissional em comércio tinha muita coisa sobre Administração, o que foi muito importante para eu me tornar uma assistente administrativa, além de aprender a ser uma boa funcionária”, disse Lais Dias, ex-aluna da escola Dom Walfrido e atual responsável pelo setor acadêmico de Ensino a Distância (EAD) e assistente administrativa da Pró-Diretoria de Ensino a Distância (Proead) das Faculdades Inta. A ex-aluna da escola profissional e atual técnica de enfermagem do Hospital do Coração em Sobral, Daiane Araújo, relatou que com a oportunidade de estágio oferecido pela escola pôde pôr em prática tudo que havia aprendido no decorrer do curso e adquiriu conhecimento com o estágio. Segundo ela, isso a ajudou a ter mais segu-

rança para atuar no mercado de trabalho, sendo o curso de técnico em enfermagem essencial para a sua vaga de trabalho e para sua realização profissional na área da saúde. “O ensino do colégio integral serviu para a construção da minha base de conhecimento e colaborou para a minha bagagem cultural”, destacou o ex- aluno e atual acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Paulo Henrique. PREPARAÇÃO PARA MERCADO De acordo com o professor de pedagogia Mardônio Sousa, o ensino das escolas profissionais é determinante para a formação do estudante, porque ele já sai com uma mentalidade para o mercado de trabalho bem melhor e bem maior, além de evitar a ociosidade. “Nós sabemos que dados comprovam que o período que os jovens mais deixam de estudar é justamente no ensino médio, então isso ainda é um problema, mas essas escolas têm conseguido minimizar, pois o aluno passa os dois turnos, manhã e tarde, dentro da instituição. Então eu vejo isso como algo muito positivo para a educação. É um modelo que eu acho que deveria ser adotado por outros estados da federação”, disse ele. O professor ainda exalta a integralidade no ensino médio e defende a ideia da implantação desse mesmo modelo no ensino fundamental. “Conheço essa ação inovadora no estado do Ceará através dessas escolas que, com certeza, mudaram todo o panorama educacional do nosso estado. Hoje nós sabemos que existem algumas escolas de ensino fundamental que já trabalham com tempo integral, mas são muito poucas. Se o exemplo é bom no ensino médio, que ele também seja implantado no ensino fundamental”, conclui Mardônio.


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Crônica | 11

Invisíveis Sobralenses

NILDO MELO

F

ico completamente entristecido toda vez que paro pra analisar o desenvolvimento da minha cidade.

Durante o dia, o centro de Sobral é um corre-corre, mas durante a noite é um deserto. No período do dia, as ruas são ocupadas por pessoas bem vestidas. À noite, a cidade pertence aos invisíveis do dia, que sentem frio, fome e dor a céu aberto. Todos os dias vêm surgindo novos restaurantes que servem banquetes para quem tem dinheiro no bolso. Mesas fartas e decoradas me trazem lembranças de cenários de filmes globais, porém do lado de fora surgem mais vozes, que quase não são ouvidas, por mais próximas que elas estejam da realidade. “Uma moedinha, por favor”, “Ceguinho”, “Me ajuda com o almoço de hoje”. Frases gritadas, porém nem sempre ouvidas. Uma família em frente à oficina mecânica: duas crianças, sujas, descalças e com fome, que brincavam na esquina. A mãe erguia um pequeno cercado feito de pape-

•  Foto: pixabay.com

lão, era o mais próximo que eles tinham de um lar. O ônibus permaneceu parado por tempo suficiente para que eu pudesse presenciar a mãe chamando suas crianças para dentro do cercado. Imagem que levo comigo desde então. Foi entristecedor, me senti um lixo, um nada, me fazendo pensar em quem são os verdadeiros invisíveis. A pobreza, a miséria, o descaso, o direito negado à educação, a falta de moradia digna, são apenas alguns dos inúmeros fatores que têm contribuído com o crescimento do número de moradores de ruas, pessoas invisíveis para sociedade, mas visíveis no reflexo da desigualdade. Com problemas de saúdes aqui e ali, vão levando a vida como nas ruas da Princesa do Norte, vivendo incertezas. Certo mesmo apenas a vontade de viver, de comer, de um longo banho que lave até a alma, aquela certa vontade de ser visível.


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Paixão sobralense por quadrilhas juninas Grupos juninos de Sobral crescem e evoluem para o profissionalismo, promovendo espetáculos em festivais

Apresentações de quadrilhas ganharam novas linguagens e se tornam atrações em festivais •  Foto: Acervo pessoal de Ceiça Ferreira

NILDO MELO

V

iva São João, São Pedro e Santo Antônio”. É assim que milhares de jovens expressam suas alegrias durante o mês de junho, nas festas juninas por todo o Nordeste, com muita quadrilha e casamento matuto mostrando a cultura regional para todo o país. Em Sobral, no Ceará, desde 1997, acontece o Festival de Quadrilhas, que em 2016 realizou a sua 20ª Edição.

Durante esses 20 anos, grupos como Luar do Sertão, Pisa na Fulô, Botando Quente, Fogo na Palha, Nóis com Vóis, Estrela do Luar, Força Jovem do Sertão, Sobral Junino, entre outros, fizeram a festa e atraíram visitantes de Massapê, Acaraú, Cariré, Meruoca, Forquilha, Alcântara e outras cidades vizinhas. As apresentações feitas pelos grupos de quadrilhas com o passar dos anos foram evoluindo e ficando cada vez mais espetaculares: além da dança e do teatro, as apresentações agora contam com figurinos feitos a mão, cenários e efeitos especiais com

o objetivo de impressionar os jurados e os espectadores. Com coreografias mais elaboradas, a rotina de ensaios passou a exigir bastante esforço físico, psicológico, emocional e, principalmente, trabalho de equipe dos membros que têm se preparado durante quase todo o ano no intuito de levar uma boa apresentação para os Festivais. Os ensaios iniciam em janeiro, nas tardes de sábados e domingos, e com o passar dos meses vão tomando conta das noites da semana. Em maio, é a vez dos últimos ajustes nos ensaios técnicos. A paixão pela cultura popular regional


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é tão grande que existem dançarinos que dedicam boa parte de sua vida para o crescimento coletivo de suas equipes, como é o caso da coreógrafa Helanne Monteiro, que em 2016 completou 20 anos de carreira. Ela é ex-dançarina do grupo Esperança de Camocim e atualmente faz parte do grupo Luar do Sertão, do bairro Sinha Saboía, quadrilha campeã do Arraiá do Ceará 2015. O título fez com que eles fossem representar os cearenses no “Maior e Melhor São João do Mundo”, o São João do Nordeste

dou, elas sempre contribuíram com uma ajuda de custo. O que mudou de [prefeitura] uma pra outra foram os valores, e também dão uma ajuda com o transporte para as viagens, mas nem sempre” destaca Helanne. Valdemir revela que a ajuda que recebem da Prefeitura quase sempre não supre as necessidades: eles recebem R$ 6 mil de ajuda de custo, no final do mês de junho, sendo que necessitam do auxílio meses antes, pois os gastos totais dos preparativos superam esse valor, chegando a

Cultura

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quando estou em quadra, é quando ouço o som da sanfona acompanhado do som do triângulo que me deixa com os pés coçando. É deixar muitas coisas para trás e calçar os sapatos, pegar o chapéu e ir defender meu grupo com garra e determinação, mas não se esquecendo da humildade sempre”. O grupo Estrela do Luar, não satisfeito apenas com o período junino, fundou a Associação Cultural Estrela do Luar (ACEL), em 2003, que realiza trabalho social e cultural, abordando, além da quadrilha junina, outras atividades como: espetáculos teatrais, Paixão de Cristo, feiras livres no bairro Dom Expedito- em conjunto com a Secretaria de Tecnologia e Desenvolvimento Econômico (STDE)- festa especial dos dias das mães com o apoio da comunidade e da Prefeitura Municipal. As atividades da ACEL se encontram suspensas, por falta de tempo, pois os jovens que prestavam serviços na associação adentraram no mercado de trabalho e no mundo acadêmico, porém, segundo Valdemir Furtado voltarão em 2017. CEARÁ JUNINO

•  Foto: Acervo pessoal de Ceiça Ferreira

de 2015, realizado na cidade de Caruaru, em Pernambuco. Outro coreografo é Valdemir Furtuna Alves, que há 14 anos faz parte do grupo Estrela do Luar, do bairro Dom Expedito. “A maior dificuldade são algumas pessoas que trabalham junto a mim, que não se empenham como é para ser, falta compromisso, dedicação e outras coisas mais. Quanto à ajuda das prefeituras, nada mu-

quase R$ 40 mil. Mesmo em meios às dificuldades, facilmente encontramos dançarinos totalmente apaixonados pela arte, como é o caso de Claylton Ferreira Sá, de 18 anos, que iniciou sua trajetória nas quadrilhas aos 11 anos de idade. Ele já participou dos grupos Beija Flor do Sertão, de Aracatiaçu; Luar do Sertão e Estrela do Luar, ambos de Sobral. “A minha maior motivação é o amor que sinto

A secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), através do Edital Ceará Junino, em sua 18ª edição, selecionou projetos e ações, de todo o Ceará, que têm como objetivo identificar, difundir e estimular as tradições regionais cearenses no campo dos festejos juninos do Estado. Em 2016, com o Edital, a Secretaria de Cultura do Ceará, investiu R$ 2,6 milhões no auxílio a grupos juninos, festivais regionais e para a realização do Campeonato Estadual dos festejos do Ceará Junino. Segundo a Secult, através do Edital Ceará Junino 2016, serão apoiadas, 100 quadrilhas tradicionais, 20 festivais juninos e a culminância das festividades, o Campeonato Estadual Festejo Ceará Junino. O edital 2016 contou com 317 projetos inscritos, sendo 58 projetos de quadrilhas infantis, 180 de quadrilhas adultas, 77 de festivais e dois para o Campeonato Estadual Festejo Ceará Junino. Cada uma das 100 quadrilhas recebeu do Governo do Estado até R$ 18.100,00 em apoio. Já os 20 festivais de quadrilhas juninas foram contemplados, cada um, com investimento de R$ 22.300,00. O Campeonato Estadual [Ceará Junino 2016] contaou com R$ 367 mil em investimento do Governo do Estado.


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14 | Cultura

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Quatro portas para as oportunidades Um espaço que transforma a vida de jovens artistas sobralenses socialmente e profissionalmente JOSÉ MARQUES CARVALHO

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ecorar o texto no caminho da faculdade, incorporar um personagem em segundos, sentir aquele frio na barriga quando sobe ao palco, são elementos que transformam o crescimento profissional e pessoal do bolsista da casa de produção Cultural Quatro Portas, Mário Jorge Ribeiro Machado, estudante de Letras em Inglês da Universidade Estadual do Vale do Acaraú. Com a chegada do projeto, o estudante teve a oportunidade de conseguir, em um tempo maior, lapidar seus desejos e aumentar mais o seu amor pelas artes cênicas. “O que está sendo oferecido para mim tem sido gratificante e acrescentou uma qualificação gigantesca na minha vida social e cultural. Pretendo levar meu nome e o da cidade para grandes produções artísticas”, diz o aluno de 20 anos. Com um ambiente rústico, confortável, pouco iluminado, de paredes vermelhas, riscadas com gizes, uma ampla sala, alguns equipamentos no teto que nos lembram um estúdio de TV, alguns ventiladores nas paredes e um grande sofá que toma espaço em um pequeno palco, a arte cria vida para artistas dos mais diversos segmentos. A Casa de Produção Cultural Quatro Portas é um equipamento que contribui para a formação de produtores culturais e fomentação da atividade artística diversificada na cidade de Sobral. A casa oferta cursos e oficinas, voltados para a área das artes e também dispõe de núcleos de criação em dança e teatro. Diferente de outros órgãos culturais sediados em Sobral, como ECOA e Casa de Cultura, o lugar se diferencia pela liberdade dada aos alunos nas suas atuações, pela diversificação dos cursos, por sempre manter espaço ocupado com eventos que contemplam todo tipo de arte e pelos preços cobrados em cada oficina, pelo fato do espaço não ter apoio financeiro. Para alunos da rede pública, porém, são disponibilizadas bolsas de estudos para alunos da rede pública, financiadas pela Secretaria de Cultura de Sobral.

Alunos do curso de extensão teatral•  Foto: José Marques Carvalho

O espaço, inaugurado em janeiro de 2015 e localizado no bairro Patrocínio, tem como objetivo formar e dar voz ao artista local, além de proporcionar de forma continuada a produção artística sobralense. Além do curso extensivo de Interpretação Teatral, a casa oferece outras oficinas com uma carga horária menor como Dança, Música e Fotografia ministradas por professores qualificados. O projeto ainda oferece ao público produções dirigidas pela própria casa, eventos musicais com bandas locais, debates, ciclo de palestras, sarau e cinema, alguns destes privados com o intuito de arrecadar fundos para a casa, que não recebe apoio de nenhum órgão público estadual. O coordenador Chico Expedito, ator e professor, ressalta que houve uma mudança positiva na cidade com a chegada do espaço. “Sobral carecia de uma Casa de Cultura independente, que acolhesse com dignidade os artistas locais, e que se preocupasse com a formação técnica e estética dos mesmos. Uma casa que prima na qualidade dos seus eventos e que se tornou

um espaço aberto, de resistência, de crítica, através dos encontros. Um local que dessa voz à arte”, afirma ele. O Quatro Portas, nome atribuído em uma roda de amigos para simbolizar oportunidades, que nos levam a caminhos bons ou não - chegou em Sobral através de Chico, cearense que iniciou sua carreira como ator em 1973 e seguiu trajetória no teatro e TV. Segundo ele, sempre houve a ideia de trazer uma escola para Sobral, que esse espaço abrigasse todo tipo de artista, até que em 2015 isso se concretizou.


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Música alternativa em Sobral: estratégias de sobrevivência Bandas disputam espaço em poucos palcos, mas propõem novas forma de incentivar a diversidade na cena sobralense KARINE HERCULANO

O

grande número de estudantes que se deslocam de outras regiões e buscam oportunidades de estudos em Sobral têm dado ao município o status de cidade universitária, atraindo também grandes eventos culturais para a Princesa do Norte. Apesar disso, alguns artistas da cena musical local, por exemplo, ainda têm pouco espaço nos palcos da cidade. Uma das bandas independentes que precisam lidar com a baixa visibilidade e trabalhar com pouco orçamento é a Banda Soul Rock . “Noto um pouco de desvalorização por parte de nossos representantes na atual gestão da prefeitura. Acontecem poucos eventos públicos, acrescentando uma estrutura ruim e demora no pagamento do cachê”, comenta o guitarrista da banda, Thiago Aragão. Os locais que recebem esse tipo de apresentação na maioria das vezes são privados, como bares universitários ou casas temáticas. Porém ainda falta desenvolver mais para que se possa trabalhar apenas sendo músico, nessa localidade. “O básico seria acrescentar audições para os cantores amadores e um festival, para que a cidade pudesse conhecer novos propósitos de musicalidade. Talvez eles pudessem abrir shows de outros artistas, como acontece em projetos do Sesc”, propõe o baterista da banda de rock Resave, Moisés Cavalcante. Em virtude de ter que dividir o tempo entre estudos, emprego e afins, os ensaios das bandas são feitos aproximadamente duas vezes antes dos shows, ou aos finais de semana, e percebe-se nitidamente que alguns dos artistas sobralenses tratam esse lazer como ofício. Entretanto há uma dificuldade de ganhar a atenção do espectador com canções autorais, então, resta a alternativa de fazer covers de suas influências, como Capital Inicial, Legião Urbana,

Banda Soul Rock •  Foto: Arquivo pessoal

Oasis, Pink Floyd e Beatles, para que possam ter afinidade com quem os assiste. O pouco espaço também é consequência de um mercado ainda não democrático em relação aos gêneros e ritmos musicais. Em Sobral, o estilo que predomina entre as bandas alternativas da cidade é o rock clássico, dividindo espaço com o axé e o sertanejo mesclado ao forró, por ser uma

característica do Nordeste. “A mídia atualmente tem influído muito no gosto popular, através dos artistas supervalorizados, que na maioria das vezes não são do Brasil ou do seu estado. Simplesmente há um estereótipo de música boa”, opina o guitarrista da Resave, Adriano Paiva.


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Guarany ASB Basketball: entre o sonho e a realidade

Equipe sobralense tenta atingir o status de profissionalismo e divulgar a imagem do clube e da cidade por meio do basquete EVARNIO CUNHA/CLEIVISON COSTA

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basquete é um esporte popularmente conhecido e praticado por muitos adeptos, movimenta bastante o mercado financeiro um torneio mundialmente conhecido, a NBA, com estrelas como Stephen Curry, Kevin Durant, entre outros. Salários astronômicos, propaganda, marketing, espetáculo. Os organizadores transformam o esporte em algo maior e grandioso. Diferentemente desta realidade, o Guarany ASB Basketball, da cidade de Sobral (CE), criado em dezembro de 2015, tenta atravessar a ponte do amador para o profissional. O clube tem uma grande responsabilidade: carregar o nome do único clube de futebol cearense campeão brasileiro (da Série D, em 2010) e suas cores rubro-negras. Segundo o treinador da equipe, Elson Paiva, os diretores e atletas decidiram utilizar o nome Guarany, por serem torcedores do time: ”usamos o nome do Guarany de Sobral porque somos torcedores e queríamos ajudar a divulgar mais ainda nosso clube. Agradecemos à diretoria por ter nos cedido e ajudado no projeto, através do forte nome do clube conseguimos alguns patrocínios e levar mais público a nossos jogos”, revelou ele. O time de basquete atualmente disputa o Campeonato Cearense de Basquete A1 e o Campeonato Cearense do Interior. O elenco é composto por 15 a 20 jogadores que se dividem entre os dois torneios. O fato de não haver um número fixo de jogadores se deve ao fato de se tratarem de pessoas com outros meios de sustento, que não podem comparecer aos compromissos do clube devido à falta de tempo. O transporte é cedido por meio da Secretaria de Esporte do município, além do material para treino. Os treinos acontecem no IFCE de Sobral, espaço cedido pela instituição. O Ginásio Poliesportivo da cidade também é palco dos treinos. Elson Paiva, técnico da equipe, ainda ressaltou algumas dificuldades com rela-

A equipe do Guarany é a atual campeã do interior cearense •  Foto: Arquivo da equipe

ção às viagens: “como temos alguns patrocínios conseguimos pagar as taxas de jogos e inscrições em campeonatos. Alimentação é por conta de cada atleta”. Por ser uma equipe amadora que almeja o status profissional, os jogadores não dispõem de salário. ”Fazemos isso porque amamos, temos esse sonho para quem sabe um dia nos tornar profissionais, mas ainda é um sonho bem distante”, disse o técnico. A maior dificuldade enfrentada é financeira. “Sabemos que eles patrocinadores dão o máximo que podem, mas, infelizmente, ainda não é o suficiente para nos manter, é tanto que perdemos muitos atletas em meio ao projeto, por não terem condições de se manterem nas viagens”, justificou Elson. Mesmo com a ajuda dos patrocinadores, a equipe não tem estabilidade para a permanência do projeto, sendo necessário cada atleta arcar com suas despesas. “Por esse motivo, muitos desses já deixaram a equipe interrompendo um sonho”, ressaltou ele. Outro fator importante é o apoio da torcida. Para um esporte ainda amador e pouco conhecido em Sobral, o público é muito bom, principalmente em jogos realizados na terra natal, tendo uma variável de 300 a 600 torcedores. “Nossa torcida organizada, Força Jovem Guarany, também nos ajuda. Os torcedores acreditam bastante no projeto”, completou.

Perguntado sobre algum projeto a ser realizado, Elson responde que além dos adultos, a ideia é formar escolinhas em bairros carentes de Sobral, com o objetivo de tirar crianças das drogas e da criminalidade, divulgando ainda mais a categoria e a equipe do Guarany. “Lapidar novos atletas é importante, porém o dinheiro arrecadado ainda é muito pouco e ainda não tivemos como por esse projeto social em ação. Temos a esperança que nossa renda melhore e assim poder realizar todos os objetivos”, ressaltou o técnico.

No período de fechamento desta edição do Coluna da Hora, o Guarany ASB conquistou seu primeiro título. O campeonato cearense foi conquistado no dia 25 de setembro, na cidade de Tabuleiro do Norte. A equipe sobralense de basquete Guarany ASB, conquistou três vitórias no circuito final do Campeonato Cearense de Basketball do Interior e consagrou-se como o melhor time de basquete do interior cearense. No primeiro jogo o Guarany venceu o Morada Nova por 69 a 53. No jogo seguinte, com disputa acirrada a equipe sobralense derrotou o Limoeiro do Norte por 56 a 53. Na grande final o Guarany ASB enfrentou o Tabuleiro do Norte, e conquistou o primeiro título da equipe com o placar final de 70 a 65.

Jornal Coluna da Hora 2ª edição  

Jornal produzido pelos alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário INTA (Sobral-CE)

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