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EDITORIAL

E o tempo todo... era isso!

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ou ainda, apenas pelo fato de dividir os mesmos hábitos e costumes, acredite, ali está a tão comentada cultura. O que não podemos pensar é que ela se resume apenas aos eruditos. Do popular ao intelectual, do cult ao puro entretenimento, não importa. Cultura é aquilo que você é. Preocupadas com os rumos que o jornalismo cultural vem tomando, relegado a uma mera agenda cultural e aos últimos cadernos do jornal, idealizamos uma revista para o jovem matogrossense no intuito de informar sobre o âmbito cultural regional e porque não despertar o sentimento de “ser matogrossense”? Atual e questionadora é assim que Mosaico quer ser. O nome veio do artesanato. Cada artista e tradição popular formando um mosaico cultural para você. Agora, voltando ao estilo de vida: Somos duas estudantes de comunicação completamente apaixonadas pelo tema de sua revista experimental. “Parece que o tempo todo era isso, a gente que não se tocou antes! Só podia ser isso!” E nos remetendo ao passado, vem o sentimento de “paixão” cumprida. É com muito orgulho que trazemos para você, leitor, a revista dos nossos sonhos. É com muito orgulho, leitor que compartilhamos a Mosaico com você.

Aline Ueno e Thaís Campos editoras (ir)responsáveis

REVISTA MOSAICO Projeto e realização Aline Ueno e Thaís Campos Reportagem , redação, entrevista, edicão, design gráfico e diagramação: Aline Ueno e Thaís Campos Colaboração: Ana Paula Sant’ana Diego Silva Valdair Grotto Tiragem 05 exemplares Orientação Prof. Thiago Cury Luiz ENDEREÇO: Rua Santa Rita, 180 - Centro Alto Araguaia_MT CEP: 78780-000 http://twitter.com/revistamosaico

EXPEDIENTE

O que poderia ser mais um trabalho entre tantos outros para a universidade, se transformou em estilo de vida. Ou nosso estilo de vida se transformou no nosso melhor tra-balho? Repletas de dúvidas. Assim nos comportamos durante todo o curso de jorna-lismo, sentimento acentuado no último ano, o supra-sumo, o que fazer agora? Por várias razões optamos por fazer uma revista sobre a cultura matogrossense. Revista por ser nossa “grande paixão” desde adolescentes, por nos identificarmos amplamente e por acreditarmos que seria o veículo mais apropriado para conseguirmos difundir nosso ideal: promover a cultura matogrossense, tão rica e marcante, aos jovens, que, segundo pesquisa realizada por nós, não demonstram interesse por sua cultura ou por não a conhecerem ou por terem uma opinião pejorativa formada sobre ela. E por que falar sobre a cultura? Simples. Respiramos cultura. Quando acordamos, quando temos aquele diálogo básico ao café da manhã, quando vamos para a escola ou ambiente de trabalho. Sempre há aquela música que não sai da cabeça, um filme inesquecível permeando nossos pensamentos, um livro que te emocionou ou absorveu completamente


por Diego Silva

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literatura

Mosaico tenta desvendar Danilo Fochesatto, jovem escritor de Várzea Grande que gosta de brincar com as palavras e não tem medo de chocar com sua marginalidade exacerbada

cinema Desbravando caminhos e atravessando fronteiras, Amauri Tangará se tornou o expoente do cinema matogrossense

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ensaio

Capa

O líder da banda Vanguart, Hélio Flanders, nos conta em entrevista exclusiva os próximos passos da banda que se tornou uma das grandes revelações da cena independente dos últimos anos.

O novo siriri e cururu de Mato Grosso. Ensaio Inédito de Mário Friedlander, um paulista apaixonado pela nossa cultura.

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Qual a melhor maneira de se comemorar uma data importante? Alternativa A( ) Pôr seu melhor figurino para exibição B( ) Comemorar com alguma bebidinha C( ) Reunir-se com os amigos D( ) Muita música boa E( ) Todas as Alternativas anteriores

ma questão dessas em Mato Grosso, mais especificamente na baixada cuiabana, com certeza só daria a alternativa “E”. São muitos os indicativos de que essa região é preenchida por um povo caloroso, receptivo e cheio de energia. Um exemplo claro dessa afirmação são as festanças que reúnem uma série de pessoas jovens, idosas, crianças e adultos. E o incrível é que esse povo festeiro, com toda essa agitação e com o calor que faz no estado, não diminui sua religiosidade, pelo contrário, são mais fervorosos do que muitos. Tanto que aprenderam uma forma de se divertirem nas comemorações dos dias santos, como o do Divino Espírito Santo e de São Benedito. Esses matogrossenses reuniram de forma criativa as espetaculares linguagens artísticas do Cururu e do Siriri, que resgataram dos povos indígenas, indígenas estes que buscaram lá nos tempos da Revolução Industrial um entretenimento gostoso e saudável, uma expressão corporal que transmitia respeito e culto à amizade. A Viola-de-cocho, o reco-reco, e o gan-

zá, juntos dos compositores e intérpretes constituem o Cururu, categoria que dá um ritmo delicioso e auxilia na sincronização das coreografias sempre bem boladas, fazendo com que o Siriri embale os grupos de dança cheios de graça e cada vez mais ecléticos. Hoje o Siriri, mesmo que também utilizado em Mato Grosso como diversão, carrega um sério e importante papel na comunidade, lembro a você leitor que o Siriri é uma identidade desse povo, e como já dizia a bailarina Isadora Duncan, “a dança não é diversão, mas sim religião, a religião da beleza. Para quem dança, o movimento é um meio de expressão dos sentimentos e pensamentos da alma”. Turistas se admiram com a graciosidade dos que praticam essa arte, dançada em casais, e que em muitos dos seus passos parecem estar brincando. À primeira vista, lembra muito a dança de festas juninas, como a quadrilha. Chapéu, meninos com as mãos nos ombros das meninas, vestidos rodados, fitas de cetim coloridas, sincronia e boa música, vão além de uma comemoração religiosa, transformaram-se em ingredientes de uma identidade matogrossense. n

Foto: André Romeu

SUMÁRIO

Siriri e Cururu num ponto de vista matogrossense

ENSAIO

REBUÇA E CHUÇA

Artigo__________________________24 Teatro e dança_________________________26 Literatura________________________30 Música_________________________34 Dicas_________________________40 Conto_________________________42

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LITERATURA

Um mundo 3d num mundo 2d Por Aline Ueno

Ilustrações: I.Bê. Gomes para o livro 8ito

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Um tempo morto. É assim que Danilo Fochesatto, escritor e compositor experimentalista se define em seu blog ababsurdoadextremum. Mosaico tenta desvendar este jovem escritor de Várzea Grande que gosta de brincar com as palavras e não tem medo de chocar com sua marginalidade exacerbada

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anilinho ou Foche como os amigos costumam chamá-lo tem algo de intimidador. Está não só impregnado em seus contos marginais com personagens imorais como também em suas pequenas excentricidades como comer pela manhã umas três bisnagas recheadas com rúcula e manteiga. A entrevista rolou no barzinho do SESC Arsenal, espaço dedicado à difusão da cultura do estado de Mato Grosso, local sugerido por ele. Ao chegar, no horário combinado, o contista já estava lá, à minha espera. De início não o reconheci, pois além de ter visto apenas duas fotos suas, ambas de perfil, esperava um rapaz sentado sozinho sob à luz fraca do bar. No entanto, encontrei dois rapazes acompanhados de seus copos de chopp gelado e curtindo um cover de MPB, o que automaticamente me levou a pensar que a presença inesperada iria atrapalhar o desenrolar da entrevista, ao que me enganei, pois Arthur Monteiro, diagramador do livro 8ito e seu parceiro do Psiconautas ajudou a descontrair o clima, fazendo-me sentir em meio a uma roda de amigos boêmios discutindo literatura, música e artes. Após tímidos apertos de mão, Fochesatto, o escritor com ares clássicos e com um quê de intelectualismo maduro pareceu-me mais um garoto de bom coração do que todo aquele pandemônio que eu havia pintado

em minha mente. A primeira pergunta foi claro, sobre sua definição nada convencional no Orkut “Um personagem 3d num mundo 2d”, que poderia revelar os traços de outsider do jovem escritor, ao que rebateu explicando tratar-se apenas de um personagem. “Chego a esquecer quem sou”, diz com a voz sumindo ao final da frase. Em seu Twitter, é a mamãe, a Sra. Botelho, que dá dicas do lar. Por que faz isso? “São personagens que você cria, é bom pra exercitar a criação. Sra. Botelho é um lance factual, curtinho, como se fosse minha mãe falando, em alguns momentos eu esculhambo, sou eu mesmo”. Sokezato, seu nick no MSN, referência a cultura oriental pela qual é apaixonado, é todo sorrisos e dono de um olhar profundo que pode dizer mil coisas. Incrível sua habilidade para brincar com as palavras, interligá-las e criar coisas novas. Sobre a definição de “um tempo morto” em seu blog, empolga-se explicando minuciosamente: “Então, o que é o tempo morto? Tempo morto é o lance do cinema, que é aquele olhar, a câmera fica ali, depois que tudo acaba, e geralmente quando vai pra edição é eliminado. No meu caso, eu acho que são nos tempos mortos que está o que eu quero passar, são aquelas coisas que você fala: tá, chega dessa porcaria! Mas dali surge

8ito é o primeiro livro de Danilo Fochesatto. São oito contos permeados por sexo, drogas e violência. Com personagens insanos e fora da realidade normal. Lançado pelo Fundo Estadual de Cultura em parceria com A Fabrika e Arcada Dentária.

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Foto: Bárbara Marques

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que Arthur emenda: “Sai do casaCom um pé na realidade e mento e voltei pro Danilo!” “E outro no teto. então surgiu a frase : o não amor nos uniu.”- completa Danilo. ArFoolchesatto escreve aquilo thur confidencia: quem sabe não que quer. Ele não se limita imporpode virar o novo projeto dos Psitando-se com “vendas ou sucesconautas. so”. Certamente não é um exemplo de escritor de massa, certamente não está por ai à procura de momentos de fama. Quando lemos Nem tudo é men- um conto seu é como se lêssemos sua alma, como se já o conhecêstira, nem tudo é semos e mais que tudo, mesmo verdade. Quando sendo exacerbado e usualmente você lê você pensa: fora da realidade adotada como é meio absurdo isso? “normal” é como se fossem apenas É meio absurdo. Mas relatos de situações que realmente porque não poderia aconteceram com o contista. Mas a coisa não é bem assim. Ele baser real? seia-se em algumas situações que realmente aconteceram e outras que gostaria que acontecessem ou tudo simplesmente explode ali na Questionado sobre um comen- sua cabeça e escorrega pro papel. tário de um crítico a respeito de seu A frase retirada de 8ito: “um tipo estilo literário possuir característi- de ficção onde a realidade é abcas da geração 00, repleto de sexo surda, e a lógica é apenas um fane violência se defende citando o toche em suas mãos”, segundo ele exemplo de kama-sutra, no entanto é uma sentença que define todo seu admite que o sexo em seus contos estilo de compor e criar. Usando as não é algo normal. “Por que tem palavras de Lorenzo, do Diário de que ser assim pra mim ? Na real Cuiabá tenta simplificar: É ficção mesmo, são só monte de palavras da realidade: esfrega, esfrega, esjuntadas numa seqüência que for- frega a realidade e sai o negócio. mou uma coisa legal. Se for ana- Nem tudo é mentira, nem tudo é lisar o sentido daquilo, é pesado? verdade. Quando você lê você pensa: é meio absurdo isso? É meio É pesado , tá, mas e daí?”.

a experiência que ele quer passar (se refere ao cineasta italiano Michelangelo Antoniani, em quem se inspira para buscar sua definição), que é a experiência cognitiva” - finaliza, imitando sotaque cuiabano. De algum lugar, a dois terços da entrevista, surge, a jornalista Lidiane Barros: “Uma incógnita”, declara sobre o amigo. “Estou descobrindo quem é Danilo agora, ouvindo a conversa”. Algo que demonstra muito da personalidade do Danilo, além de sua impaciência com pessoas que não cumprem prazos, é sua relação com os amigos. Seu momento de lazer ideal é beber, comer e falar qualquer coisa junto deles. Em seu livro há um conto dedicado ao Hélio Flanders, vocalista da banda de folk-rock Vanguart e esse mesmo Flanders é dono de uma comunidade do Orkut dedicada ao Psiconautas, hoje um tanto parado, mas que já lhe rendeu boas experiências: Danilo recorda quando tocaram num barzinho de Cuiabá – abrindo o show do grupo Vanguart - e após sua apresentação, ouviram alguém dizer: “Não, fica tranqüila! Agora que vai começar o show de verdade!” Mas não foi por este episódio, que ambos relatam em meio a risadas, que o Psiconautas entrou em hiato. “ Arthur casou. Me deixou sozinho – diz Danilo - mudou de cidade .. me deixou sozinho de novo” . Ao

“Um tempo morto”, referência ao seu próximo livro : “Tempos mortos”, a ser lançado em 2010.

Toughlove possui um disco imaginário no MySpace: “O melhor de neki & lumine”. Algumas faixas foram compostas como trilha do programa “nós tv” para a tv digital e outras fazem parte de seu projeto “Psiconautas”.

absurdo. Mas porque não poderia ser real? Tem um pé na realidade e tem um pé no teto. Para Danilo, um sentimento bloqueado pode virar inspiração para um conto. Ele não se preocupa se está agradando alguém ou coisas do gênero, apenas faz a “coisa” por fazer: “É o que eu tento falar pra um monte de gente que é artista aqui, não me colocando como artista,claro. Acho meio errado querer viver de ser artista. Você se prende naquela coisa, você tem que vender pra se sustentar, é um discurso meio chato meu , mas eu acho que o artista não tinha que viver disso. Eu tenho meu trabalho, minha faculdade, essas coisas. Eu faço isso porque eu quero e livre do jeito que eu quero, escrevo sem me preocupar”.

É multi... multivagabundo... Foche começou a escrever com a música, fazia letras, coisa de teenager, diz ele. O primeiro conto saiu da sua

mente fértil em 2002, quando terminava a faculdade de informática, começando a produção literária. Prefere conto à poesia, mesmo seus contos sendo repletas dela. Mas deixa claro que é poesia em prosa. A poesia e sua estrutura não o atraem. Poesia de verdade pra ele é o haikai que “dá conta de resumir a porcaria toda em três linhas”. Não lê Best-seller e nem vê blockbuster por não ter interesse no que fica em voga. “Pode ser até bom, mas não leio porque acho que não vai me ajudar em nada...Não vai me dar idéias para criação.” Mas concorda com Lidiane quando ela comenta sobre o “Caçador de Pipas”, “Bonito”, devaneia ele. A respeito da música, Danilo não se considera um músico, apenas “faz barulho”. Pergunto sobre sua participação no álbum caseiro do Hélio Flanders, ao que rebate: “Melhor coisa que aconteceu na vida do Hélio foi eu sair da banda”, seu tom não é de pesar ou ressentimento: “Enquanto estivemos juntos a gente se divertiu pra caramba. Não tinha treta, não

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Por que tem que ser assim pra mim ? Na real mesmo, são só monte de palavras juntadas numa seqüência que formou uma coisa legal. Se for analisar o sentido daquilo, é pesado? É pesado , tá, mas e daí?

lando...” E completa sobre ter partido pro eletrônico. Psiconautas, o duo de digital-core, música eletrônica com citações de cinema e letra em “cuiabanês”, pode estar em férias, no entanto, Danilo continua fazendo “barulho” com o Toughlove, projeto que surgiu do ócio e das inquietações do momento de transição entre o ensino médio e a universidade, em 2000. Declara que seu segundo blog ab absurdo ad extremum (o primeiro foi o Arcada Dentária, em que ele era uma espécie de filtro, as pessoas mandavam os seus textos e ele arrumava e postava) foi feito para ver se sua idéia para seu novo livro, “Tempos Mortos” com, previsão de lançamento para o ano de 2010, poderia dar certo. Neste seu novo projeto, tenta mesclar linguagem digital com material impresso, áudio, fotografia e tecnologia em um livro. “Tempos mortos” terá contos curtos, história em quadrinhos e um romance no final, o seu primeiro. Confessa que trancou a faculdade de jornalismo para terminar “Tempos mortos”, bem como “Egoísmo Coletivo”, seu outro projeto (!) , um pocket book, com oito contos seus, oito de Protásios Terrificus, ilutrações de I.Bê. Gomes) e Augusto Figliaggi. Ser um artista multimídia, termo que a crítica faz questão de aplicar ao Danilo, pode ser uma tendência dessa geração 00. Ao que ele replica: “É o multi... multi-vagabundo”, brinca com a expressão.

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Contista, blogueiro, compositor e “nas horas vagas” trabalha com “medicamentos”. Mas o que Fochesatto mais preza é sem dúvida a literatura, de onde ele “puxa” pra todas os outros meios. É na literatura que ele acha que tem um desempenho melhor. O menino-homem que fica doze horas conectado à Internet em horário comercial, mas prefere não ter Internet em casa, que tem uma cicatriz na testa, adquirida na infância, presente da empregada da mãe que colocou borra de café no machucado e que tem uma tatuagem com uma menininha sob uma árvore, ao que ele nega acreditando piamente ou ironicamente que trata-se de um homem suado, decididamente não pode e nem deve ser desvendado. De “normal” tem apenas a aparência física e à primeira vista, pois sob

a fachada, esconde-se um mundo imaginário e nada convencional, cheio de des(construções) e excessos indispensáveis. Chego ao final da minha entrevista impressionada e talvez mais intimidada do que no começo. Nunca acredite no óbvio ao lado de Danilo Fochesatto, simples assim. n


CINEMA

“O cinema, aquele que me cativou desde sempre”

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e em seus primórdios, no limiar do século XIX, o cinema era ainda uma experimentação que mal conseguia se expressar se não fosse fazendo uso da linguagem emprestada do Teatro, as origens do cinema de Amauri Tangará também em seu princípio foi uma mescla das duas das principais expressões artísticas. O teatro faz primordial parte de suas origens artísticas entre as décadas de 1960 e 1970. “Foi nessa altura que o teatro começou a se tornar um vício. Desde lá eu sabia, nunca mais o teatro sairia de mim. Ele foi o meu pai e a minha mãe. Foi a minha escola, o meu pão de cada dia, a minha estrada e nela seguirei até o fim”, relembra. Com o teatro, junto a Cia D’Artes, tendo Amauri como diretor e Tati Mendes como produtora, ele percorreu muitas cidades do Mato Grosso, chegou a outros estados e até outros países. “Quem vê assim de repente pode pensar que andamos muito, mas na verdade trilhamos os caminhos de volta pra casa, porque descobrimos que o Brasil é Brasil em todos os cantos”. Além do teatro, ao qual se dedica até hoje, o diretor também teve uma passagem pela TV, mas voltou para o Mato Grosso e assumiu seu papel, o de dramaturgo e diretor.

Por Valdair Groto

“...como uma marca”

Fotos: Acervo Pessoal

Longa “Ao sul de setembro”, que terá lançamento no mercado externo em 2010.

Fazer cinema no Brasil sem ter o suporte de uma boa rede de distribuição e divulgação do porte de uma Globo Filmes não é fácil e as dificuldades se acirram mais ainda se a produção independente estiver fora do eixo Rio-São Paulo, onde tanto a estrutura mercadológica quanto o histórico de produções cinematográficas é mais favorável. Enfrentar esses e outros desafios para desbravar a área de produção cinematográfica em Mato Grosso foi a árdua tarefa que coube a Amauri Tangará, que, hoje, tem seu trabalho conhecido e reconhecido até no exterior.

“Mas o cinema, aquele que me cativou desde sempre, desde o tempo em que ir ao cinema e ao circo significava partilhar o convívio e fortalecer os vínculos familiares; o cinema ficou sempre em mim como uma marca daquelas que levam as rezes para nunca mais se esquecerem da sua origem e do seu ‘pertencimento’”, exalta o diretor. Com o trabalho contínuo no teatro, Amauri explica que aprendeu a fazer “sem ter meios”, o que o impeliu a atender o chamado

do cinema. “Eu não podia simplesmente rejeitá-lo somente porque não havia incentivos, ou recursos para fazê-lo”. A partir disso, o diretor passou a “transformar” as histórias para o cinema, que, segundo ele, “de forma curiosa já saiam assim, em forma de roteiros, prontos para o set”. A sua incursão no cinema não se deu exatamente de uma hora para outra e nem foi das mais fáceis. Seu primeiro trabalho, o média metragem “Pobre é quem não tem jipe”, levou nove anos para ser feito, com o que ele chama de “batalha” tendo sido iniciada em 1987 para o trabalho ser concluído só em 1996. “O Teatro e o Cinema, o Cinema e o Teatro, feitos e conquistados ‘no braço’ como se costuma dizer no interior”, ressalta o diretor ao relembrar de sua origem camponesa. O esforço foi recompensado através do reconhecimento que a sua primeira obra cinematográ-


“Contador de causos”

Sendo referência de cinema no estado, suas próprias origens, segundo o diretor, servem-lhe de inspiração para o seu trabalho. “Inspiro-me no mundo que me rodeia. Meu grande objetivo é ser um bom ‘contador de causos’, como foram meu avô e meu pai. Se um dia eu alcançar pelo menos 50% do talento deles, estarei feliz”. Para Amauri, que é o verdadeiro expoente do cinema matogrossense, a visão que a produção local oferece através da expressão cinematográfica acaba sendo mais ampla que nas regiões litorâneas do país, mais comumente associadas à produção cultural brasileira. “O Brasil sempre foi um país litorâneo, totalmente de costas para o centro do continente. Aqui em Mato Grosso somos o ‘Brasil profundo’, mais ‘latino-americano’... É claro que isso tem influenciado em meus projetos culturais. Aqui, conseguimos ter uma visão mais ampliada do continente. Depois, fazer cinema aqui, assustou muita gente do ‘litoral’. O meu primeiro filme [“Pobre é quem não tem jipe”] que também foi o primeiro de MT, nos deu muita visibilidade”. Ser expoente e reconhecido no cinema não representa necessariamente mais facilidade para dar segmento à sua produção cinematográfica, já que as dificuldades existem e persistem. “As dificuldades que encontramos em Mato Grosso é a ‘absoluta falta de uma política cultural’ para o Estado. Todos os anos, o governo joga uma ‘merreca’ no terreiro, como se atira milho às galinhas, e salve-se quem puder! Na esfera Federal isso mudou totalmente. No governo Lula, foi desenvolvida uma política cultural (leia-se Gilberto Gil e agora Juca Ferreira), como nunca havia sido feita nos últimos 500 anos. Foi graças à essa política que conseguimos fazer cinema em MT. Tomara que o próximo governo não bote tudo abaixo”, argumenta.

“A verdadeira arte não aceita infidelidade”

Único representante do cinema brasileiro em Mônaco

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Assim como vem ocorrendo com o cinema brasileiro que cada vez ganha mais espaço no circuito externo, também o de Amauri tem atravessado fronteiras e vem sendo conhecido cada vez por outros países, desde seu primeiro filme média metragem que já esteve em mostras e festivais em mais de 10 países. “O nosso primeiro longa metragem ‘A Oitava cor do Arco-íris’ já ganhou mundo: em 2005 foi o filme escolhido para abrir o Festival de Nova York. Aqui no Brasil, já participou de dezenas de mostras e circuitos alternati-

vos, além de ter sido exibido já três vezes na TV Brasil. No ano passado, estivemos com ele no Festival de Mônaco, como único representante brasileiro e acaba de ser lançado em DVD no Estados Unidos e no Canadá. Agora estamos preparando o lançamento no mercado exterior do nosso segundo longa, ‘Ao Sul de Setembro’, inteiramente filmado em Chapada dos Guimarães e que, temos certeza, terá enorme aceitação na Europa”. O reconhecimento da sua atuação, tanto no teatro quanto no cinema, faz de Amauri um raro caso de um artista brasileiro que consegue se dedicar totalmente à arte que tanto ama. Tanto que, por conta disso, se divide entre Brasil e Portugal para cumprir com seus compromissos profissionais. “Lá [Portugal], vamos anualmente há 15 anos e temos compromissos de trabalho até 2013. Agora mesmo, passamos sete meses por lá produzindo e dirigindo espetáculos. Em cinema, em Portugal, temos realizado mostras e oficinas de formação. Temos uma empresa de produção de cinema e teatro (Cia D'Artes do Brasil). Táti Mendes, minha companheira, é uma competentíssima produtora (no Brasil já era uma das melhores, agora ela acaba de se tornar uma das mais respeitadas produtoras também em Portugal), somos os sócios da empresa. Vivemos só disso, é claro! A verdadeira arte não aceita infidelidade!”.

Vindouro(s)

Para o cineasta, o estado de Mato Grosso tem realizado bem menos do que quer e pode na área cinematográfica. Menos do que quer, porque, na sua opinião, “gente e ideias não faltam”, mas elas esbarram na falta de uma política específica para o audiovisual. Na sua opinião, o Brasil tem mantido nos últimos cinco ou

O primeiro longa metragem, “A oitava cor do arco-íris”: lançado internacionalmente

O Brasil sempre foi um país litorâneo, totalmente de costas para o centro do continente. Aqui em Mato Grosso somos o ‘Brasil profundo’, mais ‘latino-americano’...

seis anos, uma produção de muito bom nível, muito mais reconhecida no exterior do que no próprio país, onde esses filmes não encontram espaços para serem exibidos. “Os cinemas estão tomados pelas produções americanas e está difícil contornar esse problema. Quando abrem espaço, é para filmes da ‘Globo Filmes’, enquanto nosso cinema independente, e cá pra nós, o melhor do cinema brasileiro, fica sem espaço. Outros países já resolveram isso como o respeito à ‘cota de tela’. Nós ainda patinamos”, sentencia Amauri. Mesmo diante de tantas dificuldades, o cineasta segue cheio de projetos, dentre os quais o de um curta e dois longas metragens con-

fica conquistou em festivais nacionais e internacionais, ganhando um total de 10 prêmios, incluindo o de Revelação no XXX Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Antes desse seu primeiro filme em 35 mm, Amauri concebeu muitos trabalhos em vídeo. Após sua estréia em película, seguiram-se outros filmes, dentre os quais os curtas metragem “A velha, os meninos e o gato, que escaparam da estranha caixa azul”, que ele mesmo dirigiu em 1999; e “Saringangá”, por sua produtora, em 2000, com direção de Márcio Moreira. Seu primeiro longa metragem foi “A oitava cor do arco-íris”, lançado em 2004. A bem sucedida carreira do filme incluiu a participação em cerca de 20 festivais de cinema no Brasil e no exterior, como o Festival de Cinema de Los Angeles, nos Estados Unidos; Festival de Islantilla, na Espanha; e Festival de Cinema de Mônaco. O filme foi distribuído em cinemas no Brasil, sendo qualificado entre os quatro melhores de 2007 pela Associação de Cineclubistas Brasileiros. Seu segundo longa, “Ao sul de setembro”, foi lançado em 2005 e arrematou no XII Festival de Cinema de Cuiabá os prêmios de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. O curta metragem “Horizontem”, de 2008, é seu mais recente trabalho no cinema.

correndo a editais federais e a ser captado pela Lei Rouanet, com planos para rodar o curta e um dos longas já em 2010. “Vamos co-produzir o primeiro festival de cinema em "Timor Leste", na Ásia, em 2010; temos um projeto de documentário para 2011 sobre uma história da guerra colonial em Angola, na África, cujo desfecho envolveu Mato Grosso, numa coprodução Brasil- Portugal-Angola; além, é claro, de oficinas de formação, mostras em Portugal e o Festival Cinema na Floresta, de Alta Floresta, onde somos parceiros. Agora em teatro, temos uma dezena de projetos já agendados até 2013. Ufa!”.n

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TEATRO

CAPA

Eles acreditam no semáforo Sem a pretensão de virar a nova sensação do folk rock brasileiro, e saído diretamente de gravações no quarto para as capas de revista, o líder da banda Vanguart, Hélio Flanders, nos conta em entrevista exclusiva os próximos passos da banda que se tornou uma das grandes revelações da cena independente dos últimos anos, e fala sobre o próprio som, a Internet e a cena musical “cuyabana”.

Entrevista e Texto: Aline Ueno e Thaís Campos

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Fotos: Divulgação

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anguart não nasceu uma banda: No início, eram só gravações caseiras de um adolescente que não fazia sucesso entre as garotas do colégio. Dentro do quarto, na sua casa em Várzea Grande, Hélio Flanders compôs 26 músicas em um estilo bem diferente do tradicional rasqueado cuiabano. Era um folk rock dos bons, e assim não resistiu e acabou “chamando uns amigos pra montar a banda”. Mesmo não tendo a pretensão de se auto-denominar uma ruptura com aquilo que já foi feito, como prega o movimento de Vanguarda, a banda de folk rock de Cuiabá, é uma das maiores revelações no cenário da música independente, seja por seu som irreverente e inovador ou pela atitude despreocupada em apenas dar sonoridade às coisas que aparentemente não tem nada a ver e às letras “inocentes”, que possibilitam inúmeras interpretações. O nome escolhido pela banda, que à época apenas acreditou ser um nome que “caía” bem, pode dizer muito do estilo do Vanguart..O primeiro álbum da banda foi lançado na revista Outracoisa, em 2007, transformando os cuiabanos em uma referência no cenário da musica alternativa e apontando Flanders como um dos artistas essenciais da musica brasileira.

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- A banda teve início em 2002 com o projeto solo do Flanders. Como acabou virando uma banda? Como foram escolhidos os outros integrantes? Flanders - O objetivo inicial do Vanguart era não ser uma banda, só um projeto pra gravar discos caseiros mesmo. Acontece que depois de dois desses discos, totalizando 26 músicas, não resisti e acabei chamando uns amigos pra montar a banda. Realmente na época eu não tinha planos de fazer mais que um ou outro show, mas acabamos tomando gosto pela coisa. Os garotos meio que vieram naturalmente: Reginaldo já tinha me ajudado a produzir o segundo disco (The Noon Moon), David já havia tocado comigo em outra banda e Douglas era um cara que vinha ajudando nas produções, dando dicas de estúdio e veio pra banda. Ah, o Júlio Nhanhá foi o primeiro baixista enquanto Reginaldo era baterista. Lazza foi o último a entrar, quando Júlio resolveu sair, aí Reginaldo virou baixista de vez e Lazza foi pros teclados que estavam com Douglas anteriormente (que confusão!),

banda fora dos palcos? Dêem um adjetivo para cada membro da banda. Flanders - Continuamos muito amigos. Agora quase todos estão casados então nos vemos menos, mas sempre existem compromissos que nos deixam juntos. Reginaldo é o mais tranquilo e o mais louco, Douglas é o mais sério, David é o que mais viaja e Lazza é o mais engraçado. Rarara

MOSAICO

- Alguns blogueiros criticam o Vanguart por cantarem em inglês. Alguns fãs incentivam a comporem todas as músicas em inglês. Por que vocês optam pela língua inglesa e espanhola em algumas músicas? Flanders - Não optamos, simplesmente aconteceu. As melodias começam no violão ou piano, e geralmente cantarolo o mais natural, seja em que idioma for, e esses são idiomas que eu domino. Se soubesse falar francês, quem sabe não escreveria bastante coisa nesse idioma, ou algum outro. Não vejo mais tantas críticas por causa do idioma, acho que nossas músicas em português mostraram que o Vanguart em inglês ou espaMOSAICO - Como é o relaciona- nhol eram somente mais um faceta mento entre os integrantes da artística que nós temos. Depois do

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O nome Vanguart é uma ironia. Lembrava Andy Warhol, era uma palavra só, simples. Quando Vanguart virou uma banda e vi que podia soar como algo pretensioso o nome, dei de ombros. Não haveria porque voltar atrás ou pensar outro nome porque a essência ainda era a mesma. E era algo que soava natural pra gente, era simplesmente nossa maneira de ver as coisas. Aí passava isso pros dedos, refletia no coração e saía o som. You know

MOSAICO

* Hélio Flanders, em comunidade do orkut dedicada à banda.

Obama, ninguém mais reclamou acho que não tenho a dimensão de cantarmos em inglês. Rarara. atual de como estamos conhecidos MOSAICO - Enfrentaram alguma no MT. Estamos? dificuldade por ser uma banda MOSAICO - Há preconceito do interior do país? FlandeRs - Acho que a maior da sociedade mato-grossense dificuldade foi a distância mesmo. em relação ao estilo musical Tivemos a sorte de já contar com a de vocês, por não ser um ritmo internet na época do começo, então tradicional do Estado? Por que só foi difícil quando precisávamos acham que isso acontece? realmente viajar para tocar. Cuy- Flanders - Acho que ninguém tem nada contra o folk. A única coisa aba é muito longe. que eu já senti foi uma certa sínde underground de alguns MOSAICO - Qual a sua opinião drome que criticam a banda por ela simsobre a cena musical regional de plesmente ser um projeto de sucesCuiabá? so e de ter conseguido vencer fora Flanders - Cuyaba tem uma cena de Cuyaba. riquíssima, digna de seus quase 300 anos de idade. Hoje temos a cena alternativa fomentada pelo MOSAICO - Uma pesquisa reEspaço Cubo.. diria que somos alizada pela revista Mosaico uma cria dela. E o mais bacana é mostra que os jovens matogrosver que novas bandas continuam senses desconhecem os artistas surgindo e é questão de tempo até de seu estado bem como não vermos novos Vanguart e Macaco demonstram interesse por sua própria cultura. Qual a opinião Bong saindo por aí. de vocês sobre essa desvalorizaMOSAICO - Aparentemente, ção da cultura matogrossense vocês tiveram o reconhecimento fora do estado de MT para depois fazerem sucesso "em casa". Por qual motivo, acham que isso ocorreu? FlandeRs - Não vejo isso dessa maneira. Tivemos uma ascensão muito rápida em Cuyaba. Durante o ano de 2006, tocamos metade do ano em São Paulo e metade em Cuyaba, acho que a coisa foi crescendo junto. Hoje nosso planejamento de shows e agenda não permite que estejamos tanto aí, então

pela própria população? Flanders - Acho que isso acontece no Brasil inteiro. O jovem só quer o que está ao alcance de um click, mas mesmo assim tem preguiça de procurar coisas do seu estilo, preguiça de buscar um próprio estilo, ficando velado a seguir o rumo mais fácil ou que todos estão seguindo. Difícil vai ser mostrar pro jovem cuyabano que o rasqueado tem seu valor, de que Cuyaba tem uma riqueza fora do comum em todos os sentidos etc.

MOSAICO

- Você foi indicado

pela revista Trip como um dos 9 novos artistas essenciais da música brasileira. O que acha disso? E dos outros artistas escolhidos? Se pudesse escolher o 10°, quem seria? Flanders - É sempre lisonjeiro

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esse tipo de coisa, ainda mais porque tinha bastante gente que eu admiro ali, como Rômulo Fróes, Thalma de Freitas.. todo mundo que vem trazendo uma nova concepção de pensar música mesmo. Acho que o décimo seria o Danislau Também, da banda mineira Porcas Borboletas. Ele sim, é estranhíssimo!!! Tanto como música quanto performer, ele está fazendo algo totalmente novo.

MOSAICO - O Vanguart está pre-

sente em muitos sites de relacionamento na Internet: tem blog, twitter, fotolog, myspace... Qual a importância da Internet no trabalho de vocês? Flanders - A Internet foi fundamental desde o início pra que conseguíssemos ser ouvidos, era tudo o que queríamos naquela época que começamos a tocar como banda. Acho que hoje uma banda precisa estar na Internet. É o meio mais fácil de chegar até o público

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e de graça.

música , bem como o clipe é uma crítica aos evangélicos? MOSAICO - Em um tópico da co- Flanders - É uma música sobre munidade oficial do Orkut, você ceticismo, por isso a citação irônicita que algumas músicas são até ca. O clipe sim é uma crítica a difíceis de cantar, Dolores, por crenças cegas, mas a música é feita exemplo, e a mais difícil: For- a partir de um insight meu, não tive eign complaint. Em que situação a intenção de criticar ninguém, só estas músicas foram compostas, falar do que eu acreditava ou desacreditava mesmo. e dedicadas a que pessoas? Flanders - Ambas eu fiz aos 16 para o meu álbum The Noon MOSAICO - Para o novo disco Moon. Dolores sou eu e meus amisabemos que os nomes provisórigos, já desacreditados do futuro os de quatro músicas são: que estava por vir. Foreign Com“Olha-me", "Descalça", "A patplaint é minha canção de despediinha da garça" e "Dora e a dor". da quando deixei Cuyaba e fiquei O que mais podem adiantar sonove meses fora. Escrevi uma sebre o novo álbum? mana antes de ir e gravei. Acho Flanders - Pretendemos gravar o que é a coisa mais triste que eu já novo disco em janeiro e lançá-lo fiz, além de ter 12 minutos, o que até o meio do ano. As novas músia torna praticamente impossível de cas estão um pouco diferentes, mas ser executada. cada vez mais impressa com a cara da banda. Já temos umas 10 canMOSAICO - Por que "acreditam ções prontas e o disco deve ter 12. só no semáforo"? A letra da Estamos ansiosos. n


ARTIGO

Girimum de Mundo Imagem: Div

Quem for defender que Clovito se parece com algum lugar terá que dizer que sua obra é do mundo todo.

ulgação

Por Ana Paula Sant’ana

Auto-Retrato, Clóvis Irigaray

C

lovito não tem nada a ver com Cuiabá da mesma maneira que não tem nada a ver com Alto Araguaia. Quem for defender que Clovito se parece com algum lugar terá que dizer que sua obra é do mundo todo. Enquanto a arte está estagnada no Estado de Mato Grosso, depreciada por um fundamentalismo da identidade em “ser matogrossense”, Clovito sempre esteve em lugar algum: porque todas as mostras e eventos que lhe foram ocasionados ainda lhe foram tacanhos porque ele mesmo não se cabe em lugar algum. Pena que vem por ser grande demais e acabar fazendo sombra aos não-bárbaros: os

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civilizados que perderam suas armas alucinantes em troca da vida comportada. Há muito tempo não tenho acompanhado a produção artística no Estado, mas é claro que certas criações nos enfrentam sem que possamos entender, daí ultrapassa o caso da política cultural, do conhecimento científico sobre arte, e entramos num caso mais parecido com deserção. Um desses casos mais recentes, de estupor, foi quando conheci a pintura do grande menino Aleixo Cortez, o “artista universal” como ele se reconhece, que desembaraça para embaraçar do seu jeito o centro da cidade, dando nós nas esquinas com a mente de quem encontra pela frente, da multidão ele sai

abrindo caminho com sua palavra grande, sua acidez alucinada, um brilhantismo que às vezes parece chegar envenenado. Entre os dois percebo alguma coisa parecida, como se eles, assim estivessem habitando a Terra como quem pode rapidamente saltar a outro universo sem se desmaterializar. São quase intocáveis porque remexem com algo que plantamos em nossa consciência e nos faz sentir, talvez em sonho, meio fragilizados, meio vazios, angustiados. Uma dor, um sofrimento morno que pode nos conduzir aos autoritarismos, aos estrangulamentos e, antes fosse pra mover uma guerra contra nós mesmos, ainda que flores fossem despedaçadas, carnes cortadas, mas que chegasse, enfim a uma

exaustão, virássemos deserto e capitularmo-nos-íamos pra uma outra negociação, ser a não ser apenas o desejo, a vontade, a força, o amor a qualquer coisa. É por isso que artistas que se banham em sangue podem nos transportar. Conheci Clóvis Irigaray quando tinha 18 anos. Ainda é uma das pessoas que quando me lembro revira a minha cabeça. Se nele tudo parece desconcertante, basta lhe mirar os olhos pra quase encontrar os olhos de Nossa Senhora segurando ternamente um bebê anjo. Minha história está ligada a história de Clovito, morou em minha casa, as paredes dessa casa eram forradas por suas telas do alto até o chão, comíamos juntos, assistíamos filmes, planejávamos coisas, sonhávamos ou curtíamos... E por isso me lembrei de Clovito, porque faz muito tempo que não o vejo, porque hoje moro na cidade em que ele nasceu, porque apesar de não vê-lo a anos Clovito não é do tipo que pré-existiu, nem se prontifica a ser presente. É aquela tal coisa indefinida que faz um artista nem tão carne, nem tão espírito inefável que não provoque guerras, maremotos, naufrágios, inquietações. Nem tão atual que não seja extemporâneo, mas tão vida que pode ser morte, loucura, pajé. É talvez pra isso que a arte existe. Não sei se a arte tem algum valor a não ser fazê-la, massificála é para garantir o aspecto de alucinação geral, de pensar como se faz “o sonho criar arborificações”, exageros que transbordam? Clovito não é de Alto Araguaia, mas sei que não é de Cuiabá. Acho mesmo que nem de São Paulo, Londres, Etiópia, ou qualquer Geringonça pré ou pós-capitalista ele é. Clovito, pelo que sei, não é nem dele mesmo, e se lhe tomam às vezes ele pouco se importa. Se sua tela merece ser comprada

por um dois maços de cigarro ou por quinhentos mil é porque ele é pura fonte e pode ser despendido, subtraído, e até anulado, se quiserem. E isso tudo é engraçado, nos faz pensar o que é que estou fazendo no mundo, se não for criar? Se não for parar de bater com a cabeça dura em toda uma postura. Nada de negação, apenas afirmação ao que é seu. Clovito é de sua casa. Aleixo talvez esteja procurando a sua. E a casa é perambulante, é sem senso algum, os códigos cambiantes preenchem o vazio das significações alheias, mas quem ainda liga pra elas? É de delícia que se faz a vista quando o que vejo em minha frente é Clovito, olhos doces aguilíneos, corpo que não morre, se liquefaz e se torna... doçura transversal da meia-noite, o que quer cavar em meus olhos? Peito magro que espeta, não imacula a grandeza, dança entre os corpos nulos-nulos, e dá-lhes o que precisa, a morte para quem precisa enterrar-se, o soco pra quem precisar de força, os braços pra quem precisa adormecer. Todas as palavras que se

expandem do peito dizem índios confabulados em florestas, lançando em pulos os montes, para estirá-los em casas lunares, os pequenos e índios bebês gordos aguardam seus seios nas fofas mães santas, sempre lindas mulheres, senhoras do silêncio e da força, da retidão transviante. Abandonar-se em Clovito, ou em Aleixo, em Juan, em Miguel, em fúria dissolvente. Um amor que prontifica, se mantém ereto. A arte, e Clovito e Aleixo parecem ser como um bebê, que ainda não tem personalidade, mas um olhar, um sorriso, que lhe é singular, é “pura potência, uma beatitude”. Escapuliu-se da ordem dos homens e rumou para perto dos deuses, é escolha e tempestade dos que querem. A fuga não é só não se entregar. Girimum de mundo n


TEATRO E DANÇA

Tradição e modernidade coexistindo

A

Com peças que procuram mostrar elementos da cultura regional, a companhia de Teatro Termômetro vem contribuindo significativamente com o teatro matogrossense.

idéia é ousada: Adaptar um personagem universal à uma realidade mais próxima de seus espectadores. “Vovô Nosferatus: Um vampiro distante da Transilvânia”, a nova peça em produção da companhia de teatro Termômetro, de Cuiabá, de autoria do ator, escritor, diretor e produtor Joilson Francon, visa transgredir os limites do romance regionalista para uma confluência de poesia, ensaio, discussão filosófica e crítica literária e social. Assuntos como o amor não correspondido para estabelecer uma discussão sobre as doenças e os temores de nosso tempo, permeados por um tema que anda em voga, o vampirismo é o grande mote de “Vovô Nosferatus” a estrear no ano de 2010. “Vovô Nosferatus” procura unir uma referência universal aos elementos da cultura regional e busca criar uma situação onde as histórias de vampiros fiquem mais próxima da nossa realidade . Joilson explica que o tema vampiro foi escolhido após refletirem sobre a honestidade ser algo relativo aos interesses humanos, surgindo a indagação: O que é ser humano pleno? “Percebemos que dentro da nossa prática do fazer teatral podemos trabalhar o tema abarcando boa parte das possíveis respostas à pergunta master com destaque à resposta - o ser humano pleno é o ser humano feliz - gerando outra pergunta: o que é a felicidade?”, divaga ele.

Por Aline Ueno

O ator Joilson Francon em ”A caravana da ilusão”.

Foto: Acervo Pessoal

Tradição e modernidade.

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Termômetro nasceu no ano de 1990, da iniciativa de três artistas que desejavam uma produção independente no teatro matogrossense. O artista múltiplo Eliezer Gentil, a atriz Edna Lia Roque e Joilson Francon reuniram esquetes feitas pelo grupo e de autores desconhecidos, conceberam uma encenação e foram para as praças de Cuiabá, ambientes acadêmicos e salas de exibições artísticas romper as barreiras do preconceito para com artistas amadores. “Para se conseguir entrar nesse mercado e se manter, foi necessário gerar uma história de vida, de existência”, conta-nos Joilson. “O grupo, ainda apren-

dendo a andar, teve de se produzir com recursos do próprio bolso, juntando elementos cênicos emprestados ou que iriam parar no lixo, figurinos dos armários das famílias caridosas e antiquadas, ensaios sob revezamento, ora na varanda da casa de um ora na casa de outro, e assim o currículo tinha de ser formado para que empresas e órgãos com recursos públicos para incentivo à cultura pudessem aceitar pedidos de análi-ses de projetos de montagem e circulação de peças de teatro produzida pelo grupo. Não temos parentes para “QI” e muito menos somos o padrão de beleza americana”. Além do intercâmbio onde atores e técnicos de outros grupos e companhias participam de espetáculos produzidos pelo Teatro Termômetro, peças de teatro são apresentadas em comunidades descentralizadas ou ainda, geram condições para que a comunidade venha para as salas de teatro numa postura infinita de participação, de conhecimento e de relação humana e artística. Falta de apoio financeiro, falta de salas de teatro para as apresentações, comunicadores sem fluência para escrever sobre o meio cultural e a preferência do público pela comédia, são algumas das dificuldades enfrentadas pela Termômetro, mas nada que impeça a companhia de seguir em frente com seu objetivo. A peça mais conhecida da Cia. Termômetro e que, como “Vovô Nosferatus”, também traz características regionais, é o espetáculo “As fias de mamãe- Agora quando!”, uma comédia cotidiana respaldada na cultura do Mato Grosso com peculiaridades que atrai todos os sentidos humanos para conhecer e reconhecer a cultura de um povo. A história gira em torno das irmãs Benedita Sampaio e Amazonina Bocaiúva, que se reencontram no velório de sua mãe, morta por haver se engasgado com a dentadura. A peça, em estilo cuiabano, com cuidados com a tradição, mostra características culturais frente ao progresso transformador, onde o homem pode conviver com sua cultura e a modernização sem destruir aquilo que está no mais profundo de suas raízes .

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O ser humano pleno é o ser humano feliz gerando outra pergunta: o que é a felicidade?

O jovem e o teatro Joilson acredita que a participação dos jovens no teatro matogrossense aumentou. “A cada sessão podemos perceber os mesmos na platéia e até mesmo em cursos promovidos para dar ferramenta ao mercado da produção cênica.”. Os projetos que visam justamente à inclusão ou a participação de jovens, estudantes e público carentes nas apresentações cênicas, proporcionam aos seres humanos a condição de apreciar, de refletir, de descobrir, de revolucionar e de ter o encontro com o outro. “O artista vai aonde o povo está: Teatro na escola, teatro na empresa, teatro de rua, teatro contemporâneo, são formas e expressões que podemos perceber a tentativa de termos cada vez mais apreciadores de teatro e principalmente das produções locais, não se limitando à comédia e a produções globais.” Para Joilson, o teatro possibilita aos seres humanos a condição de apreciar, de refletir, de descobrir, de revolucionar e de ter o encontro com o outro. Neste sentido, a Cia. Termômetro, vem trilhando seus passos no teatro matogrossense, contribuindo significativamente para manter vivas as tradições e características regionais, sem precisar parar no tempo ou se isolar, mas sim possibilitando por meio de suas peças a coexistência das raízes e da modernidade. n

Fotos: Acervo Pessoal

PUBLICIDADE Atrizes do espetáculo: As fias de mamãe- Agora Quando!

tel: (65)3052-6807

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LITERATURA

Escrita por mulher,

sobre mulher e para mulher Por Thaís Campos

Eis mais um livro que escrevo, "Rumores" é o seu nome. Vocês que são moços, devem compreender os "Rumores" de um coração sensível e isolado, que palpita nos arrobos da Inspiração!... "Rumores" é o n° 18 dos meus livros ainda inéditos. É meu maior ideal vê-los publicados. Faltam-me recursos pecuniários para atingir este ideal!

Foto: Acervo Pessoal

Não é vaidade, é um desejo somente, que tenho de te ver encadernado meu fiel companheiro, o confidente dos meus segredos! Oh!... Meu livro amado!

V

indo para as distantes terras deste estado no interior do Brasil, a professora e poetisa Arlinda Pessoa Morbeck, se inspira a escrever em seus diários sobre seu cotidiano e assim ajuda a contar sob seu ponto de vista a história do desbravamento do Centro-oeste e a saga do garimpo no Mato Grosso. Ainda moça, veio recém-casada com o engenheiro José Morbeck, que viria depois se destacar em um marcante episódio da história política do estado. “Era uma carga muito pesada que só poderia ser suportada por alguém que tivesse uma grande mulher ao seu lado” conta o neto Milton Pessoa Morbeck Filho, autor do site Morbeck x Carvalhinho www. morbeckxcarvalhinho.com.br, onde conta a história do líder da revolução e de sua esposa. No site estão uma pequena biografia da escritora e alguns de seus textos para divulgação de sua obra. Foi o meio que a família da escritora encontrou para tornar sua obra conhecida e então pensar em publicação: “Não adianta eu pegar toda a obra dela e falar: vou publicar isso aqui. Arlinda Morbeck ainda não é conhecida”, diz o neto. E faz uma crítica: para ele a escritora só não é conhecida em Mato Grosso como Cora Coralina é reconhecida em Goiás por que aqui só dão valor ao que vem da capital. O neto da autora desabafa: “Eu tenho o grande desejo, tanto quanto ela tinha esse desejo de tornar pública toda a obra dela chega arrepio” e mostra o braço. Esse desejo inúmeras vezes foi explicitado em seus diários – pequenos cadernos os quais chamava de “livros”:

Arlinda Pessoa Morbeck

Esse momento tão esperado já pode ser avistado. O projeto “Arlinda pessoa Morbeck: um resgate poético na literatura mato-grossense”, da Universidade do Estado de Mato Grosso, prevê o reunir o acervo da poetisa para futuramente publicar suas obras, que em sua maioria são manuscritos em pequenos cadernos que se encontram em mãos diversas. Mas a maioria, que está em poder de seus descendentes está em fase de organização pelos pesquisadores da Universidade. O projeto de pesquisa prevê que em dois anos a obra da poetisa esteja em condições de ser divulgada e publicada, para que os estudiosos de Arlinda Morbeck - e os possíveis futuros fãs da escritora – possam desfrutar de sua poesia romântica. A escritora que colaborou ainda com jornais de vários estados por onde passou, deixou escritos 18 volumes manuscritos ainda inéditos. Considerada a primeira poetisa dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Arlinda Pessoa Morbeck, morando tão distante de sua terra natal encontrou na poesia, sua parceira de longa data, uma forma de expressar os sentimentos sufocados pelo dia-a-dia tão exigente. A obra da poetisa retrata seu cotidiano da vida nas fazendas do interior do Mato Grosso, onde viveu por cerca de 30 anos. Seu neto


conta que como o marido viajava muito e ela ficava sozinha com os seis filhos, ela preenchia o tempo escrevendo seu diário da vida na fazenda. Para os coordenadores da pesquisa, a vida da poetisa serve como “parâmetro ilustrativo para retratar a condição da mulher matogrossense burguesa e escolarizada na virada do século XIX/XX”. Uma reflexão que confronte a obra e a vida da poetisa, o texto e seu contexto, é fundamental para que se entender a participação da mulher nos espaços sociais “é de fundamental importância para uma reflexão da escrita de autoria feminina matogrossense para que se pense a questão de gênero envolta na experiência do desbravamento dos sertões no centro do Brasil”. Sua vida e obra estão intimamente ligadas às questões sócio-políticas da época: sua obra perpassa por vários aspectos e espaços de circu-

lação social, construindo “uma voz mais feminina que feminista que, a nosso ver, é uma (re) afirmação dos valores patriarcais vigentes à época”. “É o que podemos denominar em linhas gerais como: escrita por mulher, sobre mulher e para mulher”, diz o projeto de pesquisa da Unemat. Mas aqueles que esperam por ver as obras da escritora publicadas puderam sentir o gostinho de ouvir sua poesia no Projeto Poesia, Versos & Cordas, do SESC Mato Grosso. O espetáculo foi encenado pela Cia Termômetro em março e contou com uma apresentação sob um roteiro com textos sobre a história de Arlinda Morbeck e textos extraídos de obras de autores mato-grossense, entre eles “Rumores”, da homenageada. Assim, com cada vez mais holofote sobre seus trabalhos regionais, os admiradores da poesia matogrossense podem aguardar boas surpresas. n

Despedida

Eu vou chorando,Cuiabá querida, Enquanto ficas te ostentando, linda! Contigo deixo minha própria vida, Levando n’alma esta saudade infinda. Já vem chegando a hora da partida... Longe de ti o meu pensar nao finda; Mas, nas agruras desta despedida, Tenho a esperança de rever-te ainda. Eu vou saudosa pelos teus caminhos, Recordando o teu verde tao viçoso, Onde revoam tantos passarinhos. Mas de ti, tao tristonha, me afastando, Levo na mente o teu painel formoso; Adeus, Capital Verde! Eu vou chorando Arlinda Pessoa Morbeck

A Revolução A Revolução Morbeck x Carvalhinho é um marco da história do Mato Grosso, fato envolto em polêmica e cheio de informações distorcidas ou omitidas: O engenheiro José Morbeck ocupava o cargo de diretor da Repartição de Terras, Minas e Colonização do Estado, se declara contra o decreto que criava uma concessão de exploração de jazidas minerais na região dos rios Garças e Araguaia, alegando que um enorme número de famílias sofreria com os resultados da administração estrangeira. Diante dessa postura, Morbeck pede exoneração do seu cargo, mas tinha uma grande influência entre os garimpeiros que viviam na região, e lidera a liga garimpeira, mostrando a organização da classe trabalhadora e despertando o receio do governo. Carvalhinho, supostamente diante de vantagens oferecidas pelo governo, se declara oposto às opiniões de Morbeck. Porém, como forma de vingança, Morbeck reuniu mais de 300 homens e atacou a residência de Carvalhinho, que resistiu e conseguiu fugir, dando inicio a sucessivas batalhas em que ambos os lados venceram. A revolta só iria ter o início de um fim, quando o sucessor de Pedro Celestino, Mário Corrêa da Costa, determinasse que as forças estaduais interviessem no conflito.

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MÚSICA

MACACO IGUAL PEDREIRO

Imagem : Divulgação

O

utro dia contei pra uma amiga que estava planejando entrevistas com artistas da região, de cara a irmã dela se lembrou de uma viagem que fez pra Cuiabá. O ônibus estava cheio de bandas do Mato Grosso que estavam voltando de um festival em São Paulo. Os caras faziam a maior bagunça, tocavam violão na estrada, tiravam sarro uns dos outros, puxavam papo com todo mundo. Inclusive com ela, que no final ainda ganhou ingresso do integrante de uma dessas bandas para ir a um show deles. Quando perguntei que banda era essa, adivinhem só o que ela respondeu: “Hum, Macaco... Bongo?? A história da viagem mostra bem como são os caras da banda cuiabana Macaco Bong. O trio formado por Bruno Kayapy

Uma das principais atrações do Festival Calango, o “Power Trio de Cuiabá” revela muito trabalho e suor pela música matogrossense

(guitarra), Ynaiã Benthroldo (bateria) e Ney Hugo (baixo) leva a vida na brincadeira e a música a sério: fazem parte do Instituto Cultural Espaço Cubo, realizando trabalhos de produção musical, assessoria de comunicação e distribuição, além de co-realizarem eventos e festivais, como o Calango, Grito Rock, Semana da Música e Semana do Audiovisual, produções que segundo eles “impulsionam a cadeia produtiva, tanto local quanto nacional” dentro do circuito Fora do Eixo. "O importante é trocar tecnologia de trabalho. Quando vamos a um festival, não vamos só tocar. Trabalhamos como roadies, técnicos de som, participamos de mesas-redondas." conta o guitarrista Bruno Kayapy em uma entrevista à revista Rolling Stone. Além do Espaço Cubo, os garotos

Definição do verbete Macaco Bong: power trio de Cuiabá que baseia-se na desconstrução dos arranjos da música popular em seus formatos convencionais.

Por Thaís Campos

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Ynaiã Benthroldo : Bateria

CalangO 2009 O Festival Calango já se tornou um dos marcos da cultura cuiabana, sendo “um dos grandes reveladores e difusores da nova música brasileira”. Serão três dias de atividades unindo a música independente da região a artistas consagrados e realçando a cena alternativa mato-grossense com atrações como as oficinas e debates, Convenção de tatuagens, convenção e desfile de moda, Mostra de cinema e vídeo, e artes cênicas com circo e teatro. Dias 30 e 31 de outubro e 01 de novembro.

Bruno Kayapy: Guitarra

Fotos: Acervo Pessoal

são também militantes da Volume (Voluntários da Música), entidade destinada para a qualificação de agentes da produção, além de integrantes do Música do Mato, projeto que tem por objetivo divulgar a música mato-grossense em outros estados. Mas tanto nos bastidores como em cima dos palcos os macacos são profissionais. O primeiro álbum da banda, Artista Igual Pedreiro, é um disco de rock instrumental classificado pela mídia especializada como sendo de “primeiríssima categoria”. Não é à toa que só do ano passado pra cá, foram requisitados para apresentações em quase todos os estados brasileiros (seja em festivais ou shows exclusivos), passaram em Cuiabá para tocar com a Orquestra Sinfônica do Estado de Mato Grosso e ainda fizeram dois shows no Festival Pop Montreal, no Canadá, e seis em Buenos Aires, Argentina – só para citar alguns exemplos. Como recompensa a tanto trabalho, desde 2008, ano de lançamento do disco, a banda vem colecionando prêmios: de Banda do Ano no Prêmio Hell City da Música Independente Matogrossense a indicações na MTV, além de citado como “Revelação” na Rolling Stone Argentina e eleito Melhor Álbum do ano para a Rolling Stone brasileira. Com um currículo assim, qualquer um fica curioso para saber mais sobre a banda. Para quem quiser conferir de perto, o Macaco Bong vai tocar no palco do Festival Calango no dia 30 de outubro. Vale a pena conferir o som desta e de outras bandas do cenário alternativo nacional no festival produzido pelo Macaco Bong e que é um dos mais respeitados no país.n


ENSAIO

siriri e cururu Paulista apaixonado pelo Mato Grosso, onde mora há 27 anos, Mario Friedländer é fotógrafo profissional e dedica seu trabalho a documentação da Natureza, Povos Tradicionais, Arqueologia e Ecoturismo. Para o fotógrafo, os povos tradicionais são os grandes guardiões da natureza. Procura fazer da fotografia uma arma de guerra para protegê-la. Atualmente mora entre a Chapada de Guimarães e a Vila Bela da Santíssima Trindade junto a Fronteira da Bolívia. Participa de várias iniciativas pela Restauração e Conservação de Ambientes Naturais e Promove Expedições para Pesquisa, Documentação e Ecoturismo. A melhor inspiração para uma boa fotografia, para o paulista de coração matogrossense é a luz. “Quem manda na fotografia é a Luz, sempre”.


FICADICA MÚSICA

Multishow Ao Vivo, Vanessa da Mata

O Machado do Mato Para Hilda Hilst, depois de Machado, seria Ricardo Guilherme Dick o autor mais importante do País. Satânico e nada comportado, Dicke contribuiu de forma significativa para a literatura brasileira, ao lado de Guimarães Rosa e Machado de Assis. Natural de Chapada dos Guimarães, deixou o Rio e voltou para o Estado Natal em busca de paz. “Escrevo porque gosto do modo como escrevo e, se não vender, isso para mim não tem importância nenhuma.”, declara o erudito que, apesar de torrencial na ficção, era um homem de poucas palavras que parecia gostar de acalentar o mistério sobre si. A editora Carline e Caniato vem relançando as obras deste grande autor, esquecido pela mídia e vítima do ostracismo em seus últimos anos de vida. Seu último livro lançado foi “Toada do Esquecido & Sinfonia Eqüestre”, um livro amplo, indecifrável e complexo. “Cabe ao leitor o deleite de se embrenhar na obra deste ser (tão) fantástico que é Ricardo Guilherme Dicke”, convida Cristina Campos, responsável pela preparação e revisão do livro.

Cia de Teatro Mosaico, apresenta: A Cia Mosaico estréia o espetáculo "Anjo Negro", do dramaturgo Nelson Rodrigues. A peça que é considerada uma das mais polêmicas e belas obras do autor, será encenada nos dias: 30 e 31/10 e 1º/11 (Sex, Sab e Dom) às 19H30h no Salão Nobre do Palácio da Instrução em Cuiabá-MT (ao lado da Catedral metropolitana). E nos dias 06, 07 e 08/Novembro (Sex, Sab e Dom) às 20h. no Cine Teatro Cuiabá. Mais Informações: 3028 8000 ou 84013626

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A essência de Lara Matana A artista plástica Lara Donatoni Matana, entra em exposição neste mês de Setembro no Museu de Arte e de Cultura Popular (MACP) da UFMT, em Cuiabá. A exposição é uma retrospectiva dos trabalhos desenvolvidos em madeira, em peças feitas com restos de árvores caídas, demolições, sobras de madeireiras e marcenarias. Graças a essa característica, Lara é tida como uma das mais criativas, inovadoras e ousadas artistas brasileiras deste inicio de século, além de ativa ambientalista. A exposição “Essências” fica aberta ao público de 17 a 30 de Outubro. Além de conferir os trabalhos desenvolvidos por Lara, o público ainda terá contato com o universo ambiental através de matérias sobre ecologia, natureza e o planeta Terra. Espetáculo “AMORES”, Com Cia de Dança Rodinei Barbosa. Através dos movimentos coreográficos que contam com os ritmos Tango, Bolero, Zouk, Samba de Gafieira, Salsa in Line e outros, o espetáculo pretende levar o público ao Universo do amor. Dias 29 e 30 de outubro no Teatro do SESC Arsenal.

Entrada: R$ 12,00 (inteira), R$ 6,00 (meia) e R$ 5,00 (comerciário)

Não podia faltar, é claro a mais ilustre cantora matogrossense, Vanessa da Mata. Seu DVD Multishow Ao Vivo foi gravado na cidade histórica de Paraty, e traz no repertório canções que marcaram a carreira da intérprete como "Não Me Deixe Só", "Ai Ai Ai", "Eu Sou Neguinha", "Vermelho", "Pirraça", além da inédita "Acode" (composta pela própria cantora) e das regravações de "Um Dia, um Adeus" (Guilherme Arantes) e "As Rosas não Falam" (Cartola). Além do show, o DVD traz nos extras imagens da turnê da Vanessa pela Europa e o encontro da cantora com Ben Harper em São Paulo, onde gravaram um videoclipe para o hit "Boa Sorte/ Good Luck".

Espetáculo “AMORES”, Com Cia de Dança Rodinei Barbosa

Através dos movimentos coreográficos que contam com os ritmos Tango, Bolero, Zouk, Samba de Gafieira, Salsa in Line e outros, o espetáculo pretende levar o público ao Universo do amor. Dias 29 e 30 de outubro no Teatro do SESC Arsenal. Entrada: R$ 12,00 (inteira), R$ 6,00 (meia) e R$ 5,00 (comerciário)

Poesia e canção Muito lirismo, bom humor e maturidade permeiam os poemas de Compostela: A cadeira vazia, de Stela Oliveira, cuiabana de apenas 15 anos, que além de poetisa precoce, toca piano, violoncelo, violão e viola-decocho. Compostela reúne poemas sobre temas do cotidiano, conflitos sentimentais e o poder de transformação das palavras, deixando claro os momentos de transição da infância à adolescência. “Resolvi passar minhas idéias adiante para, quem sabe, alguém também usufruir delas e dizer: 'Nossa! É exatamente isso o que estou sentindo!'" – confidencia Stela. Compostela: A cadeira vazia, por TantaTinta/Carlini & Caniato


CONTO CONTO

por Danilo Fochesatto

Os Estagnados

os estagnados mos por quanto tempo permanecemos naquele campo, mas pareceu-me tempo demais. Parecia o milharal mais longo do planeta. Nossas bocas fechadas queriam dizer que não o venceríamos, nunca. Nos deparamos com os ossos de algum animal morto. Pisar neles soava como pisar nas folhas secas ou nas espigas. Em linhas gerais, dava tudo no mesmo. A gente andava. Exaustos desde algum remoto dia em que a diáspora começara. De repente uma nuvem de gafanhotos passou por nós, encobrindo o céu. Todo mundo parou. O mundo nos tornara excessivamente rígidos. Mesmo com os gafanhotos batendo em nossos rostos e ferindo nossa pele, ninguém se movia. Ninguém falava nada. Escutamos tiros sendo disparados. “Por qual direção as balas virão?”, pensei, tomado pela fadiga de ter esperança. O sol que adentrava pela voraz legião de gafanhotos deixava as palhas do milharal bem douradas. Quando a nuvem terminasse de passar, voltaríamos a caminhar. Alguma coisa nos seguia. As pegadas do grupo foram desaparecendo. Fomos afundando na terra. Totalmente árida. Precisávamos atravessar o milharal. Mas não sabíamos mais qual o intuito da diáspora. n Ilustração: Valdair Grotto

E

ra um milharal. E estava seco. Completamente seco. Tínhamos de atravessá-lo. Espigas de milho mal-tratadas ficavam aos montes pelo chão. Algo nos perseguia. Ninguém falava. Nada de questões ou objeções. Senão fosse pelo barulho de nossos pés descalços esmagando as folhas secas do milharal, o silêncio seria como aquele advindo ao término de uma acalorada discussão seguida de troca de tiros. Somos seis. Mas já fomos mais do que isso. O sétimo morrera ontem por inanição. O oitavo e o nono anteontem, afogados na travessia do rio. Éramos nove, então. Agora haviam dois com ossos fraturados pela queda durante a escalada da montanha. Outro tinha uma bala alojada no corpo. Eu era o de melhor aparência externa. Apenas arranhões. Por isso me escolheram para liderar o grupo. Os cantis estavam ocos. Também não tínhamos munição ou suprimentos. Nem reforços para convocar. Ninguém falava nada. Só caminhávamos. Aparentemente eu era o mais intacto. Tínhamos de cruzar o milharal. “Do outro lado encontraremos a prisão”, insistia o soldado que cuidava do caminho e portava uma espécie de mapa. Seguimos pelas entranhas daquela extinta plantação. Em árduos passos arrastados. Não sabía-


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