Page 1

Editora UNEMAT - Edição n°0 - Ano 1 - Dezembro de 2011


CARTA AO LEITOR

N

as próximas páginas você, leitor(a), irá mergulhar em um universo que resgatará a história de um Colégio que tanto contribuiu para a formação dos araguaienses e de tantos outros povos que para cá vieram estudar. Memórias foi o nome escolhido para esta revista para que você tenha alcance visual e conclua que se trata de um veículo destinado ao resgate de algo adormecido, esquecido em memórias passadas. Desse modo, o nome representa essa lembrança. Ao ler o título você perceberá que nesta revista os assuntos abordados se dedicarão a abordar algo que já vivenciamos um dia. Memórias. Surgiu da necessidade de fazer um veículo de comunicação, nesse caso uma revista cultural, que privilegiasse a história do Colégio Padre Carletti em Alto Araguaia-MT. Um dos fatores primordiais para o desenvolvimento foi que após pesquisas certificamos que não havia nada documentado de forma sucinta sobre o colégio. Outro fator é que somos araguaienses, e desde nossa infância ouvimos as pessoas contarem sobre o colégio com nostalgia,

com vontade de que essas histórias fossem do conhecimento das pessoas, principalmente dos mais jovens, para que dessa forma a identidade e memória não se perdessem. Então, sentimos que deveríamos produzir um material que tratasse tanto dos assuntos relevantes à permanência do colégio na cidade, com uma linguagem visual que contemplasse o público como uma contribuição cultural para nossa cidade. Memórias. Proporcionará o conhecimento de histórias importantes que estavam adormecidas na memória de muitas pessoas, as quais tivemos o prazer de entrevistar. As revistas contêm informações sobre o colégio, de forma paralela com os acontecimentos posteriores. Com isso, visamos atentar os leitores para o patrimônio histórico que é o prédio do Colégio Padre Carletti, atualmente ocupada pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Abra sua mente e seu coração para acolher essas páginas dedicadas à memória do Colégio Padre Carletti, ou melhor dizendo, aos personagens que guardaram em sua memória fatos importantes que deram vida a Memórias. Então entre e faça uma boa viagem!

EXPEDIENTE REPORTAGEM E EDIÇÃO Maria Madalena Cardoso Macedo Tatiane Cristina Rezende Vilela REVISÃO E ORIENTAÇÃO Prof.ª Me.Giovanna Betine Prof.º Me. Thiago Cury Luiz DIAGRAMAÇÃO Danymeire Carvalho Maria Madalena Cardoso Macedo cursa Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso, fez estágio na Assessoria do Campus de Alto Araguaia. Foi presidente do Centro Acadêmico de Jornalismo “Assis Chateaubriand”, gestão 2010-2011. Apresentou comunicações em diversas áreas, com ênfase na área de Comunicação e Cultura. madah_cardoso@hotmail.com (66) 9994-6614

ARTIGO Peter Büttner Dom Anuar Battisti Tatiane Cristina Rezende Vilela CAPA Réulliner Rodrigues CIRCULAÇÃO Alto Araguaia-MT TIRAGEM 20 exemplares IMPRESSÃO Gráfica

2

Tatiane Cristina Rezende Vilela cursa Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso, fez estágio na assessoria do Campus de Alto Araguaia. Dentre as ramificações do Jornalismo, a que desperta interesse é Comunicação e Política, especificamente em Assessoria Política. tacris@hotmail.com (66) 9639-0880


SUMÁRIO 04 HOMENAGEADOS Homenagem pelo exemplo de doação aos professores Lourença Afonso de Melo e Konrad Wimmer

06 LEMBRANÇAS A história da construção e das fases do Colégio Padre Carletti/ Histórico da Missão Salesiana/ Tempo bom que não volta mais/Ensaio fotográfico Memórias

20 EDUCAÇÃO Pedagogia Salesiana: excelência em educação/ O ser humano condenado a ser eterno aprendiz

26 ENTREVISTA O diretor que marcou as Memórias dos alunos

32 RELIGIÃO Religião: um bem necessário/ Educar é um risco

36 ESPORTE Contribuição do colégio para o esporte araguaiense

40 MÚSICA Banda Carajás: grande desenvolvimento de talentos musicais/ História do Hino de Alto Araguaia-MT

44 REALIDADES O prédio do colégio Pe. Carletti atualmente/ Alunos Ilustres/ Lições Eternizadas, minha escola, minha vida!

3


HOMENAGEADOS LOURENÇA AFONSO DE MELO

KONRAD WIMMER

O depoimento a seguir é de Maria Afonso de Melo, dona Lili, 90 anos e irmã de Lourença. “Ela tinha muita amizade, a minha irmã, professora Lourença Afonso de Melo, 28 anos, nascida em 10 setembro de 1930, noiva, estava com o enxoval pronto para se casar. Lecionava no Colégio Carlos Hugueney, no Colégio Padre Carletti e ainda costurava para fora. Ela trabalhava muito e morreu de repente. Era uma mulher muito bonita, a mais nova de todas as irmãs, foi professora muitos anos no colégio. Me lembro que ela estava lecionando no dia 21 de junho de 1961, ela chamou o padre diretor para ficar na sala porque ela estava aplicando prova, e não estava se sentindo bem, portanto quando ela foi saindo caiu. Um aluno que estava ao lado veio me chamar, ela foi levada ao hospital mas já chegou sem vida, e no laudo médico a causa da morte foram problemas cardíacos. Era noiva do militar Elson que estava concluindo o curso de sargento na Academia Militar das Agulhas Negras. Depois que ela faleceu meu papai mandou ir buscá-lo de avião, ele veio, quando já estava enterrando, mas ainda chegou a tempo. Ela foi enterrada com seu vestido de noiva. E até hoje recebo elogio de seus alunos pela profissional que foi.

O depoimento a seguir foi escrito pelo seu grande amigo Peter Büttner que ficou em Alto Araguaia-MT no mesmo período e foi uma amizade por toda uma vida até sua morte em 10/04/2004. “O Pe. Conrado, ou Konrad, foi uma pessoa privilegiada em qualidades que o fizeram sobressair em relação a muitos outros. Sabia tocar vários instrumentos musicais com perfeição, sobretudo piano e o órgão clássico de vários manuais e pedais. Tocava fugas e outras peças dificílimas de João Sebastião Bach e outros mais. Criou um método próprio para criar passo por passo uma orquestra. Era compositor e maestro de diploma com singular capacidade de criar uma orquestra com pessoas que antes não tocaram nenhum instrumento e nem souberam ler notas musicais. Foi o professor de matemática mais competente e didático que conheci em minha vida. Foi secretário de escola de extrema perfeição. O inspetor do MEC que fiscalizou durante dois dias a secretaria do Colégio Pe. Carletti, apesar de fazer questão de encontrar erros e falhas, declarou que não encontrou nada disso num trabalho de quase quatro anos. Acompanhou e orientou os professores não-salesianos a fim de trabalharem com a mesma mentalidade de dedicação aos alunos para produzir um processo de educação de qualidade. Como padre foi estimado pelos seus sermões curtos, claros e práticos. Era uma pessoa cheia de humor, às vezes até um pouco sarcástico, objetivando a correção de pensamentos e atos evidentemente incorretos. Contribuiu no colégio com muitas ideias valiosas e com muito trabalho de alta qualidade profissional, apesar de sofrer de graves problemas gástricos. Saiu de Alto Araguaia esgotado de tanto trabalhar e decepcionado pelo fato de que não se encontraram mais salesianos que poderiam e queriam levar este trabalho para frente após nosso trabalho sacrificante de quadro anos, de reformas materiais, educacionais e escolares, do aumento significativo de alunos externos e internos (o número de externos ultrapassou 500, o de internos chegou a 82, da criação do ‘segundo grau’ que poupou os pais araguaienses e de santaritenses da necessidade de mandar seus filhos, depois do ‘ginásio’, a outras cidades)”.

Maria Afonso de Melo, irmã da homenageada, com a camiseta do Araguaia Atlético Clube

4


LEMBRANÇAS CONSTRUÇÃO DO COLÉGIO PADRE CARLETTI: UM MARCO PARA A EDUCAÇÃO ARAGUAIENSE Por Maria Madalena Cardoso Macedo

D

e acordo com livro Tombo da Igreja Matriz, em sua primeira página está o decreto de criação da Paróquia de Alto Araguaia-MT, datada de 24 de janeiro de 1920, e assinado pelo bispo Dom Antonio Malam. Entretanto, devido à regra ortográfica vigente e da situação política e geográfica da época, está escrito “Decreto de Creação da Parochia de N. Sra. Auxiliadora de S. Rita do Araguaya (Mato Grosso). Mais adiante, ainda na mesma página, temos: “Limitada assim a parochea submeterá a jurisdição e aos cuidados do dos R.R.P.P da Congressão Salesiana, na pessôa de quem, pelo superior fôr para isso apresentado...”. Dessa forma, esse decreto representa não só a criação da Paróquia Matriz Nossa Senhora Auxiliadora de

6

Alto Araguaia-MT, mas é o marco da chegada da Missão Salesiana em terras araguaienses. Em 1920, foi dada a benção solene e aconteceu o lançamento da pedra fundamental das obras da atual Igreja Matriz, porém, enquanto a Igreja Matriz não fosse concluída, a Capela do Bispo Antonio Malan, construída às margens do Rio Araguaia, ficou com os direitos e prerrogativas que cabem a uma Igreja Matriz. E ao lado dessa Capela funcionava o Colégio Salesiano. Vejamos o que está descrito na página 07: “...A Capella de D. Antonio funcionará como Egreja Matriz enquanto não fôr edificada a Egreja Parochial, cuja pedra fundamental foi solenemente benta e collocada em janeiro de mil novecentos e vinte pelo Exmo e Revmo Bispo Prela-

do, D. Antonio Malan, na praça principal da povoação”. Outro fato de importante foi a transferência de Dom Malan para a Diocese de Petrolina em Pernambuco. O que interrompeu as obras da construção da Igreja Matriz, de acordo com a página 35 do Livro: “Em 15 de maio de 1948, os alicerces da futura matriz foram continuados após uma interrupção de 30 anos”. Nesse contexto da transferência do bispo, há duas citações datadas de 1924 que mencionam o colégio “... véspera da partida, no salão de acto do Colégio Salesiano...”; e “Houve declamações, diálogos e cantos executados pelos alunnos do Colégio Salesiano...”. Como na época as Filhas de Maria Auxiliadora eram responsáveis pela educação de mulheres e o Colégio Salesiano pela educação dos homens, e no livro está mencionado “alunnos” subentende-se que se trata do Colégio Padre Carletti. Dessa forma está documentado que no ano de 1924 o Colégio Salesiano de Alto Araguaia-MT já estava em funcionamento. De acordo com Altair Machado de Oliveira, em seu livro Alto Araguaia dos Garimpos a Soja, “Em 1939, o prédio onde está localizado o Câmpus de Alto Araguaia já funcionava com o nome de Obras do Cristo Redentor e tinha como inspetor escolar municipal o cidadão Major Carlos Hugueney”. Em 1951, passou a se chamar Patronato Salesiano, que, em 1953, mudou para Colégio Padre Carletti, que atendia alunos


nos regimes convencional e de internato. Questionado sobre a construção do colégio, Peter Buttner, que foi diretor do colégio durante quatro anos, afirmou que “o trecho em forma de ‘L’ foi construído pelo Pe. Mauricio Laport, a construção mais alta pelo Pe. Nelson da Cruz, abrigando a cozinha e a enfermaria, o refeitório dos alunos internos com palco para assim podendo ser usado também como sala de teatro”. Com o passar dos anos as amplianções continuaram, ainda de acordo com Buttner “mais tarde o Pe. Domingos Vallero anexou uma pequena construção com as instalações sanitárias. O prédio mais novo com a sala definitiva de teatro, ainda para terminar, foi feito pelo Pe. Alfeu e seu Vice-Diretor e Ecônomo, o Pe. Eduardo Hessing”. Maria Afonso de Melo, carinhosamente conhecida como Dona Lili, araguaiense, 90 anos de idade, nos confidenciou sobre o colégio: “me lembro que quando foi para iniciar as construções houve a benção fundamental do prédio, houve uma missa campal muito bonita, tiveram as madrinhas da cerimônia, minha mãe era madrinha, dona Maria Júlia Salgueiro, conhecida como Dona Julica, dona Luzia”. Dotada de extrema lucidez detalhou que “a missa foi celebrada pelo Padre João Duroure (1897-1989) e a partir daí começaram as obras de construção do colégio. Acredito que foi nos anos de 1938 ou 1939. Foi muito bonito, o começo aí veio devagar, funcionando o colégio na beira do Rio Araguaia”. Sobre a verba utilizada para a construção do colégio, But-

tner disse: “Foi feito por recursos, tanto da Inspetoria Salesiana de Mato Grosso, quanto da própria escola. Vieram inicialmente também algumas verbas do Governo Brasileiro e ultimamente doações de instituições eclesiásticas e de parentes e amigos meus da Alemanha”. Por outro lado, dona Lili afirmou:“Me lembro que papai ajudava muito doou diversas vacas para o início da construção...”.

“Em 1939, o prédio onde está localizado o Câmpus de Alto Araguaia “já funcionava com o nome de Obras do Cristo Redentor e tinha como inspetor escolar municipal o cidadão Major Carlos Hugueney”. ALTAIR MACHADO DE OLIVEIRA Então, subentende-se que foram feitas doações para a Missão Salesiana e esta, por sua vez, utilizou parcialmente ou totalmente esse valor para a construção do colégio. No livro Tombo cita que a arrecadação da Festa de Nossa Senhora Auxiliadora do ano de 1949, foi em prol da construção do Seminário. De acordo com a página 47, “o segundo pavilhão das Obras do Cristo Redentor que passa a receber também o nome de Patronato Salesiano, está quase pronto faltando tão somente a varanda e o reboque exterior em fim de novembro de 1950. Em fim de dezembro a varanda e os demais estão prontos”. O arquiteto e urbanista, Wanderley de Oliveira Fraga, formado desde 2008 pela UniFil

(Centro Universitário Filadélfia), em Londrina – PR. Analisou o prédio e conclui que do ponto de vista arquitetônico “é um colégio com arquitetura correta e moderna para a época devido aos materiais utilizados como o vidro, a madeira e o concreto”. Explica que “o edifício foi concebido a partir de um volume retangular com varanda em toda a sua extensão. São quatro pavilhões que abrigam salas de aula, capela e um anfiteatro”. Sobre a locação do prédio no terreno “possui uma forma de U, devido ao pátio estar localizado no centro e o edifício a sua volta”. A respeito da técnica construtiva Fraga diz “que a técnica foi a alvenaria de tijolo e o concreto. O piso é todo em lajota de cimento queimado em duas cores. As janelas são em madeira e com vidro. A edificação é toda térrea, porém em sua entrada principal há um segundo pavimento”. Sobre alguns detalhes do prédio afirma que “sua fachada é marcante por ser de esquina e apresentar elementos que destacam como a presença de uma sacada do pavimento superior, as janelas e o telhado. Pode-se perceber também o detalhe de frisos na fachada e a sacada trabalhada com elementos vazados em concreto. Outro detalhe importante é o uso da cor, onde o edifício foi todo pintado na cor branca dando aspecto de clareza e leveza a toda edificação”. Para finalizar, Fraga ressalva que “o colégio ainda preserva alguns traços e características originais desde a sua construção, pois ao longo dos anos o edifício sofreu algumas intervenções, mudando sua forma original”. Depois do encerramento das atividades do Colégio Salesiano, em 02 de setembro de 1991, foi

7


LEMBRANÇAS

inaugurada a Universidade do Estado de Mato Grosso em Alto Araguaia-MT, com funcionamento no período noturno, e por algum tempo funcionou concomitantemente uma Escola Municipal durante os períodos matutinos e vespertinos.

E ainda depois de tantos anos da construção do Colégio Padre Carletti, o prédio continua sendo utilizado para a educação, para a formação de cidadãos, para o desenvolvimento intelectual. E ainda guarda alguns vestígios, como as

enormes janelas, escultura Nossa Senhora Auxiliadora no jardim, Capela, Anfiteatro, portas, e tantos outros detalhes que acusam a passagem dos Salesianos que tanto fizeram para a educação araguaiense.

HISTÓRICO DA MISSÃO SALESIANA

A

Pia Sociedade de São Francisco de Sales foi fundada pelo Padre Giovanni Bosco, ou Dom Bosco no ano de 1859, em Turim, Reino do Pielmonte Sardenha, atualmente Itália. Dom Bosco nasceu em 16 de Agosto no Colle dos Becchi. Proveniente de uma família muito pobre, desde muito cedo se preparou para a missão de educador dos jovens pobres e abandonados, missão esta que foi revelada durante um sonho quando ele tinha nove anos de idade. Foi ordenado sacerdote em Turim na Igreja da Imaculada Conceição em 5 de Junho de 1841. E possui em sua vida três propósitos “Ocupar rigorosamente o tempo. Sofrer, fazer, humilhar-se em tudo, sempre que se tratar de salvar almas. A caridade e a doçura de São Francisco de Sales me guiará em tudo.” A Missão Salesiana é fundada e rapidamente multiplicam os oratórios, as escolas profissionais, os colégios e os centros vocacionais. E no ano de 1872 é fundado o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), com o objetivo de trabalhar especificamente para a juventude feminina. Na América Latina, a Missão Salesiana chegou no ano de 1875 na Argentina. E somente em 10 de julho de 1883 a Missão Salesiana chega ao Brasil, na cidade de Niterói- RJ. Expandiu para vários Estados do país. Vindo por via fluvial do Uruguai, chega a Mato Grosso, especificamente a Cuiabá, em 18 de junho de 1894.

8

Em 1º de setembro de 1894, foi aberto o Liceu São Gonçalo para o funcionamento regular do ensino primário. Pela falta de espaços, em 1895, os alunos foram transferidos para uma chácara mais ampla, onde começaram as primeiras oficinas de serralheria, carpintaria, alfaiataria e sapataria, passando a obra a intitular-se “Liceu de Artes e Ofícios São Gonçalo”. Por conta desses fatores, O Liceu Salesiano São Gonçalo passou a ser a “Casa Mãe” e o ponto de referência para a nascente Inspetoria, ou Missão Salesiana de Mato Grosso. Mesmo contando com a grande extensão territorial do estado de Mato Grosso, os salesianos fundaram casas, paróquias e escolas em várias cidades mais populosas e, do ponto de vista das questões sociais, as que apresentavam maiores problemas em relação à educação, assistência social, infra-estrutura básica de serviços, entre outros. A importância dos colégios salesianos para a educação em toda a região de Mato Grosso foi fundamental, pois o estado, por se situar na região centro-oeste, tinha pouco acesso aos grandes centros, o que dificultava o seu desenvolvimento sócio-econômico e educacional. E até os dias atuais, a Congressão Salesiana atende as Nações Bororo e Xavante, nas áreas dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em áreas consideradas de preservação cultural.


AGÊNCIA JUNIOR DE JORNALISMO

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL UNEMAT - CAMPUS DE ALTO ARAGUAIA


LEMBRANÇAS

A

A HISTÓRIA EM FASES

sequência do tempo para a Obra Salesiana em Alto Araguaia teve fases que determinaram as dedicações dos salesianos e a capacidade de contextualizar o carisma na região; por outro lado estas fases também foram marcadas pelas idéias e posições dos salesianos em relação à Prelazia. Conforme prevalecia uma visão de governo ou de horizonte de perspectiva a atividade salesiana progrediu se deslanchou ou ainda se modificou e assumiu outros caminhos que determinaram mudanças, às vezes radicais, quanto ao foco do trabalho dos salesianos. Da mesma forma intervieram as mudanças sociais, as atividades de produção da região, as políticas desenvolvimentistas dos governos, socialização da escola pública e o desenvolvimento da sociedade que permitiu maior acesso aos bens que o progresso do país. Estes fatores determinaram, às vezes um avanço ou um retrocesso nas atividades dos salesianos em relação à obra em Alto Araguaia. Cada fase ou postura dos salesianos em relação aos dois segmentos de atividade na região, a escola ou a educação e a evangelização como atendimento religioso, refletia e influência do modo de vida que a população da cidade e das fazendas tinham assumido. Um espírito de adaptação e de reciprocidade animou a vida salesiana para eu ela pudesse oferecer respostas e, principalmente, que estivesse em postura de guia e de orientadora da vida e da educação para os jovens, para as famílias e para a cidade. A integração

10

dos salesianos com a vida da cidade sempre foi intensa e marcante. Houve época em que os salesianos se sentiam muito amparados pelas famílias de liderança na cidade e na região. A presença da escola proporcionou um reconhecimento e aceitação do espírito salesiano de forma muito simples, mas profundamente arraigada na alma dos jovens e na esfera social. As fases históricas, sem critérios basilares que as estabeleceram, mais por presença e atuação dos salesianos, podem ser agrupadas segundo a seqüência: 1 – Fase: de 1920 a 1924 – fator importante foi a presença de D. Antonio Malan. Assim prescreveu o Pe. José Corazza sobre o início da Obra “Em 1920 D. Malan lança a pedra fundamental da futura igreja na praça principal da vila. Em 1921, tomava posse da paróquia o Pe. José Galbusera, acompanhado pelo irmão coadjutor, Me. Ângelo Sordi, que além de auxiliar como vigário, foi encarregado da agência local do correio e indicado para lecionar na escola ali existente. Aos 26 de fevereiro de 1922, D. Malan benzeu a primeira capela, ao lado da residência salesiana e as imagens do Sagrado Coração e de Nossa Senhora Auxiliadora. A igreja paroquial não pode ser construída por oposições de políticos. Ao lado da paróquia passou a funcionar uma pequena escola salesiana. Em 1922 D. Malan foi trasferido para Petrolina”. (Corazza, B. Informativo, nov-dez. Ano 20. Dez 1994)

2- Fase: de 1925 a 1926 – fator decisivo nesta fase foram os combates entre as facções políticas até a posse do novo governo em 22 de janeiro de 1926. Fase importante para a história da cidade. Pe. José Noronha deu grande ênfase e desenvolvimento para o oratório festivo. 3 – Fase: de 1934 a 1938 – A obra esteve fechada por ordem da inspetoria. 4- Fase: de 1939 a 1953: A presença salesiana se solidifica pelas atividades na escola, na “desobrigas” e no atendimento paroquial. Novo prédio para o Colégio, a presença das FMA (Filhas de Maria Auxiliadora). Mns. João Batista Couturon e D. José Selva, como pastores. 5 – Fase: de 1953 a 1969 – O colégio pode oferecer o primário e o ginásio. Cresce o número de alunos internos e externos. Atendimento paroquial prossegue no mesmo ritmo. Reinício da construção da atual Matriz. Aumento do prédio do Colégio. Fazenda. Inicia o longo período de governo de D. Camilo Faresin – Desmembramento da Prelazia e transferência da sede para Guiratinga. Em 1981 passa a ser diocese de Guiratinga. 6 – Fase: de 1970 a 1985. Tentativa de estabelecer além do Ginásio o Científico. Cresce o prestígio do Colégio, aumenta o número de alunos. Inauguração da Matriz. Auge do colégio e declínio d colégio a partir da grande revolução


da igreja e nas idéias provenientes do Capitulo Geral Especial. Fechamento do internato (1984) e das atividades da escola. Venda da Fazenda. 7 – Fase: de 1985 a 2005. A presença salesiana passa a ter o foco na atividade paroquial e nos oratórios ou atividade de promoção social. Presença do segundo Bispo Diocesano, D. José Foralosso e do primeiro bispo diocesano não salesiano a partir de 2001, D. Sebastião Assis de Figueiredo. A Ferronorte e o progresso da região. O pedido do Sr. Bispo Diocesano de entrega da paróquia para os padres diocesanos.

AS FASES DA HISTÓRIA DO COLÉGIO PADRE CARLETTI – AS MUDANÇAS NA REGIÃO E NA INSPETORIA

Ao falar exclusivamente da escola ou da presença salesiana na escola em Alto Araguaia acentuam-se alguns fases ou épocas: A – De 1921 a 1934 – Os salesianos Pe. José Galbusera, o fundador, e Me. Ângelo Sordi marcaram presença. Me. Ângelo Sordi dedica-se ao atendimento da agência do Correio e leciona em uma escola pública. Neste tempo, com a presença de D. Malan, as ativi-

dades dos salesianos convergiam para o atendimento pastoral da população. Depois da presença dos dois novos diretores, Pe. José Noronha de 1931-1933 e Pe. Colbacchini em 1934 fechou-se a casa salesiana. Também não estava mais presença D. Antônio Malan. B- De 1938 a 1949 – Sob a inspiração do novo Administrador Apostólico Mns. João Batista Couturon, Pe. João Duroure reabre a obra com uma subscrição a muitos fazendeiros colaborarem com uma construção para a reabertura da casa e da escola. Estas construções iniciadas pelo Pe. João Duroure ficavam paralela com a igreja perto da ponte e perpendicular ao Rio Araguaia que distava dali uns trinta metros somente. Nesta etapa a média dos alunos matriculados por ano variou de 70 a 127. A partir de 1945, o diretor sucessor do Pe. João Duroure, Pe. Maurice Laport continua com as atividades da escola e planeja um novo prédio futuro prevendo a expansão do colégio e o progresso da região. Em 1949 constroem as salas de aula e alguma parte do atual prédio que fica defronte ao colégio das FMA, neste ano os alunos são 124. C- De 1950 a 1952 – Quando as novas instalações de salas de aula, de escritórios e de dormitórios estão prontos como a primeira parte de um novo e amplo colégio para externos e internos, o número de alunos duplica: em 1950 são 141. Aumentando o número de alunos e tendo novas instalações, em 1952 os alunos somam 218. D- De 1953 a 1972 – Em 1953 chega a autorização para iniciar o Ginásio e neste ano os inter-

nos eram 105 e os externos 139, somando 244 alunos ao todo. Assim depois da nova estrutura, o colégio progride a cada ano, em 1960 ultrapassou os trezentos alunos, precisamente 309, para atingir em 1963 509 alunos. Este teto atingido em 1963 não prosseguiu, decresceu ou estabilizou em 350 alunos em 1969. A partir de 1970 até 1972 o Ginásio Pe. Carletti passou por um verdadeiro furacão; Pe. Peter Bütner e Pe. Konrad Wimmer chegaram para transformar as relações educativas e promover atividades de engajamento dos alunos. Por meio da Banda e da Fanfarra entusiasmaram os alunos, mas dividiram a comunidade. Os outros salesianos professores não aceitaram os valores educativos propalados por eles e a crise de instaurou. O desfecho aconteceu com a vinda do Pe. Nelson Pombo como diretor, eu já fora diretor em 19571962. O colégio voltou à normalidade e vida escolar tomou os seus rumos tradicionais. Em 1872, por pedido das autoridades e da população foi aberto o curso Científico, porém não conseguiu, por vários motivos prosseguir e teve que ser encerrado. Nesse período houve várias melhorias nos prédios do colégio. E – De 1973 a 1981. Neste período acentuou-se por dois triênios de 1973 a 1978 a normalidade da vida no colégio. Atingiu-se no início de 1978 o maior número de internos de todos os tempos, 142. Também nesta época houve muitas melhorias na fazenda com a manutenção das pastagens e com a divisão mais criteriosa para o manejo de gado. Quase toda a fazenda ficou

11


LEMBRANÇAS

formada e conforme o desejo do Pe. Paulo Mohr, em 1979 refez as cercas com madeiras que duravam 99 anos. Depois iniciaram as indefinições, outra vez, por novas idéias e novos questionamentos sobre a educação salesiana escolar; após dois novos diretores e muitas experiências novas, o internato estava no fim e a população não olhou mais com tanta segurança para o trabalho salesiano estas novas modalidades. Estas posturas levaram questionamentos ao cerne da obra, a escola em si, como escola salesiana particular. F- De 1982 a 1985 (1987)? – Desativou-se o Ginásio Pe. Carletti e a escola passou a ser conveniada com o Colégio das FMA. Tanto entusiasmo durou pouco e a consciência do trabalho salesiano não encontrou mais chão, teve que ser encerrada a atividade escolar salesiana em Alto Araguaia em 1987. Os salesianos desistiram da parceria com as FMA e concentram-se nas atividades paroquiais. A experiência teve seu preço. Porém os salesianos ainda continuavam morando nas dependências do antigo Ginásio Pe. Carletti. Então outros olhos e outras iniciativas se posicionaram ante o prédio do Colégio. A Prefeitura e a UNEMAT estavam de olho neste imóvel para suas atividades, em especial prevaleceu a atividade da UNEMAT.

O ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES EM ESCOLA E DO GINÁSIO PE. CARLETTI

12

Os salesianos ainda fica-

ram morando ou residindo nas dependências da escola até 1991. Depois passaram para a residência da paróquia, onde residem até os dias de hoje. De 1979 a 1982 a comunidade teve vários diretores e a comunidade mudou a atenção ou foco pastoral deixando cada vez mais a atividade escolar se desmantelar. Perdeu-se o centro da obra e atenção deslocou para uma atividade global: SDB, (Salesiano Dom Bosco) FMA, Cidade e paróquia. Uma vez perdido o foco e as motivações do trabalho salesiano em escola, os dias estavam contados e em 1982, em nome da ação-conjunta entre FMA e SDB, passou-se a parte formal escolar para a escola das FMA que eram conveniadas com o Estado. Este fato decretou o fim da atividade escolar dos salesianos em pouco tempo. Semelhante fato ocorreu com a comunidade Coxipó que passou sua escola para o São Gonçalo e permaneceu uma comunidade exclusivamente pastoral social e paroquial, mudou o foco. Em Alto Araguaia contribuiu para esse desfecho a diminuição dos internos, as dificuldades financeiras e salesianos que não mais se motivaram para trabalhar em escolas ou internatos. Como essa mentalidade estava disseminada pela maioria dos salesianos, a anuência foi tranqüila e a história se cumpriu e suas forças assumidas por seus agentes. Constrói-se a história pela possibilidade assumida e destinada a registrar-se como opção feita e executada. Assim se encerrou a atividade salesiana da educação escolar em Alto Araguaia.

SALESIANOS QUE

MARCARAM PRESENÇA Alguns salesianos tornaram-se muito significativos nesta presença por alguns motivos diferenciados conforme os tempos. Dom Antônio Malan – pelo pouco tempo e por suas intervenções corajosas. Pe. José Glbusera- primeiro diretor Me. Ângelo Sordi – pelos diversos trabalhos e atendimentos no início da obra. Mns. Joao Batista Couturon – grande apóstolo e grande missionário Pe. João Duroure – pela retomada da obra em 1938, pela sua capacidade de relacionar-se com as principais lideranças e como educador e como pacificador das grandes famílias em litígio. Pe. Maurice Laport – sucessor do Pe. Duroure fez o colégio progredir e criar mais visibilidade. Dedicou-se na construção da nova sede do colégio e em promovê-lo Ginásio. Pe. Alfeo Levorato- diretor por longo tempo. Procurou melhores os prédios do colégio. Pe. Nelson Pombo Moreira da Cruz – diretor por dois períodos e promoveu o bem-estar do colégio. Pe. Martinho Pini – o grande pároco de vários anos e de um atendimento impar junto a população. Muito piedoso e zeloso. Promoveu sempre a devoção a Nossa Senho-


ra Auxiliadora e a Dom Bosco. Muito estimado por todos. Pe. Firmo Pinto Duarte – Cuidou da escola e procurou manter o colégio apesar de todas as tendências para encerrar as atividades da escola. Pe. Paulo M. Mohr - grande trabalhador e dedicou-se muito em cuidar do internato e da fazenda. Pe. Sílvio Sartori – trabalhou aqui com muito carinho como ecônomo e como enfermeiro. Estimadíssimo por todos, em especial pelos alunos internos. Pe. Domingos Valero – estimado pelo atendimento aos alunos e atendimento na biblioteca. Termos de Visitas Inspetoriais Alto Araguaia, 10 de abril de 2005. Pe. Afonso de Castro – Inspetor BCG. O Pe. Afonso de Castro é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, graduado em Letras, Filosofia, Teologia e Pedagogia, Mestre em Letras pela UnB e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Unesp de Assis, SP. É autor dos seguintes livros: Formação Salesiana - Trabalho, Educação e Ética; Releitura do Sistema Preventivo na Sociedade Pós-Moderna; Carta de Roma de Dom Bosco - Reflexões; Presença Institucional Salesiana; Entre o Vale e a Imagem; Carisma para Educar e Conquistar: Espiritualidade, Alegria e Prazer na Educação Salesiana; e Caminhos Pedagógicos - A poética de Manoel de Barros.

13


LEMBRANÇAS

Tempo bom que não volta nunca mais P

artindo da concepção de que patrimônio histórico-cultural vem a ser manifestações ou testemunho significativo da cultura humana é que torno público esse artigo. Na Revolução Francesa, em meados do século XVIII, foi despertado o interesse de fazer com que os monumentos históricos pudessem manter-se vivos na memória dos povos, evitando cair no esquecimento. A partir dessa determinada época começaram os esforços e ações políticas para preservação e conservação de bens móveis e imóveis existentes em todo o mundo. Em Alto Araguaia, município de Mato Grosso, cidade pacata com aproximadamente 15.644 habitantes (segundo último Censo do IBGE em 2010), há um monumento histórico o qual ainda é pouco conhecido, mas que merece todo o reconhecimento de sua população e do Estado de Mato Grosso. Monumento arquitetônico com objetos estruturais herdados do passado, cheios de valores históricos e culturais e que representa a fonte de uma sociedade intelectual vivida em meados dos anos de 1969 a 1986. Estou me referindo ao Colégio Padre Carletti, inicialmente chamado Patronato Salesiano e, nos dias atuais, funciona como prédio do campus da Universidade do Estado de Mato Grosso, pertencente aos munícipes de Alto Araguaia-MT. Quando patronato, funcionava um colégio particular em poder dos salesianos, e tinham alunos em regime de internato e externato. Com seu fechamento, por questões que não são finalidade desse ar-

14

tigo abordar, após alguns anos a Unemat, em parceria com o município de Alto Araguaia, conseguiu efetuar a compra do mesmo, tornando-o sede de um dos campus da Universidade. Está cercado de histórias. Possui um enlace antropológico entre o homem e sua existência e toda a cultura de um povo ali vivida durante anos. Seus instrumentos de comunicação, as relações sociais, os comportamentos coletivos, os sistemas de valores e crenças que se tornaram referências culturais e educacionais. Enfim, tudo contribui para a história. São signos culturais que requerem um apreço diferenciado, pois possuem valor histórico, cultural, arquitetônico e que, de certa forma, têm um valor afetivo para a população e para aqueles que puderam ver de perto a sua construção. Ao entrevistar os ex-alunos do Colégio Padre Carletti, que ficou conhecido na cidade como Colégio dos Padres, os mesmos mostraram total apego à vivência da época. E para os que ainda residem na cidade, maior emoção de passar em frente ao colégio e poder relembrar os bons momentos que ali viveram. São memórias coletivas que nem o tempo foi capaz de apagar. E poder ter pelo menos uma parte da história faz com que a cada dia se renove as lembranças. São momentos marcantes em cada pessoa que passou pelo colégio. Os autores que participaram da construção dessa história de educação referencial, religiosidade que ajudou a formar cidadãos, incentivo à musica, ao esporte, ao teatro e ao cinema merecem emocionada gratidão por todas as contribuições.


O ser humano é movido por reflexões sobre sua existência. Esse monumento traz características da cultura de um povo e auxilia na formação da identidade. A História só ganha vida quando, através do patrimônio, se reconhece como identidade de um povo, de uma nação, pois é a historicidade que desempenha o papel de diferenciador de cada cultura. Cabe ao Estado proteger, considerando a lei vigente, pois pela Constituição Federal, os poderes federal, estaduais e municipais devem zelar por todos os patrimônios de diferentes formas. Porém, a iniciativa do tombamento, ou seja, de registrar algo que é de valor para uma comunidade, neste caso, deve partir do município, pois visa à preservação da memória e outros referenciais coletivos em diversas escalas da população de Alto Araguaia. São fotografias, acervos, mobiliários, que relatam toda uma história intelectual que a população viveu. Não é preciso um diploma para perceber que a preservação do patrimônio e da memória, hoje, é o que salva uma cidade de um futuro horrendo. Analisando alguns artigos, o de José Francisco Hillal Tavares Botelho, jornalista, escritor, Mestre em Letras e Delegado Regional da Defesa Civil do Patrimônio Histórico (Defender) em Bagé, um fato abordado por ele me chama e leva à reflexão. “Imaginemos agora que franceses e italianos houvessem destruído todos os seus bulevares, demo-

lido o Coliseu e as vielas de Florença, soterrado em concreto as praças de Veneza e posto abaixo a Catedral de Notre Dame e as escadarias de Montmartre – tudo para erguer estacionamentos, prédios comerciais e condomínios de trinta andares. Ao apagar seu passado, que tipo de futuro restaria a esses países?”. Reflexão melhor não haveria nesse momento. O que nós, araguaienses de berço, estamos fazendo para mudar esse cenário? Qual atitude ou iniciativa tomamos para conseguirmos ou pelo menos almejar que nosso patrimônio, prédio atual da Unemat, fosse tombado e reconhecido como patrimônio históricocultural de Alto Araguaia? Nada, simplesmente nada. A era “econômica” das ferrovias que hoje regem a arrecadação do município está se findando? E ai? Ficaremos novamente no esquecimento. Veremos tudo passar de braços cruzados? Sim, porque um povo que vende sua identidade está condenando às futuras gerações. Não falo só da pobreza espiritual não, mas das questões imprevisíveis da economia do município. Uma sociedade que cultiva e respeita seu passado histórico, planta o alicerce de um futuro digno e mais humano. Só depende de cada um. Artigo por Tatiane Cristina Rezende Vilela

15


LEMBRANÇAS

ENSAIO

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Padres do Colégio Padre Carletti e Freiras do Instituto Maria Auxiliadora em reunião com amigos

Prédio do colégio Salesianos e alunos juntos com a imagem de Dom Bosco

16

Prédio do colégio

A


MEMÓRIAS Alunos com diploma foto retirada em frente a fachada do prédio

Alunos com uniforme Salesiano

Capela do colégio

Da esquerda para a direita: Mané Catira, Ronaldo Taveira, Padre Martinho, Toninho Português, Carlos Henrique, Milton Morbeck (Miltinho) e João Bosco

17


LEMBRANÇAS

Boletim Lioniê Vitório (Nico)

Formandos com o paraninfo Dr. Sebastião e sua esposa Eula Márcia

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Formandas Marinês e Ismênia junto com seus pais Nancy e João Ferreira

Apresentação musical Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Aluno José Laerte Vieira Campos recebendo o diploma de sua madrinha Nancy

18

Apresentação musical


Avenida Carlos Hugueney Boletim Lioniê Vitório (Nico) Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Avenida Carlos Hugueney

Alunos, padres e bispo Dom Camilo Faresin

Igreja Matriz Atualmente

Andaimes da construção da Igreja Matriz

19


EDUCAÇÃO PEDAGOGIA SALESIANA: EXCELÊNCIA EM EDUCAÇÃO Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

A

linha educacional dos sa- suficiente consiste em o educador ências vividas na família e na solesianos é voltada para demonstrar ao educando que sua ciedade, tendo uma educação mais proporcionar aos seus alu- falta prejudicou a amizade e sim- reforçada para sua melhor aprennos uma educação integral que os patia que tem com ele, o educa- dizagem e formação, ou seja, vem prepare para uma vida social cris- dor”, relata o ex-padre Peter Büt- a ser a continuação da Educação tã, que vise construir uma maior tner, diretor do colégio na época. Infantil que requer maiores cuiigualdade de partilha dados, para que não e justiça numa socieatrapalhe o seu prodade livre, democrágresso no trabalho e tica e participativa, em estudos futuros. com base no Sistema Nesse período é Preventivo de Dom reforçada a capaciBosco. dade de aprender, A disciplina dominando ainda rígida aplicada aos mais a leitura, escrita seus alunos é exeme cálculos; conheciplo que faz toda a dimento a respeito de ferença na formação tecnologias, artes e de cidadãos honesvalores de uma soSala de Aula do Colégio Padre Carletti na década de 70 tos e qualificados, ciedade; e principrezando sempre pela qualidade No período vespertino palmente o fortalecimento dos de ensino com professores capa- funcionava a Educação Infantil vínculos familiares, dos laços de citados que proporcionam conhe- com alunos a partir de 05 anos de solidariedade humana e tolerância cimento de alto nível, centrado idade e a transmissão do conhe- e paciência quanto à vida social a nas relações de comprometimento cimento era feita com atividades que está o aluno se inserindo; descom a transformação da realidade lúdicas baseadas na alfabetização pertar o senso crítico de cada um, na qual estamos inseridas, para a e em seus aspectos físico, psicoló- sua capacidade de argumentação, indispensável formação de uma gico, intelectual e social. Visando na busca de respostas aos seus sociedade voltada para a educação desenvolver o seu físico, sua co- questionamentos; acompanhar o dos seus, ponto culminante para a ordenação motora, o domínio de amadurecimento dos jovens que construção de cidadãos. seu corpo, reflexões sobre o mun- estão sofrendo transformações na No Colégio Salesiano Pa- do em que vive, em seus aspectos vida social, auxiliando-os a serem dre Carletti essa era a missão dos culturais e sociais, de forma crítica solidários, capazes de respeitar ao diretores e professores que ali es- e transformadora; aprender a ler e próximo e as diferenças de cada tavam a serviço do bem, orientan- escrever, fazer cálculos, resolver um; conscientizar a preservação do e ensinando seus alunos nos problemas, interpretar dados, fatos do meio em que vivem, da cultura, momentos de maior dificuldade, e situações; aprender a interagir, da religião, da arte, do esporte e da esforçando-se para entendê-los participar e conviver com os de- disciplina perante uma sociedade. e descobrir os valores morais de mais alunos. E por fim o Ensino Cientícada um que ali estava. “A peda- De manhã funcionava o gi- fico onde os alunos ao concluírem gogia aplicada no Colégio Padre násio (conhecido atualmente como estavam aptos a dar aula, porque Carletti era de respeito e amor, de Educação Fundamental) sendo as se baseava no Magistério que hoje amizade e simpatia. Não permitia séries de 5ª a 8ª geralmente a partir já não compõe a grade da educacastigos violentos e agressivos. dos 11 anos de idade. Já nessa fase ção. Dividiam-se em 02 séries miDefendia, portanto, que a punição o aluno vem carregado de experi- nistradas de manhã junto com o

20


ginásio. Dedicação exclusiva no ensino, na religião eram metas a serem cumpridas por cada profissional do Colégio Padre Carletti. Com aproximadamente 140 alunos em regime de internato e externato a tarefa a ser cumprida não era tão simples assim. Como era cobrado dos alunos o esforço, notas excelentes e um ótimo comportamento, tinham que fazer sua parte também. “O dom de transmitir e ensinar, é uma coisa pessoal mesmo, mas o aspecto presença, o aspecto cumprimento de calendário, o aspecto disciplinar era rigoroso e eficiente no colégio”, relembra o ex-aluno e professor Herotides Alves da Costa que já está aposentado. Varavam madrugadas nas correções das avaliações para que no outro dia logo pela manhã os resultados estivessem ali, prontos para serem noticiados. Havia cobrança tanto dos alunos quanto dos professores. A presteza era inconfundível, por isso fez e faz diferença até hoje seu método de ensino. Quanto aos conteúdos, esses sim se tornam um patrimônio histórico que devemos preservar. Não se limitavam a proporcionar aos seus alunos os melhores livros didáticos completos, diferentes dos que ora são apresentados, re-

sumidos. “Então o aluno que saía do colégio, terminava uma oitava serie, nos tínhamos o ginásio e o primário, então ele saia com muita competência, ele saia sabendo, ele pegava o conteúdo”, relata o professor Herotides. Esses sim eram extensos, complexos, feitos para despertar a intelectualidade dos alunos, domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna, conhecimento das formas contemporâneas de linguagem e conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício da cidadania. “Hoje há uma diminuição de conteúdo, e é por isso que às vezes me chamo de radical, mas não é. Hoje dão conteúdos na oitava serie que antes era visto na quarta serie. Então fica um vazio muito grande. Naquele tempo você era obrigado a cumprir aquela meta estabelecida”, complementa o professor. Acompanhamento e avaliação escolar eram feitos periodicamente, a fim de constatar a eficácia e eficiência dos alunos, contribuindo para sua inserção futura na sociedade cristã. Aqueles que demonstravam dedicação nos estudos e bom desempenho, eram premiados com medalhas e certificados de comportamento como forma de incentivo aos estudos.“Rigidez no ensino, dis-

Desfile ao lado do colégio

ciplina tudo era bem controlado e quem se desviasse era chamada a atenção. E pela boa conduta e bons resultados nas provas os alunos eram premiados. Eu, por vezes recebi varias premiações, certificados de comportamento, de aplicação em aula, de melhores notas, tudo isso, e quem ganhasse levava o premio”, conta o ex-aluno Kleber Aires Fávero, servidor público aposentado prestando serviço para a Secretaria de Fazenda do Estado de Mato Grosso. E para aqueles que não conseguiam desenvolvimento necessário para premiação, se esforçavam mais ainda, para que na próxima vez obtivesse êxito. Era uma forma de ajudar os alunos a terem maior interesse em aprender, a ter conhecimentos necessários e utilizados por uma vida inteira. A repressão que ali existia era para incentivá-los a crescer intelectualmente e pessoalmente, para que se tornassem pessoas de bom caráter, boa índole, distribuidores de conhecimentos e cultura. Os salesianos assumem com total responsabilidade e seriedade o caminho mais correto para se chegar a uma educação de qualidade. Educação é a base de uma sociedade, por isso investiram durante todo o seu existir no município de Alto Araguaia, em infraestrutura, diretores, professo-

Acolhida antes do início das aulas

21


EDUCAÇÃO

Lioniê Vitório (Nico) na época em que era aluno do colégio

res assim como autores dos livros e materiais didáticos aos seus alunos de forma com que os mesmos concorressem para qualificações por ora hoje quase desaparecidas no âmbito da educação no Brasil. Seu diferencial era notório em relação às demais instituições de ensino ali presentes nos municípios. Seus alunos eram reconhecidos e possuidores de prêmios por onde passavam. Destacavamse perante todos os lugares que vieram a percorrer. “Sinceramente Alto Araguaia viveu ANOS DE OURO sem sombra de dúvida, uma época intelectual jamais vivida, foi um ensino de qualidade que hoje dificilmente se vê, a qualidade de ensino que tinha aqui, e eu pude vivenciar e compartilhar com os outros alunos essa educação de qualidade”, disse Donald Ferreira

(Nico)

ex aluno, servidor público estadual. A educação salesiana está a serviço da formação integral da pessoa. Sua missão é fornecer razoes de vida e de esperança às novas gerações, mediante um saber e uma cultura elaborados criticamente, com base na concepção da pessoa e da vida inspirada nos valores evangélicos. Dom Bosco dizia: “quando se trata de educação não se pode deixar de lado a religião”. A educação aplicada pelos salesianos se sustenta em um tripé: a razão, a religião e o carinho, ou seja, em explicar, ensinar, orientar no processo educativo das crianças e dos jovens. Não somos apenas carne, corpo e inteligência. Temos uma alma que necessita de cuidados, devemos amar e cuidar

Carteira do estudante Milton Morbeck Filho

22

de nossas crianças e jovens com o carinho que precisam e a firmeza que necessitam. Dom Bosco tinha uma idéia bastante clara do problema educativo. Escolheu, adotou como seu e propôs para os educadores salesianos um método, o Preventivo. O Sistema Preventivo de Dom Bosco não constitui exatamente um sistema, no sentido de tratado científico. É a forma de ensino de qualidade, um estilo de educação particular que os salesianos pregam por todo o mundo. Método esse que possui consistência, convicções e conteúdos precisos, atitudes, estruturas, que deu certo com os alunos do Colégio Padre Carletti e estende-se pelo mundo inteiro, se tornando referencia em educação.


EDUCAÇÃO O SER HUMANO CONDENADO A SER ETERNO APRENDIZ

E

ntre os primatas não humanos, na sua escala mais alta, destacam-se o orangotango, o gorila e o chimpanzé. Ao estabelecer comparação entre eles, aparece a posição ontogenética (o que se refere ao desenvolvimento de um indivíduo desde a concepção até a maturidade) e telencefálica (o que se refere ao telencéfalo, parte superior do cérebro do ser humano propiciando-lhe o pensar livre crítico-criativo-cuidadoso.) especial do ser humano demonstrando seu significado e as conseqüências para as Ciências da Educação. Muitos pesquisadores deste assunto chamam a atenção para o fato de que apesar das geralmente numerosas semelhanças físicas e concordâncias entre homem e chimpanzé - em vista do tríplice volume cerebral e das duas vezes mais longa infância e fase juvenil do ser humano, este, por esta mesma razão, possui capacidade de aprender e a necessidade de aprender e ser educado como condição impreterível. Konrad Lorenz demonstra a mesma convicção, resultado de suas pesquisas famosas. Vejamo-la: “O membro intermediário entre o animal e o homem verdadeiramente humano (o homem sapiente), já por muito tempo procurado, somos nós (o homem discente, isto é, capaz de aprender)! O primeiro grande impedimento para o homem chegar ao conhecimento de si mesmo, a aversão de aceitar nossa descendência de animais, consiste... na ignorância ou na má compreensão da índole da criação orgânica. Fundamentalmente, pelo menos, este impedimento pode ser extirpado do mundo pelo educar e aprender”. Richard Lewontin acentua que a expansão da humanidade sobre o Globo Terrestre, bem como a criação de culturas altas e do progresso técnico, não foi uma necessidade genética. “Mas o que foi tudo isso, então?” questiona ele. “Puro acaso?” Em sua visão, criada por meio de pesquisas e estudos muito sérios e profundos, o sucesso do homem se deixa explicar somente pelo seu desenvolvimento cultural e sua capacidade de aprender e ser educado: “É muito mais provável que, por exemplo, a cooperatividade, uma maneira muito inteligente, se desenvolveu como adaptação cultural às inseguranças manifestas do meio ambiente.” Marvin Harris defende, como Lewontin, que o desenvolvimento humano não pode ter unicamente causas biológicas, sendo isto geneticamente impossível em vista da curta duração da história da humani-

24

dade, curta demais para desenvolver, por mutação e seleção, novos genes de comportamento. Diz Harris: “Nós, os que constroem e usam computadores, não somos por natureza mais sábios do que os homens do tempo glacial, os quais provavelmente observaram e registraram as fases da lua... Nada em nosso material genético prescreve ao nosso cérebro usar disquetes em lugar de estiletes e chapas de pedra. Nós dispomos de disquetes e animais domésticos, porque a seleção cultural se ocupa disso e não porque a seleção natural favoreceu tal coisa” Isto significa que, geneticamente, vivemos ainda na Idade da Pedra Lascada, no Paleolítico. O que nos diferencia dos seres humanos daquela época não são os genes. Bem ao contrário, a cultura conquistada pela espécie e que pode ser transmitida e adquirida por cada indivíduo através da aprendizagem. É, portanto, a seleção cultural e não a genética que constitui o motor do desenvolvimento humano. Necessidades e acasos biológicos entram no jogo, mas são subordinados às invenções e providencias inteligentes dos seres humanos. O que, então, é a seleção cultural? Como na seleção natural os indivíduos se adaptam a certas condições do meio ambiente, no entanto não pela modificação de seus genes, mas por meio do processo da aprendizagem, assim, os habitantes do clima frio desenvolveram maneiras de comportamento diferentes dos homens do clima tropical. Os de grandes concentrações urbanas, como São Paulo e Tóquio, aprendem a sobreviver de outra maneira que os habitantes isolados nas matas de Mato Grosso ou no sertão do Nordeste. Em certos casos, desenvolvemse até comportamentos novos e assim resultam, no decorrer de poucas gerações, também novos modelos de comportamento e formas de sociedades diferentes. É importante saber que o ser humano pode e deve liberar-se de pressões da seleção natural por meio da cultura. É indispensável agir de acordo com isso para quem se preocupa com uma nova Ética e com um paradigma de Educação capaz de modificar os comporta-mentos obsoletos, ultrapassados ou inadequados, e de transformar a sociedade. Isto, por sua vez, significa contribuir para num processo de globalização das sociedades a fim de alcançar, em longo prazo, uma comunidade global com maior justiça, segurança e paz, por meio de comportamentos ecológicos, consoante com uma nova Ética, nascida de


consensos intersubjetivos. Esta sociedade deveria ter características que permitissem aos indivíduos fracos e menos favorecidos sobreviver com dignidade. Sistemas eficazes de saúde, de educação e de organização social e política podem alcançar isso. A técnica genética pode melhorar o patrimônio hereditário e propiciar a transmissão deste as outras gerações. Podemos pensar no caso extremo, em que o desenvolvimento cultural inverte os mecanismos da seleção natural. Lewontin exemplifica esta situação. Hoje, a maioria das crianças não nasce nos países industrializados onde existe muito alimento, mas nas regiões nas quais vivem os pobres. Por esta razão, os países do hemisfério sul contribuem muito mais com genes para a espécie humana, em geral, do que os países nórdicos. Assim, as frequências genéticas do ser humano se aproximam, em longo prazo, cada vez mais daquelas que são típicas dos sul-americanos, asiáticos e africanos, tornando as diferenças das raças menores. Por meio de seu desenvolvimento cultural, o homem se fez a si mesmo gerente da evolução. Com base neste fato, Lewontin defende que o tempo dos acasos terminou e que agora os humanos devem decidir, eles mesmos, como sobreviver, como viver e conviver. Ele escreve: “A evolução de nosso sistema nervoso central, a da mão, do olho e da língua libertou o homem dos grilhões biológicos. Nossa consciência e nossa organização social são os meios com os quais determinamos o nosso futuro.” A ideia mais relevante que podemos tirar destes estudos é esta: da nossa herança biológica, como da cultural, temos de tirar as conclusões para uma nova e adequada visão da vida e da educação. Nosso telencéfalo é o nosso órgão da liberdade no sentido de ele poder pensar e criar tudo o que nos é necessário para viver, e muito além disso. Ele não somente pode e deve substituir os programas do diencéfalo (o que se refere ao telencéfalo, parte superior do cérebro do ser humano propiciando-lhe o pensar livre críticocriativo-cuidadoso) e tampouco apenas controlar os instintos que possuímos e que nos estimulam, seja para ações favoráveis a nós, à nossa sociedade e ao ambiente em que vivemos, seja para atitudes desfavoráveis. Este telencéfalo maravilhoso, o melhor órgão que no decorrer da evolução se desenvolveu, é criativo e inventivo, pensativo e reflexivo, capaz de criar tudo aquilo que chamamos de mundo cultural humano e que abaixo da dimensão humana não existe. Se ele é o nosso órgão da liberdade, ele é igualmente o nosso órgão da necessidade, pois, estar livre de programas automáticos, que em todos os animais resolvem o desenrolar da vida, significa que necessitamos usar as nossas habilidades do pensar e de criar para construir a nós mesmos, a nossa sociedade e o nosso mundo. Não nascemos com conhecimen-

tos. Temos de conquistá-los pensando, investigando e experimentando inteligentemente. Mais ainda: não entramos neste mundo com as nossas habilidades e competências desenvolvidas, mas somente com o potencial dessas, o qual necessita ainda o seu desenvolvimento pelo processo da educação e aprendizagem. Para Gisela Miller-Kipp, “aprender” compreende todas as explicações possíveis do conceito de educação. Ela afirma: “É incontestável que o homem pode aprender e que ele deve aprender e isso tanto filo-historica como onto-historicamente ab ovo, compelido principalmente pela complexidade de seu meio ambiente e por sua maturação morfológica e neurológica retardada ou, falando em termos de períodos da vida, por sua infância e juventude prolongadas”. Para a mesma autora, a pesquisa humano-biológica é evidente e necessária para definir, na medida do possível, o necessário e exigível ao aprender e educar. Em sua visão, estas investigações devem-se voltar até a história natural, sendo impossível que o aprender da espécie humana aí não teria raízes. “Como organismo vivo ela (a espécie humana) faz parte e é parte dum processo de aprendizagem que está durando já pelo menos dois bilhões e meio de anos - o da evolução biológica. Pode-se admitir que este processo de aprendizagem, brincando geneticamente, deixa e deixou marcas formais e materiais até dentro da ontogênese durante aproximadamente cem mil anos do processo da aprendizagem culturalmente mediata, na evolução cultural.” Nesta visão, compartilhada pela maioria dos pensadores da Antropologia Pedagógica, procurei recorrer a pesquisas desta natureza, a fim de tirar delas o necessário para evidenciar que o ser humano deve aprender, de uma ou outra maneira, tudo o que tem de saber. Precisa até mesmo aprender a aprender, necessita a aprender a pensar, principalmente a pensar inteligentemente e deve pensar inteligentemente para viver, sobreviver e conviver feliz em sociedade. Por necessidade, a educação deve, sobretudo, instigar e desenvolver estas habilidades, levando-as à competência e, ao mesmo tempo, propiciar o acesso adequado ao patrimônio cultural, àquilo que já foi experimentado e aprendido por outros indivíduos da espécie e se tornou propriedade disponível para todos que o buscam. Evidentemente, existem para isso diversos tipos de educação, inclusive a auto-educação. Sem educação, o Homem não é propriamente humano. Isto é uma outra consequência da nossa situação telencefálica, da nossa problematicidade. Esta tem como característica a imperiosa necessidade de sua educação e de sua aprendizagem do pensar inteligente, condenando-o a ser Eterno Aprendiz. Artigo inédito por Peter Büttner, produzido especialmente para Memórias

25


ENTREVISTA

PETER BÜTTNER:

O diretor que marcou as Memórias dos alunos Por Maria Madalena Cardoso Macedo e Tatiane Cristina Rezende Vilela

O

Prof. Dr. Peter Büttner, nasceu na Alemanha e após concluir sua faculdade de Filosofia veio para o Brasil na década de 60, um pioneiro da Filosofia e de Filosofia para Crianças no Estado de Mato Grosso e no Brasil. Pós-doutor em Educação pela LeopoldFranzens-Universität zu Innsbruck (LFUI), Áustria. Ainda, é professor emérito da Universidade do Estado de Mato Grosso desde o ano de 2006. Reside em Cuiabá-MT e nos concedeu essa entrevista por e-mail.

1- Em que ano o senhor chegou a Alto Araguaia? Conte um pouco sobre a sua chegada e como a cidade era nesta época. Cheguei em Alto Araguaia no início de fevereiro de 1969, de ônibus. Este parou perto da Igreja Matriz, ainda em construção. Nesse tempo, não existia a rodoviária. O que chamou a minha admiração foi a avenida dupla que percorre toda a cidade, com asfalto novo, iluminação elétrica e arborização. Foi o Pe. Alfeu Levorato, meu antecessor no diretorado, que me recebeu e levou de jipe àquela casa salesiana, que durante quatro anos ficou sob a minha responsabilidade. 2- De que forma foi escolhido o nome do colégio? Pe. Carletti foi o superior dos Salesianos de Mato Grosso. Ele era um padre italiano muito animado e animador que soube despertar seus Salesianos, encorajá-los e estimulá-los, tanto em sua

26

vivência religiosa, quanto no seu trabalho como educadores que seguem o exemplo de Dom Bosco. Logo, o nome do Colégio é em homenagem a este homem, a fim de lembrar do seu exemplo e confiando em sua intervenção, no sentido de rogar a bênção de Deus sobre esta casa Salesiana e seus alunos de todos os tempos. 3- Quais foram os anos em que o senhor permaneceu no colégio? E em quais desses anos foi diretor? Fiquei apenas quatro anos - de fevereiro de 1969 a janeiro de 1973 - sempre como diretor dessa escola e também da comunidade religiosa dos Salesianos. Também pertenciam a esta comunidade o Pe. Konrad Wimmer e o Pe. Teodoro Neuhäusler, também os padres vigários, a saber: o Pe. Martinho da Matriz, de Alto Araguaia; o Pe. José Bessemans, de Alto Garças e o Pe. Higino de Ponte Branca. 4- Quais as disciplinas que o senhor lecionou? Dei aulas de “Ciências Naturais”, “Desenho Geométrico e Artístico”, “Religião e Artes Industriais”. A partir de 1971, em que criamos o Segundo Grau de Ensino, fazendo do Ginásio Pe.

Carletti o Colégio Pe. Carletti ministrei também as aulas de Biologia e Física. Esta implantação do Segundo Grau foi sugerida pelo Inspetor do MEC, o Dr. Luiz Carlos Manhães, que passou conosco mais de uma semana observando e fiscalizando tudo: as aulas, o funcionamento do internato com cerca de 80 alunos, a secretaria, as reuniões de professores, as atividades de alunos na horta, a criação de galinhas e porcos e no trato apropriado de gado leiteiro. Ele chegou à conclusão de que Alto Araguaia se tornou de fato um centro de estudos de “Primeiro e Segundo Grau”, propiciando estes estudos não apenas para jovens de Alto Araguaia e Santa Rita do Araguaia, mas também para os advindos de outros Municípios e de fazendas da região. No internato havia alunos de Mineiros, Cuiabá, Barra do Garças, Campo Grande e Goiânia. No ato da assinatura do documento que autorizou a implantação do Segundo Grau, o inspetor do MEC disse que considera o Colégio Padre Carletti e o Colégio do Buriti em Chapada dos Guimarães, como os melhores de Mato Grosso. 5- O sistema educacional dos


salesianos é exemplo até os dias atuais. Destaca-se sempre por ter como objetivo a formação de cidadãos honestos e competentes. O que o senhor poderia nos descrever sobre a convivência, os costumes e a cultura, levando em consideração sua ótica de educador. O sistema educacional salesiano certamente não mudou. Sua prática e execução competente, no entanto, estão muito dificultadas pelo fato de não serem realizadas por um número suficiente de educadores de formação salesiana e de dedicação tão exclusiva como era há quarenta anos atrás. A presença dos salesianos nas salas de aula, no pátio, nas diversões e passeios, nas festas e nas práticas religiosas era fundamental. Dom Bosco chamou seu sistema de preventivo e exigiu, por isso, a presença dos salesianos, ou pelo menos de um, dependendo do número dos alunos. Isto foi interpretado como vigilância exagerada e não como assistência que aproveita os acontecimentos da convivência para orientar o desenvolvimento de hábitos e habilidades que capacitam para a prevenção e evitando coisas adversas ao bem-estar e a felicidade. Cultivar a alegria e manter as crianças e os jovens ocupados sempre foi um objetivo importante dos Filhos de Dom Bosco. 6- Na época havia disciplina de Artes Cênicas ou alguma que fomentasse o teatro? Artes cênicas como disciplina do currículo escolar não havia. No entanto, um dos professores de Português, o Pe. Geraldo, ocupou em certo tempo boa parte de suas aulas com ensaios de teatro que resultaram em excelentes apresentações cênicas, ultrapassando o costumeiro teatro leigo. Não me recordo que método este

professor usou para atender as exigências do teatro e ao mesmo tempo das aulas de Português. Lembro-me que na reunião dos professores estas tentativas foram aprovadas e elogiadas, tanto como causaram ao público assistente surpresa e admiração. Sob este ponto de vista, o teatro não deixou de ser também aula de Português para muita gente e, para alguns, certa iniciação em artes cênicas. Lembro os nomes dos principais artistas, mas não de todos. Sendo assim, prefiro não mencioná-los. Um pequeno grupo de alunos que comigo produziu os respectivos cenários desenvolveu, sem dúvida, boas habilidades para isso. Apresentamos uma das nossas peças teatrais também em Alto Garças. 7- Conte-nos um pouco sobre o cinema do Colégio. O cinema do Colégio Padre Carletti foi o primeiro de Alto Araguaia. Funcionou na sala de teatro que no início só tinha contrapiso e paredes sem revestimento. Começamos no início do primeiro semestre de 1969. Os primeiros bancos foram feitos de tábuas de construção, até que ganhamos do Colégio Salesiano de Lucélia (SP) verdadeiras cadeiras de teatro. Os filmes foram apresentados aos sábados e domingos. O salão sempre foi cheio. Nosso cinema não foi considerado somente diversão, pois pode ser também aprendizagem e conhecimento e base de discussões e diálogos. Tivemos também o intuito de educar a forma adequada de comportamento para assistir bem e com proveito os filmes apresentados. Alguns alunos aprenderam manobrar a máquina e me substituíram algumas vezes nesta tarefa. Outros ajudaram a manter a ordem

e evitar gritarias indevidas. 8- E educação física? Como era tratada essa disciplina no colégio? Como disciplina curricular havia a Educação Física ministrada pelo Prof. Itamar. O esporte foi organizado e supervisionado também pelo Konrad, com a ajuda de alunos por ele escolhidos. Todas as tardes de sábado e aos domingos havia torneios de futebol muito animados. Muitos pais dos alunos vieram assistir a estes jogos. Havia ao mesmo tempo futebol de salão. Basquete e voleibol foram mais reservados para as meninas. Durante a organização de uma das festas de São Domingos Sávio, provocado pela falta de vagas nestes times femininos, o Pe. Conrado sugeriu criar times femininos de futebol e com eles um torneio próprio. Foi aprovado na reunião dos professores e posto em prática. O sucesso foi fantástico. Nunca mais, no entanto, foi repetido, dado que algumas religiosas recorreram a autoridades eclesiásticas que, então, proibiram esta “diversão pecaminosa”. A solução foi organizar mais jogos de voleibol que não tinham o predicado de “pecaminosos”. No primeiro ano de nosso tempo no Colégio Pe. Carletti os dois campos de futebol tinham um declive muito grande, o que dificultou bastante os jogos e favoreceu o time cujo gol se encontrou na parte mais baixa. Conseguimos o nivelamento dos dois campos com a ajuda do Sr. Onecídio, Prefeito Municipal da época, que liberou para isso a patrola da prefeitura. A criação do campo pavimentado de futebol de salão também propiciou mais possibilidades de jogar para o crescente número de alunos. Durante o ato solene de conferição do título de cidadão araguaiense que recebi em 06 de

27


ENTREVISTA

outubro de 2007, vários vereadores, ex-alunos do colégio, descreveram o grande prazer que os fins de semana esportivos lhes proporcionaram, muito mais do que eu na época podia imaginar. Não somente as atividades esportivas, mas também o cinema, os teatros, a banda e os desfiles, os passeios e excursões dos alunos internos e, sobretudo, as aulas de qualidade com a avaliação dos alunos através de conceitos qualificantes em vez de notas numéricas, contribuíram para estar no gozo de um ambiente educacional que propicia alegria, bem-estar e, principalmente, o desenvolvimento progressivo das habilidades e competências cognitivas, a ampliação do conhecimento e a formação de cidadãos responsáveis e competentes. O Colégio Pe. Carletti, de acordo com a afirmação do Inspetor do MEC da época, foi o primeiro de Mato Grosso que avaliou seus alunos com conceitos qualificantes. 9- O nome da nossa Revista é Memórias justamente para compartilhar as histórias que existem na memória das pessoas que fizeram parte desse momento histórico. O senhor possui em sua memória algumas histórias que gostaria de compartilhar?

Irei resumir aqui dois acontecimentos que nunca vou esquecer. No dia da comemoração dos 50 anos dos Salesianos em Alto Araguaia houve um grande desfile com 21 carros alegóricos. Vou descrever apenas um deles: os alunos da disciplina de “Artes Industriais” tinham produzido uma bem proporcionada Mini-Alto Araguaia. Continha os colégios, a igreja matriz, o hospital, o Banco do Brasil, as duas pistas de asfalto com quase todas as casas e lojas e

28

as árvores no meio. Esta maquete de alta perfeição foi montada sobre duas carretas interligadas por duas vigas de 12 metros e chapas de compensado. Os lados foram revestidos com pano, escondendo as rodas. Sobre o pano estava a inscrição garrafal NÓS JOVENS LEVAMOS A NOSSA CIDADE PARA FRENTE. Não foi nem jipe, nem caminhão que acionava a nossa mini-cidade, foram cerca de 20 jovens que a puxaram, cada um em uma corda. A banda tocava perto. Estando em cima do palanque, na frente da Prefeitura, pude observar a alegria e o entusiasmo da população e dos visitantes que se manifestavam em altos gritos e veementes aplausos. Ao meu lado, dos representantes da Secretaria Estadual de Educação e de outros visitantes de Cuiabá, que não me conheceram, pude ouvir elogios “desta escola que consegue fazer isto com alunos”. A outra história aconteceu na noite do dia em que o Pe. Inspetor, superior dos Salesianos de Mato Grosso, anunciou aos alunos que o Pe. Conrado e eu seríamos transferidos para outras escolas. Os Salesianos estavam reunidos no piso superior, quando tocou a campainha e logo mais uma sineta. Escutavam-se vozes murmurando. Saímos na sacada e vimos um batalhão de gente. Todos vestidos de preto. Não entendemos logo o que aconteceu. Foi quando esta turma de alunos começou a cantar e chorar e uma aluna fez um discurso em que, dentre outras coisas, pedia a permanência do Konrad e a minha no colégio. Infelizmente isto não dependeu de nós e não pudemos atender esta vontade. Creio que isso não é apenas uma historinha, mas parte da História de Alto Araguaia e Santa Rita do Araguaia, parte da nossa história.

10- O senhor possui contato com ex-aluno? Os nomes a gente sempre recorda em determinado contexto e não um após outro como numa chamada. O primeiro aluno que conheci em Alto Araguaia foi o Adalberto Fávero e, no dia seguinte, seu irmão Kleber. Tenho certo receio de citar os nomes dos quais, neste momento, me lembro. Os demais poderiam achar que não lembro mais deles. Lembro-me também de muitos, cujos nomes não consigo recordar agora, mas que estimo tanto como os que a seguir vou citar, mesmo com o medo de errar a ortografia ou de não saber o sobrenome, que deixo de lado quando não faz falta para saber quem é a pessoa. Assim, certamente, é com Salvi, Ary e Onicídio, Irene e Lúcia, com os médicos Wilson e Carioca, com Elias, Jordão, Jeremias, Laerte com irmão e irmã Dalma, Leda, Ademildes e Noecir, Terezinha, Clarismundo, Luciene com irmãos e Terezinha com irmãs e irmão Mauro. Outros, provavelmente, se deixam identificar com mais certeza acrescentando seu sobrenome: Domingos Dias, Edson de Freitas, Zeca Toledo com suas irmãs Maria Aparecida, Ana Maria, Ângela e os irmãos João Bosco e Jânio, Diógenes Fraga, Nelson de Barros, Maia Neto e irmão. 11- Como educador de formação salesiana e pioneiro da Filosofia e de Filosofia para Crianças no Estado de Mato Grosso e no Brasil, você poderia explicitar um pouco a pedagogia aplicada pelos salesianos a fim de propiciar o desenvolvimento das habilidades e competências, do conhecimento e da cultura, do caráter e da personalidade de seus alunos? A pedagogia dos Salesia-


de sobrevivência e da nos é o método de Dom globalização de vida Bosco. Evidentemente plena – o óbvio não o educador salesiano compreendido. Em estuda e aplica também linhas gerais, como linhas pedagógicas e analisa a educação teorias da psicologia nos dias atuais? educacional de hoje en Graças a pais e quanto estão em sintoeducadores compenia com a essência do tentes em educação, método de Dom Bosco - espalhados pelo Braou, pelo menos, não são sil, mas em minoria, contraditórias. existem muitas pesso Dom Bosco as educadas neste país. não viu nas crianças O assim chamado sise adolescentes apenas Peter Büttner na sala da diretoria do tema de educação do seres humanos dignos Colégio Pe. Carletti, quando foi diretor governo, no entanto, de respeito e atenção, além do nome, quase mas imagens de Deus. desde o ano de 1969 até 1973 nada tem de educaEstava convicto de que e socorre quando for necessário ção no sentido de uma tudo que fazemos a e prevê atos e comportamentos formação humana necessária. Na uma pessoa, diretamente a Deus fazemos e, por este motivo, deve que possam prejudicar as crian- verdade é apenas um sistema de ser feito como está certo e justo. ças ou os adolescentes, dando ou instrução e esta mal organizada e Sua pedagogia, portanto, é de res- lembrando-lhes conselhos, infor- pessimamente ministrada. Além do consumismo, da peito e amor, de amizade e simpa- mações e sugestões. Isto foi inter- tia. Não permite castigos violentos pretado e praticado, muitas vezes, criminalidade, da corrupção e de e agressivos. Defendeu, portanto, como sistema autoritarista, o que outros sistemas do gênero, o sisque a punição suficiente consiste não foi a intenção de Dom Bosco. tema falido da pseudo-educação A Filosofia para Crian- gera, permite e incentiva, mais e em o educador demonstrar ao edu- cando que sua falta prejudicou a ças foi criada por Mathew Lip- mais, a desordem e arbitrariedade, amizade e simpatia que tem com man cerca de cem anos depois de a insegurança quase total, a desiele, o educador. Dado que o aluno Dom Bosco. Ela é uma educação gualdade social etc. impedindo o não quer que aconteça isso, procu- do pensar inteligente e como esta verdadeiro progresso do bem-estar ra corrigir-se, o que significa um não é contraditória ao sistema sa- e da felicidade do povo deste país, progresso na educação. Na minha lesiano, mas o complementa ex- verdadeiramente abençoado pelas experiência, este tipo de punição celentemente como o demonstrou suas riquezas naturais, seu clima, compreensiva e construtiva fun- muito bem o padre salesiano Wag- sua beleza, sua convivência de racionou bem, mas exige muita ha- ner Galvão em sua dissertação de ças e culturas e muitas outras vanbilidade do educador. Ele, em seu mestrado em educação, que fez tagens mais. Não bastam instruções – processo de formação pedagógica, com a minha orientação. Este método objetiva edu- às vezes apenas copiadas ou detem de aprender na teoria e prática que educar é um processo cons- car o cidadão democrata com au- coradas. Conhecimento não se trutor e dignificante do educando, tonomia crítico-criativo-cuidadosa pode transmitir cada pessoa preprocesso que requer amor, dedica- no pensar, querer, fazer e sentir cisa construí-lo ou reconstruí-lo ção, compreensão e muitas habili- para a maior eficiência na produ- para si. Para isso é necessário e ção e no manejo ético e razoável indispensável educar a capacidade dades e competências educativas. A pedagogia salesiana foi da ciência e tecnologia, do cres- enorme do pensar humano críticochamada por Dom Bosco de pre- cimento pessoal e social, cultural, criativo-cuidadoso. Com esta base podemos promover competências ventiva. Ela estabelece que sem- político e econômico. no viver, conviver e sobreviver, pre tenha um educador junto aos educandos no sentido de assisten- 12- Você possui várias publica- competências para educar, trabate que, como a palavra diz, assiste ções como, por exemplo, o livro lhar e fazer uma política honesta ao aluno, o vê e ouve, acompanha Mutação no educar: uma questão e verdadeira, no sentido de orga-

29


ENTREVISTA

nização e construção do estado (polis) para a felicidade de todos – o que não depende apenas do governo, - podemos ser pessoas e profissionais éticos, habilitados e responsáveis e com uma visão e compreensão do mundo que nos faz mais humanos e garante a vida neste planeta.

13- Como era a relação de educação e religião aplicada nos Colégios Salesianos e como eram tratadas essas temáticas aqui no colégio em Alto Araguaia-MT. Um ministro da Inglaterra visitou a primeira casa salesiana em Turim e ficou admirado com o comportamento, com a alegria e o esforço nos estudos dos alunos. Perguntou, então, Dom Bosco a respeito de seu segredo para conseguir tudo isso, uma vez que as escolas que ele conhecia estavam buscando os mesmos resultados e não o conseguiam. Dom Bosco respondeu ao ministro que o tal segredo seria a religião que não existe nas escolas das quais ele fala. As escolas salesianas, entanto, buscam a prática da religião, a qual não deve ser confundida meramente com rezas, missas, procissões e práticas semelhantes, que também tem seu valor. Religião é muito mais do que um sistema de doutrinas, crenças e práticas rituais. É, principalmente, a crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende tanto o destino do ser humano, quanto à ordem do universo e ao qual se deve respeito, obediência e uma postura intelectual e moral que resulta dessa crença. (Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0). O Cristianismo inclui a fé em Jesus Cristo, sua ética e sua promessa de redenção e eterna felicidade. Muitos cristãos alcançam um relacionamento mais íntimo com Deus, conseguem viver na sintonia com

30

Deus. Entre muitos outros temos como exemplos o próprio Dom Bosco e seu discípulo São Domingos Sávio. Este relacionamento não é exclusivo dos cristãos. É relativamente raro, mas universal na humanidade. O Budismo, por exemplo, pode apresentar muitos exemplos semelhantes. Gandi não se deixou batizar pela razão de muitos cristãos não praticarem a ética de Cristo. Ele, no entanto, a praticou e alcançou este estar em sintonia com Deus. Para relacionar religião e educação aplicadas nos Colégios Salesianos quero lembrar que o objetivo mor desses é o cidadão ético e competente. Os Salesianos buscam para este fim educar uma postura intelectual e moral que resulta da crença no Deus revelado na Bíblia e explicitado como pai amoroso por Jesus Cristo. Muitos pensadores críticos de nosso tempo ultrapassam o conceito de religião apenas no sentido de religação do ser humano a Deus, e chegam à concepção bem mais ampla de religação (interligação) de tudo a tudo, no sentido da palavra cosmos que significa unidade ordenada da diversidade interligada como a ciência de hoje o concebe. Evidentemente, Deus não está apenas presente nesta ordem e interrelação, mas é autor e mantenedor. Teólogos cristãos contemporâneos interpretam o versículo do Pai Nosso: “Seja feita Vosso vontade assim na terra como no céu” no sentido de que os seres humanos deveriam chegar com seus procedimentos e criações, seus comportamentos e relações humanas à perfeição como no céu, isto é, como a ordem no cosmos, entendendo que apenas assim teremos uma Terra sadia e cheia de vida e uma sociedade justa e ajustada, pacífica e feliz. Certamente poucos educa-

dores interpretam o referido versículo do Pai Nosso assim, mas todos os bons educadores querem tornar seus alunos conscientes e competentes para contribuir a tornar a Terra e a nossa sociedade assim. No fundo de todas as nossas iniciativas e de nossos esforços no Colégio Padre Carletti estava esta intenção, mesmo que não tenha sido explicitada assim. E, como eram tratadas essas temáticas no colégio? Não havia aulas específicas para isso. Todas elas, no entanto, podem ser entendidas como pedras de construção desta visão do mundo. Certos alunos construíram mais, outros menos. Mesmo as aulas de Religião não foram dadas apenas e explicitamente nestes termos. Era costume dos Salesianos, desde os tempos do primeiro internato de Dom Bosco, de o diretor ou outro educador falar algumas palavras construtivas após as orações da noite, antes de os alunos se retirarem para dormir, a assim chamada Boa Noite. Nos externatos esta fala foi praticada antes de cada turno de aulas e foi chamada de Bom Dia. Assim também foi no colégio de Alto Araguaia. O objetivo dessas falas era ser como diz o provérbio Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. Em geral, estas “miniaulas” partiram de um acontecimento ou exemplo que chama a atenção dos ouvintes. Seguiram algumas dicas importantes capazes de fazer os alunos questionar e julgar o fato a fim de eles mesmos chegarem a uma opinião própria sobre o caso, à visão das conseqüências e das atitudes que possam ser tomadas. Procurouse clareza, brevidade, importância e acessibilidade para que, no decorrer dos tempos, estas gotas possam furar a pedra dura. Assim se tentou tratar temáticas indispen-


sáveis para, junto com as aulas do currículo, propiciar a formação de pessoas questionadoras, éticas e responsáveis, diligentes e competentes. 14- Quais foram as contribuições que o Colégio Padre Carletti trouxe para a vida do professor Peter Büttner? Conheci mais o povo brasileiro, seus costumes, pensamentos e sentimentos, suas preocupações, sofrimentos e necessidades, suas alegrias e esperanças, pois antes trabalhei em seminários onde tudo isso foi possível bem resumidamente. Tive a satisfação de perceber que meu trabalho junto ao dos meus colegas, digo colegas, incluindo à pequena turma de Salesianos os professores e professoras, os rapazes que, advindos de seminários salesianos, souberam trabalhar com mentalidade e aptidão de Salesianos, tanto como os empregados, percebi que é necessário e reconhecido, e dele está resultando, mesmo que parcialmente, o que se espera. Das conversas com alunos, seus pais e meus colegas, pude chegar à conclusão de que os votos de obediência, pobreza e castidade dos religiosos, apesar de terem seu valor diante de Deus, pouco são compreendidos e apreciados pelas pessoas leigas, mesmo que sejam cristãos fiéis e praticantes. Mais ainda, estes votos não se constituem para eles como testemunho do evangelho, mesmo que sejam chamados de conselhos evangélicos e sejam de sabedoria e renúncia em prol do próximo. Não perdi a visão dos valores destes votos e nem o espírito que os fundamenta, mas me convenci que até fiéis fervorosos não reconhecem ne-

les propriamente um testemunho evangélico e argumentam: vocês têm o voto de pobreza, mas vivem como ricos, têm o voto de castidade enquanto a Bíblia certifica que Deus criou a espécie humana à sua imagem... e criou-os macho

e fêmea. (Gen. 1,27) mandando: multiplicai-vos (1,28). Apresentam, também, a realidade histórica de que por muitos séculos os sacerdotes e mesmo bispos e papas eram casados. Duvidam, em fim, que os religiosos sejam fiéis a este voto, citando exemplos negativos concretos. O voto da obediência está sendo menos questionado, sendo evidentemente não compreendido. Mesmo não concordando com tudo o que ouvi contra a validade dos votos religiosos, tinha de admitir que eles para grande parte dos fiéis não tinham mais a função de testemunho e, muito menos ainda, para os não-fiéis. Mas, que testemunho de vida cristã se esperava de mim? Muitos me responderam: “Gosta-

mos de seus sermões e palestras sobre casamento, família e educação. Concordamos com eles, mas sentimos dificuldades que você não sente, dado que não é pai de família. Gostaríamos, além de sua palavra, também o seu testemunho da prática e vivência”. Li, meditei e dialoguei muito sobre isso. Cheguei à conclusão que bíblicamente não tem nada de adverso. Um bispo, ao qual revelei a minha idéia de encaminhar a minha vida de acordo com esta conclusão, me respondeu: “Espera mais vinte anos, até lá a Igreja vai permitir isso. Só podia responder com um sorriso nos lábios: ‘Excelência, daqui a vinte anos não terei mais idade para casar e criar filhos e, além do mais, o que é certo para Deus daqui a vinte anos, em todos os tempos está certo’”. Casei com autorização do Papa Paulo VI, sob pena de não poder exercer o sacerdócio publicamente. Adquiri a experiência de esposo e pai e posso dar o testemunho de uma família cristã, de sua convivência amorosa e feliz, do vencimento de problemas que surgem e da ajuda mútua e às pessoas menos favorecidas. Como professor, fiz na UFMT o que não me foi permitido na Congregação Salesiana. Não pratiquei cerimônias sendo estas proibidas, para mim, mas não perdi a qualidade de sacerdote. E mais uma contribuição de Alto Araguaia: a minha esposa maravilhosa, com a qual consegui criar uma grande família feliz junto com as filhas e genros, incluindo duas netinhas, que alguém caracterizou como “anjinhos que Deus mandou para alegrar os avós”. O terceiro está chegando e, provavelmente, vai ser o nosso menino Jesus no Natal deste ano.

31


RELIGIÃO

RELIGIÃO: Um bem necessário Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

A

religião surge em busca de catequizar o mundo, sendo introduzida através da fé em Jesus Cristo, sua ética e sua promessa de redenção e eterna felicidade. É o momento em que os cristãos alcançam um relacionamento mais íntimo com Deus e vivem em sua sintonia. É baseado nessa definição de religião que Dom Bosco e seus sucessores aplicam sua pedagogia inspirada nos ensinamentos bíblicos, visando à formação de jovens em cidadãos amadurecidos, que têm fé, que colocam no centro da sua vida o ideal do homem novo

32

proclamado por Jesus Cristo. “As escolas salesianas buscam a prática da religião, que não deve ser confundida meramente com rezas, missas, procissões e práticas semelhantes, que também têm seu valor. Religião é muito mais do que um sistema de doutrinas, crenças e práticas rituais. É, principalmente, a crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende tanto o destino do ser humano quanto a ordem do universo. A isso se deve respeito, obediência e uma postura intelectual e moral que resulta dessa crença”, diz o ex-padre Peter Büttner, que foi diretor do

Colégio Padre Carletti. Trata-se de uma fé viva, feita de presença e de comunhão, da Eucaristia, Penitência e devoção a Nossa Senhora, com amor à Igreja e aos seus discípulos. “A religiosidade sempre foi uma das metas do colégio. Existiam aulas de catecismo, certames de catecismo, oratórios, tudo dentro da filosofia de Dom Bosco. O colégio sempre pregou a catolicidade em favor de Cristo, Nossa Senhora, São João Bosco, Domingos Sávio. Então o colégio sempre se pautou pela religiosidade”, relata o exaluno Adalberto Aires Fávero, que se tornou Ministro da Igreja e é ad-


vogado. A linha educacional do Colégio Padre Carletti seguia junto à religiosidade, compreendia um itinerário de oração, de liturgia, de vida sacramental, de direção espiritual. Para alguns, resposta à vocação de especial consagração e para todos aqueles que crêem em Deus, a perspectiva e a obtenção da salvação eterna. A direção do Colégio, juntamente com os profissionais que ali se faziam presentes, tinha o objetivo de tornar seus alunos conscientes e competentes para a contribuição de tornar a Terra e a sociedade melhores. Não tinham aulas específicas para isso, mas existia a temática de Ensino Religioso onde aprendiam os certames de catecismo e a liturgia sagrada. À noite, antes dos alunos irem para seus dormitórios, o diretor ou outro educador falava algumas palavras construtivas, a assim chamada Boa Noite. Nos externatos, esta fala foi praticada antes de cada turno de aulas e foi chamada de Bom Dia. Büttner afirma que “objetivo dessas falas era ser como diz o provérbio ‘Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura’. Em geral, estas ‘miniaulas’ partiam de um acontecimento que chamasse a atenção dos ouvintes. Assim, os alunos eram estimulados à capacidade de questionar e julgar determinado fato, a fim de eles mesmos chegarem a uma opinião própria sobre o caso, à luz das conseqüências e das atitudes que podem ser tomadas”. Procurava-se clareza, brevidade, importância e acessibilidade para que, no decorrer dos tempos, estas gotas pudessem furar a pedra dura nos corações dos alunos. Assim, o Colégio Padre Carletti tentou tratar temáticas indis-

pensáveis para, junto com as aulas do currículo, propiciar a formação de pessoas questionadoras, éticas e responsáveis, diligentes e competentes. Tudo baseado nos passos de Dom Bosco, que introduzia em sua pedagogia de ensino a religião como base para uma vida saudável, honesta, pautada pelos princípios divinos. Por vezes, infindáveis retiros espirituais eram realizados com os alunos como forma de reflexão individual, para que cada um refletisse sobre sua moral, seu comportamento com a família, seu espírito de coletividade, de companheirismo e de sua vida para com Cristo. A religião é base da educação salesiana porque estimula o desejo de viver, de ser feliz. Faz com que a pessoa descubra o sentido da vida, e se abra para receber as graças de Deus. Estimula a crença, a oração, o amor mútuo, paz, perdão, convivência com a natureza, caridade e compromisso social, ética e cidadania. Incentiva a auto-estima, o afeto, a descoberta de talentos implícitos e a sobriedade. Dizia Dom Bosco: “Só a religião é capaz de começar e completar a grande obra de uma verdadeira educação”. É a força que torna o aluno capaz de assumir a proposta de ser bom cristão e honesto cidadão. A religiosidade é um hábito, porém não uma rotina. Os recursos religiosos ministrados no Colégio Padre Carletti, tais como confissão, comunhão, piedade e instrução catequética, tornaram-se procedimentos educativos que fizeram com que a vida religiosa fosse guiada junto à formação intelectual de cada um, criando assim uma pedagogia centrada na figura de Deus, referência em todo o mundo.

“Dom Bosco é o sacerdote zeloso que refere sempre ao fundamento revelado, tudo o que recebe, vive e doa. Este aspecto da transcendência religiosa, base do método pedagógico de Dom Bosco, não só é aplicável a todas as culturas, mas é adaptável, com fruto, também às religiões não cristãs” (João Paulo II, Carta Juvenum Patris, p.11). Durante toda sua vida terrena Dom Bosco mostrava através dos seus métodos de ensino a crianças e jovens que o homem formado e amadurecido é o cidadão que tem fé, que põe no centro da sua vida o ideal do homem novo proclamado por Jesus Cristo e que é testemunha corajosa das próprias convicções religiosas. No Colégio Padre Carletti sua missão foi muito bem recebida. Os ex-alunos reconhecem: “A religião era introduzida com muito rigor e colocava na cabeça que ou você era religioso ou iria para o inferno”, conta Milton Morbeck Filho. “A religião era uma coisa a se pensar. Eu entendia como fator principal. Nos retiros espirituais era como se fizessem uma lavagem cerebral, aquilo batia em você assim, o principio da religião, da moral, da paz de Cristo”, expressa Herotides Alves da Costa. “Tudo o que foi colocado em termos de valores pessoais, morais, religiosos, relacionamentos, tudo isso foi um ponto marcante não só para mim, mas eu creio que para todos que passaram pelo Colégio Padre Carletti”, opina Adalberto Aíres Fávero. “Eram momentos em que dedicávamos profundamente à reflexão, e isso fazia com que nos tornássemos homens de bem. Eu tinha esse compromisso”, diz Lioniê Vitório.

33


RELIGIÃO

EDUCAR É UM RISCO “A

verdadeira educação é aquela que educa o humano dentro de nós, uma educação do humano, do original que existe em nós, isto é, do coração. O coração do homem é em cada um de nós, sempre uno. Encontrei essa concepção no livro ‘Educar é um Risco’. Esse é o ponto de aproximação, ou seja, a fonte divina, quando as pessoas, os profetas e os homens religiosos têm no coração puro apegado a Deus” (Abbel-Fattah Hassan, Ex-parlamentar da Irmandade Muçulmana, Revista Passos - Outubro 2011). Li este texto e lembrei-me do Dia do Professor. Orei por eles, agradeci a Deus por eles existirem. Ao mesmo tempo me coloquei como um deles na missão de educar pelo coração. O Mestre dos Mestres foi categórico ao dizer: “Será que vocês ainda não entendem? Vocês não compreendem que tudo o que entra pela boca desce pelo estômago e acaba indo para a privada?” Ao contrário, as coisas que saem da boca vêm do coração; e é isso que torna o homem impuro. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que tornam o homem impuro; mas comer sem lavar as mãos, não torna o homem impuro (Mt 15,18-20). Jesus deixa claro que só seremos verdadeiros educadores quando entendermos que a missão nossa é tirar do coração toda a impureza que estraga os relacionamentos humanos. As coisas do coração são invisíveis aos olhos dos outros, mas sentidas e vividas com alegria ou tristeza, conscientes ou não a cada momento da vida, por todos nós. Por isso, mais que educar o coração dos outros é necessário começar a cada dia educando o nosso coração. Sempre procuro começar o meu dia com um momento de oração, silêncio e escuta. Falo também

34

e deposito no coração de Deus o meu dia, o programado e o não programado, as pessoas que convivem comigo e aquelas que vou encontrar durante o percurso. Procuro olhar as pessoas nos olhos, amá-las como são. Mesmo oprimido pelo tempo, dedico todo o tempo para cada um. Procuro viver cada momento como se fosse o único e o último de minha vida. Às vezes, a missão exige certa violência comigo mesmo, principalmente quando quero fazer tudo ao mesmo tempo. E ao refletir sobre como lidamos com o tempo, relacionei tudo isso ao nosso modelo educacional. Estou convencido de que a educação começa no coração do educador. Educar o coração e com o coração. Missão que hoje se torna cada fez mais arriscada, desafiadora, mas não impossível. Recomeçar sempre, valorizar o positivo e as pequenas iniciativas, minimizar os problemas, ter consciência das imperfeições... são caminhos para educar o coração. O educador, sendo pai ou mãe, professor ou religioso, nessa proposta, sente-se como um facilitador da vida. É um vocacionado do amor, profeta das relações humanas. Carregado de afetividade e transparente em suas emoções, vibra com o crescimento do outro. Assim, entendo que seremos capazes de grandes transformações. Rogo ao Senhor o dom da sabedoria a todos vocês, educadores. Que Deus vos abençoe nesta missão! Artigo por Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá - PR Dom Anuar Battisti nasceu em 19/02/1953 na cidade de Lajeado-RS, é arcebispo da Diocese de Maringá-PR. Formou-se em Filosofia pela PUC, Curitiba-PR. E em teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, São Paulo-SP.


SISPUM -

Sindicato dos Servidores Público Municipal de Alto Araguaia

Rua Santa Rita . n° 39 Alto Araguaia-MT CEP: 78780-000 . Fone: (66) 3481-3033


ESPORTE

CONTRIBUIÇÃO DO COLÉGIO PE. CARLETTI PARA O ESPORTE ARAGUAIENSE Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

O

Colégio Padre Carletti, em Alto Araguaia (MT), motivou de forma notória as práticas esportivas. Os alunos internos e externos praticavam educação física três vezes por semana em diversas modalidades, tais como: ping-pong, vôlei, espiribol e futebol, este último com maior ênfase. Por conta dessas aulas, eram realizados os campeonatos de futebol e as categorias eram divididas em infantil, juvenil e máster. Além de serem bem organizados eram também competitivos, mobilizando a cidade para assistir aos torneios de futebol. “Eram meninos bons de bola mesmo. Os padres davam todo apoio para eles se tornarem grandes jogadores. Ficaram feras e foram substituindo a gente no time do Pantera”, disse Antonio Geraldo (Totó), ex-jogador dos times de Alto Araguaia e fanático por futebol. Por vezes, o Pe. Afonso Barone (1909-1979) narrava os jogos com os melhores lances da partida, o placar, o jogador que marcou o

36

gol. Esse incentivo ao esporte fez com que muitos araguaienses fossem revelados no futebol. A exemplo disso, temos o ex-aluno Milton Morbeck Filho, que começou a jogar futebol no colégio, e quando tinha 16 anos iniciou no “Pantera do Leste”, time famoso não só na cidade, mas na época em todo o Estado de Mato Grosso. Depois foi jogar em Araçatuba (SP) em um time profissional. “No futebol eles colocavam mesmo a meninada para jogar. Não sei se era para extravasar ou fazer higiene mental, eles gostavam muito de campeonatos. Com isso surgiu muitos meninos bons de bola. Então, tinham os campeonatos, as taças, premiação, eu por exemplo, comecei a jogar futebol no colégio aos 16 anos, no meio dos homens no Pantera do Leste”, relata Milton Morbeck, que atribui o desenvolvimento do esporte ao colégio que lhe proporcionou o despertar para o futebol. Em 1968, jogou as finais do campeonato da primeira divisão do Estado de SP no Pacaembu

e posteriormente recebeu o convite para ir para o Rio de Janeiro jogar no Bangu. Morbeck foi para o Rio de Janeiro e lá foi convidado pelo bicampeão mundial Nilton Santos para jogar no Botafogo, mas desistiu. “Naquela época os pais não deixavam os filhos se envolverem com futebol. Permitiam que fosse apenas no colégio porque estava sob orientação dos padres. Eu, por exemplo, jogava futebol escondido aqui na cidade, e a profissão não era bem vista, e pagava-se muito mal”. Na década de 60 os times não tinham treinador, sendo a função passada para o capitão do time. Mas com a vinda do professor Benedito Itamar Luiz para a cidade, e assumindo as aulas de educação física, os alunos passaram a ser treinados por ele, que realizava


suas aulas às 6h da manhã.

BREVE BIOGRAFIA DE BENEDITO ITAMAR LUIZ Benedito Itamar Luiz iniciou sua carreira futebolística em 1945, com apenas 19 anos, no time de Batatais. Atuou em vários times como Botafogo, Ada de Araraquara, Ferroviária e Bebedouro (todos do Estado de São Paulo), e por fim no time Araguaia, no Mato Grosso. Homenagens e reconhecimento são estampados por todos os times em que pas sou. Na cidade de Bata tais (SP), um restaurante possui um pôster com a foto do time de 1946, que foi liderado pelo professor Itamar, como ficou conhecido. Encerrou sua carreira como profissional em 1957 devido a problemas no joelho. Com o fim de sua vida profissional, professor Itamar veio para Alto Araguaia em meados dos anos 60, e começou a dar aulas de educação física no Colégio Padre Carletti. Ele teve papel importante na formação intelectual e moral dos alunos que ali estudavam, ficando ainda responsável pelo treinamento dos times de futebol existentes no colégio. Ainda, destaca-se pelo período em que fora treinador do time de futebol de Alto Araguaia, o famoso Pantera do Leste, time que foi berço para muitos alunos do Colégio Padre Carletti por algum tempo. Além disso, o professor

Itamar vive até hoje na memória de seus queridos alunos, que não cessam elogios a sua pessoa, pois a disciplina e competência por ele aplicadas contribuíram para a formação de crianças e adolescentes que estudavam no Padre Carletti como para a população de Alto Araguaia. Em 23 de fevereiro de 2009, aos 83 anos, morreu na cidade de Cuiabá, tendo levado uma vida integralmente dedicada ao esporte. Assim como disse Róbinson Gambõa, em um artigo ao professor, “hoje, seu legado é motivo de orgulho, memória viva de uma época em que o futebol era feito por paixão, com o mérito do artista responsável pela alegria de uma platéia que assistia o mundo sair de uma guerra e conhecer, a partir dali, o fantástico futebol brasileiro”.

BREVE HISTÓRICO DO FUTEBOL EM ALTO ARAGUAIA-MT Em Alto Araguaia, o primeiro time a ser formar foi o Araguaia Futebol Clube no ano de 1930, composto por integrantes da família Hugueney. E no ano de 1959 surge o saudoso Pantera do Leste, um time conhecido e imbatível no âmbito regional, que perdurou até o inicio dos anos 70. O Araguaia Esporte Clube – verdadeiro nome do Pantera – nasceu através de desentendimentos dos times Botafogo e Flamengo da época, quando Pedro Rodrigues de Lima, diretor do Flamengo, resolveu separar os dois times e formar um novo: o Pantera do Leste, um time brilhante, de sonhos, respeitado, vitorioso, que é considerado pela população araguaiense uma “Marca Registrada”

que colecionou admiradores por todas as partes. Além disso, o Pantera não deixou de prestar um serviço relevante ao município, com a divulgação do nome de Alto Araguaia, propagando não somente o valor esportivo, mas evidentemente outros valores sociais. No ano seguinte, surge o sucessor do Pantera do Leste, o “Panterinha”, mas sua duração foi breve, dando espaço para o Grêmio Esportivo Gabirobense, conhecido como “Leão da Fronteira” no ano de 1982, que se tornou um time profissional com registro na CBF. E em 1998 nasce mais um time profissional no município de Alto Araguaia, o Araguaia Atlético Clube, que disputou o campeonato matogrossense na primeira divisão, sendo desclassificado na segunda fase da competição. Decorridos oito anos, uma nova diretoria compôs o time e os torcedores fanáticos do Araguaia puderam desfrutar de jogos emocionantes, como em sua estréia contra o União de Rondonópolis, considerado o “rival” direto, ganhando o jogo por 1x0 no Estádio Bilinão, todo reformado à espera de sua torcida, que fez história na região matogrossense. ”Quando surgiu o Araguaia Atletico Clube fiquei animadíssimo, eu e o meu neto Pedro não perdíamos um jogo. Às vezes estava frio, chovendo, eu não queria ir, mas ele insistia e a gente ia para o Bilinão ver o jogo”, se anima Totó. Estreante nesse campeonato, o 9º lugar ficou garantido, seguindo para a Copa Governador, seu primeiro titulo na história do Araguaia Atlético Clube. Com o titulo, conseguiu uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série

37


ESPORTE

D, ficando em 6º lugar, sendo desclassificado nas quartas-de-final e perdendo a taça do campeonato estadual para o Luverdense, time da cidade de Lucas do Rio Verde (MT). “Foi uma tristeza para todos nós. Meu guri todo entusiasmado chegou até a chorar aqui, ia a todos o jogos. Que beleza aquele jogo da Copa do Brasil (Alto Araguaia 1 X 3 Grêmio-RS). Nós perdemos para eles, mas não foi vergonhoso porque a gente lutou para ganhar”, fala Totó emocionado com a lembrança. Com o segundo lugar no Estadual, o Araguaia Atlético Clube iria participar da Copa do Brasil em 2010, mas por problemas financeiros e na diretoria, o time veio a se desfazer, deixando uma tristeza profunda no coração de seus torcedores inconformados com a dissolução do motivo de alegrias a cada domingo no Estádio Bilinão. Para voltar o sorriso nos rostos dos araguaienses, em 2011 os apaixonados por futebol e pelo Araguaia reuniram-se a fim de ressurgir o time Araguaia Atlético Clube. Devido às inúmeras pendências existentes nesse clube, resolveram fundar um novo: Araguaia Futebol Clube, sob direção de Albany Berigo, que em 1993 foi presidente do Araguaia juntamente com

38

Claudio Santos. Na nova presidência, Maciel Perucchi, empresário no município. “Agora estão querendo voltar. Tem muitas chances porque tem várias firmas na cidade que ajudam a patrocinar. Tomara que volte mesmo, eu torço para isso, eu apoio sempre o esporte. Meu netinho está em Ribeirão, no time do Santos, invocado jurando que vai ser um bom jogador”, alegrase Totó. Segundo Albany, diretor do clube, o Araguaia Futebol Clube começará suas atividades com categorias de base. Mais tarde visam a volta do time profissional na cidade, com pretensão de disputar o campeonato Matogrossense, de 2012. O Colégio Padre Carletti sempre deu total apoio a práticas esportivas. Não somente futebol, mas todas as variedades que ali existiam, para que assim seus alunos pudessem desfrutar do tempo que lhes era concedido, da melhor maneira possível, praticando esportes. O Colégio contribuiu para a formação de jovens atletas que se destacaram nas competições locais, sendo suas equipes esportivas a base dos vários times de futebol que representaram o Estado de Mato Grosso em competições nacionais. Esporte é fundamental em todas as fases do processo de crescimento tanto de crianças como de jovens, não somente por questões físicas e psíquicas, mas, por ajudar no distanciamento dos mesmos da criminalidade que hoje está espalhada por todo o mundo. O esporte tem a importante e difícil missão de mostrar que nem sempre o caminho mais fácil é o correto. Esporte é vida, é arte.


Rua Jo茫o II (Pr贸ximo ao Banco do Brasil) Alto Araguaia-MT Fone: (66) 3481-1207/3481-2002


MÚSICA BANDA CARAJÁS:

Grande desenvolvimento de talentos musicais

U

m fato marcante para o Colégio Padre Carletti e para a cidade de Alto Araguaia-MT foi a Banda Carajás. Dom Bosco dizia: “Um colégio sem banda musical não é um colégio Salesiano”. Partindo deste pensamento, Peter Bütner, diretor do colégio e da comunidade religiosa dos Salesianos durante fevereiro 1969 a janeiro de 1973, nos contou: “começamos a criação de nossa banda com alguns instrumentos básicos. A primeira apre-

Por Maria Madalena Cardoso Macedo sentação foi no dia das mães do ano de 1969 no Colégio das Irmãs durante uma homenagem às mães dos alunos de ambas as escolas. De fato, todos esperavam mais, pois só três alunos tocaram uma peça bem curta, mas já com toda a perfeição”. Com isso, deu-se início a um período de grande desenvolvimento musical na cidade. Adalberto Aires Fávero, aluno do colégio a partir de 1969, nos revelou: “participei da banda Carajás, inclusive fui eu que in-

diquei o nome, e tive a graça de tocar, no primeiro dia durante uma missa no Colégio das Irmãs” Professor Büttner afirmou que “no primeiro desfile no dia sete de setembro de 1969 a banda tocava com cerca de vinte instrumentos sinfônicos e mais alguns próprios de fanfarra”. Sobre as atividades musicais do colégio, Büttner expôs: “O colégio teve além de sua banda sinfônica também instrumentos de fanfarra, pois estes últimos

Banda Carajás, por volta do ano de 1971

foram tocados apenas nos desfiles e nos respectivos ensaios, enquanto a banda tocava nos ensaios de segunda a sexta-feira, no fim da tarde. Tocava em seu todo, ou em pequenos grupos, em festas e comemorações, em missas e recepção de autoridades, durante os quatro anos do meu tempo”. “Esta banda, durante os desfiles, podia ser ouvida pela cidade toda. Tocava com sonoridade e perfeição e foi, além dos carros alegóricos artísticos e originais, a grande atração de pessoas ligadas

40

à educação que vieram de Cuiabá e de outras cidades para os nossos desfiles”, finaliza Büttner. Dalma Zoé Campos Fernandes, estudante do colégio na década de 70, integrante da banda juntamente com mais três irmãos, José Laerte Vieira Campos, Maria José Campos Ude e Valdir Vieira Campos (in memoriam), este além de integrante da banda, foi inspetor dos alunos internos. Dalma explicou sobre a admissão: “era feito um teste de admissão na secretaria da escola, os aprovados iniciavam

nas aulas teóricas, depois todos passavam pelo instrumento de repercussão e só depois que recebiam seu instrumento definitivo”. Sobre seu teste de admissão, nos confidenciou: “quando fiz o teste fui aprovada em primeiro lugar”. A respeito dos instrumentos que tocou acrescentou: “Iniciei tocando clarineta um instrumento de palheta para quem tem lábios finos, fiquei uns dois anos e depois fui tocar saxofone reto. Éramos aproximadamente oitenta e cinco componentes e tocávamos


cinqüenta dobrados, inclusive o Hino Nacional que era uma música e uma partitura difícil”. A respeito das dificuldades que a banda enfrentou, destacou: “a maior dificuldade era a banda ser estudantil, porque os estudantes internos que terminavam o ginásio voltavam para suas cidades e tinham esses desfalques na banda, porque no próximo ano tínhamos que reiniciar, então tinha uma perda grande de crescimento por causa disso”, finaliza Dalma. O maestro da banda era o padre Konrad Wimmer que ensinava com verdadeira maestria música aos alunos. Ângela Regina Rodrigues de Melo, estudante do colégio na década de 70, afirma: “iniciei tocando trombeta e posteriormente toquei trompete”. Perguntada sobre o maestro Konrad, revelou: “para mim, ele foi um marco em minha vida. Foi através dele que eu aprendi partitura, tive essa experiência maravilhosa com a banda que marcou demais a minha vida e era um ótimo professor”. “Lembro com saudade das viagens que fizemos. Atualmente eu toco flauta transversal, para não esquecer o que eu aprendi com ele, então resolvi comprar essa flauta e de vez em quando eu toco”. O aluno José Laerte Vieira Campos, estudante do colégio nos anos de 70 a 72, recordou “eu estava no Colégio Carlos Hugueney e lembro a primeira vez em que vi o ensaio da banda, minha irmã Dalma já tocava mais não tinha me dito, fiquei encantado e resolvi que gostaria de estudar no Colégio Padre Carletti, especialmente para

ponsável foi Edson Freitas, que morava junto com os Salesianos. Nesse período os membros mantiveram a banda. Então Konrad voltou, mas quando Banda Carajás, em dezembro de 1974 ele realmente foi transferido, a banda encerrou suas atividades. “Foi uma perda muito grande porque nós viajávamos apresentando e tínhamos uma proposta para gravar um disco com todas as músicas da banda, tocávamos todo Apresentação musical, ao fundo o aluno Valdir Vieira Campos (in memoriam) tipo de música, mas tudo era na partitocar na banda”. Entretanto como tura, bem ensaiado. Ele era um o Colégio era particular, Laerte maestro de primeira linha, tanto é nos disse “conseguiu uma bolsa que quando ele saiu daqui foi ser de estudo com o Pe. Büttner, e em maestro da Orquestra Sinfônica da troca trabalhava no que fosse ne- Universidade do Estado de Mato cessário, porém minha obrigação Grosso. Então foi um prazer codiária era cuidar da cantina”. A meçar e encerrar com a banda”. Uma história divertida respeito dos instrumentos que ele tocava nos disse “o primeiro ins- que Ângela compartilhou foi que trumento que toquei foi trombone, a banda foi apresentar-se na cidadepois barítono e por último bom- de de Alto Garças-MT e a maioria eram crianças na faixa etária de 12 bardino”. Maria José Campos Ude, a 13 anos. Estavam na pracinha da conhecida como Zezé, contou cidade quando veio um temporal “quando fiz o teste meu irmão e consequentemente acabou a luz. Laerte ficou em primeiro lugar e Alguns alunos saíram correndo e eu fiquei em segundo lugar”. Em com isso perderam instrumentos, relação a sua passagem na banda, outros caíram, e de repente todos “tocava clarineta e me recordo eles estavam separados. Foram se com saudades da época, dos des- encontrar no colégio onde estavam files, das apresentações, dos en- hospedados e depois que estava saios, dos amigos”. Sobre a banda todo mundo reunido o maestro não hesitou em dizer “a banda foi Konrad ficou preocupado com os instrumentos porque alguns amasum presente de Deus para nós”. De acordo com Adalber- saram e outros perderam algumas to, quando o maestro Wimmer foi peças. “Este fato marcou a nossa transferido de Alto Araguaia-MT, vida, pois foi nossa primeira viatentaram continuar com as ativi- gem sem nossos pais”, relembra dades da banda, e quem ficou res- Angela.

41


MÚSICA

Você Sabia? Por Maria Madalena Cardoso Macedo

Q

ue o hino de Alto Araguaia-MT foi escolhido através de um concurso realizado Secretaria Municipal de Educação e Cultura no ano de 2006? Foi montada uma Comissão Julgadora composta por músicos, professores e conhecedores da Historia do município. O processo seletivo compreendeu a primeira etapa e a etapa final, sendo a primeira para escolher as cinco melhores composições, levando em

consideração as letras e gravações feitas pelos candidatos. E a etapa final, realizada no dia 13 de junho de 2006, na Câmara Municipal, e foram apresentadas ao vivo as cinco composições pré-selecionadas e entrega do troféu e premio ao vencedor. O vencedor foi Renato David Moraes, músico, tecladista prático, Servidor Público Estadual - Supervisor Financeiro da UNEMAT Universidade do Esta-

do de Mato Grosso - Campus de Alto Araguaia, desde 1998. Técnico em Contabilidade, Licenciado em Letras com pós-graduação em Contabilidade Pública e Auditoria Governamental pela UNEMAT- Universidade do Estado de Mato Grosso. Nascido em 09 de junho de 1961, no Município de Araguainha-MT, residente em Alto Araguaia desde 1973; filho de João Quirino de Moraes e Zamita David Moraes.

Hino de Alto Araguaia-MT

42

Foi assim, que tudo começou

sempre aumentou

Um viajante, tropeiro ou boiadeiro

A cada dia, um motivo de alegria

Cansado da jornada, parava pra des-

Que beleza, estar daqui, ser feliz é bom

cansar

demais

Acampava, às belas margens

Sua fauna é rica e também a sua flora

Do Rio Araguaia ou do Córrego Boia-

Não tem quem não adora as suas bele-

deiro

zas naturais.

Renovava as energias, para continuar

A história, de Alto Araguaia

E assim, o tempo foi passando,

É mesmo tão bonita

Riquezas encontrando

Desde o nascimento até aos dias atuais

Descobriram o diamante que fez seguir

Alto Araguaia é uma cidade hospitalei-

avante

ra

Por conta disto, instalou-se hospeda-

Que fica na fronteira de Mato Grosso

rias, surgiram armazéns

e Goiás

Prontos pra atender alguém, cansado

Seu povo amigo, cativante e envolven-

de viajar

te

Tempos depois, com a criação de gado

Deixa o visitante à vontade e tão con-

Com a lavoura no cerrado, o progresso

tente

continuou

Quem a visita tem vontade de ficar

Alto Araguaia, tem crescido tanto

Quando vai leva a saudade e o compro-

Felizmente o seu encanto, também

misso de voltar.


Avenida Carlos Hugueney . n째 602 Centro . Alto Araguaia-MT CEP: 78780-000 . Fone: (66) 3481-1110


REALIDADES

O PRÉDIO DO COLÉGIO PE. CARLETTI ATUALMENTE Por Maria Madalena Cardoso Macedo

E

m 1989, com o fim das atividades do Colégio Padre Carletti, o prédio ficou sem ser utilizado por um tempo. Entretanto, através da Resolução 023/91 do dia 02 de setembro de 1991, emitida pelo Conselho Curador da Fundação Centro Superior de Cáceres, homologada pelo Decreto nº 644/91 em 23 de setembro de 1991 pelo governador Jayme Veríssimo de Campos, foi criado o Núcleo de Ensino Superior de Alto AraguaiaMT. Atualmente conhecida como Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Inicialmente foi criado apenas o Curso de Licenciatura Plena em Letras no ano de 1991. Posteriormente, no ano 2000 foi criado o Curso de Licenciatura em Computação, e em 2005 o Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Ano este, em que o prédio foi adquirido definitivamente pela UNEMAT. Em entrevista com a Coordenadora Político-Pedagógica do Campus de Alto Araguaia, Profª Dr. Edileusa Gimenes Morales, afirmou que “a instalação da universidade no município de Alto Araguaia-MT deu-se pela iniciativa do então na época prefeito municipal Edson da Silva Brandão e do Secretario Municipal de Educação Wanderley Sebastião da Sil-

44

va Fraga”. A forma utilizada para conseguir que o Campus viesse para a cidade foi “utilizando-se de um projeto de expansão tendo sido mapeado o Estado de Mato Grosso a fim de distinguir quais municípios que seriam pertinentes a implantação da universidade. Participaram então de um seminário na capital do Estado para exporem suas estruturas, sendo Alto Araguaia a vencedora dentre os demais”. De acordo com Wanderley de Oliveira Fraga, o Zinho, Secretário de Educação na época, “o que ajudou muito foi para conseguir o Campus em Alto Araguaia foi que nós oferecemos na época: a estrutura física, veículo, telefone, alojamento para os professores no próprio prédio e todo apoio necessário para a vinda da Fundação. Então acredito que por isso conseguimos ser beneficiados com a instalação da Fundação Ensino Superior de Cáceres em Alto Araguaia”. Depois da conquista do Campus em Alto Araguaia, foi a vez de adquirir o prédio da Missão Salesiana. Zinho revelou que “estivemos em Campo Grande agendamos uma reunião com o inspetor da Missão Salesiana e na segunda viagem foi feito uma negociação onde a Missão vendeu parcelado o prédio”. O mesmo nos disse Gime-

nes: “a instalação ficou firmada entre município, Estado e Universidade um convênio no qual se responsabilizariam pelo pagamento das parcelas referentes ao prédio, que pertencia à Missão Salesiana em regime de comodato”. Anos depois, a compra do prédio concretizou-se, mais exatamente durante o período de gestão do ex-prefeito Jerônimo Samita Maia Neto, e ex-coordenador do Campus de Alto Araguaia, Professor Milton Chicalé e ex-reitor da UNEMAT, Taisir Karim, quando resolveram juntar-se em valores e sancionar a definitiva posse do imóvel. Em relação ao pagamento definitivo só ter sido feito no ano de 2005, Zinho relatou que “durante o mandato do Brandão foram pagas as parcelas, depois seus sucessores pelo que parece deixaram de pagar e o que acarretou uma série de empecilhos. Na gestão do ex-prefeito Maia Neto, depois de muita negociação a Prefeitura pagou 150 mil reais e a UNEMAT os outros 150 mil reais, esse foi o preço que a Missão pediu pelo prédio”. Nesse mesmo ano começaram algumas reformas no Campus, segundo a Edileusa Gimenez “esse retardamento deu-se pelo fato da universidade estar todo


esse período impossibilitada de receber recursos públicos porque o prédio ainda não era da universidade, o que dificultava proceder às devidas melhoras na estrutura atual e pelas pequenas condições financeiras de assim proceder. E há cinco anos que o prédio é da universidade, desde esse tempo para cá que podemos receber essa verba publica então começaram as reformas”, complementa a coordenadora. Em junho de 2011 foram inaugurados o pavilhão novo, o Centro de Pesquisas e Extensão do Araguaia (CEPAIA) e o Laboratório de Jornalismo. E conta ainda com uma verba de R$ 600.000,00 reais disponibilizada para continuar a reforma a partir de Janeiro de 2012. A respeito da preservação do patrimônio história, Gimenes enaltece que “a Unemat não visa à destruição da estrutura que ali existe. Querem restaurar e preservar o patrimônio histórico cultural que pertence ao município de Alto Araguaia”. E as mudanças ocorreram somente no Anfiteatro, mas simbólicas visando apenas maior conforto aos

estudantes que desfrutarão do espaço. Quanto às salas de aulas será feita apenas a pintura das paredes e envernizamento das portas, mantendo o original. E por último a Capela que está sendo mantida intacta e não sofrerá nenhum tipo de reparo. Capela esta, que fora reaberta ainda no ano de 2011 e conta atualmente com a presença de dois grupos de Oração: GOU Grupo de Oração Universitário “Fé e Razão” (Católicos), que iniciou suas atividades no ano de 2008 e o CEU Culto Evangélico Universitário (Evangélicos), que iniciou neste ano de 2011, buscando resgatar o momento de meditação e encontro com Deus assim como era feito na época em que o Colégio Padre Carletti funcionava. “A gente vai manter a estrutura porque ele é o único monumento histórico da cidade, justamente para dar esse realce, essa historicidade do prédio mesmo, porque ele é o único, então é importante manter o patrimônio histórico. A ordem do Estado é para não acabar com a originalidade do prédio”, relatou a coordenadora do

campus. A missão da Universidade pública e gratuita é desenvolver ações indissociáveis de ensino, pesquisa e extensão para a produção, preservação e socialização do saber, especialmente na área de Tecnologias da Informação e Comunicação aplicadas à Educação, de maneira a promover a elevação sócio-cultural e a melhoria técnico-profissional da população, tendo como eixos norteadores a inclusão social e o desenvolvimento sustentável da região de Alto Araguaia, bem como de um modo geral. Formar profissionais para atuarem com qualidade nas áreas de Comunicação Social, Computação, Comunicação Social e Tecnologias da Informação e Comunicação Aplicadas à Educação. Até o presente momento a Universidade do Estado de Mato Grosso conferiu grau para 642 Licenciados em Letras, 143 Licenciados em Computação, 61 Bacharéis em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. A respeito de novos cursos, está previsto ainda para o final desse ano de 2011


REALIDADES

a implantação de mais cursos, dependendo somente do projeto em andamento por parte da Consultoria da Universidade em verificar o declínio de demanda com o surgimento de novos cursos. “Se assim ficar decidido, a Unemat promoverá junto com a Vereadora Municipal Silvia Maia (PR), parceira na busca por novos cursos e assim evitar o fechamento do campus no município, e uma audiência

46

publica será realizada para colocar a população araguaiense a par dos fatos e assim traçar um futuro promissor para a universidade no município”, diz a coordenadora. A Unemat e Estado são parceiros em preservar o único patrimônio histórico cultural do município de Alto Araguaia que é o prédio onde se encontra funcionando atualmente a universidade, porque guarda em si referencias à

identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos sociais que por ali passaram e passarão. Em suas últimas palavras a essa reportagem a coordenadora atual do campus, Edileusa Gimenes Morales, finaliza: “E esse colégio era histórico, o Brasil inteiro recebeu gente para estudar aqui no colégio Padre Carletti que era referencia da educação Salesiana no Brasil”.


Se liga, tá na hora! VESTIBULAR da UNEMAT Ensino público de qualidade

O campus de Alto Araguaia da Universidade do Estado de Mato Grosso oferece graduação em Computação, Jornalismo e Letras


REALIDADES

ALUNOS ILUSTRES CARLOS ALBERTO BARROS DE CASTRO Carlos Alberto Barros de Castro nasceu em Santa Maria da Vitória, na Bahia, em 1946. “A minha infância foi de 1949/1950 até 1961, morando e estudando em Alto Araguaia. Em 1962 e 1963, vim estudar em Goiânia, no Liceu de Goiânia. Em 1964, no Colégio Universitário e em 1965 entrei para a Faculdade de Engenharia da UFG, me formando em 1969. No período de 1962 a 1967 eu passava as férias em Alto Araguaia”. “O Ginásio Padre Carletti foi muito importante na minha vida de estudante e profissional, pela qualidade do ensinamento e pela disciplina exemplar. O Liceu de Goiânia era um Colégio muito bom, que para entrar era necessário fazer um teste, onde passei sem dificuldades. Para entrar na Escola de Engenharia da UFG a concorrência era muito grande e eu passei no primeiro vestibular. Os exemplos de disciplina, lealdade, honestidade e ética foram plantados na minha infância, portanto tendo uma grande participação do Colégio. Os Salesianos são famosos pelos bons colégios de formação de pessoas, e tenho certeza de que o Ginásio Padre Carletti era campeão em disseminar a cultura de formar bons cidadãos”. Formou-se em Engenharia, mas nunca exerceu, começando a trabalhar como programador em 1967. De 1968 a 1972 foi o responsável pela área de informática da Companhia Telefônica de Goiás Cotelgo. De 1970 a 1972 fez parte da comissão de reforma administrativa do Estado de Goiás, fazendo implantação da informática no Estado. Em 1970, juntamente com dois colegas, criou a POLITEC, fazendo serviços de informática para as empresas. A POLITEC, neste mês de setembro, foi vendida 100% de seu capital para uma empresa espanhola de nome INDRA, contando hoje com 5000 funcionários. Em 1992, partiu para o ramo de turismo construindo um hotel em Caldas Novas que entrou em operação em 1995, com o nome POUSADA DO IPÊ. Em 1998, fez um curso de pós-graduação em Administração

48

pela FGV. Em 2002, fez um curso para executivos no INSEADE na França. Em 2007, fui agraciado pelo título de CIDADÃO GOIANO pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás.

AGENOR REZENDE

Agenor Rodrigues de Rezende nasceu na cidade de Coxim-MS em 23 de agosto de 1944. É filho de Severino Rodrigues de Rezende e Jerônima Severina de Rezende. Veio para Alto Araguaia aos 06 anos de idade, onde residiu até o ano de 1963, e foi morar em Mineiros-GO, vivendo por lá até hoje. Estudou no Colégio Padre Carletti durante oito anos consecutivos, no período de 1954-1962, como aluno externo. “O Colégio era rigoroso e mantinha um ensino muito bom, através do comando dos padres, que contribui tanto no nível social quanto para a sua escolaridade, que foram as bases para a minha vida profissional e pessoal. A formação de cada um, os bons costumes, tudo isso contribuiu para a disciplina nossa como alunos no colégio. E eu particularmente, transmiti aos meus filhos todo o conhecimento e aprendizado que adquiri nesses oitos anos de convivência e estudo rigoroso com os salesianos”. Agenor fez curso de Contabilista no Instituto Erasmo Braga, na cidade de Mineiros, nos anos de 1963 a 1965. Entrou para a Faculdade de Direito de São Carlos, em São Paulo, em 1977 e se formou em 1981. Porém, sua vocação tendia para um lado diferente dos cursos que fez. A política foi marcante em sua vida. E tudo começou na época de aluno externo no Colégio Padre Carletti. “Gostava de política desde menino. Me lembro que uma vez disputei uma eleição de Prefeito de Bairro. Eu era morador do bairro Boiadeiro e concorria à vaga. A eleição foi concorrida, disputa acirrada, mas ganhei. Sempre gostei da política, diziam que ti-


nha jeito para isso, até porque eu participava de todas as atividades da cidade. Foi o que ajudou a me eleger, nessa brincadeira de menino”. Sua vida política foi se ampliando. De 1982 a 1986 foi Vereador da Câmara Municipal de Mineiros, sendo presidente. Em 1983, foi nomeado Secretário Municipal de Administração do mesmo município. Como suplente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Agenor foi Deputado Estadual de Goiás de 1987 a 1991, assumindo em 06/03/1987 na 11ª Legislatura. Foi reeleito como deputado estadual, de 1991 a 1994. Na condição de Presidente da Assembléia, Agenor Rodrigues Rezende assume a chefia do Executivo Estadual, devido à renúncia do governador Íris Rezende Machado, que saiu para candidatar-se ao Senado da República. Agenor Rezende foi Governador do Estado de Goiás de 02 de abril a 31 de dezembro de 1994. Terminado o mandato, a partir do ano de 1998, tornou-se Conselheiro do Tribunal de Contas dos municípios do Estado de Goiás. Agenor Rezende, mesmo fora dos palanques, ajudou a eleger sua esposa, Laci M. de Rezende, como prefeita do município de Mineiros em 1º de outubro de 2000, tornando-se um marco político para o Estado de Goiás. Hoje, já no auge dos seus 67 anos, Agenor Rodrigues Rezende está aposentado de todas as funções, tanto da política, quanto da advocacia e contabilidade. Sua atividade atualmente é no ramo da Agropecuária.

LIONIÊ VITÓRIO

Lioniê Vitório (Nico) 39 anos, mato-grossense de Santo Antônio de Leverger. Nascido em 07 de março de 1970, casado, pai de dois filhos, formado em Artes pela Unic e Pós–Graduado em Patrimônio Cultural. Foi Secretário de Cultura, Vereador, VicePrefeito e Prefeito interino do seu município. Como ator, começou em 1986, no Grupo Ânima de Teatro na antiga Escola Técnica, hoje IFE-MT.

Estudou no Colégio Padre Carletti nos anos de 1981 a 1983, devido à tradição familiar de estudar em colégios salesianos e internos. Lioniê Vitório acredita que “para o Lioniê, a contribuição maior foi no aspecto espiritual, na religiosidade, ter fé, acreditar em Deus, conhecer os ensinamentos, ser responsável. Já para o Nico, foi o despertar do meu talento como artista. Participava das encenações, fazia aulas de pintura e gostava muito de ser coroinha na Igreja Matriz na época que era estudante do Colégio. Neste período, os padres eram José Corazza (1916-1996) e Adálgiso Pio Maestro (1919-2002)”. Além disso, sobre sua carreira, ressalta que “lembro que Padre Firmo e o Mestre Humberto encenavam várias peças teatrais e passavam filmes no Anfiteatro. Foi onde eu tive a primeira oportunidade de ver filmes, e também de fazer uma peça teatral na qual eu era um soldado romano”.

ANTONIO CAJANGO

Antonio Ferreira Cajango nasceu em 25/04/1950. Estudou no Colégio Padre Carletti no ano de 1957, como aluno externo. Fez o curso Técnico em Contabilidade no Colégio Carlos Hugueney e Bacharelado em Ciências Econômicas pela Universidade de Marilia (UNIMAR), no Estado de São Paulo. “Na época, o 1º ano Ginasial, que atualmente corresponde à 5ª e 6ª séries, eu aprendia quatro línguas: Inglesa, Francesa, Latina e Portuguesa. E as outras disciplinas eram divididas como a disciplina de História. Era História Geral e História do Brasil. Creio que foi de suma importância para meu aprendizado, meus limites e a educação nesse sentido”. Nos anos de 1983 a1988 e 1993 a 1996, tornou-se prefeito do município de Santa Rita do Araguaia-GO. E em 2007, Padre da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, também no município. “Basicamente (o Colégio) era muito voltado para o ensino religioso, e isso eu agradeço muito a Deus e ao colégio. Tinha os Certames de Religião (prêmios para os melhores alunos) e com isso aprendi muito. O aluno tinha que ser muito dedicado. É de entristecer ver que tudo isso foi jogado por terra”.

49


REALIDADES

LIÇÕES ETERNIZADAS Lembranças da minha escola, minha vida! A passagem pelo Colégio Padre Carletti é motivo de excelentes lembranças para centenas de jovens estudantes que trilharam caminho de sucesso em diversas áreas do conhecimento e atividades profissionais. Em cada um deles, a semente lançada pelos salesianos no período de sua existência no município de Alto Araguaia-MT germinou ótimos frutos, que se fortalecem a cada dia, em cada aluno, cada profissional que por ali passou. É relembrando alguns momentos desse período de aprendizagem, religião, entretenimento e disciplina que ex-alunos e ex-profissionais do ensino demonstram o seu agradecimento e encantamento com o método de ensino do Colégio Padre Carletti, que se renova constantemente.

Adalberto Aires Fávero, aluno

Ex-aluno, hoje advogado, servidor público e Ministro da Eucaristia da Igreja Católica Apostólica Romana em Alto A r a g u a i a - M T. Estudou no Colégio Padre Carletti a partir de 1963, em regime externo. “O colégio era rígido, e isso fez a diferença dentro de todo o tempo que eu estudei. Tive um sonho. Sonho de reativar o colégio: quando eu retornei de Goiânia, nós ex-alunos tentamos reativar o colégio, a gente queria realmente que ficasse um sacerdote à direção do colégio e ele poderia se tornar estadual. Estávamos eu, Ademar Fraga e sua esposa Altair Fraga, Junior (fotógrafo) que não estava aqui, não era ex-aluno, mas se dispôs a se juntar a nós com essa finalidade. Nós fizemos um trabalho muito grande para a reativação, alias não era reativação era para que não fosse embora a direção do Colégio Padre Carletti como acontece no Colégio Maria Auxiliadora.”. Para minha vida, o período de estudo com os salesianos, contribui para a minha formação, tudo que foi colocado em termos de valores pessoais, valores morais, valores religiosos, relacionamentos, tudo isso foi um ponto marcante não só para mim, eu creio que para todos

50

que passaram no Colégio Padre Carletti tiveram essa oportunidade de uma formação de primeira linha realmente. Na minha formação religiosa hoje eu tive a grata satisfação de viver esse tempo todo dentro do colégio salesiano e de me formar também em uma Universidade Católica, então eu vejo que tudo isso contribui e continua contribuindo sob maneira na vida das pessoas, principalmente na minha, eu digo que é uma formação que você não consegue apagar essa formação.

Kléber Aires Fávero, aluno Kléber Aires Fávero, estudante do colégio na década de 60, servidor público aposentado e Ministro da Eucaristia da Igreja Católica Apostólica Romana em Alto Araguaia-MT. “O colégio contribui muito para minha formação, era muito rígido e realmente havia disciplina. Lembro que chegávamos ao colégio e não íamos para a sala de aula antes de ter a Acolhida, que era o momento em que o Pe. Diretor nos saudava e fazíamos as orações da manhã, esse entre outros aspectos contribui para a religiosidade dos alunos. O estudo era de excelente qualidade tanto que quando fui fazer o Científico em Goiânia-GO,


porque na época ainda era o Ginásio Padre Carletti, passei no teste de admissão sem dificuldades. Para minha vida pessoal, ensinaram valores a nós alunos que carregamos pela vida toda”.

Donald Ferreira, aluno Ex-aluno, graduado em Economia, funcionário público estadual da Secretaria de Fazenda do Estado (SEFAZ), e está fazendo Licenciatura Plena em Letras na Unemat. “Fui estudante no Colégio Padre Carletti durante dois ou três anos, nos anos de 1965, 66 e 67, eu era aluno externo. Quando eu estudei aqui, eu mudei para Cuiabá e lá continuei meus estudos, estudando no colégio São Gonçalo, colégio salesiano, que para mim foi continuação dos primeiros ensinamentos da minha fase de infância e na adolescência. Para quem estudou no colégio influenciou muito na vida, com toda certeza. Para mim foi muito importante a base que eu tive na educação, porque eu vim de uma família pobre, trabalhadora, isso pra mim foi uma conduta dentro daquilo que já vinha dentro da minha família. Estou novamente estudando aqui onde foi o colégio porque todo conhecimento é valido. Olhar para o pátio me lembra muita coisa, muitas brincadeiras”.

Milton Pessoa Morbeck Filho, aluno Milton Pessoa Morbeck Filho, empresário, estudante do colégio na década de 60. “Estudei no Colégio Padre Carletti concluindo o primário e ginásio, naquele tempo fazíamos o primário, segundo, terceiro ano, depois fazia o exame de admissão que era uma espécie de vesti-

bular para depois fazermos o quarto ano. Os alunos que estudaram no colégio muitos se deram bem profissionalmente e segundo uma estimativa prévia há 27 médicos filhos de Alto Araguaia, o que é bastante considerável para 30 anos atrás. Interessante é uma coisa que me marcou muito é que o Agenor era meu colega de classe, e desde criança ele era muito extrovertido, brincalhão, e o padre Barone um dia que ele estava conversando com o Agenor e outros alunos e falou “daqui dessa classe vai sair um político famoso um governador de Estado talvez”. E isso se conclui, Agenor Rezende é um político de grande renome no Estado de Goiás.

Herotides Alves da Costa, professor do Colégio Lecionei no Colégio Padre Carletti de 1963 a 1985, 22 anos de trabalho junto aos alunos. Iniciei como substituto, e tive dificuldades para dar aula. Era uma sala muito complicada, com alunos indisciplinados, como acontece nos tempos atuais. Consegui lidar com tudo com austeridade e sem violência, contudo a educação era repressiva, não uma educação que alunos têm hoje, era com repressão.

José Laerte Vieira Campos, aluno e funcionário do colégio José Laerte Vieira Campos, servidor público, estudante do colégio nos anos de 70, 71 e 72. “Estudar no colégio representou para mim a passagem da imaturidade para a maturidade. Eu trabalhava no colégio em tudo que fosse neces-

51


REALIDADES sário: na cantina, de pedreiro, servente, na Chácara dos Salesianos, no barzinho do cinema, e em troca eu ganhava estudo, dinheiros para os uniformes e livros. Recordo com saudades das apresentações teatrais. Lembro de uma vez em que apresentamos a peça Simplício Simplório, tínhamos que decorar todo o texto. Nesta peça estava caracterizado com uma barriga grande e com uma botina toda aberta. Minha fala era muito grande, e no meio da peça me esqueci, pensei e agora? O que vou fazer? No cenário tinha uma mesa e uma cadeira, então sentei na cadeira e coloquei os pés em cima da mesa e comecei a mexê-los para que a platéia pudesse visualizar até eu recordar a fala, o público ria muito, lembrei minha fala, mas tive que esperar as pessoas pararem de rir para prosseguir. Depois desse episódio fui muito elogiado pelos colegas de elenco”.

Dalma Zoé Campos Fernandes, aluna do colégio

Dalma Zoé Campos Fernandes, exemplo de uma vida toda em prol da evangelização, estudante do colégio na década de 70. “O Colégio Padre Carletti fazia apresentações culturais belíssimas, como o desfile em comemoração à Independência no dia 07 de setembro e no Aniversário de Alto Araguaia-MT dia 26 de outubro, sem contar as apresentações teatrais. E apesar de ter recebido de berço através de minha mãe Roliman Vieira Campos, o despertar para a religião, o colégio fortaleceu e desenvolveu minha religiosidade. Vinham alunos de vários Estados do país para internarem aqui, porque era um internato muito bom. Lamento imensamente o fim do colégio, porque lá por anos foi a minha casa, mas hoje sinto a alegria de ver que o local transformou-se em uma faculdade”.

Maria José Campos Ude, aluna do colégio 52

Maria José Campos Ude, artesã, estudante do colégio na década de 70. “O colégio contribuiu para minha formação como cidadã, nos ensinou a importância de ser responsável, bondoso e solidário. Aprendemos a sermos pontuais, assíduos, ter organização e principalmente disciplina. Recordo com alegria dos oratórios e das apresentações teatrais, principalmente as que apresentei junto com meu irmão Laerte. Essa foi uma das épocas mais felizes da minha vida. Sinto muito por não ter contato com meus colegas da época, depois do colégio nos afastamos, eu me casei e fui morar em Minas Gerais e sinto muito por não manter contato com eles. O que posso afirmar com toda sinceridade é que o colégio foi tudo de bom na minha vida”. Angela Regina Rodrigues de Melo, aluna do colégio Angela Regina Rodrigues de Melo, filha do ex- prefeito Severino Botelho de Melo, popular Bilino, foi estudante do colégio na década de 70, estudou todo o ginásio no colégio. “A educação tinha disciplina, o colégio tinha muitos alunos, bons professores, era muito bom, me recordo dos professores Herotides, do Pe. Diretor Nelson Pombo, Pe. Diretor Peter Büttner e do Pe. Konrad Wimmer. Sobre a área esportiva tinha campeonato de vôlei, handeboll, futebol, o colégio era


muito movimentado, e além de estudarmos durante a semana aos finais de semana íamos para o colégio para participar dos oratórios e das recreações oferecidas e um fato bem interessante é que aos finais de semana as atividades oferecidas eram abertas a toda a comunidade”.

Moacir Vieira Cardoso, aluno do colégio

cebia deles os fundamentos da fé e as razões filosóficas da minha existência: Deus! Os tempos de colégio dizem muito, quer no gosto pelo estudo (reflexão), seja no prazer da pesquisa (ação). Não me apraz falar de minhas conquistas, apenas as comemoro e as divido com meus familiares, para mim, a aprovação há 24 anos ao cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil conquistado mediante concurso público de nível superior aliado ao zelo que tenho em tratar com amor, respeito e aceitação aos colegas; e, com acatamento e ética no cumprimento das ordens superiores, me dão a certeza de que fui muito bem preparado técnica e emocionalmente no meu inesquecível Colégio Pe. Carletti”.

José Maria Vieira Cardoso, aluno do colégio

“Cheguei ao Colégio Pe. Carletti em 1972, para cursar o Terceiro Ano do Curso Primário e saí em 1976, após a conclusão do Curso Ginasial. Durante todo o período em que lá estive, em regime de internato, nunca paguei um centavo em dinheiro, porque não o tinha. Em contrapartida, durante o período das aulas trabalhava em diversas funções como: tratar dos animais da Chácara Salesiana, cuidar da horta, beneficiar arroz, cortar lenha na serra circular, cuidar do barzinho (uma espécie de cantina do próprio Colégio que abria nos recreios e nas sessões de cinema), tocar na Banda e no Conjunto Musical do Colégio, fui responsável pela animação musical do Grupo Jovem da Matriz, das Celebrações Eucarísticas e outras solenidades a convite do Pe. Silvio Sartori, além de ajudar na assistência aos internos da turma da tarde. No período de férias eu ficava no Colégio, para fazer o que fosse necessário, inclusive não dormia em casa, dormia no colégio e almoçava em casa. No Colégio, o exemplo de doação de tantos salesianos vindos dos mais longínquos lares, alguns bem abastados para viver apenas do necessário fezme refletir e assimilar que o amor ao próximo não fora apenas uma profecia, em nome de Cristo eu re-

José Maria Vieira Cardoso, servidor público, ministro de música na Igreja Católica Apostólica Romana, estudante do colégio no período de 1972 a 1978. “O que eu aprendi e o que sou eu devo ao colégio. Para mim o que mais admirava era disciplina, realmente era um exemplo a forma de agir e de conduzir o colégio. Recebi da minha família a religiosidade, mas o colégio foi a continuidade desse aprendizado. Inclusive, despertei o dom de tocar no colégio na época do Pe. Sílvio Sartori. Da mesma forma que meu irmão Moacir, eu não tinha dinheiro para pagar os estudos, então trabalhava no que fosse necessário para em troca estudar no colégio. Estudar no Colégio Pe. Carletti foi um marco em minha vida, os ensinamentos que lá adquiri levo para vida toda, não só a formação profissional mas também e principalmente a formação de cidadão”.

53


Revista memorias  

MEMÓRIAS: Projeto de Jornalismo em Revista do Curso de Jornalismo da Unemat. Maria Madalena Cardoso Macedo e Tatiane Cristina Rezende Vilela...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you