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Edição 65

no entanto

Jornal experimental do curso de jornalismo da Ufes, setembro - 2013

Caso Araceli 40 anos de um triste acontecimento


Editorial Tentar descrever o tempo em que a turma 2011/2 passou no comando do No entanto é complicado. Afinal de contas, os momentos e sensações que esses quatro meses proporcionaram foram inúmeros: ora nos digladiávamos como na Roma Antiga com unhas e dentes, ora concordávamos tranquilamente com tudo o que era colocado, sem maiores problemas. Tentamos fazer o melhor, entregar as matérias no prazo, escrever sobre assuntos que tocassem e fossem importantes para você, leitor, que assiduamente nos acompanhou nesta jornada. Entre erros e acertos, discussões acaloradas e conversas brandas, nós sempre tentamos. Aliás, essa é uma boa palavra para definir estas quatro edições do jornal laboratório: tentativa. A tarefa de quem está deste lado do jornal, responsável por levar a notícia até vocês, não é simples, mas a abraçamos com toda a força. Queríamos entregar o melhor que podíamos fazer para que nos orgulhássemos do fruto do nosso trabalho. Ao longo da produção, nós erramos. Muitas vezes. E não é vergonhoso admitir isso, afinal ainda somos aspirantes e este é um espaço de construção de aprendizado e para a formação de experiências. Talvez por isso vimos nossos erros como uma forma de melhorarmos. Acertamos. E essa certeza veio com elogios demonstrados por professores e alunos, por colegas de profissão e - por que não? – por nossa família. Fomos criticados. E isso mostrou que nosso trabalho estava valendo à pena. Somos, no final das contas, um grupo de pessoas que pensam diferente, agem diferente e tem suas próprias opiniões. E foi aqui, além de tudo, que exercitamos a tolerância e o respeito a cada um de nós. Ao final, o que fica são as experiências, o orgulho e os bons momentos de tentativa. E é assim que apresentamos a nossa última edição do jornal, e são nessas matérias que estão os resultados desses quatro meses. Em nossa primeira edição - classificada como histórica - demos a você, leitor, o papel de avaliar como estava o nosso trabalho. Quatro edições depois, finalizamos nosso editorial com a mesma tarefa, que é e sempre será sua. Até breve, Turma de Jornalismo 2011/2

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Sumário Caso Araceli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 03 Centro em ruínas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 07 Entenda o Austismo . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 10 Jovens e álcool . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 12 Terceira Ponte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 14 Cultura na Ufes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pág. 17

no entanto Jornal experimental do curso de Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Produzido por alunos do 4º periodo. Ufes Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras | Vitória Gráfica Universitária Tiragem: 1.000 exemplares Professor Orientador: Victor Gentilli Ilustração de Capa: Christiano Munhão Edição: Geovana Chrystêllo, Hércules Nascimento e Wéverton Campos. Equipe: Amanda Meschi, André Sacramento, Andreza Xavier, Bruno Nunes, Caio Miranda, Cláudio Vervloet, Débora Sonegheti, Geovana Chrystêllo, Hércules Nascimento, Jacob Sangalli, Jessica Latif, Karen Pinheiro, Karolyne Mayra, Linneker Almeida, Lívia Meneghel, Lorena Pelissari, Milena Mangabeira, Nathália Munhão, Nelson Aloysio, Renan Chagas, Talita Vieira, Thiago Sobrinho, Wéverton Campos. Equipe Gráfica: Andreza Xavier, Débora Sonegheti, Jessica Latif, Milena Mangabeira, Nathália Munhão e Renan Chagas


Caso Arac eli

40 anos de impu nidade e mistérios Por Lívia Meneghel O caso

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m crime de repercussão nacional, o cruel assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo completou 40 anos em 2013. Morta em 18 de maio de 1973, a criança de apenas oito anos estudava no colégio São Pedro, na Praia do Suá. No final da tarde de uma sexta-feira, prestes a completar nove anos, Araceli foi sequestrada, drogada, violentada e espancada até a morte. Teve partes do corpo, como seios, vagina e barriga marcados por dentadas, e para encobrir as provas, seu rosto foi desfigurado com ácido. Seu corpo foi encontrado seis dias após o crime em um terreno baldio, atrás do Hospital Jesus Menino (atual Hospital Infantil de Vitória).Até hoje, não houve punidos. Sua vida teria sido brutalmente interrompida, segundo investigações policiais da época, após a entrega de entorpecentes a mando da mãe, a boliviana Lola Sánchez, em um prédio localizado na região do Centro da Vitória. Lola era apontada como usuária e traficante de cocaína, fornecedora de drogas a pessoas influentes da capital. Ela se omitiu durante o período de investigação e voltou ao seu país quando o crime começou a ganhar dimensão. Com o processo de investigação policial, somente em 1976, três anos após o crime, a vítima pôde ser sepultada, pois o conturbado e inconsciente processo de investigação dificultou a constatação de provas. O pai da menina, Gabriel Sanchez Crespo, acompanhado por amigos, travou uma busca incansável pela filha, e só conseguiu reconhecer o corpo no Instituto Médico Legal de Vitória graças a um sinal de nascença que ela possuía no pé. Apesar dos indícios e de duas testemunhas afirmarem que Paulo e Dante eram culpados, os dois foram absolvidos. A morte de Araceli deu origem a várias manifestações populares que exigiam punição aos culpados, incluindo uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Assembleia Legislativa, formada pelo deputado Clério Falcão. A CPI obteve mais resultados que a própria polícia, e, também cooperaram nas investigações o perito Asdrúbal de Lima Cabral e seu auxiliar Carlos Éboli, contribuindo para que o caso não fosse engavetado. Impunidade O crime não só representa a crueldade contra crianças e adolescentes, mas é também um dos maiores exemplos de impunidade de todo o país. Até hoje, 40 anos depois, ninguém foi condenado, e os principais apontaNo entanto, edição 65, outubro de 2013

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para livrar o filho. Todavia, os réus ficaram menos de dois meses na cadeia: em outubro do mesmo ano eles foram soltos, e o juiz, curiosamente “promovido” a desembargador. Em 1980, mais uma vez Dantinho e Paulinho foram julgados e condenados, mas a sentença foi anulada. Em última audiência realizada em 1991, quase 20 anos após o crime, os réus foram absolvidos. Segundo o escritor José Louzeiro, “o crime já prescreveu, mas o caso Araceli é uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Mexer no assunto em Vitória ainda desperta medo, revolta e incredulidade”. Mortes misteriosas

dos como criminosos - ConstanteenHelal e Dante de Brito - permanecem em liberdade.Paulinho e Dantinho, como eram conhecidos, costumavam promover festas e orgias regadas a drogas e bebidas no Edifício Apollo, localizado no bairro nobre da Praia do Canto. Os jovens toxicômanos costumavam drogar e violentar meninas e adolescentes. Mistério, suborno e absolvição dos réus As investigações do caso foram prolixas. O escândalo envolveu o nome das duas famílias mais influentes do estado na época, o que pode justificar a impunidade dos acusados. Houve sumiço de documentos, testemunhas que voltavam atrás em seus depoimentos, assassinatos misteriosos, cumplicidade e corrupção da polícia e do judiciário. O superintendente de Polícia Civil do Espírito Santo, Gilberto Barros Faria, foi quem se encarregou do crime. Dois meses após o acontecimento ele revelou ter descoberto quem eram os assassinos e declarou que a população de Vitória ficaria estarrecida quando soubesse os nomes. Entretanto, após um encontro com Dante Michelini, pai do Dantinho, Faria misteriosamente mudou de opinião. Não se sabe ao certo motivo, porém, esse é apenas um dos enigmáticos episódios que envolvem este caso. Após um longo processo judicial, em agosto de 1977 o juiz Hilton Sily decretou a prisão preventiva de Dante e Paulo pelo homicídio de Araceli, e de Dante Michelini, acusado de tumultuar o inquérito

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Ainda de acordo com relatos policiais, durante as investigações 14 pessoas diretamente ligadas com o crime foram mortas, seja por vingança, queima de arquivo ou qualquer outro motivo.Na lista das vítimas estáClério Falcão, que ajudou a destruir o esquema de acobertamento do crime. Outra vítima teria sido o sargento da Polícia Militar responsável pelos inquéritos, José Homero Dias, que andava sempre precavido nas investigações, ciente de que estava lidando com um caso perigoso. Tudo que apurava, comunicava a seu supervisor, o capitão Manoel Araújo, delegado de polícia. Certa vez, afirmou ter material suficiente para incriminar muita gente, começando por Paulinho. Subitamente, foi afastado do caso pelo próprio delegado e recebeu ordens para um caso menos relevante: perseguir um traficante. Na operação, Homero foi atingido nas costas e morreu. Mais tarde, o próprio traficante, na Penitenciária de Vitória, declarou ter visto quem matou o sargento. Ele diz ter sido o soldado de polícia que estava com Homero. Tempos depois, o traficante foi assassinado com 27 facadas. Um terceiro caso, desta vez do lado do acusados, foi o jovem Fortunato Piccin, um viciado que fazia parte da turma de Paulinho e Dantinho, o qual perdia o controle completamente quando estava drogado. Ele foi apontado como suspeito do crime pelo capitão Manoel Araújo, e morreu após tomar um remédio trocado na Santa Casa de Misericórdia de Vitória, provido por ConstanteenHelal (pai de Dantinho). Outros dois

O crime já prescreveu, mas o caso Araceli é uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Mexer no assunto em Vitória ainda desperta medo, revolta e incredulidade. José Louzeiro Escritor


assassinados foram uma das principais testemunhas do caso, Marisley Fernandes Muniz - apontada como amante de um dos acusados -,um mecânico que prestava serviços para Paulinho Helale o porteiro do edifício Apollo. Cobertura da Imprensa O caso Araceli obteve ampla cobertura da mídia e despertou um especial empenho de alguns jornalistas. Diariamente eram publicadas manchetes sobre as investigações. O documentário “Caso Araceli – a cobertura da imprensa”, realizado pela capixaba Tatiana Beling em 2005, exprime a opinião de jornalistas do principais veículos do Estado, que apuraram o caso na época. Eles alegam ter havido intensa repressão por parte da polícia. Paulo César Dutra, jornalista que cobriu o caso pelo jornal O Diário, declarou que a repressão não vinha do editor, e sim de fora pra dentro, das polícias civil e militar. Na perícia não havia sequer um filme feito por um fotógrafo ou perito para dar o local do crime quando o corpo foi encontrado. Coube então à imprensa realizar uma paciente e intensa apuração dos fatos. Os jornalistas afirmam que a polícia causou um intenso tumulto em volta do caso, e acredita-se que ela foi corrompida pelas famílias ricas dos acusados. O caso não foi totalmente resolvido, pois nem a polícia, nem a imprensa, foram capazes de provar toda a verdade. MarienCalixte, editor do jornal O Diário na época sustenta que a polícia dava informações muitas vezes equivocadas, exatamente para desviar a atenção da imprensa do fato verdadeiro. Os jornais só podiam

Em 2013, até a presente data, já foram contabilizados mais de 160 casos de abuso sexual Sergio de Melo Delegado publicar notícias do delegado responsável pelo inquérito. Se ele não disponibilizasse informações, não teria notícia. Pedro Maia, repórter dos jornais O Diário e A Tribuna, chegou a ir à Bolívia para investigar a hipótese de a menina estar viva no país. Ele foi o único que negou a acusação sobre Dantinho e Paulinho, e declarou ter sido discriminado pela sociedade e até por certos colegas de trabalho por tomar essa postura. Repercussão na rede O trucidamento mobilizou a sociedade de tal forma, que repercutiu em diversas manifestações nas redes sociais, inclusive, numa petição online que reivindica a alteração do nome da Avenida Dante Michelini para Araceli Cabrera. O documento, hoje com mais de oito mil assinaturas, será encaminhado ao prefeito de Vitória, Luciano Rezende, e aos vereadores do município. O estudante universitário Allan Diego Brito, 26, autor do documento, se diz surpreso pela proporção tomada, e que sua intenção foi, além de promover

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a mudança da nomenclatura da via, mobilizar a sociedade e homenagear a vítima, mostrando que a população capixaba não se esqueceu da atrocidade que foi seu homicídio. “Minha meta é atingir 10 mil assinaturas até o dia 18 do próximo mês, quando o número de adeptos deve estagnar. Depois disso, vou encaminhar ao prefeito de Vitória e aos vereadores da cidade. Sei que é quase impossível que atinja o objetivo, pois há muita burocracia, mas vale a pena o esforço”, afirma. Além da documentação virtual, os vereadores Fabrício Gandini (MD) e Vinicius Simões (MD) elaboraram um projeto de lei a fim de tornar possível a modificação do nome da avenida, mas ainda não foi à votação no órgão responsável pela aprovação de nomes de ruas, avenidas e demais logradouros do município, a Câmara Municipal, que determinará se o registro é constitucional. Violência infantil em números O caso Araceli é apenas um dos inúmeros abusos sexuais infantis que acontecem no Brasil e no Espírito Santo. Só em 2012, 40 crianças por mês foram abusadas sexualmente em território capixaba, o que totaliza 488 casos no ano. De acordo com o delegado da Polícia Civil do ES, Sergio de Melo, os números continuam altos no Estado. “Em 2013, até a presente data, já foram contabilizados mais de 160 casos de abuso sexual”, enfatiza. O delegado conta que na maioria dos casos o autor do crime é quem mais deveria proteger. “Quando não há grau de parentesco, o agressor se trata de alguém do convívio da vítima”. A maioria das vítimas, ele destaca, “possui idade entre 12 e 13 anos”. A assistente social da Vara da Infância de Cariacica, Daniele Prudêncio, explica que o fato do agressor ser alguém próximo dificulta a punição do crime. “Quando o agressor é o próprio pai, por exemplo, muitas vezes a família prefere abafar o crime e permanece na impunidade”, lamenta. Apesar da importância da questão e das diversas campanhas de conscientização à violência sexual contra crianças e adolescentes, faltam dados estatísticos mais detalhados sobre as ocorrências. Uma iniciativa do Governo Federal promete facilitar o monitoramento dos casos no Brasil inteiro. “Esta em fase de implantação um sistema de monitoramento de dados de violência contra crianças e adolescentes”, afirma a presidente do Conselho de Estado da Criança e do Adolescente, Nilda Turra. As denúncias de violência contra crianças e adolescentes podem ser feitas na Delegacia de Proteção a Crianças e ao Adolescente, ou por meio dos telefones disque 100 (nacional) e 181 (no Espírito Santo). Outros casos pelo Brasil Em 17 de maio de 2000 a Lei nº 9.970 - pro-

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posta pela então deputada federal, Rita Camata - foi sancionada, estabelecendo o dia da morte de Araceli, 18 de maio, como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Com o objetivo de atrair a mídia e mobilizar a sociedade, a campanha foi produzida pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan (CEDECA,BA) em Salvador, Bahia. “Esquecer é permitir, lembrar é combater” foi o tema instituído pela associação, que desenvolve ações de conscientização como forma de prevenir e combater a violência contra a criança e o adolescente. Contudo, mesmo com tamanha repercussão, os casos de violência sexual a crianças e adolescentes aumentam ano após ano em todo o país. Em março deste ano, Vanessa, de 12 anos de idade, foi violentada e morta por um menino de 17 anos, em Araucária – Paraná. Um garoto, de apenas dois anos, foi encontrado morto, enrolado num lençol dentro de uma máquina de lavar. O suspeito, um homem de 27 anos, após ser apreendido, teria confessado à polícia que abusou sexualmente da criança e depois o matou a facadas. O crime aconteceu no bairro Afogados –Recife - em janeiro deste ano. No estado do Espírito Santo, só na Grande Vitória há registro de mais de 50 crianças e adolescentes vítimas de violência sexual em 2011. As informações são do Mapa da Violência 2013, pesquisa realizada pelo Governo Federal que detectou os índices de violência no estado.


Um Centro em ruínas

O descaso que Vitória demonstra pelo seu coração de concreto velho tem conseguido desmanchar um acervo histórico e empobrecer a imagem do mais belo ponto da cidade. Por Lorena Pelissari e Wéverton Campos

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uardando grandes riquezas socioculturais dos últimos séculos, como o Palácio Anchieta, o Theatro Carlos Gomes e a Catedral Metropolitana, o Centro de Vitória encontra-se abandonado, não só pela população, mas também, de certa forma, pelo Poder Público. A segurança é precária, o comércio está fraco. Os locais mais badalados ainda são os bares, principalmente os que ficam localizados na Rua Sete – a mais famosa do bairro. Apesar do movimento não ser tão grande como no passado, os bares do Centro ainda recebem muitos apaixonados pela cerveja, pelo samba, pelo futebol e pela riquíssima atmosfera cultural da região. Porém, muitos prédios encontram-se abandonados, em ruínas. Inclusive, muitos patrimônios tomados como históricos, se vêem em situação de descaso e desdém. Há ainda, uma grande dificuldade por parte dos moradores que possuem imóveis na região em conseguirem inquilinos, uma vez que é raro o número de interessados (por mais que os preços sejam convenientes).

É justamente esse ponto que será aprofundado no decorrer da matéria: os imóveis. Pautados por um ensaio realizado para a disciplina de fotojornalismo em abril de 2013, os repórteres procuraram saber, com três entrevistados, as causas e as possíveis soluções para o problema do abandono e da consequente deterioração das casas e prédios do centro da capital capixaba. A História Colaboração: Prof. Dr. da Ufes Luiz Cláudio M. Ribeiro Devido à desvalorização do preço do café em meados do século XX, a população rural do Brasil, incluindo a do Espírito Santo, começou a procurar novas maneiras de ganhar dinheiro. Em terras capixabas, muitas famílias migraram do interior para cidades como Vitória, Vila Velha e Cariacica, o que proporcionou urbanização, economia mais complexa e extratos sociais mais hierarquizados em tais municípios. No entanto, como era de se esperar, as caNo entanto, edição 65, outubro de 2013

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madas trabalhadoras mais pobres ocuparam as piores áreas capital, como regiões alagadas e os morros. Essa migração provocou um grande crescimento dos negócios imobiliários. No Final do século XIX, a partir do planejamento feito pelo engenheiro Saturnino de Brito, a pedido do então governador do Espírito Santo, Muniz Freire, as áreas litorâneas da região continental de Vitória ganharam investimento. Essas localidades começaram a atrair um intenso movimento de classes média e média-alta, que vão se deslocar para as áreas próximas das praias e seus arredores. A região do Parque Moscoso e da Cidade Alta passou a receber, também, a construção de edifícios comerciais e com fins de moradia. Dessa forma, o Centro de Vitória se tornou o centro comercial não só da capital, mas do próprio estado. A população do Centro de Vitória começou a ficar muito misturada. Em contraponto, pelo fato da elite sempre buscar um diferencial, gostar de se destacar, iniciou-se um processo de formação de clubes em outras áreas da cidade. Isso fazia, portanto, com que essa camada mais apoderada de bens se deslocasse até estes recintos. A classe média, seguindo a mesma tendência, começou a migrar do Centro para o litoral. Enquanto isso, Vila Velha, Serra e Cariacica recebiam as camadas mais pobres do contingente populacional que chegava de outras localidades. Na década de 70, o país viveu a crise do “milagre brasileiro” e Vitória começou a ter suas partes planas dominadas pela classe média. Porém, o grande crescimento populacional não foi suportado pelos bairros até então projetados para essa camada. Era preciso se expandir! Desse modo, nascem Jardim da Penha, Mata da Praia e Jardim Camburi, que foram construídos bem ao gosto da elite, com calçadões e bares à beira-mar. Esses novos recantos da nobreza, assim como os demais que já existiam, receberam um alto investimento imobiliário. Já o comércio, passava a acompanhar tal crescimento em direção ao norte da capital, - desde Santa Lúcia a Jardim Camburi – sem sair do litoral da cidade. Simultaneamente ao “boom” imobiliário na parte continental da Ilha, as antigas construções do século XIX e XX do Centro de Vitória começaram a ser destruídas e apropriadas para a construção de prédios e apartamentos. No entanto, a cidade não passou por um processo urbanista: o que se viu foi a demolição de patrimônios históricos. Construções de até 20 andares sacrificavam a visão de monumentos e a imagem cênica que foi pensada na época da construção da cidade de Vitória. Sendo assim, a sede deixou de ser um cartão postal - como um conjunto arquitetônico - e tornou-se um caos, onde hoje não existe mais nenhuma integralidade em relação ao projeto urbanístico original. O estilo das construções, geralmente em formato “caixote”, ficou ultrapassado. Esse não é mais

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o padrão de construção atual, não é mais o tipo de apartamento que se faz, para fins comerciais e residenciais. Dessa forma, estes prédios se deterioram por falta de atrativos. A maioria dos proprietários desse tipo de residência nem mora mais em Vitória. Muitos se mudaram para outros estados ou outras cidades do Espírito Santo. Mas, o imóvel continua lá, vazio, ao mesmo tempo em que muitas famílias precisam de moradia. O Plano de Revitalização do Centro de Vitória Em conversa com a assessoria da Secretaria de Desenvolvimento da cidade de Vitória, procurou-se saber se existe um plano de revitalização para o Centro da cidade. Revitalização que envolva não somente a questão dos prédios abandonados, mas também com fins de resgatar a importância do bairro para o município e estimular o comércio e a circulação de pessoas pelo local. Confira, na íntegra, o comunicado do órgão: “A Prefeitura de Vitória esclarece que a Revitalização do Centro de Vitória tem como objetivo valorizar o centro Histórico e reverter seu processo de esvaziamento socioeconômico e cultural por meio de uma política especial para a região. Ela envolve proje-

Imagem do interior de um dos prédios do Centro. Deterioração da estrutura e abandono do espaço são visíveis


tos e ações estruturais e integradas para recuperar a atratividade da região central da cidade tanto como local para se viver, como para se investir. Entre as ações, estão a recuperação dos imóveis de interesse de preservação; a identificação e destinação de imóveis ociosos para novos usos; a reurbanização e requalificação dos espaços públicos; a valorização e potencialização do patrimônio histórico, cultural e paisagístico da cidade; a implantação de novos equipamentos turísticos, culturais e de lazer com ganhos sociais e econômicos para a região. Uma delas é a isenção de 50% a 100% no IPTU para imóveis históricos preservados. A Prefeitura de Vitória concede, desde 2001, a isenção parcial ou total do imposto aos proprietários que mantêm, em bom estado de conservação, os imóveis de interesse de preservação protegidos por lei. O objetivo é incentivar a manutenção das edificações identificadas pelo programa de Revitalização do Centro como de interesse para a preservação da história e do patrimônio cultural, paisagístico e arquitetônico do município. A Secretaria de Cultura, por exemplo, mantém um calendário de atividades com o objetivo de resgatar a importância cultural do espaço”. A responsabilidade de quem mora em um imóvel tombado Por bem ou por mal, muitos moradores do centro de Vitória reclamam do fato de não poderem alterar a arquitetura original de seus próprios imóveis. Para esclarecer melhor essa questão, o historiador do Núcleo de Documentação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Espírito Santo (Iphan ES), Antonio Carlos Cordeiro dos Santos, foi entrevistado. Ele esclarece que os moradores que residem em prédios tombados recebem o apoio e patrocínio dos editais municipais, estaduais e federais. O edital a nível federal está no site do Ministério da Cultura (Minc). Já no caso do estado, quem cuida dessa questão é a Secretária de Estado da Cultura (Secult) e, no município de Vitória, o que garante assistência aos donos destes prédios é a Lei Rubem Braga. Contudo, a responsabilidade pelo imóvel é do proprietário. Ainda de acordo com o historiador da Iphan, os donos devem tomar cuidado ao modificar os prédios que foram tomados como histórico. Entre o que não pode ser feito está “descaracterizar sua fachada ou algum tipo de alteração sem consultar os órgãos de proteção, seja federal, estadual ou municipal”, pontua Antonio. Para quem deseja visitar os prédios desocupados, que estão sob domínio/vistoria do Iphan, é preciso formalizar o pedido por escrito ao órgão. Mas, em caso de imóvel abandonado, será necessário localizar o dono para pedir permissão. Segundo a Prefeitura de Vitória e a Secult, a área de maior concentração de prédios históricos é o bairro Cidade Alta, no centro de Vitória.

O que é o Iphan? O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que existe desde o ano de 1937, é o órgão que tem o compromisso de proteger e valorizar o patrimônio cultural brasileiro. Ele atua na preservação dos monumentos históricos, como diversos tipos de imóveis e sítios arqueológicos, resguardando as referências e paisagens culturais brasileiras. Age orientando, executando e fiscalizando os projetos envoltos ao patrimônio cultural. No Espírito Santo, o instituto iniciou sua atuação a partir do ano de 1940, com o construtor André Carloni - considerado o “observador do patrimônio”. A trajetória do Iphan no território capixaba é marcada por três fases: a primeira dos tombamentos de bens coloniais; a segunda pela intensa atividade de conservação e restauração dos patrimônios culturais, e a terceira com a ampliação da proposta de aumento do acervo preservado, criando em 2004 a Superintendência do Iphan. Ela fica localizada em Cidade Alta, no centro de Vitória, ocupando um sobradinho tombado do século XVIII, que é um dos últimos remanescentes da arquitetura civil colonial da cidade. Entre os patrimônios tombados no Estado estão igrejas, esculturas de imagens sacras, bens do patrimônio natural, como sítios urbanos e fazendas, casas de artista, como a do cantor Roberto Carlos, em Cachoeiro de Itapemirim, construções que marcaram a presença da imigração europeia e exemplar do patrimônio ferroviário. Além dos patrimônios imateriais, por exemplo, o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. Três municípios capixabas foram inclusos no programa nacional de Planos de Ação para Cidades Históricas (PACH), através da superintendência estadual: Vitória, Vila Velha e Muqui. O objetivo é realizar gerenciamento integrado das áreas urbanas que são de interesse quanto à preservação.

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Uma realidade chamada

Autismo

Os frequentes debates abordando o transtorno têm levantado na população incógnitas relevantes. Entenda algumas questões sobre o assunto. Por Geovana Chrystêllo e Renan Chagas

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onhecido popularmente com autismo, o Transtorno do Desenvolvimento Pervasivo (TDP), é uma alteração que compromete o desenvolvimento da comunicação e da interação social do indivíduo. Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos deste ano, estima-se que uma a cada 50 crianças do país sejam atingidas pelo transtorno. No Brasil, não existem dados específicos. As causas para o autismo podem ser diversas, o que promove uma série de dúvidas e questionamentos por parte dos pais. “Sabe-se que existe uma influência genética e que fatores ambientais também estão envolvidos. Por exemplo, a Síndrome do X Frágil pode causar autismo, retardo mental e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Mas existem muitos casos em que não há nenhum fator suspeito identificável”, esclarece a neuropediatra Luziene Dalmaschio Biasutti. Ainda de acordo com a especialista, complicações durante a gestação podem contribuir para a manifestação do distúrbio. “Crianças com nascimento prematuro, com baixo peso e que ficaram por muitos dias em UTIN têm mais risco. Por isso, fazer o pré-natal completo, e ter um bom acompanhamento durante o parto, são importantes para prevenir seu aparecimento, porém, infelizmente ainda não existem garantias”, ressalta. Também conhecido como Espectro Autismo, a disfunção possui graus que variam entre leve, moderado e severo. Para todos eles, as características básicas de diagnóstico são as mesmas, mas elas se manifestam de forma mais ou menos frequente ou comprometem de forma mais sutil ou intensa a funcionalidade da criança. Para minimizar os males causados pelo transtorno, é importante que a criança seja diagnosticada precocemente. “Quanto antes é o diagnóstico e, principalmente, quanto mais cedo acontecer a intervenção ou tratamento, melhor as chances da criança se desenvolver mais próximo do normal”, alerta Luziene. Esta é uma das maiores dificuldades no Brasil. Enquanto nos

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EUA os resultados são dados em uma média de até três anos, em nosso país a identificação é feita numa faixa etária média entre os cinco e sete anos. Como identificar? Para chegar a resultados conclusivos em relação ao autismo, a convivência com as crianças é necessária para que os profissionais da saúde possam identificar e tratar o problema. Para isso, os pais devem estar atentos a algumas características que um portador de TDP pode apresentar. Normalmente são três grupos de características que podem ser identificáveis. O primeiro deles é o atraso de linguagem, onde não só a fala está comprometida, mas também o restante da comunicação. Assim, é comum que o portador pegue um adulto pela mão para usá-lo para conseguir o quer, ou utilize gestos para comunicar um desejo, ao invés de utilizar a fala. O portador pode, ainda, não entender piadas ou brincadeiras; repetir as palavras como num eco (ecolalia) ou ficar repetindo frases de desenhos animados ou músicas (uso de jargões); não costuma dar início a

Amigos dos autistas Para proporcionar o tratamento terapêutico multidisciplinar ao autista no Estado do estado, foi fundada a Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes), uma entidade filantrópica de caráter assistencial, educacional, cultural, de saúde, de estudo, desportivo, dentre outros. O tratamento dado na instituição é gratuito e em um período indeterminado. A Amaes nasceu no ano de 2001, durante uma palestra promovida pela Apae de Vitória. Atualmente oferece tratamento a mais de 100 autistas, buscando inseri-los no convívio social com autonomia e dignidade. A associação atende na av. Fernando Ferrari, no Bairro de Goiabeiras, em Vitória.


não precisa apresentar tudo isso ao mesmo tempo. Ela pode ter apenas alguns sinais. Por outro lado, o fato dela apresentar apenas alguns poucos sinais não significa que a criança tenha autismo”. Os tratamentos

uma conversa e em geral só responde ao que lhe é perguntado e pode não perceber o sentimento ou pensamento de uma pessoa, como por exemplo, se a mãe está triste ou zangada. Outra característica dos autistas é a dificuldade de socialização. Muitas vezes eles preferem brincar sozinhos. Também não costumam fazer amizade com crianças da mesma faixa etária e, por vezes, é mais apegada aos pais do que o esperado para a idade. Além disso, eles possuem dificuldade em olhar nos olhos de outras pessoas. para completar os grupos, estão as Esterotipias e os Interesses restritos. São chamados de esterotipias os movimentos repetitivos como ficar se balançando, andar na ponta dos pés, sacudir as mãos quando feliz, ficar girando ou correndo de um lado para o outro. Já no caso dos interesses restritos, a criança só se interessa por dinossauros, só brinca com dinossauros, só quer usar coisas que tenham dinossauros e sabe tudo sobre aquele assunto. Às vezes só toma leite, e tem até aversão de consumir outros alimentos (sólidos, alimentos grudentos: por exemplo manga, alimentos novos). Isso é tão importante que a criança pode ter problemas em ganhar peso por exemplo. Às vezes as crianças com autismo também tem problemas com texturas diferentes, não aceitando mexer em massa de modelar ou pisar na área da praia e podem cheirar, lamber e olhar diferente para objetos e até pessoas. Nesse contexto tendem a não gostar de brinquedos, ou a brincar de forma estranha, girando a roda do carinho, organizando por cores, enfileirando. Tende a não fazer de conta. Geralmente são crianças birrentas, que ficam muito irritadas ao mudar sua rotina. Mas também pode ocorrer o contrário sendo crianças muito apáticas que vivem no mundo delas sem se importar com o que acontece ao seu redor. Tendem a tampar os ouvidos e ficar estressadas até com barulhos do dia a dia como: liquidificador, secador de cabelo, serra elétrica, moto, fogos de artifício ou balões de festa estourando. Por outro lado, pode-se pensar que a criança é surda por não responder ao chamado ou não dar atenção aos barulhos ao seu redor. Com tantos sintomas, a neuropediatra Luziene alerta que os pais devem ter cuidado na hora de observar o filho. “É importante ressaltar que a criança

Após diagnosticado, o tratamento do Espectro Autista vai depender de uma equipe interdisplinar composta por médicos - pediatra, neuropediatra e psiquiatra infantil - , psicólogo infantil, fonoaudiólogo especialista em linguagem, pedagogos e psicopedagogos e terapeutas ocupacionais, que devem realizar uma avaliação para identificar os métodos mais adequados. Esses profissionais devem entender o desenvolvimento infantil e, em sua área de atuação, perceber onde está o desvio de comportamento daquela criança, tentando sempre que possível trazê-lo para o mais próximo do esperado. Quando isso não é possível são usadas estratégias para minimizar os danos e melhorar a qualidade de vida da criança e sua família. Em geral, o tratamento é realizado por situações lúdicas (brincadeiras), quando os pacientes são estimulados a fazer de contar, interagir mais e se comunicar melhor, diminuindo as estereotipias e as birras. “O médico pode ajudar com me dicações para diminuir a agitação as estereotipias e até a agressividade que pode estar presente. Também é possível melhorar a atenção e a interação social. Em alguns casos há distúrbio do sono que pode exigir tratamento medicamentoso. A escola precisa dar uma atenção especial à criança e suas necessidades especiais para permitir a aprendizagem adequada”, conta Luziene. Com o tratamento correto, ela diz que é possível obter bons resultados. “Nos casos mais leves, os pacientes podem vir a levar vida normal, tendo uma profissão e podendo ter sua própria família no futuro. No caso de pacientes com Asperger, se sua habilidade for realmente aproveitada ele pode ter destaque em sua área de atuação. Mesmo nos casos mais severos há grande melhora na qualidade de vida do paciente e da família”. Além disso, algumas particularidades se destacam entre os autistas. Geralmente são pessoas extremamente verdadeiras que não tem tendência a mentir ou enganar. Pode, por vezes, ter dons especiais para a música, a matemática ou o desenho. Eles também podem possuir uma memória invejável, conseguindo absorver e gravar grandes quantidades de informações. No entanto, edição 65, outubro de 2013

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Álcool na juventude Por que os jovens começam a ingerir bebidas alcoólicas cada vez mais cedo? Quais são seus efeitos no organismo em curto e em longo prazo? E qual é a influência dos pais neste processo? Por Bruno Nunes

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adolescência não costuma ser uma fase das mais fáceis para muitos jovens. É caracterizada por crises de identidade, questionamento de valores, conflitos, busca de modelos entre outros fatores, o que podem originar angústia e mal-estar. E é exatamente nesse período onde o ser humano busca experimentar coisas novas, sensações nunca provadas anteriormente. Como as drogas ilícitas e lícitas, dentro delas, o álcool. Com essa reviravolta em relação ao uso do álcool entre os adolescentes, que ocorreu bruscamente de uma geração para a outra, vieram também diversos fatores de risco. O primeiro é que o consumo de bebida alcoólica é aceito e até estimulado pela sociedade Não vejo como fator de risco. Pais que entram em pânico quando descobrem que o filho ou a filha fumou maconha ou tomou um comprimido de ecstasy em uma festa, acham normal que eles bebam porque, afinal, todos bebem. Sem desprezar os fatores genéticos e emocionais que influem no consumo da bebida - o álcool reduz o nível de ansiedade e algumas pessoas estão mais propensas a desenvolver alcoolismo -, a pressão do grupo de amigos, o sentimento de onipotência próprio da juventude, o custo baixo da bebida, a falta de controle na oferta e consumo dos produtos que contêm álcool, a ausência de limites sociais colaboram para que o primeiro contato com a bebida ocorra cada vez mais cedo. Não é raro o problema começar em casa, com a hesitação paterna na hora de permitir ou não que o adolescente faça uso do álcool ou com o mau exemplo proveniente de alguns pais. De acordo com o estudante de 22 anos do Instituto Federal do Espírito Santo, Victor Valfré, o jovem começa a consumir bebidas alcoólicas influenciado pelo meio em que se situa, mas, ao mesmo tempo, precisa ter uma ampla discussão em casa, com a família. “Acredito que começamos a beber por influências externas, como com a turma em que você está inserido. É claro que não é somente isso, mas o mais provável é

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que você prove ou comece a beber com seus amigos, pelo fato de eles consumirem e você querer se enturmar. Eu, por exemplo, comecei a beber com meu pai em minha casa, mas nunca me senti ‘intimado’ a experimentar. Provei por vontade própria. Além disso, essa questão sempre foi muito ‘aberta’ e ‘discutida’ com os meus familiares. Depois de experimentar, acabei gostando. Hoje bebo razoavelmente, mas não faço questão nenhuma de ficar de porre”. “Em relação aos que estão começando, a sensação de praticamente perder o controle parece-lhes excepcional. Mas eu não aconselho. Tudo tem seu limite, e as bebidas alcoólicas, com todo o ‘poder’ que parecem oferecer, tornam-se um perigo aos jovens que não tem a real ideia do que elas podem causar ao organismo e até mesmo a terceiros, seja em casos de acidentes de trânsito ou mortes por motivos fúteis”, acrescentou. A estudante de psicologia, Bruna Vilhena, tem uma visão parecida, afirmando que os jovens ingerem quantidades excessivas de álcool pelo efeito, e não pelo sabor. “A sensação que o álcool gera em grande quantidade dos jovens é a de relaxamento, extravasamento.

Foto: Ilustração


Bruna Vilhena Estudante de psicologia

É neste momento em que o jovem pode se refugiar de muitos problemas e até mesmo liberar um lado que esteja reprimido”, completou. Bruna ainda afirma já ter “passado dos limites”, mas que não gostaria de repetir a experiência. Quando perguntada sobre a influência dos pais, ela é categórica ao afirmar que “eles influenciam e muito na quantidade consumida pelos filhos, pois pais permissivos ou aqueles com pouca responsabilidade e baixa afetividade aumentam as chances de um adolescente se envolver com as bebidas, enquanto que pais mais rígidos e maisafetivos, teoricamente, diminuem o risco do consumo de excessivo de álcool pelos adolescentes”, afirmou. A estudante ainda diz que a influência da sociedade e principalmente dos amigos também desempenha um papel importante sobre o consumo de álcool, pois nos dias de hoje, beber, além de ter virado algo normal e prazeroso entre a juventude, faz com que os que não se adaptam sintam-se deslocados. “Não podemos esquecer que a mídia, no meu conceito, impõe um padrão a ser seguido. A pressão em nossa sociedade é grande, fazendo com que a juventude siga esse determinado padrão”, cita. “Todos nós já fomos influenciados a ingerir bebida, mesmo que indiretamente. O fato de alguém estar bebendo ao seu lado já o permite conhecer. Através deste conhecimento, a curiosidade é aguçada. Isso sem contar os amigos que oferecem alguma vez, a maioria sem maldade. O tempo todo estamos sujeitos a essa influência, seja ela direta ou indireta”, completa Bruna. Segundo o doutor Sérgio Martins, o efeito no corpo dos mais velhos e dos mais novos é semelhante, sendo os mais antigos mais suscetíveis a algum tipo de infecção, já que sua vulnerabilidade aos efeitos do álcool é maior, sendo estes físicos ou mentais. A recuperação também é mais complicada, pois as consequências são mais nocivas. O médico ainda afirma que quem começa mais cedo tem um maior risco de se tornar dependente, pois

Foto: Ilustração / Internet

A sensação que o álcool gera,em grande quantidade dos jovens é a de relaxamento, extravasamento. É neste momento em que o jovem pode se refugiar de muitos problemas e até mesmo liberar um lado que esteja reprimido

é na juventude que ocorre a formação do nosso caráter, além da contribuição genética, que conta muito. “Se seu pai é alcoólatra, por exemplo, não quer dizer que você também será. Mas há uma pré-disposição em seu DNA que poderá ser desenvolvida futuramente”, completa. “Em curto prazo, os efeitos poderão ser os seguintes: mal-estar estomacal, dificuldades respiratórias, visão e audição distorcidas, capacidade de raciocínio deficiente, percepção e coordenação diminuídas, inconsciência, anemia (perda de glóbulos vermelhos no sangue) e o famoso “blackout” (falhas de memória durante os quais o alcoólico não consegue se lembrar dos eventos que aconteceram enquanto estava sob a influência do álcool). Em longo prazo, além dos mesmos efeitos citados anteriormente, podemos acrescentar elevada pressão sanguínea, trombose e outras doenças relacionadas ao coração, doenças do fígado, lesões nos nervos, danos cerebrais permanentes, deficiência de Vitamina B1 (a qual pode levar a uma desordem caracterizada por amnésia), úlceras, gastrite, má nutrição e cirrose hepática com grande risco de desenvolver câncer no fígado”, explica o doutor Sérgio. Não se pode esquecer que, em qualquer quantidade, o álcool é uma substância tóxica e que o metabolismo das pessoas mais jovens faz com que seus efeitos sejam potencializados. O álcool é responsável, também, pelo aumento do número de acidentes e atos de violência, muitos deles fatais, a que se expõem os usuários. O consumo de álcool na adolescência e na juventude deixa marcas indeléveis no cérebro. Beber é muito mais danoso para o cérebro jovem do que para o dos adultos. Os efeitos em longo prazo são bastante indesejáveis. Proibir apenas que os adolescentes bebam não adianta. É preciso conversas com eles, expor-lhes a preocupação com sua saúde e segurança e deixar claro que não há acordo possível quanto ao uso e abuso do álcool, dentro ou fora de casa.

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Quatro décadas de Terceira Ponte Com mais de 40 anos de história, a ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça ganhou destaque durante manifestações em Vitória Por Nathália Munhão e Renan Chagas

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ímbolo de Vitória, ponto turístico capixaba e uma das maiores construções do tipo no país, a ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça popularmente conhecida como Terceira Ponte -, que liga os município de Vitória e Vila Velha, entrou em pauta nos jornais, sites de notícias e rodas de conversas nos últimos meses, durante as manifestações que marcaram o Brasil, incluindo o Espírito Santo. Entre gritos de protestos, uma pergunta se fazia frequente: Qual a necessidade real necessidade da cobranã de pedágio na via? Mas as interrogações sobre a ponte são antigas e se iniciaram junto com a sua construção. Para tentar esclarecer algumas destas perguntas, o No entanto traz um panorama de uma história que já ultrapassa os 40 anos. O início Com 30 quilômetros de pista dupla, a Terceira Ponte foi apelidada com este nome assim que o projeto de construção foi anunciado, no final da década de 1970. Naquela época, a capital capixaba já contava com outras duas vias de ligação à Vila Velha: a ponte Florentino Ávidos e a Segunda Ponte. A construção da Terceira Ponte teve início no ano 1979, com previsão para ser entregue em 1981. Não foi o que aconteceu. Com alguns atrasos e paralisações das atividades, as obras percorreram mais de 10 anos, passando por quatro governos. Com isso, a ponte só seria inaugurada, de fato, em 1989. A construção O primeiro passo para a construção da Terceira Ponte foi dado em 1973. Neste ano, o então governador Arthur Gerhard Santos (1971-1975), ao retornar

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de Brasília, anunciou uma ligação entre a Praia do Suá, em Vitória, e Vila Velha. O projeto, no entanto, não foi pra frente devido à crise do Petróleo e a inflação, que impediram o início das obras. Somente cinco anos mais tarde, durante o mandato de Élcio Álvares, é que a construção seria iniciada, no ano de 1978. No seu governo, Élcio conseguiu erguer um terço da ponte, “colocando” a estrutura na água. Em 1979, quem assume o governo do Estado é Eurico Vieira de Resende. Seu mandato, que termina em 1983, é marcado, entre outras coisas, pela primeira paralisação das obras, no ano de 1980. A falta de verba do Governo Federal faz com que, em 1982, ocorra a primeira tentativa de concessão da ponte. O governo chega a lançar um edital internacional para que a construção fosse continuada por uma empresa privada, mas a ideia não vinga devido o resultado de uma pesquisa que revelou que o fluxo de veículos seria pequeno, podendo resultar em um alto valor de pedágio. Com isso, as atividades de construção só seriam retomadas quatro anos depois, durante o governo de Gerson Camata (1983-1986), que capta recursos para continuar a construção da ponte. Durante o seu


mandato, Gerson não consegue finalizar a ponte - prevista para ser entregue em 1981 e que já se encontra em atraso -, mas constrói a maior parte da obra. Em 1987, no governo de José Morais, foram concluídas as obras de concreto da ponte. Neste mesmo ano, o então governador realizou uma ‘inauguração da iluminação da ponte’. Porém, a obra em si ainda não tinha concluída e a estrutura apenas estava na base, sem uma ligação direta. É em 1987, também, que Max Mauro é eleito para o cargo de governador. Novamente sem dinheiro para se investir na construção, a solução encontrada foi o repasse do custo para as empreiteiras responsáveis pela obra, em troca da cobrança de pedágio (tentativa que havia sido frustrada anos antes, em 1982). A empresa Operações de Rodovias Ltda. (ORL) foi a responsável por gerenciar a Terceira Ponte de sua inauguração, em 1989, até 1998, três anos antes do encerramento do contrato. É nesse contexto que ocorre a abertura do processo de licitação e concessão do trecho. Após se entender por pouco mais de uma década, é realizada a inauguração da ponte no dia 23 de agosto de 1989, ainda durante o governo de Max Mauro. O pedágio Instalado para cobrir os gastos com a construção da ponte, o primeiro contrato de concessão foi estabelecido com um prazo de 12 anos. Porém, o acordo, que deveria acabar em 2001, foi encerrado em 1998, durante o governo de Vitor Buaiz, para dar lugar a uma nova concessão, com prazo de 25 anos. Nessa mesma época, o Governo do Estado une a Rodovia do Sol e a Terceira Ponte. E é também nesse período que a Concessionária Rodovia do Sol S/A assume o contrato de concessão. Segundo nota da empresa disponível no seu portal, o acordo “não tem qualquer relação com o contrato anterior”. Na mesma nota, ela afirma que “a RodoSol pagou o resíduo da dívida do Estado para a construção da ponte” e que “o pagamento foi realizado no ato da assinatura do contrato”. A ponte está paga? O maior motivo de dúvidas entre os usuários da ponte gira em torno da cobrança da tarifa. Afinal, ela já já foi paga ou não? O valor cobrado seria utilizado para cobrir esta conta ou para outros fins? Em entrevista ao jornal online Folha Vitória, no mês de Julho, o ex-governdor Max Mauro afirmou que o primeiro contrato, com prazo de 12 anos, era suficiente para pagar as dívidas da construção, remunerar as empreiteiras e gerar lucro. “Estabeleci prazo de 12 anos, mediante cálculo

Protestos: em placa na terceira ponte, manifestantes escrevem tarifa “tarifa zero”

de tráfego e propósito de ter sempre uma tarifa acessível à todos”, disse para o jornal. Em nota, a RodoSol afirma: “A receita proveniente do pedágio não é para pagar a ponte. A receita é utilizada pela RodoSol para a manutenção e operação do Sistema Rodovia do Sol (Terceira Ponte e Rodovia do Sol), que envolve a recuperação de pavimentação, drenagem, implantação e recuperação de sinalização, conservação da faixa de domínio, os serviços oferecidos ao usuário, pagamento da folha salarial de 252 colaboradores diretos, além dos investimentos em novas tecnologias e das obras de duplicação da Rodovia do Sol no trecho sob concessão e construção do Contorno de Guarapari, no valor atualizado de cerca de R$ 380 milhões. Os investimentos realizados foram fundamentais para reduzir o índice de acidentes na Rodovia do Sol que era conhecida como ‘rodovia da morte’” Acumulando CPIs Desde foi conquistada pelo RedoSol, a concessão do pedágio vem gerando uma série de críticas e é alvo de constantes acusações. Desde 1998, três Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) já foram abertas para analisar o acordo. Delas, somente a última apresentou o relatório final, que apontou diversas irregularidades no contrato. A CPI, que teve como relator o então deputado estadual - e hoje deputado federal - César Colnago, apontou, entre outras coisas, falhas como improbidade administrativa, não cumprimento de recomendações do Tribunal de Contas, superdimensionamento dos valores do pedágio, irregularidades no processo licitatório, descumprimento de condicionantes ambientais e inutilização de documentos públicos. A CPI da RodoSol sugeriu ao Ministério Público Estadual o indiciamento de 12 pessoas, entre elas os ex-governadores Vitor Buaiz e José Ignácio Ferreira, os ex-secretários de Meio Ambiente, Jorge Alexandre da Silva, Domingos Sávio Martins e Almir Bressan No entanto, edição 65, outubro de 2013

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Júnior, e os ex-secretários de Obras, Jorge Hélio Leal e Fernando Augusto Betarello, além da própria concessionária RodoSol S/A. Em entrevista ao Jornal da TV Vitória, o deputado federal César Colnado afirmou: “A ponte já foi paga. Ela foi incluída dentro da rodovia do sol que não começava ali. Incluíram a ponte porque o é ela que, na verdade, paga os investimentos da estrada (Contorno de Guarapari), que só tem movimento em janeiro”, disse. Segundo ele, “estamos pagando (a conta) para os turistas”. Protestos e modificações do cenário Em julho deste ano, após os protestos que aconteceram no estado, um grupo de com cerca de 70 manifestantes ocupou a Assembleia Legislativa do Espírito Santo para cobrar a votação do projeto que suspendia a cobrança da tarifa da Terceira Ponte, de autoria deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). A ocupação durou 11 dias. Durante todo o movimento, alguns deputados ameaçaram não comparecer às votações enquanto os ocupantes não deixassem a - suposta - Casa do Povo. A desocupação aconteceu no dia 13 de julho, de forma espontânea antecedida por um acordo. No dia 15 do mesmo mês, por 16 votos a 11 os deputados estaduais do Espírito Santo votaram pelo arquivamento do Decreto Legislativo que pedia a suspensão da cobrança do pedágio da Terceira Ponte. Nesse mesmo período, a justiça do Espírito Santo determinou que o valor do pedágio fosse reduzido a uma taxa equivalente somente à manutenção, atendendo ao pedido feito pelo Ministério Público, que solicitava uma revisão do contrato com a concessionária. A juíza Heloisa Cariello, da 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual de Vitória, determinou que parte do contrato fosse suspensa para a realização de uma auditoria técnica. Com a decisão, a Agência Reguladora de Saneamento Básico e Infraestrutura Viária do Espírito Santo (Arsi) anunciou que o valor passaria de R$1,90 para R$ 0,80 para carros. A tarifa para motos passaria para R$ 0,40 e R$ 1,60 para caminhões leves, em decisão válida por 90 dias. Na época, em entrevista coletiva para anun-

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ciar o novo valor, o diretor geral da Arsi, Luiz Paulo de Figueiredo, falou sobre o cálculo realizada. “A juíza nos solicitou que tirasse da proposta básica tudo que foi feito de investimento. Então, a gente fez a proposta básica do contrato de 1998 e retiramos os valores a título de investimento e chegou-se ao valor de R$ 0,43. Esse valor foi reajustado conforme o contrato até os dias de hoje e chegados ao valor de R$ 0,80”, disse. No dia 07 de agosto foi iniciada a auditoria técnica. O relatório está previsto para ficar pronto em novembro deste ano, quando serão apresentados os resultados a favor ou contra a legalidade do contrato com a concessionária. Caso sejam encontradas irregularidades, ainda haverá um prazo de 30 dias para que os responsáveis pelo contrato possam apresentar a defesa.

QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE A COBRANÇA DO PEDÁGIO NA TERCEIRA PONTE?

Na condição de usuário sou favorável à cobrança tanto na ponte quanto em rodovias. Basta uma rápida comparação entre as condições das duas pontes locais ou da rodovia do sol (trecho com pedágio) e o contorno de Vitória para perceber a diferença em termos de segurança e conservação. Ismael Thompson, Professor Universitário

Claro, segue, eu penso que contrato assinado deve ser cumprido, ou seja, no governo de 1988 foi assinado contrato de manutenção que implica em cobrança de pedágio, em valor a ser estipulado pela contratada e fiscalizado pelo governo. Para termos uma manutenção como há hoje, faz-se necessário o pagamento de valores a serem determinados pelo concessionário/governo. Senão, não teremos vias e serviços de qualidade, em todo o mundo, as rodovias estradas e grande obras publicas, ha concessões publicas com cobranças de pedágio. Marcelo Munhão, Empresário e Contador.

Em protestos de junho, milhares de pessoas atravessaram a ponte à pé. Manifestação tinha, entre outras pautas, a queda do pedágio cobrado pela concessionária RodoSol.

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Cultura audiovisual na Ufes

Por Talita Vieira e Wéverton Campos

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Cine Metrópolis, localizado no campus da UFES em Goiabeiras, é de acesso público com preços mais acessíveis em relação aos cinemas de circuito. Dispõe de filmes alternativos àqueles de caráter explicitamente comercial, demonstrando assim singularidade quanto à seleção e exibição das produções cinematográficas. Zoel Alvarenga, Operador de Projeção do Cine Metrópolis, avalia que é fundamental o ambiente universitário disponibilizar um espaço de contato com a produção audiovisual, tanto para os alunos quanto para o público alheio à universidade. Ele conta que a maior parte dos frequentadores do Cine Metrópolis vem do Projeto Cine Escola, que é uma ação constituída por alunos de ensino fundamental e médio de escolas da região. Além disso, realça que o cinema oferece uma grande quantidade de filmes educativos, nacionais e estrangeiros e que os alunos da Ufes não frequentam tanto o local como poderiam. Zoel alega que é necessário ser feito um resgate do público de cinema, incentivando a valorização do audiovisual, e que os alunos do Centro de Artes, especialmente os de Comunicação Social, tem um papel importante para realizar essa ação, já que possuem maior contato com essa área. Ruth Reis, professora de Jornalismo e Superintendente de Cultura e Comunicação, conta que ela e Orlando Lopes, Secretário de Cultura da Ufes, estão desenvolvendo ideias para fundamentar um possível projeto de resgate do público de cinema na universidade. A professora coloca que, infelizmente, a valorização da produção audiovisual local é pouca, e que cinemas como o Cine Metrópolis não possuem muitas condições de competir com o cinema comercial. A procura de filmes mais alternativos na cidade é voltada para cinemas como o Cine Jardins, localizado no Shopping Jardins, em Jardim da Penha. Junto com Orlando, suas ideias visam “dar uma revitalizada no perfil de conteúdos do Cine Metrópolis” através de uma acentuação do perfil alternativo experimental do

local, “trazendo conteúdos clássicos, curtas, documentários, mostras, por meio de uma curadoria forte para prestigiar, inclusive, o cinema local”. Para isso, segundo Ruth, o Cine Metrópolis buscou parcerias com a Cinemateca brasileira e com a Cinemateca da Embaixada da França para ter acesso a produções na linha em que menciona. Além disso, a professora e Orlando pensam em aumentar a frequência de exibição audiovisual dentro da universidade, por meio de sessões de filmes feitas em salas de aula e qualquer espaço disponível para tal fim, referindo-se não só ao campus de Goiabeiras, mas também aos de São Mateus e de Alegre. Ruth comenta que o projeto audiovisual “Curta Quarta” voltou a ser realizado em maio deste ano, após 10 anos. Em parceria com a Biblioteca Central e apoio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o “Curta Quarta” tem como intuito estabelecer um pequeno cineclube por meio de sessões exibidas dentro da própria biblioteca, no auditório Carlos Drummond de Andrade. As sessões ocorrem sempre às quartas-feiras, ao meio-dia. Tanto Ruth quanto Zoel defendem a ideia de que o audiovisual, em suas mais variadas formas – o comercial, o alternativo, o experimental e o local –, deve ser buscado, valorizado e reconhecido por todos. Alegam que é papel da universidade facilitar o acesso e divulgar a importância da cultura cinematográfica como forma de conhecimento universal – estimulando, assim, a atenção para o próprio curso de Audiovisual, aberto pela Ufes em 2010, como nova habilitação em Comunicação Social. Acreditam também na capacidade e na eficácia da linguagem audiovisual de produzir conhecimento: “Além de ser uma linguagem que permite diversos níveis de criação e expressão, é suporte para uma diversidade imensurável de conteúdos. Considerando que a nossa cultura se relaciona cada vez mais intensamente com produtos audiovisuais, esse tipo de linguagem se reveste de importância inquestionável nos dias atuais”, finaliza Ruth. No entanto, edição 65, outubro de 2013

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