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Editorial

Parum experspid ea dis dolescil ilit alique nest et optatur, imus ad eseque pa voloribus etur sapidus ut fugiae est dem. Ut aliquos sit eostior rumquis

Edição 1 Novembro 2019

O empoderamento das mulheres tem construído novos caminhos e lutado bravamente por algo básico: igualdade. Na internet, mulheres transformaram sites, blogs e redes sociais em espaços seguros para afirmar identidades. Nesses espaços seguros, as discussões sobre nossa vida se tornaram públicas e revelam opressões e violências em relações afetivas e íntimas. A ideia é a criar consciência coletiva, formar alianças e amplificar vozes. O que ainda falta? A grande virada a favor da igualdade de gênero precisa de velocidade em ações concretas. Precisamos canalizar essa energia criativa. Precisamos aumentar a representatividade política, ocupar mais e melhores espaços na comunicação, valorizar empresas com equidade salarial, garantir saúde, direitos sexuais e reprodutivos, obter o respeito a territórios, reconhecer a diversidade das brasileiras como elemento positivo de um país que precisa eliminar desigualdades. Na disciplina Planejamento Visual em Jornalismo Impresso, do curso de jornalismo da Unisul de Tubarão, alunos do sexto semestre desenvolveram uma revista chamada Luzias, cujo objetivo é retratar histórias de mulheres destaques em suas ocupações, que enfrentaram diversas dificuldades e barreiras para alcançarem sucesso e reconhecimento que merecem. Elas contam histórias de vida, destacaram o preconceito que enfrentaram e como conseguem superar. Mulheres empreendedoras, agricultoras e até presidiárias. A partir desse assunto, os acadêmicos convidam o leitor a conhecer relatos de mulheres, muitas delas de Tubarão e região, com o objetivo de acelerar e expandir um debate que ainda é uma luta de todos para que se busque uma condição igualitária de gênero. Ademais, aproveite a leitura para entender o que muitas passaram e passam nessa árdua luta por algo que deveria ser óbvio. Desejamos-lhes boa leitura!

Alunos do 6° semestre de jornalismo na Unisul

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Editorial O empoderamento das mulheres tem construído novos caminhos e lutado bravamente por algo básico: igualdade. Na internet, mulheres transformaram sites, blogs e redes sociais em espaços seguros para afirmar identidades. Nesses espaços seguros, as discussões sobre nossa vida se tornaram públicas e revelam opressões e violências em relações afetivas e íntimas. A ideia é a criar consciência coletiva, formar alianças e amplificar vozes. O que ainda falta? A grande virada a favor da igualdade de gênero precisa de velocidade em ações concretas. Precisamos canalizar essa energia criativa. Precisamos aumentar a representatividade política, ocupar mais e melhores espaços na comunicação, valorizar empresas com equidade salarial, garantir saúde, direitos sexuais e reprodutivos, obter o respeito a territórios, reconhecer a diversidade das brasileiras como elemento positivo de um país que precisa eliminar desigualdades. Na disciplina Planejamento Visual em Jornalismo Impresso, do curso de jornalismo da Unisul de Tubarão, alunos do sexto semestre desenvolveram uma revista chamada Luzias, cujo objetivo é retratar histórias de mulheres destaques em suas ocupações, que enfrentaram diversas dificuldades e barreiras para alcançarem sucesso e reconhecimento que merecem. Elas contam histórias de vida, destacaram o preconceito que enfrentaram e como conseguem superar. Mulheres empreendedoras, agricultoras e até presidiárias. A partir desse assunto, os acadêmicos convidam o leitor a conhecer relatos de mulheres, muitas delas de Tubarão e região, com o objetivo de acelerar e expandir um debate que ainda é uma luta de todos para que se busque uma condição igualitária de gênero. Ademais, aproveite a leitura para entender o que muitas passaram e passam nessa árdua luta por algo que deveria ser óbvio. Desejamos-lhes boa leitura!

Alunos do 6° semestre de jornalismo na Unisul Supervisão: Aline Gambin e Vanessa Pedro. Produção, reportagem e diagramação: Acadêmicos do sexto semestre de Jornalismo, da disciplina de Planejamento Visual em Jornalismo Impresso.

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Índice Além do perigo

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Uma luta de quem entende: representatividade feminina no meio policial

Além do tempo

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Projeto Costa Butiá: há mais de dois séculos contando a história de Imbituba Autoridades

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Do Jardim do Edén ao empoderamento feminino na publicidade

Conhecimento transforma

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A informação pode salvar vidas

Conquistando espaço

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Mulheres a frente do jornalismo catarinense

Cultivando consciência

21

Mulheres na luta pelas causas sociais

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Desafiando limites

Impasse

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As dificuldades da mulher no Jornalismo Contemporâneo

Vozes femininas nas transmissões: quando teremos igualdade?

Descoberta

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Consumo consciente: cosmetologia e autoconhecimento

Histórias marginais

A realidade a frente e atrás das grades 4

39 Limites superados

31

A resistência feminina no jornalismo


e Lugar de direito

44

As motoristas de veículos pesados no sul de Santa Catarina Manifesto

47

A cultura da invisibilidade

Nossas armas

51

A perenidade da arte pela palavra

Novo sentido

55

Mulheres descobrem autoestima na maturidade

Ousadia e business

59

Universo dos negócios

Histórias reais A história de mulheres empreendedoras em Tubarão

Poder

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Representatividade feminina no empreendedorismo Revolução

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Transição capilar como um ato de liberdade e aceitação

Inovação e coragem Motoristas de Uber no sul de Santa Catarina

63 Som e movimento

66

A vida noturna como DJ

Suor e superação

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Protagonismo feminino no esporte: quebrando barreiras e preconceitos

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por Bárbara Dias

Bárbara Dias

Uma luta de quem entende: representativida feminina no meio policial

Palavras como proteção e segurança na maioria das vezes são relacionadas ao universo masculino. Logo, instituições como a polícia, bombeiros e exército são quase sempre associados como sendo profissões masculinas. Mas essa realidade vem mudando já há alguns anos. Têm sido cada vez mais comum ver mulheres na polícia, seja no meio operacional ou em posições de gestão e comando, mesmo ainda sendo minoria. Em uma pesquisa divulgada pelo Fórum de Segurança Pública em 2015, apenas 18% dos profissionais da segurança pública entrevistados, eram mulheres. A pesquisa foi feita em instituições de todo o país, na Polícia Civil, Militar, Científica, Federal, Bombeiros, Guarda Municipal. Aqui em Santa Catarina, por exemplo, temos como grande referência na história da segurança pública regional, Lúcia Maria Stefanovich. Ela foi a primeira profissional feminina no país a assumir o cargo de Delegada de Polícia, em 1972, e primeira mulher a ocupar o cargo de Delegada Geral, cargo máximo da Polícia Civil em nível estadual. Já no Rio Grande do Sul, por exemplo, apenas no ano passado os gaúchos passaram ter uma chefe de polícia estadual feminina. Lúcia Maria e a Segurança Pública A primeira delegada do país exerceu sua profissão por mais de 40 anos. Ela faleceu em 2017, aos 69 anos, ainda atuando como delegada.

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Além de ser a primeira chefe de polícia, ela também foi a primeira mulher a assumir o cargo de Secretária de Segurança Pública. Um ano antes de falecer, Lúcia Stefanovich concedeu à Redação NSC e avaliava de forma positiva a sua gestão. Ela contava que pegou as delegacias caindo aos pedaços e conseguiu reequipar parte delas com a aquisição para Polícia Civil 550 viaturas. Ela ainda foi convidada a montar uma delegacia apenas com mulheres em 1983, na época a 6ª Delegacia de Polícia de Florianópolis, que virou a Delegacia da Mulher e do Menor, primeira unidade de proteção à mulher no estado. Mais tarde a unidade se tornou a 6ª DPCAMI - Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso. Lúcia foi pioneira no estado para que mais tarde outras mulheres pudessem dar continuidade a trabalhos como o dela. A carreira nesses lugares demanda uma luta por direitos e por espaço, além de conseguirem proteger os direitos e a segurança de outras mulheres. Outra história é a delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora das DPCAMIs de todo o estado (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso). Patrícia é uma das idealizadoras do projeto Polícia Civil por Elas, que tem o objetivo de integrar os serviços da Polícia Civil. Garantindo desde a prevenção até o atendimento adequado às mulheres e famílias vitimadas pelas violência, a Polícia Civil pode


atuar em diferentes propostas. Ela destaca que a presença de mulheres na Polícia Civil em cargos de comando faz toda a diferença, trazendo um olhar diferenciado tornando uma gestão mais humana e resultados melhores. “Acho isso muito importante dos dois lados, tanto na ponta quanto nos cargos de chefia”, finaliza. A Sargento da Polícia Militar, Renata Santos Gomes, concorda com Patrícia, afirmando que ser uma mulher policial “possibilita trazer toda sensibilidade e compaixão feminina para um meio predominantemente masculino”, ressalta. Renata ainda comenta que na sua profissão tem contato com situações de fragilidade, risco e vulnerabilidade e tem a possibilidade de ajudar essas pessoas. “Fazer a diferença na vida delas é gratificante”, destaca. Patrícia afirma que para ela uma das coisas mais satisfatórias na área específica em que atua hoje é lutar pela mulheres vítimas de violência e fazer mudanças na vida delas. Ela completa dizendo que o Polícia Civil por Elas tem sido um meio para isso e que já tem apresentado resultados. “Conseguimos discutir abertamente questões de acolhimento, técnicas de investigação, mudar a forma de trabalho em algumas áreas e também o enfrentamento de violência contra mulher”, ressalta. Vivian Garcia Selig, que hoje atua como Delegada Regional de Tubarão, também já teve

experiência com atendimentos de violência contra mulher. Ela já foi Delegada da DPCAMI. Hoje participa da comissão do Programa Estadual de Valorização da Mulher Policial. Ela destaca que sua profissão a permite fazer a diferença em vários enfoques, como na gestão com os policiais e a valorização da carreira, e com a população, além de garantir a segurança, também em movimentos sociais. “Gratifico-me em fazer as coisas acontecerem, mesmo em frente das diversas dificuldades”, ressalta. Construções sociais enraizadas Nesta reportagem, ambas as entrevistadas mencionaram termos e expressões como “ter que se impor”, “ter pulso firme” ou ainda “não dar espaço”, em relação à postura profissional, assédio e preconceito. Esse comportamento ilustra um resultado apresentado por uma pesquisa do Fórum de Segurança Pública em 2015, na qual 62% dos entrevistados de instituições de segurança pública concordam que o comportamento das mulheres incentiva comentários ou piadas com teor sexual ou comparativo. A delegada Patrícia Zimmermann D’ávila afirma nunca ter sofrido assédio de forma direta. “Sempre tive uma postura firme nas minhas convicções e nunca dei margem para qualquer comentário”, conta. Ela ainda destaca que se defendia em situações desse tipo. “Se às vezes vinha alguma piada engraçadinha, alguma coisa assim, eu já cortava”, completa. Com 14 anos de carreira policial, assim como Patrícia, Vivian também afirma que nunca foi vítima do preconceito de forma escrachada.

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Governo do Estado de São Paulo

“O preconceito é velado, tudo para as mulheres é mais difícil e doloroso” comenta.

}

Patrícia relata que esteve mais perto do preconceito e do assédio de forma direta, não com os seus colegas de trabalho, mas atendendo uma ocorrência. “Eu me lembro uma vez que estávamos fazendo blitz em uma casa de prostituição e um dos clientes estava embriagado e veio em minha direção”, relata. Zimmermann completa dizendo que um policial de sua equipe interviu e graças a ele nada aconteceu.

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A policial militar Vanessa de Oliveira Werncke, de Tubarão, também já passou por uma situação parecida. Ela também conta que a única vez que passou perto de situação de assédio foi nas ruas. “Já passei por constrangimento em atendimento de ocorrência, onde tentaram não me respeitar”, relata a cabo. Ela ainda destaca que a situação não teve sucesso. Na Polícia Militar há oito anos, Vanessa afirma ter sorte com seus colegas de trabalho, pois nunca sofreu nenhum tipo de preconceito. Apesar de ter tido um grande aumento da presença das mulheres em instituições policiais, ainda existe um certo pré-conceito em relação às posições ocupadas por elas. Muitas dessas profissionais possuem cargos com níveis hierárquicos mais elevados. Seja em posição de gestão ou nas ruas. Entretanto, muitos ainda acreditam que as mulheres sejam mais indicadas para trabalhos administrativos. É o que revelou a pesquisa do Fórum de Segurança Pública Brasileira, quando perguntados quais são as atividades que uma mulher pode exercer, 93,2 % dos entrevistados concordaram com a opção de funções administrativas, já na categoria de funções operacionais, o número foi de 79,9%, uma diferença de 13,3% entre as categorias. Patrícia já teve uma amostra em relação a esse tipo de opinião. Com 21 anos de carreira, ela conta que ingressou ainda muito jovem na polícia e que colegas que não eram tão próximos já chegarem duvidavam da sua competência. “Sempre olhavam tipo “ai é menina, é mulher, não vai dar conta”, mas com dedicação e empenho a gente vai se destacando”. Ela ainda comenta que iniciou a carreira lidando com ocorrências de roubo a banco, de crimes violentos contra a vida e contra o patrimônio. “Sempre demonstrando dedicação e empenho, fui conseguindo superar todos os preconceitos” salienta. Renata também fala sobre situações semelhantes. “Às vezes as pessoas na rua olham com admiração, às vezes com desdém por ser mulher, não ter tanta força física”, comenta a sargento. Ela ainda conta que entre alguns de seus colegas existe o preconceito de trabalhar com mulher por ser considerada “sexo frágil”. Entretanto, a policial completa dizendo que esse tipo de discriminação tanto na rua quanto dentro da corporação é minoria.

Na pesquisa do fórum de s e g u ra n ç a , na Polícia Militar, as mulheres são apenas 12,2% no efetivo. Já na Polícia Civil esse número corresponde a 30,4%. Segundo dados divulgados pela Delegacia Geral da Polícia Civil de Santa Catarina no ano passado, as policiais civis somavam um terço do efetivo. Totalizando 1057 profissionais femininas, sendo 71 delegadas, 691 agentes, 240 escrivães, 55 psicólogas. Divulgação Agência Alesc

Estes números representam mulheres como Patrícia, Vanessa, Vivian e Renata, que escolheram a segurança pública por acreditar ter a missão de proteger as pessoas. Algumas estão na carreira policial há mais tempo que outras, em instituições e cargos distintos mas todas de alguma forma garantindo o bem estar do cidadão. “Que eu possa ajudar a fazer uma polícia mais humana”, destaca a cabo Vanessa, que já está na carreira há oito anos. Ela ainda fala sobre o dinamismo da profissão. “Todos os dias, lidamos com situações distintas e aprendemos com cada uma delas”, conta. A delegada Patrícia diz que o que a move todos os dias é poder mudar de alguma forma na realidade de mulheres envoltas em um ciclo de violência doméstica. Não só com vítimas diretas, mas também seus familiares e amigos, como conta a delegada, que também são afetados pelas marcas da violência. “Conseguir harmonizar e dar para essas pessoas uma perspectiva de vida mais leve, mais tranquila, livre de todas as formas de violência, é muito gratificante”, ressalta.

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Lara Silva

por Lara Silva

Costa Butiá: mulheres resgatam cultura e história de Imbituba

Foi em 1948 que Cacilda Custódia da Silva aprendeu a trançar a palha do butiá. Com apenas nove anos, ela ajudava a mãe na confecção de chapéus de palha porque a procura era grande pelo produto. Nascida em Imbituba e moradora do bairro Nova Brasília (antigo distrito de Mirim), Cacilda conta que, como a maioria das pessoas, trabalhava em lavoura, debaixo do sol, ela e a irmã passavam as tardes costurando chapéu. “Nunca passamos fome, mas dinheiro para comprar outras coisas não tinha, então a gente ia vender pra poder comprar nossas coisinhas”, explica Cacilda. Na época, a palha do butiá também era usada para tecer colchão, então muitas famílias aproveitavam e faziam negócio com donos de fábricas. A venda dos chapéus era feita na roça, onde os trabalhadores estavam e as palhas eram vendidas nas próprias fábricas de colchões. Setenta e um anos depois aparece um projeto que deu a oportunidade para dona Cacilda reviver sua infância. Ela é a única mulher viva, com saúde e disposta a ensinar para outras pessoas o artesanato com a palha do butiá em Imbituba. Foram procuradas artesãs inclusive em outras cidades, porém todas as mulheres que sabem fazer o trançado já são muito idosas e não conseguem mais sair de suas casas devido problemas de saúde. “Nunca imaginei que, algum dia, alguém fosse dar valor e importância para uma pessoa que soubesse manusear a palha do butiá”, confessa. Quando Cacilda era criança,

muitas famílias viviam com a renda da agricultura e complementavam com o chapéu de butiá que vendiam. No entanto, os filhos precisavam ajudar e, na maioria das vezes, passar a tarde sentada trabalhando e depois sair para vender não era divertido. “A gente andava muito. Saíamos ao meio dia, chegava no local da venda por volta das duas da tarde e voltávamos, muitos dias, a pé ou em cima do caminhão de lenha que ia para a cerâmica. Sobrava aquele espacinho vazio entre as lenhas, era ali que a gente ficava”.

{ } Nunca imaginei que, algum dia, alguém fosse dar valor e importância para uma pessoa que soubesse manusear a palha do butiá.

Surgiu, em 2017, a ideia de revelar um potencial escondido na cidade, relacionando cultura e meio ambiente, que pudesse ser desenvolvido para trabalhar questões ambientais e a preservação de patrimônios. O butiá não demorou a ser lembrado. Mães, tias e avós foram citadas nas

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entrevistas, lembrando que, antigamente, elas secavam as folhas do butiá para fazer chapéu - do mesmo jeito que dona Cacilda ainda faz. Porém, ninguém lembrava como essas folhas eram colocadas para secar - se era de dia ou de noite, no sol ou na sombra. Através de dona Cacilda, tudo isso pôde ser relembrado e ensinado, para fazer do butiá um produto com identidade local, vendido como souvenir e que tenha um valor simbólico tanto para a cidade como para o estado. Por isso, foram oferecidos cursos, ministrados por Cacilda, na tentativa de recuperar essa tradição. Para as pessoas que não conheciam essa arte, os cursos mostraram o quanto ela é versátil e, ao mesmo tempo, resistente, podendo ser criados produtos exclusivos e únicos na região de Imbituba. E para quem já conhecia e sabia fazer, nada mais justo que um projeto especialmente voltado ao Butia catarinensis. O projeto ‘Costa Butiá’ começou a ser executado em 2018 e faz parte do Programa de Educação Ambiental (PEA) da SCPar Porto de Imbituba, empresa pública que administra o porto da cidade. Executado

Lara Silva

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pelo Grupo Acquaplan Tecnologia e Consultoria Ambiental, tem como objetivo incentivar a conservação da Mata Atlântica e ajudar na renda da comunidade através da venda de chapéus, bolsas e sandálias. A ideia do projeto surgiu através da necessidade que a SCPar precisa fazer alguns programas condicionantes das licenças de operação. “A gente viu que não tinha nenhum artesanato, nenhuma matéria prima que representasse o estado, como nas outras regiões têm”, destaca Giseli de Aguiar, bióloga do Grupo Acquaplan e uma das idealizadoras do projeto. “Criar um produto que tenha valor simbólico de identidade cultural para Imbituba e para Santa Catarina é muito importante”, explica. Da teoria à prática O que era, no passado, complemento da renda familiar, hoje traz de volta autoestima e protagonismo para quem participa do projeto. Mulheres simples tornam-se gigantes enquanto cortam, limpam e trançam a palha do butiá. “As mulheres que participam estão resgatando sua própria história de vida, sua própria identidade, porque algumas lembram da mãe, da avó, da tia, então resgatar o chapéu do butiá é resgatar a própria história delas”, afirma Giseli. Além disso, é bastante significativa a importância dessas idosas para a sociedade, visto que elas têm mais tempo disponível para fazer aquilo que pessoas mais novas não têm. “Hoje vivemos em uma sociedade que caminha em função do que dá lucro, e essas atividades manuais que têm um menor impacto ambiental e utilizam matéria prima natural acabam sendo esquecidas”, acrescenta a bióloga. No entanto, os artesãos do Costa Butiá fazem muito mais que simplesmente trançar palha. Camila Amorim, oceanógrafa da SCPar Porto de Imbituba, admite que, muitas vezes, fica emocionada durante os cursos. “Eles contam muitas histórias, de quando eram crianças e faziam os chapéus para vender na roça, de como era Imbituba antigamente, os butiazais”, relembra. Giseli também confessa que fica muito animada quando precisa ir para os encontros, pois vê todo mundo fazendo algo de relevância para a história da cidade. “Conseguimos aprovar dois projetos no Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Imbituba (Procult), o Natal com Butiá, que é o presépio em tamanho real, feito todo com a palha do butiá, e o ButiáBag, que é a bolsa feita com butiá”.


Lara Silva

Desde 2018, o projeto Costa Butiá reúne mulheres de Imbituba que resgatam a cultura e história da cidade através do artesanato com a palha do butiá. Portanto, o projeto aproxima o grupo da cultura e da história, bem como da própria família, que, um dia, trabalhou com o butiá. O lucro obtido é pouco, mas a felicidade que reflete nos olhos de cada senhora vale muito mais que qualquer quantia em dinheiro. “É muito gratificante trazer de volta uma tradição que quase se perdeu e que poderia ter acabado sem ninguém perceber”, finaliza Camila. Butia catarinensis: há mais de dois séculos contando a história de Imbituba A história do butiá com Santa Catarina é tão longa quanto suas palmeiras, que podem chegar a sete metros de altura. É uma planta endêmica do litoral sul do Brasil, especificamente entre Garuva (SC) e Osório (RS). A maior parte da espécie está em território catarinense e, por isso, recebeu o nome ‘catarinensis’. Com o passar dos anos, essas palmeiras têm desaparecido e, hoje, encontra-se na Lista de Espécies da Flora Ameaçada de Extinção no Estado de Santa Catarina, na categoria ‘Em Perigo’ (EN), segundo a Resolução Consema nº 51, de 05 de dezembro de 2014. Popularmente conhecido como butiá-dapraia ou butiazeiro, o Butia catarinensis pode crescer em meio à densa vegetação arbustiva de restinga ou em dunas, e diversas vezes forma pequenos agrupamentos, chamados butiazais, como acontece na região dos Areais da Ribanceira, em Imbituba. A partir de 1970, a maior parte dos butiazais - como a planta é conhecida - foi destruído pela urbanização e

ocupação desordenada no litoral. Atualmente, ainda sofre impactos causados pela expansão urbana, industrial e agropecuária, e também pelas queimadas. Engana-se quem pensa que a planta possui apenas uma finalidade. Quem nunca se deliciou com o fruto amarelo ou matou a sede com picolé ou um suco geladinho? Além disso, Santa Catarina guarda, em suas tradições, a produção da cachaça de butiá. Em Imbituba, pais e filhos saíam atrás do fruto para fazer a bebida, que também ajudava na renda familiar. Magno Rodrigues da Silva lembra que, quando criança, muito saiu com seu pai, já falecido, para pegar butiá. “No verão, quando os butiás estão maduros, ficávamos uma tarde inteira procurando. Quando a gente chegava em casa, debulhava os cachos, fazíamos a limpeza secando bem e, então, começávamos o processo”. Magno explica que para fazer a cachaça de alambique, como é popularmente conhecida, era acrescentado canela em pó e um pouco de açúcar refinado, e, depois, armazenada em garrafas de vidro. Após muitos anos sem fazer, o motorista começou, ano passado, a produzir novamente, ainda que em uma escala menor, devido seu trabalho. “Modifiquei um pouco os ingredientes, colocando, agora, os butiás com a cachaça e melado fervido ou mel. Para mim, fica um sabor mais agradável”, finaliza. Voltar a fazer esta cachaça, para ele, é uma forma de trazer para perto o pouco tempo que conviveu com o pai e manter sempre viva a sua infância. Para ter acesso a mais conteúdos sobre o assunto, posicione a câmera do seu celular sobre o QR Code.

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Do Jardim do Edén ao empoderamento feminino na publicidade por Augusto Machado São muitas as mulheres da publicidade. Para influenciar consumidores, elas aparecem vendendo e comprando diferentes produtos e realizando um sem número de atividades. Mas algumas imagens são recorrentes e as mudanças na imagem da mulher na publicidade são construídas e alteradas ao longo da História. Segundo o artigo “O retrato da Mulher na publicidade” (2004), de Thaís Helena Bortolotto, a imagem da Eva do Jardim do Edén como arma de sedução para influenciar Adão a morder o fruto proibido foi usada e repetida para mostrar às mulheres nas mensagens publicitárias. “Para conseguir a primeira operação de marketing bem sucedida da história, a Serpente lançou a primeira Garota-Propaganda da Humanidade: Eva. Em carne, osso e sedução”, relata a autora. Outras formas de abordagem na publicidade também foram feitas. A publicitária e empresária, Karine Mendes, acredita que o papel das mulheres “evoluiu muito, mas não o suficiente (...), na verdade as coisas mais gritantes evoluíram bastante, como frases sexistas em uma chamada de outdoor, por exemplo. A sociedade tem uma força muito grande e demonstra sua indignação, mas ainda apresenta nos detalhes e entrelinhas”. Citando um exemplo prático, Karine conta que atende um cliente no ramo de higiene residencial que não aceita homens em flyers para divulgação de sua empresa, como se eles não fossem “donos de casa”. Neste caso, a empresa e a publicidade reforçam um mesmo papel da mulher que é o da esfera doméstica. A autora Thais Bertolotto marca os anos de 1920 como importantes para a mudança da imagem da mulher na publicidade. Ela fala da Paris daquela época, onde os anúncios já eram apresentados por mulheres mais fortes, mesmo que sedutoras, e não aquela mulher submissa, que nascia para cuidar da casa e dos filhos, como era de costume. “Paris, ditando moda, faz subir as saias e liberta a mulher dos espartilhos. Já é possível ver pernas. Os maiôs, ou maillots, chegam escandalosamente

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Style Whys

às virilhas femininas. Aparecem os anúncios de meias para tornar sedutoras as pernas das mulheres. E as pernas femininas nunca mais sairiam de moda”, disserta Thais Bortolotto. Atualmente as mudanças também são apontadas por Inês Machado, de 53 anos, hoje dona de casa que se refere a uma imagem da mulher que vai além do submisso e do sedutor. Ela diz que até “alguns anos atrás a mulher era só a figura bonita e sedutora, hoje não, eu vejo que a mulher está à frente de empresas, deseja sustentar e administrar uma família (...)”. Na construção do empoderamento feminino, Bortolotto fala também em relação às grandes guerras, onde os homens saiam à luta e assim, as mulheres assumiam os negócios da família e, por isso aconteceu um dos primeiros registros das mulheres no mercado de trabalho, mas claro, que houve salários abaixo da média e muita hostilidade, como é retratado no artigo de Bortolotto.. A publicidade também se adaptou a tal mudança com propagandas citando mulheres já no seu campo de trabalho e, consequentemente, mais fora de casa. Após os


Arquivo pessoal

A publicitária e empresária, Karine Mendes, acredita que o papel das mulheres “evoluiu muito, mas não o suficiente (...), na verdade as coisas mais gritantes evoluíram bastante, como frases sexistas em uma chamada de outdoor, por exemplo. A sociedade tem uma força muito grande e demonstra sua indignação, mas ainda apresenta nos detalhes e entrelinhas”. Citando um exemplo prático, Karine conta que atende um cliente no ramo de higiene residencial que não aceita homens em flyers para divulgação de sua empresa, como se eles não fossem “donos de casa”. períodos de guerra - onde os homens retornam para as suas casas - a publicidade novamente começa a retratar as mulheres como “do lar” e assim, influenciando-as a voltarem para dentro de seus lares. Mesmo com tantas barbáries, neste período, elas conquistaram o direito ao voto e também de estudar em instituições escolares. “Os anos de 1930 e 1940 representam um período onde as reivindicações das mulheres havia, mesmo que formalmente, sido atendidas: podiam votar e ser votadas, ingressar nas instituições escolares e participar do mercado de trabalho”, disserta Thaís Helena Bortolotto. A partir da década de 1960, também no Brasil, as mulheres reivindicaram não apenas

igualdades no direito do voto e direitos trabalhistas, mas também as raízes destes problemas. Assim, chegaram ao atual feminismo, que por vezes, busca livrar o corpo feminino de estereótipos, entre outras lutas. Como acontece nas propagandas, a pequenos passos as mulheres vão deixando de serem retratadas como perfeitas ou objeto de desejo, mas reconhecidas como realmente devem ser: livres de todos os rótulos. G. Tuchmann realizou um estudo, em Nova York, e constatou que apesar das mulheres serem maioria e representarem mais de 40% da força do trabalho, poucas são retratadas deste modo e em sua grande maioria são representadas por donas de casa. As mudanças de olhar a respeito da mulher geram mudanças da publicidade para se adaptar a essas mudanças de imagem e de público, que já espera também ver uma outra mulher nas propagandas. Um exemplo interessante é a marca de cerveja Skol que, nos últimos anos, vem mudando a forma de retratar mulheres em suas campanhas. Há alguns anos foi feito um flyer dizendo como seria o bebedouro, caso tivesse sido criado por homens e com isso, fazendo o corpo da mulher como objeto e sendo machista. Hoje, apresenta uma nova abordagem com slogans, “redondo é sair do seu quadrado”, enfatizando o respeito, a inclusão, não estereotipando o corpo feminino

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e mostrando a mulher como ela realmente é. A agência de publicidade chamada 65/10, que tem a missão de “mudar o papel da mulher na publicidade, para que acompanhe os novos papéis da mulher na sociedade”, em uma publicação no seu perfil no Instagram retratou os estereótipos mais comuns em anúncios. Em primeiro lugar, trouxe “a mulher perfeita”, que retrata uma mulher livre para fazer suas escolhas, com o corpo perfeito, uma mãe e esposa exemplares; em segundo lugar, a “mulher objeto” que mostra um corpo perfeito, que faz a cena e o produto mais bonitos, sempre com roupas curtas e cenas em slow-motion; a próxima, são “lésbicas hiperssexualizadas” e, geralmente, usadas como objeto de desejo para outros e estereotipadas; após isso, “o provedor”, onde mostra o homem como o único capaz de controlar o orçamento, ganhar dinheiro e investir; depois, outro estereótipo é quando o sobrepeso é retratado como fracasso ou piada; e por fim, mulheres negras subalternas, quando elas atendem desejo de outros e estão ali para servir. Desde o início da publicidade, ficou claro a influência em relação aos indivíduos. Hoje não é diferente. Prova disso é Dona Inês, com seus 53 anos, deseja mudar de vida e cursar Direito. Ela relatou que vê mulheres à frente de empresas e, apesar de ser um sonho antigo, se sente influenciada. “A minha vida toda eu vivi para cuidar da família e agora sinto um desejo de fazer algo por mim, não me realizo mais, sendo apenas dona de casa e viver em função disto (...) as propagandas na televisão influenciam sim e principalmente, me dá coragem de empoderar (...) me influencia e me inspira, antigamente elas não tinham voz e não podiam falar, nada estimulava a ter empoderamento, a fazer algo por si, hoje sim”. Para exemplificar, Inês lembrou uma reportagem que assistiu na NSC TV, onde retratava a vida de mulheres pescadoras, onde, não eram reconhecidas como tal e não tinham direitos trabalhistas, como almejam e lutam. O seriado Mad Men, disponível em sete temporadas na Netflix, aborda o empoderamento feminino nas décadas de 1950 e 1960, dentro de uma agência publicitária, onde as mulheres ainda estavam conquistando o seu espaço no mercado de trabalho, com piadas machistas presente no dia-a-dia. Peggy Olson, uma das protagonistas, consegue com muita luta e assédio, promoções

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Arquivo pessoal

Inês Machado aos 53 anos, a cada dia que passa se sente totalmente influenciada a se emponderar e viver cada vez mais independente. Ela acredita que todas as mulheres devem correr atrás de todos seus objetivos e serem felizes realizadas em todos os sentidos das suas vidas. e bonificações no seu emprego, precisando assim, mostrar sua eficiência a todo o tempo. Além disso, a série reflete a dificuldade dos homens lidarem com as mulheres no pós-guerra, sendo mais independentes e livres. O seriado mostra perfeitamente as mudanças e conquistas que aconteceram na vida das mulheres com o passar dos anos e toda a luta por esta causa. Apesar de todas às mudanças, segundo Karine, os pensamentos machistas ainda estão infiltrados, como por exemplo: a menina brinca de boneca e o menino de carrinho. Ou ainda, as propagandas de venda de carros são com homens, no entanto, dicas para estacionar, a personagem é mulher, devido à suposta dificuldade que mulheres apresentariam ao dirigir. Neste momento a publicitária enfatizou que tudo não passa de uma grande mentira e é o machismo enraizado nas pequenas coisas. Para ter acesso a mais conteúdos sobre o assunto, posicione a câmera do seu celular sobre o QR Code.


A informação pode salvar vidas

Santina Damazio Alexandrina

por Josilaine Gonçalves Santina Damazio Alexandrina, 64 anos, é professora aposentada. Há nove anos foi surpreendida com o diagnóstico de um câncer de mama enquanto fazia um autoexame. Em poucas semanas já estava na sala de cirurgia para a retirada da mama esquerda. Na época, ela era presidente na Rede Feminina de Combate ao Câncer de Garopaba. A informação não evitou a doença, mas salvou a vida dela. Assim como a Santina, milhares de mulheres são acometidas por essa doença no mundo inteiro. Segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), o câncer de mama atinge cerca de 24% das mulheres em todo o mundo. É o tipo de câncer que mais acomete mulheres mundialmente. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta a incidência de câncer de mama em 56 casos para cada 100 mil mulheres brasileiras, representando 60.000 casos novos previstos no país só em 2019. Já em Santa Catarina, essa porcentagem é ainda maior que a média nacional e pode chegar a 62 casos para cada 100 mil mulheres no estado. A taxa de mortalidade subiu historicamente no país, passando de 9,2 mulheres por mil para 12,4, representando um aumento de 33.6% em 35 anos de observação. O câncer de mama trata-se de um tumor maligno, causado pelo crescimento desordenado de células mamárias. Geralmente o tumor se apresenta como um ou mais nódulos indolores na mama e são muitos os fatores que podem influenciar o aparecimento. Obesidade e sobrepeso após a menopausa, sedentarismo, consumo de bebida alcoólica, não ter filhos ou ter a primeira gravidez depois dos 30 anos, histórico familiar de câncer de mama ou ovário são fatores que podem facilitar a a presença do câncer de mama. A idade também pode ser um fator, já que a maioria das mulheres diagnosticadas tem mais de 50 anos de idade. A grande maioria dos

casos acomete mulheres, mas os homens não estão livres da doença, que atinge hoje 1% da população masculina. O câncer de mama pode ser diagnosticado por meio do autoexame, além da mamografia que pode detectar nódulos em fase inicial, aumentando as chances de cura. Santina sabia dessas informações, quando em um dia voltando da praia, descobriu que tinha um nódulo em uma das mamas. “O pouco que eu entendi, para mim foi válido. Porque na hora eu disse ‘eu estou com câncer’. Eu mesma fiz a minha autoavaliação. E dai já corri, fui atrás do médico. Eu quero que você marque a minha cirurgia e eu quero para hoje. Eu vou pagar tudo’. Eu tinha trinta e poucos mil no banco para fazer dois telhados das minhas casas de aluguel. Na hora eu nem pensei em telhado, eu pensei em mim primeiro”. E foi através da rede que a professora aposentada conseguiu lidar com o câncer. “Eu descobrir o câncer pelo meu conhecimento dentro da rede feminina. Para eu ter conhecimento eu lia muito. Se eu fosse como uma outra qualquer no dia a dia, talvez eu fosse descobrir muito tarde, que não tivesse mais o que fazer”. Há quase vinte anos a Rede Feminina de

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Rede Feminina de Combate ao Câncer

Há quase vinte anos, a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Garopaba foi fundada com o objetivo de orientar as mulheres sobre a importância de fazer exames preventivos contra o câncer de mama e o câncer de colo de útero. Contando com 25 voluntárias e uma enfermeira, a rede dá palestras, promove ações sociais e oferece exames gratuitos para diagnóstico do câncer. Combate ao Câncer da cidade de Garopaba foi fundada com o objetivo de orientar as mulheres sobre a importância de fazer exames preventivos contra o câncer de mama e o câncer de colo do útero. Contando com 25 voluntárias e uma enfermeira, a rede feminina dá palestras, promove ações sociais e oferece exames gratuitos para diagnóstico do câncer em todas as comunidades do município e também em bairros próximos pertencentes a cidades vizinhas, como Imbituba. São 200 mulheres atendidas mensalmente. Por ser uma instituição que não visa fins lucrativos, a rede feminina se sustenta com patrocínios de empresas, doações feitas pela comunidade, venda de roupas de um brechó e peças produzidas pela equipe de artesanato. O

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dinheiro arrecadado serve para pagar o salário da enfermeira, gastos necessários com manutenções e investir em equipamentos para o ambulatório. Elisabeth Kloch, ou Dona Beth, como é carinhosamente chamada por todos, é uma das voluntárias e a atual presidente da rede feminina há três anos. Ela explica que o principal papel da rede é a prevenção. “A rede trabalha com divulgação, informação e orientação em todas as 22 comunidades de Garopaba. Nós temos uma equipe bacana que dá palestra, leva orientação. Inclusive é por isso que a rede existiu. Porque morriam muitas mulheres e ainda morrem até hoje em pleno século 21 do câncer de mama e do colo de útero”. O câncer de colo do útero também representa um perigo para as mulheres. Sendo a maioria de casos no norte do Brasil, trata-se do terceiro câncer mais comum em mulheres no país, com estimativas anuais de 17 mil novos casos. Segundo o Inca, esse tipo de câncer ocorre pela infecção por HPV que, mesmo sendo um vírus muito frequente e que na maioria das vezes não evolui para uma doença, em alguns casos pode se tornar um câncer devido a alterações nas células. Atualmente o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina contra o HPV para meninas e meninos a partir dos 12 anos. O desenvolvimento do câncer de colo do útero


pode ser influenciado também pelo início da vida sexual precocemente e múltiplos parceiros sem o uso do preservativo, uso prolongado de pílulas anticoncepcional, tabagismo e histórico familiar. Para diagnosticar esse tipo de câncer, a forma mais comum é através do exame preventivo, o chamado Papanicolau. A rede feminina realiza exames, mas não divulga o resultado para a paciente se houver a suspeita de ser positivo para a presença do câncer. Casos possíveis de câncer são encaminhados diretamente para a unidade básica de saúde no bairro da paciente, onde o médico pedirá os exames necessários para confirmar o diagnóstico e começar o tratamento se for confirmado o resultado. A enfermeira Maria Raimunda Miranda, que também trabalha na rede feminina, diz que às vezes é difícil dar a notícia para a paciente. “Se tem alguma alteração eu entro em contato com a enfermeira (da unidade básica) e a gente conversa antes de eu chamar a mulher. A gente decide se eu dou a informação aqui ou se ela dá a informação lá. Mas tem todo um cuidado porque as mulheres se assustam muito. Essa parte é bem difícil mesmo”. Seja para diagnosticar o câncer de mama ou de colo do útero, fazer o exame preventivo é considerado ainda mais desafiador para algumas mulheres devido à vergonha e ao medo, que são as principais razões pelas quais mulheres adiam a consulta médica. Maria conta que já houve casos de mulheres que desistiram de fazer por medo do resultado. “Tem muitas mulheres que não fazem mesmo. Apesar do esclarecimento ainda existe muito. Tem mulheres que vêm aqui só para conversar, mas eu não consigo fazer a coleta. Por conta de ser tímida, não querem se expor, tem vergonha porque é um exame que é bem intimo. São coisas que tem que se trabalhar”. Por esses motivos a rede feminina pretende futuramente integrar uma psicóloga ao grupo para auxiliar e amparar as mulheres atendidas. Atualmente essas pacientes encontram força, conforto e apoio que necessitam nas voluntárias que dedicam seu tempo a ajudar na luta contra o câncer. “Não tem preço que pague. Nosso único objetivo é doar-se, é proteger, é prevenir aquelas pessoas que precisam, que param para se cuidar. É muito gratificante”, diz a presidente da rede Elisabeth Kloch. A principal forma de prevenir é fazer a

{ } “Não tem preço que pague. Nosso único objetivo é doar-se, é proteger, é prevenir aquelas pessoas que precisam, que param para se cuidar. É muito gratificante”

mamografia a cada dois anos a partir do 50 anos e autoexame de toque para detectar o câncer de mama. Fazer também o Papanicolau, para rastreamento do câncer de colo do útero, dos 25 a 30 anos, uma vez por ano, e dos 30 a 64 anos, a cada seis meses, pois assim pode-se descobrir a doença precocemente, aumentando as chances de sobrevida da mulher. O trabalho Rede Feminina de Combate ao Câncer rendeu à instituição uma homenagem da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc), em Sessão Solene realizada no mês de agosto, por iniciativa da deputada estadual Ada de Luca (MDB). Dona Beth não esconde o orgulho em falar das companheiras. “O prêmio não foi pra mim. O prêmio foi para aquelas mulheres que estão lá todas as tardes colocando seu carinho, seu amor, seu afeto para as pessoas que necessitam. Se estão no brechó, se estão no artesanato, se estão fazendo uma visita domiciliar, são elas que merecem”. Com seu bom humor e seu jeito carinhoso de tratar todos, Elizabeth deixa transparecer o amor que sente pelo seu trabalho e afirma que ser voluntária na rede mudou seu modo ser. “Hoje eu me sinto uma pessoa mais corajosa, preparada e mais humana. E foi uma coisa que me mexeu muito. Porque é um serviço de doação. A gente doa-se pra alguém. Então me ensinou muito. Porque a gente vê tanto sofrimento. Tanta gente lutando pela vida”. O mesmo vale para Santina, que continua trabalhando na rede feminina após superar o câncer e usando a sua história como forma de orientar as mulheres a se prevenir. “Com a minha superação eu consigo valorizar mais a vida, viver o hoje e ajudar quem necessita e que me pede ajuda. Para mim é tudo, ajudar aqueles que precisam”.

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Mulheres à frente do jornalismo catarinense

Arquivo pessoal

por Débora Dias Mães, esposas, donas de casa, profissionais. As mulheres são a grande maioria da sociedade brasileira. São 51,7% da população, chegando a 104,772 milhões de mulheres, segundo o site do IBGE. Diariamente elas se viram em múltiplas funções para fazer as atividades que precisam. Tudo em 24 horas. No jornalismo a regra da maioria feminina é válida somente em algumas áreas. Em números totais de jornalistas, as mulheres são 15,65%, apenas 36,98% do total segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A televisão é uma área do jornalismo liderada pelas mulheres. A presença feminina é vista por muita gente e até por profissionais do meio jornalístico, como uma imagem de maior leveza para o telejornal. As mulheres jornalistas também são maioria nas redações de revistas, mesmo que essas publicações tenham diminuído nos últimos anos. Nos demais veículos de comunicação, a maior presença continua sendo masculina. Laine Valgas é uma das presenças femininas mais conhecidas do telejornalismo catarinense hoje. Apresentadora do Jornal do Almoço, o principal telejornal do estado e da NSC, ela se formou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mora em Florianópolis. Já são 13 anos na TV, desde que começou a trabalhar na RBS, hoje NSC, passando pelas funções de apresentadora, repórter e editora. Há sete anos trabalha também como colunista diária no jornal Santa Catarina. Aos 13 anos Laine decidiu ser jornalista. Em uma confissão a um Padre na igreja, ela descobriu o seu amor pela comunicação, amor esse que a fez abraçar todas as possibilidades que teve durante esses 25 anos de profissão. Apesar de não ter tido o apoio da família no início, a jornalista nunca pensou em desistir da carreira que pretendia seguir. Os pais de Laine sempre a incentivaram a investir na área da computação, pois tinham medo que a filha ingressasse na comunicação pelo fraco retorno financeiro.

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Hoje é muito comum jornalistas com mais de um emprego ativo e não é diferente no caso de Laine, quando completou 19 anos de profissão, ela quis se reinventar, pesquisou sobre Doutorado, Mestrado, mas nada dessas especializações iriam se encaixar na fase em que estava vivendo dentro do telejornal. Ela queria algo paralelo, mas que somasse ainda mais o seu profissional. Depois de algumas pesquisas, a jornalista encontrou uma nova paixão e junto com ela uma renda extra. “Junto com essa minha trajetória eu tenho uma outra que começou há seis anos na área do Coach, onde tenho uma empresa junto com o meu sócio, que se chama Rapor Comunicação e Coach”. Laine não apenas abriu uma empresa para oferecer esses novos serviços como continua se especializando. “Eu acabo de concluir minha décima formação nessa área, sou Live e Neuro Coach, especialista em diagnósticos de pessoas, especialista em hipnose clínica e sou professora de pós-graduação nessa área da comunicação. É uma honra muito grande poder trazer toda essa sensibilidade que o Coach traz para minha profissão no jornalismo”, diz ela.

Outro caso de jornalista mulher com mais de um emprego ativo é Denise de Medeiros, apresentadora do Jornal do Almoço de Criciúma. Formada em Publicidade e Propaganda e Jornalismo


Internet

Hoje é muito comum jornalistas com mais de um emprego ativo e não é diferente no caso de Laine, quando completou 19 anos de profissão, ela quis se r e i n v e n t a r, p e s q u i s o u s o b r e Doutorado, Mestrado, mas nada dessas especializações iriam se encaixar na fase em que estava vivendo dentro do telejornal. pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), ela reside hoje em Cocal do Sul, também é Professora de Fotografia no Curso de Comunicação Social na mesma Universidade onde realizou suas duas graduações. Diferente de Laine Valgas, Denise deixa claro que foi o jornalismo quem a escolheu. Por ser formada em Publicidade, foi esse o motivo que a levou a ter experiências dentro de um telejornal, onde o encanto pela área jornalística surgiu. “Voltei à faculdade para finalizar, já que os dois cursos têm muitas disciplinas em comum. Alguns anos depois, como eu já tinha experiência na Band da região e na Unisul TV, fui convidada para trabalhar na NSC”, conta a jornalista. Como comunicadora e professora, ela alerta para o cuidado em fazer e transmitir informações, principalmente para ela e para Laine, que estão à frente de um telejornal com um grande número de telespectadores. “É de

imensa responsabilidade, qualquer informação equivocada ou mal apurada pode mexer na vida direta de alguém”. As jornalistas, além de profissionais, são esposas, donas de casa e Denise tem um filho pequeno. Assim como outras mulheres, as duas se esforçam muito para poder conciliar todas as tarefas, buscar um equilíbrio para tudo, o que na grande maioria das vezes é algo bem difícil. Quando questionadas sobre a presença feminina no mercado de trabalho, as protagonistas do texto respondem que, nos tempos atuais, as mulheres são responsáveis por toda uma mudança de cultura. Elas cresceram quando os homens ainda tinham uma maior posição, diferente de agora, onde elas fazem parte de uma geração que, mesmo de uma forma indireta, querem mudar isso. O processo de igualdade é lento, mas se compararmos com anos atrás, concluímos que já foi pior. Nunca foi uma competição e nem deve ser. O lado feminino tem sim os seus direitos de querer tornar o seu espaço maior no mundo, mas se tivermos homens fortes ao lado de mulheres fortes, todo mundo cresce junto! Sem se colocar no papel de vítima, o sexo considerado “frágil” vai tomando um espaço maior em qualquer área que desejarem, seja ela profissional ou social, são elas as responsáveis pela mudança que desejam. Para ter acesso a mais conteúdos sobre o assunto, posicione a câmera do seu celular sobre o QR Code.

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Internet

por Amanda Pase

Mulheres na luta pelas causas sociais

Do dizer de quem pratica, filantropia tem como objetivo sempre ajudar o próximo, por meio de várias atitudes solidárias sem esperar nada em troca. Seja com doação de roupas, comida, dinheiro e demais ações de caridade, todas são válidas, em benefício de quem precisa. Esse é o lema dos filantropos, que aparece no conceito de diversas entidades que desenvolvem projetos de impacto social. A palavra filantropia se originou a partir do termo grego philanthropia, que pode ser traduzido como “amor ao homem” ou “amor à humanidade”. Na palestra “Mulheres, Filantropia e Mudança Social”, realizada em Nova york, Anália timbó “fundadora do Vidança”, Maria de lourdes Braz “fundadora da Casa de Santa Ana” e Brigitte Louchez “coordenadora da Barraca da Amizade”, todas homenageadas pelo evento e apoiadas pela Brazilfoundation, contaram sobre os obstáculos enfrentados para iniciar seus projetos na filantropia. Na matéria publicada no site Brazilfoundation. org, Maria de Lourdes revela que todas tiveram dificuldades para obter financiamento, dizendo que no Brasil as pessoas dão desculpas para não ajudar. “Não há possibilidade”, como ela mesma já ouviu. Já Anália conta que as três foram muito reconhecidas por seus projetos e, ao mesmo tempo, estiveram próximas de fechar as portas. Mas isso não foi um empecilho para desistir., “Eu tenho dois filhos e meu sonho é tornar o Brasil melhor para eles”, disse Brigitte, que acredita que a filantropia pode ajudar nesse projeto.

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SOBRE A INSTITUIÇÃO O Instituto Nação de Valor” é uma associação civil sem fins lucrativos, fundado por um grupo de mulheres atuantes no campo do desenvolvimento humano, que têm em comum o propósito de serem protagonistas na construção de um mundo melhor, através do desenvolvimento individual e coletivo. O objetivo do Instituto é desenvolver e apoiar projetos que contribuam, através da formação de uma sociedade mais igualitária, promovendo a transformação social e humana por meio de ações que atuam na ascensão do desenvolvimento individual e coletivo com justiça social, na melhoria das condições de vida e a defesa da Cidadania e dos direitos, no respeito à pluralidade, na igualdade de oportunidades e na inclusão social. Quem também contribuiu com o instituto foi Katiane Viera, empresária, escritora e palestrante na área motivacional. Ajudou através do livro “Mulher: Desperte o que há dentro de você”, escrito por ela e pelas autoras Andréia Gomes, Carla Falcão, Celia Rizzante, Fabiana Couto, Helda Elaine, Janaina Paes, Rita Mamede, Roberta Pauli e Viviane Ferreira. Os resultados da vendas foram destinados ao próprio Instituto Nação de Valor, para apoiar a realização de projetos alinhados aos 17 Objetivos Sustentáveis da Agenda de 2030 da ONU. Além da sua contribuição, a empresária é presidente da instituição. Nascida e criada na Praia da Gamboa, litoral sul de Santa Catarina, Katiane sempre teve um


objetivo muito claro: Estudar, para realizar algo que ela sempre sonhou. “Sempre acreditei que se você trabalhar duro e correr atrás da realização dos seus sonhos, você consegue. Assim, fui superando com muito esforço as limitações de uma família humilde, com pouquíssimo acesso a oportunidades de crescimento”. De vendedora de bijuterias até se tornar fundadora do Instituto Nação de Valor, a empresária passou por diversas dificuldades.

Interface do aplicativo do Instituto Nação de Valor

“Sofri traições, falência, depressão, enfermidades graves, sempre olhando para a frente e me recuperando, sem parar de ter planos para o futuro, sem desistir, tendo resiliência, determinação, vontade de vencer”. A empresária entendeu que cada acontecimento infeliz trazia uma lição nova, e poderia servir de aprendizado para outras pessoas que pudessem passar pela mesma situação. “Precisamos nos empoderar como agentes transformadores, protagonistas, cuja jornada, em seus altos e baixos, pode ter um impacto muito maior do que poderíamos ter imaginado a princípio”. Katiane conta que a ideia de doação “dos direitos do livro” surgiu através da sua vontade de fazer mais, “O livro Mulher – desperte o poder que há em você, aconteceu da ideia em compartilhar a histórias de mulheres reais com a narrativa de problemas que podem acontecer com qualquer pessoa, mas também em poder contribuir financeiramente com a realização projetos sociais”.

“Foi uma abordagem reflexiva”, diz Katiane em relação a escolha das autoras. A empresária conta que “ fazer a diferença” é o que motiva os brasileiros a doar dinheiro para causas sociais, e, por isso, este livro surge como um propósito para refletir sobre a forma que contribuímoscontribuimos com as mulheres e com o nosso país. Por isso, autoras convidadas neste projeto “sSão mulheres com um conceito de sororidade enraizado”, conta. Sua principal fonte de inspiração para escrever o livro aconteceu em um evento para mulheres palestrantes em que estava participando. ”Naquele ambiente motivador,onde éramos inspiradas a compartilhar nossas histórias, percebi o quando ouvir as histórias de outras mulheres inspirava as que estavam ali. Então pensei: Por que não escrever um livro contando histórias reais de mulheres reais? E assim surgiu o livro. Neste livro nos propusemos a mudança dando voz à nós mulheres. Através de nossas histórias mostramos como simples crenças a respeito de si mesmo, orientam grande parte de nossas vidas”. Então pensei: Por que não escrever um livro contando histórias reais de mulheres reais? E assim surgiu o livro. Neste livro nos propusemos a mudança dando voz à nós mulheres. Através de nossas histórias mostramos como simples crenças a respeito de si mesmo, orientam grande parte de nossas vidas”. O livro serviu para contar os pontos chave e encontrar sua própria voz através das experiências de vida de cada das autoras e como elas conseguiram alcançar seus objetivos. Katiane Vieira acredita que o Brasil ainda está impactado por muita instabilidade em questões políticas, econômicas e sociais. “ A economia brasileira ainda é muito frágil e está relacionada às transições políticas e especulações que o Brasil sofre, então doar todo o valor foi uma forma de quebrar estes paradigmas”. Conta a empresária. Segundo Pesquisas feitas pelo site Gife.org, dentre as razões pelas quais a filantropia não está crescendo no Brasil estão a desconfiança em relação às organizações da sociedade civil e a falta de compreensão sobre o que elas fazem a

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Arquivo pessoal

“Sempre acredite que se você trabalhar duro e correr atrás da realização dos seus sonhos, você consegue”. 22

saída de doadores estrangeiros e a crise política e econômica no país. “Historicamente as mulheres sempre foram discriminadas em relação ao acesso a de determinados postos de trabalho ou a equiparação salarial nas empresas, além de uma cobrança da sociedade sobre tarefas diversas como cuidar do lar, educar os filhos, preconceitos, ter uma quantidade numerosa de filhos, ter uma formação acadêmica diferenciada etc. Nos últimos cinquenta anos um dos fatores marcantes ocorridos na sociedade brasileira foi à inserção crescente das mulheres na força de trabalho”, opina a empresária. A empresária aposta na tendência do mercado de buscar profissionais diversificados e reunir habilidades de homens e mulheres.“Na atualidade, muito diferente de alguns anos atrás, as mulheres estão conquistando o seu espaço e o respeito de todos no mercado de trabalho. Hoje, em um mundo globalizado onde há necessidade de reações rápidas e profissionais polivalentes, as empresas já buscam unir as habilidades de homens e mulheres para aumentar sua produtividade, reduzir perdas, aperfeiçoar o tempo despendido em cada tarefa”. O que é um ponto positivo.

O cenário no presente e futuro Em uma mensagem deixada para mulheres que querem atuar no mesmo meio profissional que o seu, Katiane Vieira conta que, apesar de todas as mudanças, é necessário lembrar que pode e deve melhorar cada vez mais. “São muitos os dados que mostram as dificuldades a serem superadas, porém é importante lembrar que é possível mudar no presente o cenário do amanhã. O futuro com certeza trará situações mais positivas para as mulheres”, conta.

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por Higor Stork

As dificuldades da mulher no Jornalismo Contemporâneo

Durante anos, o mercado jornalístico foi um local exclusivamente masculino, segundo relato de José Hamilton Ribeiro. Mas em um ambiente que era tomado por homens até o fim do século XIX e início do XX, teve uma grande mudança de ares com a entrada das mulheres no ramo. Michelle Perrot afirma que os jornais feministas se multiplicaram e foram importantes naquele período na Europa: Em 1832 os saintsimonianos lançam La Femme Libre e, em seguida, La Femme Nouvelle e depois La Tribune des Femmes. A mesma coisa em 1848: enquanto Eugénie Niboyet funda em Paris La Voix des Femmes, que se transformou em ‘L’Opinion des Femmes, Louise Otto cria em Leipzig o Frauenzeitun, que tem como divisa: ‘Recruto cidadãs para o reino da Liberdade’. Segundo Zahidé Lupinacci Muzart, no Brasil o primeiro periódico comandado por mulheres foi lançado em 1855 e se chamava Jornal das Senhoras. Criado por Joana Paula Manso de Noronha, argentina radicada no Rio de Janeiro. Mas a imprensa feminina brasileira do século XIX trabalhava com duas ideias principais como conta Buitoni: uma delas representadas por revistas que valorizavam a mulher em sua imagem de mãe e esposa; e o outra mais voltada à conquista de direitos e focada na emancipação feminina.

36,98% das mulheres estão no jornalismo Em março de 2019, o Workr (plataforma de comunicação corporativa desenvolvida pelo Comunique-se) realizou uma pesquisa e descobriu que apenas 36,98% do mercado

jornalístico brasileiro é preenchido por mulheres, o que dá 15.654 jornalistas empregadas. Na televisão, elas são maioria, ainda que não muito a frente, tendo 4.040 mulheres empregadas em canais de televisão aberta contra 4.007 homens.

{ } “Talvez seja mais como um preconceito mascarado de piadinha ”

Mesmo com o maior número de mulheres em televisão, ainda é um número equilibrado e o machismo não deixou de existir só porque 50% do mercado é ocupado por mulheres. A repórter Talita Grassi, de 20 anos, trabalha na Rádio Eldorado de Criciúma destaca que o preconceito ainda é muito mascarado. “Eu felizmente acho que posso dizer, não tive experiências muito negativas relacionadas a essa questão de machismo e opressão na área em que eu trabalho. Nunca aconteceu assim de um entrevistado ou de um ouvinte questionar isso por ser mulher. Mas ouvintes fazem uma piada outra. Talvez seja algo mais como um preconceito mascarado de piadinha”. As piadas ou frases machistas vêm de ouvintes ou do próprio superior hierárquico. Talita teve

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que ouvir do próprio chefe uma frase triste de se ler em pleno século XXI. “Mas já ouvi de colegas de imprensa, colegas de profissão, de diretor inclusive e de uma emissora grande e conhecida. Ele disse para mim que na empresa dele mulher não fala de esporte, mulher só fala de panela e fogão”. Já Karol Carvalho, apresentadora da RTV em Criciúma, foi insultada por um Policial Militar quando cobriu uma matéria sobre um homicídio. “Aconteceu comigo uma vez que eu cheguei em um lugar onde tinha acontecido um possível homicídio e tinha um homem morto, caído em uma vala e ele estava praticamente nu. A gente já sabia que tinha morrido”. Karol conta que conversou com os policiais, foi informada que já estavam fazendo todos os procedimentos, haviam chamando o IML e ela permaneceu sem se aproximar do corpo. E ouviu de um policial o que acredita que, provavelmente, um repórter homem não ouviria. “Um policial militar olhou para mim e disse, “tá tu não vai ali? Por que tu não vai chegar perto?” Eu falei, não não eu não gosto. Eu fico aqui na minha, eu não gosto de chegar muito perto, porque é ruim. E ele disse, “se tu não gostasse de ver isso tu deveria ir trabalhar em uma facção As barreiras da mulher no jornalismo

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de costura e não ser jornalista.” E eu achei extremamente desnecessário”, conta Karol. Ela ainda acredita que não havia necessidade de chegar perto do corpo nem do policial ter achado que ela não servia para a profissão por isso. Karol considera um ato de machismo. “Não tinha essa necessidade para aquilo que eu ia fazer enquanto jornalista, e achei assim extremamente ofensivo comigo enquanto jornalista e com as mulheres que trabalham de costura e não tem nada a ver um comentário como esse em um momento como aquele”. O assédio se dá em todos os lugares Luana Mazzuchello, que trabalha com rádio e assessoria de imprensa, em Criciúma, passou por momentos bem constrangedores e de certa forma abusivos. “Foram muitos momentos que me fizeram repensar e fizeram às vezes ficar muito chateada. Me senti humilhada mesmo, questões de preconceito, questões de machismo”. Luana conta como sofreu assédio em uma das entrevistas que foi fazer. “Eu lembro assim na minha cabeça muito nítido a primeira vez que eu fui entrevistar um francês. Eu não sabia língua, não tinha conhecimento, mas eu solicitei ajuda para um tradutor que ali se encontrava, e o tradutor muito querido repassou as perguntas para o senhor francês. E ele foi extremamente invasivo ao me responder às perguntas com uma cantada, ele acabou dando em cima de mim falando do meu sorriso, falando questões que não tinha nada a ver com que eu tinha perguntado”. O assédio é um problema que aparece ao longo da carreira e Luana não passou por isso uma vez só. “Também teve uma vez que eu fui solicitar entrevista para uma pessoa e essa pessoa, homem, falou que só me daria à entrevista se eu saísse com ele, para que a gente pudesse se conhecer melhor. Então aquele dia eu realmente me senti muito ofendida, acabei bloqueando o cara, e esse cara começou a me perseguir me adicionar em todas as redes sociais. Foi um momento que eu me senti muito mal”. O assédio hoje em dia não se dá apenas pelo contato com o entrevistado ou ouvinte diretamente, mas também mais pelas redes sociais. “Hoje o maior assédio chega via celular, chega via WhatsApp, via Instagram. É tudo muito rápido, muito dinâmico, as pessoas invadem a privacidade acham que te conhecem. Então hoje é muito difícil não só no jornalismo, mas sim todas as profissões, mas o jornalismo é muito mais difícil porque a mulher ela precisa


lidar com qualquer pessoa, qualquer homem, enfim qualquer pessoa pode ser entrevistado. Agora basta o entrevistado entender que é uma entrevista e que não é um convite para sair. Então assim, hoje eu percebo muito isso sabe a falta de limite de alguns homens”.

canais para receber e responder a denúncias de assédio e discriminação de gênero. E embora 70,2% das participantes tenham afirmado que já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada em seu ambiente de trabalho, somente 15,1% disseram já ter feito

Internet

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em conjunto com a Gênero e Número em parceria com o Google News Lab teve como objetivo mapear a violência e o assédio das profissionais de imprensa por fontes e nas redações. Segundo a pesquisa, 83,6% das respondentes já sofreram algum tipo de violência psicológica, 65,7% já tiveram sua competência questionada e 64% já sofreram abuso de poder de chefes ou fontes. Além disso, 86% das mulheres entrevistadas já vivenciaram algum tipo de discriminação de gênero no trabalho a oportunidades de crescimento profissional, distribuição de tarefas ou definição de salários. Embora a maioria das jornalistas no país vivencie situações de machismo no ambiente de trabalho, as empresas ainda não respondem de maneira adequada ao problema, segundo disseram as profissionais que participaram da pesquisa. As mulheres presentes nos grupos focais afirmaram que a tendência geral nas empresas é minimizar e abafar os casos de assédio que chegam a ser denunciados. Também é recorrente a recomendação de que a jornalista administre a situação ou aprenda a “se impor” perante machistas e assediadores. Apenas 30% das respondentes do questionário online disseram que suas empresas atuais possuem

alguma denúncia sobre estes casos à empresa. O levantamento, que também mapeou diversidade de gênero e condições de trabalho das mulheres nas redações brasileiras. O cenário foi traçado a partir de entrevistas com grupos focais de jornalistas em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre. A partir desses dados, foi criado o questionário cujas respostas devem ser divulgadas no evento. Cerca de 500 mulheres participaram da pesquisa, e os dados apontam que, embora sejam maioria nas redações brasileiras, as mulheres têm pouca segurança no trabalho, menores salários que os homens e sofrem constantes casos de assédio sexual e moral. Depois do lançamento, os dados devem ser compilados num site.

Criar canais seguros de denúncia para que o cenário desvendado por levantamentos como o relatório da CIDH e a pesquisa “Mulheres no jornalismo brasileiro” comece a mudar. Promoção de palestras sobre assédio moral e sexual, bem como um posicionamento claro e contrário a determinadas condutas pode ajudar na redução da “misoginia que presenciamos todos os dias”. 25


iStock

A diretora da Abraji Maiá Menezes ressalta a importância da pesquisa para o fortalecimento da segurança de mulheres que atuam no jornalismo e, por consequência, da própria liberdade de expressão. “A preocupação da associação é com o acesso da sociedade à informação, garantido quando os jornalistas estão protegidos”, diz. “Homens e mulheres têm que ter as mesmas garantias de acesso à informação no exercício da profissão.” “Estamos nos alinhando com uma agenda mundial que trata da desigualdade de gênero. As novas gerações têm um grau de tolerância muito menor ao machismo em outros tempos naturalizado na sociedade”, continua Menezes. A CIDH pontua no relatório que, no Brasil, o racismo agrava ainda mais as dificuldades enfrentadas por jornalistas. De 500 mulheres entrevistadas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) em levantamento citado pela relatoria, 86% afirmaram que jornalistas negras têm menos chance de serem promovidas em meios de comunicação tradicionais. Das entrevistas para o levantamento “Mulheres no jornalismo”, 94,5% disseram haver mais pessoas brancas do que negras nos veículos em que trabalham. O percentual sobe para 95,6% em cargos de liderança. Para Menezes, a desigualdade racial no jornalismo é reflexo da falta de acesso dos negros à universidade, o que caracteriza um “problema ainda mais complexo”. Além dos dados, a Abraji divulgou

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recomendações simples que podem acelerar a transição para um período de justiça com todas as repórteres, editoras e trabalhadoras da imprensa brasileira: Os veículos devem produzir cartilhas para funcionários e colaboradores definindo o assédio cometido por uma fonte e indicando os procedimentos a serem adotados pelas repórteres quando forem vítimas desses atos; As redações devem organizar grupos de monitoramento da diversidade de gênero nas redações; esse grupo deve ter um canal de comunicação direto com a direção do veículo e a missão de produzir relatórios periódicos com análise tanto da cobertura, para identificar desequilíbrios no gênero das fontes ouvidas, quanto da composição da redação, para orientar possíveis novas contratações; Os veículos devem investir em capacitação de todos os repórteres em temas de diversidade; há cursos, palestras, debates e webinars disponíveis que podem auxiliar no combate a este tipo de violência; Todos os repórteres devem ser orientados a tratar do tema do assédio junto a suas fontes; é especialmente importante ressaltar o caráter de violação à liberdade de expressão que essa conduta acarreta.

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Consumo Consciente: cosmetologia e autoconhecimento por Maria Luiza Inรกcio

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Desde o início dos anos de 1970, o planeta entrou em déficit ecológico. Esta é uma afirmação da Global Footprint Network (GFN) para dizer que o consumo incontrolável e compulsivo vem trazendo consequências negativas ao meio ambiente há tempos. O ato de consumir afeta não apenas quem faz a compra, mas também a natureza, a economia e a sociedade como um todo. Este consumo em excesso tem levado a uma superexploração dos recursos naturais do planeta, o que pode provocar a escassez e até um esgotamento desses recursos, comprometendo o equilíbrio ambiental. “O motivo deste processo de degradação do planeta é nosso atual padrão de consumo, que exige uma quantidade maior de recursos do que a natureza consegue oferecer”, aponta a Global Footprint Network. A GFN é uma instituição sem fins lucrativos de especialistas

de natureza investigativa e reflexiva. Então, exceder no consumo ou consumir de forma consciente pode fazer toda a diferença. Mas o que é consumo consciente? E onde ele pode ser aplicado? Há diversas respostas para isso, mas a principal é que a elaboração do produto não envolva a exploração de seres humanos, animais e não provoque danos ao meio ambiente. Um dos exemplos onde esse conceito tem sido aplicado é no ramo da cosmetologia. Kamila Soratto da Silva é dona da marca Kamomila Natural, que tem como o propósito desenvolver o autoconhecimento nas suas clientes, fazendo com que cada uma repense o que consome. Segundo Kamila, é necessário também uma compreensão do quanto seu corpo reflete suas atitudes e a cosmetologia vem como algo para ajudar nesta auto-observação. “Nosso objetivo é que nossas clientes aprendam a se observar e se sentirem cada vez melhores com seu interior e exterior, e faz muito sentido ouvir os feedbacks das clientes, relatando como reagiu cada produto com cada pessoa”, afirma. Kamomila Natural Graduada em artes visuais e pós-graduada em moda, Kamila passou 6 anos trabalhando no ramo da moda, na área de estamparia. Ela se queixa que, embora goste muito de trabalhar no desenvolvimento e com o que aflore sua criatividade, não estava satisfeita com o seu antigo emprego. Kamila passava 8 horas dentro de um escritório sem contato real com pessoas. Antes de deixar o emprego, conta que primeiro buscou por outra fonte de renda, se aventurou pela área da confeitaria, fotografia pet, mas não deu certo. No meio das pesquisas por uma nova área, se encontrou em um canal sobre saboneteira. “Busquei uma forma simples de produzir, acreditei e apostei na produção de sabonetes e outros produtos 100% naturais”, complementa. Com o passar do tempo, a procura foi se expandindo para argilas, cuidados com o rosto, xampus, óleo naturais, e Kamila foi se especializando cada vez mais no assunto. Foi neste meio em que ela se descobriu e afirma que sua rede de apoio foi muito importante em todo o processo de “estabelecimento” da marca.

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Ela recebe o auxílio de sua mãe na produção e na entrega dos cosméticos, e de seu companheiro na divulgação e na identidade visual da Kamomila. Mensalmente Kamila aperfeiçoa seus estudos e produtos. São analisadas as sugestões das clientes, tanto de produtos existentes quanto de novos produtos, para reformular e melhorar cada vez mais suas composições. Ela afirma que houve uma evolução de cada produto, desde a fundação da empresa em junho de 2018. “Buscamos a relação com o público para ver o que realmente eles querem. Um exemplo disso são nossas argilas que eram a base de água e hoje tem uma consistência mais cremosa e feitas com manteigas e óleos essenciais”.

Kamomila e o meio ambiente Além de todo esse contato com a natureza na hora de produzir algum produto, a marca se preocupa com cada ingrediente que pode fazer mal aos animais e meio ambiente. Existem produtos que são feitos de origem não animal, mas que podem conter componentes químicos que trarão prejuízos ecológicos se retornarem à natureza. Por isso, a Kamomila também são tem cuidados com suas embalagens, que são reutilizadas para não gerar desperdícios.

Mudando vidas Embora seus clientes sejam um grupo composto quase todo por mulheres, ela também produz cosméticos para homens, e acredita que há muitas barreiras a serem quebradas ainda no mundo da beleza. “Cuidar de si é muito mais que estético, e os homens precisam ter cuidados com sua pele também”, defende. Kamila, além de produzir e vender seus produtos, ministra uma oficina de beleza, onde ensina mulheres e homens a produzirem seus próprios cosméticos naturais, dando certa autonomia a essas pessoas. Sobre o receio de perder clientes os ensinando a produzir, ela afirma que é muito importante que as pessoas aprendam o que elas estão consumindo. “Muitas vezes as pessoas não têm tempo para produzir seus próprios cosméticos e acabam comprando”, explica. Além disto, a jovem tem uma influência positiva na vida de suas clientes. Juliana Vargas afirma que a Kamomila Natural a ajudou a se conscientizar em relação a importância da sustentabilidade. Atualmente, ela tenta manter uma vida ligada aos seus ideais e usar uma marca que se preocupa isso. “Eu acompanho a marca sendo cliente e usando os produtos e todas as dicas que a marca me fornece pelas mídias sociais. Acho que o trabalho dela é incrível e muito consciente”, acrescenta. A cliente Daiane Venson afirma que o autoconhecimento que adquiriu após usar os

Antes a empresa embalava seus produtos com jornal e hoje repassa a embalagem que recebe dos seus fornecedores. “Quando a gente compra uma embalagem de vidro do nosso fornecedor, ela vem com plástico bolha, e nós o enviamos o mesmo plástico protegendo a embalagem para nossas clientes, e esperamos que elas continuem com o ciclo, e não simplesmente o joguem fora”, explica. Cada formulação é embalada de uma maneira diferente, há aquelas em embalagens de vidro e de plásticos, e visando a “sustentabilidade” para essas embalagens, Kamila desenvolveu uma promoção, em que cada embalagem devolvida em perfeito estado de conservação, o cliente recebe 10% de desconto. 29


produtos da marca trouxe inúmeros benefícios para sua pele e autoestima. Uma de suas melhores experiências foi com o desodorante natural, que equilibra seu cheiro natural e que a fez perceber que antigos produtos que usava nas axilas a intoxicavam, que o mau cheiro após um dia quente não era natural dela e sim dos componentes que estavam nos seus poros. “Hoje eu me sinto livre e limpa usando o desodorante”, afirma. Empreendedorismo feminino O empreendedorismo tem despertado mais interesse das mulheres, de acordo com a pesquisa GEM Brasil 2015 (Global Entrepreneurship Monitor). A proporção de “Empreendedores Novos” - os que têm um negócio com menos de 3,5 anos - é maior entre elas: 15,4% contra 12,6% de homens. O estudo constatou ainda que as mulheres empreendem movidas principalmente pela necessidade de ter outra fonte de renda ou de adquirir independência financeira. As análises feitas pelo Sebrae mostram que as mulheres empreendedoras são mais jovens e têm um nível de escolaridade 16% superior ao dos homens. Entretanto, elas continuam ganhando 22% menos que os empresários, uma situação que vem se repetindo desde 2015, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios

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Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2018, os donos de negócio tiveram um rendimento mensal médio de R$ 2.344, enquanto que o rendimento das mulheres ficou em R$ 1.831. Diante destes dados, Kamila defende que por ela ser mulher, teve uma rede de apoio vindo de outras mulheres, o que torna mais fácil continuar na jornada mesmo sabendo que os homens recebem mais pelo mesmo trabalho. “Eu sinto que há um corporativismo muito grande das mulheres entre si”, acrescenta. Os dados são coerentes com a média nacional, que aponta que hoje elas representam 48% dos Microempreendedores Individuais (MEI) e atuam principalmente em atividades de beleza, moda e alimentação. Quanto ao local de funcionamento do negócio, 55,4% das MEI estão sediadas em casa. Esse quadro se encaixa perfeitamente na situação da Kamomila Natural, que não possui um espaço físico de atendimento, recebe o auxílio de sua mãe na produção e na entrega dos cosméticos e a produção é feita na sua própria casa. Sobre o empreendedorismo feminino, Kamila afirma que não é fácil empreender. Há diversas questões que prejudicam a saúde mental de um empreendedor e o romantismo em ter seu próprio negócio muitas vezes mascara que na realidade existe muito trabalho envolvido. “O maior desafio de empreender, principalmente com o que a gente ama, é saber quando é necessário se pôr em primeiro lugar”, finaliza.


A realidade a frente e atrás das grades por Kamila Melo e Milena Flor Finas camadas de espuma resguardam as cabeças que pairam leves ou pesadas sobre os travesseiros. Os blocos de cimento manchados formam uma estrutura cubicular que, friamente, calam vozes que ressoam entre as paredes geladas e barras de ferro. Vozes abafadas pelo anseio de dezenas de outras lamúrias, vindas do mesmo pequeno e apertado “cômodo”. De repente, um estrondo metálico quebra o pouco silêncio que havia. Após o primeiro barulho, o ruído metálico segue uma sequência rápida, sinalizando que começou o dia. Mais um dia no sistema carcerário feminino brasileiro. Mulheres. Enclausuradas. Abandonadas. Ao colocar as mãos para trás, presas em algemas, a dignidade fica obscurecida no estereótipo que simboliza exclusão e perigo. Diante da perversidade, a população menospreza a realidade carcerária, onde 42 mil mulheres vivem atrás das grades em todo o Brasil. O dado é do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), realizado em 2018. A punição prevista em lei é intensificada pela invisibilidade e pelo preconceito que as detentas sofrem. Um retrato que diverge, em muitos fatores, do quadro masculino penitenciário, não só na higiene diária, mas, principalmente, pelas causas do aprisionamento. Quando conheceu o ex-marido Joel Machado, Michele de Bona sabia do envolvimento dele com o tráfico de drogas e, por isso, procurou ajudá-lo a encontrar outros caminhos. “Consegui manter

Internet

ele afastado da maconha por sete anos”, relata a paisagista, que era dona de uma floricultura junto com o companheiro. No entanto, ele voltou a manusear entorpecentes, por fins medicinais. É o que afirmava para a esposa. Diante da escolha, Michele pediu separação e o relacionamento se transformou em união estável, já que Joel alugou uma casa ao lado para ficar. Embora não dividissem mais o mesmo teto, o ex-esposo sempre esteve próximo dela. Mal sabia ela que, ao ficar longe do lar, o vizinho praticava o comércio ilícito. “Saia cedo, sete horas da manhã, chegava à noite, então, não via o que estava acontecendo”, relembra.

{ } 42 mil mulheres vivem atrás das grades em todo Brasil

Cinco meses depois, o resultado do contrabando: encarceramento. Mesmo sem relação direta no crime, Michele foi presa por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, posse de armas e fraude processual. Desde então, há um ano e seis meses, o Presídio Feminino de Tubarão tornou-se sua morada. O

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início foi de revolta. Michele sabia que poderia ter evitado tudo isso e lamenta somente o coração empático que teve com o ex-marido. “Me arrependo apenas de ter sido boa com ele”, revela, entre suspiros. Com o cabelo comprido amarrado com um simples cordão elástico, Kálita Abatti também está presa na mesma cadeia. Mas sua mente é livre. Seus pensamentos estão lá fora, sente falta dos mínimos detalhes. “De poder andar de pé descalço na areia, de poder sentar-se no balanço, de poder pegar o vento na cara, da comida da minha mãe. Não que a comida do presídio seja ruim”, relata emocionada. O chinelo de dedo de cor branca já amarelado pela sujeira, o uniforme chamativo de cor laranja tão comum por ali. Logo ela que adorava fazer roupas para suas bonecas quando pequena, havia de se contentar com a moda que lhe impuseram. Mas o detalhe no pulso não poderia ser esquecido, uma pulseira vermelha. Não era sobre religião, era sobre beleza. Um lacre plástico de um pacote de bolacha, sorri com a própria criatividade. Ela tão jovem, 25 anos, perdeu sua liberdade pela terceira vez. A última numa investigação da Polícia Civil, sendo suspeita de envolvimento com o tráfico, associação e organização criminosa e aliciamento de menor. Ela e o marido Joelso, nome que faz questão de deixar tatuado no lado direito do pescoço. Os dois apaixonados não medem esforços para ficarem juntos. Ainda que presos fisicamente em diferentes presídios, a comunicação se dá através de cartas. “A gente conta a rotina do dia a dia, como está sendo, o que está acontecendo, o que eu faço por aqui. E fazemos planos para o futuro”,

Kálita prefere não mostrar o rosto por sentir vergonha das suas atitudes

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esclarece Kálita que ainda tem a compaixão do marido e de pessoas da família. Diferente da Michele que já nem quer saber do ex-marido e contrário também da dura realidade enfrentada pelas detentas que recebem uma quantidade muito menor de visitas, em comparação com a penitenciária masculina. Avental de respeito A paisagista Michele, diferente das demais, tem a oportunidade de dividir o tempo entre a cela acinzentada e a cozinha da instituição. Isso porque, no presídio feminino de Tubarão, a empresa que administra a comida faz a contratação das reclusas para a prestação de serviço. Até por uma questão de segurança que evita o entra e sai de pessoas. O salário varia de R$998,00 a R$1.000. O trabalho é regulamentado pela legislação catarinense que prevê que 25% do valor total seja revertido para o estado. Sendo uma forma de ajudar nos custos que o próprio sistema penitenciário gera ao governo. Além de ser um compromisso para a Michele.“Já saiu pronta do alojamento. Vejo como uma empresa, sabe? Tenho que sair pronta para meu trabalho, cumprir horário”. Flores que sustentam Acordando às seis horas da manhã, coloca o uniforme, veste a touca, o avental, bota as canecas na mesa, o leite, a água para ferver e o pó do café no coador. No almoço, prepara as saladas, carnes, com o maior cuidado e higienização. “Eu gosto. É uma coisa que precisa ser rápida e o tempo passa e você nem percebe”, diz, sorrindo. O semblante de leveza não muda quando fala da convivência com as outras presidiárias, não que tenha amizades fortes, contanto, cada colega é importante para Michele e merecem respeito. Antes da vida enclausurada, todos os dias vivia rodeada de árvores e flores – de todos os tipos, cores e aromas. Paisagista, era dona de uma floricultura famosa, em uma cidade litorânea catarinense. Executando projetos e vendendo primaveras, tirava dali o sustento para todas as estações do ano. As plantas preferidas são as palmeiras. “Você pode colocar ela em um ambiente de interior que ela se adapta sem o sol”, ensina Michele, que também tem afeição por Jasmim de várias espécies. Na perna, uma tatuagem estampa outra paixão: as baleias. Quando trabalhava no Arquipélago de Abrolhos, na Bahia, adorava observar as jubarte. Foi justamente o amor pelo mamífero marinho que a


A paixão por baleias está eternizada na pele de Michele

trouxe para Santa Catarina, lugar onde queria ver a baleia franca na costa. Um litoral de liberdade Criada em Balneário Gaivota, município catarinense, o mar sempre foi a casa de Kálita. No vai e vem da sua vida, pegou onda com companhias erradas. Arrepende-se, mas insiste na inocência. Fala sobre a perseguição da polícia já na primeira prisão. “Era garota de programa numa boate e tinha uma casa na esquina. Alguns rapazes, amigos meus, estavam na minha casa fumando maconha e de repente chegou a polícia. Todo mundo correu, entrei dentro de casa e fechei a porta. Eu tinha uma latinha que só tinham as baguinhas da maconha, tipo xepa de cigarro. Aí a polícia revirou minha casa, não achou nada de droga, porque não tinha. E me levou por causa daquele pote de baga de maconha. Tinha uma grama e meia de maconha. Eu fiquei 33 dias no presídio e meu advogado me tirou”, lembra. Com as pernas trêmulas, Kálita anseia pelo futuro. Pretende ser estilista. Abrir a própria empresa de costura. A esperança na liberdade é o que a mantém com os pés no chão. Ensino médio incompleto, parou por causa do ciúme do primeiro marido. Mas confirma que não passou por nenhum relacionamento abusivo, nem na vida de programa. Sonha em ser mãe, algo que Michele (fictício) já entende bem. Mãe de três filhos, avó de quatro netas, a detenta cozinheira recebe na cadeia a visita de poucos familiares. Carregando o peso de ser a primeira presa na árvore genealógica, tem a sorte de ter Felipe, o caçula que leva as duas netas Laura e Heloísa para abraçar a vovó a cada quinze dias. “Elas são tudo o que eu tenho. Não me veem como criminosa, não tem preconceito, sabem a pessoa que realmente sou”, conta com o olho lacrimejando. Apesar de ter tido um grande aumento da presença das muÀ espera da liberdade, as duas detentas preenchem algumas páginas da sua vida dentro de um sistema penitenciário. Ainda que passem anos em meio a escuridão, o tempo nunca está perdido para elas. É uma forma de meditar e planejar para que o futuro seja melhor que o ontem. O sistema ainda falha

na reeducação e acompanhamento pós-prisão. A vida do crime acaba sendo mais oportuna em meio a dura realidade. Mesmo que não seja possível mudar o começo, ainda se espera que o final seja diferente e que a liberdade seja a maior recompensa. Kálita encerra a entrevista lendo o verso tatuado nos dos dois antebraços, escritos pelo cantor Charlie Brown: “a vontade de ti ver já é maior que tudo, não existem distâncias no meu novo mundo”. A frente das grades Diferente das detentas, que estão presas a rotina, os agentes penitenciários precisam lidar com imprevistos. O dia a dia dentro de uma cadeia inclui diversos problemas, que precisam ser resolvidos de imediato. Nas cadeias femininas a atenção precisa ser ainda maior. Não só pela questão do perigo, mas, principalmente, sobre o que é previsto em lei para as detentas. Mulheres conhecem bem a necessidade de outras mulheres e, para também evitar constrangimentos machistas, são elas quem estão a frente das grades. “Tenho orgulho da minha profissão”, diz Daiane Boneto de Souza, agente no Presídio Feminino de Tubarão. Com 28 anos de idade, mãe de dois filhos, ela não tem medo do que pode encontrar no trabalho. “Aqui dentro, não podemos julgar e nem repreender ninguém. Nós seguimos o judiciário. Eles que vão bater o martelo e decidir o futuro delas. Não gosto de saber no que às presidiárias se envolveram, até para não ter diferença no tratamento e respeito. Se eu respeitar elas, elas me respeitam. Então, procuro ser o mais justa possível. E funciona.” Ainda que não estejam atrás das grades, o trabalho no sistema penitenciário é visto de forma negativa. Daiane, por exemplo, se ofende quando a chamam de carcereira. “É um termo que usavam antigamente, quando andavam até de chinelo pelos presídios. Hoje é diferente”, conclui. Talvez o preconceito esteja na forma como retratam as cadeias, como um ambiente violento e inseguro nos cinemas e telejornais. Como se a própria liberdade terminasse também para os trabalhadores que enfrentam a vida na frente das grades. A lógica deste espaço não valoriza o trabalho de milhares de agentes e assistentes que se dedicam a profissão com ética e humanidade. Para ter acesso a mais conteúdos sobre o assunto, posicione a câmera do seu celular sobre o QR Code.

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A História de mulheres empreendedoras em Tubarão

Santina Damazio Alexandrina

por Geovana Biudes Empreender significa inovar. Mudar a forma de pensar e agir. Ser uma empreendedora significa deixar de lado o medo e colocar em prática suas ideias. Mulheres empreendedoras trilham um caminho árduo para conseguir atingir seus objetivos. São trajetórias para ensinar e inspirar outras mulheres. Essa é a luta diária de três mulheres guerreiras e empreendedoras que vocês irão conhecer. As mulheres empreendedoras são esposas, mães, donas de casa, estudantes. É uma vida de multitarefas. Elas vem mostrando ao mundo a força que tem e o talento para se tornar um negócio bem-sucedido. Com todo esse crescimento, é importante lembrar que nem sempre foi assim. Mesmo com a evolução diária, as conquistas, ainda é difícil para as mulheres chegarem em determinados cargos. Segundo um relatório apresentado em São Paulo pela multinacional britânica-holandesa Unilever, somente 5% dos cargos de direção nas empresas são comandadas por mulheres. Elas vêm investindo muito em estudos e capacitações, já que suas capacidades são levadas com dúvidas, e assim, acabam colocando de lado o casamento e relacionamentos. Apesar de toda essa luta pela igualdade, elas continuam ganhando menos que os homens. Maiara Schambeck, 37 anos, quando era adolescente sonhava em cursar Odontologia, mas através de um teste vocacional, descobriu que a odonto não era para ela. Resolveu então, partir para o Direito. Hoje, graduada em Direito e com Especialização em Gestão de negócios, também faz parte desse time de empreendedoras. Uma mulher forte, sagitariana nata, cheia de gratidão e muita fé. Luta como uma guerreira e busca sempre melhorar e continuar em frente mesmo com as dificuldades. “Nós mulheres não temos

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destaques no ambiente de trabalho, destacando a divergência de salários e cargos de direção, que são ocupados em grande maioria por homens”. Vanessa de Oliveira, 35 anos, formada em administração, e exerce a função de assistente administrativo na Agetec. Uma mulher guerreira que ama sua família e tem dificuldades em expressar seus sentimentos, mas que busca constantemente a sua evolução. “As mulheres empreendedoras estão conquistando cada vez mais espaço e ganhando impulso, e isso é muito bom. Não apenas para as mulheres, mas para a sociedade como um todo”, diz Vanessa. Luciana Flor Correa, mulher, mãe, filha, estudante, dona de casa e esposa. Essas são algumas das características dessa mulher empreendedora, que também é doutora em Educação Científica e Tecnológica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui Mestrado em Educação, Graduação em Serviço Social e atualmente é graduanda em Pedagogia pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Teve uma infância boa e tranquila, mas uma adolescência difícil com a morte de sua mãe.


Santina Damazio Alexandrina

“As mulheres estão conquistando o seu espaço e isso me enche de orgulho. Nós estamos indo à luta. É lindo o tamanho dessa representatividade”, diz Maiara. “Éramos em três irmãs, e por ser a mais velha, assumir muitos compromissos incompatíveis com minha idade. Precisei fazer muitas escolhas difíceis e lutar contra inúmeros preconceitos. A Agetec Agência de Inovação e empreendedorismo da Unisul pensando com um olhar voltado aos jovens universitários, se estabeleceram dentro da Unisul (universidade do Sul de Santa Catarina), focando todo o seu trabalho para a comunidade de ensino e para aqueles que buscam inovar, mas não sabem por onde começar. “Há alguns anos coordenei uma pesquisa sobre o número de projetos aprovados por mulheres na FAPESC (Fundação de Amparo à Pesquisa e Tecnologia do Estado de Santa Catarina). E os índices mostram que os homens não só têm mais projetos como um montante muito maior de recursos”, afirma Luciana. “A Agetec visa promover a cultura e o desenvolvimento da inovação e do empreendedorismo na universidade. Pensando de uma forma articulada e buscando melhorias

do ensino, da pesquisa e da extensão, junto com crescimento social e econômico da comunidade. Ocupando em geral um papel de subordinação no mercado de trabalho, as mulheres ainda sofrem discriminação em razão do gênero e a forma que a sociedade impõe o seu papel, afirmando que as mulheres tem apenas as funções de filha, esposa, mãe e dona de casa. No mercado de trabalho, não havia e às vezes ainda não há lugar e muito menos respeito pelas mulheres. A exploração fazia com que trabalhassem até 16 horas diárias em outro momento da História, ultrapassando os seus limites físicos e mentais. Contudo, foram elas que contribuíram para o crescimento e desenvolvimento da sociedade, o que fez com que lutassem pelos seus direitos e deveres garantidos por lei.“Não importa se você é homem ou mulher. O gênero é só um detalhe. Se você acredita que pode ocupar um espaço, mesmo que outros pensem diferente, você pode ocupar aquele espaço. Respeite as pessoas e seja quem você quiser ser. Em algum momento as portas do empreendedorismo, mercado de trabalho, irão se abrir e o prazer que você sentirá, será muito maior do que se você for um fantoche”, conclui Luciana.

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Patrícia Amorim cobrindo um jogo de LNF

por Fhillype Costa

Vozes femininas nas transmissões: quando teremos igualdade? Quantas vezes você já ouviu uma mulher transmitir uma partida de futebol, no Brasil? A maioria dos brasileiros, deve ter ouvido poucas vezes, ou na pior das hipóteses zero. Apesar de nos últimos anos, a entrada de mulheres no jornalismo esportivo, vem aumentando, ainda está longe do ideal. Atualmente, existem quatro grandes canais de esportes no Brasil. Fox, SporTV, Espn e a Turner. Todos eles, tem mais de 16 horas diárias de programação ao vivo, e em poucas vezes você vê a mulherada dominando os programas. Em muitas das vezes, eles são as responsáveis por apresentar eles, ou moderar as discussões entre homens. Isso, claro, quando existem mulheres no programa. Em muitas vezes, nem se quer uma participa. Trazendo essa realidade para Tubarão, uma voz feminina se destacou entre 2018 e 2019, nas transmissões esportivas da cidade azul. Patrícia Amorim, tem 28 anos, e já havia participado em um programa de TV sobre esportes, na emissora da faculdade. No meio de 2018, uma rádio de Tubarão, decidiu entrar no esporte, e com isso, montou uma equipe. Entre as cinco pessoas que foram contratadas para fazer parte do grupo, a Patrícia foi uma delas. Apesar de todo o destaque e qualidade, ela acabou saindo e hoje não está mais atuando na área esportiva, mas ainda continua com o grande sonho de cobrir uma Copa do Mundo. “Meu sonho é cobrir uma Copa do Mundo e gostaria muito de ter como profissão

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exclusivamente a área esportiva. Mas é difícil... confesso que já estive mais motivada. Quando você atua diariamente na área percebe que há muita coisa errada e injusta. Vamos ver o que o futuro proporciona.” Destaca ela. Apesar de não estar mais na área, Patrícia nos contou sobre como surgiu a paixão pelo esporte. Tudo começou, lá quando criança, com o irmão acompanhando as partidas de futebol pela televisão. “Lembro de meu irmão acompanhar partidas de futebol pela TV. Talvez tenha sido uma influência nessa paixão que tenho pelo futebol, no entanto, desde pequena além de assistir futebol sempre fui ligada a prática de esportes. Acho que nasceu em minha veia mesmo. Explica a jornalista. Além do preconceito que existe com as mulheres no jornalismo esportivos, onde, uma boa parte dos que estão dentro da área acham que o grupo feminino não sabe falar sobre os esportes, ainda é preciso lidar com o assédio que acontece no trabalho, no campo... E isso aconteceu com a Patrícia. “Diretamente não sofri preconceito. Mas existe uma cobrança maior. “Quem é essa menina?”, “Será que entende mesmo?”. O que sofri foi assédio. Tanto por parte de jogadores, tanto por parte de torcedores. Em um jogo que estava trabalhando como repórter de campo alguns torcedores mandaram eu rebolar. Foi humilhante! Mas levantamos a cabeça e seguimos, apesar de acharmos que estamos preparadas para enfrentar essas situações, quando acontece mexe com seus sentimentos.”


Caso em rede nacional Em 2018, um caso aconteceu de assédio aconteceu ao vivo, e em uma rede nacional de televisão. A repórter Bruna Dealtry, estava cobrindo uma festa da torcida do Vasco da Gama, quando um homem se aproxima e dá um beijo no canto da boca da repórter. Ela fica sem reação, mas com todo o profissionalismo, continua a cobertura. Após o incidente, ela se pronunciou nas redes sociais. “Hoje, me sinto ainda mais triste pelo que aconteceu comigo e pelo que acontece diariamente com muitas mulheres, mas sigo em frente como fiz ao vivo. Com a certeza de que de cabeça erguida vamos conquistar o respeito que merecemos e que o cidadão que quis aparecer é quem deve se envergonhar do que fez. Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada.” No texto, alguns comentários de outras pessoas, estavam condenando a repórter e protegendo o homem que assediou. Mostra o quanto ainda o mundo do jornalismo esportivo, como um todo, até por quem assiste às transmissões, ainda, é machista. Como Patrícia acabou saindo da área do esporte, atualmente em Tubarão, o universo das transmissões é totalmente de homens, mas apesar disso, ela projeta um futuro melhor, tanto aqui na cidade azul, quanto no resto do país. “Está crescendo! Finalmente as grandes emissoras estão dando oportunidade para as mulheres. Temos hoje narradoras, comentaristas e repórteres. Ainda é uma porcentagem mínima, mas vejo que o cenário está mudando. Infelizmente aqui em Tubarão, o mercado é atualmente é praticamente 100% masculinizado. Espero que logo, o movimento dos grandes centros atinja o interior.”

Vozes femininas voltaram a aparecer nas transmissões Em pleno século XXI, é inaceitável que uma mulher não possa ir ao um jogo de futebol, cobrir jornalisticamente um time, e mostrar a

sua qualidade nos microfones, seja no rádio ou na televisão. Patrícia é só um dos exemplos que acontecem em todo o Brasil, e no mundo, com mulheres que se arriscam, se jogam de cabeça, nesse mundo, que ainda, é muito machista, que ainda dificulta demais a entrada do grupo feminino. Mas, esperamos que no futuro, podemos fazer desses relatos, uma história de tempos antigos, e que nunca mais voltou a se repetir. Como falamos, hoje no Brasil, existem quatro grandes canais esportivos na tv fechada. Apesar de empregar diversas pessoas, apenas 13% dos apresentadores que aparecem nas telinhas são mulheres. Na maioria das vezes, realizando as reportagens. Quando o assunto é comentários, análises de jogos e arbitragem, o número cai drasticamente. Levando para o número real, apenas TRÊS mulheres são contratadas no Brasil, para exercerem essas funções. Voltando a pergunta do começo do texto, para se ter uma ideia, de 1999 à 2018, nenhuma mulher realizou uma transmissão de uma partida de futebol, em uma grande emissora. Em 1999, Luciana Mariano foi a responsável por fazer a narração de algumas partidas do Campeonato Pernambucano. Antes disso, somente lá na década de 1960, quando Zuleide Ranieri e Claudete Troiano realizam durante um curto espaço de tempo, transmissões de jogos de futebol, no Brasil. O trabalho, na época, foi realizado na Rádio Mulher. Em 2018, Luciana Mariano, voltou a fazer

“...de 1999 à 2018, nenhuma mulher realizou uma transmissão de uma partida de futebol em uma grande emissora” 37


Marília Galvão. (Vantin Films)

história. Ela foi a primeira mulher do século XXI a narrar uma partida de futebol. E se engana quem acha que foi em uma competição qualquer. A narradora foi a responsável por levar as informações do jogo entre RB Leipzig e Zenit, pelas oitavas de final da Europa League. Segunda competição mais importante da Europa. Pouco tempo depois, Luciana foi contratada no Canal ESPN, para transmitir os jogos de competições europeias e do Campeonato Paulista Feminino. Falando em futebol feminino e Luciana Mariano, alguns meses depois de ser contratada, ela junto com Juliana Cabral, Gabriela Montesano e Marília Galvão realizaram a transmissão da semifinal, e final, do campeonato, sozinhas. Para se ter uma ideia, essa foi a primeira vez que isso aconteceu na televisão do Brasil. Mas, isso não quer dizer que o cenário está

Luciana, primeira mulher a narrar um jogo de futebol na TV brasileira no fim dos anos 1990. (Divulgação ESPN)

correto, ainda trazendo outros números, agora em uma escala mundial, de uma pesquisa do Monitoramento Global de Mídia, que avaliou 18 mil notícias esportivas publicadas em 23 países em 2011, mostrou que apenas 11% desse conteúdo foi escrito por mulheres. Já em 2016, a Gênero e Número avaliou colunas esportivas dos dez jornais de maior circulação dos estados brasileiros e dos líderes de audiência e mostrou que menos de

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10% dessas colunas são assinadas por elas. O cenário vem melhorando, mas ainda não é o ideal. Se fossemos colocar o jornalismo esportivo feminino como uma pessoa, hoje, ele seria uma criança que está engatinhando. Os passos são poucos, são pequenos, mas, elas não podem parar.

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Internet

por William Andrades

Motoristas de Uber no sul de Santa Catarina

Uber é um aplicativo de transporte urbano privado, fundado em 2009 nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil em 2014, primeiro no Rio de Janeiro e logo após em São Paulo. Passou por diversos problemas judiciais, envolvendo as companhias de táxi e afins, sendo suspenso diversas vezes até ser regularizado. O Brasil é o segundo maior mercado da Uber, perdendo apenas para os Estados Unidos. A Uber é uma empresa com um histórico machista. Diversos funcionários e executivos de alto cargo já foram demitidos por problemas envolvendo machismo. O próprio fundador, o americano Travis Kalanick, renunciou à presidência da empresa em 2017, após ser criticado por declarações machistas. Além disso, algumas campanhas de marketing foram criticadas por serem sexistas, como uma que foi aplicada em Lyon, na França, em que uma promoção juntava passageiros com “motoristas gostosas”. A postura da empresa quanto a casos polêmicos sempre gerou controvérsia. Para Marleide Martins, que tem 59 anos e foi a primeira mulher motorista de Uber em Criciúma, Santa Catarina, isso é um problema grave. Ela diz que “a Uber não passa informações sobre as viagens e os motoristas, a empresa deveria agir mais pela segurança dos motoristas, estar mais disposta a fornecer dados a familiares e a polícia.” Em 2016 a Uber era a única no segmento de transporte privado a manter seus dados sobre motoristas no sigilo. Outras como Cabify,

EasyGo e 99POP forneciam seus dados para o governo em casos de investigações quanto a algum crime e afins. Isso abria uma vantagem da empresa quanto as suas concorrentes, por assegurar o sigilo de seus motoristas. Marleide, que dirige profissionalmente a quase dois anos, diz que nunca sofreu nenhum tipo de violência, mas que toma algumas medidas de segurança. Por exemplo, só faz corridas durante o dia e sempre avalia a nota do passageiro, se a nota for muito baixa ela cancela, como já aconteceu duas vezes. Ela não anda armada e corridas a noite só se forem marcadas com antecedência. “O aplicativo oferece proteção também, caso a gente se sinta ameaçada, no aplicativo pode acionar a polícia sem que o passageiro perceba” nos disse Marleide. Ela se refere a função do aplicativo “Ligar para a polícia”, onde o motorista em situações de risco ou emergência tem como compartilhar sua localização atual, através do GPS do aplicativo, com as autoridades que são responsáveis pelo número 190. Toda essa informação está disponível no site da Uber, junto com diversas outras sobre segurança. Um caso citado por Marleide ocorreu em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Um homem foi linchado por ter roubado um carro de um motorista de Uber. O caso ocorreu em setembro deste ano, segundo o OCP News Florianópolis, “nem a identidade do homem, nem as circunstâncias do fato foram confirmadas, mas relatos de pessoas que estavam no posto

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e que circulam em redes sociais dão conta de que ele roubou o carro, acabou perseguido por outros motoristas de aplicativo e, ao parar no posto para abastecer, teria sido cercado e agredido até a morte.” Esse assassinato provavelmente só ocorreu devido a grupos de WhatsApp que os motoristas formam para se informarem desse tipo de situação. Isso vai de encontro a nossa outra entrevistada. Wilma começou a dirigir profissionalmente porque não conseguiu emprego quando foi morar em Santa Catarina. O que ela mais lamenta na profissão em si é a falta da união por parte dos motoristas. “A maioria é gente boa, mas as vezes os próprios motoristas [homens] fazem violência com as motoristas mulheres.” Além do caso ocorrido com ela citado acima, ela não tinha nenhum exemplo de outra violência ocorrida nesses grupos, era algo geral. “E é uma pena não serem uma classe unida. Quem puder levar vantagem sobre o outro, leva. A maioria não se respeita”. Nesses grupos de WhatsApp existem diversos tipos de códigos usados pelos motoristas. Por exemplo, Joyce Bitencourt nos contou que caso se sinta ameaçada durante uma corrida, ela vai no grupo dos motoristas e coloca um emoji de bandeira vermelha, assim os outros motoristas sabem que ela está em perigo ou em uma situação de emergência, assim o motorista mais próximo da localização dela tenta fornecer assistência. Joyce tem 31 anos e é motorista de Uber (e outras formas de transporte privado) a quase um ano, em Tubarão, Santa Catarina. Começou a dirigir profissionalmente por causa da flexibilidade de horário que a profissão oferece, e diz nunca ter sofrido nenhum tipo de violência. Sobre medidas de segurança, “aceito a corrida no aplicativo e não tem muito o que fazer. A gente nunca sabe quem é bom e quem é mau e não posso levar nenhum tipo de arma no carro”. Um sonho de mais segurança Ela comenta sobre casos de motoristas que foram “passadinhos” (assédio), mas não quis entrar e detalhes e diz que não foi com ela nem com ninguém que ela conhecia. É uma questão velada entre a comunidade de motoristas por ter tão poucas motoristas mulheres e pelas medidas de segurança e principalmente assistência que o aplicativo oferece não serem perfeitas.

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Wilma Squeff, de 59 anos e motorista a um ano e meio na cidade de Tubarão, Santa Catarina, relata um outro tipo de problema. Ela diz que violência vinda de passageiros ela nunca sofreu, “são mais pessoas mal-educadas e malhumoradas que a gente tem que engolir, mas a maioria é gente boa”. Porém, ela diz que os próprios motoristas da Uber são bem agressivos. “Eu sofri bullying num grupo [de WhatsApp] de motoristas da Uber, me chamaram de ‘velha louca’, e eu nunca fui, sempre fui trabalhadora e fiz o mesmo serviço que eles, e talvez até melhor”. Nenhum grupo de WhatsApp é oficialmente suportado ou incentivado pela Uber, mas todas as três motoristas falam sobre eles e que são grandes. A única ferramenta oficial envolvendo os dois aplicativos é uma parceria que a Uber vem tentando realizar. Segundo o site oficial, em um futuro próximo “os motoristas parceiros em alguns países podem receber suporte da Uber para cadastro e ativação por meio de uma conta verificada do WhatsApp”. Apesar disso, vem ocorrido, por parte da empresa, intenções de mudanças. Neste segundo semestre de 2019 a Uber começou a testar no Brasil o “U-Elas”, uma função no aplicativo para que motoristas mulheres possam fazer corridas apenas para passageiras mulheres. A função está sendo testada nas cidades de Campinas (SP), Curitiba (PR) e Fortaleza (CE). É apenas uma opção que o aplicativo oferecerá, caso desativada as motoristas mulheres voltarão a receber corridas de passageiros homens. Essa iniciativa faz parte do projeto “Mulheres na Direção”, anunciado pela Uber recentemente nesse ano. Acontece que os números de mulheres motoristas são alarmantemente baixos. Apenas 6% dos 600.000 motoristas da Uber no Brasil são mulheres. Essa medida foi tomada depois de uma pesquisa em parceria com o Banco Mundial em que 64% das entrevistadas disseram não começar na profissão por questões de segurança. Como é o caso da Marleide, que só faz corrida durante o dia por medo, postura bem diferente dos motoristas homens e que lhes dá uma vantagem financeira e profissional. Nas três cidades em que o ‘U-Elas’ começou a ser testado, uma outra iniciativa do programa será a garantia de uma renda mínima entre R$1.500 e R$1.600 para as mulheres que começarem a dirigir, nas 100 primeiras viagens. Claudia Woods, diretora-executiva da Uber no Brasil, disse que a segurança na renda é um fator importante para que as mulheres consigam honrar suas contas no início da trajetória com a Uber.

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Cleide Clock, repórter do SBT

por Cesar Augusto

A resistência feminina no jornalismo

As mulheres formam a maioria da sociedade brasileira, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No jornalismo, contudo, não é bem assim. A predominância masculina ainda é mais da metade no setor. Atualmente, 15.654 mulheres jornalistas estão empregadas em veículos de comunicação. Apesar de parecer expressivo, o número representa somente 36,98% do mercado da imprensa no país. Isso porque há empregos ativos para 26.678 jornalistas do sexo masculino. Os dados foram divulgados em março deste ano pelo Workr, uma plataforma de comunicação corporativa. Cerca de 86% da população brasileira consomem o rádio. É o veículo que tem mais proximidade com as pessoas, seja no carro, em casa ou nas ondas da internet. E mesmo sendo o veículo mais popular de maneira geral, a disparidade entre homens e mulheres trabalhando no segmento é grande. Apenas 20% dos profissionais do rádio são do sexo feminino, uma diferença que não se vê em nenhum outro meio. Em televisão, por exemplo, as mulheres são maioria, embora a disparidade seja quase inexistente. As revistas também têm um equilíbrio grande de gêneros. Se a dificuldade já é grande em veículos de comunicação no Brasil, será que ela continua quando o assunto é correspondência internacional? Em Tubarão, no Sul de Santa Catarina, Amabile Corrêa, estudante de jornalismo, ingressou na Rádio Bandeirantes como repórter e apresentadora

em 2018. Como fazia parte de grupos de jovens da igreja católica, ela esteve em um evento de comunicadores em Joinville-SC, representando a Diocese de Tubarão, onde havia diretores do setor brasileiro da Rádio Vaticano. Amabile recebeu convite de estágio para atuar em Roma no fim de 2018, como correspondente internacional. “A gente sabe como é um meio fechado e geralmente não temos oportunidades, então sempre tentei ser simpática, gentil. A concorrência na profissão é muito grande, então não basta ter um grande currículo, é preciso inovar, surpreender. E foi assim que consegui buscar essa oportunidade de estar na Rádio Vaticano”. Ela conta que foi tudo muito novo, inclusive o idioma, mas sabia que não poderia perder a chance.

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“Organizei o que precisava para embarcar e fui perseverante, sabia que se fizesse tudo certo poderia chamar atenção”, conta.

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Aos 23 anos, Amábile embarcou para a Itália com a missão de produzir reportagens e estar próxima das atividades da Igreja Católica no Vaticano. Foram 32 dias de aprendizado, embora as dificuldades com a língua tenham atrapalhado nos primeiros dias. Ela buscou ajuda financeira com familiares, amigos e apoiadores, além de usar de reservas pessoais. Atuou com

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informações do que ocorria no Vaticano no site da rádio e também em contato com emissoras de todo o Brasil. A experiência deu certo e o objetivo de chamar atenção foi concluído. – Aprendi muito e de forma muito rápida. Vi o mundo de uma forma diferente, conheci o que os estrangeiros pensam do nosso país, entendi coisas que não entendia antes em termos de economia. Na segunda semana já arranhava italiano para fazer as atividades. Estive próxima do Papa Francisco, que é uma figura mundialmente conhecida. Para uma jornalista, independente de religiões ou gêneros, estar próxima de pessoas importantes para a população é essencial. Mesmo depois que voltei, mantive reuniões com o pessoal de lá via Skype e, no ano seguinte, e felizmente fuiconvidada para voltar – comemora. A jornalista retorna ao Vaticano no final do mês de setembro – agora com tudo custeado pela Rádio Vaticano – e seguirá fazendo parte da emissora romana. A dificuldade no meio jornalístico por parte das mulheres não intimidou Amabile que, no entanto, pede mais igualdade na profissão: “Eu lutei muito para conseguir isso, mas a nossa ideia é que não precise ser tão difícil. Há um movimento muito grande hoje em dia buscando igualdade e nós precisamos que ele se fortaleça no jornalismo também para que tenhamos mais mulheres atuando não só no Brasil, como fora dele” finalizou. Se a desigualdade ainda impera nos dias atuais,

há alguns anos era ainda maior. O movimento forte supracitado por Amábile gerou na sociedade uma luta por direitos semelhantes atualmente. Antes disso, pouco se buscava soluções de combate à desigualdade. A jornalista Cleide Clock, formada no fim década de 90 e hoje em atividade nos Estados Unidos como correspondente internacional, conta que ao longo da carreira, enfrentou situações complicadas, às quais ela acredita que tenham diminuído nos dias atuais. Para conquistar a possibilidade de trabalhar fora do Brasil, Cleide, antes de iniciar a faculdade, fez o curso de letras alemão. Influenciada pela irmã, também jornalista, a catarinense nascida em Brusque, no Vale do Itajaí, saiu do país para tentar entender o mundo de uma forma diferente. Mesmo quando já estava com um início promissor de carreira em veículos conhecidos no estado, ela optou por buscar experiências internacionais que pudessem lhe dar a condição de trabalhar fora do país. Na TV RBS, hoje NSC, trabalhou como repórter, editora, produtora e apresentadora de 2001 a 2009. Foi em 2007 que conseguiu uma licença de três meses da RBS e foi fazer um estágio na empresa alemã Deutsche Welle, o que lhe despertou mais ainda a vontade de trabalhar fora do Brasil e contar para os brasileiros, com sua visão, o que acontece do lado de fora. Trabalhou para o SBT entre 2010 e 2011, até se mudar para o estado do Havaí. Com as mudanças, atuou como

Arquivo pessoal

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Internet

Freelancer em diversos veículos de comunicação. Porém, retornou para Los Angeles em 2015, onde exerce a profissão nos dias atuais. Cleide conta que as maiores dificuldades enfrentadas pelo fato de ser mulher não ocorreram no exterior, e sim no Brasil. Foi no início de sua carreira em Santa Catarina que ela ouviu expressões machistas. – Ouvia comentários de chefes que pareciam brincadeiras, mas às vezes realmente era o que eles pensavam. Em uma oportunidade, um colega estava para ser contratado e os chefes falaram que era melhor contratar homem, pois não engravidava. Todos tinham como brincadeira, não se tinha o cuidado que alguns tem nos dias atuais. Mas a gente sabe quando tem um fundo de verdade. Felizmente não fui afetada diretamente com o problema, pois tive filhos mais tarde, mas lembro da situação que é constrangedora sim – relata. Outro ambiente em que Cleide sentiu-se mal foi nos estádios de futebol, também em solo brasileiro. “Aqui isso não acontece. As pessoas têm um nível diferente de respeito, mesmo que estejam bebendo. Em alguns jogos em que trabalhei no Brasil, reportagens em bares, ou à noite, lembro de alguns pequenos constrangimentos. Não sei como está hoje, mas lembro que me sentia mal nesses momentos”. Já consolidada no cenário jornalístico e com quase 20 anos de carreira, Cleide acredita que a corrente não pode parar e, mesmo de longe, vê como positiva essa luta por igualdade nos

– Não se pode desistir da profissão preferida por dificuldades de convivência, por preconceitos. A barreira do sexo não existe mais para a profissão. É claro que se leva em conta quais são as circunstâncias. Eu trabalho sozinha em 90% dos casos, mas aqui nos Estados Unidos. Existem zonas de risco no Brasil e em outros lugares em que é bom se cuidar. A barreira do sexo não existe mais para a profissão – completou. ambientes de trabalho. Ela cita que o psicológico pesa quando se passa por situações de machismo e desigualdade e isso pode resultar em desistências da profissão. A experiente jornalista, nesse ponto, se coloca como exemplo para seguir o caminho.

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Vinícius Barbosa

por Vinícius Barbosa

As motoristas de veículos pesados no Sul de Santa

Patricia Fauth, de 31 anos, é motorista de ônibus na Viação Cidade,de Araranguá, há 5 meses.Vinda do Rio Grande do Sul, ela mora há 13 anos em Santa Catarina. Patrícia encarou uma profissão que, historicamente, não é vista como feminina nem é praticada na maioria por mulheres. Na Viação Cidade ela a única mulher dirigindo os ônibus que fazem as linhas da cidade de Araranguá. Contra as estatísticas, Patrícia trabalha 7 horas por dia, transportando 250 passageiros diariamente em média.As mulheres têm aparecido cada vez mais no mercado de trabalho, não só em áreas específicas, mas, também em novas áreas para elas. O mercado como motorista de caminhão ou ônibus não tem tradição de contratar mulheres, mas a família de Patrícia tem tradição ao volante. Seus familiares são donos de caminhões e foi onde ela começou a ter gosto pela profissão. Desde pequena ela admira o ato de dirigir e diz que seu amor pelo volante começou ali. Patrícia iniciou a carreira como motorista de caminhão e trabalhou nesse mercado por 8 anos. “A ideia de motorista de caminhão, de viajar, de conhecer o Brasil e isso desde pequena parecia agradável”. Patricia começou tirando as categorias até chegar na categoria E que é a necessária para se dirigir carretas. Já no caso do ônibus a categoria necessária é a D, quem tem a categoria E já é habilitado a dirigir as outras categorias também.

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Para ela, o preconceito na área existe e ela acabou criando uma espécie de barreira para driblar e não se abalar psicologicamente. “Eu sou mulher e não sou de ferro”, relata a motorista ciente do preconceito que sofre. Outra pergunta que é feita com frequência e até pode mostrar algum preconceito é sobre a capacidade de Patrícia de dirigir um veículo grande. Mas ela responde que não teve dificuldades em aprender porque se aprende com facilidade aqui que se gosta. “Quando tu faz alguma coisa que tu gosta, não sei se é dom é a palavra certa, aquilo vira a coisa mais fácil do mundo”, ressalta Patrícia. Ela ainda lembra que sempre se questionava sobre seus erros e que focava em melhorá-los nessa fase de aprendizado. A motorista é também cuidadosa com os detalhes mecânicos dos ônibus e caminhões que já dirigiu. Sempre que o veículo está na oficina ela faz questão de acompanhar como vai o serviço. Quando dirigia caminhão, ela mesma fazia o serviço de manutenção pois estava na estrada durante o trajeto. “A necessidade não é só de aprender a dirigir. É também de aprender os conceitos básicos de mecânica”. E os passageiros? Eles percebem a presença feminina ao volante? Patrícia diz que a reação é boa e que, em Araranguá, o pessoal gosta de novidade. “Eles gostam de me ver, eles gostam de andar comigo, às vezes alguns têm preferência em esperar para andar comigo. Está sendo maravilhoso trabalhar aqui”, ressalta


a motorista. Ela atua em linhas municipais e intermunicipais. A família parece também ter aprovado a profissão da filha. Ela diz que o pai, que sempre quis ser motorista de caminhão mas que não conseguiu porque era analfabeto, foi sempre quem mais a incentivou. “Eu de certa forma realizei um sonho que era do meu pai”. Já a sua mãe tinha uma preocupação com a filha que viajava “E quando eu tava na estrada era aquela coisa, ela ficava preocupada, sabe? É aquela coisa assim, a Patricia não chegou, a Patricia não liga. É aquela preocupação de mãe. Ela costuma dizer que eu sou louca, Agora ela tá mais contente que eu tô todo dia em casa”... Ela lida com a família e a profissão ao mesmo tempo. Patrícia também tem uma filha e chegou a ficar 61 dias sem vê-la quando trabalhava com caminhão e fez uma viagem ao Mato Grosso. Dirigindo ônibus ela consegue ir para casa todo dia. A filha de 11 anos e seus pais, que são idosos, foram os motivos dela ter largado as viagens. A reação da filha ao saber da profissão da mãe? “Ela acha o máximo”, conta Patricia. Os colegas da filha na escola também adoram quando ela vai visitá-los. A motorista do Expresso Coletivo Forquilhinha, Gabriela Fernandes de Jesus Mello Sá, começou a ter interesse na profissão após começar a viajar com o seu marido, que era motorista de uma empresa de guinchos. Após dois anos da saída do esposo da empresa, surgiu a oportunidade de participar do programa CNH Social do SEST/SENAT e foi contemplada através de um sorteio onde conseguiu a elevação da categoria. Também no mesmo local ela fez vários cursos como o de Transporte Escolar, MOPP, que é o curso de transporte de cargas perigosas, Condutor de Emergência e o de transporte coletivo. A partir disso, o seu currículo de motorista estava bem encaminhado. Vinícius Barbosa

Nessa caminhada de idas e vindas em empresas, ela esteve em 86 delas fazendo entrevistas ou deixando currículo até que ela chegou na empresa que lhe deram a oportunidade. A exigência da maioria dos lugares que ela passou era que tivesse experiência. “O Grupo Expresso Forquilhinha me abraçou”, são as palavras de Gabriela. Após isso, ela entrou na escolinha da empresa. Ela começou como manobrista na garagem e ficou por dois anos e meio e ficou por dois meses praticando nas linhas até ser efetivada. Ela, diferentemente de Patricia, dirigiu apenas ônibus profissionalmente. O preconceito, que é algo comum na área, já aconteceu de maneira indireta com Gabriela vindo de passageiros. Frases como “mulher no volante perigo constante” já foram ditas, mas de forma de brincadeira, sendo que no final muitos davam os parabéns a elogiando. Quando estava na autoescola, aprendeu a dirigir o ônibus e, a partir disso, ela estava em busca de uma oportunidade. Nessa oportunidade dada pela empresa, ela pode ajustar e melhorar suas dificuldades através da escolinha e dos cursos feitos. Os passageiros, quando a veem ao volante, se espantam, mas já com um sorriso. “Olha uma mulher e logo em seguida dão os parabéns”. Muitos passageiros relatam que realmente é mais difícil de ver uma condutora mulher. Para ela, hoje, as mulheres estão abrindo um espaço que antes não era visto como uma profissão predominantemente masculina. Na família dela há preconceito, mas de uma maneira sem ofensas. Perguntas como “O que tu quer fazer ali? Tu é a única pessoa diferente da família”. Gabriela conta que já fez vários outros serviços tradicionalmente femininos, mas ser motorista para eles é diferente. A sua mãe já é preocupada: “ela diz que é perigoso e que o trânsito não é muito seguro”. A condutora diz uma frase já tradicional “se a gente está na chuva é para se molhar”. Os afazeres de casa são também rotina da vida dela. Ela tem um filho de três anos que, quando ela está no trabalho, fica na creche durante período integral.. O seu filho sempre a pergunta se ela veio do ônibus quando vai buscá-lo de uniforme. Um ônibus é um local que sempre acontecem várias histórias e algumas são guardadas apenas no seu interior, mas as que mais chamam a sua atenção é que nas linhas

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Vinícius Barbosa

onde ela trabalha, os maiores frequentadores são idosos. “Você tem que tratar bem eles pois é como que você quer ser tratada quando estiver idoso”. Na região sul de Santa Catarina, o número de motoristas mulheres é baixo. Segundo dados dos sindicatos responsáveis na Região Extremo Sul do Estado, são aproximadamente 10 motoristas entre ônibus e caminhões. Já na Região Carbonífera, O presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos Trabalhadores em Transportes Rodoviários, de Cargas e Passageiros de Criciúma (Sintracril, Clésio Fernandes, fala sobre a importância das mulheres na profissão. “Hoje a área com maior equilíbrio de profissionais entra e os sexos no transporte coletivo é na parte de cobradores, onde a maioria são mulheres. A integração delas é muito boa com os homens pois eles já estão acostumados com a presença das mesmas desde que não haviam motoristas mas sim cobradoras”. Clésio afirma que, em Criciúma, são três motoristas mulheres nas empresas de transporte coletivo, duas na empresa Expresso Forquilhinha e uma na empresa Critur, que também tem outras que são motoristas de caminhão. “A integração das motoristas mulheres com os homens também é muito boa, pois e não há problemas de preconceito entre os motoristas”, garante o presidente do sindicato. Há jovens mulheres que também já pensam em seguir essa profissão, que é o caso de Rayssa Fernandes Floriano, de 16 anos, moradora de Tubarão. Ela tem o sonho de ser motorista de caminhão desde pequena. Para ela, as mulheres têm espaço onde elas quiserem. O seu pai foi caminhoneiro durante anos e hoje segue como motorista de ônibus. Desde essa época, ela já acompanhava seu a pai pelas viagens e quer seguir o exemplo e ser uma boa motorista como ele. “Eu sempre sonhei em ser motorista de caminhão”, diz a jovem que não pensa em dirigir

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Gabriela em frente ao ônibus com plotagem comemorativa aos 60 anos da Expresso Coletivo Forquilhinha ônibus. Para Rayssa, a tendência é de crescer cada vez mais a quantidade de mulheres na área. “Se a mulher tem o sonho de ser motorista de caminhão, que ela corra atrás”. Para a jovem, as mulheres não devem seguir o conselho dos outros que a estrada não é para elas. Rayssa também acompanha youtubers que fazem vídeos mostrando a sua rotina como o caso de Sheila Bellaver, que assim como ela gosta desde pequena da área e que por não ter condições financeiras achava que não poderia seguir na área. Hoje é um dos maiores exemplos femininos de sucesso na estrada sendo reconhecida internacionalmente por seu trabalho, ao volante e no Youtube. Mesmo com os desafios, a área vem crescendo muito para as mulheres. O mercado vem dando novas oportunidades para novas motoristas e tende a aumentar o número de mulheres na área e quem sabe até um dia se igualar ao dos homens. Na parte de burocracias e governamental não há dificuldades. Ainda existe uma falta de iniciativa por parte delas talvez por ainda terem medo do preconceito, mas com o passar do tempo isso irá se modificar.

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A cultura da invisibilidade por Beatriz Godoy Taveira “Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado”. Assim a escritora Clarice Lispector, em seu conto “Amor”, define um pouco a trajetória das mulheres, entre visibilidades e invisibilidades que construíram a sua presença na vida social. A invisibilidade talvez seja o grande obstáculo para a história das mulheres na vida pública. Na ciência ou nas artes, muitas mulheres atuaram, mas não viram seus nomes aparecer na História e outras, por não encontrarem a presença feminina destacada, deixaram de perceber em certas carreiras um lugar para si e para outras mulheres. Por construções sociais, elas foram preferidas dentro de casa, desempenhando funções de esposa e mãe. Aos poucos isso tem mudado, com muita luta e determinação, e as mulheres foram construindo outros caminhos, superando obstáculos e conquistando espaços que por muito tempo foram negados. Dentre os vários setores sociais em que a presença da mulher foi obscurecida, há a área cultural, que foi tecida ao longo dos séculos encobrindo os méritos femininos. Este texto vai contar um pouco de invisibilidades históricas no Brasil e das presenças atuais na área da cultura em Tubarão.

Entre as muitas invisibilidades, um dos nomes que exemplificam a exclusão feminina no âmbito cultural é o de Julia Lopes de Almeida, escritora que ainda no século XIX foi a única mulher a contribuir na idealização da Academia Brasileira de Letras, mas que teve seu nome negado a integrar o quadro de fundadores da ABL. Optaram por manter a Academia exclusivamente masculina. Julia foi, se não a primeira, uma das grandes lacunas culturais produzidas pela barreira de gênero no meio literário brasileiro, que só pôde ser considerada preenchida com a eleição de Rachel de Queiroz para ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira na ABL. Isso aconteceu apenas em 1977. Apesar da inserção feminina na área cultural, mais especificamente na literária, ter tido um crescimento gradativo nos últimos anos, ainda é difícil pensar em quantos livros best-sellers são escritos por mulheres. O prêmio Nobel de Literatura, o mais importante prêmio dessa área, possui 114 ganhadores desde a sua criação, e dentre eles, apenas 14 são mulheres. E isso não se deve à falta de escritoras ou à qualidade das obras, mas inclusive pela divulgação e notoriedade que elas têm em relação aos homens. Uma pesquisa feita por Regina Dalcastagné, no livro Literatura brasileira contemporânea — Um

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território contestado, mostra que no Brasil, 72% dos livros publicados são de autores homens.

{ } “Nós estamos evoluindo, eu não diria a passos largos, mas estamos ”

A jornalista e escritora Renata Dal-Bó aposta no que as mulheres já conquistaram e que continuam tendo cada vez mais voz. “Nós estamos evoluindo, eu não diria que a passos largos, mas estamos. No século XIX a mulher só tinha notoriedade social a partir do momento que ela casava, ela saía da mão do pai para ir para a mão do marido, o papel dela na sociedade era estar casada, cuidar do marido, dos filhos e da harmonia do lar. Hoje eu acredito que é tudo isso e muito mais”, afirma Renata. Após ter feito curso técnico em computação, se formado em Jornalismo e lecionado inglês por 15 anos, Renata Dal-Bó se encontrou na escrita aos 40 anos. Inspirada pela cronista Marta Medeiros, a escritora se lançou no mundo das crônicas, que lhe renderam publicações semanais no jornal local Diário do Sul, e dois livros publicados, Histórias, Sonhos e Imaginação e Para ti, além de um enorme destaque na cultura local. Hoje Renata ainda integra a Academia Tubaronense de Letras (ACATUL) e é Presidente Coordenadora da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB) de Santa Catarina. A escritora também desempenha sua função de jornalista apresentando o programa “Batepapo Literário na Unisul TV”, onde apresenta e destaca vários autores e autoras da região, com intuito de divulgar os escritores locais e valorizar mais a cultura da cidade. “A gente acha que tudo que é muito bom está lá fora, mas tem muita gente boa aqui em Tubarão, que escreve bem e escreve sobre a nossa realidade, que é o mais interessante, pois a gente acaba se identificando”, ressalta a jornalista. Para Renata, ser apresentadora de um

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programa literário local e representante de uma entidade que destaca jornalistas e escritoras, é uma oportunidade de tornar visível as mulheres e seus projetos literários, além de fortalecer sua presença na área cultural da região. “Tem muita mulher que escreve bem e isso tem que ser publicado, divulgado. A gente tem que sair dessa invisibilidade para realmente ter nosso espaço e poder mostrar nossa voz”, destaca. As mulheres por trás da cultura tubaronense O Museu Willy Zumblick pode ser considerado atualmente um dos polos culturais de Tubarão. Localizado no centro da cidade, o local carrega grande importância por abrigar uma exposição permanente das obras do artista tubaronense Willy Zumblick. Com 19 anos de existência, o museu teve parte de suas obras restauradas pelo curso de Restauração e Preservação do Patrimônio Cultural da Unisul. Entre os membros da equipe de restauração estava a artista Valdézia Pereira, que considera o trabalho de recuperação um dos mais importantes projetos que já realizou em sua extensa carreira com a arte. Formada em Artes e Direito, Valdézia voltou sua principal atividade profissional à docência. Vinculada à Universidade do Sul de Santa Catarina, aprovou diversas ações culturais como o evento natalino Uniluz, recitais de piano, a produção de quatro documentários artísticos, lançamentos de revistas de arte e grupos de corais universitários. Após 13 anos coordenando projetos culturais na Unisul, hoje, a artista faz curadoria da mostra de artes visuais na exposição “Santa Catarina na ponta do lápis”. Segundo ela, a arte está impregnada na sua vida e sempre procurou se dedicar muito a essa área que considera como um dos pilares fundamentais da cultura. Apesar disso, Valdézia conta que cursou Arte por acaso e acredita ter sido privilegiada pela oportunidade da graduação. “Nos anos de 1970, menos de 1 % da população jovem tinha acesso às universidades. Artes era um curso pouco concorrido e eu já gostava de um pouco de transgressão”, pontua a artista. O museu que contou com o apoio de Valdézia Pereira para ter suas obras restauradas, hoje também é palco para os alunos de teatro da professora Fernanda Neves. A partir de oficinas gratuitas de teatro oferecidas pela


prefeitura de Tubarão, surgiu o grupo “Entre Palcos”, coordenado pela professora e que faz várias apresentações na região. Formada em Teatro e pós-graduada em Arte-Educação, Fernanda transmite seu amor pela atuação em oficinas culturais em Tubarão e no parque ambiental “Encantos do Sul”, e nas aulas de teatro que dá em mais cinco escolas da cidade. Impulsionada pela paixão pela arte e incentivada pela família a escolher um curso que gostasse, a professora de teatro se diz realizada em sua profissão e dirige todos os seus trabalhos com muito amor e dedicação. Para Fernanda, apesar das dificuldades e da desvalorização da arte na região, ela fica feliz em saber que seu trabalho interfere de forma positiva na vida de seus alunos. “Teatro é expressão, criatividade, sensibilidade, trabalho em equipe, percepção, coordenação e cada aluno desenvolve esses fatores em minhas aulas. Além disso, nos tornarmos uma família”, explica a professora. Uma das alunas e participante do grupo “Entre Palcos”, Amanda da Silva Nunes, de 18 anos, conta que foi nas aulas de teatro que encontrou sua vocação e paixão, e que a influência da professora Fernanda Neves foi essencial para sua decisão. “Ela me influenciou por vivenciar um grande sonho que eu tenho. Às vezes pergunto

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Valdézia conta que cursou Arte por acaso e acredita ter sido privilegiada pela oportunidade da graduação. “Nos anos de 1970, menos de 1 % da população jovem tinha acesso às universidades. Artes era um curso pouco concorrido e eu já gostava de um pouco de transgressão”, pontua a artista.

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sobre onde ela estudou, como foi e isso vai me ajudando a buscar cada vez mais a fazer o que gosto”, ressalta a aluna. Dessa forma, percebese a importância da presença feminina na cultura local, pois é através de exemplos e incentivos que se estimula o crescimento do espaço da mulher, abrindo caminhos para talentos e vocações. Invisibilidade significa atributo ou condição do que não apresenta visibilidade, do que não é visível, ou seja, só porque algo não está aparente não significa que não está lá. Assim foi a história de muitas mulheres que tiveram seus feitos encobertos, não só na cultura como em diversas outras áreas. Assim foram construídos séculos de patriarcado que inibiram a voz feminina e tiraram seu direito de espaço, até agora. Felizmente a realidade e as mentalidades vêm mudando, permitindo que uma nova geração de mulheres tenha mais oportunidade de conquistar tudo aquilo que foi negado a suas antecessoras.

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Tenille Carneiro Ammes, 26 anos. Artista tubaronense. PERGUNTA- Qual sua formação e como decidiu trabalhar na área em que está hoje? Tenille - Sou formada em Arquitetura e Urbanismo, mas não exerci durante muito tempo e foi exatamente a frustração com essa área que me lançou no que faço hoje. O desencanto, além de outros fatores, me desanimou demais com a profissão e foi aí que voltei minha atenção aos meus desenhos, como refúgio. Sem pretensão, lancei minha página “Minha Ilustra” no Instagram, afim de divulgar minhas artes. Muito rapidamente começaram a aparecer frequentes e crescentes encomendas. Nesse momento percebi que o que eu gostava de fazer podia ser minha profissão. Hoje minha arte é minha completa fonte de renda, meu trabalho e meu hobbie.

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PERGUNTA- Qual a importância da arte para você e o que procura transmitir com o seu trabalho? Tenille - A importância da arte para mim é total. Faz parte de quem eu sou, em diversos aspectos. Acredito que arte é cura, explana sentimentos, absorve dores, revive memórias, acalma, une pessoas. Traz identificação, refúgio, paz. Arte salva. Foi a partir da primeira encomenda que entreguei, e percebi a reação da pessoa olhando a arte, o olho brilhando, a emoção... que decidi que queria sempre transmitir isso nos outros através do meu trabalho. Procuro tocar. Transmitir sentimento. PERGUNTA- Quais as principais dificuldades que você enfrentou/enfrenta com o seu trabalho? Tenille - Acredito que a maior dificuldade nessa área é o costume da desvalorização. O costume das pessoas de ouvir e dizer que “ninguém valoriza artista”, “arte não dá dinheiro”, “artista não é profissão”. Todo esse discurso induz a massa a concordar e seguir na mesma direção. Arte é profissão sim, e dá muito trabalho, inclusive. Apesar do Brasil ser gigante e ter muito conteúdo artístico em larga escala, infelizmente nosso país não tem a cultura de valorizar a arte. Não crescemos para ter o olhar aguçado para o meio artístico, não temos o costume de frequentar museus e galerias. O governo não dá o devido valor para os espaços e potenciais culturais que o país possui. Prova disso é que não temos mais o Ministério da Cultura e grande parte da população não faz a mínima ideia da real gravidade disso. Falta o olhar e falta sentir. Falta apoio e valorização. PERGUNTA- Você acredita que nesse meio artístico há algum tipo de discriminação de gênero? Tenille - Acho que a discriminação de gênero ainda existe em qualquer meio, infelizmente. Porém, também vejo muita luta e muita gente se mostrando contra todo esse sistema retrógrado. Um fato curioso é que na minha página não tem nenhuma menção do meu nome ou meu rosto, e alguns clientes já vieram fazer encomendas e orçamentos tendo total certeza de que se tratava de um homem. O porquê disso, não faço ideia.

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Luís Henrique Tavares

A arte da perenidade pela palavra por Laura Remesso Sonhar faz parte da infância de qualquer criança, mas se a criança gosta de ler, o sonho é ainda mais colorido. Como disse Mário Quintana, “sonhar é acordar-se para dentro”. E ler é entrar em diversos mundos sem sair do lugar. É viajar em histórias sem fim, como o autor também cita: “o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. É assim que uma pequena sonhadora, desde muito cedo, se sentiu ao ler o primeiro livro de sua vida. Carolina Ávila vivencia o hábito da leitura todos os dias de sua trajetória, “engatando um livro no outro”, como descreve. Hoje, com 15 anos, ela é escritora e conta que sua principal influência para seguir o caminho da literatura veio da sua avó, onde sempre incentivou a menina a ler comprando diversos livros. Ela não só recebeu auxílio, como também auxilia, todos os dias, sua irmã mais nova a seguir trilhando o mesmo caminho que foi ensinado a ela. “Eu motivo a minha irmã e ela me motiva, isso é uma troca de papéis muito importante para mim. É isso que contribui para que eu continue lendo e escrevendo”. Ler e escrever são dificuldades brasileiras há

muito tempo. Segundo a 4ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita em 2016 pelo Instituto Pró-livro, os brasileiros leem 2,43 livros por ano. Pouco, já que a pesquisa considera um “leitor” aquele que lê um livro, no mínimo, a cada três meses. De acordo com os entrevistados, a falta de tempo é o maior problema. Em um cenário mais recente, segundo o Banco Mundial, com os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), de 2018, os brasileiros vão demorar mais de 260 anos para dominar a leitura em um nível mínimo para países desenvolvidos. Todavia, há quem fuja dos números e faça do seu hobby favorito escrever poemas. A leitura não proporcionou só um prazer inenarrável à jovem, ela ainda foi capaz de transformar o sonho em realidade. Em 2016, com 13 anos, Carol publicou um livro com os poemas que escrevia desde os sete anos.“Todos meus escritos nele são parte da minha vivência na época. Por exemplo, tem poemas para objetos e para minha irmã, sabe?”. Quem possui o hábito da leitura sabe que escrever é uma extensão da leitura. É imaginar, a todo instante, algo para rascunhar por aí. É ver

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poemas em cada esquina e ter a capacidade de transformá-las em rimas, porque assim que se produzem as obras-primas. Depois de escrever um livro com poemas, Carol quer partir para as crônicas e, assim, vai experimentando os sabores de cada gênero. Para a adolescente, a escrita “tem a capacidade de me proporcionar sonhos e não desejos. Pois desejos são momentâneos e sonhos são reais, e podem ultrapassar várias badaladas de relógios”. A vontade de escrever e superar barreiras imagináveis faz parte do desafio das mulheres escritoras. O que une a menina Carol e as mulheres que marcaram a história brasileira da literatura é a coragem de acreditar que tudo é possível.

Mulheres, brasileiras e escritoras Maria Firmina dos Reis, maranhense, negra e bastarda. A primeira mulher a escrever um romance no Brasil, em 1859. Úrsula é o título da primeira obra de Maria Firmina e nasceu pra contar a história de uma paixão difícil entre uma jovem cabocla e um homem rico. O ponto principal do livro é é o protagonismo dos personagens negros. Cecília Meirelles, carioca, jornalista e poeta. A mulher que marcou cada página da trajetória da escrita do nosso país, teve suas obras traduzidas e reconhecidas em diversas partes do todo. Sua primeira obra, Espectros, foi publicada em 1919 , quando a autoria tinha 18 anos e nunca mais parou. Cecília continuou publicando livros até seu último ano de vida. Cora Coralina, goiana, poetisa e contista. Não há quem não tenha escutado falar dela no colégio. Autora de versos e contos, é difícil quem consegue acreditar que ela só estudou até a 3ª série do primário. Com a delicadeza emanada em cada sílaba, sua poesia era baseada no cotidiano. A sua primeira obra publicada, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, aos 76 anos.

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Sonho que não tem idade Não há limite para iniciar um novo caminho. Inspirada em Cora Coralina, no auge dos 40 anos Renata Dal-Bó largou o emprego como professora de inglês para ingressar em uma nova jornada como colunista. “Jornalista por descoberta”, como ela mesma diz, também é escritora, mas começou a carreira dessas duas profissões há muito pouco tempo. Há sete anos ela decidiu seguir a carreira em que se formou. Como colunista, cargo que atua até hoje, ela se encontrou no jornalismo: “de lá para cá, minha vida mudou totalmente”. Foi nesse período que ela lançou seu primeiro livro História, sonhos e imaginação, em 2015, e conseguiu enxergar que era esse o caminho. Por um convite, após o lançamento, Renata conseguiu associar a paixão pelo jornalismo e também com a sua paixão mais secreta, a literatura. Assim, virou apresentadora do Bate-Papo Literário, um programa que apresenta há três anos na UnisulTv. Para Ti foi seu segundo e mais recente livro publicado. “Esse é o meu xodó”, descreveu com um sorriso no rosto ao contar sobre a obra. Em homenagem a sua filha mais nova, a escritora conta histórias divertidas sobre a pequena nas viagens em família. Três anos e toda sua vida “virou de cabeça pra baixo”, entrou na Academia Tubaronense de Letras - ACATUL e ficou perplexa com tamanho talento que o nosso município tem para escrever. “Conheci tanta gente desse mundo e percebi como a nossa região é rica de cultura e literatura, sabe? Como nós temos bons escritores aqui, mas que são muito pouco divulgados e o pior, muito pouco valorizados. As pessoas acham que só é bom quem é de fora, né? Mas tem muita gente boa aqui na cidade que escreve sobre a nossa realidade, isso que o torna mais rico”, pontuou. A falta da cultura da literatura provoca um vasto buraco não só na cidade, como também em toda a sociedade. A jornalista se arrisca dizer que esse atraso vem dos hábitos e proibições sociais. “Por exemplo, a mulher era proibida de ler. Escrever, então, nem se fala, tem muita gente que escreve bem. E isso tem que ser publicado, tem que ser divulgado. A gente tem que sair dessa invisibilidade para poder ser vista, para ter espaço e mostrar a nossa voz”. Com a vontade de transformar o


cenário literário da cidade, principalmente o feminino, Renata aceitou o convite para fundar há quase um ano, a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB, da qual é presidente da coordenadoria do estado de Santa Catarina.

Luís Henrique Tavares

Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil Nascida em 1970 na intenção de valorizar as mulheres escritoras, a associação é uma instituição nacional, que atualmente conta com 17 coordenadorias no país, somando cerca de 350 ajebianas nacionais, segundo a coordenadora. O objetivo principal é instigar a união feminina em um ponto, a literatura. Em Tubarão, existe desde 4 dezembro de 2018 e coordena todo o estado. No início, era formada por oito ajebianas. Hoje, o grupo já conta com 38 em Santa Catarina. “A AJEB é, não só pra mim, como para todas as jornalistas e escritoras, uma maneira da gente sair da invisibilidade. Uma maneira de conseguir mostrar os trabalhos literários, uma maneira da gente conseguir fazer um intercâmbio de ideias e também de se sentir mais forte”. “É como uma escola da vida”, definiu Carol. A jovem, que recebeu um convite de Renata no fim ano passado, também é uma associada e frequentadora da AJEB. Questionada sobre como é fazer parte desse núcleo literário feminino, ela não mediu as palavras para descrever como é a experiência e o quanto é auxiliada. “Elas me proporcionam um aprendizado incrível, sempre me incentivam a percorrer mais que caminhos, a percorrer trajetórias enormes”. Um dos pontos discutidos pelas integrantes nas reuniões mensais é do próprio espaço que elas possuem. Renata lembra que a dificuldade de publicar um livro é mútua para ambos os gêneros, só que as chances são diferentes. “Para vocês terem ideia, o Prêmio Nobel de Literatura tem 114 anos, ou seja, 114 pessoas já ganharam; Você tem ideia de quantas eram mulheres? 14. E será que é por que elas não produzem? Elas não escrevem? Elas são menos inteligentes? Não. É porque elas não têm espaço para divulgar as suas publicações, os seus textos e seus poemas”. Escrever nos dias atuais é um desafio. Renata aponta que é um dos pontos mais complicados pela quantidade de concorrentes que um livro tem nos dias atuais. “Temos tudo na palma das

“A AJEB é, não só pra mim, como para todas as jornalistas e escritoras, uma maneira da gente sair da invisibilidade. Uma maneira de conseguir mostrar os trabalhos literários, uma maneira da gente conseguir fazer um intercâmbio de ideias e também de se sentir mais forte” mãos, como internet e biblioteca virtual. Podemos acessar do lugar que quisermos, só que a gente não está lendo coisa de qualidade”. Resgatar esse processo é algo que deve se iniciar desde a infância, se tornando parte da rotina, como é o caso da Carol, que passa todo seu tempo livre exercitando a leitura. “Ela faz parte da rotina, em qualquer tempinho. Sem leitura não somos nada, sabe? Mesmo eu não me conhecendo profundamente ainda por ser nova, a escrita faz com que eu comece a me conhecer cada vez mais”. E é isso. Ler é mais do que conhecer histórias. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Emory, nos Estados Unidos, ler é uma ação que desperta diversas áreas do cérebro, enriquece o vocabulário, incentiva a criatividade e exercita os neurônios. A leitura faz bem para o organismo humano e deveria ser mais estimulada. Enquanto isso ainda não faz parte da rotina dos brasileiros, Carol e Renata encorajam quem não pensa em desistir desse caminho, mesmo querendo seguir outros sonhos. Carol se imagina daqui pra frente cursando medicina. “Vou ser médica, pois me encanto cada dia mais

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com a área, mas a leitura e escrita vão fazer parte do meu dia a dia. Pretendo continuar escrevendo todos os dias, porque isso me faz bem”. Renata ainda pretende escrever mais. Ler mais. Contar mais e mais histórias de pessoas incríveis nesse mundo. “Sonhar nunca é demais. Nós sabemos da dificuldade de publicar um livro hoje em dia. Sobreviver da escrita é difícil, mas escrever nos modifica internamente. E parar de escrever não está no meu vocabulário”. Por serem mulheres, nós sabemos que há força de vontade e coragem sem igual. E que sempre nos dá uma pontinha de orgulho, já que elas inspiram, e ainda vão inspirar, muitas outras com suas histórias. “Eu não quero ser igual ao homem. Porque a igualdade de gênero é isso: é você ter o mesmo espaço. De fato, ainda há muita diferença. Estamos caminhando a passos não tão largos, mas estamos indo para frente e caminhando por um lugar bonito”.

{ } “Parar de escrever não está no meu vocabulário”

Arquivo pessoal

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AlĂ­cia Marques

Mulheres encontram a autoestima na maturidade por Ana LuĂ­za Cardoso 55


No auge dos 60 anos, Daura Maria Cascaes se casou. O casamento fez Daura se mudar de Laguna para Imbituba, num projeto novo que poderia se esperar que preenchesse os seus dias. Apesar disso, continuava sentindo a solidão que só se sente quando os filhos saem de casa ou quando a gente não sabe todo o potencial que tem. Seus dias, ela conta, eram facilmente tomados pela tristeza e pela autoestima baixa. As duas coisas somadas refletiram no modo como ela se apresentava para o mundo. Mas Daura não ficou sentada esperando a tristeza tomar conta nem o casamento resolver tudo. Ela buscou um novo caminho. A aposentada já conhecia Isabel Lameira há algum tempo, quando percebeu que precisava recorrer à amiga e consultora de estilo para ajustar alguns pontos da própria vida. Segundo ela, parecia apenas uma procura por respostas simples. Mas era mais do que isso.

“Na verdade, foi para resgatar minha autoestima. Porque o tempo vai passando e a gente não quer aceitar. A gente fica sem família por perto, sem os filhos, e vai se colocando de lado”, confessou ela.

Ana Luíza Cardoso

Isabel, por outro lado, já compreendeu que Daura não é a única. Durante o período de formação, as amigas da mãe foram suas primeiras clientes e chamaram a atenção dela para uma realidade: a autoestima das mulheres acima dos 50 anos não é levada a sério. “Já passou muita gente por mim e eu pude perceber a repressão. Elas são muito reprimidas. Com sentimentos guardados. Não que elas sejam assim, mas foram condicionadas de tanto ouvirem ‘não pode fazer isso, não pode fazer aquilo’. As estimativas das projeções populacionais do IBGE para 2060, por exemplo, preveem um contingente de 40,6 milhões de mulheres idosas no país - 7,6 milhões a mais que homens idosos. Enquanto isso, uma pesquisa voltada para a mulher diante do envelhecimento, realizada pelo Instituto FSB Pesquisa, apontou que a sociedade ainda impõe fortes limitações para esse público. Das mil mulheres, de 45 a 65 anos, ouvidas durante o levantamento, 72,4% afirmaram que se sentem impactadas em aspectos como beleza, carreira e comportamento. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 60 anos chegará a 2 bilhões de pessoas até 2050. Isso representará um quinto da população mundial. Os dados, somados, alarmam para um só cenário: uma sociedade mais velha que, no entanto, preserva poucos traços de amor-próprio. O Paraíso das Damas Há nove anos, a designer de moda – e internacionalista pela Universidade do Sul de Santa Catarina –, constatou que não havia na região um nicho de mercado que atendesse esse público. Com o propósito de mudar o cenário que investigou, a lagunense realizou pesquisas e explorou as possibilidades de implantar o serviço na região. Além disso, buscou inspirações e introduziu nos atendimentos, aspectos que gostava, como a psicologia, a dança e a sustentabilidade. O Paraíso das Damas, portanto, nasceu com a ânsia de promover nessas mulheres a redescoberta de si. “Eu tento conhecer a mulher. Gosto de saber o estilo dela, o que ela faz e, principalmente, o que a fez ficar tão reprimida. Tudo isso para entender a razão da autoestima dela estar tão baixa, porque só assim posso atuar na introdução do autoconhecimento

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nela”. A psicóloga clínica e organizacional, Karine Kjellin, afirma que esse é realmente um passo importante no processo de cuidado com a autoestima. “Entender o comportamento delas é fundamental para ir ao encontro da essência que já é delas. Sempre que a pessoa respeita a sua essência – sem se importar com padrões, ela se sente mais confortável e feliz”. O projeto surgiu de modo despretensioso, segundo Isabel. Durante suas pesquisas, ela pediu espaço para falar sobre o assunto em um site e, por algum tempo, escreveu sobre moda na terceira idade - expressão que era usada como tema da coluna. No entanto, algum tempo depois, a responsável pela página da internet observou que a consultora precisava modificar o nome, porque as leitoras não pareciam se identificar com a expressão “terceira idade”. Foi nesse momento que nasceu o projeto “Paraíso das Damas”, que recebeu esse nome após Isabel ler o livro de Émile Zola, que carregava essa expressão como título.

{

“Eu enxerguei o ‘paraíso’ como esse universo de moda, beleza e comportamento e vi no ‘damas’ toda mulher acima dos 50 anos que se redescobre e segue carregando suas experiências da melhor forma”, explica ela.

}

Depois da colaboração como colunista, a lagunense resolveu experimentar novos ares. Introduziu na região o nicho de consultoria para pessoas de 50 anos ou mais e, desta forma, se empenha em unir seus interesses para causar um impacto positivo. Consequentemente, o mesmo que ela recebe. “Com esse trabalho, que mal pode ser chamado assim, porque eu amo o que faço, eu consegui me enxergar, me valorizar e ver a roupa de uma forma diferente também”, confessa. Em um primeiro momento, as mulheres entram em contato com Isabel e, a partir daí, conversas norteiam o atendimento. Nesses encontros, a consultora extrai das clientes seus próprios gostos, além de detalhes pessoais como a rotina. Os guarda-roupas se abrem para Isabel, que analisa a singularidade de cada um deles

e busca, dessa forma, despertar a essência que já existe nas mulheres que atende. Ao final da consultoria, que passa por diálogos, trocas de experiências e de roupas, a cliente recebe um dossiê de estilo personalizado. Daura, quando recebeu o seu, diz ter ficado muito satisfeita. “Para mim foi e está sendo muito bom. Quando a gente vai amadurecendo, vai sentindo falta dessas orientações. Ter algo assim me ajuda a entender as tendências, a reutilizar o que eu já tenho. Ela já me deu várias alternativas e eu tô me animando mais para pôr em prática”. Uniexperiência Além das consultorias individuais, para empresas e marcas e das palestras, Isabel se pôs a frente de outro projeto. Como integrante do quadro de professores da Universidade do Sul de Santa Catarina, empreendeu suas ideias em um projeto inovador intitulado Universidade da Experiência, implantado no polo de Braço do Norte. O Uniexperiência, como é conhecido, é um programa de extensão que tem como objetivo disseminar, implementar e coordenar as políticas relativas à terceira idade por meio de ações teóricas, científicas e práticas. Entre as ações do programa, o acesso a cursos é um dos principais diferenciais da proposta. Para os alunos, que precisam ter no mínimo 50 anos, são ofertadas aulas de artes, humanidades, qualidade de vida, saúde, turismo, lazer, entre outros. Além disso, a moda também se destaca. Isabel, por sua vez, é quem ministra as aulas de Moda, Dança Terapia e Bem Estar para os alunos - tanto homens quanto mulheres. A proposta é a mesma: fazer com que entendam as possibilidades que eles têm, independente da idade que já alcançaram. “Eu me esforço para fazer com que eles se enxerguem diferente, principalmente para não ficar à mercê dos outros. O autoconhecimento é importante ao extremo diante disso”. A consultoria, neste caso, finaliza junto ao curso, com um evento onde os aprendizes aplicam o que aprenderam. Segundo ela, a experiência é única, porque ela percebe o quanto esse público é colocado em moldes restritivos. “Eles são interessados, mas eu sinto a dificuldade deles. Vez ou outra um aparece dizendo que não pode colocar em prática o que ensinei porque vão surgir comentários. Eles não se sentem

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Alícia Marques

Alunas do Uniexperiência durante ensaio fotográfico

livres dos padrões impostos, assim como nós”. Em uma das suas consultorias, onde Isabel dava orientações de como reaproveitar itens que seus alunos já tinham ou que nunca foram estimulados a usar, ela indicou o uso do cachecol. De acordo com ela, um dos alunos colocou o ensinamento em prática e usou a peça em um evento da região. “Quando ele chegou lá, todo bobo, se sentindo poderoso, um colega imediatamente perguntou se ele estava com caxumba e ele ficou bem ‘sem graça’. Isso tudo, porque para eles não é comum o uso de peças que fogem do tradicional”. O futuro O propósito de Isabel, tanto no Uniexperiência quanto no Paraíso das Damas, pode trazer inúmeros resultados positivos, como salienta Karine. “Um atendimento como esse respeitará a essência de cada mulher e proporcionará resultados que farão sentido a elas. Vemos muitas mulheres seguindo uma tendência de moda que não combina com o seu estilo, com o seu corpo, e muitas vezes nem com o seu bolso”. Na visão da profissional de psicologia, incluir

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atividades que vão além da consultoria de moda é um diferencial importante, porque elas trabalham outros aspectos relevantes na vida da mulher. “A dança eleva a autoestima porque libera neurotransmissores ligados a felicidade e bem-estar. A sustentabilidade é importante por si mesma, mas muito mais produtiva se essas próprias mulheres puderem, inclusive, customizar suas peças, desenvolvendo habilidades em si e percebendo sua capacidade de agir. Infelizmente, muitas mulheres na terceira idade já não se veem capazes de aprender mais nada, ou de fazer algo diferente”, salienta. Para a idealizadora do projeto, o desejo é de que ele cresça e multiplique aprendizados. “Eu espero que o Paraíso das Damas seja referência e deixe um legado, porque o verdadeiro propósito do projeto é fazer com que as pessoas se enxerguem e passem esses conhecimentos adiante”, finaliza Isabel.

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Arquivo pessoal Créditos> Luís Felipe Tavares

por Luiza Hennemann

Irmãs Alice e Aline em: O universo dos negócios

O empreendedorismo feminino é um assunto que está crescendo cada vez mais. Para cuidar de seus negócios, muitas vezes as mulheres acabam tendo que enfrentar algumas desigualdades e diferenças, contudo mostram que são realmente capazes de trabalhar duro, na presença de adversidades e garantir novos horizontes. Essa performance faz com que as mulheres garantam mais espaço no cargo de liderança. A vinda de mulheres no meio de liderança, fez destacar o desenvolvimento de habilidades importantes para a administração de empresas, como: intuição, empatia, colaboração, sensibilidade e inteligência emocional. Estas, são características dos líderes do futuro, que planejam engajar e motivar as pessoas. Segundo o governo federal, três em cada quatro famílias são administrados por uma mulher, sendo que 41% são donas do seu próprio negócio. E realmente, não é pouca coisa. O empreendedorismo feminino conquistou atenção pela forma de liderança das mulheres, aumentando a sua visibilidade e espaço. Dessa forma, rompendo paradigmas. E para as mulheres que querem empreender, não é nada diferente. Elas irão enfrentar os mesmos obstáculos para empreender. Uma pesquisa feita pelo Sebrae, revela que as mulheres representam 44% dos empreendedores firmados. Este é um número muito significativo, mostrando que as mulheres chegaram para ficar e comandar negócios com muito sucesso também. Foi o que aconteceu com as irmãs Alice Coelho de Souza e Aline coelho de Souza, que sempre foram apaixonadas pelo mundo feminino. Ainda na adolescência desenvolveram

vários trabalhos manuais, e foram em busca de especializações na área de design de produto. Aline é formada em Design industrial, e Alice é farmacêutica, e em 2007 resolveram investir naquilo que tanto amam: fazer bijuterias. E foi aí, que nasceu a Maria Cereja. Uma marca movimentada por moda, amor e inspirada por mulheres. A ação de empreender, por si só, já é um enorme desafio. E dar início a um empreendimento, percorrendo todas as etapas do seu negócio e permanecer no mercado, é um processo árduo e desafiador. Esses aspectos pedem mais habilidade e proatividade do empreendedor. Para as empreendedoras Alice e Aline, não foi diferente. A marca Maria Cereja, é construção de 12 anos de estrada, e nos primeiros cinco anos de empresa, as irmãs tiveram bastante dificuldade, e com o tempo foram aprendendo a lidar com o mundo dos negócios. Elas iniciaram com representação em Santa Catarina, e em seguida começaram a participar de feiras, como a Bijoias, que é a maior da América latina no segmento de bijuterias, e o Minas Trend, que é a segunda semana de moda mais importante do país. E foi com a ajuda de eventos como estes e da internet, que lhes garantiu milhares de seguidores nas redes sociais, fazendo assim, com que a marca aumentasse seus horizontes, e garantindo-lhes reconhecimento nacional. Alice relatou diversos momentos difíceis, até buscarem ajuda e estruturarem a empresa. Contudo, criatividade, escolha de material e desenvolvimento de coleção, nunca foi problema para as irmãs, mas a administração foi o desafio. “A nossa maior dificuldade no começo, foi ser administradoras, pois nunca fizemos gestão

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Arquivo pessoal

financeira, então com isso, nós tivemos que nos desenvolver. Desde o início da marca, quando não havíamos recursos, nós procuramos todas as consultorias e auxílios”, revela Alice Coelho. Empreender é bem mais que abrir o seu negócio e desenvolver um bom planejamento. É observar o seu redor e descobrir uma chance de inovar em seu mercado e conhecer novas formas de empreendimento e lucro. Para que isso aconteça, não deverá faltar criatividade, disciplina e muita pesquisa. Mas as dificuldades enfrentadas, não serão maiores que o sucesso e as novas possibilidades de inovar cada vez mais. E é seguindo esses caminhos que Alice e Aline, vem garantindo muitas conquistas. “Nós focamos muito em inovação, eu e a minha irmã somos muito incansáveis em estar revendo processo, tentando inovar eles, achamos que podemos estar sempre melhorando. Este ano, estamos trazendo o marketing aqui pra dentro da marca e inovando a cada dia, e sabemos que tem ajustes, somos extremamente flexíveis, buscamos muito curso, informações e um olhar de fora. Continuamos com consultoria, treinando equipe, e eu acho que isso é parte essencial pra gente como gestora. A mudança é muito constante aqui dentro da empresa”. Para brindar no universo dos negócios e vivenciar uma vida feliz e realizada profissionalmente será necessário ter muita garra e determinação. Contudo, é ilusão achar que cumprirá suas metas e planos em um curto período. Quando dizemos em concluir metas, falamos de um planejamento bem elaborado, com longo prazo. Porém, no percorrer este caminho você perceba que o que seria importante, simplesmente não é mais, ou até mesmo as circunstâncias podem mudar, e você deverá reconsiderar seus planos. O que será preciso ter, são planos que condizem com a sua realidade, que possa ser modernizado

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e não aquela forma inflexível. Ou seja, adequar o planejamento à realidade, e não o oposto. E isso não é problema para essas irmãs que buscam cada dia mais alcançar o sucesso pessoal e profissional, com muita determinação. “Não acho que alcançamos todos os nossos objetivos, e acho que nunca vamos ter esse sentimento de ter chegado na zona de conforto, porque não é o nosso perfil como empreendedora, nós temos sim muitos planos, e para 2020 a gente quer fazer o nosso e-commerce bombar, é o nosso grande projeto deste ano. Temos projeto de internacionalização, ou seja, queremos exportar para clientes de fora, nós temos clientes fixos na Colômbia e Dubai. Nós temos esses clientes, mas atendemos em feiras, a gente ainda não exportou, então isso é um projeto pra logo, e mais a parte de marketing digital que a gente continua muito ativa”. Embora exista muitas melhorias com relação à conquista das mulheres no meio empreendedor, ainda assim, existe muitas dificuldades que atrapalham o empreendedorismo feminino. O principal é o preconceito. Neste contexto, é importante que as empreendedoras tenham conhecimento desses problemas e atuem de maneira a superá-los, de forma igualitária, em relação aos homens, e assumindo um papel de liderança. Com o tempo, essas situações foram se transformando e a mulher conseguiu garantir o seu lugar. A mulher estudou, trabalhou e alcançou ocupação de liderança e hoje, ela é dona de empresa. Felizmente, este preconceito e discriminação, que muitas mulheres sofrem e sofreram, para fazer parte do meio empresarial, não aconteceu com Alice e Aline. ‘’ Isso não nos atrapalhou de nenhuma forma. Tanto eu quanto a minha irmã, nunca achamos que ser mulher pudesse ser motivo de nos atrapalhar, ou fazer a gente parar em algum obstáculo. Nós começamos muito novas, com 18 anos, então as pessoas não davam muita credibilidade pra gente, mas eu não acho que pelo fato de ser mulher, mas sim por ter começado muito cedo’’, revela Alice. A marca Maria Cereja, deixa um recado para a mulher que quer empreender. ‘’Para quem quer empreender, se prepara, vai ter muito desafio, muita mão na massa. É muito bom viver do que você ama, com o teu sonho. Somos muito apaixonadas pelo que nós fazemos. Então o primeiro de tudo é descobrir o que você ama, e assim enfrentar os desafios, mas que vai valer a pena’’. Hoje, a marca Maria Cereja está exposta em grandes feiras de moda do setor, e isso resultou em algo fantástico, a marca pode ser encontrada em todo o país, nas melhores multimarcas. Para ter acesso a mais conteúdos sobre o assunto, posicione a câmera do seu celular sobre o QR Code.


Arquivo pessoal

por Maria Júlia Machado

Representatividade feminina no empreendedorismo

A representatividade feminina no empreendedorismo garante e inspira outras mulheres a entrar nesse mercado. A discriminação enfrentada pelas mulheres é colocada de lado em empresas que utilizam equipes femininas para comandar e auxiliar no ambiente de trabalho. A ideia de ter uma empresa formada por mulheres pode partir das dificuldades e desafios enfrentados por elas. O motivo que levou empresas a tomar essa iniciativa foi pela importância da presença feminina no mercado empresarial. Há 12 anos, uma marca de roupas, que hoje fica localizada em Santa Catarina, surgia da ideia de mãe e filha. A Rock It é uma loja de fabricação própria com parceiras da região sul. O setor de empreendedorismo mostra o potencial profissional e econômico que as mulheres empreendedoras podem atingir. Na produtividade elas têm protagonismo. Através de suas empresas, enfrentam desafios, mas conseguem tirar disso oportunidades. Ter persistência é uma forma de se inserir no empreendedorismo. De acordo com os dados da pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor, conduzido pelo Sebrae no ano de 2017, mais de 24 milhões de mulheres são empreendedoras no Brasil. Os dados mostram que subiu o percentual de mulheres que são donas das próprias empresas. Por esse motivo as mulheres estão ganhando protagonismo nessa área.

As mulheres estão ganhando protagonismo nessa área Magliane Braga e Natali Araujo são mãe e filha que em 2007 formaram uma sociedade. Tudo começou em Porto Alegre, cidade natal de Meg. Em alguns anos a mãe se mudou para Laguna e, em 2017, abriu a primeira loja física. No ano seguinte, abriu a segunda loja física, na cidade de Tubarão. A empresária conta que desde quando iniciou têm sido as duas a comandar a marca. “Até agora tem sido eu e minha sócia, que é minha filha”, explica Meg. Hoje, existem segmentos variados de produtos, principalmente confeccionados por mulheres. Na loja, a maioria da produção da costura e de acessórios é feita por elas. Desde o atendimento até o fornecimento das peças é feito por uma equipe feminina também.“Nossos parceiros são praticamente todas mulheres, mas ainda temos um fornecedor de peças folheadas que também emprega homens. Ele mesmo diz que cada mulher que ele emprega trabalha por 3 homens, no sentido de produzir as peças com capricho”, explica. Para Magliane, ocorre uma identificação do público, principalmente feminino, com a loja.“Desde sempre somos uma loja que fugiu do comum e, quando falamos em empoderamento, o nosso público está junto. Rola muita troca, amizade mesmo. As mulheres veem um pouco da nossa batalha do dia a dia”.

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Crescimento de mulheres empreendedoras O mercado do empreendedorismo para mulheres tem crescido muito, e Magliane percebeu esse progresso. “Percebo que mudou bastante, vejo mudança em tudo, acho que abriu possibilidades no mercado que não imaginamos e dou preferência sempre em achar marcas e fornecedores que sejam mulheres, mães que estejam se posicionando por uma causa social e política”, acrescenta. Todo empreendedor enfrenta dificuldades em administrar, sendo uma empresa grande ou pequena. Aquela insegurança com estabilidade econômica ou de investir em algo que não vai acrescentar em nada.“Dificuldade todo pequeno empreendedor e fornecedor com qualidade tem, os prazos para cumprir, os roubos de criações e fotos são chatos e acontecem muito, principalmente por marcas mais conhecidas”, finaliza.

Não ter reconhecimento e apoio gera a desigualdade que é vista pela sociedade. Mulheres que possuem diferentes funções dentro da empresa, que lideram ou que trabalham para outras mulheres, podem servir de inspiração e fortalecem o espaço conquistado dando relevância para essa questão. A competitividade nesse meio, também entre mulheres, é uma das principais causas de não alcançar reconhecimento quando alguma mulher abre seu próprio negócio. A disputa ocorre porque muitas mulheres não se apoiam em qualquer causa. Falar sobre empoderamento e posicionamento das mulheres dentro do mercado de empreendedorismo traz diversas discussões. Promover e impor a sua voz e opinião dentro da empresa reflete a capacidade que essas mulheres têm em atingir o sucesso com facilidade.

As mulheres buscam empreender para possuir independência, e para isso, buscam entender os processos de abrir um negócio. Apoiar e incentivar mulheres que iniciam no mercado do empreendedorismo é necessário. Incluílas nesse cenário é importante para avançar. Como se beneficiar e trazer mais mulheres para o cargo de empresária? O empreendedorismo feminino está crescendo no Brasil, principalmente em empresas pequenas no ramo da moda. Mais de 7 milhões de mulheres iniciaram um novo negócio. Ainda, segundo pesquisa do Sebrae, as mulheres tendem a construir empresas mais sólidas e lucrativas, pois investem em capacitação e têm mais acesso à informação. O Brasil lidera quando o assunto é mulheres em cargos altos dentro da empresa. Uma pesquisa feita pela International Business Report (IBR) mostra que 29% das empresas brasileiras são lideradas por mulheres. Esse número ainda é pequeno já que muitas mulheres são menos valorizadas mesmo obtendo a mesma qualificação que os homens. Dar oportunidades e salários compatíveis ao cargo pode trazer benefícios para a empresa.

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Vitrine da loja em Tubarão, Santa Catarina

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A transição capilar como um ato de liberdade e aceitação por Emanuella Alves O que uma mudança no cabelo pode significar para a identidade de uma mulher? No caso das mulheres negras, um processo capilar tem contribuído para construir uma nova imagem e conquistado muitas pessoas no auxílio de enxergar quem elas realmente podem. Ser quem são, mulheres negras. A transição capilar é o período em que a pessoa de cabelo cacheado não aplica mais nenhum tipo de processo químico nos cabelos e eles crescem até retomar a sua forma original. A transição não se resume em cabelos, mas sim, em autodescobrimento e na positivação de uma imagem. Não é mais ruim ter cabelo cacheado. É bonito. É a aceitação de características do corpo que são de fato marcas de identidade étnica. Do preconceito à beleza, a transição capilar é parte da construção de muitas mulheres negras hoje. E de homens também. Segundo a pesquisadora Yaba Blay, “entre as mulheres, a questão racial associada à beleza é mais evidente. O padrão feminino de beleza é branco, mas o masculino, de força e virilidade, é negro. Alisar os cabelos ou branquear a pele são efeitos desse contexto, segundo a pesquisadora”. Blay é autora do livro One Drop: Shifting the Lens on Race (Uma Gota: Ajustando as Lentes sobre a Raça) onde ela fala sobre questões estéticas e culturais. Deise Nunes foi a primeira Miss Brasil negra, eleita em 1986, e acredita que sua vitória no concurso foi algo muito valioso para todos os negros. “O sentimento de saber o quão importante este título foi para o meu povo, para a minha raça tão sofrida e injustiçada por anos. Uma das minhas missões neste plano”, contou Deise. “Em 2016, quando completava 30 anos de reinado, Raissa Santana foi eleita Miss Brasil. No ano seguinte, em 2017, Monalisa foi escolhida como Miss Brasil”. Raissa e Monalisa são também jovens negras que venceram o concurso recentemente. Sobre o preconceito sofrido na sua trajetória, ela considera que foi um combustível para continuar perseguindo seus objetivos. “Como

Emanuella Alves

todo negro neste país, sofri discriminação racial, é difícil escrever o que senti naquele momento. Serviu para eu não desistir de lutar pelos meus objetivos e muito menos me envergonhar de ser negra”. Deise conta que utilizava produtos para alisamento e que passou pela transição. “Nunca tive problemas com os meus cabelos. Se bem que usava, na época, cabelo preso. Já usei produtos para alisar o cabelo e me arrependo, mas era o que se fazia naquele tempo. O padrão de beleza caucasiano também causou um atraso no mundo da moda, onde somente nos anos de 1960 modelos negras começaram a aparecer nas primeiras revistas de moda mais tradicionais e populares. A modelo nova-iorquina Beverly Johnson entrou para a história por ser a primeira negra a ser capa da revista Vogue americana, na edição de agosto, no ano de 1974, nos Estados Unidos. A transição capilar é um desafio também para

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{ } Box braids: são tranças feitas

a partir de cabelo sintético, que pode dar mais volume ou tamanho aos cabelos, auxiliando inclusive no processo de crescimento, pois o cabelo cresce sem aplicação de produtos agressivos justamente por ter a trança como suporte nesse processo. As tranças podem ser feitas em diversos materiais, o que pode conferir diferentes efeitos, inclusive diferentes cores.

as mulheres que decidem sair do liso para o crespo ou cacheado. Leva um tempo para que os fios fiquem uniformes e, muitas vezes, é preciso cortar a parte lisa em algum momento para deixar o cabelo crescer. “A transição capilar foi sofrida, pois o cabelo crescia e as pontas ainda eram lisas”, explicou Deise. Por muitos anos, Mariéli Pereira, 19 anos, fazia relaxamento nos fios para que eles ficassem semelhantes aos cabelos de suas amigas, que eram lisos. “Eu sempre tive dificuldade em aceitar minha cor e meu cabelo, porque eu sofria muito bullying na escola. Eu sempre tive amigas brancas que tinham cabelos lisos, e então, comecei a alisar o meu também”, afirmou.

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A decisão de começar a transição capilar foi tomada para conseguir trazer a saúde necessária para os fios e a sensação de liberdade dos processos químicos. “Por volta dos 15 anos eu comecei a pensar que eu tinha que parar com isso, então comecei a usar box braids, porque era um meio que eu sabia que iria fazer manutenções e não iria precisar colocar mais químicas no meu cabelo e era uma maneira de fazer ele se reconstruir”, complementou ela. Luciane Pereira, vice-presidente da Associação Remanescente do Quilombo Aldeia, uma comunidade quilombola localizada na divisa de Garopaba e Imbituba, também já passou pelo processo de transição. Ela fazia relaxamento nos cabelos desde os oito anos de idade, o que deixou de fazer apenas ao chegar na vida adulta. Quando começou a sua transição, conta que iniciou a mudança primeiro através de box braids e depois fez o big chop. “Eu comecei a usar primeiro as tranças e depois me senti pronta para usar meu cabelo curto, comecei a cortar, deixei bem curtinho, só não raspei”. E depois deixou crescer crespo. Voltar a usar os cabelos naturais foi mais do que uma decisão estética para Luciane. “Eu diria que é um resgate de identidade. Não está ligado a estética, está ligado ao conhecimento sobre mim, sobre a minha história”, afirmou. Antes ela não via os cabelos crespos como algo bonito nem positivo porque quase ninguém dizia que eles eram. “A gente achava que o nosso cabelo era ruim e tinha que domar o cabelo, que tinha que dar um jeito de se sentir aceitável”. Também


não se tinha referências para que se identificasse na infância nem ao redor. Ela não via bonecas negras e não via negras nas revistas, então era o que você via como belo”. Passar por esse processo não é algo fácil psicologicamente, pois tem uma carga de diversos motivos que a fizeram tomar esta atitude. “No ano de 2017, dois anos depois da

O big chop é o corte que retira todas as partes lisas e quimicamente tratadas para dar vez aos cachos. O corte geralmente é feito após um período de espera de um crescimento considerável dos fios, e, enfim, os resquícios lisos são retirados. Outra opção que pode ser adotada por quem quer valorizar os cachos é o tapered hair, em que as laterais dos cabelos são cortadas ou raspadas, para dar mais volume a parte central da cabeça. Dando destaque ao modo natural dos cabelos crespos e cacheados, que já são naturalmente volumosos. minha decisão, eu resolvi tirar as tranças e foi muito difícil me assumir, me aceitar e aceitar o meu cabelo. Foi um momento muito difícil, muito marcante na minha vida, foi maravilhoso”, contou Mariéli sobre o seu big chop. Mariéli acredita que as suas atitudes diante dos seus cachos têm a ver com o racismo que sofreu. “Eu acredito que o racismo tem muito a ver com os processos que eu realizava no meu cabelo, na intenção de me encaixar melhor. Mas todas as pessoas, sofrem um preconceito, mas nós não podemos deixar que as pessoas nos digam quem nós somos ou o que devemos fazer”. Hoje, Mariéli assumiu os cachos e é só elogios aos cabelos. “Hoje o meu cabelo é bem crespo, um black lindo, eu amo meu cabelo, amo a minha cor, sou muito feliz e vou defender isso sempre”. O racismo citado por Mariéli tem razões atuais e históricas. De 500 anos de história do Brasil, foram mais de 300 anos de escravidão. Em entrevista à BBC, Maria Helena Machado, especialista em escravidão da Universidade de São Paulo observa que: “aqueles que vencem a batalha é que fazem a narrativa. Nós historiadores temos que reconstituir o processo da batalha para recuperar as vozes daqueles que não foram ouvidos”. O Brasil foi o último país da América Latina a extinguir a escravidão e alcançou dimensões exorbitantes em números de escravizados em relação aos outros países. Quando alisar os cabelos já era algo mais que

costumeiro para Luciane, ela começou a pensar que não fazia aquilo por considerar o melhor para si, “eu me olhava no espelho e não conseguia me enxergar de fato”. E então, percebeu que poderia usar do jeito que ele realmente era, “eu descobri que o nosso cabelo era lindo, quando a gente conhece a nossa história, a identidade se fortalece, então você se vê de um jeito diferente. A questão da identidade é que você se vê como você é, não como você quer ser. Muitas mulheres não conseguem se desvencilhar da química, porque acham que vão ser mais aceitas parecendo com outras mulheres”. No contexto ficcional, em 2018, foi lançado o filme Felicidade por um fio, que conta a história de Violet Jones, uma mulher que desde a infância foi incentivada pela mãe a manter os cabelos lisos. E os manteve assim por muitos anos. Violet se privou a vida toda de entrar em piscinas, não se atrevia a pegar chuva ou fazer qualquer outra atividade que pudesse desfazer o liso de seus fios. Até que, por um erro químico no salão de beleza, acaba pensando em mudar a sua concepção de dentro para fora e raspar os seus cabelos, embarcando em uma jornada de autoconhecimento e auto aceitação. O filme, que é dirigido pela primeira cineasta mulher da Arábia Saudita, Haifaa Al-Mansour. Além de ser uma pauta atual, revela fatos que já acometeram muitas meninas na sua infância, em todo o mundo. Aos poucos as pessoas se encaminham para uma mudança de pensamento, com menos preconceito e menos julgamentos. Isso dá força a quem está lutando para ser como é, pois as lutas não precisam ser encaradas individualmente.” O fortalecimento passa pelo coletivo, ninguém se fortalece sozinho”, afirmou Luciane. Arquivo pessoal

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A vida noturna como DJ É um movimento sem volta: as mulheres têm falado cada vez mais alto. Ou melhor, têm tocado cada vez mais. Em um cenário em que o sexo masculino é predominante, elas persistem para ganhar seu espaço e mostrar que sabem o que fazem. Dados da Brazil Music Conference (BRMC) conferência que reúne o mercado da música eletrônica e entretenimento da América Latina revelam que somente 1,7% das DJs atuantes são mulheres, enquanto 98,3% são homens. Apesar desse número, as mulheres estão cada vez mais conquistando seu espaço na música. Pode parecer comum ver DJs mulheres tocando nas festas por aí, mas nesse meio ou em outros segmentos, os homens ainda são maioria.Para conquistar esse espaço, infelizmente, as DJs mulheres terão sempre que mostrar um pouco mais do seu valor.

por Estér Martins

Ela conta que tinha curiosidade de aprender a tocar, mexer no equipamento e a lidar com o público. DJ Helena War tocando em uma festa. Reprodução: Instagram

Ser DJ mulher Vivemos um crescimento da visibilidade feminina, por isso, há uma grande importância destacar esse apoio e motivar mulheres da região sul. Helena War, aos 26 anos, é jornalista e DJ. Quando se formou em jornalismo, viu que não tinha muitas opções no mercado de trabalho que pagasse um salário justo. Foi quando resolveu investir na carreira de DJ, fez umas fotos para o Press Kit e lançou carreira solo. “As oportunidades foram surgindo, acredito que pelo fato de ser a única mulher aqui na região sul e de conhecer muita gente do meio de festas e eventos”, explica.

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Tem bastante espaço nessa área e cada uma tem sua personalidade. Cada DJ trabalha de maneira diferente. Para Helena ainda existe preconceito porque o cenário artístico é dominado pelos homens.“Existem situações que infelizmente


nós mulheres temos que conviver, sendo ou não sendo DJ, ou em qualquer profissão que a gente vive”, desabafa. Por ser uma pessoa completamente intolerante com piadas preconceituosas feitas por homens, e por demonstrar que não gostou do que é dito, acredita que eles já evitam essas falas por perto. “Já ouvi muita piada e muita coisa que só homens riem e eu fico de cara séria perguntando “é sério?”. Muitas vezes a gente tem que entrar por um ouvido e sair pelo outro, mas eu faço questão de mostrar que eu não gosto. Porque eu acredito que só assim a gente vai conseguir que um dia toda e qualquer mulher em todo mercado de trabalho ser 100% respeitada”, acrescenta. Helena espera continuar na carreira como DJ, alcançar níveis maiores, tocar em casas diferentes, cidades diferentes, viajar bastante, não ficar só pela região sul e, principalmente, ser reconhecida. “Sinto que evoluí muito, consegui atingir um nível de qualidade técnica, questão de mixagem, batida de música, eu amo quando faço uma virada certa. Eu amo a reação do público, tirar fotos com as pessoas, amo o reconhecimento. Essa relação que eu tenho com o público é muito legal nas redes sociais, eu tenho bastante carinho, bastante mensagem”, finaliza Helena.

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As mulheres buscam desconstruir esse espaço e mostrar seus talentos em diversas áreas; uma delas é na música. Uma forma na qual podem se expressar, se divertir e disseminar o poder para o público.

}

A cultura DJ surgiu através de Sonia Abreu. Ela foi a primeira brasileira a se consolidar no ramo, nos anos de 1960. Ela tocava em boates do centro de São Paulo, mas também em festas de alto padrão da cidade. Foi uma revolucionária da música, crescendo na esteira dos movimentos da Jovem Guarda, Tropicália, Rock, entre outros. Apesar de nem sempre serem apoiadas e de ainda sofrerem preconceito na área, o cenário está se modificando. Mas o machismo e a desigualdade continuam presentes. Os movimentos feministas e as próprias mulheres que fazem parte deste mercado estão lutando para aumentar a representatividade

feminina no meio. Há muitas DJs que passaram por algum tipo de situação machista em seu trabalho: dúvidas em relação ao seu talento ou até diferenças de cachê recebido comparado aos homens. Mesmo que muitos pensem na discrepância entre a presenca de homens e mulheres no cenário musical, isso não deve ser motivo de preocupação. E preciso, ainda, refletir sobre a importância que as mulheres têm nesse meio para outras mulheres.

DJ Lets em ensaio fotográfico com equipamento. Reprodução: Instagram

Lets é DJ, e com 24 anos já conquistou seu espaço na música. “Comecei meio que do nada, eu não tinha ligação nenhuma com a música, tinha terminado minha faculdade de moda, só que eu não gostava mais de trabalhar na área, não me deixava mais tão realizada como no começo. Aí eu resolvi que não queria mais”, explica. Ela conta que sempre gostou de frequentar festas. “Eu sempre fui muito festeira, mas não gostava como os Djs da minha cidade conduziam as festas. A gente saia pra ouvir música, mas ouvia as mesmas músicas que todo mundo tocava sempre. Aí eu resolvi começar a tocar, fiz meu curso na imec - uma escola de música

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DJ Tatti tocando no maboo. Reprodução: instagram

eletrônica - e meu professor é carioca, então tinha uma noção grande do funk e fiz todo o meu curso voltado para o funk”, diz. Lets fala como é a relação do preconceito por ser dj. “Se eu vejo que não vai me acrescentar, que não é uma crítica construtiva eu não ligo, mas se for levar para o lado pessoal, a gente não sai de casa para trabalhar, sempre tem piada, as pessoas pensam que é normal de acontecer, como pra mim, é uma coisa que entra por um ouvido e sai pelo outro, eu não paro para processar esse tipo de informação”, acrescenta. Para Lets o trabalho de DJ é liberdade. De poder ser o que quiser até poder se expressar na maneira como se veste. “É surreal, realizador de verdade. A realização pessoal é o que eu mais amo no meu trabalho”, finaliza. Outra DJ que também é de Santa Catarina é a Tatti, que conta que a vontade pela área surgiu bem cedo pelo pai, que também é dj. “Minha maior referência na área sem dúvidas é meu pai porque eu acompanhei de perto o amor que ele carrega pelo o que faz. Ele foi também minha maior motivação, sempre me apoiou, sempre gostou da ideia e me incentivou a tocar”, diz. E no meio artístico, ela buscou referência em mulheres autênticas e irreverentes que procuram fazer a diferença e ir além do que todo mundo tá habituado a ver. Como as cantoras Amy Winehouse e Anitta; e a dj Bárbara Labres. Tatti trabalha exclusivamente como DJ e percebe que as mulheres estão tomando cada vez

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mais conta desse mercado. “É uma valorização financeira igual ou maior dos djs homens, mas acho que ainda tem muito caminho pela frente porque a gente sofre muito preconceito. Já sofri e ainda sofro com frequência, não só do público mas de muitos contratantes e até colegas homens da nossa área que, não generalizando, mas boa parte se incomoda pela valorização do trabalho feminino no ramo”, acrescenta. Na profissão existe o constante contato com o público e também o preconceito vindo dele. Tatti já se sentiu inferiorizada porque não acreditaram na capacidade profissional da DJ mulher. “Eles acham que a gente está no palco só por imagem e aparência. Eu tenho consciência que a melhor maneira de acabar com isso é dando o meu melhor e mostrando a qualidade do meu trabalho”, complementa. A expansão e a valorização dessa profissão vai estar cada vez maior. “Isso já vem acontecendo ao longo dos anos, eu sei porque há 33 anos, quando eu nasci, não era possível viver sendo apenas DJ Tinha que batalhar muito e ser muito grande para conseguir viver disso, mas também tenho certeza que tem muito mais para alcançar aí pela frente”, finaliza.

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Protagonismo feminino no esporte: quebrando barreiras e preconceitos

por Eduardo Pereira Muitos esportes são associados mais ao universo masculino do que ao feminino As maratonas, por exemplo, antes de serem mistas, era espaço apenas para homens. O karatê também é um esporte mais lembrado para homens do que para mulheres e uma modalidade onde muitas vezes elas sofrem preconceito. É o caso da jovem tubaronense Alice Miranda, de 15 anos, que já conquistou diversas medalhas e títulos em nível mundial no karatê. Ao ser questionada sobre o machismo e o preconceito que enfrentou, Alice relata que “no começo, sempre escutei muito que karatê não é para mulher. Mas se formos parar para pensar, as mulheres, hoje em dia, são as que mais se destacam dentro do esporte”. Alice acredita que as mulheres não podem se abalar pelo o que os outros falam. Elas têm que mostrar que podem ter direitos iguais aos homens. ”Até porque não somos diferentes. Acho muito legal ser mulher e estar no esporte, nós mulheres só queremos igualdade porque não somos diferentes dos homens e vamos lutar dia após dia para mostrar isso”. A percepção machista de que as mulheres não podiam ser competitivas imperava em todas as modalidades, fazendo com que o esporte feminino sempre fosse ignorado, desprezado e muitas vezes abandonado, sem público, sem recursos e sem investimentos. As lutas feministas por direitos iguais ajudaram a modificar esse cenário durante o século XX. Mas, em várias modalidades, as mulheres recebem muito menos do que os homens, que possuem mais público e, portanto, mais demanda para os espetáculos. As mulheres sofrem ainda com uma visão machista impregnada na sociedade que a coloca como “sexo frágil”, que é incapaz de se sair bem em algo que é considerado “coisa de homem”. As mulheres praticam menos horas de esporte do que os homens. Essas informações estão no Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional do Brasil – Movimento é Vida: atividades físicas e esportivas para todas as pessoas, divulgado

Arquivo Pessoal

em 2017 pelas Nações Unidas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) afirma também que a falta de incentivo para a prática de esportes entre as mulheres nas escolas faz com que, no Brasil, apenas 25% das estudantes do 9o. ano do ensino fundamental pratiquem ao menos 300 minutos das atividades físicas por semana. Dentre os meninos, esse percentual chega a 43%. No sul do país, 27,2% das meninas praticam ao menos 300 minutos de esportes em uma semana, enquanto 47,9% dos meninos praticam atividades físicas. Invertendo essa lógica, existem mulheres que, ainda jovens, têm essa capacidade de “nadar contra a corrente” e enfrentar o preconceito das pessoas, se destacando e sendo protagonista no esporte, como Alice. “Eu comecei o karatê com 12 anos e desde pequena sempre fui muito ligada ao esporte, já fiz vários esportes, mas sempre fui muito apaixonada pelo futebol e karatê. ” Alice relata que, com dois meses de treino, disputou seu primeiro campeonato brasileiro, no Rio de Janeiro, onde conquistou sua primeira medalha de ouro. “Eu vi que lá era apenas o começo de muita coisa que eu tinha pela frente e me senti muito mais motivada em continuar meu sonho, que era me tornar uma atleta de seleção brasileira e algo a mais.”

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Arquivo Pessoal

Alice Miranda, de 15 anos, moradora de Tubarão, é vice-campeã mundial de karatê e é atleta da Seleção Brasileira da modalidade. Além disso, ela também é atleta de futebol, sendo jogadora da categoria sub-15 do Clube Atlético Tubarão. As discrepâncias entre homens e mulheres no esporte também podem ser explicadas por problemas culturais. As mulheres sempre usaram a maior parte de seu tempo para atividades domésticas, tendo pouco tempo para lazer. Outra situação que contribuiu para essa diferença nas práticas esportivas, foi o fato de que as mulheres foram proibidas durante o período do Estado Novo até a Ditadura Militar de praticarem esportes “incompatíveis com a natureza feminina”, de acordo com decreto de 1941, do governo de Getúlio Vargas. Segundo o relatório do Pnud, um dos meios para reverter esse quadro seria uma maior participação do poder público nessa questão, o que se traduz em maior investimentos e apoios ao esporte feminino com a finalidade de incentivar as garotas a desde cedo praticarem esportes. O treinador da academia Impacto, de Karatê, Fabrício de Souza, relatou que a aceitação das mulheres está melhorando no âmbito esportivo, mas que ainda há o que se possa resolver. “Está melhorando, principalmente a aceitação da sociedade, o preconceito está diminuindo, mas ainda precisa ser trabalhado nisso, incentivar cada vez mais as mulheres a praticar ou dar oportunidade que pratiquem diversas

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modalidades esportivas. Fabrício também acredita que outra saída é não direcionar para as convencionais somente, como handebol, vôlei, mas sim, para todas as modalidades esportivas, possibilitando todas as vivências possíveis. “Para que elas possam ter todo o seu desenvolvimento e consigam escolher o esporte que elas mais se adaptam e sintam mais prazer em praticar”. Fabrício ainda comentou sobre a maturidade das atletas. “As mulheres atualmente, principalmente as adolescentes, demonstram muito mais maturidade, determinação e objetivo palpável em cima do que elas almejam, com isso, elas conseguem traçar o caminho necessário para atingir o que querem”. Fabrício contou que cerca de 50% dos atletas de alto rendimento e que disputam competições são mulheres. “Hoje, os melhores resultados que nós temos em competições vêm do público feminino. Para se ter uma ideia, a nossa equipe atual campeã dos joguinhos abertos de Santa Catarina vem do público feminino, enquanto a equipe masculina ficou em terceiro lugar”. Nos jogos abertos de Santa Catarina, a equipe feminina também é atual campeã enquanto a equipe masculina conquistou o terceiro lugar. “No último pan-americano realizado em Guayaquil, da nossa cidade, foram oito atletas, sete atletas mulheres e apenas um menino.” Apesar do crescimento em atuações na área ainda ainda ser menor do que o dos homens, nas últimas Olimpíadas a participação feminina foi considerável, com cerca de 45% dos participantes do sexo feminino. O próprio Comitê Olímpico Internacional e entidades como a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) já se posicionaram sobre o tema e cobram mais ações de incentivos à entrada de mulheres no esporte. Dentre as ações da Conmebol nesse sentido, está a exigência de times femininos para as equipes que forem disputar a libertadores. Após a exigência da entidade sul-americana, a CBF também começou a exigir a montagem de times femininos adultos e de base, para as vinte equipes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol. Essas ações, no entanto, não significam uma profissionalização do futebol feminino, mas representam um avanço e um apoio no crescimento do esporte feminino no país e no continente.

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