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contos inspirados no álbum “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, do Pullovers

(Des)conhecidos BACKBEAT


(Des)conhecidos


Orientação e organização Fabiano Ormaneze

Edição

Izadora Pimenta Jéssica Kruckenfellner

Projeto Gráfico Bárbara Bigon Izadora Pimenta

Capa

Allan Nucci (foto) Izadora Pimenta (diagramação)

Fotos

Bárbara Bigon Mirela Von Zuben

Livro produzido a partir de perfis escritos na disciplina de Jornalismo Literário, ministrada pelo professor Fabiano Ormaneze no período noturno do quarto ano do curso de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas - 2013


conhecidos 15 - CRIS GUERRA por AMANDA CAMPO 19 - ORESTES TOLEDO por ANDREA NUNEZ 25 - ESTEVÃO BERTONI por BÁRBARA BIGON 31 - LUIZ CRESCENZO por BRUNA TRINDADE 37 - ZAIMAN DE BRITO FRANCO por GUSTAVO CARVALHO 43 - EDSON ISHII por JÉSSICA KRUCKENFELLNER 49 - TON CRIVELARO por LAURA MESTRES 55 - DONA CONCEIÇÃO por MARCOS ARAÚJO 63 - RUTH MARIA DE OLIVEIRA por NATÁLIA BERALDI

desconhecidos 71 - MARIA E MADU por ANA LETÍCIA AZEVEDO 77 - WASHINGTON por ANA PAULA REZENDE 83 - LÚCIA por CAROLINE DIAS 91 - EDGAR por DANILO PESSOA 97 - PARQUE ORTOLÂNDIA por EMERSON JAMBELLI 105 - LIA por FERNANDA CANOBEL 109 - MARIA AUGUSTA por GISLEINE MONIQUE 115 - PAULINHO CAVERNA por GIULIA CIRILO 121 - SIWAR por GIULIANA WOLF 127 - LUCI por IZADORA PIMENTA 133 - SEM DOCUMENTO por JÉSSICA BIGON 137 - SOLANGE por JÉSSICA BUENO 147 - ANA REGINA por JÉSSICA CALDEIRA 153 - ROSA MARIA por MICHELLE LOPES 159 - RODRIGO por MIRELA VON ZUBEN 167 - ÉRIKA por STEPHANIE DOS SANTOS 175 - TATINHA por SYLVIA GOMES


QUÃO DESCONHECIDO VOCÊ É? Diante de uma multidão, há duas formas de representá-la e compreendê-la: a primeira é traduzindo-a em números. Posso olhar para uma rua movimentada, para uma aglomeração de pessoas num show, para um protesto ou mesmo para um grupo menor, como uma sala de aula ou um ponto de ônibus, e contar quantos estão por ali. Por essa via, dá para fazer porcentagem, gráfico e qualquer outra equação que a matemática já tiver inventado. Mas posso também olhar e entendê-la como um conjunto de histórias. Em vez de pensar em mil manifestantes, por exemplo, posso pensar em mil histórias diferentes. Em vez de pensar em duas mil pessoas à espera de um atendimento médico, posso ver que ali estão dois mil dramas, duas mil dores, duas mil histórias reunidas. (Des)conhecidos segue essa segunda proposta. Aqui, reunimos perfis produzidos pela Turma 41 durante a disciplina de Jornalismo Literário, no 7° semestre do curso de Jornalismo, na PUC-Campinas. Cada aluno se propôs a observar a multidão de pessoas com que todos os dias entramos em contato (e da qual também fazemos parte) e, dali, encontrar uma boa história. E disso vieram muitas surpresas. Algumas dessas pessoas, que pareciam tão conhecidas de todo mundo, mostraram que são muito mais do que um estereótipo, mais do que um profissional conhecido em sua área ou do epíteto que o colocaram em algum momento. Também mostraram que não são tão conhecidos assim, porque o que todo mundo conhece, na verdade, é apenas uma pequena parte da grandeza e da complexidade que todo ser humano é. Outros mostraram que, mesmo sem ser conhecidos do grande público, não são tão estranhos, pois têm muito em comum com as histórias que cada um de nós carrega. Quem são nossos conhecidos? Quem são nossos desconhecidos? Aliás, que sentido têm mesmo essas palavras? Aqui elas se misturam, para ser sinônimo de pessoa, o conhecido se fazendo obscuro, o desconhecido vindo às claras.


Nesse livro coube um pouco de cada coisa: voluntário, profissional respeitado em sua área, gente que superou tragédias, pobre, rico, hippie que tenta manter seu modo de vida como há 30 anos, mesmo sabendo que o que era feira hippie hoje se tornou uma feira bem elitizada... Teve espaço para conhecer a história de quem pode estar do nosso lado e de quem a gente só conhece porque já leu algo ou então já viu pela televisão... E, certamente, com uma dessas histórias você há de se identificar. Como? Identificação é quando a gente percebe que não está sozinho. Que se está numa multidão, que se é tão (des)conhecido quanto quem caminha ao nosso lado.

FABIANO ORMANEZE professor de Jornalismo Literário e orientador


“O excesso de gente me impede de ver as pessoas” Mário Quintana (1906-1994)


AMANDA CAMPO MAIS ALGUMAS FACES DELA: UM PERFIL DE CRIS GUERRA

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Desvendar a artista, trazer à tona a apaixonada. Essa é uma versão da blogueira Cris Guerra que não está no “Hoje vou assim”, ou na revista Veja BH, para a qual escreve ou na Rádio Bandeirantes, onde propaga sua voz. Cris é mãe e muitas outras coisas que não cabem numa linha, mas que foram, em parte, desvendadas numa conversa perto da Pampulha, em Belo Horizonte.


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ui ao encontro de um personagem, uma estilista, uma escritora, uma jornalista, uma publicitária, uma blogueira famosa e modelo por obra do destino. Esbarrei na mãe, tropecei na esposa, vi de longe a irmã, desvendei a artista, trouxe à tona a emotiva e me encantei com a apaixonada. Encontrei, em Belo Horizonte, a alguns poucos metros da Pampulha, Cris Guerra. Ela me recebeu por volta das 14h20 do dia 18 de maio de 2013, com um “Olá” arrastado, gostoso e cantado. O apartamento é colorido. Até o “preto-e-branco” da fotografia de seus pais que já não estão aqui para contemplá-la, estampada de fora a fora na parede da sala, parece animar o ambiente. Carrinhos de corda, jogos e peças no chão me apresentavam a cor mais radiante dali: Francisco, o coração que batia por ele e por ela quando ainda estava no ventre, de apenas 6 anos de vida. “Mais pra sete do que pra seis, tia”. Cris Guerra não é daquelas que poupam palavras, tampouco poupa detalhes. Diferente de sua irmã, que veio quatro anos antes (considerada de outra geração… “mais clássica, sabe? eu já sou da geração cabelo curto e calça jeans...”), Cris gosta de cores em tudo: no corpo, as tatuagens dançam harmoniosamente ao som da voz e dos gestos enquanto conversa; na roupa que a primeira blogueira de looks diários do Brasil gosta de ousar e misturar; no trabalho e na comida.

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A definição para Cris, embora ela diga que não consegue se definir, pode ser o significado da palavra peculiar. Sua irmã conta, em tom de quem conta uma novidade interessante, que Cris morou na casa de JK, nos fundos, por volta de seus 20 anos, e que eram muito amigas na infância. O ex-presidente era amigo íntimo dos avós dela. O clássico da Lelé, como Cris a apelidou, nunca foi motivo para o descolado de Cris se distanciar. “Publicitária por formação. Escritora e cronista de moda por obra do destino”, destino esse que não foi nada amistoso com a mineira. Em 2007, o coração de Cris perdeu o amor “da vida”. Em 2007, o

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coração de Cris batia no ritmo compassado do filho que esperava. Esse ano partia e renascia o grande amor de sua vida. A grande perda de Cris, uma mulher estudada, como acusa seu bom português, aconteceu naquele ano, quando esperava a vinda de Francisco com ansiedade (compartilhada com o pai), o publicitário Guilherme Fraga, para quem não cansava de mandar e-mails com“beijos bons”. Amigos de tempos de agência, os dois se reencontraram pela caminhada por diversas vezes, tantas essas que foram interrompidas por muitos desencontros, até que o acaso o levou. O acaso não: problemas de saúde, daqueles que fazem uma surpresa e só deixam espaço para susto de quem ficou. E foi assim que Cris viu ir embora seus planos. Quase todos. O maior deles ainda precisava da força e do ânimo dela. Precisava, inclusive, que fizesse reviver algum amor. Mais uma vez, o destino não deu brechas para que acontecesse o esperado e colocou no colo uma criança para quem Cris escreveria seu primeiro blog que, inesperadamente, virou livro. E livro de sucesso. Os mais de 20 mil exemplares de “Para Francisco” espalhados pelo Brasil contam como era a vida do casal em páginas que derramam a melancolia da perda, marcadas por algumas letras de esperança. Para uma mulher, mãe, esposa, blogueira, modelo, colunista de revista e de rádio, a monotonia causada pela dor não durou muito. Hoje, Cris consegue conciliar todas essas atividades. “Inclusive, contratei a Laís. Aliás, ela respondia os e-mails que você mandava”. Santa Laís.

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Para encontrar a profissional, basta acompanhar a revista Veja BH, ou a rádio Bandeirantes da capital mineira. Pode acessar o blog “Hoje vou assim”, ler seus livros, visitar desfiles… Para esbarrar na mãe, tropeçar na esposa, ver de longe a irmã, desvendar a artista, trazer a tona a emotiva, se encantar com a apaixonada, o destino é Belo Horizonte, a alguns poucos metros da Pampulha, no quarto andar do apartamento decorado por cores.

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ANDREA NUÑEZ ORESTES TOLEDO: CINEMA E REVOLUÇÃO EM UMA ÚNICA TRAJETÓRIA

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O perfil trata de Orestes Augusto Toledo, 59 anos, professor de História no Etecap, historiador do MIS desde 1975, e revolucionário desde sempre. É considerado uma referência na cidade de Campinas, tanto por seu conhecimento histórico da cidade, quanto por sua ampla sabedoria em cinema. O texto compreende um breve relato de sua vida, bem como as nuances de sua personalidade.


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ntissocial, reservado, caricato, polêmico, comunista, intelectual, humilde. Algumas das características que definem esta figura. 59 anos constroem quem ele é hoje para o MIS, família, amigos: Orestes Augusto Toledo, historiador do MIS e professor de História. “Eu nunca tive um convívio social muito plural, sempre tive poucos amigos, um deles continua sendo até hoje” Apesar da origem italiana, espanhola e portuguesa que herdou dos avôs, é campineiro sem opção, mas o perfil interiorano não deixa de lado os traços que o torna polêmico por natureza. Barba branca, magro, olhos azuis efusivos e postura descontraída são os traços mais marcantes desta emblemática figura. Cercado por livros, pastas, cadernos e jornais emaranhados. Envolto por recordações em seu escritório, no MIS, ele se lembra de sua infância. Desde pequeno se acostumou a ouvir histórias de seus familiares, do avô que lia jornal e exaltava a profissão de ferroviário – profissão de todos os homens de sua família – até as histórias de sua mãe, Nair Ramalho, que vivenciou o incêndio na fábrica de fogos de artifício que trabalhava na Vila Industrial. Diferente do que muitos poderiam pensar, deixou a casa apenas aos 20 anos, quando tornou realidade o projeto de criar uma república.

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“Sempre fui muito polêmico e gostei de debater. A divergência de ideias não leva a desqualificar o outro” Alegra-se da mesma maneira ao relembrar dois extremos: como iniciou sua formação intelectual e as suas brincadeiras jogando futebol. Sua tia, Ana, irmã de seu pai, sendo professora o motivou desde cedo com leituras. Aos 7 anos, preocupada com seu engajamento político, sua tia o levou a um plebiscito histórico. SIM ou NÃO para a ditadura. Ele e sua tia votaram a favor da democracia de João Goulart. Orestes, lembra o episódio

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com um olhar crítico. Isto ocorreu em 1963, quando 12 milhões de pessoas puderam decidir se o parlamentarismo seria mantido ou o presidencialismo retornaria. Com 9.457.448 de votos, o presidencialismo foi escolhido. Sobre o futebol, dizia que era uma forma de socializar e se divertir. Metaforicamente compara o futebol com uma sociedade utópica socialista: “No futebol, cada um é melhor na sua posição e ninguém vai falar que um é melhor do que o outro, porque quando o time perde, todos choram e quando ganha, a alegria é de todos. E se o cara tem a chance de marcar o gol e erra porque não passou pra alguém do time que tinha mais chances, na próxima ele vai passar, pelo bem de todos”. “Muita gente acha que sou bonzinho e muitas vezes eu defendo minhas ideias, com vigor e força e as pessoas se assustam.” Apaixonado por livros e cinema, Orestes, desde cedo, se interessou pela arte. Talvez por querer se isolar da sociedade ou talvez por querer justamente compreendê-la em sua amplitude, mergulhou nos livros de Balzac, Dostoiévski, Tolstoi, Alan Kardec. Autodesignando-se desajustado ao mundo e às convenções sociais impostas, tornou-se comunista quase que por osmose. “A minha aversão ao capitalismo, antes de ser política, foi existencial. Eu não conseguia me adaptar à sociedade, minha juventude foi muito difícil, me sentia rejeitado. E quando li sobre a contracultura vi que existia uma outra maneira de ser jovem.”

Bruno Pereira Cuin, ex-aluno de Orestes, fala desse lado revolucionário que Orestes carrega: “Uma convicção que ele tem sobre o futuro é

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Sua participação política vem muito daí e da leitura, desde cedo, da Revista Realidade. Mesmo nunca tendo sido líder, presidente e candidato a nada – nunca teve interesse em se promover – sua luta se fez notar desde a faculdade de História que cursou na PUC nos anos 73-78. Participou do sindicalismo de bairro, filou-se ao PCdoB (partido que está até hoje), fez parte também do Movimento Estudantil.


a possibilidade de uma sociedade mais justa, humana, fraterna, igualitária, sem dominação e sem exploração e essa convicção chama-se comunismo”. “Acho muito importante a questão de ser pai além do que, envolve também o projeto casal”. Orestes têm dois projetos na sua vida pessoal: um já foi finalizado e o outro só será finalizado quando morrer. O finalizado trata-se do projeto “ser pai”, como ele se refere. Tem 5 filhos com sua ex-esposa - desses, três são mulheres e dois, homens. O segundo projeto, ainda inacabado, é seu o relacionamento afetivo. Chama carinhosamente sua esposa de companheira. Segundo o próprio historiador, não consegue viver sozinho. Apesar de ser recluso, não nasceu para ser um indivíduo solitário. Todos os dias, quando chega em casa, ele a acorda para conversar, ou melhor, debater. Pois é assim que ele é: polêmico incessantemente. “Eu sou um desajustado, inadaptado. Eu sou antissocial, sou um cara chato, porque eu só converso coisa séria, não consigo jogar conversa fora” Especializou-se como autodidata em cinema. De filmes de piratas ao neorrealismo italiano. Na adolescência participava de cinema de bairro, ia ao cineclube e outros do centro de Campinas.

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Entrou em um grupo da TV Cultura que fazia cinema experimental de fundo de quintal para o programa “Ação Super 8” e isso foi um grande aprendizado na sua vida. Lembra-se até hoje quando começou a ver os filmes de Glauber Rocha. Neste momento da conversa, inquieto, segurando seu caderninho vermelho e uma caneta, ele se recorda de um filme que o marca até hoje: “O Deus da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de Glauber. A partir daí seu interesse por cinema e principalmente pela produção do cinema nunca mais parou e, até hoje, realiza e orienta documentários no MIS.

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“Seja no cinema, no movimento estudantil, nos saraus, nos ateliês, ideologias, o Orestes direta ou indiretamente propulsiona algo que certamente no mínimo será refletido”, destaca Cuin. Apesar de ter trabalhado em banco por 5 anos - para pagar sua faculdade - sua carreira ou descarreira como professor foi o que realmente o motiva até hoje. Começou a dar aulas em 1978 na escola Carlos Gomes e hoje, leciona por paixão no Etecap dando aula de História, sempre. Koraiça Prince, ex aluna de Orestes, é atualmente produtora cultural e isso se deve muito à influência dele. Ela o considera um ser proativo e eloquente e, ao se lembrar dos debates em aula, descreve: “Ele escuta e argumenta, sem ofender as pessoas que possuem menos conhecimento que ele.” O seu vínculo com o MIS vem de longa data. Começou em 1957, quando ao saber que o fundador do Museu, Henrique Oliveira, estava no Paço Municipal em um evento, foi até lá pessoalmente com seus amigos com o objetivo de pedir um projetor emprestado para fazer filmagens. Desde então, nunca mais saiu de lá. Em 1975 se tornou concursado e aí oficialmente foi designado historiador do MIS. Seu companheiro de trabalho, Antonio Andrade – dá cursos de doc no MIS – já o conhece há uns 15 anos. Ele afirma que, se hoje leciona, estuda e faz cinema, é devido à admiração que nasceu ao trabalhar ao lado dele.

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E ao ser questionado sobre a influência política e cultural que Orestes exerce em Campinas, ele finaliza, emocionado: “Se existe hoje a memória do cinema campineiro é porque existe um grande mestre do cinema brasileiro, campineiro; e esse alguém é o Orestes. A arte campineira é militante devido à ele, que com sua paciência e dedicação orienta e conduz uma massa de jovens nas conquistas da cidadania.”


BÁRBARA BIGON “O OBITUÁRIO É SOBRE A VIDA, A MORTE É APENAS UM DETALHE NO RODAPÉ”

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Para alguns, pode até se tratar de morte, mas para ele é apenas sobre a vida. Estêvão Bertoni é obituarista da Folha de S. Paulo há 7 anos e já escreveu mais de 1.200 perfis. Todos os dias ele questiona, para parentes e amigos, quais eram os grandes sonhos dos que partiram, mas ele mesmo ainda não se decidiu pelo seu.


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stevão Bertoni ganha a vida falando de mortos. Isso é o mais óbvio que alguém poderia falar sobre ele, afinal, é responsável pelo obituário do jornal Folha de S. Paulo há sete anos. Mas não é bem assim que ele descreve o seu trabalho. “O obituário é sobre a vida, a morte é apenas um detalhe no rodapé”. Indo um pouco mais longe, já foi parte de uma tese e um livro-reportagem. A primeira sobre obituários, o segundo sobre morte, no qual cada capitulo, cada vida, é dedicado a uma profissão que trabalha com a morte, desde o coveiro até o obituarista. O trabalho é sobre a vida, porque é um diário contar sobre sonhos, momentos, felicidades, conquistas e percalços das histórias de pessoas, selecionadas, na maioria dos casos, aleatoriamente. Desde 2006 na Folha de S. Paulo, e desde meados de 2007 na “Obituários”, Estêvão Bertoni já passou pelo caderno de cidades, fez uma parada na Ilustrada e se assentou entre as histórias tristes, felizes, extraordinárias e inusitadas da sessão. São sete perfis por semana durante sete anos, e, segundo ele, mais de mil e duzentos obituários, que ele guarda com carinho em sua casa. Não apenas o texto em si, mas também as entrevistas feitas para que esses fossem escritos. Das muitas histórias, ele se lembra de poucas. Nomes, nenhum. A morte, enfim, não tem nome e sequer sobrenome, só uma história pra contar.

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Das histórias lembra-se das peculiaridades, dos familiares. Como a da professora de história que faleceu jovem, e o pai lhe ligou emocionado para agradecer pelo belo obituário e contar que mandara fazer um santinho com o mesmo. Embora este ainda não soubesse, um ano depois estaria seguindo a filha e tendo o seu obituário escrito pelo mesmo Estevão. Lembra também de um menino, que aos 12 anos morreu devido a um câncer cerebral. A família mesmo se dispondo a falar, estava abalada demais. Essa foi, segundo Estevão, a história mais triste que já escreveu.

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Mesmo período da infância na qual Estevão lia a Folha de S. Paulo e folheava as pilhas de revistas antigas na casa da avó materna, que ainda visita todo natal, na mesma Franca de sua infância. Ainda criança viveu um período no Tocantins, mas logo voltou a Franca. Tanto ler a Folha deu origem ao sonho de trabalhar e escrever para o jornal. Formado jornalista em 2004 pela Cásper Líbero e em 2007 cientista social pela USP, trabalhou algum tempo na Agência Luza e na Agência Primeira Página. Em 2006 entrou no curso da Folha e, ao ser contratado, foi para a sessão de cotidiano. Durante um ano, cobriu cidades, em meio à pressão e ao agito do caderno. Com apenas dois desvios: o mês que cobriu férias na Illustrada, o calmo e tranquilo caderno de cultura do jornal, e o período que trabalhou na sucursal de Ribeirão Preto, que era fechada em São Paulo. Seu primeiro obituário foi o de uma engenheira, mas sete anos depois, é tudo o que ele se lembra da história. Willian Viera, o jornalista responsável pela sessão antes de Estevão, dividiu a posição com ele durante os três primeiros meses. Willian foi para o caderno de cotidiano, e Estevão ficou com a sessão de obituários. De sua trajetória na Folha, lembra que escreveu o obituário do fotografo que o acompanhou em sua primeira matéria da Folha, ainda no caderno de cidades. Assim como o do obituarista do Estadão, apelidado de Toninho “Senhor da Morte”, um senhor que considerava de mal tom que se falasse do motivo da morte no obituário, e por isso seu obituário ficou sem a causa da morte, contrariando a linha editorial da Folha, que publica a causa da morte.

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Escrevendo os obituários ele sempre pergunta sobre os sonhos e realizações que a pessoa realizou ou deixou de realizar, mas, perguntado sobre seus sonhos, se calou. “Eu sempre faço essa pergunta, mas nunca pensei sobre isso. Claro que tem um monte de lugares que quero conhecer, mas um grande sonho...”. Sem responder sobre seu grande sonho, depois de um longo silêncio

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ele conta sobre casar e ter filhos. “Acho tão triste quando escrevo sobre alguém sem filhos, sem um parceiro, sem ninguém”. A rotina de Estevão é ter aulas de manhã, de guitarra ou de italiano, que acontecem na própria Folha. Já fez vários cursos na Folha ou com o suporte do jornal. “Quando tem relação com o jornalismo, a Folha banca uma parte do curso, é bem bacana”. Entre os cursos que fez com o auxilio do jornal, está um de documentário. Chega à Folha ao meio dia, lê jornal, costuma acompanhar a Folha, o Estadão e o Globo, e então começa a apurar a história do dia. A partir das 17h começa a escrever o obituário do dia, e o entrega por volta das 19h, quando vai ajudar a fechar o jornal. Fazendo e arrumando títulos, linhas finas e legendas. “Ninguém conhece o redator, porque só o nome do repórter sai”. Fora do mundo do jornal e das histórias que conta, Estevão é o vocalista e guitarrista de uma banda, a Bazar Pamplona, que está em seu segundo álbum, “Todo Futuro é Fabuloso”. As músicas que ele classifica como “acho que é rock” falam sobre a vida, trabalho, rotina, cotidiano, amor e morte. Não sabe sobre o que é mais difícil escrever, se as letras de sua banda ou os obituários de seu jornal. “Talvez as letras”, conclui. Afinal, os obituários viraram rotina.

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Depois de tanto falar sobre sua vida, e sobre as vidas que já escreveu, conta que algumas das histórias mereceriam mais do que os 21 cm destinados para obituário. “Não conto a história de gente famosa, quando é assim, algum outro jornalista escreve, quando é economia ou política. Conto a história dos anônimos”. Para o rodapé de sua própria vida, Estevão não sabe ao certo o que quer que escrevam. “Nunca pensei no que poderiam escrever sobre mim, nem sobre o que eu escreveria sobre mim”.

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BRUNA TRINDADE LUIZ CRESCENZO: A REPORTAGEM NAS VEIAS

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Jornalista que trabalha na TV ganha status de celebridade ou quase isso. A saída do repórter Luiz Crescenzo da EPTV, afiliada da Rede Globo na região de Campinas, pareceu uma decisão repentina, após 16 anos de trabalho. Mas é só conhecer mais sobre sua trajetória para ver que antes de consolidar sua imagem ele mudou muito, viu bastante coisa, muitas delas difíceis em ¼ de século na profissão.


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uiz Antônio Paolillo de Crescenzo tem 49 anos de idade e 25 de profissão. Nascido em Santos, abandonou o surf e subiu a serra para estudar jornalismo na Pontifícia Universidade Católica, começou a trabalhar em televisão logo no primeiro ano de faculdade, como rádio-escuta na Televisão Princesa D’oeste, onde trabalhou por sete meses antes de se mudar para a concorrente, EPTV. Na afiliada da rede Globo de Campinas, o jornalista começou sua carreira como repórter. Depois de quatro anos trabalhando na emissora, decidiu se mudar para a capital, trabalhando como repórter na TV Bandeirantes. Foi lá que viveu uma das primeiras grandes emoções de sua vida como jornalista: Foi o primeiro repórter de televisão a entrar no Instituto Médico Legal depois do massacre do Carandiru. A imagem das centenas de corpos enfileirados ficou na sua memória como uma espécie de holocausto. Sua reportagem foi tão impactante na época que chegou a ser utilizada no Julgamento do Massacre, em abril deste ano.

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Durante os 16 anos que trabalhou na emissora, viveu as experiências mais marcantes de sua vida e de sua carreira. Foram centenas de expedições, reportagens especiais e viagens, e entre uma reportagem e outra teve oportunidades únicas, das quais se orgulha.

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Depois de 3 anos na capital, Crescenzo foi convidado a participar da criação TV Bandeirantes em Campinas. E após um ano retornou a EPTV, onde veio a passar a maior parte da sua carreira como repórter.

Uma delas foi a de ser o primeiro e único repórter a entrevistar o temido sequestrador Andinho. Em meados de 2001, graças ao acaso, um bom trabalho de produção de Pedro Aurélio e uma dose de coragem. A produção combinou que, numa determinada hora, ele se encontraria com os capangas que o levariam até Andinho. No local, sem que soubesse previaemente que isso fosse acontecer, o jornalista foi encapuzado, como tivesse sendo se-

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questrado. A venda foi tirada somente quando ele estava diante do sequestrador mais procurado da época. Passou 40 minutos na mira de rifles e fuzis de cinco capangas do sequestrador. Essa entrevista, segundo Crescenzo, teve uma repercussão imensa, em Campinas (que na época era considerada uma das cidades mais violentas do interior), no Brasil (já que as notícias do sequestrador eram destaque em diversos jornais) e principalmente na Polícia Civil. Vários delegados e investigadores teriam sido derrubados pelo fato de um repórter ter conseguido encontrar uma das pessoas mais procuradas do Brasil e a polícia não. Tanto nessa reportagem, quanto em muitas outras que fez ao longo de sua carreira, Crescenzo consolidou seu nome na cidade de Campinas e região e também adquiriu a credibilidade tanto de autoridades quanto da população, desde donas de casa até mendigos e usuários de drogas, por quem o repórter admite ser reconhecido nas ruas frequentemente. Em contra partida, muitas das matérias investigativas e de denúncias renderam ao repórter um número considerável de inimigos, desde policiais à traficantes, chegando a ser seguido, ameaçado pessoalmente e por telefone e intimidado de diversas maneiras. Ele afirma que nunca se deixou intimidar pois acredita que aquele que foge, dá forças ao inimigo.

Outra reportagem que marcou a carreira do repórter foi durante a expedição que fez no Haiti em 2007, quando teve a oportunidade de, durante 10 dias, conhecer o trabalho das Ong’s brasileiras

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Apesar de não se abalar com tais ameaças, afirma que toma seus cuidados, mas não deixa de cumprir com o seu dever. A maior preocupação na verdade é com a segurança e bem estar dos filhos, os gêmeos Antônio e Marina, de 9 ano, que são, nas palavras de Crescenzo, “Minha razão de viver”.


e do Exército na tentativa de abolir do país a cultura do Rest Avec (ou “fique com você”), nome dado as crianças que são consideradas no país a “sobra” da sociedade. Na época da expedição, dois meses antes do terremoto que abalaria a estrutura do país, a reportagem mostrou como essas Ong’s tentavam abolir o costume das famílias que maltratarem essas crianças que são consideradas órfãs de pais vivos. Segundo Luiz Crescenzo, as cenas que vivenciou, as entrevistas – uma delas com Bill Clinton (adido do Estados Unidos enviado para o Haiti), marcaram para sempre a sua carreira. Crianças se almentando de bolachas de barro, pessoas nuas dormindo nas ruas da cidade, são cenas que o repórter descreve com um misto de indignação e emoção e que renderam uma série de reportagens que o repórter afirma que nuca irá esquecer. Crescenzo fala pouco sobre o período pós sua demissão na EPTV até ser contratado, cerca de três meses depois para trabalhar na TVB em junho de 2011, exatamente a emissora onde ele começou na época que o canal de Orestes Quércia ainda se chama Princesa D´Oeste.

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Na TVB foi batizado pelos companheiros de emissora como a “Voz da População” e já fez diversas denúncias, uma série de reportagens na Amazônia e também foi vencedor do 15º prêmio Feac de Jornalismo, com a reportagem “Um caminho de esperança”, que contava a histórias de familias acolhedoras de crianças vítimas de maus tratos. Perguntado sobre a hora de parar, o jornalista é categórico: afirma que ainda tem muitod projetos, muitas aventuras e reportagens que gostaria de realizar. Brincando afirma “ainda tenho muito combustível pra queimar”. O mais novo projeto que o jornalista programa é uma expedição para Libéria, país extremamente pobre da África, onde pretende mostrar o resultado do projeto

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“Escola de Bambu”, que pretende construir uma escola para que 300 crianças da periferia de Monróvia, capital da Libéria possam ter acesso a educação. O trabalho é desenvolvido pelo Jornalista Vinícius Zanotti e mais de 30 voluntários que, com a ajuda de doações, constroem essa escola. Crescenzo conta que pretende ainda este ano, fazer uma viagem para contar a história desses voluntários e da comunidade de Monróvia, para mostrar como o projeto vem mudando a vida de cada um deles.

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GUSTAVO CARVALHO UMA HISTÓRIA DE JORNAL

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“A abertura da primeira agência da Caixa Econômica Federal em Campinas trouxe o agora aposentado jornalista Zaiman de Brito Franco, natural de Macaé no Rio de Janeiro, para a cidade. Com o vício pelo jornalismo e a paixão pelo futebol e poesia, Zaiman é um desses retratos vivos de uma época única, na qual teve cinco empregos, ganhou dinheiro e perdeu a mulher. Tudo assim: mil vidas numa só.


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iário do Povo, Jornal de Campinas, City News, Sucursal da Folha de S.Paulo, EPTV, Rádio Educadora AM, Rádio Brasil, Rádio Cultura e CBN Campinas são alguns dos veículos pelos quais o jornalista aposentado Zaiman de Brito Franco exerceu a profissão que descobriu ainda na adolescência. Hoje, aos 76 anos, ele dedica a maior parte de seu tempo para ouvir música popular brasileira, ler poesias e acompanhar, como sempre, os jogos da Macaca, time que conheceu quando chegou a Campinas. Ao entrar em seu apartamento – localizado em local nobre de Campinas, no bairro Cambuí - é possível identificar claramente que uma de suas paixões, além do jornalismo, claro, é o futebol. Único e exclusivamente da Ponte Preta. Em cima da TV está a prova: um quadrinho de 25 centímetros de altura por 15 de largura apresenta o código de ética do torcedor pontepretano que vai acompanhar de lá os jogos da Ponte realizados fora do Majestoso. As 14 regras ajudam a nortear as noites em que a bola rola no gramado da sala de Zaiman. Ele mesmo, durante nossa conversa, prontifica-se a falar qual a posição, ou melhor de cada um e apontar o lugar de cada torcedor, pronunciando nome por nome. Uma poltrona de couro e braços metálicos foi carinhosamente apelidada de camarote. Não é para menos, uma vez que é a mais confortável quando comparada aos três lugares do sofá, uma cadeira da mesa de jantar e três banquinhos. Zaiman acrescenta que a festa acontece toda vez que o time entra em campo no Majestoso, que, com sorriso, ele lembra que viu nascer.

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Outra paixão do jornalista é a poesia. Com empolgação, aponta com os dedos a estante da sala onde estão os principais livros que o acompanham todas as noites, horário que se dedica a ler. Há de se convir que, na estante, entre as publicações, estão porta-retratos com fotos da família e objetos que fazem alusão ao time do coração, como duas bandeirinhas da Ponte, uma macaquinha de borracha e um relógio. Quando não está dedicando tempo ao time, do qual também integra o conselho, nem lendo poesias, Zaiman ouve música popular brasileira. Daquelas que contam his-

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tórias, regadas de enredo e amarradas com o melhor do samba. Aquelas do morro. Para isso, Zaiman tem um velho companheiro, um micro-system que, mesmo com problema na tampa da bandeja em que coloca o CD, ainda toca com ajuda das mãos do dono, que segura o compartimento enquanto parece estar no local retratado na canção. Nascido em Macaé, no estado do Rio de Janeiro, o pequeno Zaiman - nome que mistura as partes iniciais do nome de sua mãe, Zaira, e Manoel, seu pai - perdeu o pai em decorrência de um derrame cerebral, aos 9 anos de idade. Pouco depois, sua mãe, que trabalhava na Caixa Econômica Federal, foi transferida para a capital Paulista e logo veio para Campinas para implantar a primeira agência do banco na cidade. “Viemos para Campinas, eu minhas duas irmãs e minha mãe. Nos primeiros meses, moramos em um pensionato na rua cônego Cipião e, depois, fomos para o pensionato na Avenida Moraes Salles, até que minha mãe alugou uma casa na Avenida Brasil”. Nessa época, Zaiman estudava no Colégio Culto à Ciência à noite e, para ajudar nas economias domésticas, trabalhava na Câmara Municipal de Campinas durante a semana, como office boy e, aos domingos, fazia bicos de rádio-escuta, na Rádio Brasil de Campinas. Rádio-escuta, no jargão da profissão, é aquele que tem a função de acompanhar as notícias da concorrência para saber o que os outros jornais trazem como notícia, além de estar atento às ocorrências de órgãos como os bombeiros e a polícia.

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O gosto pela leitura de jornais diários e da revista O Cruzeiro, aliado à vida boêmia, à música e às amizades que fazia no meio jornalístico fizeram com que Zaiman se apaixonasse pela imprensa. Sabendo disso, o então diretor do jornal “Diário do Povo”, Mario Erbolato, que, na época, também trabalhava no Legislativo, o chamou para fazer a rádio-escuta no período da noite. Naquela época, a redação ficava na César Bierrenbach, no Centro, o primeiro endereço do Diário, que circulou entre 1912 e 2012. Zaiman tinha de acompanhar o jornal da noite e fazer um relatório de tudo o que a


principal emissora de televisão da cidade estava dando como notícia. Com entusiasmo, Zaiman se levanta do sofá e conta, com a ajuda de alguns gestos, a cena que retrata quando descobriu seu vício pelo jornalismo”. Numa das noites, quando eu estava no Diário, me pediram para redigir uma notícia sobre a interrupção no abastecimento de água em um bairro de Campinas. Foi então que escrevi o texto. Naquela noite, eu não dormi direito até ler com meus próprios olhos e lamber aquele texto no dia seguinte, no jornal.” relembra. Na época em que Zaiman terminara sua vida escolar, não existia faculdade de jornalismo ou mesmo algum curso preparatório para se trabalhar em jornal. Foi então que um de seus colegas de trabalho da câmara, o historiador Júlio Mariano, aconselhou Zaiman que fizesse uma faculdade, o que lhe daria base para ser jornalista e algum diferencial para atuar na área. Zaiman matriculou-se na faculdade de Direito da PUC-Campinas em 1961, onde depois de sua formatura ainda chegou a lecionar por alguns anos.

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Ao relembrar essas histórias, Zaiman não se esquece dos amigos que fez pela vida. Carinhosamente, vai citando um a um... E, é claro, contando histórias que marcaram sua carreira. O jornalista odeia Carnaval. Ele conta que, certa vez, ainda na Rádio Cultura AM, seu colega de trabalho e amigo de longa data, Walter Paradella, decidiu que a emissora faria a transmissão da festa popular. Zaiman ficou indignado com a decisão do chefe. Contrariado, foi para a avenida. “Eu nunca gostei de Carnaval e ainda ficava imaginando quem estaria ouvindo o Carnaval pelo rádio. Com o centro da cidade abarrotado de gente, quem gostava de Carnaval, na minha cabeça, ou estava no salão ou na praça”. A transmissão começara e Zaiman, ao falar da festa, não mediava as palavras nem ponderava comentários. Era evidente aos microfones sua insatisfação em cobrir as festas que, mais tarde, lhe traria uma amarga lembrança e uma lição para toda a vida como comunicador. Quando era hora de entrar no

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ar, Zaiman desdenhava a falar mal das passistas, ridicularizar os carros alegóricos e proferir palavras que evidenciavam o mau gosto, na visão dele, de tudo o que via. A festa acabou. No dia seguinte, quando chegou para trabalhar na emissora e entrou no elevador do edifício Prudência, no Centro da cidade, onde fica a rádio, ao chegar no terceiro andar, eis que havia um corredor humano com pessoas que queriam vê-lo e arrancar dele uma explicação sobre o que acontecera para analisar tão mal aquele carnaval. “Quando estamos no rádio, não temos a noção de quantas pessoas estão nos ouvindo e para quem estamos falando. Essa é uma lição que eu aprendi e trago até hoje”. Para sair do embaraço, teve que pedir desculpas, mas não escapou da bronca de Paradella. Por fim, Zaiman entrega uma lembrança. Um livro em que seus amigos contam a cidade de Campinas na visão dele. Ele se levanta e me larga na sala da casa. Em menos de um minuto, volta com um exemplar nas mãos. Pega uma caneta do bolso, daquelas que costumam colecionar e coloca uma dedicatória. Zaiman conta que parou de trabalhar porque agora quer curtir a vida. “Teve época em que eu cheguei a ter cinco empregos. Na minha casa, em todas as gavetas que abríamos, tinha dinheiro. E assim eu perdi minha esposa, já que não ficava em casa. Hoje quero curtir minha vida, sair e, principalmente, namorar”.

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JÉSSICA KRUCKENFELLNER O COLECIONADOR DE FÃS

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Desde 1999, Edson Ishii administra um videokê ao lado de sua mulher, Lúcia, que está localizado na Praça Noel Rosa, 55, em Campinas. Entre músicas de Roberto Carlos e Adele, o ex-bancário procura manter um ambiente familiar e, sobretudo, cultivar boas amizades.


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rês tipos de pisos compõem a fachada do Karaokê Ishii Som. A entrada é discreta, tanto que muitos carros passam por ali todos os dias e, como eu, podem não ter reparado que, em frente ao balão da antiga Telesp, na praça de nome musical - Noel Rosa - Edson e sua mulher comandam um negócio que tem o poder de transformar cidadãos comuns e pessoas solitárias em personificações de Adele, Fábio Júnior e Roberto Carlos. Esse poder de transformar está ligado ao ambiente interno do estabelecimento. Se, por fora, passa despercebido, quem adentra se depara com um local marcado pela decoração natalina que resistiu ao ano novo, Carnaval e Páscoa. Numa quinta-feira de garoa em Campinas, Edson abriu o karaokê para atender a reservas prévias - para ele, é melhor assim. Tem dias em que o movimento, de fato, não justifica a abertura e ele aproveita o tempo livre pra cuidar da administração.

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Eu estou sentada em uma mesa que divido com duas amigas e outros dois grupos nos fazem companhia. Do meu lugar, encostada na parede e de frente para o palco, observo os detalhes do salão. Além da decoração remanescente, vejo as mesas de madeira clara, estofadas com um tecido de fundo creme e decoração de rosas. As rosas não têm espinhos. Descubro, depois, que o próprio Edson cuidou de renovar o tecido das cadeiras, como um bom colecionador que cuida afetuosamente de seus pertences. “Doente de amor, procurei remédio na vida noturna, com a flor da noite em uma boate aqui na zona Sul”. Este refrão, da famosa “Boate Azul”, está entre os mais tocados por lá. A atmosfera transmite mesmo certa melancolia que está presente nessa música de Milionário e José Rico. Os grupos que encontrei no local, apesar de formados por, no mínimo, duas pessoas, deixam a impressão de que ali há pessoas solitárias em busca não só de diversão, mas da amizade desinteressada que Edson e sua

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mulher, Lúcia oferecem. “Nós nem procuramos saber como é a vida da pessoa lá fora. O que importa é aqui. Somos amigos de todo mundo, sem distinção”, explica o dono do karaokê, que recepciona os clientes na porta. Assim como a boate da música, o lugar também tem um gosto duvidoso, que mistura heróis de histórias em quadrinhos, símbolos japoneses e fotos do Santos, o clube para o qual Edson torce. As paredes são revestidas com um tecido que lembra um carpete preto, destes que encontramos em casas de show. Há também revestimento acústico em parte das paredes e uma porta entre o salão e o hall ajuda a isolar o som. Um portal de estilo japonês, na cor vermelha e com duas barras na horizontal, marca a entrada. A presença de figuras de super-heróis nos números das mesas e pôsteres nos banheiros é logo explicada pela paixão do dono por histórias em quadrinhos, que tem como personagens principais os super-heróis da Marvel e DC Comics. Tanto era apaixonado que Edson colecionava gibis desde o primeiro número, na época em que não era casado. Com a união e a junção dos pertences em 1986, ele conta que não sabe onde os gibis foram parar. Ao questionar Lúcia se ela teria dado fim na coleção, que hoje teria muito valor, ela desconversa.

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E o gosto pelos gibis atribui a Edson uma personalidade jovial. Sim, ele conversa com pessoas de todas as idades, sem barreiras ou timidez. Mas de mangás, os gibis modernos de origem japonesa, ele não entende e não quer saber, diz que é coisa da qual os filhos gostam. A paixão que Edson e Lúcia têm pelo karaokê, expressa no esmero com que cuidam do local e de seus clientes, não foi herdada pelos filhos, que já não partilham do mesmo apreço e nem ao palco sobem. Ao contar isso, Edson reflete a respeito do futuro do negócio. “Eu queria que meus filhos ficassem com isso aqui, mas eles querem outra coisa, não têm o mesmo amor”, lamenta.


Os filhos aos quais se refere são Bruno, de 25 anos e Lucas, de 21. Ambos trabalham no banco, como o pai, que o fez por um quarto de século no cargo de gerente geral do extinto “América do Sul”, que foi vendido. E, em 1999, Edson se viu desempregado e ficou “parado”, como ele mesmo define, por três meses. Depois do pequeno sabático, ele poderia ter procurado emprego em outros bancos, investido num tipo diferente de negócio, com maior rentabilidade e possibilidades de expansão. Mas a vontade de abrir espaço para deixar as pessoas cantarem já existia antes da mudança na vida profissional. Começou no Rio de Janeiro, uma das muitas cidades na qual Edson morou, sempre conduzido por mudanças no banco. Sato, dono do karaokê Wave e amigo de Edson, dos tempos em que ambos trabalhavam no América, levava a turma do trabalho em um karaokê no Rio. Mas o dono do Ishii não gostava muito. “Era só de japonês”, comenta. Mas eles cantavam também em português e inglês - idioma ao qual Edson se refere por vezes como “inglês americano”. Sua estreia foi com a música “Gita”, de Raul Seixas, que deu nome ao terceiro álbum solo do cantor, lançado em 1973.

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Nos finais de semana, Edson e Lúcia têm a ajuda dos filhos e de mais uma equipe de funcionários que trabalha com eles. O salão, que na quinta estava quase vazio, se transforma para receber, em sua lotação máxima, cem pessoas sentadas, mas que já chegou a 198 em um aniversário histórico na casa. Um enfermeiro, cliente fiel e que canta músicas do Sidney Magal como ninguém, sempre celebra no Ishii com uma festa de dois dias, que já teve até show de uma drag queen amiga do aniversariante. Ao ser questionado se não enjoa de ouvir tantas vezes as mesmas músicas, Edson é enfático. “Eu posso escutar mil vezes, mas cada pessoa canta de um jeito, então nunca é igual”. E ele até reconhece as vozes dos clientes que sempre estão por lá, como o casal Adnaldo e Verusca, que frequentam o Ishii toda semana. Sem espaço

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pra vaia, fica difícil resistir ao impulso de subir no palco e cantar também. Eu escolhi “Leãozinho”, de Caetano Veloso e o que parecia fácil, como uma simples experiência de imersão, se transformou num pesadelo momentâneo. Mas, nem assim, com a execução sofrível de uma música, a vontade de ir embora se sobrepôs a curiosidade. Até permanece certa vontade de cantar outra vez. Guilherme, outro cliente antigo e que agora mora fora do país, recebeu vaias em outro karaokê, que quase acabaram com um hobby que ele cultivava com os pais há anos. Bastou voltar ao Ishii que o medo e o trauma da rejeição pela plateia cessaram e ele voltou a cantar em “inglês americano” e sorrir depois de ser aplaudido pelos clientes. “Ninguém aqui é profissional e todo mundo vem pra se divertir. Se alguém vaiar, é convidado a se retirar”, explica Edson. Integrante de uma família com mais cinco irmãos, Edson é o terceiro na ordem de nascimento e o único que não joga golfe, esporte praticado e amado pelos outros três irmãos e as duas irmãs. Ele diz que “tá fora” do golfe, mas, sempre que pode, a família se reúne. O dono do Ishii Som nasceu em Marília, no interior de São Paulo, em 17 de novembro de 1955, mas foi no dia 9 de outubro de 1999, com a abertura do karaokê, que a trajetória de Edson deixou o lugar comum destinado aos gerentes de banco e agora faz história com os clientes apaixonados pela esfera do lugar e pela amizade do empreendedor com traços orientais e um sorriso simpático no rosto.

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LAURA MESTRES O ARTISTA ESTÁ ESTRESSADO

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O estresse de trabalho não é coisa de engravatados e banqueiros. O ator Ton Crivelaro viu um susto chegando e, no Teatro Castro Mendes, anunciou que estava morrendo. O ato desencadeou cuidados com a saúde, só que nada podia adiar a estreia da peça “Sexorisos: Freud Explica, a Gente Complica”. Mas Tom não é simples assim e, para vê-lo, é preciso ir além do primeiro ato.


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on Crivelaro está hipoglicêmico e estressado. Agora, entre uma cena e outra, o ator recorre a uma banana, uma maçã ou uma bolacha. É que o médico disse que ele não pode ficar mais de duas horas sem comer. “Você vê muito profissional estressado por causa de trabalho, mas não imagina que isso vai acontecer com um ator”, brinca o artista. No dia 12 de janeiro, momentos antes da estreia da peça “Sexorisos: Freud Explica, a Gente Complica”, no teatro Castro Mendes, Ton Crivelaro sentiu um mal estar. Ele sabia que a estreia não poderia ser adiada, mas percebeu naquele momento que não estaria presente para assistir o espetáculo. Para a filha, Camila, Ton pediu que cuidasse da parte técnica. “Você cuida de tudo aqui. Aconteça o que acontecer, a peça estreia hoje. Você ouviu? Aconteça o que acontecer.” Enfatizou o pai. Em seguida, pediu o microfone para falar com os atores, mas sequer conseguiu segurar o instrumento de trabalho. Caído no chão do teatro, Ton pediu ajuda à namorada, Fabíola. “Me leva pro hospital agora porque eu estou morrendo”.

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Camila se surpreendeu diante da repentina fragilidade do progenitor. “Meu pai sempre foi um touro, ele nunca para”. Mesmo sem conhecer a peça, a garota tomou as rédeas do espetáculo. “Era o filho dele nascendo e ele não estava ali para ver”, lembra a caçula. Neste dia, o Castro Mendes recebeu o maior público da 28a Campanha de Popularização do Teatro em Campinas. 5 dias na UTI, 10 dias hospitalizado e um tratamento que continua. O desequilíbrio da glicemia causou uma crise de pancreatite. Hoje, Ton Crivelaro toma insulina diariamente e a saúde passou a integrar o seu leque de prioridades. A princípio, pensou que, de fato, não sairia do hospital com vida. Chegou a pedir que Camila assinasse em seu nome os pa-

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peis da casa que estavam vendendo. Dois dias depois, chegou Gabriela. A outra filha voltou de uma viagem pela Europa assim que soube do estado de saúde do pai. Para ela, o estresse não foi o único problema. A vida boêmia, a alimentação não muito saudável e a falta de acompanhamento médico também tiveram seu papel na história. Não obstante, mesmo com a saúde fragilizada, para Ton tudo valeu a pena. 2012 foi um ano de trabalho intenso. Ele atuou em 10 longas, 2 monólogos, dirigiu 3 espetáculos e engajou-se na reinauguração do teatro Castro Mendes. Tanto trabalho também trouxe reconhecimento: no ano passado: ganhou o prêmio de melhor ator do interior de São Paulo, concedido pela Organização das Artes. Crivelaro ainda se arrepia ao lembrar do momento em que recebeu o prêmio na Companhia Campinense de Letras. As filhas também se orgulham. Dizem ter na figura paterna um exemplo de luta e amor à profissão. “Meu pai é uma pessoa muito firme. No mundo em que vivemos, principalmente nessa classe campinóide que vomita burguesia e vai ao teatro só para ver ator global, ele é uma pessoa que representa esse outro lado, que luta pelo teatro local”, afirma Gabriela, que herdou do pai o senso crítico. Artista por talento e ator por profissão, Ton Crivelaro encara o teatro como uma missão. “O ator não é um simples trabalhador. Ele é um sacerdote”, afirma.

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Nos palcos há 50 anos, foi no circo, ao lado do pai, que Ton estreou. Seu primeiro papel foi o palhaço Chico Tampa. O teatro mesmo começou no salão paroquial de uma igreja em Tupã. Em 1979, ganhou o Prêmio Presença de Teatro, o qual foi muito divulgado e incentivou que o então menino abandonasse o sonho de ser cantor e se dedicasse aos espetáculos.

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Foi por meio desta profissão que sustentou a família. “Tivemos momentos de dificuldades, mas nunca faltou pelo menos arroz e ovo em casa”, lembra a filha mais velha. Também foi com o teatro que Ton militou a favor dos movimentos de ocupação de terras. Em certa ocasião, chegou a capinar um terreno para a apresentar um espetáculo. Assim como a língua presa nunca segurou seu espírito de artista, a hipoglicemia também não pôs fim aos seus dias de trabalhador. No dia do último espetáculo da Campanha de Popularização do Teatro campineiro, Ton teve uma melhora significativa e voltou para casa. Pouco mais de 3 meses após sua internação, retornou aos palcos com o espetáculo “Bella Polenta”. Ao som do xará Tom Jobim, o ator se prepara para retornar aos palcos. Entre um traço e outro da maquiagem, tateia a gaveta à procura da gravata borboleta que completa o figurino de Bepe, personagem que interpretou por 11 anos.

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Dos dias no hospital, Ton não fala muito. Isso porque a doença que atingiu seu corpo não alcançou sua mente. Sem arrependimentos, Ton quer mesmo é ser feliz. “Acho que ele entendeu que ninguém é Iron Man, que a gente precisa prestar atenção em outras coisas também”, diz a filha Gabriela. Para a mais velha, todos na família hoje têm um outro olhar sobre a fragilidade da vida. Depois do susto, o pai procura passar mais tempo com a família e os amigos. Também está se alimentando melhor e procura encarar as dificuldades com mais leveza. “Eu acredito que pela primeira vez na minha vida estou me sentindo realmente vivo”. É com esta fala que Ton Crivelaro encerra este ato de sua vida.

(Des)conhecidos Avenida Paulista por Izadora Pimenta


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MARCOS ARAÚJO ASSOCIAÇÃO ATLÉTICA “CONCEIÇÃO” PONTE PRETA

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Identificar a perfilada apenas pelo nome Maria Conceição Rodrigues não dá ao leitor nenhuma pista de quem é esta personalidade do mundo do futebol. Mas, se disser Dona Conceição, fica mais fácil. A torcedora-símbolo da Ponte Preta, talvez o único time no Brasil que ainda tenha um símbolo que se relacione com a sua história de maneira apaixonante. Dona Conceição é um misto de amor e devoção à Macaquinha.


O bloco C do apartamento 24, verde e branco, contrasta com as cores de seu único amor na vida. A Ponte Preta também é conhecida por ela ou ela é conhecida pela devoção à Ponte Preta. Talvez as duas possibilidades se complementem. Apesar de morar em um local que tem as cores do maior rival, o Guarani, Dona Conceição é preto e branco. Logo na porta de entrada, que dá acesso direto à cozinha, vêse um copo parecido com aqueles que se bebe whisky com o distintivo da Ponte Preta bordado. Água, só nele, porque o time está lá, estampado. Na sequência, vem a sala, onde está uma estante com a televisão que tinha acabado de queimar. Reclamava para mim como veria a novela naquela noite, “que está tão bonita”. Do lado direito, a cama a qual ela me esperava deitava, desenrolada. Com muita dificuldade, fez questão de levantar-se, apoiando-se no colchão com o cotovelo esquerdo, o lado que não foi afetado com o derrame hemorrágico sofrido há quatro anos, em um dia de Páscoa, como faz questão de lembrar.

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O sorriso em me ver tinha nome: Ponte Preta. Afinal, foi com este objetivo que fui ao Condomínio Sírios, na Vila Padre Manoel Nóbrega, Rua Cormorão. Saber como a torcedora-símbolo acompanha seu time de coração, como são seus dias. Mais do isso, quem é a Dona Conceição de carne, osso, alma e sofrimentos, como me relatou. Puxei uma das cadeiras da mesa de seis lugares disposta à lateral esquerda da cama. Sentei-me e nem tive tempo de perguntar. Com os olhos, apontou para o fundo, diagonal à direita, ao lado do banheiro, onde uma macaca de pelúcia enfeita uma prateleira. Pela primeira vez de mais seis durante a entrevista, chora. Chora de amor pela Ponte Preta. Ainda derramou por mais três vezes lágrimas imaculadas pelo clube do coração. As outras duas vezes foram ao lembrar-se de sua mãe de gene.

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Prestes ainda a completar 77 anos, no sábado, 18, a memória de Conceição continua intacta. Recorda-se com uma facilidade invejável minuciosos detalhes que passou nas quase oito décadas de vida. Descreve com perfeição a primeira vez em que pisou no Estádio Moisés Lucarelli, quando ainda era criança e trabalhava em Campinas como empregada doméstica. Conceição driblou a patroa que havia pedido para que ela levasse os filhos à matinê (demorei a perceber que o termo é sinônimo de cinema para a época). Curiosa para saber como era uma partida do esporte que é jogado onze contra onze, foi-se com as duas crianças ao Majestoso ver a Ponte Preta. “Falei para eles: ‘Toninho, Hélio, nós não vamos na matinê, não. Vamos ver como é um jogo de futebol’”. O jogo era contra o Corinthians, que sempre foi a pedra no sapato da Macaca – muito mais do que o rival Guarani. O resultado: empate por 1 x 1 no dia 23 de janeiro de 1955, um sábado. O estádio tornou-se sua segunda casa a partir daquele dia.

Ela fica próximo ao portão que dá acesso ao vestiário da Ponte Preta. Sentada na cadeira de rodas – ainda não consegue andar por conta do derrame -, só falta levantar-se de tanta agonia e transmissão de boas energias aos jogadores da Nega Véia. O al-

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Mesmo com limitações na locomoção, faz questão de acompanhar todas as partidas da Ponte Preta no Majestoso. Antes, até viajava para aonde a Ponte iria jogar. Comprava a passagem na rodoviária e seguia de ônibus. Tudo bancado pelo próprio bolso. Voltava com a delegação ou arrumava uma carona. Segundo sua “mãe” Maria de Fátima, assim chamada por Dona Conceição a mulher que cuida da Torcedora Símbolo, em dia de jogo ela fica elétrica. Desperta às 8h, põe-se no Majestoso às 10h, ainda que a partida seja às 16h ou às 18h30. É a primeira a chegar. Um táxi a busca no condomínio junto com um segurança da Ponte Preta e a deixa no estádio. Acaba a partida, desce ao vestiário para conversar com os “meninos” e vai embora. É a última a sair. O homem de preto fica junto a Conceição todas as horas, levando-a a todos os cantos.


goz é o árbitro. “Eu mando ele para a puta que pariu”, esbraveja no pequeno cômodo de 30 metros quadrados que ainda tem o banheiro localizado à diagonal esquerda da cabeceira da cama em que Conceição já está sentada enquanto conversa comigo. Ela não se intimida em chorar. Lava os olhos com lágrimas que demostram uma devoção quase que religiosa à Ponte Preta e a tradução de uma vida repleta de percalços, sofrimentos, angústias e misérias mil. Ouso a afirmar que a relação Ponte Preta-Conceição esteja intimamente ligada à história de cada uma. A Ponte Preta nasceu no dia 11 de agosto de 1900 por alunos do Colégio Culto à Ciência e trabalhadores da Fepasa. O nome Ponte Preta é oriundo justamente de uma ponte de madeira com acabamento de piche no local em que surgiria o time mais antigo do Brasil. Gestação mais modesta se comparada ao arquirrival Guarani, que tem o nome vindo da ópera O Guarani, de Carlos Gomes.

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Maria Conceição Rodrigues nasceu no dia 18 de maio de 1936 em Casa Branca, mas foi criada no Colégio Santa Terezinha, em Osasco, junto com as freiras até os 12 anos de idade. Depois, veio a Campinas trabalhar como empregada doméstica. Casouse, mas separou-se porque “o marido era puteiro”. Ainda completa dizendo, com os olhos marejados, que sua saída do colégio interno provocou mudança radical em sua vida. “Enquanto eu estava no colégio, estava bem, depois minha vida virou. Saí do colégio para ser jogada. Aí fui ver o mundo”. Do pai, Conceição lembra apenas do nome: Antônio José Rodrigues. Não soube precisar as feições, porte físico. Apenas lembra que ele morreu cedo, mas também não conseguiu dizer o motivo. No entanto, de sua mãe, Elvira Teixeira Rodrigues, tem mais lembranças e lamenta. “Vi minha mãe só uma vez na vida, e eu lembro dela até hoje. Tudo passa, mas eu sempre alembro dela. Ela me deu um beijo aqui (aponta com o dedo indicador da mão esquerda para a bochecha da mesma posição). Minha mãe tinha lepra; não tive mãe”.

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Entre uma pergunta e outra na entrevista, Conceição interrompe o raciocínio para perguntar-me o time que torço, se tenho mãe, para conversar com sua “mãe” Maria de Fátima, pedir cigarro e comprar “coisas” para preparar a sopa. Falando em Maria de Fátima, a cuidadora de Conceição tem este desafio há pouco mais de um ano. Mora na rua acima do Condomínio Sírios. Chega ao apartamento da senhora Torcedora Símbolo por volta das 8h, dá banho, faz o café da manhã. Volta somente no horário do almoço e depois no final da tarde para oferecer lanche ou jantar. Conceição não passa a noite sozinha. “Eu e Deus”, corrigindo-me quando pergunto se não sente medo da solidão noturna. Segundo a “mãe” relatou, Conceição tem um gênio difícil. Outras pessoas já passaram por aquele apartamento para cuidar dela, mas sua personalidade forte e a paciência curta fizeram com que fossem embora. “Tem que ter paciência, porque eu vejo ela como se fosse uma criança. Alguns dias ela está mais brava, me xinga, mas eu deixo passar, eu entendo que não é porque ela quer”, afirma.

E, justamente, aquela terça-feira de sol estava prevista para Conceição andar. Fez exercício de locomoção, alongamento, coordenação e reforço nos ligamentos no braço e na mão do lado

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Todo jornalista também é constituído por um pouco de sorte. Estar na hora certa, no dia certo, ajuda em várias pautas. E comigo não foi diferente. A terça-feira, 7 de maio, em que fui visitar Dona Conceição, era dia de sua fisioterapia. A profissional que trabalha na Ponte Preta faz duas seções por semana na Torcedora Símbolo – a outra é na quinta-feira. Os custos são arcados pelo presidente afastado do clube, Sérgio Carnielli. Camila Cristina Oliveira Santos é a mesma que está cuidando da recuperação do volante Ferrugem, que sofreu uma grave lesão no tornozelo esquerdo durante o Campeonato Paulista.


esquerdo. Em um deles, cujo objetivo era pegar uma bolinha com a mão, a Senhora fitava-se penetrando seu olhar profundamente em meus olhos me desafiando. Seus olhos verdes me diziam “eu vou conseguir pegar”. E assim foi feito. A programação de andar não se realizou, mas a etapa de pegar o objetivo circular com a mão, o que antes não conseguia, foi alcançada. E como recompensa, distribui sorrisos a mim, a sua “mãe” e a fisioterapeuta. Até mesmo o torcedor bugrino reconhece a devoção de Conceição à Ponte Preta. “Esta mulher, sim, fez muito pelo time”, assume Toninho, fanático pelo Guarani. “Um dia a Ponte Preta iria jogar em Recife, contra o Náutico. Ela chegou lá dois dias antes, arrumou o vestiário e falou: ‘Agora, é esperar meus meninos chegarem’”. O respeito da pontepretana pelo time verde e branco também é mútuo. “Eles lá, eu aqui”, afirma evasiva.

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Além da novela que a acompanha todas as noites, Conceição também interage com os programas de esportes, principalmente os comandados por Milton Neves e Flávio Prado, os quais, segundo ela mesma confessa, são seus amigos. “O Milton toca aqui (também demorei certo tempo para entender que a expressão é sinônima de ‘ligar’) e a gente conversa. O Flávio às vezes sai de São Paulo só para me visitar, depois passa na Ponte Preta e fala de mim no programa dele (Mesa Redonda)”. E é o próprio Flávio Prado que agora fala de Conceição. “Eu a conheci há 30 anos, quando ainda era repórter. Ela ficava ali no alambrado xingando juiz, apoiando os jogadores. E assim começou nossa amizade. Hoje os times estão perdendo os seus símbolos. E a Conceição é o símbolo da Ponte Preta”. E assim o coração preto e branco de Dona Conceição bate freneticamente no apartamento 24 de um bloco verde e branco (não se enganem pela cor) do Condomínio Sírios. A Associação Atlética Ponte Preta está em sua vida marcada como uma tatuagem. Dona Conceição está imanente à Ponte Preta.

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NATÁLIA BERALDI SEMENTES DA PRIMAVERA

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Ruth Maria de Oliveira biologicamente é mãe de dois filhos, mas de coração, é de muitos. A atual diretora pedagógica do Grupo Primavera circula sempre pelos corredores em cima de um salto e está sempre atenta a cada uma das 500 meninas e histórias que por ali passam. Trilhou os seus objetivos, refez os trajetos e hoje, dentro de uma ONG em um bairro de periferia em Campinas, é mais uma vencedora.


Quando questionada sobre quem ela é, Ruth Maria de Oliveira se emociona. O barulho de crianças que se ouve de sua sala no grupo Primavera, onde ela é a atual diretora pedagógica, tem muito a ver com a sua própria história. Em cada uma das 500 meninas atendidas pela Organização Não Governamental (ONG) no Jardim São Marcos, em Campinas, ela vê um pouco da sua trajetória. Sempre com salto alto, altiva, com maquiagem e anel que se vê de longe, Ruth teve uma infância pobre, assim como as alunas. Estudou em escola pública, veio de família humilde. Para as crianças, também é uma espécie de espelho: muitas querem ser como ela. Professora de História e Geografia, não se preocupa em ensinar, somente: quer que as meninas aprendam a sonhar, acreditar, traçar os próprios caminhos, fazer acontecer. Sempre preocupada em dar uma boa educação tanto a seus filhos e como aos jovens que por ela passam, a educadora se dedica à ONG há quase nove anos. Desde a primeira vez que entrou ali, soube que era o seu lugar. Suas limitações na infância são semelhantes a das meninas do Primavera, principalmente as financeiras. Fruto de uma família humilde, seus pais, que não tiveram a oportunidade de estudar, sempre transmitiram aos filhos valores e perspectivas. Foi empregada doméstica aos 11 anos, casou aos 22, formou-se em duas faculdades e cresceu com o gosto de ajudar o outro.

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Biologicamente, é mãe de dois filhos, mas de coração, mãe de muitos. É daquelas mães que mal escutam um barulho agudo e já correm para ver se tudo está bem. Sabe a hora educar, conversar, acolher, corrigir, brigar e dar o ombro para um choro. Através do que me conta, percebo que ela desenvolveu este olhar materno, por sentir-se responsável por todas elas. Mantém a porta de sua sala aberta em todos os momentos, sempre ativa, em pé, falante e sorrindo. Deixa de fazer qualquer coisa para estar próxima de suas meninas. Os corredores, salas e murais são cercados por fo-

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tos, livros, e lembranças de mais de 30 anos de história. “Eu sou a dona Ruth do futuro”, diz uma aluna, que, com pouca idade, já pensa em ocupar o seu lugar. “Não pelo cargo, mas pelo que ela faz pelas pessoas”. A educadora sempre desejou essa profissão, e com gratidão explica que o resultado de todo o seu trabalho hoje é a referência para as meninas do São Marcos. Uma grande responsabilidade, carregada com sorriso no rosto, pensamentos e ações positivas. “Busco sempre ser uma figura positiva para elas, porque imagens negativas elas já possuem o bastante dentro de casa”, diz, com certo lamento nos olhos. Trabalhar por inteiro, de corpo e alma, é seu lema. Está sempre disposta a acolher cada uma das meninas que participam das atividades da ONG. Lida com cada uma, com suas histórias, problemas pessoais e conflitos familiares. “É um episodio novo a cada dia”. Seus desafios vão desde ensinar uma menina a segurar um garfo, portar-se à mesa, até a ver suas próprias realizações, as transformações ocorridas em sua vida.

Jéssica Nayara fez questão de deixar registrado as suas palavras. Depois de ter passado pelo Grupo Primavera, hoje cursa Engenharia de Alimentos na Faculdade Federal do triangulo mineiro (UFTM) e já visitou o Estados Unidos duas vezes, como consequência de seu envolvimento com a arte, o sapateado. “Hoje, uma

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Ruth, mesmo carinhosa, nunca perde a firmeza. Suas palavras e ordens ajudam-na a manter uma postura autêntica e verdadeira. Sente que assim dá o melhor de si para educação de todas. “Os resultados são significativos, e muito bons, mas nem sempre. Esses casos nos trazem a solução do que preciso melhorar e qual é o lado que preciso olhar e cuidar mais”, confessa. Sobre as meninas do Grupo Primavera, ela diz, cheia de orgulho, que são vencedoras. São crianças e adolescentes que vivem em um lugar cercado por coisas erradas, não apenas por ser periferia da cidade. Todos sabem que isso está presente em todos os lugares hoje, mas alimenta a ideia de que mudanças dependem somente de vontade.


parte de mim são de conquistas maravilhosas, mas a outra parte é de gratidão. É indispensável ter apoiadores e amigos ao seu lado, afinal, ninguém caminha sozinho. Vivo agora as flores do ‘Primavera’, que me fizeram florir em outros jardins.” conta, com orgulho. Mas há também aquelas que, por mais que recebam toda a atenção, ajuda e apoio em cursos profissionalizantes preferem ficar no bairro, por medo ou receio de como será. Muitas perdem oportunidade de terem trabalhos mais dignos quando atingirem a maioridade. Não sabem como é viver fora dali e nunca conheceram outros lugares em Campinas. Olhando pela janela de sua sala, sempre atenta, me faz ter certeza de que as que passam por lá já são vitoriosas, por estarem ali, buscando viver em um ambiente melhor, desejando mudar o rumo de suas vidas. Com lágrimas nos olhos, sente-se feliz por fazer parte dessa escolha. “O papel do educador não é olhar um todo, é olhar cada um de um jeito diferente”. No anonimato de suas escolhas, dentro de uma ONG, em mais um bairro de Campinas, é também uma vencedora.

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ANA LETÍCIA AZEVEDO M DE MARIA, M DE MADÚ

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A trajetória de duas marias, a Madú e a Cida, com profissões semelhantes e destinos opostos, essas mulheres estabeleceram laços familiares em cidades distantes das quais nasceram, traçaram uma rota diferente, mas não se esqueceram das origens. Duas vidas de batalha, por conforto e tranquilidade fora do lugar comum.


O

edifício Gardênia, número 1728, é um prédio bem alto, com 18 andares e dividido em dois blocos: A e B, ambos com uma tonalidade cinza claro, localizado em uma avenida movimentada, divida por um canteiro com pouca grama e árvores dispersas, utilizado para separar os sentidos da rua. O som impaciente dos motores e buzinas de carros, motocicletas e ônibus preenche o local, que está sempre cheio. Pessoas que vão e vem o dia todo, seja voltando para casa, indo trabalhar, esperando ônibus ou carona, indo ao banco ou simplesmente que param para abastecer o carro. Essa é uma das avenidas mais movimentadas da cidade de Campinas, a tão frequentada Doutor Moraes Salles. O homem a quem se refere a tal agitada avenida era um advogado, formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Antonio Carlos Moraes Salles era monarquista e defendia suas convicções na sua própria coluna no jornal Correio de Campinas. Foi reconhecido por sua capacidade e inteligência profissional. Em 1997, mais precisamente cento e cinquenta e um anos depois, nessa mesma avenida, encontra-se na altura 2227, o jornal “Primeira Mão”. Lá trabalhou Maria Carmo Souza, a Madú – uma prendada dona de casa de lares alheios- como captadora de anúncios. Foram, no total, 4 meses de serviço, somente 1 registrado. Na época, o plano de saúde oferecido pelo jornal não era bom o suficiente para mantê-la naquele lugar, então decidiu sair.

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Maria Carmo e Antonio C. Moraes Salles têm em comum, provavelmente, só o trabalho em um jornal e o empenho profissional. Nascida em 2 de setembro de 1955, em Casa Branca, Madú viveu por lá até os 41 anos de idade. Estudou até o 2º colegial e, logo em seguida, teve que ajudar nas contas de casa. Trabalhava como recepcionista em uma clínica de dermatologia, não se lembra exatamente por quanto tempo. Seis anos após seu primeiro emprego, Madú engravidou, aos 22 anos, da sua primeira e única filha, Marcela Sousa. Com a voz serena, como quem nunca tivesse se estressado na vida, e mãos inquietas como se não achasse lugar para posicioná-las, não quis comentar sobre o pai de Marcela.

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Já em 1997, com emprego garantido no “Primeira Mão”, locou um apartamento no Edifício Gardênia, número 54, no 5º andar, onde vive até hoje com a sua filha. Após sair do jornal, conseguiu outro emprego como recepcionista, dessa vez em um escritório de dentista – trabalho muito similar ao que tivera aos 16 anos - porém não foi ali que se fixou. Há sete anos Madú optou por ser autônoma, começou a trabalhar como diarista em casas de estudantes, mesmo antes da legislação das domésticas mudar. “Prefiro ser diarista, ganho bem e não trabalho tanto como as empregadas fixas. Além disso, considero meus meninos (os estudantes pra quem trabalha) filhos de coração”, diz. Em contra ponto e a mais de 120km de Maria Carmo, a empregada doméstica Maria Aparecida da Silva trabalha em Jacareí, interior de São Paulo, no Vale do Paraíba. Por mais de 18 anos em uma única casa de família, Cida trabalha registrada e, com todos os documentos regularizados, não passa mais de 8 horas por dia exercendo sua profissão. Férias, INSS e décimo terceiro são garantidos pelos seus ‘’patrões’’ muito antes da nova legislação. A única mudança benéfica, no caso, foi o pagamento do FGTS. Intitulado em 1966 pela lei nº 8.036/90 e pelo Decreto 99.684/901, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço garante ao trabalhador benefícios diante problemas de saúde e rompimentos com o vínculo empregatício.

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Tanto Madú como Cida viajaram em sentidos opostos na vida e no Brasil, porém, com a mesma função: espairecer. Enquanto uma fazia cruzeiro para Argentina, outra viajava de carro (pois tem medo de avião) para Paraíba. Com o álbum de fotos na mão, Maria do Carmo relembra momentos da viagem de navio, que fez com a sua filha e a neta postiça (sobrinha de uma amiga, que os anos trouxe para perto). Mostrava ânimo ao contar que conhecera outro país, mas o que realmente a deixa com a voz e expressão de ineditismo foi andar pelas águas do Oceano Atlântico - apesar de sentir enjoo nos primeiros dias, a experiência que estava vivendo era única. Ao contrário da opinião da mídia brasileira devido à rivalidade futebolística, Madú achou os “hermanos” simpáticos, mas suspirava mes-


mo quando a luz solar refletida nas águas invadia seus olhos. Ir para lugares desconhecidos faz com que a casabranquense renove as energias para os dias rotineiros. Já, Maria Aparecida sempre viaja para o nordeste brasileiro - voltar às origens a faz refletir tudo que mudou em sua vida e o tanto que seu destino seria diferente se permanecesse na Paraíba. A viagem de, aproximadamente, dois dias, é muito mais cansativa e menos turística do que a primeira mencionada, porém o motivo é nobre: visitar a família. Com pausas em pequenas pousadas espalhadas pelas rodovias brasileiras, Cida leva a família que construiu em São Paulo: o marido Geraldo, os filhos Ginaldo, de 24 anos, George, de 26 e o neto Gustavo, de 5 anos, para vivenciar boas histórias. Sua mãe, de 78 anos, vive na cidade em que “o sol nasce primeiro”, como é turisticamente conhecida João Pessoa, junto com os outros quatro filhos, e - não numerados - netos e bisnetos. Com o olhar tão cheio de água como as águas que Madú vera, Cida tem enorme prazer em rever toda família que ficou no nordeste – pensa até em voltar para lá um dia – sentir o tempero ardente e único da comida local traz boas lembranças ao seu coração.

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Maria Aparecida da Silva nasceu em 14 de fevereiro de 1961, em João Pessoa na Paraíba. Veio para o interior de São Paulo sem ter terminado a 8ª série do Ensino Fundamental- com 24 anos junto com o marido Geraldo da Silva, na época com 28 anos. Recém-chegada em Jacareí, Cida trabalhou no setor de limpeza da empresa Henkel, em 1985, onde permaneceu por 9 anos. Porém, abandonou esse emprego devido à outra proposta de trabalho, dessa vez em uma casa de família. A princípio iria ganhar menos, mas o tratamento que iria receber acreditava que seria melhor. “Os funcionários da limpeza não eram bem tratados pelos chefes. Pagavam bem, mas a gente era qualquer um lá dentro”, comenta, com voz marcante e sotaque inconfundível. Ao contrário do que acontece na casa em que trabalha atualmente, a filha dos “patrões”, principalmente, a considera como membro da família.

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Ambas construíram a vida longe da cidade onde nasceram, escolheram profissões semelhantes e destinos opostos. Batalharam e batalham para terem uma vida confortável e tranquila. Sem se esquecerem de suas origens, as Marias estabeleceram laços familiares em cidades distantes das quais nasceram, sejam laços sanguíneos ou não, traçaram rumos diferentes aqueles que o destino lhes oferecia. Cada viagem realizada vale para estabelecer vínculos ainda mais fortes com a família e vida que escolheram.

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ANA PAULA REZENDE ERA PRECISO VOLTAR A VIVER

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Ele aprendeu cedo que n達o se abusa nem da sorte nem do anjo da guarda. Um descuido, se isso explica essas coisas de destino, colocou um jovem numa cadeira de rodas. Cedo demais e Washington Silva sabe, tanto que deixa claro o que pensa da vida quando a define como curta. Ele estampa uma realidade que perdemos no olhar viciado sobre a cidade e seus pares.


Ele sempre abusou da sorte e da ajuda de seu anjo da guarda. Até que o descuido foi grande demais e o deixou tetraplégico num acidente de trabalho. Já se vão quase 20 anos e ele recuperou parte dos movimentos após seis anos de fisioterapia e dez cirurgias: mexe os braços e o pescoço. A vida desde então tem sido de novas descobertas e desafios: entre um avanço e muitos retrocessos, Washington Silva aprendeu que já perdeu muito tempo. “A vida é curta e, agora, tenho que aproveitar cada momento”. Washington começou a trabalhar como pedreiro aos 13 anos para ajudar a mãe, Luciana, que precisava cuidar de seus três irmãos: Osmar, Monica e Tatiana. Seu pai (Washington não citou o nome dele e não gosta de falar do assunto) sumiu após o divórcio e nunca esteve presente, nem ajudou financeiramente. Só foi encontrado em 2004, quando Washington buscou alguma informação sobre ele por meio da lista telefônica. Hoje encontram-se uma vez por semestre, quando o filho consegue ir até Diadema, na Grande São Paulo.

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Quando tinha 17 anos, em 1994, Washington trabalhava como instalador de piscina. Era um dia quente e ele resolveu mergulhar para verificar as imperfeições. Foi o mergulho de cabeça que o fez quebrar as vértebras C5 e C6. Ficou desacordado por cinco minutos, quando foi encontrado pelo dono da casa, que chamou por socorro. Era 28 de setembro e Luciana recebia a notícia “mais difícil que uma mãe pode receber”: o médico que avaliou o caso de Washington disse para ela que ele passaria a viver em estado vegetativo e que não poderia fazer nada para mudar aquele quadro clínico. Após um mês internado, Washington voltou a falar. Apesar da “vontade de morrer e do sentimento de invalidez”, ele resolveu ouvir os pedidos da mãe para não desistir e “voltar a viver”. Ele começou a buscar tratamento, foi para Vitória (ES) por indicação de uma colega de Luciana, mas lá não existia o tipo de fisioterapia de que precisava.

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Foi na Associação Cabo-Verdiana de Deficientes (ACD), em São Paulo, em 1995, que ele reencontrou a esperança, com seis horas de fisioterapia por dia e seções de acupuntura. Em 2001, Washington já ficava sentado na cadeira e tinha de volta o movimento dos braços. Ele reaprendeu a tomar banho, se vestir e comer. Hoje, com dificuldade, mexe os dedos da mão, mas, para ele, isso basta, pois se sente uma pessoa “muito feliz”. Durante período de readaptação, conheceu a religião que, antes, não lhe chamava a atenção. “O espiritismo foi com que mais me identifiquei”, conta. Lendo livros para ter mais conhecimento do assunto, descobriu sua autora preferida, Zíbia Gasparetto, a autora espírita mais publicada no Brasil. Quando menino, Washington não gostava muito de estudar. Só passou a ter gosto pela leitura após o acidente. Quando tinha 7 anos, precisava andar 20km para chegar à escola Maria Cecília e, por isso, faltou a muitas aulas. Aos 13 anos, quando parou de estudar, cursava a quinta série. Em 2002 decidiu que voltaria à escola. Fez supletivo em Atibaia e se formou em 2006 no ensino médio. Em seguida, matriculouse em Ciência da Computação na Faculdade Anhanguera, mas a impossibilidade de acesso o fez trancar a faculdade. Agora, está à procura de uma universidade que não o faça perder outras duas cadeiras de rodas, cada uma no valor de R$ 6.000,00.

Um dia, em uma dessas palestras, conheceu Fabio Alvez, jogador de rugby tetraplégico, que o chamou para fazer parte do time, hoje

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Washington começou a buscar meios para conseguir uma nova cadeira, quando soube de uma que estava sendo doada num centro de reabalitação em Sousas. Lá, foi convidado para ser orientador do grupo Trauma Raque Modular (TRM). Já faz três anos que, em todas as quartas-feiras, ele é o conselheiro da área da saúde do grupo.


composto por dez jogadores. Os treinamentos, três vezes na semana com duas horas de duração, já trouxeram quatro títulos para a equipe que é a base da seleção brasileira nas paraolimpíadas. Em 2011, o time conseguiu a bolsa atleta por meio do Ministério do Esporte e é com ela e a aposentadoria por acidente de trabalho que, desde 2005, Washington vive. Mesmo com várias atividades, ele queria mais ocupações e se tornou voluntário do Hospital de Clínicas (HC), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Quinzenalmente tem um encontro com jovens que cursam o ensino médio em escolas municipais para orientar a prevenção aos acidentes de trânsito. Washington enfrenta diariamente uma série de desafios em Campinas por causa da falta de acessibilidade. Ele busca por infraestrutura em reuniões com a Empresa Municpal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) e a prefeitura. Reclama que, “além da falta ônibus adaptado, a cidade não está preparada para as pessoas diferentes: são as calçadas com rampas mal feitas, lugares públicos somente com escadas e portas estreitas, centros de saúde de acesso gratuito com falta de material, entre outras coisas”.

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É com seu bom humor e tranquilidade que Washington conquista a cada dia uma nova oportunidade, uma nova amizade. Ele se define como “alguém que não só reclama, mas vai atrás para ver acontecer”. Seus sonhos para o futuro próximo é mochilar por vários países e se casar. “Pode demorar, mas um dia acontece”.

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CAROLINE DIAS QUASE UM SÉCULO DE MATO

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Lúcia Paiva, uma senhora que já escutou muitas vezes o “parabéns a você” e gosta de servir refrigerantes de laranja aos seus convidados, tem uma história que está intrínseca à do bairro do Matão, em Sumaré.


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ais uma vez ela ouvia aquela música que lhe era tão familiar. Pela 96 ª vez , naquele 24 de maio, Lúcia Paiva escutava de seus amigos e parentes o “parabéns pra você”. A parte que deseja “muitas felicidades, muitos anos de vida” fazia sentido para ela, pensava a idosa, a moradora mais antiga do bairro Matão, em Sumaré. Ela saiu do Campo Grande, em Campinas, em 1935 com o marido, Francisco Cardoso, e veio para o sítio recém comprado, após dois anos de economias. No início era só barro e mato, daí o nome sugestivo. “Eu era casada há três anos, e meu marido procurou bastante antes de comprar nossa terrinha. Quando ele conheceu o Matão, teve a certeza que era um bom lugar e de desenvolvimento”, explica dona Lúcia, como é conhecida em todo o bairro. Filha de pais lavradores e irmã do meio de outras cinco crianças, casou aos quinze anos com um amigo de seu pai, doze anos mais velho. Aos 17 anos já ajudava o marido a cuidar do sítio e garantir o sustento da família. Donos de uma terra imensa, ganhavam a vida com a agricultura e com o abate de frango. Lúcia era muito bonita e animada, o que gerava o ciúme excessivo do marido. “Eu não podia conversar com os clientes e compradores, senão o Chico brigava comigo. Ele morria de ciúme, daí bebia e ficava violento. Mas ele nunca me bateu, porque se batesse teria o troco”, avisa.

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Sumaré nasceu em 1866, mas dependeu administrativamente de Campinas até 1953. Com o desmembramento das sesmarias campineiras, o Matão ficou isolado do restante da cidade sumareense, justamente por ser o bairro que faz o limite entre os municípios. Com a falta de moradores, a terra não acompanhou o restante do desenvolvimento da cidade, e coube à dona Lúcia e o marido começarem a história local. Após o pontapé inicial, a região foi colonizada rapidamente por italianos e portugueses, que compravam fazendas e vilarejos. A pioneira e o marido eram conhecidos por todos que

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chegavam, e assim é até nos dias que perduram. Qualquer problema ou até mesmo a necessidade de uma benção com as folhas de arruda, a senhora era procurada para resolver ou ajudar. A proximidade com a rodovia Anhanguera e com Campinas fez com que o Matão crescesse e se urbanizasse. Empresas grandes se instalaram às margens da rodovia, como a Indústria de Óleo Minasa e a 3M. Foi o estopim do desenvolvimento comercial e econômico. No fim da década de 50, o Matão já contava com mais de dez mil habitantes. Em 1972 Francisco faleceu de cirrose e coube à dona Lúcia cuidar do sitio. Só contava com a ajuda de um empregado. Os filhos já estavam casados e os netos já existiam. Era muito difícil organizar tudo sozinha, e algum tempo depois parte das terras foram loteadas. A importância que a senhora teve para o bairro tem tamanho reconhecimento, que as terras que antes eram o sustento de sua família, foram batizadas de Jardim Lúcia, uma espécie de sub-bairro, que além das residências e de um centro comercial, inclui também uma escola de ensino infantil, que leva o mesmo nome.

Quinze anos após perder o marido, encontrou um novo companheiro, em um baile local – depois que Francisco veio a falecer e parte do sítio foi vendida, a senhora usou parte do dinheiro para viajar e se divertir, coisas que o companheiro não gostava. Seu Ercílio foi seu companheiro por oito anos,

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Dona Lúcia teve quatro filhos, três mulheres e um homem, o “Maneco”, como é carinhosamente chamado por ela. Ele herdou o nome do avô, o sogro de Lúcia, seu Manuel Cardoso. No início do ano, a filha mais velha, Ineide, faleceu de Parkinson. Lúcia não foi ao enterro. “Não queria e nem tinha forças para ver minha filha em um caixão. É uma dor sem explicação, nenhuma mãe deve passar por isso”, relata.


até falecer, vítima de um infarto, e esteve a seu lado no momento em que a feminilidade parecia perdida. Em 1994, Lúcia descobriu que, devido a um câncer na mama, teria que retirar todo o seio esquerdo. E após um erro médico durante a operação, uma veia de ligação do braço esquerdo foi cortada, impossibilitando os movimentos para sempre. “O Ercílio me deu muita força e cuidou muito de mim. Foi um período bem difícil e, sem dúvida, seria pior se eu estivesse sozinha”, conta. Nesse caso a doença é genética, e enquanto comia o bolo de aniversário, dona Lúcia relatava a agonia que sentia, por saber que a filha caçula, Antônia, estava operando o mesmo problema, que retornou dez anos depois. A primeira operação foi no aniversário de 86 anos da idosa. Além disso, no início de junho, o filho irá operar o coração. A agonia para receber notícias da filha aumentava a cada batida dos ponteiros do relógio. “Estar alegre enquanto minha filha está em um centro cirúrgico não me parece justo”. O alívio só se torna aparente quando o telefone toca e a neta avisa que Antônia passava bem e estava indo para o quarto. “Pelo menos é uma preocupação a menos pra mim. Vou dormir mais aliviada”, festeja.

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O câncer de mama é um problema atual e crescente na sociedade. Segundo o relatório mundial anual, somente em 2013, 60 mil mulheres sofrerão com a doença. É importante que as mulheres a partir dos 35 anos realizem anualmente a mamografia, principalmente se notarem sintomas como nódulos nas áreas das mamas ou axilas; mudança no formato das mamas e modificações no formato da pele. A doença é a primeira causa de morte de mulheres, atrás apenas de problemas cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Dona Lúcia é uma senhora franzina, de voz baixinha e suave, com pouca visão e audição e um bom humor contagiante. A memória é melhor que a de muitos dos bisnetos. A família se diverte com os “causos” e cantigas cantadas por ela. São quin-

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ze netos, vinte e dois bisnetos e sete tataranetos, que enchem a velha chácara, a parte das terras que sobrou e que Lúcia faz questão de preservar. Ela se recusa a morar com algum dos filhos. “A mamãe é muito teimosa, de tanto não querer dar trabalho, acaba deixando a gente preocupada e pensando nela sozinha nesse sítio todo”, desabafa a filha do meio, Dirce Cardoso. A casa é a mesma, mas o cenário em volta mudou bastante. Hoje o Matão conta com mais de 50 mil habitantes – são 250 mil em Sumaré – e, com um centro comercial recheado, os moradores não precisam ir ao centro da cidade para realizar serviços burocráticos ou encontrar utensílios. São vários bancos e empresas que se instalaram no bairro, fazendo-a se movimentar bastante. Há dois anos, Lúcia sofreu uma queda e quebrou a bacia. Por ter uma idade avançada não era possível uma operação ou mobilização, tendo que passar por um tratamento somente a base de remédios. Isso gerou uma dificuldade de locomoção e a necessidade de uso de uma bengala. Depois do episódio, os filhos insistiram na contratação de enfermeiros, e hoje são três que se dividem em períodos diferentes e aos finais de semana. “Já que ela não quer sair do cantinho dela, precisamos colocar gente cuidando 24 horas por dia, não tem condições ela ficar sozinha aqui”, explica uma das netas, Patrícia Vasconcelos.

Além de perder dois maridos e uma filha, Lúcia também teve que lidar com a morte de todos os irmãos, dois genros e uma

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Em tanto tempo de vida, Lúcia tem uma bagagem que mistura felicidades extremas, tristezas profundas e momentos históricos. “Lembro que um pouquinho antes de casar, era a época da Revolução de 32. Eu ficava com muito medo quando os aviões passavam, eu ficava embaixo da cama só olhando as luzes vermelhinhas”.


neta. “Minha irmãzinha Maria era pequenininha e eu que cuidava dela. Ela chorava pedindo comida pra mamãe, mas não tinha pra todo mundo todo dia. Ela morreu aos quatro anos”. Preservando os hábitos do sítio, o dia de dona Lúcia começa cedo. Às 5 da manhã, o café preto já está na mesa. O almoço é servido às 10h30, mas sempre com alimentos moles e muitas ingestão de liquido. As tardes são passadas em frente à televisão, companheira inseparável. O horário de janta tem que ser cedo também, não pode passar das 17h, pois às 18h30 já é hora de estar na cama. O horário dos cinco tipos de remédio que toma, não esquece. Ela está sempre pronta para oferecer carinho e um refrigerante de laranja, o preferido dela, para os que a visitam. “A dona Lúcia é maravilhosa. Nunca vi ela negar nada para ninguém, ela tira da boca pra dar pra quem precisa. Ela já me ajudou muito quando perdi meu marido e passei dificuldades financeiras. Ela é um anjo”, conta a vizinha há treze anos, Dolores Batista, resumindo o sentimento compartilhado por todos os que já sentiram o carinho da quase centenária Lúcia Paiva.

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DANILO PESSÔA O HOMEM QUE VIVEU PARA CORRER

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Edgard Gomes correu de sua infância humilde, de seu problema de saúde, de suas tristezas. Correu tanto, que quebrou recordes internacionais, mesmo depois dos 60 anos de vida. A história de Edgard Gomes é a história de um atleta, mas, principalmente, de um brasileiro que não desistiu.


O

clima era pesado, como o de qualquer velório. A sala onde se encontrava o corpo de Rogério estava cheia. A família Gomes é grande. Rogério morreu de repente, após um quadro de complicações renais. Formado em administração, se foi jovem, com menos de 40 anos, deixando uma filha de oito anos de seu primeiro casamento. Muitas pessoas choravam. Parentes, amigos e conhecidos. Sua mãe e suas três irmãs estavam inconsoláveis. Porém, apesar de todo esse cenário, havia um distinto senhor, calmo, solícito, conversando tranquilamente com os presentes. Se não soubesse quem era, passaria despercebido naquele ambiente carregado pela tristeza da perda de um ente querido. Mas esse senhor de 70 anos, que aparentava tranquilamente menos de 60, é o pai do jovem recém-falecido. “Não sei, eu não estava lá”, comentou Edgard Gomes para mim, após relatar que aquele foi um dos momentos mais marcantes e tristes de sua vida. Já faz dois anos que Rogério faleceu. A aparente indiferença de Edgard no dia do velório de seu filho é facilmente desmentida quando se olha para seu quarto, com um retrato de seu primogênito na cabeceira da cama. Talvez, no fatídico dia, Edgard Gomes estivesse fugindo mentalmente daquele lugar, daquela situação, correndo emocionalmente de tudo aquilo. Correr, aliás, é algo que Edgard sempre fez, desde pequeno. E foi correndo que ele se encontrou.

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Com apenas 6 meses de idade, teve o primeiro de muitos desmaios. Foi diagnosticado com problemas cardíacos. Ainda na adolescência, seu médico aconselhou-o a praticar algum esporte. Gostava de futebol, mas lhe faltava habilidade. Decidiu correr. Correu tanto que seu problema cardíaco não conseguia mais alcançá-lo. A princípio, a corrida era apenas um hobby. Foi ganhando aspectos mais profissionais apenas nos anos 80. Enquanto seus amigos, com o avanço da idade, iam parando, Edgard come-

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çou a vencer suas primeiras competições, sendo convidado, inclusive, para correr representando instituições esportivas e empresas da região. Edgard Gomes correu tanto que nem o mundo conseguiu pará -lo. Foi o recordista sul-americano em sua categoria na prova dos 5000 metros. Sua marca demorou 10 anos para ser superada. Suas centenas de medalhas, expostas em um quarto exclusivo para elas, não são nem metade de tudo o que já ganhou. Boa parte delas foi doada para instituições. “Não tinha mais onde guardar”, comenta. Porém, em janeiro de 2010, a vida pregou-lhe mais uma peça. O atleta sofreu um AVC considerado gravíssimo. O que poderia ser o fim de sua carreira mostrou ser apenas mais uma barreira transposta por este distinto senhor. Apenas três meses após o ocorrido, já estava treinando novamente, para espanto dos médicos. E, apesar de todos esses acontecimentos, para o atleta, um dos momentos mais memoráveis de sua vida foi durante uma competição no Rio de Janeiro, quando foi abordado por um dos competidores. “Ele perguntou se meu nome era Edgard Gomes. Respondi que sim. Me contou, então, que, apesar de ser médico cardiologista, era fumante e bebia muito. Até ver minha história em um programa de televisão. E disse que, através da minha história, se motivou a realizar uma mudança de vida e que já corria há 2 anos. Não há dinheiro que pague uma coisa dessa”, orgulha-se.

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Seria difícil encontrar palavras para descrever a relação de amor existente entre Edgard e o atletismo. Pedi, então, para ele descrevê-la com suas próprias palavras. Mal sabia eu que essa resposta já estava pronta há alguns anos. Pediu-me para que o aguardasse. Voltou com uma folha de papel. Começou a ler seu texto para mim.

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Eu e o atletismo

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Todo ser humano Tem um prazer na vida De fazer aquilo que gosta E ter sua missão cumprida Aquele que ama o esporte Sabe os benefícios que ele traz Desde que seja controlado Receba alegria e paz Meu esporte é o atletismo Correr é minha paixão Pratico com muito orgulho Muita raça e coração Quando saio pra treinar Ou mesmo pra competir Entro na pista alegre E só penso em me divertir Sei ganhar e sei perder Os adversários eu respeito Todos pensam em ganhar Todos têm esse direito Aquele que não pratica esporte Deve um dia começar Só traz benefício ao corpo E a mente acalmar Experimente e depois me diga Verás que tenho razão E não vais se arrepender Pois eu falo de coração

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O texto de rimas fáceis contrasta com a trajetória complexa deste mineiro de Itaú de Minas, mas de coração campineiro. Apesar de citar a falta de apoio para os atletas brasileiros, queixa-se pouco. Apesar dos recorrentes problemas de saúde, fala mais de suas conquistas. O único assunto que não parece ter sido superado é a morte de seu filho. “A morte é difícil de entender, não é mesmo?”. E Edgard continua correndo. Não se sabe direito pra onde. Mas o local, talvez, pouco importa. Em sua vida, correr é a própria finalidade.

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EMERSON JAMBELLI SÁBADOS, UM COLÉGIO E O PÔR DO SOL NO PARQUE ORTOLÂNDIA

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Eles guardam os sábados e vivem como uma grande família. Os adventistas do Parque Ortolândia, que deu origem à cidade cujo nome é sonoramente igual, encontram, em seus vizinhos, uma segunda família.


É

por volta das seis da tarde de cada sexta-feira, quando os raios de sol começam a se despedir, que diferentes harmonias invadem as ruas. O movimento dos carros diminui e o comércio já está com as portas abaixadas. Enquanto alguns moradores do Parque Ortolândia estão chegando em casa após uma longa semana de trabalho, outros estão saindo, rumo à Igreja ou aos lares dos vizinhos e familiares para confraternizarse. Vozes, pianos e outros instrumentos trabalham harmoniosamente juntos e assim, compõem o ritual de entrada do Sábado, dia de guarda para os Adventistas do Sétimo Dia.

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Os Adventistas do Sétimo Dia separam o Sábado como dia santo, levando em conta os Mandamentos Bíblicos. No livro de Êxodo, no capítulo 20, é possível encontrar os Dez Mandamentos que, segundo a crença, foram entregues a Moisés, no Monte Sinai, para serem passados e cumpridos por todo o povo de Israel. O quarto mandamento diz: “Lembra-te do dia de Sábado, para santificá-Lo. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o Sétimo Dia é o Sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao Sétimo Dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de Sábado e o santificou”. (Êxodo 20:8-11). A partir dessa passagem bíblica, os guardadores do Sábado reservam esse dia para dedicar-se à família, ao próximo e às atividades que envolvem o relacionamento com Deus, deixando de lado interesses próprios, como trabalho e estudos, assim como afazeres domésticos e operações de compra e venda. Para que nenhuma dessas tarefas venha a ser executadas nas horas do Sábado, – que se dão entre o pôr do sol da sexta-feira e o pôr do sol do sábado – os Adventistas começam a se preparar desde o domingo e, na sexta-feira, conhecida como o dia da preparação, realizam os ajustes finais para a guarda do Sábado.

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O Parque Ortolândia – que sonoramente tem o nome semelhante ao da cidade em que está localizado, exceto por não levar a letra H no início, como Hortolândia – é um bairro tipicamente adventista e se desenvolveu em torno do Instituto Adventista de São Paulo (Iasp), fundado no final da década de 1940. Desde o surgimento do Iasp, que no começo levava o nome de EAC – Educandário Adventista Campineiro, pessoas com alguma ligação à religião Adventista começaram a ser atraídas para os dois quilômetros quadrados de terras que contornavam o colégio e que pertenciam a João Ortolan, cujo sobrenome deu origem ao nome do bairro e, posteriormente, à cidade. Essas pessoas eram pais com interesse de matricular seus filhos na Instituição, alunos que vinham de longe para o internato ou famílias de pastores, obreiros e outros trabalhadores que exerceriam alguma atividade no complexo. Paulo Sarli é um dos personagens dessa história. Seu primeiro contato com Hortolândia foi em 1951, quando cursou o ginásio no EAC. Na época, o atual Parque Ortolândia não passava de uma grande fazenda. As casas que existiam, muitíssimo poucas por sinal, eram extremamente distantes umas das outras. A única ligação com a cidade grande, como o próprio Sarli fez questão de dizer, era através de um ônibus Caprioli, que fazia apenas uma viagem por dia entre a cidade de Campinas e o bairro do colégio. Paulo estudou dois anos no EAC e depois, foi para São Paulo cursar teologia. Queria ser um pastor da Igreja Adventista, e mal sabia que depois de viver toda a trajetória que a vida ainda iria lhe proporcionar, voltaria para o bairro no futuro.

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Aos 16 anos, em 1967, Cecília chegou ao IAC, agora Instituto Adventista Campineiro, para estudar. Tudo era mato, as estradas de terra cheias de buraco e os laranjais dos dois lados formavam a entrada do Colégio. Já existiam mais casas – mas ainda eram poucas – espalhadas pelo entorno do colégio e, como a maioria das pessoas tinha alguma ligação com ele, não era difícil o bairro todo estar presente em praticamente todas as suas programações. E foi a partir disso que uma comunidade com valores comuns começou

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a ser formada. A mercearia do bairro estava no colégio. A igreja do bairro estava no colégio. A horta. A leiteria. Tudo estava no colégio. “As pessoas viviam em função do colégio”, falou Cecília, enquanto se lembrava de mais detalhes. Ficou interna no IAC até os vinte e poucos anos. Nulce conheceu o Parque Ortolândia um pouco depois. Em 1979, trouxe de Goiás os filhos Murilo e Paula para ficarem no internato do colégio e, quando chegaram, as coisas não estavam muito diferentes do que contou Cecília. O “ambiente fazenda” ainda era a maior característica do local. Não havia expectativas de crescimento – não na velocidade em que se deu. Viam-se gados, fazendas grandes. Na Rodoviária de Campinas, o destino do Caprioli era conhecido como “Hortolândia das malas”, por conta da quantidade de estudantes que viajavam para morar no colégio. Nulce e o esposo Lauro também não sabiam que no futuro, voltariam às terras do internato.

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Hortolândia demorou um pouco para se tornar cidade. Por volta de 1950, era ainda o povoado de Jacuba e pertencia à Santa Cruz, distrito de Campinas. Depois, virou distrito de Jacuba e pertencente à cidade de Sumaré. Mais ou menos em 1958, passou a ser chamada de Hortolândia, pela já existência do loteamento do Parque Ortolândia – que foi o marco do início da cidade – e por já existir em São Paulo outro distrito com o nome de Jacuba. Apenas em 19 de maio de 1991 é que emancipou-se, tornando-se então o município de Hortolândia. Em 1987, Cecília resolveu voltar às terras do Colégio. Mãe de Amábile, Lawrence e Lucianne e casada com Ismael, saiu da cidade de São Paulo para morar nas redondezas do IASP e lá, colocar os filhos para estudar. O que não esperava era encontrar um bairro formado, asfaltado. Nem o trem que costumava utilizar funcionava mais. Mas mais surpresa ainda ficou por encontrar em seus vizinhos os antigos companheiros dos tempos de colégio. Com emoção nos olhos, conta da sensação de “estar voltando para casa”. Muitos pro-

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fessores e irmãos da fé adventista haviam constituído o bairro. A comunidade que havia nascido dentro de uma escola estava aumentada e, junto a ela, seus ideais, hábitos e rotinas. “Vizinhos que mais pareciam familiares”. E é devido a esse lugar comum que é a crença, vivenciado pelos vizinhos, que algumas características foram se consolidando. As calçadas e quintais das casas, como conta Cecília, não são lavados no Sábado de manhã. Nesse dia, as famílias saem para a Igreja. E claro, existem pessoas que não partilham da mesma fé. Mas essas também, curiosamente, preferem lavar suas calçadas e quintais na sexta-feira de manhã. E isso traz a sensação de “estar caminhando no quintal de casa”, mesmo quando se está andando pelas ruas e indo à Igreja no Sábado. Existe liberdade, respeito. Nulce voltou em 1994 para o Parque Ortolândia. E não demorou muito para que seu filho, Fábio, fizesse amizade com Lawrence, filho de Cecília. Com isso, frequentar a casa uns dos outros e confraternizar-se entre vizinhos foi algo que aconteceu rápido. Não apenas entre essas duas famílias, mas entre várias que já moravam ali. “É uma convivência muito pacífica, são pessoas cristãs que se respeitam muito”. Como ela mesmo gosta de frisar, é um bairro religioso. “Eu nunca tinha experienciado isso em nenhum lugar: a disponibilidade das pessoas em ajudar”, acrescenta às características do Parque.

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E o Pastor Paulo Sarli? Exatamente, Pastor. Formou-se e trabalhou na Obra Adventista por muitos anos, chegando a morar até nos EUA. Quando chegou o tempo de se aposentar – em 1993 – resolveu se mudar, com a esposa Julieta e os filhos Paulo, Cleiton e Silvana, para o Parque Ortolândia. Assim como Nulce e Cecília, gosta de enfatizar a rotina e o clima do local: “O relacionamento é diferente. É um sistema diferente de vida. No sábado é dia de ir à Igreja e encontrar os irmãos com quem se convive há tempos. O comércio não abre no Sábado, mesmo os estabelecimentos que não têm donos adventistas. Há um respeito pelos adventistas. Sentimos certa consideração. O fato de estarmos morando aqui


há muitos anos nos faz perceber pelo relacionamento que as pessoas confiam, tem certa apreciação, consideração e respeito. Daí, procuramos andar direito, viver os princípios cristãos, e isso vai influenciando as pessoas”. E se para Nulce o bairro é um lugar gostoso de morar, onde as Igrejas e programações por elas oferecidas permitem que a vida espiritual seja alimentada, Cecília consegue encontrar uma explicação para esse fenômeno. “Acho que a gente sempre tem aquele objetivo de que um dia vamos estar no Céu, todo mundo junto. E se vamos estar juntos no Céu, por que vamos estar separados aqui?”. Nulce e Paulo são dois dos mais de dois mil moradores do Parque Ortolândia. Enquanto ela enfatiza que não quer sair do bairro nunca, o Pastor diz que gosta de estar ali, esperando pelo seu descanso. Cecília morou por 14 anos no Parque, e teve que deixá-lo devido a compromissos familiares. Mas quando conta a história de sua vida e fala do tempo em que esteve morando ali, não é difícil sentir o que ela faz questão de enfatizar: “eu sinto muita saudade!”

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FERNANDA CANOBEL CASE PESSOAL

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Diante da decepção numa experiência em assessoria de imprensa, Lia Castro decidiu provar – inclusive para si mesma – que a atividade jornalística no ramo institucional poderia ser diferente, criando sua própria empresa. E sem definir separações muito claras entre o lado profissional e o pessoal, Lia carrega uma frase simples como lema: “sem saber que era impossível, foi lá e fez”.


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ornalista por paixão, empresária para realizar sonhos. É assim que Lia Cassano de Castro Sgarbiero define sua atividade profissional, na qual conseguiu unir duas de suas vocações, ainda aos 22 anos de idade. Hoje, aos 26, com a carreira e a empresa em ascensão, acredita que a determinação e a coragem sejam as principais aliadas de sua trajetória em busca dos objetivos. Após concluir o curso de Jornalismo na PUC-Campinas e atuar em variados segmentos da profissão, entre redações de impresso e televisão, foi sua frustração com o trabalho em comunicação empresarial que a impulsionou a criar sua própria agência de assessoria de imprensa. “Detestei a experiência que tive em um estágio em assessoria, mas com o tempo percebi o que me incomodava”, confessa. Foi a partir dessa constatação que nasceu a DeCastro Assessoria, na cidade de Piracicaba. Com isso, ela passou a fazer parte do segmento na área de jornalismo que mais cresce. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), hoje, cerca de 40% dos profissionais já trabalham em assessoria de imprensa. “Minha intenção foi realmente trazer o jornalismo para dentro da comunicação corporativa, fugindo da linguagem institucional e inserindo os clientes em matérias e assuntos de seu interesse, mas que atendam também os interesses do público”, explica.

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A visão empreendedora não é obra do acaso. Além do pai, também empresário (dono de uma empreiteira de pavimentação ecológica, fundada há 25 anos), Lia sempre foi incentivada pela mãe, sem nunca ouvir “isso é impossível”, o que “fez com que eu nunca medisse esforços para conquistar algo que quisesse. Acho que é por isso que sempre fui muito sonhadora e vivo bolando novas ideias”, diz com olhar distante, num tom reflexivo, interrompido por um telefonema. Após atender o celular, a jornalista conta que sua avó – que a espera para o almoço –, também é motivo de inspiração. Com 90 anos,

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dona Anize esbanja um misto de serenidade e segurança diante da vida, características em que a neta tenta se espelhar para manter seu foco. Não que consiga com frequência, como é possível perceber ao observar a agitação diante do dia a dia em seu escritório. Atualmente, Lia lidera uma equipe constituída por duas jornalistas, um gerente financeiro, um representante comercial e duas estagiárias, ao mesmo tempo em que coordena a inserção da DeCastro em Sorocaba. Com a consolidação da empresa na região em que foi fundada, a empresária acredita que chegou a hora de expandir sua abrangência, alçando um novo voo, em busca de um mercado maior, em uma cidade mais próxima à capital paulista.

Assim, sem definir separações muito claras entre o profissional e o pessoal, Lia Castro conduz sua vida, trabalhando duro pelo reconhecimento dos outros, conquistando, dessa forma, seu próprio sucesso, motivada por uma frase simples que carrega sempre consigo, como lema: “sem saber que era impossível, foi lá e fez”.

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Os clientes para os quais a empresa faz assessoria de imprensa e mídias sociais são de ramos diversificados, o que aumenta a inspiração e o entusiasmo para a realização do trabalho. “Antes de tudo precisamos, nós mesmos, de acreditar no trabalho de cada assessorado e nos inserirmos em seu universo, para então difundir sua imagem ao público. Acredito que isso faça a diferença, principalmente quando conseguimos desmistificar a visão das pessoas em torno de um tema, como o de um lar para idosos (atividade de um de seus clientes), que é associado, pelo senso comum, a um lugar de abandono e maus tratos, mas que pode sim ser a melhor opção para o tratamento de uma pessoa em determinadas situações”, explica, argumentando que é assim que o interesse do assessorado e o jornalismo se encontram, já que, ao mostrar um trabalho sério, como o do exemplo, mais do que promover a imagem do cliente, é possível atender ao interesse público e até prestar realmente um serviço à população.


GISLEINE MONIQUE RESPEITE MEUS CABELOS BRANCOS

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Maria Augusta da Silva Antônio acompanhou a evolução dos direitos dos negros. Já foi proibida de entrar em vários lugares, porque eram espaços exclusivos de brancos, até que decidiu burlar as regras...


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lenço colorido envolto da cabeça é feito do mesmo tecido que estampa as vestes de Maria Augusta da Silva Antônio, que por baixo do pano esconde um centímetro de fios brancos, crescidos e acariciados com o indicador direito ao longo da conversa. Seu fôlego ofegante revela o cansaço de quem faz parte dos 23 milhões de brasileiros que entraram para a casa dos que tem 65 ou mais anos de vida. Desde que alcançou a terceira idade, Maria Augusta tem passeado de graça no ônibus Limatur, que a leva para a igreja, casa de amigas, nora e a deixa na porta do CineAlvorada. Natural de São João da Boa Vista, é bisneta de escravos africanos e caçula de dez irmãos, na qual a vida permitiu que ela conhecesse apenas seis. “Dos que morreram só sei o nome de um, João Evangelista. Dizem que ele morreu “agoado”, com vontade de comer alguma coisa”, conta ela. Do pai, pouco sabe. “Eu me lembro do dia da morte dele. Nessa época o defunto era velado em casa e nesse dia tinha tanta criança em casa que eu achei que era festa. Fiquei tão contente que só lembro de ter brincado muito”, falou cutucando o cabelo.

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Na escola, por volta do fim da década de 50 em que os negros estudavam separados dos brancos aprendeu a militar pelos seus direitos e a entender que a historia e cultura do negro era uma farsa para introduzir ódio e ignorância. “As pessoas se recusavam a pegar na minha mão. Eu sabia que nunca seria a margarida da turma”. Acostumada a ouvir que urubus não frequentavam a sala de aula no cinema não era diferente. “Os negros eram obrigados a sentar na parte de cima, eles chamavam de “puleiro” da negrada, enquanto os brancos sentavam onde queriam”, contou. Foi proibida também de pisar na Praça Matriz. “Se a gente chegava lá eles jogavam papel, dizia que ia chover porque tinha escurecido e ninguém queria namorar a gente. Eles diziam que as pretinhas eram pra gozar e as brancas pra casar”.

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Escutava ainda que, seu cabelo era ruim, que negro ia a praia para queimar as palmas das mãos e as solas dos pés o que a deixava profundamente triste e raivosa. Uniu-se a uma amiga branca e decidiu boicotar o cinema da cidade assentando no lugar proibido. Contorcendo o cabelo relembra do caso. “Começaram a jogar coisas em mim, a dizer que tinha posado urubu lá embaixo, foi uma confusão só. O diretor teve que acender as luzes e advertir quem causasse tumulto, a partir desse dia os negros passaram a sentar onde queriam”, conta orgulhosa. Da vida simples e carregada de preconceitos conheceu Geraldo, um negro azulado de 1,60m com quem foi viver num sítio da cidade de Leme, interior de São Paulo. Do casamento teve dois filhos, algumas cabeças de gado, plantações de algodoeiros e um Volkswagem bege Ela confessa ter casado por interesse e sem um pingo de amor. “Amor? Ah! A gente adquire com a convivência né! Eu fui pobre quando criança não queria que meus filhos passassem por isso”, contou aos risos. Quando soube da traição do marido largou tudo e foi viver na cidade ganhando a vida como manicure. “Foi a partir daí que a minha vida começou de verdade. A responsabilidade em criar os meninos foi só minha”. Anos depois mudou – se para São Paulo e passou a viver de artesanato feito com sementes de frutas, participação em feiras e morou na Praça da República. “Tinha que dormir com os colares nas mãos para não roubarem. Foram tempos muito difíceis na minha vida”.

As muitas fotos dispersas em suas mãos mostram um tempo marcado de saudades e curiosidade nos olhos de quem as vê. Um espaço frequentado por políticos, artistas e intelectuais serviu tam-

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Com o dinheiro da feira conseguiu alugar uma casa e junto com três sócias inauguraram no bairro Pinheiros, o Gamelas, primeiro restaurante de cozinha afro – brasileira da capital.

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bém de abrigo para cerca de 300 crianças e adolescentes carentes. Sem vocação para administração financeira ela lamenta ter fechado as portas do restaurante em 2002. Aos 72 anos, Maria Augusta não tem muita ambição. Vive sozinha com o lucro de feiras e acarajés na casa construída pelo filho mais velho. Quem olha Augusta desfilando de turbante pela pacata Leme imagina tratar de uma mãe de santo, mas pouco desconfia do passado de uma negra que carrega na memória as marcas do preconceito. Com os dedos firmes ela puxa um fio de cabelo vagarosamente enquanto os olhos enchem de lágrimas “É preciso lutar muito na vida, e mostrar que quando a gente quer a gente consegue”, conclui.

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GIULIA CIRILO O ÚLTIMO HIPPIE DA FEIRA

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Paulinho Caverna é o último dos hippies. Aos 18 anos tomou como frase “a liberdade é uma calça velha, azul e desbotada” e ao som de “Caia na Estrada e Perigas Ver”, dos Novos Baianos, caiu no mundo e na estrada para vender seus artefatos. Hoje, com 62 anos, não possui casa, família, conta no banco, celular, lenço nem documento. Seus pertences são duas mochilas apelidadas por ele de Matilde e Jurema.


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aulinho Caverna é o ultimo dos hippies. Típico sem lenço, nem documento, sem cartão de crédito, telefone celular e até mesmo desprovido de uma campainha. Seus pertences são duas mochilas, apelidadas por ele de Matilde e Jurema, nas quais em uma carrega suas roupas e na outra, os couros para produzir suas pulseiras e outros artigos artesanais. Além de suas duas mulheres, Paulinho também possuí um chapéu do qual só usa aos finais de semana, assim como o cigarro que sagradamente acende ao amanhecer da madrugada de sábado, quando inicia sua caminhada para a feira de artesanatos do Centro de Convivência, local onde trabalha. Alertando-me, chapéu e cigarro só aos finais de semana. Paulo Roberto Zago nasceu em 1951, na cidade de Mogi Mirim, no interior do Estado de São Paulo. Mudou-se para Campinas ainda pequeno com os pais e desta época pouca lembrança tem, ou finge que tem. Aos 14 anos perdeu sua mãe, que morreu dormindo de uma causa que ele desconhece até hoje e, logo após o luto da mãe, seu pai acabou se mudando para a cidade de Santos, formando outra família e deixando o menino Paulinho morando com uma tia em Campinas. Já com 18 anos, após ser liberado de servir o exército, Paulinho resolveu abdicar das tradições, chutar as conveniências e cair no mundo.

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Deixou o cabelo crescer, saiu da casa da tia e começou a fazer seus primeiros artesanatos. Diz que o movimento hippie naquela época era ter cabelo comprido e trabalhar por conta. No ano de 1970, começou a fazer um bico na área das impressões no diretório acadêmico do curso de Psicologia da PUC-Campinas, se juntando nessa época ao movimento estudantil contra a ditadura militar. Durante as madrugadas imprimia panfletos com artigos de caráter socialista, o que acabou culminando em uma detenção pelo Departamento de Ordem e Política Social (DOPS), órgão nacional responsável por reprimir possíveis movimentos que fossem contra a política da época. Diz que não sofreu tortura e foi liberado, mas que soube de alguns colegas que foram reprimidos de maneira mais radical.

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Nas andanças da vida conheceu Raul Seixas, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Foi a festas na casa de Marcelo Rubens Paiva, bebericou algumas cervejas em companhia de ilustres, como Belchior, Jorge Mautner e Ilze Scamparini. Diz que nunca gostou de drogas, LSD, maconha, chá de cogumelo, de fita, essas coisas todas. “Sempre respeitei o pessoal, mas gosto mesmo é de beber, e nada de ficar procurando gnomos”. Em 1977 começou a vender seu artesanato na feira da Praça Carlos Gomes, a feira precedente ao do Centro de Convivência, onde o movimento hippie era forte na época. Tomou como frase ‘A liberdade é uma calça velha azul desbotada’, e após as feiras dos sábados ia tomar todas no antigo Setor. Dormia debaixo das marquises do Teatro do Centro de Convivência, acordava pela manhã dos domingos e junto com os colegas partia para a Rodovia Dom Pedro, pegar uma carona até alguma praia, a mais próxima onde o carona fosse. Ao som de ‘Caia na Estrada e Perigas Ver’ dos Novos Baianos, foi parar algumas vezes no Rio de Janeiro e um dia pintou uma oportunidade de ir para a Bahia. Lá, ficou por vários meses vendendo seus artigos nas praias e um dia resolveu voltar.

Na feira Paulinho vende pulseirinhas trançadas de couro, colares de semente, anéis de madeira e brincos de pena. Segundo ele, às vezes rola encontrar umas penas de pavão no bosque da cidade, “mas quando o bicho vê cabeludo chegando ele sai disparado”. Naquele dia o movimento na barraca é fraco e Paulinho acredita

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Conforme o tempo passou, o corpo cansou e a alma viajante pediu aposentadoria. “Tem hora que a gente quer lugar fixo”. Há dez anos Paulinho mora num quarto alugado em um beco da Avenida Sales de Oliveira, na Vila Industrial e todo sábado acorda por volta das 3 da madrugada e percorre a pé por volta de 6 km até chegar à feira, que fica no coração do Bairro Cambuí. Chega cedo para montar algumas barracas e com isso ganhar uns trocados a mais, garantindo uma branquinha ao fim do expediente. Participa da feira de artesanato do Centro de Convivência há mais ou menos 36 anos e tem a concessão de sua barraca há 15.


que seus fregueses morreram ou ficaram velhos demais para usar seus artigos. Fumando um cigarro aqui e pedindo para algum colega de barraca um café adoçado acolá, Paulinho avalia o movimento da feira com seus olhos azuis cristalinos. De cabelos louros desbotados na altura do ombro e um farto bigode, usa seu chapéu marrom de abas longas, camiseta e uma calça Levi’s comprada no brechó do centro Espírita Allan Kardec - me garante que pagou 5 reais pela peça. A manhã toda Paulinho contou histórias, mas chegou uma hora que sua expressão mudou e ele ficou calado. Sua aflição se devia a juntar pelo menos 50 mangos para pagar o aluguel daquela semana e já é por volta das 11 horas da manhã e nenhuma venda.

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Quando entre um transeunte e outro que para, olha as peças e vai embora, duas meninas passam e uma diz ao celular “ Estou na feira hippie!”. Paulinho fica vermelho e começa a bravejar “Feira hippie! Feira hippie? Fico puto quando escuto isso. Cadê os hippies daqui? Isso é uma feira de artesanato, desde quando artesão é hippie agora?”. O motivo que lhe causa irritação se deve a que grande parte dos feirantes ali no Centro de Convivência não são hippies e nunca o vão ser, como Lúcia, vizinha de barraca de “Seo Paulinho”, mãe de três filhos, evangélica e temente a Deus. Por ali também existem alguns jovens com cabelos rastafáris que ficam sentados em tapetes no chão vendendo seus produtos manufaturados e tocando violão, mas ao serem questionados se são hippies, eles ficam irritados e dizem que não são hippies, e sim loucos. Existem outros como Anselmo e Toninho, esses amigos de Paulinho, que sustentam o estilo hippie de ser, vestir e falar, mas que durante a semana trabalham em outro lugar e, ao contrário do movimento, possuem celular, carro, conta no banco e tudo que um hippie moderno pode ter. Do perfil de contracultura, da quebra com sistema que teve seu início na década de 70, Paulinho é um lobo solitário. O movimento na barraca começa a melhorar por volta das 12 horas, e, quando o relógio digital que fica em frente ao City Bar aponta 13h30, Paulinho já soma R$100,00 das vendas. “Pronto, agora

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já dá para pagar o aluguel e tomar umas” diz, ajeitando com rapidez seus pertences em uma das mochilas. Paulinho se despede de seus colegas, apanha Jurema e Matilde e me convida para tomar uma cerveja no estacionamento do Pão de Açúcar. Aceito três copos e me despeço. Dali ele me diz que vai continuar bebendo mais um pouco, esperando os amigos Toninho e Anselmo se juntarem a ele e que depois seguirá seu caminho a pé até seu quarto alugado em um beco na Vila Industrial, dormir e acordar às 3 horas da madrugada de mais um domingo, montar novamente as barracas e garantir os trocados. Depois dali, só semana que vem.

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GIULIANA WOLF CUATRO AÑOS LIBRE DE TI

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Uma estudante de jornalismo em Portugal encontra um jovem sírio, refugiado no país com a família desde 2008. Se para a turma de alunos cujos perfis estão reunidos nesse livro a guerra na Síria entrou na pauta este ano, para Giuliana, a guerra chegou perto dos olhos e dos ouvidos em 2012, quando conheceu Siwar Ala. Não se pode fugir de uma guerra, mas se pode entendê-la.


“- Oi, como está indo sua viagem a Londres? - Até agora, ótima! Estou amando tudo. Há tanto para ver e fazer, todos são tão gentis e legais! - Que bom. Aproveite esse tempo. Nem todo mundo tem a mesma oportunidade de fazer viagens assim. Você está com amigas? - Sim, agora estou com duas amigas e amanhã encontrarei mais uma, que é de Londres. As outras duas também são brasileiras. - Que bom! Queria poder encontrar meus amigos sírios em algum lugar. Mas se não posso ver nem meu próprio irmão, seria difícil poder estar com meus amigos. - Eu não consigo sequer imaginar. Quanto tempo faz que você não vê todos eles? - Quatro anos.”

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u já conhecia Siwar Ala há algumas semanas quando tivemos essa conversa, no início de 2012. À época, tanto eu quanto ele vivíamos na cidade do Porto, em Portugal, em intercâmbio universitário. Embora essa fosse uma das poucas coisas em comum que tínhamos, todas as vezes que conversávamos ficava muito transparente a vontade que ele tinha em fazer com que todos se identificassem com as coisas que contava sobre a Síria. Lá, ele nasceu e viveu grande parte de sua história, antes de ir para Espanha, em 2008, buscar abrigo junto à parte de sua família. A Síria sempre aparecia nos noticiários, não só de Portugal, como de toda a Europa, em razão dos conflitos entre as forças do governo de Bashar al-Assad e os soldados rebeldes. Mesmo assim, Siwar, ativista dos direitos humanos, achava que a mobilização ainda era muito tímida, quase que diplomática. As autoridades e a população europeias deveriam fazer algo, ou pelo menos mais do que

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apenas emitir e receber notícias com números de mortos. Por isso, nos momentos em que todos menos esperavam, fosse em festas, conversas fúteis ou durante a refeição, o assunto da matança na Síria surgia assim, sem cerimônia ou drama, e chocava justamente por isso: era realidade pura. Na época em que os portugueses decidiram sair às ruas por conta da recessão econômica do governo, sua presença se notava pelo que ele carregava: junto com as multidões pedindo por medidas econômicas que amenizassem a má situação financeira de Portugal, ele pedia para que as forças políticas dos países europeus olhassem para aqueles que morriam em sua terra natal. Entre atos e frases soltas aqui e ali, como na conversa citada anteriormente, muitos aprendiam o que era viver em uma guerra. Quando a vontade é ser dramático, recomenda às pessoas que leiam seu texto “Tres años lejos de tí”, em que conta, entre outras agonias, o episódio da morte de sua avó, depois que ele já estava vivendo na Espanha por três anos.

Muitas coisas podem mudar de uma cultura para a outra, no entanto, algumas se caracterizam como absurdas em todas: a perseguição que Siwar sofria era em razão de dar aulas do idioma curdo, etnia à qual pertence, na universidade em que estudava bioquímica na Síria. Os curdos são formados, aproximadamente, por 26

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Por mais que esse fosse um trabalho de formiguinha, já que ele, em desabafo, dizia sentir o peso de ser o único sírio nas redondezas - talvez em toda Portugal – e também uma das poucas pessoas que, aos 25 anos, já havia passado pela situação de ser perseguido e de ter abandonado o próprio país por pressão política, era esse o afazer que mais o ocupava e, de alguma maneira, o livrava da culpa de não mais estar lá para lutar contra a ditadura. Assim como outros cidadãos sírios, Siwar tinha familiares que trabalhavam para o governo, o que começou a ficar mais e mais comprometedor para todos os lados, à medida em que ele passou a desafiar as forças de Assad.


milhões de pessoas sem um território próprio. E, por não terem um pedaço de chão para chamar de país, estão divididos pela Síria, Turquia, Irã, Iraque, entre outros. Essa também era outra motivação para que, em Portugal, ele continuasse fazendo o trabalho que fazia: lá, ele tinha liberdade para falar sobre o que seria proibido se estivesse na Síria; festas e reuniões de intercambistas se tornavam palco para que exibisse danças, músicas e gastronomia típicas tanto da Síria, quanto do povo curdo. Parecia até contraditório o amor e orgulho que ele sustentava por ambas as realidades. Com o coração magoado pela Síria e o bolso ameaçado pela Espanha - devido ao mau momento econômico pelo qual o país passa -, o próximo destino onde pensa em estabelecer residência é o Brasil, lugar onde vê possibilidades ideológicas e profissionais. O domínio que tem sob os idiomas curdo, árabe, espanhol, português e inglês, e que lhe abre muitas portas, faz qualquer um se pegar imaginando a gama de palavras que pode usar para expressar tudo o que sente, privilégio de poucos. Ainda assim, é recorrente vê-lo usando os termos “hate”, “saudade”, “mortos”, “atencíon”. Uma guerra nunca será capaz de gerar paz e ordem e, por mais que Siwar a tenha abandonado, ela ainda o habita e persegue. É essa a mensagem que fica depois de escutar de um ativista dos direitos humanos, repetidas vezes, o quão importante é a morte do ditador Bashar al-Assad.

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Entre o preço do tomate, a última da novela, conselhos e escovas progressivas, Luci Roza administra o próprio salão de beleza há 13 anos no Jardim Pauliceia, em Campinas. Com a ajuda do genro, Emerson, cativa a todos os seus clientes com facilidade - e jura que está disponível até mesmo para maquiagens de enterro.


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uci Roza só não está ligada no 220 porque todas as tomadas já estão ocupadas por secadores e chapinhas. Mas isso nem seria necessário: “Já nasci elétrica”, conta, com uma máscara descartável presa ao rosto, enquanto começa a mexer no cabelo de Elaine, logo após pintar as unhas de Adriana (roxas, com adesivo de borboletas em apenas uma das unhas de cada mão, seguindo a tendência da “filha única”). Luci é multiuso e está sempre rodeada de clientes. O espaço na Rua Luiz Libermann, 434, no Jardim Pauliceia, em Campinas, é consultório psicológico, escritório de advocacia, culto ecumênico, assistência social e, por que não, até mesmo uma redação jornalística, na qual cada cliente é uma pauta para as quais as fontes devem ser encontradas nos mais diversos lugares. É que Luci não consegue mais ver novela sem reparar na cor dos esmaltes e cabelos das atrizes. O simples “boa noite” do Jornal Nacional é um prato cheio para analisar as sobrancelhas de Patrícia Poeta, que “estão muito acentuadas”. O salão de beleza é um local para lidar com todas as possibilidades.

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A argila, componente indispensável de alguns tratamentos capilares, pode nos ajudar a explicar um pouco de onde vem essa energia. É porque bem antes de reconstruir fios, ela se dedicava, ainda menina, a construir tijolos na olaria em Presidente Prudente, interior de São Paulo. O trabalho puxado e “masculino” fora herdado do pai, mas, por esforço próprio, logo foi trocado pela enfermagem, curso no qual se empenhou ao sair da roça e ir estudar na cidade. “Eu adorava andar de uniforme na rua. Achava lindo”, comemora, ainda hoje. Os pais sempre incentivaram a então cabeleireira e seus irmãos a estudar, paralelamente ao trabalho na olaria. Luci lembra-se de recitar muitas poesias na escola e de gostar de autores como Monteiro Lobato e Castro Alves, e até hoje o hábito da leitura é presente em sua vida, variando pelos mais diversos estilos. Gosta de livros de autoajuda, como os de Augusto Cury, mas também gostou de

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ler “O Som e a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta. Seu livro preferido, lido durante uma viagem, é “Anel de Noivado”, de Sidney Sheldon, uma história de romance que ficou bastante marcada em sua memória. Mas filmes sempre lhe fazem dormir. A leitura também lhe motiva a fazer a sua própria. Uma das vontades de Luci é escrever um livro com histórias de salão - sonho que convive em paralelo com o desejo de conhecer o arquipélago de Abrolhos, na Bahia, para ver como as baleias se reproduzem. Planos que devem ser realizados algum dia, mas por enquanto vão sendo empurrados para dentro entre um gole de café ou outro. Luci mora em uma casa no Jardim Satélite Íris, estrategicamente longe do salão. Ela costumava morar na casa ao lado, mas percebeu que estava trabalhando mais do que deveria. Agora sobra tempo para chegar em casa e cuidar de sua família, composta pelo marido, pela mãe e por dois sobrinhos que moram com ela. Sua única filha, Jussara, já é casada com Emerson, que veio a se tornar o ajudante de Luci.

“Aqui é quase aquele salão da Queen Latifah, sabe?”, opina Ana, uma cliente, fazendo referência ao filme “Um Salão do Barulho”, de 2004, no qual a atriz abre seu próprio salão de beleza onde tudo

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“Sabe aquela música ‘entrei de gaiato no navio...’? Foi assim que o Emerson começou a me ajudar aqui”, debocha. O genro, moreno, com os cabelos raspados, passava por um dia de tensão - era a primeira vez que havia colocado bobes no cabelo de uma cliente, após aprender no curso de cabeleireiros que começou para ajudar a sogra com eficiência. O que começou em uma ajuda daqui e dali lavando cabelos, agora já virou um braço forte para esticar os cabelos com escovas e secadores e habilidade para realizar cortes masculinos. “Ele descobriu a profissão e saiu do armário”, comenta a cliente do bobes, achando graça. “Só abri uma frestinha”, arremata Emerson, reproduzindo uma fala do tão comentado Félix, personagem de Mateus Solano na novela “Amor à Vida”.


acontece. “E é assim mesmo. Aqui a gente canta, mistura, troca receitas, combina festa...”, concorda Luci, que até lembra fisicamente a norte-americana, mas usa um óculos de aro grosso e os cabelos na altura do pescoço - esticados com a ajuda de Emerson. A vida no salão lhe exige também estar por dentro de tudo. O preço do tomate, o futebol (a final da Champions League fora exibida no salão e o Bayern de Munique, vencedor, time incentivado pelos clientes) e até mesmo das lembranças do passado, como o radialista Zé Bettio, discutido pelos clientes após um carro tocar uma música “das antigas” no estacionamento da loja de salgados que fica em frente ao estabelecimento. Mas lembrança mesmo surge ao terminar o penteado de Ana para um casamento. O glitter faz o retoque final. “Daí, quando eu faço esse penteado, eu lembro daquela música...” e começa a cantarolar, à sua maneira, “Kung Fu Fighting”, de Carl Douglas, música responsável por elevar seu autor, jamaicano, ao primeiro lugar das paradas americanas em 1974, época de ouro da disco music e dos bailinhos, relembrados com saudade por grande parte dos presentes e por Luci, que mesmo agora, aos 50 anos, continua gostando muito de festa.

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Aos finais de semana, após todos os clientes estarem prontos para “arrasar”, ela também gosta de sair para curtir. Seu lugar preferido em Campinas é o Karaokê Ishii Som, onde pode reunir os amigos e, ainda por cima, exercitar uma de suas paixões não-tão escondidas: cantar. “Andanças”, de Beth Carvalho, é a escolha certa de seu repertório. Os domingos geralmente também abrigam as festas em sua casa, onde ela também gosta de cozinhar para muita gente pratos como dobradinha e feijoada. Dificilmente ela dá detalhes de como passou de enfermeira para dona de salão de beleza, mas tudo dá a entender que foi uma escalada natural. A vinda para Campinas se deu ainda como auxiliar de enfermagem, mas a profissão foi lhe levando a outros caminhos: a confecção, a massoterapia e, por fim, o salão, no qual já começou com o seu próprio, o que considera ter sido “um tiro no escuro”.

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Mas Luci acredita que tudo foi uma questão de acreditar muito no que faz - este ano, completa 13 anos atendendo aos clientes, sempre na mesma rua. Ao lado, há um espaço para uma outra loja, por onde já passaram lanchonete, oficina de costura, sorveteria, pastelaria e hoje se hospeda Val, dona de uma loja de roupas que vive em simbiose com Luci: quando um cliente demora para ser atendido no salão, é comum dar uma passada na loja vizinha e gostar das coisas. Val, que não fala muito, avalia a relação com Luci como excelente. “Nós acabamos trocando clientes”. Clientes estes, quase sempre provenientes do Q.I., o famoso quem indica, que não desistem do salão por nada. Adriana, a dona dos bobes, conta que já teve uma péssima experiência com o salão. Certa vez, fez um penteado para ir a uma festa de formatura do cunhado e se sentiu “pronta para a novela das oito”. Mas bastou uma ida ao banheiro durante a festa para constatar que seu cabelo estava duro e desmanchado. Lavou a cabeça, passou a festa inteira de cabelo molhado e xingou até a décima geração de Luci. Só que a raiva não durou nem uma semana - logo constatou que o problema era com seu próprio cabelo, e não com a cabeleireira. “Hoje eu não falo que vou fazer penteado. Falo que vou fazer ‘esquema’. Daí meu cabelo não ouve e continua bom”, conta Adriana. Os clientes também são o grande apego e motivação de Luci, que diz só ter coragem de largar o endereço se todos os seus clientes forem junto. “Quando morre um cliente, eu vou até no velório, viu?”, exemplifica.

“Se precisar, eu faço mesmo”, ri a cabeleireira.

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“E se precisar fazer a maquiagem do defunto, você faz?”, pergunta Elaine.

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JÉSSICA BIGON LITERALMENTE, SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO

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Eles pouco se lembram dos detalhes. A memória documentada também não lhes é tão útil - fragmentos do passado esquecidos em documentos incompletos, que pouco contam sobre suas histórias de vida. Mas a esperança de uma vida sem muito o que esperar existe até mesmo no sobrenome.


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atarina, sentada em um dos sofás, estica suas pernas em uma cadeira de madeira a frente. Diabética, teve de amputar o dedão do pé direito depois de uma infecção oriunda de um machucado. Ela é uma espécie de documento para os irmãos. Dos quatro que moram em Socorro-SP, ela é a que se lembra melhor do passado. A ruazinha na entrada da cidade não tem asfalto. A casa é de fundos e o cheiro de café torrado anuncia: está na hora do café da tarde! Num espaço pequeno, mas com um grande quintal, onde fica o tanquinho e os varais cheios de roupas, moram 4 dos 11 irmãos nascidos em Monte Sião, Minas Gerais . A sala tem dois sofás, uma poltrona e uma cama, onde dorme Seu Antônio. Dona Dita e Catarina, ambas mais altas e gordas que os irmãos, dividem um quarto ao fundo e entre a cozinha e a sala fica a cama de Pascoalina, uma outra irmã, que hoje está bastante doente. Benedicta e Antonio – ou Dona Dita e Seu Antonio – não sabem de cabeça quando nasceram, nem de onde os pais vieram, tampouco conseguiriam fazer uma árvore genealógica da família. Aos 75 e 83 anos, respectivamente, têm pouca memória, e na verdade, o pouco que se tem em registros não é de confiança: se comparado os documentos, eles não são irmãos. A certidão de nascimento já se perdeu, mas nos RGs constam as datas que dizem quantos anos cada um têm.

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Dona Dita não sabe ao certo qual sua data de nascimento, pois no cartório, o registro foi feito dias antes. Também tem registrado como sua mãe um nome diferente do verdadeiro: Isaura Maria virou Glória Maria, graças ao padrinho que se confundiu. Já Seu Antônio não possui o sobrenome paterno. Quando foi registrado deixaram o nome do pai, José Benedito, pela metade, assim mesmo, sem sobrenome. Catarina, embora um pouco mais lúcida, também se confunde ao contar que o nome de sua mãe foi escrito errado na certidão: “Isora, Isara, não sei. Sei que tá errado.” Pascoalina tem 73 anos e problemas sérios mentais e de saúde – visíveis na sua aparência: bem magra e com o cabelo despenteado. Ninguém sabe dizer ao certo do que se trata a doença, mas ela já foi internada por três vezes quando jovem em um hospital psiquiátrico de Itapira.

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Dita se recorda das histórias mais recentes. As mais antigas, parece que prefere esquecer. Bem magro e um pouco debilitado pela idade, Seu Antonio atualmente é traído pela memória. Quando questionado sobre o que lembra da juventude, responde: “Muita coisa eu alembro, mai tem muita coisa que eu não alembro mai”. As poucas fotos guardadas no quarto do meio, em cima de um armário numa caixa amarela de ferro, o tempo já estragou. Nenhum deles sabe ler e escrever. Pascoalina frequentou a escola quando adolescente, mas só o suficiente para assinar seu nome, que já não sabe mais como se faz. Com isso, sobram poucos registros. Seu Antonio tenta se lembrar das coisas da sua infância e juventude, mas fica confuso. Além do futebol que gostava de jogar e da bebedeira – segundo as irmãs, era normal ele sair às sextas-feiras de casa e só voltar no domingo, passando um final de semana de vida boêmia – lembra apenas que dos amigos que tinha quando moço, a maioria morreu. “Naquele tempo tinha uma doença que matava o mundo inteiro”. Todos os filhos da família Cirino nasceram em casa, sem médico nem hospital. Foram onze partos, mas um bebê não vingou. Ainda com uma morte precoce, foram criados 10 irmãos. “Não tinha televisão, não tinha dinheiro...”, comenta Catarina, sobre os pais terem quase um time de futebol formado em casa. Hoje, vivos, estão seis mulheres e um homem. Mas isso no cartório, para os quatro irmãos do bairro Abadia, as duas únicas irmãs que se casaram e foram morar em São Paulo já morreram há muito tempo “Num tem interesse com nóis, também não fumo atrás”.

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Filhos de pai negro e mãe branca, os irmãos, que carregam o nome Jesus no sobrenome, não esperam muito da vida. Depois de trabalhar a vida toda na roça, hoje têm a própria casinha com várias imagens de Cristo e uma cruz pendurada na parede. O que eles querem é o mesmo que desejam na hora de se despedir: “Fica com Deus, que Deus abençoe”.

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JÉSSICA BUENO AS ESCOLHAS DE SOLANGE

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Solange Martins poderia ser definida como mais uma entre os 43 mil enfermeiros que atuam no Estado de São Paulo, uma das 9 milhões de brasileiras que trabalham fora de casa, uma das muitas paranaenses e mães que registraram seus filhos com o nome de Bruno. Mas a história de Solange merece ser contada e lida por quem não se contenta com um número em uma estatística vazia.


H

á 22 anos trabalhando como enfermeira no Hospital Vera Cruz, a rotina de Solange Martins é quase tão pesada quanto a dos mais de 43 mil enfermeiros do Estado de São Paulo.

A paranaense é mãe de Bruno, um adolescente de 16 anos de pele morena, cabelos e olhos castanhos escuros herdados do pai. Bruno faz parte dos muitos jovens que aprendem a cuidar da casa e administrar seu tempo quando os pais estão trabalhando. A rotina de Solange é quase como a das muitas mulheres que cuidam dos filhos, do trabalho, da família, de tudo, antes de si mesmas. Acorda às 6 horas da manhã para enfrentar a rotina de oito horas no hospital e sai de lá quando o sol está se preparando para se despedir. Se for segunda e quarta-feira, vai para o curso técnico de enfermagem do trabalho. Nos outros dias da semana, ruma para encontrar o filho, fazer janta e colocar ordem na casa. A rotina de Solange é quase como a das 9,1 milhões de mulheres brasileiras que trabalham fora, e é “quase” devido a uma escolha feita há 22 anos. Porque é quando se sai da bolha de proteção do colégio, aos 17 anos, que a vida realmente começa. É quando o mundo mostra que não adianta querer, que não adianta amar, que não adianta sonhar para que as coisas aconteçam e, principalmente, para que aconteçam do jeito certo.

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A infância de Solange, em Umuarama, no Paraná, foi marcada pela dificuldade da família em conseguir o sustento. Muitos dias eram passados sem fome graças à ajuda dos vizinhos, que lhes doavam farinha e feijão. Aos 14 anos, Solange, sua irmã mais velha e o irmão com deficiência perderam a mãe para o câncer de mama. Um momento para o qual, segundo ela, nunca se está preparado, por mais que se pense estar. Antes que pudesse aceitar a perda da pessoa mais importante de sua vida, ela precisou fazer uma escolha: morar com a irmã mais velha ou com o pai, que havia se divorciado da mãe quando ainda

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era pequena. A adolescente Solange acreditava ser incapaz de perdoar a ausência paterna. Sem perdoá-lo, embora o aceitasse em sua vida de mau grado, foi morar com sua irmã. Em sua rotina, pesava o pedido da mãe de que fizesse escolhas conscientes e de que não deixasse seu orgulho a levar para o caminho das drogas e da violência. Completados 16 anos, sem saber ao certo por que, se pelo desejo da mãe ou por um empurrão do destino, decidiu morar com o pai. Apesar do impulso repentino, não foi fácil deixá-lo entrar em sua vida para se tornar a figura de amigo, conselheiro e espelho que é hoje. Entretanto, com a convivência, o orgulho e o preconceito foram se dissolvendo e deixando espaço para uma profunda admiração e respeito pelo homem que lhe deu a vida. Assim, quando o pai tomou a decisão de se mudar para Campinas, para tentar uma vida melhor, Solange não hesitou em abandonar seus amigos, sua irmã e os espaços que dividiu com a mãe. Sempre com um sorriso, Solange conta que chovia muito quando chegou à nova cidade. De dentro do cargueiro do caminhão de mudança, se espantou ao ver a Avenida Orozimbo Maia alagada e a enormidade da cidade que parecia ser castigada pela fúria do céu cinzento.

Seus olhos azuis brilharam ao reviver o momento em que conheceu Rodinei. Andava de braços dados com um amigo, ambos olharam da cabeça aos pés o rapaz moreno que descia, sem camisa, a Rua Culto à Ciência, no bairro Botafogo, montado em uma Caloi.

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Mesmo assim, recebia todas as novidades de braços abertos. No último ano do Ensino Médio, período em que começou a trabalhar no Hospital Vera Cruz, foi dividir um apartamento com uma amiga, ambas completaram os estudos no colégio Culto à Ciência. E foi lá que Solange o viu pela primeira vez.


“Lembro-me de dizer ao meu amigo, ‘olha lá aquele cara! Se eu tiver um homem desses, eu divido com você ’”, conta Solange, entre risos. Contudo, foi apenas uma semana depois que a adolescente conseguiu falar com o belo rapaz. Sentada em um bar de frente para o colégio em que estudava, na companhia de um namorado, sentiu o coração quase saltar pela boca e os olhos escapulirem das órbitas quando Rodinei cruzou a entrada e seguiu em sua direção. Não foi para falar com ela, mas para encontrar o seu namorado, que cuidou das apresentações. Ainda com o coração a mil, Solange saltou da cadeira e tratou de se despedir dos rapazes, com a desculpa de ter que terminar um trabalho. O namorado, assim como ela esperava, se dispôs a acompanha-la até sua casa, não muito longe dali, e depois ir embora. Uma vez em casa, esperou alguns minutos e, quando já não podia ver o ex-acompanhante na rua, saiu correndo de volta para o bar, para ter a oportunidade de conversar à vontade com Rodinei.

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Esse foi mais um ato impulsivo que definiria seu destino. Aos 17 anos, Rodinei era relutante em relação a estudar. Sua família não sabe ao certo quando foi que o caçula bonito e carinhoso começou a se afastar e a seguir o caminho que o levaria a morte. Talvez não fosse fácil ser o décimo segundo filho – vivo – em uma família que perdeu sua grande fazenda em Alfenas, Minas Gerais, e veio tentar a sorte no interior de São Paulo. Ela, a sorte, foi tão perseguida pelo Sr. Berto – seu pai – que chegou até a ser esquecida. Quando se passa muito tempo lutando por algo insubstancial, é comum a sensação de que não se sabe mais o motivo da luta, apenas que não se deve desistir dela. O fato é que Rodinei foi o último filho e, 20 anos, separavam-

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no do início da luta de seus pais para sustentar as crias. De um modo geral, nas grandes famílias, chega um momento em que os irmãos cuidam uns dos outros porque os pais estão ocupados demais trabalhando. Com o campineiro não foi diferente. Quando nasceu, sua mãe o entregou a uma das filhas mais velhas. “Cuida, ele é seu”, foram as palavras de Ana a sua filha Rose. Rodinei cresceu com o amor dos irmãos, mas, principalmente, das irmãs. Aos 14 anos, seus pais novamente o entregaram à Rose, já casada e morando em São Paulo, com o apelo de afastá-lo da maconha. Na Capital, Rodinei se recusou a voltar para escola. A condição de sua irmã, então, foi de que trabalhasse em sua empresa, com carteira assinada e salário fixo, como qualquer outro funcionário. Aos finais de semana, ele voltava para Campinas para ver o resto da família. Cerca de dois anos se passaram nessa rotina, até que Rodinei protestou. Alegou aos pais que era maltratado na casa da irmã, que não lhe davam comida e que o colocavam para dormir com a cachorra. E mais, disse que era explorado no emprego e não recebia um único centavo.

Há quem acredite em destino ou aposte no acaso, a realidade, porém, é que foram as escolhas de Rodinei que trouxeram sofrimento para sua vida, a de sua família e para a da mulher que o amava. Três meses após começarem a namorar, Rodinei ocupou a vaga que a

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Se o motivo da revolta foi a droga, uma mulher, um amigo ou a irmã que o levaria para morar com ela nos Estados Unidos, ninguém nunca chegou a saber. Os pais acreditaram no choro do filho, apesar de todas as circunstâncias e documentos provarem o contrário, e ele voltou a morar em Campinas.


amiga de Solange deixara no apartamento. A paranaense sabia que o namorado usava drogas, mas o amor por ele era maior que o medo do que esse vício poderia trazer. Além disso, sempre ficava no coração a esperança de afastá-lo dessa vida e ter para si apenas o lado bom de Rodinei. Entretanto, assim como seus pais e os 11 irmãos, Solange teve todas as tentativas frustradas. Por mais que tentasse ignorar o vício do namorado e ele, por sua vez, evitasse usar drogas na frente dela, os conflitos entre os dois existiam. Solange não entendia por que Rodinei precisava tanto daquilo. A busca por dinheiro e a fixação pelas drogas levou Rodinei ao tráfico e à prisão. Suas idas e vindas de liberdade se tornaram uma constante em sua vida e Solange precisou se adaptar a sua ausência. Foi apenas quando Bruno nasceu que Rodinei mostrou alguma determinação em se afastar das drogas, mesmo que pouca. Havia saído da prisão há algum tempo e, definitivamente, não queria voltar para lá. Para Solange, aquele ano de 1997 não foi o melhor momento para o menino nascer, mas, sem dúvidas, ele foi o melhor presente que Rodinei já ganhou.

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Apesar dos esforços, Rodinei se rendeu novamente ao vício e tornou a ir para a cadeia. E a sair. E a ser preso de novo. A família não entendia, Solange sofria. Dedicou-se ao seu filho e ao seu trabalho, ajudando o namorado como podia. Em 2005, porém, Solange levou o segundo maior baque da sua vida. Aos 32 anos, a enfermeira entrou para as cerca de 35 milhões de pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo. Sabia que Rodinei poderia ter contraído a doença, uma vez que fora preso e usara drogas injetáveis. Embora trabalhasse na ala da maternidade do hospital, a AIDS sempre foi um assunto em pauta na área da saúde. Ela sabia do risco, mas o amor...

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Em que momento Rodinei contraiu o vírus – se na cadeia ou compartilhando agulhas – e o transmitiu à Solange não se sabe ao certo. Segundo a paranaense, o momento em que abriu o envelope e viu o resultado é inesquecível. Desesperada e completamente sem rumo, ela correu para os únicos braços de quem não iria julgá-la, Rodinei. O casal chorou junto e se lamentou pela falta de proteção e cuidado. Apesar de todo o sofrimento e vulnerabilidade que ela sentia, decidiu não compartilhar a descoberta com a família e os amigos. Queria evitar, o máximo possível, que sofressem. Idas ao médico, ingestão de coquetel de remédios e cuidados extras com ferimentos e resfriados se tornaram parte da rotina da enfermeira, uma parte que ela escondia do mundo tanto quanto podia. A pior parte, porém, não é saber que tem uma doença incurável, isso pode ser controlável, ou que o homem que tanto amou a colocou nessa situação, frustrando muito de seus sonhos, isso é superável. A pior parte é o preconceito. Essa é a parte que Solange se determinou a ignorar. Pela sua família, por seu filho e por ela mesma. Foi apenas em 2010, quando o vírus a derrubou numa cama de hospital e quase tomou sua vida, que a família da enfermeira soube da doença. Esse período é como uma mancha em sua memória. De tão fraca e dopada de remédios, as lembranças que tem daquele período são apenas flashes.

Sem saber como, mas acreditando na bênção de Deus, Solange conseguiu se recuperar. Com 20 quilos a menos, ela e Rodinei

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Lembra-se de Bruno indo visita-la à noite, para ajuda-la a tentar comer. De Rodinei, já cego por causa da doença, visitando-a no hospital e dizendo, entre lágrimas, que ela não podia morrer antes dele, porque não suportaria a culpa. Do apoio de seu pai e de seu irmão, uma eterna criança.

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eram espectros do que foram quando se conheceram. Foi apenas nessa época que ela se afastou e o deixou aos cuidados somente da família. Mesmo sem a visão, Rodinei foi preso pela última vez em 2011, por ter se esquecido de se apresentar à justiça na data marcada para avaliação de sua condição de liberdade. Ele só conseguia se sustentar com iogurte e leite. Na prisão, era ameaçado ser assassinado se não levasse droga para os outros presos nas vezes em que era liberado para visitar a família. O esquema para não ser pego pelos policiais era o de ingestão da droga dentro de saquinhos. Contudo, na volta do feriado do Carnaval de 2012, o plano deu errado. Os saquinhos estouraram e as drogas acabaram sendo digeridas pelo seu organismo debilitado. Sem atendimento imediato e já fraco demais para lutar por si mesmo, Rodinei morreu. Para Solange, que acompanhou de perto a decadência do rapaz charmoso por quem se apaixonara, foi um momento triste e resoluto. Já há alguns anos aceitou o fato de que ninguém poderia salvá-lo. Pois não há como salvar alguém que não quer ser salvo...

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Em uma rotina de engorda e na constante luta para manter a saúde e cuidar de Bruno, Solange segue em frente. Determinada a mão deixar a doença tirar de si o ânimo e a capacidade de ver a beleza do mundo. Embora tenha dias que tudo o que quer é ficar deitada na cama, se levanta. Precisa ensinar ao filho que as escolhas determinarão o seu futuro. E para quem ainda tem tempo de escolher, nunca é demais dar bons conselhos. Mau exemplo seu filho tem de monte, mas também tem todos os motivos para seguir um caminho diferente de seu pai.

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JÉSSICA CALDEIRA EDUCAÇÃO PAULISTA NA RETROSPECTIVA DE UMA VIDA

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A intervenção ostensiva do tráfico na sala de aula era algo inimaginável para a professora Ana Regina, 54 anos. Realidade que ela vive na escola onde trabalha na periferia de Hortolândia. Uma violência diária responsável pela maior parte dos afastamentos de professores em São Paulo.


“Era noite e eu me preparava para dar aulas na Escola Estadual Maria Rosa Carolino dos Santos, onde diziam que tinha a gangue do Mata Rato. Esse bairro de Sumaré era estranho para mim, que tinha vindo do interior, cidadezinha pequena. Parecia que eu estava em outro mundo. Era normal chamarem lá a cavalaria para rondar a escola. Naquele dia a diretora chegou a convidar os guardas a entrar na escola. Eles andaram pelos corredores, bateram com os cassetetes nas paredes e portas, tentando intimidar os alunos. Diziam que as gangues ameaçavam e danificavam os carros dos professores. Logo que comecei me falavam para ter amizade com os alunos, não bater de frente, procurar amenizar a situação, porque aqui a barra é pesada”.

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inte e dois anos depois, a narrativa do dia a dia na escola da rede estadual onde Ana Regina Baldissera Pereira - prestes a se aposentar, aos 54 anos de idade - trabalha atualmente, não mudou muito. A Escola Estadual Jardim Nova Europa, localizada no bairro de mesmo nome da periferia de Hortolândia, tem apenas um ano e meio de existência, mas já é considerada umas das piores escolas do estado pela Secretaria da Educação. Escola Prioritária é o termo usado para classificar essa instituição responsável pela formação de aproximadamente 600 alunos, divididos em dois turnos. Ana Regina não estava presente quando o líder do tráfico de drogas do bairro, acompanhado por dois rapazes, foi convidado pela direção a falar com os alunos do ensino médio, que estudam no período da manhã.

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As aulas de ciências da turma de 2º ano do professor Alex Silva Almeida – atuante no ensino estadual há seis anos - seguiam o ritmo normal naquela sexta-feira. Enquanto ele explicava o conteúdo para a turma, o diretor bateu à porta da sala de aula, pediu licença e entrou dizendo que os amigos de bairro estavam ali para conversar com os alunos. Naquele momento, três homens entraram na sala de aula. O mais velho deles - mais tarde os professores saberiam ser o chefe do tráfico – tinha aproximadamente 50 anos. Usava um chapéu de palha que lhe dava o apelido de Jardineiro. Com ele, vinham dois rapazes que aparentavam 25 anos de idade. Um era baixo e trazia no colo

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uma criança. O outro se mantinha à porta, calado. Com a fala carregada de gírias, o líder se dirigiu aos alunos. Pedia que diminuísse a bagunça, a violência na escola: - E se acontece de o pessoal (policiais militares) descer aí, pra tratar as coisas na escola... Já aproveitam e sobem ali em cima, leva um, dois... Como é que fica? Tudo isso a educadora só ficou sabendo pelos colegas. A intervenção ostensiva do tráfico na sala de aula era algo inimaginável para a professora de português que fala, a todo momento, sobre como a calma com que conduz seu trabalho evita que a violência do dia a dia acarrete problemas de saúde, apontados pelo principal sindicato da categoria em São Paulo, a Apeoesp, como responsáveis pela maior parte dos afastamentos de professores das salas de aula: - Pensar que toda essa violência acontece no local onde eu trabalho dá uma sensação de impotência. Você está aqui à deriva deles. Se eu estou lá, eu não tenho apoio do Estado nem nada, eu estou desamparada. Eu tenho que trabalhar e tenho que rezar para que o dia passe para eu ir embora. Eu não sei o que pode me acontecer.

Parte de uma família de descendência italiana, Ana é a terceira filha dos quatro que nasceram do casamento entre Gueirino Baldissera e Hilda Palazzari. Moradores de Tupã, a família mudou-se para Inúbia Paulista logo após o nascimento da filha caçula. Criada no interior paulista, Ana Regina cursou o ma-

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Assim como quatro em cada dez professores vinculados à rede estadual de ensino, Ana Regina trabalha cerca de 40 horas por semana em sala de aula. A esse total, ainda são somadas as horas de trabalho em casa, na preparação de aulas e correção de atividades. Às longas horas de trabalho, somam-se aos baixos salários e às turmas que aglomeram uma quantidade de alunos superior a aconselhada pelos teóricos da pedagogia. 67% dos professores paulistas ministram aulas para classes de 32 a 40 alunos.


gistério na escola local. Em Adamantina cursou a faculdade e recebeu o diploma de Letras – português e inglês. Somente aos 32 anos deixou a cidade onde morava com os pais e, em Sumaré, começou a carreira no Estado que, em 2007, resolveu lhe identificar com um F, classificando os professores em categorias por formação e tempo de serviço. Ana Regina carrega, no rosto claro, especialmente ao redor dos olhos verdes emoldurados pela armação dos óculos, algumas rugas que mostram a passagem do tempo e que são acompanhadas por um sorriso que só a abandona quando o assunto são os mandatos consecutivos do PSDB no Estado. São quase 20 anos de governo tucano, já que a “ciranda” iniciou-se com Mário Covas em 1995. Seguido, após sua morte durante o segundo mandato, por Geraldo Alckmin em 2001. Substituído ao fim do segundo mandato pelo vice-governador Cláudio Lembo (PFL). José Serra assumiu o governo em 2007. Mas logo o deixou em 2010 para concorrer à presidência. Substituído pelo vice Alberto Goldman, ele foi sucedido por Geraldo Alckmin em 2011, que permanece no poder.

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Para a professora, o primeiro mandato de Geraldo Alckmin foi o que trouxe mais benefícios à categoria e à educação, com um reajuste de cerca de 15% nos salários dos educadores, que já estavam defasados há anos. “Foi como uma luz lá no fim do túnel. Pareceu que ia dar uma melhorada. Só que parou ali também”. No entanto, desde o ocorrido, a troca de cadeiras no governo paulista não se preocupou em trazer mudanças benéficas ao ensino. Ana Regina destaca a criação do bônus da educação e a concepção de um currículo integrado para todo o estado como os maiores engodos da Secretaria da Educação. Em 2013, a Secretaria da Educação investiu R$ 590,2 milhões em bonificações por desempenho. Aproximadamente 163 mil professores receberam o bônus que premia com até R$ 10 mil os profissionais que atuam em escolas que atingiram o índice

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de desempenho estipulado anualmente pelo governo estadual e medido pelas provas oficiais de português e matemática: - O governo joga esse bônus para colocar um contra o outro. É assim também com a divisão por categorias, que pretende desestimular os professores. Com a criação do bônus em 2000, todos os professores ainda tinham direito a, no mínimo, R$ 500,00 mais por ano, mesmo que a escola não atingisse a meta. Agora não. Se a sua escola não atingiu, você zera. Esse valor deveria ser diluído em aumento salarial, não em bônus. Mesmo após 22 anos de carreira, trabalhando 40 horas semanais e acumulando aumentos salariais por reajustes, quatro quinquênios – 5% de aumento a cada 5 anos de trabalho -, a sexta parte – garante 20% de aumento ao completar 20 anos de carreira - e uma aprovação na prova do mérito – avaliação de conhecimentos específicos do docente que garantia 25% de aumento, mas que a partir desse ano será de 10% -, o salário mensal de Ana Regina não ultrapassa R$ 2.700,00. Atuar como professora não lhe garantiu muitos louros. Para Ana, que se casou aos 35 anos e teve uma filha aos 40, a carreira na rede pública de ensino só não lhe trouxe desgostos por conta de sua personalidade calma e do apoio familiar: - Às vezes, comento com meu marido que cuidei dos filhos dos outros por tantos anos, mas sinto que a educação da minha própria filha fica um pouco de lado pela correria do dia a dia. Minha sorte é que ela é muito dedicada na escola.

- Tiveram alunos meus que se formaram. Uma foi dar aulas. Infelizmente virou professora...

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Sempre muito descritiva em suas respostas, Ana Regina torna-se concisa quando questionada se tem orgulho dos alunos que ajudou a formar, respondendo apenas com um sim. Não há ânimo em sua entonação de voz. Fico um pouco em silêncio para ver se haverá complemento, mais alguma lembrança:

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MICHELLE LOPES ALEGRIA: O MAIOR DE TODOS OS DETALHES

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Pensamento positivo e um sorriso no rosto são acessórios indispensáveis para Rosa Maria. Aos 60 anos, segue firme e forte com sua barraca na Feira Hippie, onde vende bijuterias há mais de 10 anos. É conhecida por todos que passam por ali, amiga de muitos, esposa, mãe de dois filhos e avó. Há quem garanta que nunca a viu reclamar. Ela confirma: não gosta de perder tempo com isso, gosta mesmo é de viver.


”N .

unca saia de casa com cara de lençol!”. Essa frase serviu de lição para Rosa Maria Bernal desde que a ouvira de sua mãe, há pelo menos 50 anos. E é assim mesmo. São 7h20 da manhã de sábado, muita gente no Cambuí ainda está debaixo das cobertas e ela, distribuindo sorrisos, com maquiagem no rosto, roupa elegante e diversos acessórios, acompanha a montagem de sua barraca de bijuterias na Feira Hippie. Enquanto o marido arma a estrutura metálica, ela já organiza as seis caixinhas que traz consigo. Cerca de uma hora depois, está sozinha. O marido, que também produz as bijuterias com ela, colabora com a montagem e volta para casa. Rosa, enquanto conversa com os colegas das barracas ao lado da sua, espalha pelo singelo balcão colares, brincos, aneis e pulseiras. Tudo é fruto de seu trabalho artesanal, feito diariamente na cozinha de sua casa. “Sou eu mesma quem faço”, anuncia radiante a todo curioso que se aproxima da barraca, atraído pela diversidade de cores e formas.

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Em um dia, poucos são os clientes de primeira viagem que aparecem. A maioria das pessoas que passam por ali já a conhecem bem. “Sou cliente da Rosa há anos! Tenho um brinco de cada cor que ela fez especialmente pra mim”, comemora uma das clientes, que bem velhinha, aponta para a orelha sem furos, decorada por brincos de pressão feitos de vidro. É uma exceção do trabalho de Rosa, que, há 15 anos, encontrou no artesanato uma solução para as dificuldades financeiras da família. A mineira de Pratápolis é mãe de dois filhos, Ana Luísa e João Victor, e esposa do publicitário Paulo Roberto. Filha de pais separados, herdou o bom humor da mãe e sua força de vontade. Contrariando a família, que recriminara o desquite e dizia que Rosa e seu irmão nada seriam na vida, veio para Campinas, estudou, trabalhou e nunca passou necessidades. “Foi um incentivo para eu ser alguém. Tudo o que falam que eu não vou conseguir ou o contrário do que eu quero, acho ótimo, torna-se um desafio a ser superado”, lembra.

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Na vida já foi um pouco de tudo: aos 14 anos trabalhava em matadouro de bois, depois trabalhou em posto de gasolina. Foi interna no Colégio Imaculada (de onde foi expulsa, por suas estripulias), foi modelo, formou-se em Economia, estudou moda e maquiagem, trabalhou no grupo Bendex do Brasil como planejadora financeira. Mas quando engravidou, Rosa não pensou duas vezes: pediu demissão para dedicar-se aos filhos, dos quais fala hoje com brilho nos olhos e um orgulho inexplicável de uma mãe coruja. O artesanato entrou em sua vida quase que por acaso. Após a demissão de seu marido, que aos 50 anos não conseguiu recolocar-se no mercado, não encontrava meio de tirá-lo da depressão. Lembrou-se então de uma comadre de Minas Gerais que sempre trabalhou com vidro. Pesquisou na internet, estudou. Comprou um forno para a produção dos materiais e apareceu em casa com todo o aparato necessário: “Ele entendia de cor, só precisava aprender as técnicas. Eu entendo de moda, gosto disso. Dai juntamos as duas coisas: ele faz os vidros e eu dou destino a eles. É trabalho em conjunto, 50% de cada um. Ele tem muito bom gosto nas cores... Digo que o sucesso maior é dele”, elogia e, como sempre, mostra que seu interesse maior é mesmo pelo outro. E ainda completa: “Ele diz que não, mas é a verdade”.

Por trás dessa mulher que prefere o silêncio que falar da própria vida, há uma intensa religiosidade. “Eu só agradeço. Minha filosofia de vida é brindar a vida, que é o presente maior que Deus pode

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Quando nenhum cliente aparece, Rosa senta-se em um dos dois bancos que ficam atrás da barraca. Entre uma bolacha e outra que belisca ao longo da manhã, conta-me histórias uma Rosa que não gosta muito de falar, argumenta que aprende mais ouvindo do que tagarelando. Fala pouco de si. Sempre inclui nos enredos os tios, filhos, a neta, o marido ou a mãe. Abre um enorme sorriso quando desconhecidos passam apressados e a cumprimentam de longe. “Eu sempre quis trabalhar aqui, sempre gostei disso. Aqui converso com muita gente, faço amizades...”.


dar. Eu não divulgo as coisas que eu faço na minha vida, porque não interessa a ninguém. Tudo o que eu faço é pra minha paz interior e pra Deus”. Aproxima-se das 13h e Ana Luísa, sua filha, que assim como a mãe vende bijuterias, abandona sua barraca, disposta a poucos metros da barra da mãe. Vai em busca de um almoço. Volta e passa por Rosa, entrega-lhe um pedaço de torta de frango, iguaria conhecida na Feira. É preciso uma pausa para refeição. Continua nossa conversa, enquanto almoça. De uma sacola, onde havia guardado os biscoitos da manhã, tira uma banana. “Tenho que me alimentar bem, vou pra casa só umas 15h, que é quando a feira começa a terminar”. A alegria que se nota durante o dia todo, na verdade, esconde a história de uma mulher que já venceu um câncer. Não gosta muito de falar do assunto, assim como de nada que diga respeito à sua vida. Todo o tratamento foi feito às escondidas, sem que a mãe, de 83 anos, por exemplo, soubesse. A maioria das pessoas que convivem com ela na feira também não conhecem esse lado da história: só a alegria. Essa informação, inclusive, ficou só agora, para o final, porque é assim que ela a vê: só como mais um detalhe.

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MIRELA VON ZUBEN COM QUANTAS CORRIDAS SE FAZ UMA HQ?

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Rodrigo Rafael Ribeiro poderia ser de tudo. Charmoso, engraçado e educado, preferiu unir duas coisas distantes e começou a colorir histórias em quadrinhos com suas aventuras no comando do volante de um táxi campineiro. Parece um cara normal, mas seus 25 anos de vida são só o começo.


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odrigo foge do estereótipo. Em vez dos cabelos brancos, barba desleixada, barriga saliente, cheiro de cigarro impregnado na roupa e camisa de manga curta listrada, o recém-nascido no comando do próprio taxímetro das ruas de Campinas, interior de São Paulo, parece mais um protótipo de modelo com estatura não-tão-elevada. A camisa é listrada, mas em tons de vermelho e design de grife, que denunciam seu gosto sofisticado para se vestir para o dia-a-dia. “Visto a primeira coisa que vem pela frente, mas sempre combino cores”. Neste dia de Outono atípico de calor no Cambuí, bairro nobre da cidade, seus cabelos estavam arrumados, a barba rala por fazer, óculos de sol de marca fina e calça jeans justa. Com 25 anos carregados com sorriso no rosto, Rodrigo Rafael Ribeiro faz da rua um quarto “érre” a completar os três que já têm o nome. E os quadrinhos, sua diversão, transforma em passatempo e jeito de dizer o que pensa. Os pensamentos, aliás, são sempre muito rápidos. Enquanto conversa com seu passageiro, já bola na cabeça os desenhos de alguma situação engraçada pela qual a pessoa poderia estar passando. Para representá-lo, usa um mesmo personagem e os passageiros são memorizados ao longo da viagem. “Meu bonequinho é o mesmo. Antes ele tinha piercing na orelha, topete... Decidi mudar neste ano, tirei o brinco e às vezes faço até uma costeleta, só para variar”, conta com entusiasmo enquanto desenha, em um papel que lhe dei, um diálogo entre nós dois.

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O ponto No dia em que o entrevistei, fiquei o aguardando no ponto de táxi que fica no cruzamento das ruas Maria Monteiro com Coronel Silva Teles. O atraso dele com o horário marcado não me desanimou. Aproveitei o tic-tac para analisar o lugar no qual ele passa a maior parte de sua vida. Em cerca de uma hora de espera, 19 táxis diferentes pararam no mesmo ponto e nenhum deles atingiu a marca de 5 minutos estacionado. A grande movimentação só serviu de justificativa para o atraso de Rodrigo. Quando liguei para ele con-

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firmando o encontro, ele já havia me alertado sobre a corrida que ia fazer e o horário de pico, por volta das 8h da manhã. O telefone do táxi também não parou de tocar um instante. O ponto, que tem à sua direita o Clube Regatas; à esquerda a Padaria Romana; em frente a Igreja Nossa Senhora das Dores e um mar infindo de comércios atrás, parecia bastante movimentado. Fumei dois cigarros antes que Rodrigo chegasse e a calçada parecia mais uma passarela de cães grã-finos. Um deles usava coleira rosa e era tão magro que até aparecia o esqueleto. Por coincidência, ele parou para dar uma fungada no meu tênis e virou as costas logo em seguida, indignado por não ter achado nada ali. Às 9h06, chega um SMS: “M descup 05 min. To ai.”. Ele deve ter digitado o texto da mensagem enquanto dirigia, mas o recado foi dado. Depois que chegou, me chamou para dentro de seu carro, um Palio Weekend. “O pessoal do ponto é muito fofoqueiro, melhor a gente conversar aqui”. Após duas horas de prosa, na qual ele fez o desenho no meu bloco, chegou uma senhora no meu lado do vidro. Levamos ela até o Shopping Iguatemi e na volta, começou a me contar do assédio que sofre com as passageiras. Com pinta de galã de novela das oito, não era de se esperar menos do público feminino. “O cliente chega no ponto e me vê dentro do carro, mas não acredita que sou taxista, talvez por causa da minha cara de novo”.

Em outra situação, uma passageira disse que só procurou o táxi de Rodrigo porque tinha ouvido falar muito bem dele e como recompensa pela corrida, deu a ele uma calcinha que estava

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Enquanto fazíamos a corrida da senhora, ele me mostrou o presente do dia. Uma garota, descrita por ele como sendo loira, alta de olhos castanhos, cerca de 19 anos, entregou um CD com remixes da banda Boyce Avenue para o taxista enquanto ele dormia. Meio sem jeito, ele ainda me encarou e disse: “nunca vi ela na minha vida”.


em sua mala. As mocinhas menos atiradas o presenteiam com bombons e doces. Atualmente, Rodrigo está morando com sua “esposa” no Jardim Londres, bairro que fica na região Noroeste de Campinas. Eles namoram há 10 anos, mas a alavanca que usaram para o casamento foi a possibilidade de ganharem uma casa. Rodrigo conta que ele foi sorteado pelo “Minha casa, minha vida”, programa habitacional do Governo Federal, mas precisava ser casado para conseguir o bônus. Foi aí que os dois correram pro cartório. O problema foi que, depois disso, sua então esposa passou no concurso público da Prefeitura e tiveram que “descasar” pra que ele conseguisse, com o título de divórcio, ganhar a casa mesmo assim. “Isso aconteceu faz pouco tempo e ninguém das nossas famílias sabe que a gente descasou, mas ainda mora junto”. Histórias e quadrinhos Emprestei um papel do meu bloquinho e ele mesmo sacou sua caneta, que o acompanha em qualquer lugar junto a um dicionário de inglês. Rodrigo tentou aprender a outra língua para poder se virar com a profissão, mas o dicionário usa só para guardar papéis com anotações mesmo.

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A prática da segunda língua, segundo ele, viria muito a calhar. Conta o taxista que certo dia, um bando de japoneses embarcou em seu carro no Aeroporto de Viracopos. O susto maior não foi a língua enrolada, mas sim o espirro que um deles deu e foi parar no vidro da frente. A situação só teria sido menos desagradável se o mesmo japonês não tivesse tentado se desculpar limpando o vidro com a própria meia. Em outras situações menos constrangedoras, o gringo só precisava aparecer com o nome da rua escrito em um papel.

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Por falar em papel, a boa vontade de Rodrigo em começar a escrever e desenhar quadrinhos partiu do incentivo dos parceiros de copo. O álcool foi sua alavanca, mas não porque bebia muito ou pouco, mas sim porque é no bar que suas histórias ganham vida mais uma vez e caem no gosto da mesa. Foi assim que ele começou a escrever ao seu modo as suas peripécias. Formado só no Ensino Médio e sem ter muito gosto pela leitura aprofundada de livros e revistas, Rodrigo diz que “escreve sem ler” e, mesmo tropeçando na grafia, acentuação e pontuação, consegue transmitir a essência de suas histórias pro papel. Foi daí que surgiu seu primeiro livro, com um título que faz jus a sua personalidade peculiar: “Cabelo de boneca veia”. “Fui de séries “A” até a quarta série, da quinta em diante fiquei sempre na “B”, e apenas uns dias na “D”. Mas nunca na “E” e quanto menos na “F”. Este era um grande problema de minha escola. Não sei quem possa culpar, mas alguém formavam os “bons” alunos e os colocavam juntos da primeira até o colegial, e assim com os “regulares” e também com os “piores”. Resumindo... Hoje os alunos da série A e B, estão casados e tem empregos de bons salários. Os de C, estão no meio termo. Já os D, estão presos. Agora os F... Nem foram enterrados pois os corpos não foram encontrados.”

Enquanto eu e Rodrigo conversávamos um pouco sobre cada um destes livros, ele também ia me mostrando em seu celu-

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Além do livro que é, na verdade, uma reunião de várias situações pelas quais Rodrigo passou em sua adolescência, o taxista ainda lançou outros três volumes: “Minha perversa caneta”, “B a Bar – O dicionário do bar” e “Que pena que teu marido não te ama”.

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lar o site que fez pra divulgar seu trabalho longe do volante, escrevosemler.com.br. Acabei ganhando um exemplar do primeiro deles que, com todo o carinho, ainda veio com dedicatória à minha pessoa. O site do taxista multifunção ainda reúne alguns dos seus milhares de quadrinhos, que todo mundo pode ver e, com certeza, dar risadas. As situações são infinitas, mas o humor sádico denuncia o que talvez seja a marca registrada da vida de Rodrigo. Os traços dos desenhos são tão rápidos quanto a velocidade dos pensamentos do jovem e neles, quase sempre seu GPS está representado, talvez porque seja este o maior companheiro do taxista junto ao Cd player e o taxímetro. “A charge deve ser como um tiro: chama a atenção, é interessante e, por último, engraçado”.

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STEPHANIE DOS SANTOS TRAÇANDO UMA NOVA ROTA

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Alguém que poderia ser apenas mais uma na multidão, como uma vida cheia de acontecimentos inusitados, mas que prova que nunca é tarde para traçar uma nova rota a partir dos muitos caminhos que a vida oferece. Essa é Erika Roberta Vicentini da Silva, ou simplesmente Erika Silva, uma cobradora que decidiu não permitir que tudo na vida seja apenas passageiro.


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ampinas tem quatro empresas concessionárias do transporte coletivo e sete cooperativas do serviço alternativo, que formam o Sistema InterCamp, este, que por sua vez, soma ao todo 1.244 veículos. Com uma média de mais de 640 mil passageiros circulando todos os dias pelas linhas do sistema, fica a pergunta: Quantos passageiros reparam em quem libera a catraca e passa o troco? Muitas vezes quem está sentado atrás da catraca não é notado pelas centenas de pessoas que rodam a roleta todos os dias. Porém, na linha 164, que sai do terminal Vila União em direção ao terminal Central, em Campinas, é possível encontrar uma exceção à regra, a cobradora Erika Roberta Vicentini da Silva. Com um sorriso permanente, durante as dez viagens que realiza diariamente, ela não passa despercebida por nenhum de seus passageiros. Morena, de olhos castanhos, com 1,65m de altura e, em média, 85kg, Erika, apesar do uniforme camisa azul claro e calça azul marinho que é característico das empresas de transporte urbano, se difere da maioria por sua farda continuamente bem passada, seu corte de cabelo social, sempre curto e mais alinhado do que os cabelos de alguns colegas de trabalho.

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Uma figura que carrega ao menos dois estereótipos claros. O primeiro e mais óbvio: o fato de ser uma mulher desempenhando uma função que até pouco tempo era dominada por homens, que estão presentes em maior número desde o processo seletivo até os cargos de chefia. Porém, a falta de mão de obra masculina qualificada e interessada no segmento possibilitou a entrada de mulheres nesse mercado e, com isso, a presença feminina nos terminais e nas garagens é tolerada com algum respeito e sem maiores hostilidades. Elas, que começaram como cobradoras, hoje também buscam, e em alguns casos ocupam, a função de motoristas.

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O segundo rótulo, e talvez o mais marcante, diz respeito à sua aparência, que é notada logo no primeiro instante, por não estar dentro do modelo socialmente estabelecido. E esse possivelmente é um dos motivos que atraem a atenção dos passageiros sempre que alguém se aproxima, seja para perguntar algo ou mesmo começar uma conversa simples. Dona de um temperamento aparentemente tranquilo, Erika cumprimenta a todos que passam pela roleta e parece não se importar com os olhares curiosos e atentos a sua fala, mas ela garante que já foi bem mais explosiva e confessa: “é incrível e irritante, basta alguém me perguntar alguma coisa, me cumprimentar ou começar a conversar comigo que o ônibus inteiro começa a prestar atenção”.

Mesmo assim, Erika insiste que, pouco a pouco, vem mudando sua maneira de agir diante das situações estressantes e, curiosamente, acompanhando uma de suas viagens foi possível ver uma discussão entre ela e uma passageira, uma discussão com vozes baixas e equilibradas, na qual os que não haviam presenciado a

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Erika se tornou cobradora aos 22 anos e seu temperamento explosivo já fez com que ela quebrasse o nariz de um passageiro dentro do terminal Ouro Verde, que a ofendeu verbalmente e, logo em seguida, desceu sem pagar a passagem na linha 108. Outra situação dramática foi na linha 117, que usa veículos articulados, devido ao grande número de passageiros. Segundo ela, certo passageiro passou mais de quatro dias tomando o coletivo no mesmo horário e sempre parava em pé junto à roleta, dificultando a passagem dos demais. Na semana seguinte, ela resolveu pedir para que, nas próximas viagens, ele passasse a catraca antes do ponto final para facilitar o ir e vir dentro do ônibus. Ele, não contente em responder com palavras de baixo calão e ofensas, bateu com a mão espalmada no peito dela. Com uma reação, segundo ela automática, saiu de seu banco, derrubou o passageiro no chão e começou uma sessão de socos que só parou depois da intervenção de outros quatro ocupantes do ônibus e muito sangue. “Minhas mãos ficaram inchadas e eu nem lembro da cara dele, só do sangue” afirma ela.


confusão do início nem imaginariam ser, aquela conversa, uma desavença. O que motivou o atrito foi a entrada da passageira pela porta traseira sem avisar previamente ao motorista. Ai já viu, né... que confusão! O motorista, não percebendo a entrada da moça, fechou a porta e quase espremeu a passageira, que sentiu que sua vida não era valorizada pelo motorista e pela cobradora. Essa busca por mudanças no modo de agir, no auge de seus 33 anos, Erika atribui ao fato de estar à procura de algo melhor, pois sua vida foi conturbada a começar da infância. Filha de ex-dependentes químicos, ela conta que, dos oito filhos que a mãe teve, cada um com um pai diferente, ela foi rejeitada e deixada num orfanato aos dois anos de idade e que sua tia paterna, dona Eclea, foi quem a levou para casa e se responsabilizou por sua educação. Ao se referir à tia, num primeiro momento, ela diz que considera dona Eclea como mãe, mas que a chama de tia e que isso sempre foi bem esclarecido. “Ela sempre deixou isso muito claro, ‘sou sua tia e não sua mãe’”, porém, ao longo da conversa, é possível perceber que ela sempre se refere à dona Eclea como mãe e a prima com quem cresceu, Elaine, como sua irmã. Erika conta que conheceu o pai aos 8 anos de idade e que, atualmente, não mantém contato com ele, com a mãe ou com os outros sete irmãos.

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Ela viveu na casa da tia até seus 21 anos, quando decidiu sair para viver seu primeiro relacionamento sério e dividir a vida com a então namorada, mas o relacionamento não deu certo e, após um ano, ela voltou para a casa da tia, só que sua estada foi curta e, um mês depois, ela já estava morando sozinha novamente e dando início a um novo relacionamento que duraria dois anos e meio. Porém, ela diz que só durou tanto porque não queria ficar só. “Queria ter alguém e, naquele momento, não interessava muito quem era”. Foi também nesse período que ela conheceu um cobrador e colega de trabalho que, anos mais tarde, se tornaria sua nova família: João Souza.

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Com o final do segundo casamento, aos 24 anos, ela, João e o namorado dele, Antony, decidiram dividir uma nova casa. Ela conta, entre algumas risadas e muito rubor, que sempre teve uma rotina de vida intensa: gostava de festas, bebia bastante, fumava e tinha diversos envolvimentos amorosos simultaneamente, mas que nenhuma dessas características gerou problemas junto aos novos colegas. Porém, depois de um ano e meio de uma convivência consideravelmente estável em sua nova casa, ela conheceu Fernanda, uma menina de 18 anos que morava com o pai, tinha um noivo e começou um novo relacionamento. Durante algum tempo, o noivado de Fernanda continuou em paralelo ao relacionamento que elas mantinham, o que gerou divergências entre Erika, João e Antony. Foi então que Roberta decidiu morar sozinha novamente, para manter o relacionamento e não perder a amizade de Antony e João. Desse relacionamento, que durou dois anos, Erika conta que a personalidade forte da ex-namorada e a pouca idade influenciaram em sua maneira de levar e ver a vida, sempre ao extremo, chegando, inclusive, a usar cocaína. Apesar de não terem morado juntas, foi um período com muita paixão, diversão, ciúme e certa possessividade.

Após algum tempo, as coisas migraram da zona de conforto e comodidade para a zona de conflito e ela conta, com uma voz profundamente magoada, que, durante um ano, o relacionamento

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Com o fim do relacionamento com Fernanda, veio Bruna, uma morena de olhos verdes que, seguindo o ditado mais clichê de todos, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, ganhou espaço e o carinho de Érika, mesmo não estando nos planos dela se envolver com alguém que já tinha dois filhos e ainda morava na casa da ex-sogra. Não demorou e Erika chamou Bruna para morar com ela. Os dois filhos dela, Erik e Henri, permaneceram com a exsogra, porém, com uma convivência pacífica.


caminhou bem. “Eu ofereci de tudo a ela e aos filhos. Ela não trabalhava e todas as contas da casa e das crianças era eu que pagava. Depois de um ano, eu já não conseguia mais arcar com tudo. Foi quando disse que ela precisava trabalhar e ela arrumou emprego em um salão onde o dono, um senhor de 56 anos, gostava muito dela e, provavelmente, ela continua lá, com o dono do salão”. Depois da separação, Erika morou sozinha por seis meses e, durante esse tempo, refletiu sobre o que havia conquistado e onde havia conseguido chegar e percebeu que talvez fosse o momento de mudar. Ela voltou a morar com os amigos João e Antony, e, agora com uma família que ela escolheu ter e que mais uma vez a acolheu com total amor e carinho, ela se dedica a moldar e controlar seu temperamento, cuidar de seu canteiro e seus dez vasos com plantas e a traçar novos objetivos. Após ter passado 11 anos de sua vida vendo as pessoas ir e vir com os mais diferentes destinos e objetivos, Erika percebeu que, agora, ela também quer ir e, de preferência, para longe dos ônibus coletivos. Ela quer buscar os sonhos que não sonhou nos últimos dez anos, mas que passaram a ser parte de sua rotina no último ano.

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Desde maio de 2012, ela passou a se dedicar a sua vida profissional: quer se especializar e se tornar motorista. Para isso, tirou a Carteira Nacional de Habilitação na categoria D e começará em 15 de junho o curso para Condutor de Veículos de Transporte Coletivo de Passageiros, pois quer melhorar sua renda e, assim, poder custear o tão sonhado curso de tecnólogo em gestão ambiental, que ela descobriu ser um objetivo devido seu amor pelas plantas.

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SYLVIA GOMES DIAS NUBLADOS, DIAS DE SOL

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Tatinha era bailarina. Mesmo após um problema que lhe impediu de dançar, ela não desistiu de continuar dando seus próprios passos. A batalha que foi vencida não deixou feridas, apenas lições de vida.


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os sete anos de idade, Silvia Tatiane de Sousa Bordigon Martinati, ou simplesmente Tatinha, como ainda hoje é chamada pela grande maioria das pessoas em sua vida, era uma criança como qualquer outra. Extremamente ativa, ela participava de varias atividades físicas durante o dia, mas eram as aulas balé feitas em um clube que eram as favoritas da garota. Graças às apresentações frequentes do grupo de dança que pertencia, sua rotina era cheia com os ensaios, e foi durante um desses ensaios que Tatiane reclamou das dores que sentia em seu tornozelo. A reação inicial de seus pais foi pensar que a dor que a menina sentia estava relacionada com o esforço feito durante as aulas de balé, porém com o tempo eles perceberam que não era esse o caso, já que não importava quantas vezes eles a levassem para o hospital, as dores continuavam lá e se agravavam a cada dia que passava. Apenas depois de um ano de muitas visitas a diferentes médicos e inúmeras pesquisas que o verdadeiro diagnóstico foi encontrado; a pequena Tatiane tinha artrite reumatoide.

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A artrite reumatoide, também conhecida como artrite degenerativa, é uma doença crônica e autoimune, de causa desconhecida e que tem como sua principal característica a inflamação das articulações. A doença pode causar transformações nas mais diversas estruturas das articulações do corpo, como ossos, cartilagens, ligamentos e músculos, e em seu estágio mais crítico, podem ocorrer lesões ósseas e articulares irreversíveis, perda da qualidade de vida e a morte. Ela afeta entre 0,5% e 1% da população mundial adulta e cerca de três vezes mais mulheres do que homens e tem a maior incidência com pessoas entre 40 e 70 anos. Por todos esses motivos, o diagnóstico foi uma grande surpresa, não apenas para a família, mas para os médicos também, já que naquela época era praticamente desconhecido o fato de que uma criança poderia ter artrite. Hoje, aos 34 anos, e mãe de Eloá, de 2 anos, Tatiane fala de sua doença e como ela mudou sua vida sem nenhum tipo de mágoa ou rancor. Palavras que, por sinal, parecem

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não fazer parte do seu vocabulário ou filosofia de vida, pois em nenhum momento, enquanto contava como a doença a impediu de andar e a incapacitou de ir para a escola, ela demonstrou algum sinal de pessimismo ou negatividade. “Eu estava tão afundada na dor que eu não me preocupava de não poder brincar mais ou sair, eu não senti essa diferença toda, eu deixei de ir à escola, porque eu fiquei esse período todo sem andar, mas eu sempre tive os meus amigos que sempre iam à minha casa e ficavam comigo conversando, ou só assistindo TV do meu lado, então eu nunca fiquei sozinha”, fala Tatiane, com simplicidade, sobre aquela época de sua vida. É com essa simplicidade que ela conta por tudo o que passou e, em alguns momentos, sua voz pode mudar um pouco, especialmente quando ela fala de algo que a emociona, mas o sorriso nunca sai de seu rosto, nem mesmo o otimismo que ela encontra em todas as coisas. Já com 8 anos e a doença recém-descoberta, a artrite progrediu rapidamente, fazendo suas articulações enrijecerem e atrofiarem. Por nove meses, ela não pode andar, podendo ficar apenas em sua cama, ou no sofá de casa, até o dia que isso mudou pelo simples fato de que Tatiane quis andar novamente. “Minha mãe me deu um banho, me colocou no sofá e eu senti vontade de andar. Minha mãe estava na cozinha fazendo comida e eu, simplesmente, levantei e sai andando. Aí, minha mãe ouviu o barulho e foi para sala. Eu estava de pé”, conta, rindo da memória da cena.

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O simples fato de Tatiane conseguir andar era um milagre para a família, já que os médicos não tinham muitas esperanças em relação ao caso. Aos poucos, ela voltou a sua rotina normal, como ir para a escola, adaptando as suas necessidades. Ao terminar o ensino médio, Tatiane tinha planos de fazer psicologia, acabou prestando o vestibular e passando, mas infelizmente seus pais não tinham condições para pagar o curso, além da locomoção para a faculdade ser difícil. Então foi trabalhar por quatro anos, período que ficou sem estudar, na tapeçaria da família como secretária.


Foi durante essa época de sua vida que um de seus tios, gerente de um banco, avisou que a instituição onde ele trabalhava estava com um programa para contratar pessoas com deficiência, dando a estrutura e a acessibilidade necessárias. Porém, para poder entrar no projeto, o candidato deveria estar cursando administração ou economia na faculdade. Após voltar aos estudos, Tatiane recebeu uma notificação que havia passado no concurso público da Infraero e, já que não tinha tido notícias do banco, decidiu aceitar o emprego na empresa. Nesse meio tempo ela fazia tratamento na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enquanto estava na fila de espera para próteses para os joelhos e quadril, para melhorar sua postura e, assim, melhorar sua qualidade de vida. Foi quando um de seus médicos deu a notícia de que o governo não iria mais custear as próteses.

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Sem saber o que ia acontecer, já que sua família não tinha condições para pagar pelas próteses - principalmente pelo fato que eram necessárias quatro, que teriam que ser importadas da Alemanha e custavam R$ 15 mil cada – ela contou para os colegas de empresa sua condição e, assim, as pessoas a sua volta fizeram o que podiam para ajudar. Escreveram relatório sobre o caso e mandaram-no para o diretor de administrações da Infraero, na sede em Brasília. Logo, a empresa recebeu a autorização para encomendar suas próteses. Em 2004, com 24 anos e menos de um ano após entrar na empresa, Tatiane fazia sua primeira cirurgia para colocação de próteses de joelho e quadril do lado direito. Oito meses depois, pode operar o lado esquerdo. Logo após as cirurgias, Tatiane voltou a frequentar a faculdade com o auxílio da cadeira de rodas, mesmo contra o conselho do diretor de seu curso, que havia lhe dito que talvez fosse melhor trancar o curso por um ano e voltar quando completamente recuperada. Mas ela não queria saber nada disso: queria se formar com a turma que havia entrado. “Se eu não tivesse passado por tudo isso, talvez eu fosse uma pessoa frustrada, que não teria motivação pra nada, sem sonhos, sem objetivos, sem vontade de correr atrás”, diz.

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Depois de sua recuperação da cirurgia, ela foi em busca de conseguir sua carteira de habilitação, algo que sempre desejou, já que representava sua liberdade de ir para aonde bem entendesse e também tiraria o peso das costas de seu pai - que durante os quatro anos de sua faculdade a levava e buscava todos os dias, além de levá-la para as suas consultas médicas. Foi aprovada já na primeira vez que fez o exame. Hoje, Tatiane está muito bem casada com o pai de Eloá, com quem namorava nos seus tempos de faculdade. Ela planeja continuar os estudos, tendo em foco terminar seu curso de inglês e, em um futuro não muito distante, finalmente estudar psicologia como sempre quis. “Eu preciso de vida, não gosto de dia nublado, preciso do sol, preciso de calor, eu preciso de energia” – Tatiane disse, com um sorriso no rosto. A batalha que foi vencida não deixou feridas, apenas lições de vida.

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