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sexta-feira, 09 de fevereiro de 2018

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Família Smith: uma história de sucesso, milhões e nepotismo Foto: Divulgação

Transformar um sobrenome em uma empresa não é novidade para quem faz parte da indústria do entretenimento. O nepotismo é comum em Hollywood e, superada a rejeição inicial, o público deparou-se algumas vezes com sagas de talento como os Coppola, os Barrymore e os Huston. As Kardashian e os Beckham, outro tipo de talento, também construíram impérios com seus sobrenomes, sendo frequentemente objetos de análise e crítica por causa disso. Essas crianças ainda não sabem o que querem. Que bobagem. Não são prodígios. Elas acham que Hollywood é de verdade. Terry McMillan O caso de Will Smith (Filadélfia, 1968) e de sua esposa, a atriz Jada Pinkett-Smith (Baltimore, 1971), poderia ser diferente por causa da forma como essa dinastia foi construída. Há anos o casal é criticado por vários analistas e figuras da cultura afro-americana por tentar transformar os filhos, desde muito jovens, em estrelas e cópias fiéis de si mesmos. Basta notar que os filhos têm os mesmos nomes dos pais (Will/Willow, Jada/Jaden) e que, desde muito jovens, foram lançados na arena da fama, onde a imprensa os esperava com as garras de fora. Jaden Smith, o filho mais velho do casal, agora com 19 anos (Will Smith tem outro filho mais velho, Trey, de um casamento anterior), estreou no cinema com apenas 8 anos, interpretando o filho de, sim, Will Smith, seu pai, no filme À Procura da Felicidade (2006). Naquela época, já surgiam em Hollywood algumas acusações de nepotismo. Em 2010, tornou-se o protagonista absoluto de uma nova versão de Karate Kid, produzida por seus pais, Will e Jada. Na promoção, a família passeou unida por programas de televisão de todo o mundo. Em 2013, as suspeitas de favorecimento foram confirmadas com Depois da Terra, no qual Jaden interpretava o filho de (sim, novamente) Will Smith. O filme, um fracasso de crítica e público, foi jocosamente rebatizado de Planeta Nepotismo nos Prêmios Framboesa (que, ao contrário do Oscar, pre-

depois cumprimentá-lo pela cifra de reproduções na popular plataforma de música por streaming foi mencionado pelos principais veículos de entretenimento de todo o mundo, fazendo com que milhões de pessoas ouvissem a canção original pela primeira vez.

miam os piores filmes do ano). A outra filha do casal, Willow Smith (hoje com 17), estreou no cinema com apenas seis anos, interpretando a filha de (sim, adivinhem) Will Smith, em Eu Sou a Lenda (2006). Em 2010, aos 10, tornou-se a mais jovem cantora da história a emplacar uma canção entre as 20 primeiras colocações da lista de singles da Billboard nos Estados Unidos, com Whip My Hair. Naquele mesmo ano, os Smith mirins ocupavam os meios musicais e cinematográficos graças a produtos feitos sob medida para eles por seus pais. Quem era o mentor do milagre dessa canção, além de Smith? Jay-Z, o marido de Beyoncé, amigo dos Smith e todo-poderoso dono da agência Roc Nation, que contratou Willow como estrela sob seu manto. A mais jovem de todo o seu catálogo. Em declarações bastante infelizes, Jay-Z comparou Willow com Michael Jackson. “Imagino que assim era Mike [Michael Jackson] quando criança”, disse ele numa entrevista. “Quando se tem esse talento, nunca se é jovem demais”, acrescentou. Os alarmes dispararam quando as pessoas se lembraram de como terminou a história de Michael Jackson, após ser privado de ter uma infância normal. Numa entrevista concedida à New York Magazine ao lado do seu filho Jaden, em 2013 (estavam divulgando Depois da Terra), Will Smith recordou uma conversa bastante sintomática com sua filha Willow. “Ela me disse: ‘Papai, quero ir à escola com minhas amigas durante a semana e me divertir com elas

no fim de semana’. No auge do sucesso de Whip My Hair, de repente ela me disse: ‘Papai, não quero mais fazer isto’. E eu disse a ela: ‘Ouça, ouça, ouça. Não, querida, eu te consegui Annie [uma versão do clássico musical da Broadway que estava sendo produzida, pois é, por Will Smith, Jada Pinkett Smith e Jay-Z]. Você poderá ir a Nova York, estar com a Beyoncé e levar as suas amigas’. E ela me disse: ‘Papai, tenho uma ideia melhor: por que você não me deixa ter 12 anos?” Muito mais revelador, porém, foi o momento em que o jornalista fez a seguinte pergunta a Jaden (que tinha então 14 anos): “Já se disse que você poderia estar mantendo uma relação com Kylie Jenner. A família Kardashian transformou sua fama no negócio familiar. Vocês acham que a situação de vocês é parecida ou diferente?”. Nesse momento, segundo o jornalista, Will levanta a mão diante do seu filho para que não responda. “Estou tentando entender a pergunta”, diz o jovem. Will interrompe. “Não faça isso.” E esclarece ao jornalista: “Ele nunca teve que lidar com esse tipo de pergunta.” Willow Smith A escritora Terry McMillan, autora do best-seller Falando de Amor e muita respeitada pela comunidade negra, foi primeira a fazer soar o alarme, numa série de tuítes publicados em 2011 na sua conta oficial (quando Willow tinha 11 anos, e Jaden Smith, 13). “Os filhos de Will Smith já agem como estrelas”, escreveu. “Há arrogância em sua atitude e comportamento. Acho isso incrivelmente triste.”E acrescentou:

“Essas crianças ainda não sabem o que querem. Que bobagem. Não são prodígios. Elas acham que Hollywood é de verdade”. Não foi a única. Ao longo destes anos, também o New York Post, o Hollywood Reporter, o site Vice e a edição norte-americana da GQ foram outros veículos que dedicaram textos a criticar o funcionamento e a superexposição da família Smith. Jaden Smith viu recentemente o seu primeiro álbum, Syre, superar 100 milhões de execuções no Spotify. O single mais bem-sucedido desse álbum se chama Icon, e em seu clipe o cantor e ator usa códigos tradicionalmente associados à cultura hip hop: um carro luxuoso e muitos complementos de ouro. Apesar de o vídeo ter sido lançado em novembro – acumula mais de 40 milhões de visitas desde então, uma cifra respeitável, mas não à altura de um astro adolescente com tanta exposição –, ele ganhou agora um novo pico de popularidade graças a uma paródia publicada por Will Smith na sua conta do Instagram. É curioso que Will Smith possa, com uma ação numa rede social, ressuscitar a popularidade de um clipe lançado há três meses. Afinal de contas, seu filho o supera em seguidores (tem 7,6 milhões, contra os 7,4 milhões de Will). Mas a exposição mundial de um superastro do cinema como ele pode superar a de Jaden. E o movimento parece ter funcionado: esse vídeo em que Will parece primeiro zoar com seu filho para

É curioso também que, para felicitar seu filho, Will Smith decida parodiar um clipe que não fez o sucesso esperado para uma canção que pertence a um disco que tampouco obteve o sucesso esperado (não passou da 24ª. colocação na Billboard 200, a lista oficial de álbuns comercializados nos EUA). Se a paródia for a imitação burlesca de um produto popular cujos códigos e piadas privadas são facilmente captados pelo público, isso é realmente uma paródia ou o enésimo truque publicitário de uma família que transformou seu nome em uma marca empresarial? Atualmente, Willow segue sua carreira como cantora e publicou dois álbuns de menor sucesso. Um deles teve a participação de seu irmão mais velho, Trey (de 25 anos, fruto de uma antiga relação de Will Smith com a atriz Sheree Zampino). Jaden, depois de lançar em 2017 o já citado Syre (onde colabora sua irmã Willow), prepara para 2018 Erys, um novo disco que tem o nome do anterior ao contrário. Voltou a fazer cinema, mas não mais com seu pai. Os dois são frequentadores, junto com Will Smith e Jada Pinkett Smith, das primeiras filas dos desfiles ao redor do mundo. Jaden é a imagem da linha feminina da Louis Vuitton, e Willow, da linha de beleza da Chanel. Numa entrevista no final de 2017 à publicação GirlBlaze, Willow falou sobre sua experiência com a fama tão precoce. “Crescer e tentar descobrir o que você espera da vida enquanto as pessoas se veem no direito de saber tudo sobre você foi absoluta e insuportavelmente terrível.” Jaden tem 19 anos. Willow completará 18 em outubro. Os dois chegarão aos 20 com um currículo mais nutrido que o de muitos quarentões de Hollywood. E em quase todas as linhas se repete um nome. O do seu pai.

Edição 2720 09/02/18  

Jornal Hoje Livre

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