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Ano 36 N o 1355

14 A 20 DE MAIO DE 2011

Família de Felipe quer saber o que causou sua morte Mãe do rapaz diz: “Espero que a morte do meu filho não tenha sido em vão, para que nenhuma mãe tenha que sofrer como eu agora”. Secretário de Saúde diz que sindicância será aberta, “para apurar possível negligência médica e atribuir responsabilidades”. Polêmica envolve até os atendimentos médicos na cidade

CSU terá quadra de Beach Soccer Célio Melilo também anuncia novas quadras de tênis e para a Ginástica Rítmica

Felipe em dois momentos: saudável, como sempre foi (acima), e na véspera de sua morte, internado na Sala 9 do Pronto Socorro

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Págs. A1 e A4

Moradores da zona rural terão nova linha de ônibus

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Família de Felipe quer saber o que de fato causou a sua morte “Insuficiência respiratória aguda / edema agudo dos pulmões + hemorragia digestiva”. Esta foi a causa da morte do jovem Felipe Augusto de Freitas Bastos, segundo o laudo do exame necroscópico do IML (Instituto Médico Legal) de Guaratinguetá, assinado pelo dr. Silvio Luiz Veiga França, 1o médico legista. Mas o que teria provocado complicações tão sérias em um jovem de 18 anos, caseiro, amoroso, jovem líder do Oratório Santa Edwiges, de hábitos saudáveis, que praticava esportes regularmente e não tinha o hábito de beber e fumar? É esta a resposta que busca a humilde, porém unida e bonita família de Felipe, inconformada com sua perda tão precoce e revoltada com o atendimento que Felipe recebeu no Pronto Socorro e Santa Casa de Misericórdia de Lorena.

O relato da família Nesta semana, estiveram na redação do Guaypacaré a mãe de Felipe, a trabalhadora autônoma Maria Aparecida de Freitas, 41 anos, e a irmã do rapaz, Anne Camila de Freitas Souza, 21 anos. Quem as recebeu foi nossa diretora Graziela Staut, na tarde de terçafeira, 10 de maio. Ambas falaram

O início dos sintomas

onde ele tanto gostava de ir”, disse sua mãe. “E depois ficamos sabendo, através de uma professora dele, que o Felipe dormiu praticamente a aula toda neste dia”, acrescentou. Quando chegou em casa para o almoço, a mãe verificou que sua febre oscilava entre 39o e 39,5o. Ela disse que deu a Felipe dipirona, mas achou que ele não reagiu bem ao medicamento, chegando a ter enjôos após tomar a medicação. “Quando ele chegou da escola, eu queria já levá-lo ao Pronto Socorro, por causa da febre e da dor no corpo, mas ele não queria ir de jeito nenhum. Falou que não queria ficar horas sentado esperando porque estava passando mal”, contou a mãe.

Felipe começou a sentir-se mal na quarta-feira, 20 de abril, de acordo com o relato da família. “Ele estava com febre e dores no corpo, mas não consegui convencê-lo a ficar em casa. Foi para a escola mesmo assim”, contou a mãe, Maria Aparecida. “Ele era muito estudioso. Não gostava de faltar aula por nada neste mundo”, completou a irmã. O que ninguém sabia era que esta era a última vez que Felipe ia para a escola. “Parece que ele foi para se despedir; o seu último dia na escola,

Como ele não melhorou com o passar das horas, foi levado ao Pronto Socorro de Lorena entre 19h30 e 20h daquela quarta-feira. Quem o levou foi seu tio materno, João, acompanhado de Maria Aparecida, sua mãe, presente, ao lado de Felipe em todos os momentos até o seu último dia de vida. Felipe foi atendido por volta das 22h30. “Eu sei do horário porque quando nós saímos de casa estava pas-

com muita emoção de Felipe, que morava na rua J. A. de Almeida Gonzaga, no Bairro da Cruz, com a mãe, o pai que o criou, Adeilson dos Santos Souza, e o irmão caçula, Bruno William, de 16 anos. Felipe estava no 3o ano do Ensino Médio, na Escola Estadual Luiz de Castro Pinto. “Ele estava tão animado com a formatura, não parava de falar sobre isso”, contaram a mãe e a irmã de Felipe. O que você vai ler agora é a versão da família sobre a agonia vivida por Felipe, desde o início dos sintomas, na quarta-feira, 20 de abril, até o dia de sua morte, na segunda-feira, 25 de abril.

O 1º atendimento no PS

sando a novela das sete. Na recepção do Pronto Socorro, nós assistimos a novela das oito e depois o jogo do São Paulo. Quando acabou o primeiro tempo, Felipe foi chamado para o atendimento”, relatou sua mãe. Quando entrou, Felipe foi atendido pelo médico plantonista, que o examinou, aferiu sua pressão e disse que o quadro do rapaz indicava que fosse mais um caso suspeito de dengue. Como Lorena vive uma epidemia da doença, MariaAparecida lembrou que o médico pegou uma receita pronta, xerocada (havia muitas delas, segundo ela), anotou o nome de Felipe em cima e o dispensou. “Foi uma consulta bem rápida, coisa de 5 minutos no máximo”, disse a mãe dele, que no entanto não soube informar o nome do médico, pois ele não se apresentou a eles e tampouco carimbou seu nome na receita. E então eles foram para casa.

Os dias seguintes

ele estava tomando muita água. “Ele tomou tudo de acordo com o que o médico mandou, mas não melhorou. Ficou o dia inteiro deitado, desanimado, só hidratando. Na sexta-feira foi a mesma coisa. Ele dormiu esses dois dias praticamente o dia todo”, lembrou Maria Aparecida. Como era um caso suspeito de dengue – e como muitas pessoas próximas de sua casa haviam tido a doença e falavam que este quadro de desânimo era normal –, a mãe de Felipe ficou atenta, mas achava que tudo estava sendo feito de acordo com a orientação médica. “Ele estava sendo hidratado e achávamos que tínhamos que esperar que ele melhorasse”. A febre também não cedeu na quinta e na sexta-feira; mas era controlada nos 38,5o com a medicação. Como achou que Felipe não havia reagido bem à dipirona, Maria Aparecida tinha substituído o medicamento pelo paracetamol.

Na quinta-feira de manhã, a mãe de Felipe comprou mais Gatorades, como mandava a receita. O isotônico ele já estava tomando desde o dia anterior, antes de ir ao médico, segundo ela. Maria Aparecida também comprou soro para beber e disse que

No sábado de manhã, o jovem piorou. Amanheceu com muita dor nas pernas. “Sua perna estava dura e inchada, principalmente a panturrilha”, relatou a irmã Camila.

O 2º atendimento no PS

A febre começou a preocupar mais, pois beirava os 40o. Felipe se queixava de muita dor nas pernas, tanto que mal conseguia andar; somente com apoio dos familiares é que ele se locomovia pela casa. Mesmo diante do agravamento de seu quadro, Felipe relutou mais uma vez para ir ao Hospital, porque sabia que ficaria horas esperando para ser atendido. Quando não aguentava mais a dor, aceitou ser levado para o Pronto Socorro novamente. Chegou às 17h, acompanhado da mãe, da irmã Camila e do marido dela, Jonas Gonçalves. Como estava com muita dor nas pernas, não aguentou ficar sentado na recepção do PS. “Ajeitei o banco do carro pra ele e ficamos aguardando que ele fosse chamado. Eu e minha mãe revezávamos: uma no carro com ele e outra na recepção, esperando. Enquanto esperava, pedi ao porteiro várias vezes para que ele fosse atendido mais rápido, pois não aguentava mais ver meu irmão com tanta dor”, relatou Camila. “Como resposta, ele me dizia com má vontade que não podia fazer nada, pois 90% das pessoas que estavam ali também tinham dor”. Continua na pág. A4


A 4 14 A 20 DE MAIO DE 2011 Ano 36 No 1355

Família de Felipe quer saber o que de fato causou a sua morte Continuação: Cerca de uma hora depois, Felipe foi chamado. Para surpresa de seus familiares, o rapaz já não conseguia andar nem com apoio. Sua mãe e sua irmã praticamente o arrastaram até a porta do corredor de entrada do atendimento, onde uma enfermeira ofereceu-lhe uma cadeira de rodas. “Pensei que ele não ia querer, mas estava com tanta dor que aceitou na hora”, disse Camila. A mãe de Felipe entrou com ele para o atendimento, feito desta vez por uma médica. De acordo com Maria Aparecida, assim que viu o estado de Felipe, a médica mandou-o para a “Sala da Dengue”, como foi apelidada a garagem fechada ao lado da entrada do PS, onde a Prefeitura improvisou uma sala de hidratação, devido ao alto número de pessoas atendidas com a doença na cidade. Na “Sala da Dengue”, a doutora mandou que fosse feita hidratação venosa (pela veia), mas antes seriam colhidas amostras de sangue e urina de Felipe, para exame. “Na ‘Sala da Dengue’, foi colhido primeiro o sangue e depois a urina. O xixi do Felipe estava preto, cor de coca-cola. Até ele se assustou, mas comentou comigo que tinha percebido que o xixi estava um pouco mais escuro antes, mas não tanto como naquela hora”, relatou sua mãe. Eles então voltaram à sala da médica, que avisou-lhes que uma nova coleta de sangue seria feita, pois a primeira amostra teria coagulado. Ela também alertou o paciente e sua mãe que poderia ser dengue, leptospirose ou hepatite. De volta à “Sala da Dengue”, Felipe tirou sangue novamente, para exame, e tomou dois frascos de soro. A mãe do garoto recorda-se que ele já estava no soro quando a médica chegou na “Sala da Dengue” e a enfermeira lhe perguntou se o resultado do exame era urgente. “É urgentíssimo”, a médica teria respondido. O soro que Felipe tomou na veia demorou cerca de 40 minutos para correr. Mas o resultado dos exames iria demorar cerca de 3 a 4 horas para ficar pronto. Mesmo diante do “urgentíssimo” a que a médica havia se referido, Felipe foi liberado para ir embora após a hidratação com os dois frascos de soro. A mãe de Felipe não se recorda com exatidão do horário, mas seriam mais ou menos 20h quando ele foi liberado. “O exame ficaria pronto lá pelas 11 horas, meianoite, segundo a enfermeira. Ela disse que nós poderíamos ir embora e que eu podia voltar pra buscar o resultado lá pela meia-noite ou no domingo de manhã”.

Recuperação aparente Após a hidratação, Felipe havia melhorado visivelmente. A dor nas pernas praticamente desapareceu. Ele saiu do hospital aparentemente bem melhor do que havia entrado. Foi para casa com a mãe, a irmã e o cunhado. Em casa, até tomou banho sozinho. Jantou, mas sentiu-se enjoado; porém, sem vômito. Depois que jantou, a mãe de Felipe ajeitou o sofá para que ele ficasse bem confortável; ele ainda sentia um incômodo nas pernas. Bem humorado, o rapaz não perdia o programa Legendários, da TV Band, um de seus favoritos. Aliás, era fã do Pânico na TV, do Zorra Total, do A Praça é Nossa, enfim, tudo que fosse programa de comédia. Também adorava o Globo Esporte; assistia todos os dias. E gostava muito do seriado CSI. “Ele estava bem animado quando eu fui embora para minha casa, entre 9h30 e 10 horas da noite”, relatou Camila. “O dia seguinte era o domingo de Páscoa e o almoço já estava combinado que seria na minha casa. Prometi que ia fazer para ele mousse de morango, sua sobremesa favorita. Já tinha até comprado todos os ingredientes. E ele ainda brincou que iria, nem que fosse arrastado”, lembrou sua irmã.

De volta ao Pronto Socorro Felipe ainda assistia TV na sala quando a ambulância da Prefeitura chegou em sua casa. Eram 23h, mais ou menos. MariaAparecida estava em frente à sua casa quando o motorista da ambulância e um outro homem, provavelmente o socorrista, lhe disseram que estavam ali para pegar Felipe e levá-lo de volta ao hospital. Ainda de acordo com a mãe de Felipe, os homens disseram que a doutora queria vê-lo e que ela não o havia liberado. No entanto, Felipe havia sido liberado sim, logo após tomar os dois frascos de soro. “O Felipe foi de volta para o hospital contra sua vontade. Não queria ir. Mesmo assim, levantou do sofá, trocou de roupa... Ele estava andando normal, subiu na ambulância sozinho... E foi sentado comigo para o hospital”. Chegando ao PS, foram mandados direto para uma sala de atendimento, onde ficaram aguardando a médica. Quando chegou, a médica avisou que teria que deixar Felipe em observação porque seus exames estavam alterados. Ela ainda perguntou para a mãe de Felipe se havia tido enchente onde eles moravam, pois ele estava com suspeita de ter contraído a “doença do rato”. Felipe foi mandado então para a Sala 9 do Pronto Socorro, onde permaneceria daquele momento até poucos instantes antes de sua morte. Maria Aparecida continuava com seu filho em tempo integral. E contou que ele ficou no soro durante toda a noite. “Ele ficou em um colchão duro, sem cobertor, com frio, porque uma enfermeira falou que no Pronto Socorro eles não podiam dar cobertor. E toda hora alguém vinha tirar sangue dele”, registrou.

As últimas 24 horas de vida Foi somente no domingo de manhã que a médica disse a eles que Felipe teria que ficar internado e que talvez precisasse ir para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). “Ela falou que ele estava com só 8 mil plaquetas”, contou a mãe. O mínimo aceitável, em pessoas saudáveis, são 150 mil plaquetas. Quando o valor fica abaixo disso, existe o risco de hemorragias. Quanto menos plaquetas, maior o risco. No caso de Felipe, a situação era bastante grave. “Mesmo diante da gravidade da situação, ele continuou na Sala 9 do Pronto Socorro até a manhã do outro dia, ao invés de ser levado imediatamente para a UTI”- disse a mãe. Maria Aparecida foi orientada a ir até sua casa, para que pegasse roupas e produtos de higiene pessoal para Felipe, o que ela fez. Foi o único momento em que não esteve ao lado dele. Foi até sua casa a pé. “Logo que cheguei, a supervisora de Enfermagem me ligou e falou que

precisava urgente dos documentos do Felipe, mas não explicou o porquê. Disse que estava pegando as coisas dele e já ia. Pouco tempo depois, ela me ligou de novo e disse que era urgente, porque ela precisava do documento pra pedir bolsas de plaquetas em Taubaté”, contou, acrescentando que a mulher a tratou rispidamente. De volta à Sala 9 do Pronto Socorro, Maria Aparecida estava ao lado de seu filho enquanto ele recebia 6 bolsas de plaquetas, durante o dia. O soro continuava correndo rápido na veia e sua pressão estaria baixa, de acordo com enfermeiras. Neste dia, várias pessoas foram visitá-lo: o pai, a irmã, o primo, o irmão e uma amiga, Michelle, que inclusive tirou fotos dele internado. A mãe notou que ele estava ficando inchado; o rosto estava visivelmente inchado. Desesperada e sem saber o que fazer, pedia informações às enfermeiras, mas nada obtinha. E assim passou-se o dia, com Felipe internado na Sala 9 do Pronto Socorro, sem que nenhuma providência mais drástica fosse tomada. No final da noite, Felipe ainda recebeu a visita de seu irmão de coração, Adeilson (filho de sangue do pai que o criou), que Felipe tanto amava. “Nem parecia que eles não eram irmãos de sangue, de tanto que se gostavam e se davam bem. Eles ficaram horas conversando. Ainda foi uma outra amiga do Felipe e ficaram os três conversando”, relembrou a mãe, detalhando que, apesar de abatido e inchado, ele ainda deu risada, brincou, conversou... A esta altura, Felipe dizia que não sentia dor. A febre continuava, mas havia sido controlada.

Madrugada complicada No início da madrugada, pouco depois da 1h, MariaAparecida foi informada de que estavam aguardando uma vaga para Felipe na UTI. Porém, ela não se recorda se foi a médica ou a enfermeira quem lhe falou sobre isso. “Me falaram que ele ia para a UTI por causa das plaquetas, que ainda estavam muito baixas, que a imunidade estava baixa... e que ele poderia ter uma hemorragia a qualquer momento”, disse. Pouco tempo depois, Felipe começou a ter falta de ar. E foi colocado no oxigênio. Em seguida, a enfermeira chegou na Sala 9 e informou que o médico (e não a médica que estava acompanhando Felipe desde o dia anterior) havia mandado dar dipirona a Felipe. A mãe de Felipe alertou à enfermeira, antes que a medicação intravenosa fosse colocada, que ele já tinha se sentido mal com a dipirona. Ela então saiu, falou com o médico, voltou e disse que ele havia mandado colocar o remédio mesmo assim. Logo depois que a dipirona correu na veia, Felipe começou a passar mal. “Ele vomitou o pouco que tinha comido no jantar que foi servido para ele”, lembrou Maria Aparecida. E o que a apavorou é que no vômito havia sangue e uma “coisa” gosmenta, preta, em grande quantidade. Diante da situação, ela chamou o médico. “Ele viu o vômito e disse que era normal”. E encaminhou Felipe para fazer Raio-X de pulmão. Felipe e a mãe aguardavam o técnico do Raio-X para saber se tinha dado certo o exame quando tiveram uma surpresa. “O rapaz do Raio-X perguntou ao Felipe o que ele tinha feito pra estar com os pulmões tão comprometidos. E ainda brincou: ‘Seu pulmão tá estragado, hein cara! Precisa procurar tratamento urgente’. Eu me espantei ainda mais, pois sempre levei meus filhos para fazer exames periódicos, anualmente. E o último que ele tinha feito, em janeiro de 2010, tinha dado normal”, contou a mãe. Maria Aparecida entregou ao Guaypacaré, inclusive, cópia do laudo deste exame, um Raio-X do Tórax datado de 21/1/2010, realizado na Clínica Santa Rosa, assinado pela dra. Isabela S. Cavalca, que não constatava nenhuma alteração: “Pulmões transparentes, com desenho vascular normal. Diafragma convexo. Seios costofrênicos livres. Hilos de aspecto anatômico. Mediastino normal. Coração e pedículo vascular de configuração e dimensões anatômicas. Arcabouço costa visível sem alterações”. “Fiquei desesperada porque o Felipe não fumava, não bebia, não usava drogas e praticava esportes toda semana – futebol e taekwondo. Além disso, ele fazia exames periódicos, uma vez por ano, pra saber se estava tudo bem. Como o pulmão dele tinha ficado daquele jeito de repente? Eu então fui falar com o médico e ele me respondeu que o técnico do Raio-X não sabia nada e que o que Felipe tinha era dengue”, disse Maria Aparecida. Ela ainda indagou ao médico se seu filho corria riscos e ele respondeu que ela podia ficar tranquila, que ele não corria risco nenhum. E falou que ele só estava com falta de ar porque estava se alimentando mal. Por volta das 2h, após receber a notícia que Felipe aguardava vaga na UTI, a irmã Camila voltou ao Pronto Socorro. “Quando cheguei, percebi que ele estava muito abatido. Parecia que tinha piorado muito, o peito parecia que pulava, não sei se era a força que ele fazia pra respirar. Ele cochilava, mas acordava toda hora”, contou Camila. Camila foi embora por volta de 4h da manhã. A mãe de Felipe via o filho piorando a cada hora que passava, cobrava providências das enfermeiras, mas ninguém fazia nada.

As últimas horas 7h da manhã de segunda-feira, 25 de abril. Troca de plantão no Pronto Socorro da Santa Casa. Novas enfermeiras para atender Felipe, “todas atenciosas quando passavam para trocar o frasco de soro ou colocar medicação”, segundo a mãe do rapaz. Porém, era mais tempo precioso se passando e nada de Felipe ir para a UTI. “Depois de uma hora e pouco, uma das enfermeiras percebeu que ele não estava bem e disse que ia levá-lo para a Sala de Emergência”, relembrou a mãe. Quando foi para a Sala de Emergência, entre 9h e 9h30, Felipe estava consciente e inclusive ajudou a enfermeira para se deitar na maca e até ia tirar o oxigênio quando ela o avisou que não podia tirar. Foi a última vez que Maria Aparecida viu seu filho consciente e vivo. Maria Aparecida ficou aguardando na Sala 9. Sua filha Camila chegou por volta de 9h45 e ficou junto dela, à espera de notícias, que logo chegaram. E não eram boas: Felipe estaria intubado e tinha acabado de ir para a UTI. Em seguida veio a confirmação: a médica (a mesma do dia anterior) chamou Maria Aparecida e Camila em sua sala e disse que o estado de Felipe havia piorado. “Ela falou que eu tinha que rezar, pedir a Deus, porque ele já

estava intubado, na UTI. E falou que eu precisava tomar um calmante antes de poder visitá-lo, para eu estar calma quando o visse intubado”, disse a mãe. Em seguida, a enfermeira deu um calmante para Maria Aparecida. Neste momento, Camila já estava na sala de espera da UTI, aguardando notícias. “A médica me falou que ele estava fazendo transfusão de sangue e que agora o Felipe estava nas mãos de Deus”, contou Camila. Enquanto estava na sala da médica, no Pronto Socorro, MariaAparecida recorda-se de ter ouvido, provavelmente de alguém no corredor, o comentário de que Felipe já foi morto para a UTI. Por conta do efeito do calmante e da gravidade da situação, ela não se lembra de tudo com clareza. Foi para a sala de espera da UTI e ficou lá, com Camila. Neste momento, também estavam lá o tio de Felipe e sua esposa. Cerca de meia hora depois, sai o médico da UTI, acompanhado de três enfermeiras, e informa: “O Felipe veio do Pronto Socorro para nós. Chegando na UTI, teve parada respiratória. Tentamos reanimá-lo durante meia hora, sem sucesso. Ele faleceu às 10h30”. O mundo girou naquele instante, para aquela família que tanto amava Felipe. Mas era real. Felipe se foi. E nada do que fizessem poderia trazê-lo de volta.

Felipe em dois momentos: saudável, como sempre foi (acima), e na véspera de sua morte, internado na Sala 9 do Pronto Socorro (foto tirada pela amiga Michelle)

Revolta e muitas dúvidas Para a mãe e a irmã de Felipe, o jovem morreu antes mesmo de dar entrada na UTI. “Acho que o meu filho morreu na Sala de Emergência. Inclusive, a minha cunhada disse que viu a cama e o chão da Sala de Emergência cheios de sangue. Como é que não fizeram nada antes? Por que ele não foi para a UTI em tempo?”, questiona Maria Aparecida. Elas não entendem como nenhuma outra atitude foi tomada enquanto elas assistiam Felipe piorando, morrendo, sem nada poderem fazer.

Passeata em protesto Camila organizou, com a ajuda e incentivo dos amigos de seu irmão, uma passeata em protesto por sua morte. A passeata aconteceu na manhã do sábado, 30 de abril. Familiares e amigos saíram pelas ruas da cidade vestidos de preto, com cartazes e entoando palavras de protesto. Eles querem que a causa da morte de Felipe seja devidamente apurada. Querem saber se havia alguma coisa que poderia ter sido feita e não foi. Querem saber se houve negligência médica. Querem justiça.

O que diz a Secretaria Municipal da Saúde Na semana de seu falecimento, há duas semanas, este Guaypacaré publicou matéria sobre o assunto (Edição 1353). Naquela semana, a Secretaria da Saúde confirmou que Felipe havia passado mal na quarta-feira anterior, dia 20 de abril, foi atendido no Pronto Socorro com suspeita de dengue, mas foi medicado e liberado em seguida. No sábado, dia 23, o rapaz retornou ao Pronto Socorro, desta vez mostrando um quadro agravado. Foi novamente atendido, colhido seu sangue para fazer um hemograma e foi liberado novamente, voltando para casa. Entretanto, após quatro horas, quando saiu o resultado de seu exame de sangue, os médicos avaliaram as alterações e mandaram a ambulância buscá-lo em casa para ser internado. Foi novamente examinado e sendo iniciada a hidratação. Também foi publicado que ele ficou inicialmente internado no próprio Pronto Socorro, somente indo para a Santa Casa quando abriu vaga, e já indo direto para a UTI, no dia seguinte, domingo (o que não aconteceu; Felipe só foi para a UTI na segunda-feira, momentos antes de sua morte ser anunciada. Havia suspeita de dengue hemorrágica e leptospirose. Entretanto, o quadro de Felipe se agravou e ele acabou não resistindo, vindo a falecer durante uma forte crise hemorrágica interna e externa, na segunda-feira, dia 25.

Secretário diz que se confundiu na data O Guaypacaré entrou novamente em contato com o secretário de Saúde de Lorena, Adriano Aurélio dos Santos, nesta sexta-feira, 13 de maio, fechamento desta edição. Adriano explicou que todas as informações foram repassadas a ele pelo Pronto Socorro e pela Santa Casa, responsável pela UTI. E admitiu que cometeu um equívoco em relação às datas, e justificou: “O Felipe faleceu no dia em que foi para a UTI, isto é fato. Mas eu me confundi, quando falei com o Guaypacaré, se a morte teria sido no domingo ou na segunda-feira. Se falei que ele foi para a UTI no domingo, é porque me confundi, achando que ele teria falecido no domingo, e aí houve este desencontro de informações”, disse. O secretário informou ainda que já solicitou documentos para determinar a abertura de sindicância administrativa para apurar possível negligência médica e atribuir responsabilidades. “Os dois exames solicitados ao Instituto Adolfo Lutz, em Taubaté, para confirmação ou não de dengue ou leptospirose, deram negativo. Tanto o NS1 quanto o IGM deram soro não reagente para dengue e para leptospirose”, esclareceu. Sobre a hipótese de hepatite a que a médica teria levantado e conversado a respeito com a mãe de Felipe no sábado à noite, Adriano afirmou desconhecer esta possibilidade. Segundo informações, mesmo com estes dois exames negativos, o Instituto Adolfo Lutz de São Paulo ainda fará novos exames específicos para dengue (seriam três), para um diagnóstico correto. Mas estes exames demorariam mais de 30 dias para ficarem prontos. “Já solicitei prontuários e toda a documentação possível para abrir uma sindicância e apurar o que realmente aconteceu. Se necessário, convocaremos uma junta médica. E precisamos aguardar os novos resultados do Adolfo Lutz de São Paulo. Com tudo em mãos, a Secretaria vai se nortear em relação a que caminho seguir”, finalizou o secretário.

Pedido da família Antes de finalizar a conversa no Guaypacaré, Maria Aparecida foi questionada sobre o que esperava que acontecesse após a publicação da matéria. E ela explicou: “Agora que nada vai trazer o meu filho de volta, primeiro eu quero saber o que aconteceu. Eu preciso de uma resposta.

Preciso saber o que levou o meu filho embora. O laudo do IML disse que foi ‘insuficiência respiratória aguda / edema agudo dos pulmões + hemorragia digestiva’. Mas o que eu quero saber é: por que o estado dele ficou tão grave? Ele era um menino saudável”. Antes de ir embora do jornal, Maria Aparecida fez um apelo: “Eu espero que a morte do meu filho não tenha sido em vão, para que nenhuma mãe tenha que sofrer como eu estou sofrendo”. Ela quer que os médicos dêem mais atenção às pessoas que estão passando por momentos difíceis. Ela quer que o atendimento médico seja mais humano, que pacientes e seus familiares sejam tratados com mais respeito e com muito mais dignidade. Na escola, os amigos do Felipe não deixam ninguém sentar no lugar dele. A camiseta de formatura dele será colocada lá, em sua cadeira, assim que estiver pronta, o que deve acontecer em breve. Nem amigos e tampouco os familiares se conformam que um menino tão amoroso tenha partido assim, tão de repente. Então, que ao menos as respostas possam ser dadas à família de Felipe, especialmente à Maria Aparecida, pois seu coração de mãe precisa de respostas, porque está muito difícil conviver com a realidade.

Atendimento médico em Lorena é complicado há muito tempo Não é incomum ouvir pessoas reclamando ou comentando sobre absurdos cometidos por diversos profissionais médicos que atendem na cidade, seja em consultórios particulares, seja nos Postos de Saúde, no Hospital Unimed, no Pronto Socorro ou na Santa Casa de Lorena. Alguns anos atrás, uma pessoa bastante conhecida na cidade teve um aneurisma cerebral rompido, grau 4, e foi atendida no Pronto Socorro. Diagnóstico do médico: enxaqueca causada por pesadelo, pois o paciente em questão teria comido muito antes de dormir. Não foi pedido um único exame sequer. Após medicação para dor, o paciente foi liberado. Só não morreu porque a família procurou outros médicos e exames. O sangramento cerebral foi constatado e o paciente foi levado para tratamento fora de Lorena. Foi operado duas vezes: na 1ª vez pelo aneurisma rompido; e na 2ª para que não rompesse um outro que existia e que poderia romper a qualquer momento. Outro caso é o de um bebê que passou por 11 pediatras que atendem em Lorena e que não teve seu PCA (Persistência do Canal Arterial, um tipo de sopro cardíaco) diagnosticado. Ao invés disso, e mais grave ainda, o bebê tomou diversos antibióticos, durante meses, porque diversos profissionais confundiam o sopro com catarro. Antes do diagnóstico correto, o bebê ainda teve duas insuficiências cardíacas (que foram tratadas como crises convulsivas). Foi atendido fora de Lorena, em outro Estado, por uma pediatra que não garantiu que ele resistisse mais uma semana sequer na situação em que se encontrava. Socorrido, tratado corretamente e operado em tempo, aos 9 meses de idade. Hoje, com 11 anos, é uma criança normal e saudável. Também foi notícia no Guaypacaré o caso do bebê que morreu na barriga da mãe, na Maternidade da Santa Casa de Lorena, porque a médica plantonista simplesmente recusou-se a fazer a cesariana. O fato aconteceu há cerca de dois anos e o bebê morreu sufocado na barriga da mãe, enrolado no cordão umbilical, porque a médica insistiu no parto normal. A mãe relatou, na época, que sentia seu bebê agonizando em sua barriga, implorou por providências, mas quando ele foi retirado, muitas horas depois, já era tarde demais. A própria família pediu que fosse publicada a foto de seu anjinho no jornal, morto, mas um bebê perfeito, porque queria que fosse feita justiça. Na época, alguns leitores até se revoltaram por causa da foto, chocante, do bebezinho tão lindo, mas sem vida, no caixão. Porém, o que a família queria era chocar mesmo, para que os responsáveis fossem punidos e outras mães não perdessem seus bebês da mesma maneira. Quem tem uma situação financeira mais confortável ainda pode correr para os grandes centros, em busca dos profissionais mais capacitados ou de uma segunda opinião. Mas e quem não pode? Lógico que não se pode generalizar. É óbvio que Lorena também conta com excelentes profissionais médicos, nas mais variadas especialidades. Também é óbvio que não é destes bons profissionais que o Guaypacaré está falando. Mas o despreparo, incompetência e descaso que se tem visto por aí, com frequência, faz ficar manchada a reputação de toda uma classe. Isto é fato e sabe-se que o assunto tem gerado acaloradas discussões até entre os próprios médicos. Até porque os bons médicos também não se conformam com os absurdos que muitos de seus “colegas de profissão” tem cometido e sabem que isto denigre profundamente toda a classe médica da cidade.


Jornal Guaypacaré 1355