Issuu on Google+

Ano 15

No 60

Abril/Maio/2014

Publicação Educativo-Cultural

Distribuição Gratuita

Boa Nova-BA

Há 14 anos somos elos importantes nessa corrente chamada Boa Nova Em maio deste ano o GAMBOA completa 14 anos. Para comemorar, trazemos as percepções sobre a Boa Nova do presente e do futuro de 14 adolescentes com a mesma idade do jornal. Nathan Marques dos Santos

Boa Nova hoje em dia está muito precária na educação e na saúde, e se as pessoas pensassem melhor, não estaria nesta situação. Espero que ela seja uma cidade melhor para se viver, que ofereça local para os jovens saírem no final de semana.

Murilo Oliveira Almeida Boa Nova é uma cidade calma, onde acontecem muitas festas, onde me animo bastante, saindo com os amigos. Também pratico vários esportes, jogo bola e pratico Muay Thai. Espero que Boa Nova possa melhorar em tudo e que no futuro possa nos oferecer mais lugares para eventos, quadras esportivas. Melhorar também a educação, oferecendo mais estudo.

Lindoberto dos Santos Souza Boa Nova já está bem avançada, porém ainda precisa melhorar muito em relação a sua economia, a sua infraestrutura, política e a sua comunicação. Que Boa Nova seja conhecida nacionalmente, que a população rural receba mais atenção e que tenham políticos melhores e com real intenção de trazer o progresso para que os jovens não precisem sair para trabalhar ou fazer faculdade.

Ester Alves de Jesus Percebo Boa Nova como uma cidade avançada, mas que ainda precisa de alguns melhoramentos. Queria que trocasse o prefeito, porque não acho certo as pessoas trabalharem e não receber em dia. Boa Nova melhorou muito no crescimento dos colégios. Espero uma cidade sem violência e com oportunidades para os jovens fazerem cursos que lhes ofereçam mais oportunidades de trabalho.

Jefferson Borges Santos Boa Nova melhorou muito em muitos aspectos, como, por exemplo, a infraestrutura das lojas, supermercados, escolas etc.. Precisa melhorar bastante na política, pois os prefeitos não estão fazendo a cidade avançar como prometem. Espero que Boa Nova seja uma cidade muito melhor em tudo, especialmente na política. Mas a cidade está em um ótimo caminho para o futuro.

Luana Souza Beltrão Boa Nova é uma cidade pequena, mas é mundialmente conhecida por possuir espécies de aves, e é conhecida também por suas cachoeiras e rios. É um lugar maravilhoso, pois sua beleza é encantadora e traz turistas, que ajudam a cidade a se tornar famosa. Que Boa Nova seja mais evoluída na política, na saúde, educação e espero que as pessoas possam valorizar mais essa cidade.

Gláucia Stéfani Oliveira Uma cidade sem desenvolvimento, sem locais legais para frequentar, que já foi muito boa e hoje já não é. Mas também tem partes positivas; é uma cidade tranquila, tem suas datas comemorativas todo ano. Espero que ela se desenvolva, que tenham mais cuidado com ela, mais educação, área de lazer e outros. Que seja uma cidade tranqüila para se viver em paz e em meio ao desenvolvimento.

Ana Flávia Messeder Lopes Minha cidade é um local ótimo, pois não tem tanta violência como nas cidades grandes, e podemos sair com nossos amigos para nos divertir sem muitas preocupações, mesmo sem tantos lugares de lazer para os jovens. Espero que continue sendo uma cidade tranquila e que cresça de forma positiva, que volte a ter lugares de lazer e pontos turísticos como o Cruzeirão e o rio Uruba.

Rayane Freire Rodrgues Boa Nova é uma cidade muito parada, precisa melhorar muito, principalmente na educação, que precisa ser mais valorizada. No futuro quero ver uma Boa Nova melhor, mais desenvolvida, com uma educação melhor, com a saúde ótima e mais oportunidades para os jovens, como cursos e empregos. Precisa melhorar muito, mas não só depende do gestor, depende dos moradores também.

Danielly de Jesus Souza Boa Nova está precisando de um povo competente, porque tem muita gente precisando de emprego e não está conseguindo. Precisa também de mais educação, saúde e opção de lazer. Antes tinha o rio Uruba, tão bom para tomar banho, e hoje está acabando; o Cruzeirão também está acabando! Que Boa Nova mude para melhor, que tenha faculdade, que a saúde melhore e a educação, também.

Anna Clara Britto Souza Boa Nova está precisando de mais educação, saúde, emprego etc. Vejo hoje esgotos a céu aberto, encanamentos errados. Vamos melhorar porque nós, jovens, temos o livre arbítrio de reclamar ou cuidar de nossa Boa Nova! Que no futuro mude tudo, como saúde, moradia, oferta de empregos, etc.. A cidade precisa crescer mais, ter mais beleza, ter mais leis, enfim, precisa melhorar.

Agnailma Costa Oliveira Em Boa Nova algumas pessoas não têm moradia e tem gente que passa fome. Alguns anos antes não tinha isso, pois se passava dificuldade, mas não fome! Também têm várias pessoas que precisam de energia elétrica, e não têm. Que Boa Nova seja mais preservada, tenha mais moradias, fique mais bonita e mais visitada e que tenha um prefeito que realmente tome conta de Boa Nova.

Eduarda Longo Messeder Lopes Boa Nova está muito parada, mas até prefiro assim. Aqui é um lugar bom para viver, apesar de vários defeitos que estão tendo. Muitas melhoras poderiam ser feitas, como projetos que mostrem a cultura do povo. Que o povo comece a sair da "zona de conforto" e comece realmente a participar de todas as decisões importantes. Que falar que a cidade está acabando seja mais um exagero.

André Ferreira Boa Nova poderia mudar ou investir em escola, segurança e policiamento. Também poderia investir em áreas de lazer, porque quando alguém visita a nossa cidade, não tem o que fazer. Que mude para melhor, que seus espaços sejam mais amplos, com áreas de lazer, para andar de bicicleta ou skate, construção de fábricas para se ter empregos e que se faça mais festa, mas sem violência e brigas.


2

No 60

O melhor pai que alguém pode ter Jurandi Rodrigues Nos idos dos anos 80 era comum ver aquele senhor alto e magro, de cabelos pretos, brilhosos, e andar firme chegando de São Paulo, onde passava a maior parte do ano trabalhando para ajudar a sua esposa, Dona Cleusa, a criar os seus seis filhos. Mas, com o tempo, ele percebeu que o melhor lugar para viver era ao lado da sua família, época em que o seu sempre amigo, João Pires, lhe for-

necera um trabalho no açougue, que o fez permanecer por mais tempo em Boa Nova, sua terra tão amada e querida, a qual nunca quis deixar. Com o passar dos anos, os seus filhos cresceram e a busca por uma condição melhor os levaram para longe daquele convívio tão saudável, e, com a separação da sua esposa, pouco lhe restou da família, ainda que esta fizesse tudo para darlhe conforto, carinho e amor, coisas de pouco valor para o nosso pai, que tinha na sua casa, no seu quintal, na sua mãe e irmãos a melhor companhia. Ligávamos toda semana para ele, que fazia questão de dizer que estava bem, e estava, não como gostaríamos, mas como ele escolheu viver: no seu canto, cuidando das suas plantas, sendo, até o limite das suas forças, autônomo. Ele não mostrava fraqueza em nenhum momento da vida e nem reclamava. Rum Joaquim com a sua filha Eliana rum rum... Assim começava o seu dia... Às 5 horas acordava para fazer a sua camiExpediente nhada, sem um roteiro definido. Jornal GAMBOA Para muitos, Joaquim; para os amigos mais próximos, ManganEditor/Jornalista Responsável: gá, já que ele reproduzia o som Roberto D´arte característico de um besouro do mesmo nome, quando estava aleEndereço: gre, e ele sempre estava. Rua Vaz de Melo 40 - Centro Sorridente, brincalhão e, aciViçosa-MG - CEP 36570-000 ma de tudo, amigo de todos. Uma E-mail: jornalgamboa@yahoo.com.br pessoa que não sabia dizer não a alguém que lhe pedisse ajuda, inEditoração e edição de imagem: dependentemente de quantas veAnderson Miranda zes esta ajuda fosse solicitada. Capaz de dar tudo, ainda que isso Impressão: lhe tirasse o básico para a sua soTribuna Editora Gráfica - Viçosa-MG brevivência. Para nós, seus filhos, Jurandi, Naldo, Toi, Gil, Beto e Liu, Colaboraram nesta edição: uma pessoa ímpar, educada, que Agnério Ferreira, Ceiça Moraes, Edson mostrava em todos os seus gesMesseder, Edson Ribeiro, Ilka Ferreira, tos os seus valores. Não permitia Jurandi Rodrigues, Luiz Moraes, que um filho chegasse em casa Milena Santos, Osmar Borges, Sheyla com um bolinha de gude sem saAlencar e Welma de Souza. ber de quem era, porque recebeu o O GAMBOA está vinculado ao IAM presente, o que deu em troca. Al(Instituto Adroaldo Moraes) guém que não aceitava a injustiça. E-mail: iamboanova@yahoo.com.br Fazia cada dia da sua presença nas nossas casas um dia de alegria, de Os artigos assinados do Gamboa são de brincadeira. Não raro tirávamos inteira responsabilidade de seus autores sarro com ele, que abria um sorriso de orelha a orelha.

O boanovense Joaquim Rodrigues faleceu no dia 05 de maio deste ano

Apesar de estar em Boa Nova, já tinha na cabeça o dia da próxima ida a São Paulo, já que a visita de um filho era a certeza de que ele estaria em breve em contato com todos. Porém, nem sempre nosso pai ia por vontade própria, pois o contato frequente com o álcool o estava definhando e não restava outra opção, senão leválo. Nos seus últimos dias, quando estava muito fraco para se dirigir a um boteco, apareceram aqueles que tiraram não só o dinheiro, mas a saúde do nosso ve-

Abril/Maio/2014 lho, levando em casa uma garrafa de cachaça, tornando a sua saúde frágil ainda mais comprometida. A estes desejo que Deus lhes dê a capacidade de enxergar o mal que fizeram e fazem a tantos que hoje perambulam como zumbis na nossa amada Boa Nova, afastando-os das suas famílias, da sua dignidade, do respeito de todos, enfim, do direito de serem reconhecidos como cidadãos. O senhor se foi, meu velho, mas nunca fez nada de que não nos orgulhássemos. Deu todos os motivos do mundo para dizermos que não queríamos ninguém melhor na nossa vida como pai. É e será sempre o maior homem que já conheci, pois nunca vi alguém tão forte, em um corpo tão frágil. O senhor se foi, mas deixou, além da enorme saudade, filhos com caráter e uma admiração imensurável por tudo que foi na nossa vida. Tenha certeza, meu velho, que cada um de nós tem muito do senhor, e dizemos com o maior orgulho do mundo: SEU JOAQUIM FOI O MEU PAI! (Jurandi Rodrigues, boanovense residente em São Paulo-SP, é formado em Administração de Empresas, com ênfase em Finanças, e pós-graduado em Logística Empresarial)

Com a família reunida, Joaquim comemorou em 2013 os seus 70 anos


Abril/Maio/2014

Fabíola explanando sobre legislação ambiental

3

No 60

SubTen BM Uirlei Borges, explanando sobre parada cárdio-respiratório

Instruções a turma realizada no quintal do IAM

Curso forma brigadistas voluntários em Boa Nova Foi realizado em Boa Nova, entre 12 e 15 de maio, o Curso de Brigadista Voluntário de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais da Bahia, que é uma das ações do “Bahia Sem Fogo” – programa do Estado da Bahia, sob a coordenação do Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais. Instituído pelo Decreto 11.559/09 e realizado pelo INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado da Bahia e Bombeiros Militares do Estado da Bahia, o curso foi promovido em Boa Nova pelo IAM – InstitutoAdroaldo Moraes, com o apoio do ICMBio (através das UCs Parque Nacional de Boa Nova e Refúgio da Vida Silvestre de Boa Nova), da Prefeitura Municipal de Boa Nova (através da Diretoria de Meio Ambiente e Diretoria de Cultura), do COMMARH – Conselho Municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, da SAVE Brasil e das empresas MACOL Papelaria e Serviços e Mercadinho Silva. O curso tem por objetivo formar Brigadistas Voluntários nos municípios para atuarem com prevenção e combate a incêndios florestais. Seus instrutores foram Fabíola Cotrim – coordenadora de Fiscalização Preventiva de Campo do INEMA e os bombeiros militares do Estado da Bahia – capitão BM Murilo Rocha, capitão BM Márcio Jansen, tenente BM Flávio Rodrigues e o subtenente BM Uirlei Borges, todos profissionais com larga experiência em prevenção e combate a incêndios. Contou ainda com a equipe de apoio formada por Daniel dos Santos e Sérgio Rocha, ambos funcionários do INEMA. Os 23 brigadistas formados no curso tiveram, através de aulas teóricas e práticas, contato com o seguinte conteúdo: legislação ambiental; fiscalização; educação ambiental; combate aos incêndios florestais (princípio de incêndio, diferença de fogo/queimada e incêndios, triângulo do fogo, EPIs e EPCs, fatores de propagação, métodos de combate, manutenção dos equipamentos, tipo de ataque, rota

Saída da Brigada para instruções práticas de combate a incêndios

de fuga, procedimentos operacionais, tática e técnicas de incêndios, situações adversas no incêndio); legalidade/estatuto de brigadas; e primeiros socorros (conceitos, biossegurança, cinemática, segurança, isolamento, sinalização, desmaio, convulsão, epilepsia, estado de choque, queimaduras em todos os níveis, hemorragias, choque elétrico, fraturas, entorses, luxações, animais peçonhentos, parada respiratória, parada cárdico-respiratória, massagens, ventilações, transporte de acidentados). O IAM, com seus seis anos de existência e diversas ações relacionadas à preservação do patrimônio histórico-ambiental do município e região, passa a assumir legalmente a Brigada Voluntária como mais uma das suas atribuições. Para tanto, já iniciou uma série de ações que vai desde a solicitação ao INEMA dos EPIs e EPCs, necessários para atuação dos brigadistas e de novos cursos para complementar a formação deles, passando por alteração do seu estatuto social para assumir as atividades da Brigada, e ainda a solicitação de Convênio com a SEMA – Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia para apoio técnico e financeiro à Brigada Voluntária de Combate a Incêndios Florestais de Boa Nova. A realização deste curso em Boa Nova e a

formação da Brigada Voluntária se justificam pelos constantes focos de incêndios, principalmente no verão; pela cultura existente na zona rural da nossa região de utilizar as queimadas para limpeza de terreno e, principalmente, pela necessidade de preservação da nossa biodiversidade, em especial das nossas nascentes. Boa Nova está localizada em dois biomas (Mata Atlântica e Caatinga) e em uma área de transição denomina Mata Cipó. Esta diversidade faz de Boa Nova um lugar privilegiado para pesquisas acadêmicas com répteis, mamíferos e, principalmente, para a observação de pássaros (segundo dados de 2013 dos Observadores de Aves: das 1.835 espécie conhecidas no Brasil, 832 se encontram na Bahia e, destas, 448 em Boa Nova, ou seja, Boa Nova sozinha responde por 24% das espécies identificadas no Brasil e por 54% das identificadas na Bahia). Outro fator importante é que na nossa região, tendo Boa Nova como eixo central, dos quatro municípios citados a seguir, encontram-se implantadas três UCs: uma estadual (APA Serra do Ouro, no município de Iguaí) e duas federais (Parque Nacional de Boa Nova e o Refúgio da Vida Silvestre de Boa Nova, abrangendo os municípios de Dário Meira, Boa Nova e Manoel Vitorino).

Simulação de salvamento e imobilização das vítimas, utilizando os recursos disponíveis, realizada na área da feire livre

Transporte de uma vítima imobilizada

Avaliação do conteúdo

Brigada se preparando para sair para instruções práticas


4

No 60

A vida noturna Edson Messeder Até o final dos anos 1960 não havia nada, absolutamente nada, em Boa Nova. Nenhuma diversão noturna fora das noitadas clandestinas no brega de Maria José. Nenhum local onde os jovens e os outros pudessem se reunir em torno de uma cerveja, num bate-papo, ou escutando uma boa música ou evoluindo nuns bons passos de dança. Nos fins de semana, além das tradicionais serenatas e as não menos tradicionais reuniões familiares, podia-se encontrar algum baile, nas periferias, iluminado por um fifó (candeeiro a querosene). Quase sempre eram bailes comemorativos de um casamento e/ou da bespa (véspera), na maioria das vezes, de algum membro da família dos Capivara, animados por um tocador de sanfona e um pandeirista. A sanfona, que se chamava pé-de-bode, era um fole de oito baixos, como aquele de Januário, o pai de Luiz Gonzaga. Na maioria das vezes o sanfoneiro e o pandeirista cantavam e eram seguidos pelas pessoas que dançavam. No final, todo mundo participava e uma alegria única invadia o ambiente: “O candeeiro se apagou / O sanfoneiro cochilou / Mas a sanfona não parou e o forró continuou...” Ou bem: “o cearense que o vapor levou...” A música era longa, mas a letra era composta dessa pequena e única frase. Por volta de 1969, quando somente os homens e as mulheres da vida podiam entrar num bar à noite, tive a não muito feliz ideia, como tantas outras muito avançadas para a época, de tentar mudar as mentalidades nesse domínio. Numa sexta-feira, após o curso noturno de Magistério, no qual eu lecionava Português, convidei minha irmã Dilminha e uma amiga, Creusa, para tomarmos uma cerveja no “reservado” do bar de Zé Marinho. Penso que, até então, o bar nunca teve tantos visitantes noturnos, que abriam a porta do reservado, punham a cabeça para dentro e nos olhavam, ou melhor, olhavam as moças, horrorizados. Na sexta-feira seguinte repetimos a façanha, dessa vez com mais duas convidadas, que não tiveram medo de enfrentar a cólera paterna: Nice e Neusa. O fato de ver todas aquelas cabeças e olhares inquisitórios nos divertiu no começo, mas acabou nos incomodando a tal ponto que as moças não quiseram mais voltar. Alguns meses depois Joãozinho de-

cidiu abrir a primeira boate da cidade, o Cantinho da Amizade. Situava-se na esquina da Praça 7 de Setembro com a Rua Duque de Caxias, no antigo armazém de Seu Lôga, no qual Joãozinho já explorava um bar. O reservado foi transformado em boate. A decoração era simples e discreta, com temas de cabana. As paredes eram forradas com esteiras de taboa ao longo das quais se encontravam mesas rústicas, rodeadas de quatro tamboretes. Luzes de várias cores no teto, com exceção de vermelhas, para evitar toda confusão com as casas que até então portavam o nome de boate, no interior do Estado, como, por exemplo, a Carne Assada da Judite, localizada entre o Quilômetro 58 e Manoel Vitorino. Nos dias anteriores à inauguração, o principal assunto das conversas na cidade era saber quem iria e quem não iria. Muitos questionamentos sobre os pais de família que autorizariam suas filhas a frequentarem a casa noturna. Nesse meio

tempo a professora Gesse anunciou que ela estaria presente, e esse fato acabou com as hesitações de certos pais e a noite da inauguração foi um sucesso total. Casa cheia, com a presença de muitos pais, que acompanhavam suas filhas, num excelente ambiente. O som deixava muito a desejar, mas fazer o que? Na época os aparelhos de som eram caríssimos. O Cantinho da Amizade, que se tornou rapidamente um ponto de diversões e de encontros, não teve uma vida muito longa. Fechou suas portas e, pouco depois, surgiu a boate de Edson, também na Praça 7 de Setembro. No começo dos anos 1970 Tuíta criou a sua boate, que durante vários anos iria dar aquele toque que faltava nas noites dos finais de semana. Situava-se na Rua Bráulio Xavier, quase defronte ao coreto. A pedido de Tuíta, eu mesmo me encarreguei da primeira decoração: margaridas gigantes, em cartolina, pintadas com tinta fluorescente e motivos psicodélicos feitos com spray também fluorescente para que realçassem com a luz negra. Numa viagem a São Paulo fui encarregado da compra das luzes negra, estroboscópica e cadavérica. Tudo isso dava à boate de Tuíta um aspecto das discotecas das grandes cidades. O gran-

Abril/Maio/2014 de problema, que contrastava enormemente com o aspecto físico, era, naturalmente, o som. Mesmo se o aparelho fosse o mais moderno da cidade, com duas possantes caixas de som, restava o problema das músicas e da escolha das mesmas. Diga-se de passagem, Tuíta não atendia a pedidos musicais. Era ele e ele só quem escolhia o repertório. Do ponto de vista nacional, sem nenhuma dúvida, era Benito de Paula o rei da noite, cortando o barato de todo mundo e sempre admirativo de Maria-Mariá. Às vezes, Raul Seixas pintava no pedaço, com o seu disco “os 24 maiores sucessos da era do rock”, fazendo-nos dançar e sonhar com Neil Sedaka, Paul Anka, Hank Willians, The Platters etc. Do lado internacional, tudo melhorava. Grandes nomes da música disco, como Santana, Santa Esmeralda e o excelente grupo holandês “Pussycat” com a inesquecível canção “Mississippi”. Em termos de boates, a vida noturna boanovense estava bem servida nesse final dos anos 1970. Havia três: a de Edson, a de Tuíta e “O Porão”, na Rua da Tabatinga (Querubim Cana Brasil). Surgiram os primeiros conflitos ligados à concorrência. Se eram artes dos concorrentes, nada ficou provado, mas coisas bem estranhas começaram a acontecer. Uma noite jogaram pó-de-pimenta na boate de Edson. Foi aquele panavoeiro. Todo mundo chorando e espirrando. As mulheres que se vestiam com saias ou vestidos comeram o pão que o diabo amassou. Edson não sabia mais o que fazer para aliviar as infelizes. Todo o estoque de gelo e de água gelada acabou em alguns minutos. Algumas semanas mais tarde a boate de Tuíta foi palco de uma dessas “manifestações”. Jogaram “pó-de-carrapato”. Tratava-se de um pó antisséptico a base de iodo, com um horrível cheiro de carrapato. Minutos mais tarde não havia viva alma no salão. Assim era a vida noturna em Boa Nova. Boates só com músicas e jogos de luzes não passariam de reles boates. Para serem boanovenses, elas tinham que ter pó de pimenta e pó de carrapato. Às vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos a luz “dava sinal”, piscando três vezes, anunciando que se apagaria dali a quinze minutos. As moças voltavam para casa, pondo um ponto final nas atividades dançantes. A vida, no entanto, continuava, mesmo sem luz e sem dança. Porque a música, em Boa Nova, era eterna. (Edson Messeder é um boanovense que reside na França há mais de três décadas. É aposentado como enfermeiro em Cancerologia e acompanhamento de pessoas em fase terminal e de seus familiares; e tem Mestrado em Ciências da Educação pela Université Paris 10 – Nanterre)


Abril/Maio/2014

5

No 60

“Cama & Café” pode ser alternativa de hospedagem em Boa Nova Mesmo que parte da própria comunidade ainda não tenha percebido de forma mais próxima que Boa Nova já é um destino turístico, esta é uma realidade. Para ser mais exato, o ecoturismo no município começou já na década de 1980, antes mesmo que os próprios moradores se dessem conta que possuíam uma riqueza inestimável: as aves. Há mais de 30 anos Boa Nova é roteiro nacional e mesmo internacional de “birdwatching” (observação de aves). Desde a metade da década de 2000 uma sucessão de acontecimentos despertou a comunidade boanovense não só para esse aspecto do ecoturimo, mas para outros que também envolvem as belezas naturais do município. A chegada da SAVE Brasil e as várias reportagens nacionais em revistas, jornais e na TV, obtidas a partir do trabalho desta ONG paulista, deu visibilidade a Boa Nova a ponto do Governo Federal criar em 2010 o Parque Nacional de Boa Nova e o Refúgio de Vida Silvestre de Boa Nova. É

certo que estas áreas de conservação ainda estão longe do estágio ideal, mas abriram um novo campo de possibilidades tanto na área exclusivamente ambiental quanto na área turística. Hoje, Boa Nova recebe, por ano, vários observadores de aves e também estudantes e professores universitários da Bahia, que têm iniciado trabalhos acadêmicos a partir da fauna e flora locais. Há ainda o turismo esportivo, de aventura e de lazer, que já acontece de forma tímida, mas com grande potencial.

Hospedagem As opções de hospedagem e alimentação já existentes em Boa Nova são consideradas pequenas para atender ao potencial turístico que começa a ganhar corpo. Há, no entanto, um começo de reação com a construção de uma pousada na “Praça do Coreto” e também uma nova modalidade que o próprio Governo do Estado está incentivando, e que ainda está restrita a Salvador e a algumas cidades do interior.

Quarto simples e decente é o que se espera desse tipo de hospedagem

No Cama & Café uma das exigências é a oferta de um café da manhã básico

Cama e Café Há um ano a Secretaria do Turismo da Bahia lançou o projeto “Hospedagem Cama & Café”, que já ganhou, inclusive, destaque nacional em publicações do setor. Contando com a parceria do Sebrae, seu principal objetivo é capacitar pequenos empreendedores para fazer da própria casa um meio de hospedagem alternativo. No Brasil o Cama & Café foi implantado em 2003 no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. A ação também foi realizada em Olinda-PE e está sendo implantada em Mato Grosso do Sul. De acordo com o conceito do Ministério do Turismo, que o reconhece oficialmente, o Cama & Café é um local de hospedagem que deve ter apenas três unidades de acomodações para uso turístico, em que o dono more no local e haja serviços de café da manhã e limpeza. Na Bahia as pessoas que se interessaram em participar da seleção do Cama & Café receberam em suas residências a visita de um técnico do Sebrae, que avaliou o local para verificar se está enquadrado nos requisitos exigidos para participação no projeto. Em seguida, os anfitriões que tiverem as residências selecionadas foram qualificados com cursos e oficinas oferecidos pelo Sebrae.

Critérios mínimos São critérios mínimos para uma casa ser classificada como meio de hospedagem Cama & Café 1 estrela (há classificações para até 4 estrelas): o anfitrião deve ser acessível por telefone durante 24 horas; serviço para guarda dos valores dos hóspedes; área útil da unidade de habitação, exceto banheiro, com 8 m²; banheiro compartilhado com 1,30 m²; cama com colchão solteiro, com mínimo de 0,80 m x 1,90 m, ou cama com colchão casal, com mínimo de 1,40 m x 1,90 m; troca de roupas de cama a cada três dias; troca de roupas de banho a cada três dias; café da manhã básico (café, leite, achocolatado em pó, chá, uma fruta, manteiga/margarina, pão, geleia, açúcar e adoçante); medidas permanentes para redução do consumo de energia elétrica e de água; medidas permanentes para redução, separação e coleta seletiva dos resíduos; monitoramento das expectativas e impressões dos hóspedes em relação aos serviços ofertados, incluindo pesquisas de opinião, espaço para reclamações e meios para solucioná-las; medidas permanentes de treinamento para colaboradores; medidas permanentes de sensibilização para os hóspedes em relação à sustentabilidade; e medidas permanentes para valorizar a cultura local.


6

No 60

A Boanovense que virou Paulista Ceiça Moraes

O

uviu-se dizer que em Boa Nova, que mantinha costumes e tradições dos pais e dos avós há muitas décadas, uma jovem boanovense, muito bonita e bem moderna para a época, não se conformava em viver de forma simples, nas condições em que as mulheres eram: donas de casa, deviam total obediência aos pais ou ao marido, aprendiam a ler e escrever em casa com os familiares e “fazer contas,” ou seja, resolver as quatro operações; aprendiam a fazer bordados e a costurar à mão ou na máquina de pedal, que quem possuía era motivo de orgulho. As mulheres não trabalhavam fora de casa, a não ser em algumas poucas fábricas de costura em cidades maiores. Havia na cidade algumas professoras que davam aulas no Colégio Municipal e outras professoras, chamadas “leigas” davam aulas particulares, denominadas de “bancas”. Em meio a esse cenário vivia Maria Margarida, que detestava ser chamada pelo “nome de batismo”, sendo conhecida por todos como Margarida ou Guidinha. Era de família simples; seu pai, um dos agricultores da região, conhecidos por mateiros, quando tinham plantações, tipo roça de feijão-verde, (andu), inhame, batata, frutas, verduras e hortaliças, que eram levadas no “lombo de um cavalo ou de um burro” para serem comercializadas na feira-livre de Boa Nova. Guidinha, sempre acompanhada pela mãe, visitava os parentes e os chamados de “derentes”, (que eram os parentes de terceiro grau); ajudava a mãe quando esta era contratada para buscar água no rio e encher os potes-de-barro, os quais eram colocados na cozinha com um pano-de-prato preso, para coar a água. Essas mesmas pessoas que carregavam água eram “contratadas” para lavar roupas no rio e em local de nascente de água, o famoso “Poço”. Ali as lavadeiras passavam o dia inteiro lavando roupas para pessoas “de posse”, ou seja, que tinham condições de pagar pelo precioso serviço. Assistia à missa aos domingos, fazia parte do catecismo, ensaiava os cânticos, porém tudo o que fazia, diziam que “fazia tudo à pulso”, ou seja (quase) à força, pois não gostava de sua rotina, nem mesmo da vidinha que ela dizia que “era sem graça”, afirmando, sempre que iria embora do lugar. Vivia a moça sonhando em ir embora para São Paulo, aquela cidade linda, grande, encantadora, que ouvia falar que muita gente vai trabalhar e fica até rica. Ela pretendia trabalhar em algum escritório ou alguma loja, se vestir bem, com roupas da moda, bem diferentes das roupas simples que costumava usar. Pretendia conhecer outro “tipo de gente”, como sempre dizia, esquecer que existia aquele interior e fazer outras coisas em sua vida, pois era outro tipo de vida que queria. Tanto sonhou e desejou ir embora, que seu sonho se realizou. Animou-se, de repente, para ajudar mais a mãe, juntou algum dinheiro com trabalhos simples e costumeiros. Quando tinha o suficiente, foi embora e não se falou em outra coisa em Boa Nova. Foi embora e, assim, ficou em São Paulo por um bom tempo. O que ouviam era que ela “se deu bem” lá. Mas... Como dizem, “quem é vivo sempre aparece”, um dia de festa em Boa Nova, a cidade movimentada, num domingo, um bom grupo de frequentadores da “budega” de seu Ugulino, entre “um gole e outro” de uma boa cachacinha com limão, o assunto foi Margarida: - Margarida VOLTOU! - Ô! Guidinha voltou? - O Bom filho (...) - “Vortou de Sum Paulo”, disse Seu Zebedeu, que foi logo corrigido: - Voltou de São Paulo, Zebedeu! Corrigiu Seu Nicolau, alertando: trate de aprender a falar, meu compadre, assim vão pensar que você é matuto. - É que a língua “num dá, cumpade”! Eram tantas coisas que falavam e davam risadas, que de longe se ouviam os comentários. Monteiro falava; Seu Zebedeu, com seu linguajar bem peculiar, falava!! Ugulino tomava mais um cafezinho e “despachava” (vendia) a cachaça que pediam; outros comiam uma cocadinha de leite e “tira-gosto” de carne-do-sol, bem frita em boa manteiga. Era um falatório só, até o Adam Bunda esculhambava!

Abril/Maio/2014

Naquele momento, Dona Josefina, que não tinha medo de nada nem de ninguém, apareceu na porta da venda (budega), parou, cruzou os braços em sinal de reprovação, já imaginando que estavam falando de sua sobrinha Margarida, e começou logo o interrogatório: - O que vocês estão falando aí, “que não é da conta de vocês”? - A senhora quer mesmo saber? Seu Nicolau começou a falar, em meio aos risos: - Estão dizendo por aí que sua sobrinha mudou até de nome! A senhorita boanovense, que passou uns dois anos, ou um pouco mais, em São Paulo, agora se chama “Margô”! E que ninguém se atreva a chamá-la por Margarida que ela fica brava! Mas, conte aí, Compadre Zebedeu, o que, senhor ouviu dizer? Zebedeu, tomou um gole, e foi contando: - “Oxente”! Seu minino, é pra já! Vou contar o que eu ouvi dizer, e isso aqui, essa conversa, não é fofoca, não!! - Disseram que Guidinha estava andando por aí, admirando tudo! Tudo “o que ela bate os olhos”, admira: a praça, as casas, o ferro-deengomar, as panelas-de-barro, a gamela, a bucha de lavar os pratos; ela se admira até do Coreto, disse que num conhecia o nosso lindo Coreto cor-de-rosa! E as comidas? Disse que o gosto é estranho, que o tempero é muito forte! Até os parentes Guidinha num conhece mais. E ainda disse que num vai beber água de pote, nem de “talha”, nem de rio, que só bebe água de um tal de “Superzon”! Num sei o que é isso! Se ela soubesse que a nossa água é tão boa! É a melhor que tem no Brasil! A nossa água “é mineral!” e não tem água mió do que a água de Boa Nova! E Guidinha ou “Margô” falar da nossa água!! Seu Zebedeu ficou nervoso e tão revoltado que nem conseguia falar mais nada (...) - Deixe que eu conto o resto, Zebedeu! Tome sua pinga pra você se acalmar, falou Seu Trazílio, narrando os fatos com mais calma: - As minhas vizinhas, lavadeiras, disseram que Guidinha, “sem ter o que fazer”, foi lá no poço onde elas estavam lavando roupa, colocando as roupas no quarador (corador de pedras, onde são colocadas as roupas ainda com sabão, para limpar e não desbotar a cor), quando chegou Guidinha, toda metida, e perguntou: - ESSE POÇO É FUNDO? E as lavadeiras responderam: - Mas, largue de ser besta, Guidinha! Você, acostumada a lavar roupa aqui nesse poço, e ainda “lavar roupa de ganho”; acostumada a pegar latas e mais latas d’ água aqui nesse poço... Em tão pouco tempo você se esqueceu, foi? E continuaram perguntando: - E que negócio é esse de mudar de nome, de apelido e sei lá mais o quê. Você mudou!! Agora é rica, é? No que Guidinha respondeu: - Primeiro, mudei de nome porque eu quis mudar. Lá em São Paulo, Margarida é Margô! É mais “chic”, viu, bem? Nisso, continuou Seu Trazílio: - As lavadeiras disseram que pegaram um bocapiu (sacola de palha) com merenda e Guidinha arregalou os olhos, se mostrando tão assustada quando viu o cuscuzeiro, com um cuscuz delicioso, babou de vontade de comer, se aproximou e perguntou, com educação de sulista: - ESSE É O AMARELINHO QUE CÓRITA, É? (com o sotaque paulistano). - E O QUE É ISSO, ESSA FRUTA REDONDA QUE VOCÊS ESTÃO DESCASCANDO COM A UNHA? É JACA DE POBRE? As lavadeiras não se aguentaram de tanto rir e perguntaram a Guidinha: - Isso é Cuscuz, Guidinha! E a outra lavadeira disse: - E isso aqui não é jaca-de-pobre, Guidinha. Isso é Batata! BatataDoce, lembra? Você já comeu muita batata e muito cuscuz. Você já tomou café com farinha no café da manhã, da tarde e da noite; Ocê comeu banana com farinha e já passou banha-de-porco no cabelo!! E já comeu no “caco de telha”, viu Guidinha? Não vem pra cá, de Sum Paulo, cm uma mão na frente e outra atrás, toda “chic” e metida a bosta de galinha, dizer que não conhece mais nada? E ficou furiosa, e as outras pediram calma! A indignada lavadeira acalmou-se, respirou e disse a Guidinha: - Pode se aproximar, “Margô”!! Vem! Prove esse cuscuz que tá muito bom; venha comer batata e biscoitos-de-goma. Pode comer que é isso mesmo que vosmecê quer, não? Os chimangos estão deliciosos! Depois, com a barriguinha cheia, venha ajudar a lavar e torcer essas roupas, que a gente aqui tem muito o que fazer, e você, já estou sabendo, que “se injuriou” por lá, não quer mais saber de ir pra SUM PAULO!! E voltou pra ficar e nunca mais quer ir embora de sua terra. (Ceiça Moraes é professora da Sec-BA, em Salvador; licenciada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Educação Especial)


Abril/Maio/2014

7

No 60

Cruzeirão: um bem entendido por Agnério Ferreira Há precisamente quarenta anos se iniciou a lenta destruição do Cruzeirão. Naquele ano de 1965 o lajedo sofria suas primeiras marteladas após explosões, estas ocorridas depois de fogo ateado no mesmo. Assim, surgiam nomes de novo ofício na cidade, os britadeiros e as britadeiras. A destruição ocorria muito aos poucos de forma despercebida; primeiro foram as pedras isoladas próximas ao local para, em seguida, ser o próprio local. Estas pedras, após o britamento, eram vendidas para uso em construção civil em Boa Nova mesmo, no começo; depois até para outras localidades. É como se não houvesse outro local com pedras mais disponíveis a serem quebradas para se fazer a brita. O britamento é um trabalho árduo e que rende muito pouco a quem o faz – que são pessoas simples e humildes. Neste caso habitam ali em ruas próximas, mas o mesmo trabalho rende de forma razoável aos que o exploram, primeiro porque apenas atravessam da produção ao fim, e segundo porque não detêm a posse da terra nem o direito de explorá-la, não tendo gasto com nada. É sabido que não havia em Boa Nova há quarenta anos (nem há ainda hoje) regras, normas e legalidades para exploração de minerais preciosos – o que tem ocorrido nestas décadas – nem tampouco para os granitos – a simples pedra que gera a brita. Muitas pedras saíram de lá nestes anos todos, pequeninas como os minerais preciosos, pequenas como as britas e paralelepípedos e grandiosas como os blocos exportados a diversos países. O início de tudo relativo ao Cruzeirão deveu-se ao advindo da empresa MARBOR em 1975 a Boa Nova para construir e implantar o sistema e serviço de água e esgoto, que depois seria gerido pela EMBASA, e iniciou-se a produção e exploração de brita neste local para satisfazer a demanda da construção, especificamente nesse caso para compor o concreto da caixa d’água primeira, que fica próximo à antiga sede da fazenda de Nélson Benevides. Até essa época em Boa Nova as casas eram construídas com adobe cru e barro/areia/cal ou com tijolo queimado e barro/areia/cal; muito rararamente usava-se cimento, e em grandes partes as calçadas e alicerces eram feitas com pedras soltas apenas. Não se usava brita, e quando se precisava de pedrinhas pequenas eram usados os cacos de telhas. A água que servia à pequena população era coletada nas cacimbas do Bexiguento, nas cacimbas dos próprios quintais, guardada das chuvas periódicas, buscada na conhecida Lagoa - cito ao final da Travessa Inocêncio Mendes, buscadas na lagoa do Cuzeirão, no Açude atrás da Igreja Matriz, e de diversos riachos próximos e até do Rio Uruba – transportada nos carotes ao lombo dos jumentos, nas latas, moringas e potes sobre as cabeças das botadeiras de água e nos barris arrastados por homens. Assim, não se usava brita para concreto porque não se usava concreto para as nossas casas. Nem mesmo para construir caixa d’água ou quiçá barragens. Aqui há uma grande mudança de costumes. Com o advento da água encanada, por comodidade digna, as pessoas passaram a usar menos ou não usar a água desses locais, inclusive para lavar roupa. Com o não uso natural houve um abandono do Rio Uruba, das cacimbas do Bexiguento e, não diferente, da lagoa do Cruzeirão. Quem usa cuida! Nesse ínterim vieram as inovações nas edificações civis da cidade; desmancharam-se os casarões antigos e construíram casas novas, agora com blocos, cimento e concreto – nasceu e aumentou o uso da brita. Continuou a lenta destruição do Cruzeirão. É sabido que para o britamento, quem o fazia estragava toda a vegetação próxima. Assim, a flora local

foi destruída, e sem flora, fauna não há. Sem querer frisar aqui, mas muitas pessoas que visitavam o Cruzeirão nestas quatro décadas apenas o faziam para levar uma planta como lembrancinha, e isso por todo esse tempo também colaborou com a destruição. Mas há esperanças. No comecinho da década de oitenta um fato marca o local. O padre Carmo Cabidu e o prefeito Adroaldo Moraes fizeram uma Capela no local. Havia uma cruz secular, porém já em mau estado. Então, outra fora transportada em procissão desde a Igreja Matriz Nossa Senhora da Boa Nova até o Cruzeirão. Ali foi ela erguida e fixada no lajedo, agora em frente à recente Capela dedicada a São José. A cruz anterior ficava em um local mais alto à esquerda em terra firme. A Capela e a Cruz estão justamente num primeiro plano onde houvera uma grande destruição do lajedo. Parou-se um pouco a destruição. Tempos depois retornava. Isto era constante. Cada movimento contra a destruição só durava um pouco. Logo, tudo como antes. Em 1986 a ADCBN (Associação de Desenvolvimento Comunitário de Boa Nova) realizou manifestações em defesa do meio ambiente. O então Jornal Sem Censura veiculou matérias a respeito e em uma de suas capas havia a charge sobre a morte do Rio Uruba, onde pessoas choravam e faziam o seu enterro. O trabalho culminou com um ato manifesto pela preservação do Cruzeirão. Até foram confeccionadas camisetas com dizeres para “Salvar o Cruzeirão” e com um desenho onde atrás da cruz (símbolo do Cruzeirão) havia uma marreta – símbolo da destruição. Creio até que a criação do desenho tenha sido de Paulo Coqueiro (ora membro da ADCBN) e/ou de Renê Sá (grande amigo daquela turma que residia/estudava na capital). Como doutras vezes, por um tempo foi barrado o britamento. Mais tarde voltaria. Na virada do milênio aconteceu a ocupação (des)organizada daquele alto. De um lado um loteamento um pouco mais abaixo, organizado, programado e com tamanho limitado, vendido aos interessados, chamado Alto do Cruzeiro, atitude provavelmente já forçada a acontecer devido ao outro lado – uma ocupação/invasão sem ordem nem limites, chegando aos restritos espaços inabitáveis do lajedo. Aí então entrou na “área do Cruzeirão” propriamente dita. Também na virada do milênio nasce o Jornal Gamboa. Não é um Jornal apenas... e é mais que um movimento... e muito contribuiu nestes 14 anos para a nossa cidade, nossa cultura, inclusive para defender o Cruzeirão. E ao começo do milênio, precisamente no final de 2001, a gente retoma a Folia e o Terno de Reis dos Ferreira volta para as ruas após 57 anos. Entendemos que, além de resgatar tradições populares e religiosas, levar alegria e diversão aos lares que nos recebem, proporcionar folguedos à comunidade, nós também quisemos ter um compromisso maior com a nossa cidade. Daí, depois de muita reflexão em grupo e umas longas conversas com o nosso pároco, decidimos assumir essa luta e abraçar esta causa. A do Cruzeirão. Muito se falou que a curto prazo seria a consciência, a médio prazo a consciência e a longo prazo, a consciência. Todo mundo diz que é preciso conscientizarse! Sabemos que não basta. Foram iniciadas duas atividades paralelas. Uma atividade seria constante, em que era feita a formação na escola; professora Agnólia Ferreira comandou essa tarefa e diversos trabalhos e atividades em classe foram realizados e muitos trabalhos executados lá no Cruzeirão. Havia palestras, havia limpeza

Há tempos o Cruzeiro vem sendo alvo de agressões variadas

do local, replantio também se fazia. Houve envolvimento de outros professores e de centenas de alunos durante esses anos. A outra atividade seria periódica, em que em contato com as famílias que armam os presépios, estas nos entregavam as plantinhas usadas nos mesmos ao término das tradições e a gente devolvia à Mãe Natureza, lá no Cruzeirão. Uma ação simbólica de devolver as plantinhas dos presépios para o Cruzeirão. Acontecia após a festa do reisado e todos os participantes do mesmo e até outras pessoas ajudavam neste trabalho, que, além disso, também culminava com o transplantio de mais centenas de plantinhas emprestadas de outros lajedos irmãos para o Cruzeirão. Campanhas com os alunos, conversas com a comunidade, conversas com famílias, casa a casa, no entorno do Cruzeirão. Apesar de tudo isso ser uma constante, a destruição continuava, tanto quanto todo o trabalho de limpeza e plantio/replantio parecia inócuo, pois em pouco tempo parecia que nada tinha sido feito algum dia no Cruzeirão. Esta contenda durou uma década. Já não deu mais para continuar vendo caminhões constantemente saindo de lá carregados de brita para abastecer o comércio local e até da região. O que pensamos há anos teve que ser feito. Primeiro, de forma sábia, apenas se instalou um portão para impedir a passagem dos caminhões e todo o entorno continuou aberto. Pouco tempo foi o bastante para que os interessados fizessem uma estrada lateral e tudo ficou com antes. Todo o trabalho continuava de forma constante como formiguinhas. Nada resolvia, pois o plantio, replantio e transplantio que eram feitos semestralmente continuavam sendo brutalmente arrancados por tantas outras pessoas, sei lá quem. Doravante tornou-se necessário entender e aceitar que todo o trabalho de consciência e perseverança em reposição não daria conta sem se tomar uma medida mais eficiente, por mais que parecesse dura. Teríamos que pagar esse preço. Agora, além do portão, e tantas conversas continuadas, começamos a fazer o cercamento. Com a ideia de chocar menos e educar todos sensatamente a parar a exploração das pedras e a destruição da flora local, decidimos também que, para dar conta da tarefa, o tempo exigia que fosse feito por etapas. Então, em três fases fez-se o cercamento prioritário, conseguindo, assim, impedir que se extraíssem dali as britas. Logo, o esforço dos plantios, replantios, transplantios torna-se eficaz. O cercamento, por muitos motivos citados e outros, até mesmo para delimitação, é permanente. Há que se convir. O fechamento é temporário, o necessário apenas para que haja grande pegamento das plantas com produção e reprodução, para que as pequenas adaptações importantes sejam feitas, para que se faça o que se intencionou, para que se cumpra o combinado e prometido no projeto, e durante esse tempo lá só acontecerão atividades religiosas, há que se entender. Que o DEUS da vida proteja a nós todos! (Agnério é superintendente da FIEB - Fundação Instituto de Educação de Barueri-SP)


8

No 60

Abril/Maio/2014

Breve história da longa estrada do Mestre Wilson Zabumba por Roberto D’arte

Papai dedicado à filhinha Bruna

Ele não nasceu em Boa Nova, mas é filho de boanovense e teve a infância e a adolescência totalmente ligadas à cidade. Aos 46 anos, Wilson Pereira Silva mora em Salvador e trabalha como servidor público estadual. Filho do bonovense Joilson Balbino da Silva e da itagiense Odineia Pereira da Silva (Dona Neinha), ele é casado com Lylia Mônica Gonzaga Marques e pai de Bruna Beatriz Marques Silva, de 3 anos. A carreira como auxiliar administrativo segue o seu curso natural, mas não foi através dela que Wilson se tornou conhecido na capital e em várias cidades do interior da Bahia onde o forró dá o tom. Foram os seus mais de 25 anos de estrada como percussionista e zabumbeiro que deram a ele a referência de excelência que carrega no meio musical. Não por acaso é chamado Mestre Wilson Zabumba. Wilson já tocou com vários artistas e bandas, a exemplo de Zelito Miranda, Targino Gondim, Gilton de La Cella, Maria Farinha, Brinquedo de Menina, Sivirinus Rei e Trio Quadril. Já há algum tempo é músico da banda do cantor, compositor e sanfoneiro Eugenio Cerqueira, um dos nomes mais respeitados da Bahia no chamado forró de raiz. Eugênio, que

Wilson Zabumba leva ao palco uma alegria contagiante

tem vários CDs lançados, já tocou com artistas de renome nacional, como Fafá de Belém, Luiz Caldas, Wilson Aragão e Zelito Miranda. Boa Nova está diretamente ligada ao início da carreira musical de Wilson. Foi no início da segunda metade da década de 1980, ainda adolescente, que ele começou a tocar percussão na banda local Raízes da Terra, da qual participaram vários boanovenses de nascimento e de coração, como o seu irmão Odilson Pereira Silva, Marcos Moraes (Marcos-de-Petrônio), Ivan Farias (Vanzye), Benício Celes Alves (Benicinho), Antônio Oliveira (Toinho-deDilma), Renato Pedrecal Jr. (Renatinho), Adilson Oliveira (Saruê), o saudoso Luiz Rodrigues (Luiz-de-Agostim) e eu (que dividia os vocais com os dois últimos). Neste período Wilson chegou a ser convidado especial para acompanhar em um show em Salvador a então famosa banda de baile de Jequié - Embalo 4 (na qual tocava o guitarrista boanovense Zé Rodrigues). Em Salvador pude participar como vocalista ao lado de Wilson e Odilson de uma banda formada por amigos do Conjunto Habitacional Machado Forte, em Brotas, onde residiam os irmãos Silva. Também com os dois tive o imenso prazer de participar do Trio Remanso, que se apresentou em vários locais na cidade e chegou a tocar ao vivo na Piatã FM, uma referência estadual em forró. É maravilhoso estar ao lado de Wilson em um palco ou tão somente vê-lo se apresentar. A sua destreza na zabumba certamente explica o "Mestre" em seu nome artístico. Mas ele tem algo que vai além da expertise; tem uma alegria contagiante, traduzida em sua risada espontânea e no modo peculiar de dançar com sua zabumba. "O ponto alto de um forrozeiro é quando ele consegue tocar com perfeição e o público reconhece a banda com muitas palmas, saindo do show visivelmente satisfeito", resumiu Wilson após ser questionado sobre o significado de tocar forró. Como o título deste texto sugere, esta é uma breve história de um boanovense de coração que conseguiu trilhar uma longa estrada como músico. Como junho é mês especial para os artistas do forró, deixamos aqui alguns dos shows já programados em Salvador, com a presença de Wilson Zabumba: 06/06, às 16 horas - Bar Grande Sertão (Costa Azul); 06/06, às 21 horas Praça Pedro Arcanjo (Pelourinho); 07/06, a partir das 22h30min - Bar Grande Sertão (Costa Azul); 25/06, às 18 horas - lançamento do CD de Eugênio Cerqueira, no Bar Camarote da Praia (Praia de Ipitanga); e

todas as quartas-feiras de junho, a partir das 21 horas - Bar de Passagem (Pituba). (Roberto D’arte é editor do Jornal GAMBOA e atua em Viçosa-MG como redator do jornal Tribuna Livre e como professor de Filosofia do Ensino Médio na ESEDRAT e do Ensino Superior na FDV)

São muitos os shows na sua carreira...

...uma longa estrada ajudando a divulgar o forró autêntico

Acompanhando o sanfoneiro Eugênio Cerqueira em show na TVE

Wilson é zabumbeiro da banda de Eugênio Cerqueira


Abril/Maio/2014

9

No 60

Projeto transforma Cruzeirão em parque urbano Dando continuidade ao assunto abordado à página 7 desta edição em texto assinado pelo educador boanovense Agnério Néri Ferreira, apresentamos detalhes do projeto de recuperação do Cruzeirão, que prevê a sua transformação em um parque urbano. Segundo informações de Agnério ao GAMBOA, a Paróquia Nossa Senhora da Boa Nova, em formalização legal realizada pelo então pároco Fábio Bastos, concedeu em Regime de Comodato a área do Cruzeirão (que é de uso público, mas pertence à Igreja Católica) a ele e a sua irmã, a também educadora boanovense Agnólia Néri Ferreira Santos. O comodato, que tem validade de 15 anos e pode ser renovado, prevê que os dois irmãos (também responsáveis pelo resgate do Terno de Reis dos Ferreira) realizem a recuperação e manutenção do espaço. Este é composto de pedras em forma de lajedo e formado por uma variedade de plantas típicas da chamada Mata Cipó (transição da Mata Úmida para a Caatinga), a exemplo da cabeça-de-frade, do cambuí, da cheirosa, do mocó, guabiraba, alecrimde-gerais, canela d’ema, rama-preta e diversas orquídeas.

Pelo projeto, a capela e a cruz serão restaurados

Está prevista a recuperação da lagoa do Cruzeirão

Origem do nome O Cruzeirão, que também é uma espécie de mirante da cidade, há um século é usado como espaço de passeio e/ou recanto religioso pelos moradores de Boa Nova e visitantes. Lá, ainda no começo do século 20 foi colocada uma cruz, carregada em forma de mutirão numa procissão religiosa. Daí originou o nome Cruzeirão. As visitações e celebrações religiosas passaram, desde então, a ser constantes. Homenagem Muitas pessoas firmaram hábitos mensais, semanais ou diários de visitar o Cruzeiro e lá fazer as suas orações, entre elas o já falecido boanovense José Valeriano Ferreira (Zé Ferreiro), que se tornou muito popular na cidade pelos seus dons de benzedor. Durante muitos anos ele tomou como compromisso a conservação do espaço, indo mensalmente para capinar e limpar o local em volta da Cruz. Já na velhice, em decorrência das limitações físicas, já não conseguia manter o seu compromisso mensal, porém pouco antes de datas religiosas como a Festa da Padroeira Nossa Senhora da Boa Nova, o Natal, a Semana Santa e o Dia de São José, ele estava lá para cumpri-lo. Numa homenagem a esse homem que representa todos os boanovenses que zelaram pelo Cruzeirão e que sempre foi um símbolo de devoção, fé e dedicação ao próximo, Agnério e Agnólia colocaram no projeto a criação do Parque do Cruzeirão José Valeriano Ferreira.

superintendente da FIEB - Fundação Instituto de Educação de Barueri. A terceira etapa consiste na recuperação da lagoa do Cruzeirão, que é natural, de pequeno porte e serve de bebedouro para a fauna local e vida aquática, além de fundamental para a flora. “Ela é formada por água minada e pluvial, acumulada ao longo dos séculos. Porém, com a exploração de pedras lá por décadas uma parte importante de contenção foi destruída, diminuindo a retenção de água. Recuperá-la consiste em limpeza cuidadosa para apenas retirar o lixo urbano lá colocado, mas com a prudência necessária para preservar as microvidas contidas na água”, ressaltou o boanovense. A quarta etapa consiste na edificação, na parte dos fundos do Cruzeirão, de uma lagoa artificial simples (de construção artesanal, com pedras das sobras da exploração, ocorrida ali durante mais de três décadas). A quinta etapa prevê a construção, na parte da frente, de um monumento religioso (um grande Terço do Rosário de Nossa Senhora). “A intenção, além de ser um louvor a Nossa Senhora da Boa Nova, é que as pessoas visitem o local; assim, ao mesmo tempo em que as pessoas fazem a peregrinação, elas estarão, de forma involuntária, vigiando o espaço. Assim, será melhor será cuidado e o espaço cumprirá melhor a sua função”, enfatizou Agnério. A sexta etapa será dedicada à restauração da Capela com um caráter artístico específico, feito por artesãos locais em estilo barroco. Finalmente, na sétima etapa, será construído um portal como marco específico do Parque do Cruzeirão José Valeriano Ferreira.

Agnério assumiu a responsabilidade de recuperar o Cruzeirão

Etapas Ainda conforme Agnério, o projeto prevê sete etapas: cercamento, recuperação da flora, recuperação da lagoa natural, adaptação do lajedo (muito estragado) para uma lagoa artificial, construção de um monumento religioso, restauração da Capela São José e construção do portal do parque. Na primeira etapa (já concluída) o Cruzeirão foi totalmente cercado com tela de alambrado, afixada em estacas de concreto ou tubos de aço. Na segunda etapa (já iniciada) acontece recuperação da flora, com plantas cuidadosamente transplantadas de outros lajedos próprios para aquele. “Todo o transplantio é feito com muito cuidado e de forma minuciosa para preservar o local de onde se tira e para garantir o pegamento das plantas onde se põe. Ao mesmo tempo haverá um mini viveiro para quarentena de sobrevivência, adaptação e cuidado”, informou Agnério, que reside em Barueri-SP, onde atua como

José Valeriano Ferreira dará nome ao parque


10

Abril/Maio/2014

No 60

Aves, arte e educação ambiental Os voos cada vez mais altos das aves de Jorlando Barbosa

Jorlando, em seu ateliê, produz as aves que estão deixando Boa Nova

Há menos de dez anos, pouco depois de ter cruzado a casa dos 50 anos, um boanovense nascido na fazenda Casa Forte, na região da Mata, deu asas a sua arte. Jorlando Barbosa, que reside no Entroncamento de Boa Nova, foi um entre muitos que se renderam à descoberta da riqueza ambiental de sua terra natal. Jorlando e suas aves esculpidas em madeira seca estão indo cada vez mais longe. Barracas às margens da Rio-Bahia (BR 116) foram os primeiros locais de exposição e venda. Logo depois veio a cidade litorânea de Itacaré-BA, seguida de Salvador e, agora, a capital paulista. Nesta última, onde existem muitos boanovenses e descendentes, suas peças podem ser encontradas na loja do Projeto Terra (Rua Harmonia 150, loja 4, Sumarezinho). Antes de se tornar “Jorlando das Aves”, o artista de 61 anos só fazia flores e folhagens para vender nas barracas da BR 116. Nesta época sua especialidade eram os pés de bananeira feitos de madeira de umburana. Logo em seguida começou a confeccionar ararasvermelhas para fornecer aos comerciantes das referidas barracas. A mudança veio com o movimento ambiental desencadeado em Boa Nova pela SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) a partir de 2003. Com a chegada à cidade de Edson Ribeiro Luiz – biólogo desta ONG sediada em São Paulo, Jorlando foi incentivado por ele a esculpir diversas espécies de aves. Em 2010, quando foram oficialmente criadas as duas UCs – Unidades de Conservação – de Boa Nova (o Parque Nacional e o Refúgio Nacional de Vida Silvestre), ele já consolidava seu talento com as aves. Jorlando foi apresentado a Osmar Borges – gestor do parque, que, por sua vez, passou a apresentar as peças do artesão aos muitos visitantes da UC. Nos diversos eventos ambientais e culturais realizados em Boa Nova desde então sempre eram incluídas visitas dos participantes ao seu ateliê. Também por iniciativa do gestor do Parque Nacional de Boa Nova foram do-

ados ao artista plástico diversos livros com ilustrações de aves da região para incentivar e aperfeiçoar o seu trabalho, o que resultou num perceptível aumento da qualidade e precisão no tocante às formas e cores das aves esculpidas por ele. Após ter assumido a função de gestor do Revis Boa Nova (Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Boa Nova) – Johan Silva Pereira também passou a ser um divulgador da obra do artesão boanovense. Ao passo em que se aperfeiçoava na técnica de esculpir suas novas fontes de inspiração, Jorlando foi surpreendido por uma grande encomenda feita pelo já falecido fundador e diretor do Instituto Casa Via Magia – Ruy César. Ele queria nada menos do que todas as 440 espécies de aves de Boa Nova para serem expostas no Museu do Processo do Valentim (um dos projetos da ONG baiana). Concomitante a este grande trabalho, surgiam encomendas de aves de vários lugares. Também por iniciativa do Instituto Casa Via Magia, como parte da programação do Mercado Cultural de 2012, aconteceu no foyer (saguão) do TCA (Teatro Castro Alves), em Salvador, uma exposição dos pássaros de Jorlando. Ela revelou o trabalho do artista boanovense na capital do estado. O trabalho de Jorlando é um claro exemplo do chamado efeito-dominó que envolve a educação ambiental (formal e informal)

em Boa Nova. Seus produtos, além de fonte de renda familiar, são verdadeiros souvenirs de um município que já ganha e ainda tem muito a ganhar com o ecoturismo.

O artista exibe uma de suas produções

Instalação com seus pássaros exibida em Salvador no TCA

A obra de Jorlando apresentada por Osmar Borges à novíssima geração

Jorlando recebe a visita de Johan Pereira – gestor do Revis Boa Nova

Suas obras exibem a variedade dos pássaros de Boa Nova


Abril/Maio/2014

11

No 60

Mapa-poster divulga Boa Nova adere atrativos naturais ao programa de Boa Nova “Mais Médico”

Capa do mapa-poster lançado pela SAVE Brasil

Já está sendo divulgado e distribuído o mapa-poster “Atrativos Naturais do Município de Boa Nova”, lançado recentemente pela SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil). Segundo Edson Ribeiro Luiz – biólogo da SAVE Brasil e executor dos projetos da ONG em Boa Nova, a ideia surgiu devido à necessidade de oferecer mais informações a turistas e boanovenses sobre a localização de cachoeiras, mirantes e pontos de observação de aves. “Além de um mapa diferenciando ambientes e os limites do Parque Nacional de Boa Nova e do Refúgio Nacional de Vida Silvestre, há ainda no folder um checklist com as 446 espécies de aves já encontradas na região. Essa é mais uma iniciativa que vem somar esforços para o desenvolvimento do ecoturismo no município”, mencionou Edson. A produção do mapa-poster teve o apoio da Ricoh, do Parque Nacional de Boa Nova e da ONG boanovense IAM – Instituto Adroaldo Moraes (responsável legal pelo Jornal GAMBOA). A sua distribuição está sendo feita em Boa Nova e nos eventos em todo o país dos quais participam a SAVE Brasil, como ocorreu em maio, em São Paulo-SP, na AVISTAR (maior e mais tradicional feira de observação de aves da América Latina). O mapa-folder está disponível em Boa Nova com guias locais e no CERTUB (Centro de Recepção ao Turista de Boa Nova), que funciona na sede do IAM (ao lado da MACOL). Embora tenha distribuição gratuita, está sendo solicitado de quem o adquire uma doação simbólica de R$ 2,00 para ações de conservação da SAVE Brasil.

Dizendo-se adaptados ao cotidiano de Boa Nova, os quatro médicos cubanos que já estão atuando no município integram o programa Mais Médico, do Governo Federal. Ao todo, são cerca de 13 mil profissionais atuando em todo o Brasil. Alexis Acosta Reyes, Dayadia Otanundi Frd’nuto, Aniledys Afonso Lugones e Arianny Núnez Lamela chegaram a Boa Nova há pouco mais de dois meses para atuar na chamada saúde básica. O tempo de permanência será de três anos, com atuação de 8 horas dia por cinco dias semanais, intercalando turnos com cursos de especialização, via EAD (Ensino a Distância). Segundo declaração dos profissionais, eles já tiveram experiência em outros países, a exemplo da Venezuela. Para atuarem no Brasil e vencerem a barreira do idioma, passaram inicialmente por uma capacitação em Cuba e outra em Recife-PE, onde os quatro se conheceram. Atualmente já conseguem se comunicar em português com certa desenvoltura. Os cubanos disseram ao GAMBOA que a atuação deles não está vinculada à política, e que esperam que a imagem falsa de que vieram para tomar lugares de médicos brasileiros seja dissipada, pois a proposta do programa é a de levar saúde para locais onde haja dificuldade de se contar com médicos em tempo integral. Quanto à adaptação a Boa Nova, mencionaram estar sendo tranquila e que esperam em breve já estar integrados à comunidade.

Os médicos Alexis, Dayadia, Aniledys e Arianny


12

Abril/Maio/2014

No 60

Boa Nova recebe “Caravana do Lazer” Boa Nova recebeu nos dias 12, 13 e 14 de junho a “Caravana do Lazer”, projeto itinerante do Governo do Estado, realizado por meio da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) e coordenado no município pela Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da Secretaria Municipal de Assistência Social, CRAS e Prefeitura Municipal. Nos dois primeiros dias aconteceu o curso “Agentes Multiplicadores de Lazer”, realizado em duas etapas (aulas teóricas e práticas). No primeiro dia de atividades os participantes tiveram a oportunidade de discutir sobre a importância do resgate lúdico do esporte e lazer nas comunidades. No curso foram abordadas também as etapas para a construção de projetos, como montar atividades recreativas e de lazer, trabalhar com material reciclável, além de regras de disputas de torneios esportivos. No sábado (14) foi a vez da prática, do aprendizado nos dois dias de curso, quando os agentes e equipe da Sudesb conduziram as brincadeiras não só da criançada, mas de pessoas de todas as idades que ainda suscitam a criança dentro de si. Os participantes tiveram a oportunidade de jogar bola, vôlei e golzinho, e de brincar na cama elástica, pista de sabão, piscina de bolinhas, oficinas de reciclagem, desenho e pintura. Além de jogos educativos, como ludo, dominó, dama e xadrez gigantes. Além das atividades da caravana, contamos ainda com apresentações artísticas e culturais: Escola de Música de Boa Nova (instrutor José Rodrigues), Muai Thay (treinador Tiago), Grupo de Capoeira Águias Acrobatas (professor Robson Teles) palhaço (Eliana Pereira) e duas apresentações de dança do projeto “Um pequeno chute na bola, um grande passo para a escola”, da Escola Municipal Vandick Reidner Coqueiro. O projeto conseguiu reunir dezenas de crianças e adolescentes em uma atividade cujo propósito é o de buscar a educação, integração social e o bem estar da população. Cerca de 45 pessoas do município das mais diversas funções e atuações (agentes comunitários de saúde, funcion��rios escolares, conselheiros tutelares, guardas municipais, estudantes, orientadores sociais, psicólogos etc.) participou do projeto. Foi uma ação voluntária de grande proporção, uma vez que o Caravana do Lazer tem o objetivo de capacitar agentes multiplicadores de lazer para realizar diversas atividades recreativas e esportivas, contribuindo, assim, para a melhoria da qualidade de vida das comunidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em diver-

O “Caravana do Lazer” levou para Boa Nova jogos e brinquedos

sas regiões do Estado. A ideia foi apresentada e vivenciada; o sorriso no rosto de cada um que esteve no projeto deixou o estímulo e a certeza de que a comunidade, envolvida por um mesmo ideal e pela simples e importante tarefa de espalhar a alegria, encontra em cada dificuldade um desafio, em cada obstáculo um passo mais largo e em cada dia uma nova oportunidade de inovar, recriar e ser melhor para si mesma e para local onde vive. (texto escrito por Ilka Ferreira Santana – professora municipal e agente cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Boa Nova)

O projeto envolveu e treinou profissionais de vários setores

Nossa Comunidade O lugar onde moramos, conhecido como Boa Vista, é uma comunidade com média população, dividida em Boa Vista alta e Boa Vista baixa; apesar de não ser muito extensa, tem várias casas de moradia e casas comerciais. O clima é seco, pois demora a chover, mas em alguns meses, quando chega o período chuvoso, a terra é muito produtiva. Por exemplo, os lavradores, que são pessoas que trabalham na lavoura, plantam feijão, milho, meWelma de Souza Silva e Milena Alvez Santos lancia entre outros. Também às vezes acontece deles não conseguirem colher tudo o que foi plantado por causa do rápido período das chuvas e logo de estiagem. Na questão da água, nós não somos tão beneficiados, pois são raros os locais que têm água doce, ou seja, que servem para as atividades do dia-a-dia; já água salgada, encontra-se com mais facilidade e os animais se beneficiam com isso. Enfim, com todas essas características a nossa Boa Vista ainda nos oferece Igreja, Lan House e espaços que praticamos futebol e demais esportes. (Texto elaborado pelas alunas Milena Alves Santos e Welma de Souza Silva do 2º Ano, Turma A Matutino, do Colégio Estadual Dr. Edivaldo Machado Boaventura, como atividade na Disciplina de Redação, da professora Sheyla Alencar)


GAMBOA Digital 60 abril-maio 2014