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EMIM

TONS

EM

Julia Nery & Lorena Resende


EMIM

TONS

EM

Julia Nery Lorena Resende

F R A N C A - SP


´ SUMARIO

Autoras -------------------------------- 6

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Apresentação ------------------------- 7 Escola --------------------------------- 9 Mestres -------------------------------- 21 Instrumentos --------------------------- 31

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Música -------------------------------- 41 Agradecimentos ---------------------- 51 Créditos ------------------------------ 52

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Autoras

Julia nery chagas

Lorena resende

Ambas começamos a faculdade de Jornalismo na metade do ano de 2015, já cientes de que

iniciaríamos nossos estudos no meio de um ano letivo que já estava acontecendo, mas a paixão pela escrita e pelo registro visual nos impulsionou a correr atrás do prejuízo e adquirir o máximo de conhecimento de nossos mestres da universidade. Foram anos árduos, cheios de noites de estresse, mas também muitas risadas; dores de cabeça, mas momentos de conquista e sensação de objetivo cumprido. O mesmo pode ser dito deste projeto; durante certas horas, parecia que estávamos flutuando num oceano, à deriva. No entanto, tinhamos uma à outra como apoio, e juntando-nos em parceria, com ajuda de nossos amigos e professores, fomos capazes de construir algo feito de nossas próprias ideias, convicções e sentimentos. Essas somos nós. Duas parceiras que, apesar dos trancos e barrancos, conseguiram conquistar desafios e superar obstáculos, e muito provavelmente, os primeiros de muitos daqueles que ainda estão por vir.

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Apresentacao c

Unidas pelo desejo de fazer um projeto igualmente impactante e envolvente começamos o

planejamento deste projeto no ano de 2017, quase imediatamente decidindo que queríamos falar sobre música na cidade de Franca, São Paulo, um assunto que era fonte de igual admiração para nós duas. Não foi difícil pensar na EMIM como um dos temas de nosso projeto, sendo uma escola repleta de excelentes e dedicados profissionais, e de alunos carismáticos e receptivos. Este projeto sem dúvidas foi um desafio, mas um que tivemos orgulho de conquistar. Neste livro, a educação musical, vista através da Escola Municipal de Iniciação Musical, está contada através das muitas formas em que pode ser conhecida. Em suas páginas, são encontradas as histórias dos diversos personagens que tiveram ou têm o prazer de possuir a música em suas vidas, selecionadas e contadas por nós com dedicação, nos esforçando para que nossas palavras façam jus ao significado que carregam. Esperamos que tenhamos atingido nosso objetivo, e que o livro seja tão apreciado quanto nós tivemos o prazer de produzi-lo. Afinal, a música está conosco para ser ouvida e sentida, seja no mais grave e escuro ou no mais agudo e claro dos tons.

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ESCOLA


Escola Municipal de Iniciação Musical – EMIM. O que

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estudar música e tocar um instrumento era e ainda é um direito do qual não é excluído ninguém que se enquadre no grupo etário.

começou como um pequeno projeto em 1996, graças à dedicação do corpo de professores, se tornou uma escola querida pelos jovens de Franca, interior de São Paulo, que frequentaram suas aulas. Produzindo, disseminando e ensinando música, a escola tem impacto na vida de diversos alunos, crianças e adolescentes, que andaram por seus corredores durante suas duas décadas de existência.

O projeto exerce papel social e educacional no município. E o propósito deste livro é discutir educação musical e seus impactos vistos pelos olhos dos envolvidos com a escola, sejam eles alunos, ex-alunos, diretores, e professores, e ouvir deles mesmos quais as influências que a música teve ou tem em suas vidas.

As inscrições para novos interessados é feita por meio de sorteios. Assim, a chance de viver a experiência dentro da escola é dada igualmente àqueles que desejam participar das aulas. A escola aceita pessoas da faixa etária dos oito aos treze anos.

Este livro possui textos com os depoimentos de cada personagem entrevistado pelas autoras, contando com o registro visual que tem o intuito de ilustrar e dar vida ao que está sendo discutido. A intenção de colocar em evidência a educação musical se deu do desejo de discutir a importância que a música pode exercer num grupo de pessoas, seja ele grande ou pequeno, e como ela pode transformar vidas.

A seleção de alunos é feita independentemente de classe social ou de limitações físicas e mentais, porque a EMIM acredita em inclusão. A instituição e seu corpo docente nunca colocaram barreiras. Candidatar-se para

Antigo prédio da EMIM, localizado no bairro Cidade Nova, Franca

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E Além da interação musical de instrumentos específicos, os alunos também podem participar dos grupos especiais da escola, como a banda de pop-rock.

As aulas da EMIM são aplicadas em grupos, grandes ou pequenos, sempre encorajando a interação social, linguagem corporal, coodenação motora e cooperação.

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famoso conservatório Ars Nova, da Universidade Federal de Minas Gerais, fundado em 1959. Foi lá que descobriu sua paixão pelo coral e canto em grupo. Tratava-se de uma das disciplinas ensinadas no conservatório.

Para todos os profissionais que estão ou já estiveram na escola, a música nada menos é que uma constante, e foi assim que as duas profissionais responsáveis pela criação e projeção da EMIM foram encontradas e selecionadas para traçar uma iniciativa musical adequada às condições do município da época: Márcia Kuri e Sílvia Prior.

Márcia também testemunhou o ensino do canto orfeônico nas escolas, que ainda estava em vigor nessa época. Criado por Villa Lobos, esse projeto sugeria o canto em massa, em grandes grupos – diversas vozes soando em uníssono, algo que ainda envolve a professora nos dias de hoje. O músico criou um guia prático, que os professores seguiam para ensinar a teoria musical – compasso, leitura de ritmo. Foram produzidos, no total, cinco volumes contendo 212 composições musicais, entre elas 157 temas populares e 41 de autoria de outros profissionais.

Márcia conta que, desde muito pequena, teve contato com a música. Estudou piano e, hoje em dia, toca por prazer ou utiliza como uma ferramenta em seu trabalho – professora de música na Rede Municipal de Ensino. Considera-se sua própria crítica, mas dizer que seu conhecimento musical é vasto seria apenas um eufemismo. Domina bem a teoria musical e leitura de partitura, e afirma que sua veia musical é o canto em coral, algo que faz desde os dez anos de idade.

No ano de 1971, no entanto, foi instituída a lei nº 5.692, de 11 de agosto, pela qual se firmou a obrigatoriedade da Educação Artística nas escolas. Desta forma, começou a ficar mais evidente o trabalho com teatro, música, dança e artes plásticas. Mas Márcia lembra que, de início, a

Ela explica que, quando era criança, as famílias que tinham condições colocavam os filhos para estudar violão ou piano em conservatórios. Assim, ela se viu ingressada no

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formação dos professores dentro de Educação Artística não abordava música ou dança. O foco eram as artes plásticas. Lembra-se de pintar telas, fazer desenhos. Com isso, o canto orfeônico foi acabando conforme os professores se aposentavam.

UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e, apesar de lembrar que seria importante uma licenciatura em música, considera a formação em Educação Artística, pois engloba a psicologia da educação, o que dá uma base para o ensino. Segundo a professora, o importante é o conhecimento musical aliado à busca da prática e didática.

De acordo com Márcia, na época, os professores eram mais musicais, reflexo de sua formação específica em música, e as mudanças tiveram o resultado infeliz da perda dessa formação, bem como da expressão musical das aulas e dos profissionais. O que antes trazia certa identidade para toda essa metodologia foi substituído por maneiras superficiais de se produzir música em sala de aula.

Tendo participado de um conservatório musical, ela explica que eles seguem uma linha diferente, um molde europeu que visa tornar o aluno um pianista, violonista, violinista – enfim, um músico de caráter concertista. Ao se referir ao tempo que passou lá, conta que algumas meninas tocavam em concertos, destacando o foco na técnica do instrumento com a leitura musical.

Hoje em dia, poucos lugares oferecem a formação específica em Educação Musical. Faculdades públicas como USP ou Unicamp disponibilizam o curso de bacharelado em música, no aprendizado de técnicas de instrumento e canto e similares, que não têm a mesma didática. Márcia fez Educação Musical à distância pela

Márcia afirma, também, que, no primário, cantava muito com sua turma de escola. Eram realizadas apresentações de canto e dança dentro da sala de aula. Posteriormente, com a falta de professores de música, a formação dos cursos e a expressão musical singular

Desde pequena, Márcia tem contato com a música, tendo passado por aulas num conservatório, e tem o piano como seu instrumento de escolha.

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E Gilberto Gil para a profissional é nada menos que um grande ídolo e uma inspiração; participa de sua coleção de LP’s, e suas músicas são ouvidas na casa com frequência Durante sua estadia como diretora da EMIM, Márcia participou da produção de um dos livros do projeto, “Feira Musical”, uma coletânea de arranjos musicais

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que sempre existe o entusiasmo de procurar o novo, pois poucas cidades possuem igual qualidade. Necessita-se divulgação e investimento, sendo uma área que não pode deixar de ser aplicada.

também se enfraqueceram. Tal opinião é compartilhada por outra Márcia, a Márcia Posterare, atual diretora da EMIM. Filha de um professor de música, nasceu e cresceu em meio a melodias. Assistia ao pai dar aulas em casa. E, quando ele começou a lecionar em conservatórios, ela aproveitou para se formar, ainda durante a adolescência. Diz que a música em sua vida é tudo, e que é muito feliz administrando a escola, fazendo o que ama acontecer ali dentro diante de seus olhos.

Foi se baseando nessa ideologia de novas metodologias que Silvia Prior foi uma das precursoras da EMIM. Como as outras personagens, ela sempre teve contato com música, escolhendo o violão como instrumento de estudo, mas comenta que sua paixão sempre foi o canto em grupo, corais, que é onde atua como professora hoje em dia, no Projeto Guri.

A diretora concorda que a educação musical nas escolas municipais mudou com a alteração da lei mencionada anteriormente, e acredita que, para se ensinar música, têm de se saber música. No entanto, lembra que, ao mesmo tempo, a vertente de educação musical é muito forte no Brasil. Vários encontros são promovidos em todo o território nacional, para que se estude e se explore novas áreas e metodologias. Na EMIM, não é diferente. Ela afirma

Sílvia trouxe seu conhecimento de estudos anteriores de sua estadia na Unesp (Universidade Estadual Paulista), apresentando a educação musical na mesma linha de Márcia Kuri, que sugeria o entendimento da percepção e aulas em grandes grupos musicais, visando, além do estudo único do instrumento, algo que perdura na escola até hoje.

Márcia acredita que o importante é o conhecimento musical aliado à busca da prática e didática.

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A história da escola começou com Márcia e Silvia – as mãos responsáveis por colocar as primeiras peças no lugar. Escolhidas especialmente pela Secretária de Educação da época, professora Luísa Marson, ambas se viram diante do desafio de criar uma escola de música. No entanto, o projeto contendo a visualização que a secretária tinha de uma instituição de ensino era inviável – Franca não tinha verba.

A ideia do projeto era relativamente simples: consistia de um violão, um teclado e duas flautas doces, além de aderir à metodologia do ensino em grupo, que era mais financeiramente adequada quando comparada ao ensino individual do instrumento. Sílvia estreou como coordenadora pedagógica, enquanto Márcia cuidava da administração. A EMIM abriu suas portas com um total de 100 alunos, em março de 1996.

Então, a secretária pediu às profissionais que desenvolvessem um projeto financeiramente possível. Sílvia, vinda da Unesp, conhecia uma linha de educação musical diferente do padrão de leitura de partitura e técnica de instrumentos visto em conservatórios. A música é algo que desperta a minuciosa percepção de detalhes nas pessoas, e era esse o conhecimento que a professora tinha de música: o desenvolvimento da percepção musical, prática do “ouvir”, expressão corporal através do corpo e da voz. Uma iniciação musical, um caminho a ser seguido antes de exercitar a técnica dos instrumentos.

Desde sua criação, a EMIM e seus profissionais testemunharam diversas mudanças. O que começou com algo pequeno, dispondo de poucos instrumentos e materiais, hoje é a única escola gratuita de música em Franca. Além das aulas básicas de musicalização, teclado e violão, foram desenvolvidos diversos projetos, como grupos de viola, samba, uma banda de rock, orquestra e coral, cursos apreciados pelos jovens que participam e frequentam quase todos os dias. No entanto, inicialmente, a escola dispunha apenas de

Silvia relembra com carinho de quando começou sua carreira de professora de coral, profissão que exerce até hoje

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Graças à paixão por sua profissão, Sílvia tem em sua casa diversos recortes de jornais e notas sobre eventos relacionados a corais em Franca, dos quais participou

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dentro do projeto, o que significava que os alunos já formados ainda frequentariam a escola, ou mais surgiriam para aprender os instrumentos. Com a chegada ao colégio, os professores puderam se instalar nas salas disponíveis e aproveitar a mudança na qualidade das aulas oferecida pelo maior espaço.

um pequeno prédio na rua Prudente de Moraes, no bairro Cidade Nova.

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Apesar de ser um local de fácil acesso e espaço suficiente para estacionamento de carros, ainda não era suficiente para atender todos os alunos que os profissionais desejavam. A área era limitada e, devido à falta de isolamento acústico ao redor das salas de aula, os sons se misturavam. Mas os professores tentavam utilizar por completo o que lhes era disposto, sabendo dar valor a cada instrumento, a cada ferramenta a cada aluno que passava por aquelas portas.

Até os dias de hoje, funcionando de segunda a sexta nos períodos da manhã à tarde para dezenas de alunos, a EMIM exerce um papel fundamental, oferecendo aprendizado através de profissionais de educação e música, apoio no crescimento das crianças e jovens e presença social.

Em 2014, a EMIM foi movida de seu prédio anterior para aproveitar um espaço que havia se tornado disponível dentro do Colégio Champagnat, com promessa de, no mínimo, dez salas maiores, melhor isolamento acústico e melhor acesso para cadeirantes.

Segundo a atual diretora, a mudança que a música e o projeto proporciona aos alunos é algo que é testemunhado diariamente ali. Seja o brilho nos olhos ao descobrir um talento até então secreto ou a alegria deles de ir diária ou semanalmente ao projeto.

A mudança foi bem recebida, uma vez que, ao longo dos anos, houve a criação dos outros grupos musicais

A professora e diretora diz que sua paixão pela música é infinita, e graças a seu pai, aprendeu desde criança a tocar violão

Escute Márcia tocar!

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Além de administrar a EMIM, Márcia também participa de um coral, onde exercita seus conhecimentos musicais, além de expandi-los

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MESTRES


Dentro da EMIM, a mudança acontece todos os dias,

Diz que é natural se perderem de vez em quando. Assim, o professor varia os instrumentos, fazendo uma espécie de exercício (Confuso. Não entendi) para que todos possam experimentar o que quiserem. Dessa forma, é fácil criar algo bom, pois o intuito é justamente aprender e vivenciar.

e os professores são as principais testemunhas destas mudanças. Um aluno que, antes era extremamente tímido, começa a se soltar mais durante as aulas ou consegue dominar melhor um instrumento com o qual antes tinha dificuldade. É essa a liberdade musical que é encorajada dentro da escola.

Anos antes de a EMIM ser criada, aqueles que desejavam aprender música tinham de recorrer a instituições ou professores privados, que ofereciam a parecida metodologia mencionada por Márcia Kuri anteriormente. O professor Marcílio Lopes, na EMIM há dez anos como professor de violão, de grupos de musicalização, violões e violas caipiras, conta que foi um dos que frequentaram aulas particulares.

Professor Cláudio Nazaré conta que a aula de percussão, uma de suas especialidades, é primeiramente espontânea. Conta que não fica muito preso a partituras, que quer ver os alunos sentindo os instrumentos enquanto trabalham sua coordenação e como eles sintonizam principalmente com a pulsação, percebendo que é uma dificuldade que todos têm, a de acompanhar, ao mesmo tempo, todas as vozes de uma música ou melodia.

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Marcílio diz que, desde que começou sua estadia na escola, demonstrou sua admiração pelo trabalho feito e pelo que o espaço proporciona para os alunos que passam por ali. Explica que, além de uma formação musical, se trata de uma formação humana e que os

Cláudio explica que, como a percussão tem o trabalho em conjunto, de tocar em sintonia e num pulso proposto anteriormente, o aluno escuta várias vozes simultâneas; cada instrumento faz um desenho diferente, e assim vai. Marcílio foi aluno de aulas particulares, e hoje ensina para grupos na EMIM, um deles sendo o de viola caipira

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A professora Isamara ensina desde cedo, e considera sua profissĂŁo uma paixĂŁo e uma maneira de se viver.

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professor. Mesmo quando não é o caso, conta que encontram seus antigos alunos e ouvem o quanto eles sentem saudade e o quanto foi importante terem estado ali. Mesmo quando passam apenas para uma curta visita ou apenas um “oi”, diz ser gratificante para os professores.

alunos criam uma proximidade com os professores. Essa proximidade parece resultar na grande maioria dos alunos que estudam na EMIM ficar muito tempo – além da estadia normal de percorrer os estágios apresentados na escola. Após formada, grande parte dos alunos procura se estabelecer em outros grupos. Alunos como Maxwell Oliveira, que frequenta a escola de segunda a sexta, ficando ali durante o maior período do dia, seja para participar das aulas extras ou para ajudar os professores nas aulas rotineiras.

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A relação professor-aluno pode se resumir na transferência de experiências, vinda de ambos os lados. A professora Isamara Chagas conta de sua paixão pela sua relação com os alunos, e que isso é um dos pontos altos de sua carreira de ensino. Diz ser algo indescritível assistir como eles evoluem, aprendem e absorvem conhecimento, muitas vezes com facilidade.

Marcílio comenta que é visto o desenvolvimento da criança, de alunos que estão com os professores ali desde o começo de sua pré-adolescência. A EMIM apresenta essa iniciação musical que tem impacto em diversos aspectos da juventude. O professor diz que a intenção da EMIM não é de formar músicos, mas que, às vezes, isso acaba acontecendo. Muitos alunos saem dali procurando carreira musical, ou uma carreira de

Isamara foi professora de crianças de diversas idades, personalidades e habilidades, e ensina música desde os 14 anos. Sua história com o violão e com a música é antiga: tinha onze anos quando entrou em sua primeira aula de violão e, apesar de as memórias serem vagas,

O violão é seu instrumento preferido, e diz que desde criança o leva para onde vai

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com a música.

afirma lembrar-se de gostar das aulas. Hoje em dia, é professora e cantora, mas acredita que, a princípio, não mostrou nenhum talento nato, mas com sua insistência chegou ao profissionalismo. Durante uma das aulas, Isamara compartilhou que, quando criança, não tinha dinheiro para comprar um capotraste, ferramenta utilizada para tocar violão, e contou a seus alunos a experiência de utilizar uma caneta “Bic” e uma goma elástica de dinheiro para prendê-la ao braço do violão e fazer o mesmo efeito.

Isamara diz que foi com o encorajamento de seus professores, que a fizeram acreditar que tinha talento, que conseguiu progredir, algo que exerce até os dias de hoje em suas próprias aulas: o encorajamento aos aluno, independente se tem talento nato ou não. Julga ser algo importante, que falta muito nas escolas hoje em dia. Isamara acredita que o poder do elogio, independentemente de ser na educação musical, é uma coisa milagrosa.

Após as aulas, Isamara começou, ela mesma, a ensinar iniciantes. E não parou mais. Levava o violão onde ia. Lembra-se de estar com o instrumento nas costas sempre, com poucas exceções. Era como parte de seu corpo. A oportunidade de dar aula se deu por problemas financeiros. Antes, nunca tinha considerado a profissão. No entanto, até hoje, ela, que tem 52 anos, ganha a vida

Quanto ao contato com seus alunos na escola, diz ser nada menos que amor; uma coisa viva. “Sou extremamente apaixonada por meus alunos e, mesmo quando chegam novos alunos, parece que já os conheço faz muito tempo, e a energia que recebo deles é vital, algo que talvez eu não consiga viver sem.”

Isamara explica como uma caneta “bic” poderia servir como ferramenta durante sua juventude quando não tinha condições de pagar um capotraste

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A frase de Heitor Villa-Lobos estampa os uniformes da EMIM

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M Marcílio ensina para o grupo de viola caipira, e conta que não é incomum para os alunos e os professores criarem laços durante as aulas na EMIM

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INSTRUMENTOS


Por meio das entrevistas com os professores e envolvidos

O aluno João Marcelo Souza é um desses exemplos. Ele tem dez anos, ingressou na EMIM em 2016 e participa do grupo de samba e das aulas de musicalização e violão. João foi influenciado por seu pai, que toca violão em sua igreja, e pelos irmãos, que também estudam na escola. A mãe do aluno, Adelvinda Souza, conta que o filho gosta muito de música e que, “quando o João está triste, cantamos para ele, e ele logo se anima”. Complementa dizendo que a referência do garoto é o cantor Thiaguinho.

com a EMIM, foi possível notar que a educação musical em si exerce um papel no crescimento e desenvolvimento dos alunos expostos a ela, algo que reflete o exercício da Lei Federal 11.769, que decreta a obrigatoriedade do ensino musical nas escolas, e também as pesquisas de Platão, que dizia que “a música é o instrumento mais potente de todos”. Assim, a EMIM, sendo um projeto que utiliza desta metodologia de ensino, é um canal para que os jovens interessados possam ter essa experiência. Existente há mais de vinte anos e aceitando, por sorteio, anualmente, crianças e pré-adolescentes como aprendizes, a EMIM registrou a passagem de aproximadamente 3.500 alunos. Devido a fatores como desistência, falta de identificação com o curso e outros, mais de 1.000 chegaram a se formar. Aqueles que ficam veem na escola um possível meio de superar timidez, problemas em casa ou na escola ou dificuldades físicas, mentais e sociais.

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João, que tem dificuldades de audição nos dois ouvidos e problemas de coordenação severos e moderados, com o lado direito do corpo afetado, teve dificuldades de aprender o teclado, mas, segundo ele próprio, seu instrumento favorito é o pandeiro. Adelvinda afirma que a educação musical proporcionou um desenvolvimento de fala, independência e atenção em João.

João gosta de tocar pandeiro, e participa ativamente das aulas e grupos da escola, como o grupo de samba e aulas de musicalização

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O cavaquinho, ensinado pela professora Isamara, também é um dos instrumentos no qual João pratica sua coordenação

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João é querido na escola, lugar onde fez amigos e consegue aproveitar o que a educação musical oferece

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A EMIM recebe outros alunos que aproveitam os ensinamentos para ter uma experiência com a educação musical. Carla Poli é uma das alunas que participam do grupo de viola caipira, sob responsabilidade do professor Marcílio, às sextas-feiras. Durante as aulas do grupo, Carla procurou os outros alunos para praticar as músicas enquanto o professor passava ajudando cada um dos aprendizes com os acordes. Seu instrumento favorito é o violão, e diz adorar ler e tocar partituras.

Quem comparece às aulas de música mesmo após se formarem são Maxwell Silva e Melissa Schmidt. Max é um jovem de 14 anos, que ingressou no curso no ano de 2012 por meio de uma vizinha, que fez a sugestão. Desde então, continuou ajudando os professores e participando dos grupos, afirmando que não queria mais sair. Uma das maiores influências em sua apreciação pela música é o avô, que sempre tocou violão, um dos instrumentos que Max também toca, além de baixo, bateria, viola e cavaco. Assim como Carla, ele também participa do grupo de viola do professor Marcílio, um dos professores com o qual se aproximou mais, tanto por ter frequentado a maioria de suas aulas, por têlo tido como mentor de violão, quanto por ambos se identificarem com o rock.

Inspirada pelas primas, que também estudaram na escola, e pela mãe, que também toca violão, começou a frequentar as aulas com oito anos de idade e continua até hoje, com quatorze. Diz gostar muito de música; que tocar e ouvir, de certa forma, lhe acalmam e impedem a tristeza de se aproximar. Carla se formou na EMIM em 2015 e se mantém frequentando as aulas, afirmando que gosta do desafio. “Quando não puder mais vir, sentirei muitas saudades”.

Para o jovem, a música é uma maneira de viver e, sendo dela um entusiasta, diz que tem como planos para o

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Escute o Grupo de Viola tocar!

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Melissa continua indo Ă s aulas, e ĂŠ parte do grupo de samba da escola Carla participa das aulas do grupo de viola caipira, dadas pelo professor MarcĂ­lio

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futuro fazer faculdade de música, visando estender seus conhecimentos, e logo depois abrir sua própria escola. Mesmo quando está sozinho, sempre é visto com o violão em alguma das salas ou do lado de fora da escola, praticando.

pensar e que se sente diferente quando participa das aulas. “Mesmo estando no meu pior dia, quando eu participo das aulas tudo muda”. Diz que o projeto significou conhecimento para ela, pois, antes de começar a participar dos cursos, desconhecia diversas coisas sobre música.

Quanto a Melissa, de 15 anos, faz parte do grupo de samba da escola e, assim como Max, também é formada, mas mantem sua rotina participando das aulas de música. A aluna diz apreciar os ensinamentos transmitidos e que um dos motivos para ter entrado na escola para frequentar os grupos foi pelas maneiras como a música ajuda com problemas como déficit de atenção, algo que a aluna tem.

Quando questionada sobre os planos após seus estudos na EMIM, Melissa diz que não pretende se desvincular totalmente da escola e que deseja levar o aprendizado que acumulou durante sua estadia para o curso de Psicologia, área na qual pretende se formar. A aluna afirma também que acredita na importância da educação musical, pois é uma prova viva das mudanças que ela causa.

Melissa ressalta que a música mudou sua maneira de

Max se identifica com instrumentos de corda, como viola caipira, baixo e violão, mas também toca bateria

i Escute o Grupo de Samba tocar!

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Max toca com outros aluno da escola, além de compartilhar sua própria experiência com eles Melissa (esq.) tem diversos amigos no grupo de samba, e diz que a amizade é uma das melhores coisas que conquistou na escola

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´USICA


O professor Marcílio previamente comentou que o

é um dos personagens que se destacou. Ele tem paralisia cerebral, mas isso não impediu que sua mãe, Lis Ribeiro, o inscrevesse nos cursos. Hoje, está com vinte anos. Ingressou na EMIM quando tinha dez. Lis conheceu o projeto por propagandas da prefeitura. O jovem já tinha interesse por música desde pequeno. A mãe conta que ele pedia brinquedos como violinhas e outros instrumentos, destacando que o gosto pela música sempre partiu dele mesmo.

objetivo da EMIM não é formar músicos, mas, por meio do contato com a música e com a educação musical, a vida, os sentimentos, ideias e comportamento de um indivíduo podem mudar. A música pode ser absorvida de muitas formas. Uma pessoa pode ser apenas um admirador de certas bandas ou cantores e ser feliz por isso, ou pode, também, usar tal conhecimento para desenvolver uma carreira e correr atrás de um sonho.

Higor afirma que a música o acalma. “Entrei na escola justamente porque, desde pequeno, me identifiquei. Se você cantar uma música uma vez, eu já tenho facilidade de decorar ela para poder cantar.” Segundo ele, sua aula favorita sempre foi teclado. Ele tem um em casa e gosta pela facilidade de tocá-lo. Diz sentir falta das aulas da escola. Lis completa afirmando que “a escola foi importante para a interação dele com outras pessoas, a socialização e vocalização.”

Visto por outro lado, a música pode ser usada para conectar as pessoas de maneiras peculiares. Em junho deste ano, um marceneiro no Paraná afirmou ter acordado do coma por ouvir a voluntária do Hospital Cajuru, em Curitiba, tocar violino. O homem, de nome Derli Alves do Amaral, de 49 anos, disse ter ouvido a música vinda das profundezas de sua mente, imaginando que estaria perto do fim da vida, mas se levantou dizendo que queria ouvir mais.

Como mencionado anteriormente, a absorção da música

Quanto aos alunos relacionados à escola, Higor Leonel

Higor com seu teclado em casa, um de seus instrumentos favoritos e que mais tem facilidade de tocar

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Higor participava ativamente das aulas da EMIM quando crianรงa

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A mรฃe de Higor, Lis, foi a responsรกvel por inscrevelo na EMIM quando ele tinha aproximadamente dez anos

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na vida de alguém pode ser refletida num desejo maior que a própria pessoa, o desejo de seguir um sonho de viver tocando instrumentos e transmitindo algo que um dia foi sua própria inspiração. Daniel Crizol, de 24 anos, é filho de Márcia Posterare, a atual diretora da EMIM, e sempre teve contato com a música, assim como o restante de sua família. Foi seu avô quem inicialmente o inspirou a seguir o caminho musical, que o levou para a escola, onde se formou no ano de 2005.

“É algo que realmente amo mesmo sendo formado em Psicologia e Engenharia. Toda a minha história se vincula com a música, e ela tem um papel indispensável em minha vida.” Daniel aproveitou de seus estudos e talento para seguir carreira musical. Tendo participado de diversas bandas, atualmente é parte de uma dupla. Afirma que a educação musical oferecida pela EMIM foi a base para que chegasse a outros lugares, pois, através das aulas, pôde ter contato com instrumentos diferentes e dispor de conhecimentos variados.

Desde novo, sempre teve música presente em sua vida, adquirindo, aos cinco anos, o gosto pelo rock. Sua prática musical começou com a musicalização, o princípio básico para se iniciar a especialização em qualquer instrumento. Logo depois, levou seus estudos às práticas de violão e teclado, se identificando mais com o primeiro, por influência de sua mãe, mas seguiu para a guitarra logo em seguida, instrumento de escolha até hoje e que praticou por muitos anos, pelo menos 11 horas por dia. Daniel destaca que a música é sua vida:

Em relação à educação musical, comenta que ler uma partitura é como ler outro idioma. E é um dos motivos pelo qual tal educação faz falta. “Educação musical deveria ser mais popular”, completa. “Se todos tivessem contato com a música, de alguma forma, talvez as coisas fossem de outro jeito.”

Daniel tem como escolha de instrumento o violão, que toca há muitos anos por inspiração de sua família

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Escute Daniel tocar!

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Atualmente, Daniel segue carreira como mĂşsico, participando de uma dupla musical e realizando shows na regiĂŁo

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Desde pequeno, Daniel tem grande paixão pela música, e diz ser parte indispensável de sua vida

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jovens começam a formar suas personalidades, caráter, pontos de vistas, além de descobrirem pontos positivos e dificuldades nos quais trabalhar.

Complementando as afirmações de Daniel e dos outros personagens, Liane Hentschke, Doutora em Educação Musical pela University of London, cita que “a inserção da educação musical na escola se justifica por proporcionar o desenvolvimento de: sensibilidades estéticas e artísticas da imaginação e do potencial criativo, a herança cultural, meios de transcender o universo musical de seu meio social e cultura, desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicomotor e comunicação não verbal”, podendo servir como base para a compreensão da lei 11.769, mencionada anteriormente, que encoraja a inserção da educação musical nas escolas brasileiras.

Desta forma, escolas como a EMIM são responsáveis pelo compartilhamento destas experiências, para que sejam assimiladas por seus alunos. Como Hentschke complementa, “estamos envolvidos constantemente pela arte, mas muitas vezes não percebemos estas manifestações pela tribulação do cotidiano, pela acomodação dos nossos sentidos, e é justamente por isso que cabe aos professores estimular o olhar, aguçar a curiosidade e sinalizar reações, sendo o elo entre o sensível e o real, construindo uma relação de fomente a cultura individual e consequentemente a cultura na escola.”

Através da música, é possível obter determinada compreensão de cultura e sons diversos que são expostos no ambiente onde a criança está, além de se relacionar também com a memória, imaginação e comunicação verbal, estimulando o autoconhecimento e expressão, principalmente durante a infância. No período escolar, os

Assim, como fonte de metodologias aplicáveis no cotidiano escolar, a educação musical não é algo apenas a ser mantido, mas incentivado.

Tendo feito um nome para si mesmo, Daniel tem palhetas com seu nome e contatos

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Agradecimentos À Escola Municipal de Iniciação Musical e todos os seus profissionais, nossa principal modelo e fonte de inspiração, para a conquista de nossos objetivos. À diretora Márcia Posterare por permitir nossa participação e registro durante as aulas da escola. Às fundadoras da EMIM, Márcia Kuri e Silvia Prior Fuga pelas valiosas informações fornecidas sobre música e educação musical. Aos professores Marcílio Lopes e Isamara Nery que compartilharam conosco suas experiências A Carla Poli, Daniel Crizol, Higor Leonel e sua família, João Marcelo Souza e sua família, Maxwell Silva e Melissa Schmidht que aceitaram ser nossos personagens e nos permitiram compartilhar de suas opiniões, sentimentos e pensamentos. Aos professores e orientadores do Projeto Experimental, Igor Savenhago José Augusto Reis e Fabrício Coelho Malta, pela ajuda e conselhos durante este período turbulento. Camilla Fernandes, responsável por revisar conteúdos do projeto. E a nossas famílias e amigos que sem hesitação acreditaram em nosso potencial e esforço desde o início. Sem vocês nada disso teria sido possível. Obrigada.

Julia e Lorena

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´ Creditos Personagens:

Gravação: Julia Nery Lorena Resende

Carla Poli (Aluna) Daniel Crizol (Ex-aluno) Higor Leonel (Ex-aluno) Isamara Guimarães Nery Chagas (Professora) Joao Marcelo Silva Félix de Souza (Aluno) Marcílio Lopes (Professor) Maxwell Duarte de Oliveira Silva (Aluno) Melissa Lopes Schmidht (Aluna) Márcia Anawate Kuri (Fundadora) Márcia Posterare (Diretora) Sílvia Prior Fuga (Fundadora)

Arquivos e informações internas: Márcia Posterare

Escrito e produzido pelas jornalistas: Julia Nery Lorena Resende Fotografia: Julia Nery Lorena Resende Márcia Posterare Márcia Anawate Kuri Anderson Neggão Design: Julia Nery Edição de Imagens: Julia Nery

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EMIM

TONS

EM

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1ª Edição

Novembro 2018

Tipografia

Caviar Dreams

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EMIM

TONS

EM

~

celebrando a educacao musical c

E

mim em Tons tem o intuito de trazer através das histórias dos personagens a importância que a música e educação musical tem na vida do ser humano.

M

úsica é a base da EMIM que é transmitida aos alunos.

I

niciação musical é necessária e relevante no meio educacional, sendo relevante para o cognitivo e psicomotor da criança.

M

aestria Comunicações foi a responsável por desenvolver este projeto e a divulgá-lo.

acessamaestria

UNIFRAN

Maestria Com.

Profile for Igor  Savenhago

Emim em Tons - Livro  

Este livro é resultado do trabalho de conclusão de curso de Jornalismo das estudantes Lorena Resende e Julia Nery, desenvolvido em 2018 na U...

Emim em Tons - Livro  

Este livro é resultado do trabalho de conclusão de curso de Jornalismo das estudantes Lorena Resende e Julia Nery, desenvolvido em 2018 na U...

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