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Algemas que libertam Pág. 12

Ano 5 - 19ª Edição - Outubro/Novembro 2014

Desabafo de uma Deficiente visual Pág. 24

Discriminação contra raça, estilo, gosto... ‘fugir dos padrões’ de uma sociedade pode revelar as faces de uma personalidade. Conheça histórias de preconceito e superação.


Karla Proenรงa


ao leitor

Não é de hoje que o preconceito existe. Um dos primeiros registros de preconceito racial no Brasil, por exemplo, é assinado por Conde Gobineau em meados do século XIX. Ele discursava que o país estava fadado ao fracasso e ao extermínio da população por conta da miscigenação, e ainda, que os europeus – brancos - eram superiores às outras raças. Gobineau, que morou no Rio de Janeiro como cônsul da França, abominava que o Brasil permitisse a ‘mistura insana’ de raças. Este preconceito discorre outros tipos de discriminação, que hoje é amplamente discutido. E é justamente isso que discutimos nesta edição, as ‘faces do preconceito’. As matérias procuram abordar os principais tipos de discriminação e ainda outros que não são tão explorados pela mídia. Enquanto na última edição tratamos sobre a música no Brasil, o entretenimento, nesta adentramos um assunto mais delicado. O preconceito, por mais estranho que possa parecer, é natural do ser humano. Todos, inconscientemente (ou consciente), geram concepções das coisas e pessoas antes de conhecê-las. Existem inúmeros estereótipos. A discriminação é que pode gerar ódio, quando atitudes ultrapassam ideias. Todos precisam de doses certas de tolerância. Espero que gostem! Fábio Duran Editor-chefe

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Ex-presidiário

Algemas que libertaram a literatura Depoimento

Desabafo de uma Deficiente visual

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Preconceito social ------------------- pág. 05 Diferenças tratadas diferente Pais solteiros --------------------------- pág. 06 O olhar que derruba e o amor que supera Não arquétipos ----------------------- pág. 08 Aparências opostas Esporte ----------------------------------- pág. 09 Só existe futebol na cabeça dos homens? Drogas ------------------------------------ pág. 10 Caminho de risco Há limites para o humor? ------------ pág. 18 Humor negro Ditadura da moda ------------------ pág. 19 Paradigmas de uma sociedade no look Prostituição ----------------------------- pág. 20 Vendendo prazer Restrição? -------------------------------- pág. 22 O tabu da homossexualidade na religião Nordestinos ------------------------“Coloque-se no seu lugar”

pág.

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EXPEDIENTE Editor-chefe e diagramador: Fábio Duran, Vice Editora-chefe e repórter: Caroline Moraes, Repórteres: Beatriz Facchini, Bruna Miranda, Carolina Borsato, Fabiano Correa, Isabella Noronha, Juliane Cristine, Leidiane Rodrigues e Luana Andrade, Mídias sociais: Aline Arruda, Fotos: Karla Proença, Colaboração: Hugo Prando (contracapa) e Gabriel Jacober (diagramação), Professor orientador: Fernando Cesarotti. Revista Foca: publicação do curso de jornalismo da Agência Experimental de Comunicação Artes e Design (AECA) da Faculdade de Comunicação Artes e Design (FCAD) do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP). Publicação digital. 03


Foto: Karla Proenรงa


Diferenças tratadas diferentes Texto: Leidiane Rodrigues e Caroline Moraes

Não é fácil viver na sociedade contemporânea extremamente capitalista, incentivada pela mídia. O bem sucedido é reconhecido por suas posses e a facilidade de sair impune por suas condições econômicas às vezes beira ao cômico, enquanto por outro lado, o mais humilde, trabalha arduamente para poder ter o que comer e beber, ou apenas, sobreviver. A desigualdade é fato não só no Brasil, mas no mundo, e mesmo assim, o pré-julgamento e a não aceitação das diferenças, credos, culturas, religião e sotaques gera discriminação. “O que me incomoda nessa sociedade são os estrangeiros (termo que ela se refere aos pernambucanos, cearenses, baianos e paraibanos), que veem de lá de onde o Judas perdeu as botas e querem ser melhores que nós paulistas, lá passam fome e aqui quer nos humilhar? São pobres como nós”, declara Maria, 65 anos. A “condenação” também ocorre quando pessoas são julgadas por seus estilos e gostos musicais. Alguns estilos musicais, como o funk, que é altamente associado à favela, ou o rock, que já chegou a ser associado ao satanismo. “Já fui agredida por ter um estilo diferente. Sou apaixonada por rock e gosto de me vestir

de preto e as pessoas não respeitam quando decidimos ser diferente delas”, diz Joice, 18. “Estava sentada com umas amigas na praça da cidade, quando uma senhora chegou provocando, falando de nossa personalidade. Não foi fisicamente, mas é triste em ver como as pessoas não nos aceitam”, conta. “É meu estilo e eu apenas gostaria que me respeitassem, assim como respeito qualquer outra pessoa ou estilo”, desabafa. Eloísa, 15 anos, conta como sente o olhar da sociedade por uma pessoa negra. “É como se não fossemos como as outras pessoas, como se tivessem algum tipo de doença”, é assim que a estudante descreve. “Tenho muitas amigas, porém me sinto excluída de muitas coisas. Sinto um preconceito enorme na classe em que vivemos, pois meus pais são de classe social alta. Me enturmo melhor com minhas colegas que são de classe humilde”, diz. Segundo a psicóloga Maira Truzzi, os adolescentes se afiliam a ‘tribos’ nas quais encontram pessoas com interesse semelhantes, em busca de um objetivo de ideias em comum. E que o preconceito se dá pelas diferenças. “Julgamos tudo aquilo que foge da regra imposta pela sociedade”, analisa. 05


O olhar

q

e o amor

derruba

ue supera

Texto: Bruna Miranda

Nascer, crescer, brincar, Tudo isso já é um desafio a sorrir, ter amigos, ser amigo! dois, imagine sozinho. Independente de preconceitos A história da estue estilos de vida, essa é a vida dante Jany Tavares, 31, não almejada pela sociedade: uma foi diferente. A mãe de Igor existência sem discriminasentiu na pele essa situação. Aprendemos com nossos ção. “Passei a gestação toda pais os valores e princípios me virando sozinha e não é da vida e consideremos como fácil, pois você precisa de um uma base importante para a apoio tanto presencial quannossa caminhada. to emocional, mas não tive”, Atualmente presenciaconta. “Minha mãe já não me mos uma infinidade de aceita muito pelo meu preconceitos partinestilo [piercings, do de todos os tatuagens e calados do planebelo moicano], “As mulheres me ta como disentão ela está olhavam como quem diz criminação sempre me ‘nossa que irresponsável’ por raça, lembrando mas você percebe que é cor, religião, dos meus erestilo de ros e dizendo mais pelo seu visual do que vida, opção que eu devia qualquer outra coisa” sexual. Não mudar minha muito longe, vida e enfim; Jany Tavares também existe ela é evangélica.”, o preconceito com desabafa. relação a pais solteiros Jany passou por váe mães tatuadas, os quais não rias situações sozinha, mas são muito discutidos. sempre soube que era ne Há uma dificuldade cessário ter forças, pois uma para um pai solteiro ou uma vida dependia dela. “Sempre mãe solteira em criar seus observei olhares negativos filhos, principalmente sem e em especial de senhoras, a ajuda e o apoio de famiprincipalmente quando o Igor liares. Trocar fraldas, amachorava por cólicas e é algo mentar, preocupar-se com que não tem muito o que se choros de bebê á noite... fazer e o bebê chora muito;

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então muitas vezes eu estava no metrô ou algum outro transporte coletivo, e ele chorava, as mulheres me olhavam como quem diz ‘nossa que irresponsável’ mas você percebe que é mais pelo seu visual do que qualquer outra coisa; confesso que nem eu sei como eu consegui passar por tudo sozinha e é nesse momento que você descobre o que é ser mãe, o que é esse tal ‘amor incondicional’ que te move, te dá forças que nem você sabe que tem pra superar tudo e continuar lutando. Faço e sempre farei o impossível pelo meu Igor”, conta. O fato vivenciado por Jany, também acontece com outras pessoas. Quando Paulo Figueiredo, 31, soube que seria pai, percebeu que essa situação mudaria alguns hábitos em sua vida como sair com amigos e estudar, para de repente se tornar “pai de família”. O preconceito, de além de ser pai aos 18 anos, também vinham de mulheres com quem se relacionava. “Senti maior preconceito principalmente quando me relacionava com mulheres solteiras e sem filhos, que não aceitavam a ideia de se relacionar com alguém com filho”, conta.


lia, justamente para que as crianças que tem apenas pai ou apenas mãe, não se sintam constrangidas. “As famílias hoje estão muito mudadas e parecem que já estão acostumados com isso”, diz Daniela. Hoje em dia, os professores e pessoas responsáveis na escola procura conhecer melhor a história de cada criança para que ela não se sinta diferente perante os colegas de classe. Da mesma maneira como os pais, as crianças também podem sofrer certa rejeição, ainda mais quando se convive com garotos e garotas da mesma idade, que tem seus pais no convívio do dia a dia. No final das contas, o respeito ao próximo e a tolerância às diferentes opiniões são primordiais para um bom convívio, pois aqueles que julgam também são passíveis do mesmo erro.

Fotos: Arquivo pessoal

Para tentar mudar essa situação, a solução foi mostrar às mulheres que independente da situação, existe uma diferença entre ser pai e ser um homem em busca de um relacionamento; depois, depende de cada pessoa compreender a situação. Não tem como deixar de citar essa situação causada por preconceitos. Pessoas podem perder momentos incríveis ao lado de alguém especial por ignorância; perder de conhecer pessoas e criar laços de amizade e confidencialidade. Deixar o preconceito de lado, afinal, pais e mães solteiros são guerreiros e merecem um troféu de pai/ mãe de ouro, como um Oscar. De acordo com Daniela Cruz, 35, pedagoga, a escola está mudando o seu calendário. Em dias especiais procuram fazer a festa da famí-


Aparências Opostas Texto: Fabiano Correa

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Para a Socióloga e professora do Ceunsp Ana M. Azevedo, 50, as aparências enganam porque nós construímos um perfil fechado sobre aquilo que aparenta ser “A questão é a classificação que fazemos, por exemplo o índio não deixa de ser índio porque usa sandália e ouve rádio, da mesma forma que você não vai deixar de ser o que é se caso tirar a roupa e usar roupa de índio, a visão da sociedade é que te identifica. A identidade continua a mesma e é possível que o individuo tenha aspectos ou marcas que não se restringe aquela identidade, o problema é como a sociedade limita o seu olhar sobre o que outro tem que ser ou deveria ser”. Fotos: Arquivo pessoal

As aparências enganam e as coisas não são observadas pelo que é, mas pelo que “parecem ser”, sejam teorias, pessoas e causas. Muitos não procuram saber ter o conhecimento daquela determinada pessoa e acabam julgando pela sua aparência. Existe padre surfista, promotor de justiça skatista, religioso tatuado, idosos motoqueiros, e além de outros. Há casos interessantes como do publicitário e pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Enéias Jorge, 32, que possui tatuagens “Desde adolescente achava interessante pessoas tatuadas e com brincos, e sabia que meus pais não concordariam com essa atitude, não por preconceito ou religião, mas por terem medo de como a sociedade me receberia. E quando as pessoas da igreja veem as tatuagens imaginam ou até perguntam se eu fiz por rebeldia, mas pelo contrário, foram feitas nos meus melhores momentos com Deus e percebo nos olhares a rejeição de algumas pessoas. Alguns julgam sem conhecer e supero as rejeições, faço porque gosto”. Outro caso é do Supervisor de atendimento Thomas H. F. Rocha, 29, que trabalha em uma empresa multinacional e exerce um cargo de liderança “Trabalho na empresa há 5 anos e sempre tive uma aceitação boa por parte dos meus superiores e pares de profissão, mas mesmo assim diariamente é uma luta provar que independente da minha opção por tatuagens sou um bom profissional”.


Imagem: internet

SÓ EXISTE FUTEBOL NA CABEÇA

DOS HOMENS? Texto: Bruna Miranda

“Paz, carnaval, futebol...” Ah, o futebol! Paixão dos brasileiros, mas não de todos. Há uma pequena parte da população masculina que não curte o futebol. Levaremos em consideração outros esportes os quais esses homens preferem torcer, participar e fazer parte, mas há algo que atinge esses torcedores de uma maneira injusta: o preconceito. Afinal, as pessoas não são iguais e têm gostos diferentes. O carpinteiro André Marins, 31 anos, sabe o que é isso. Desde pequeno não teve estímulo, dado que o pai também não gosta de futebol. “Cresci com basquete”, diz. Na época de escola era chamado de “juiz” e hoje, sente-se excluído quando está em um churrasco, por exemplo, e

o pessoal se reúne pra falar de futebol. O futebol sempre foi o esporte mais discutido, porém, André ainda pequeno conheceu outros esportes e pessoas que também tem outros gostos. “Quando era criança até me importava, mas depois fui conhecendo outros esportes e pessoas que tem outros gostos, hoje não ligo para essas reações [exclusão]”, comenta André. Ao invés de assistir ao jogo de futebol na televisão, esses homens preferem dar uma volta no parque, ir ao cinema, fazer exercícios físicos, curtir seu hobby e até mesmo dormir. Esportes como basquete, vôlei, tênis, ciclismo, rugby, entre outros, estão sendo procurados pelos brasileiros.

De acordo com a pesquisa ‘Muito Além do Futebol - Estudo sobre esportes no Brasil’, feita em 2011 pela Deloitte, uma das maiores instituições de consultoria e auditoria do mundo, o rugby e as Artes marciais são os esportes que mais crescerão no país nos próximos anos. Os esportes individuais são os que mais têm praticantes, mas os coletivos são os favoritos da grande maioria e os de inverno já caíram no gosto dos brasileiros. A pesquisa ainda mostra que o futebol continua no topo dos favoritos, com 78%, seguido pelo vôlei (46%) e pela natação (24%). Já o aeronauta Tiago Guimarães, 31, conta que não se identifica com o futebol e já se sentiu excluído por esse motivo, porém ignora o comportamento. “Acredito que tal postura não seja preconceito, mas somente uma questão de identificação cultural”, justifica. Para o gerente de futebol profissional do Esporte Clube Primavera de Indaiatuba, Wagner Ventarolli, “o homem não deve ser discriminado e muito menos taxado como gay; isso deve ser tratado apenas como uma escolha, apesar de existir um tabu que a sociedade impõe de que todo homem que nasce deve gostar de futebol.” E completa, “É um preconceito apenas remediável, ou seja, com o trabalho de conscientização para com cada indivíduo, sempre há uma maneira de adquirir a flexibilidade de encarar essa situação.” 09


Imagem: internet

Caminho Surgem todos os anos vários casos de usuários de drogas em todo o país, jovens, adultos e até crianças entram no vicio. Independente de classe social, na vida das drogas quase todos têm a mesma história. Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas, elaborado pelo Escritório das nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), cerca de aproximadamente 243 milhões de pessoas, ou 5% da população global entre 15 e 64 anos consumiram alguma droga ilícita pelo menos uma vez em 2012. Os dependentes químicos começam experimentando, por curiosidade, porém se torna um vício quase impossível se de controlar. A maconha é uma das drogas mais comuns, alguns dizem que serve para relaxar, contudo este cigarro é o começo para o surgimento de drogas pesadas como o crack, cocaína, heroína, morfina, LSD, merla e ecstasy. Cada droga causa um sintoma ao viciado, o crack e a cocaína são drogas que chegam a deteriorar o organismo do usuário, causando perda de inteligência, obtendo alucinações e muita ansiedade. Mas o que leva uma pessoa a se viciar? As respostas são inúmeras, a maior parte dos usuários se submete a essa vida por conta do abandono dos pais, ou até seguindo influências da família e amigos. Ou tentando fugir de frustrações, depressão, falta de perspectiva e abusos. 10

Texto: Luana Andrade

O caso mais recente visto pela mídia é de um menino de nove anos, que fuma crack e tem cerca de 20 registros de ocorrência no Juizado de Menores de Goiás. Usuário desde os cinco, já é marcado de morte pelos traficantes, uma criança perdida na sociedade. Segundo um jovem que não quer se identificar, diz que usa cocaína todos os dias, começou com 18 anos usando maconha por incentivo de amigos na escola, e depois vieram as drogas mais pesadas. Hoje, com 30 anos, se diz uma pessoa completamente viciada, se sente infeliz e se torna agressivo sem o uso. “Usar a droga se tornou uma rotina na minha vida, não vivo mais sem, quero parar, mas não consigo”, desabafa. Em todo esse meio vicioso, existem casos de pessoas que se livram da dependência química, mas começam uma luta contra o preconceito. O vício não é


de risco

crime, é uma dependência física e principalmente psicológica da droga. Mas o preconceito torna difícil ao ex-usuário conseguir se reerguer longe do vicio. Rogério Pestana, 29 anos, educador de trânsito, começou a usar drogas com 15 anos, também por incentivo de amigos. Primeiro foi o álcool depois a maconha e a cocaína. Ele conta que quando descobriu esse ‘novo mundo’, se sentiu maravilhoso, pensou que tinha descoberto a “poção mágica da vida”. Só percebeu que as drogas tinham tomado conta da sua vida quando viu que “vivia para usar e usava para viver”. O preconceito começou com a própria família, Rogério conta que sua participação nas reuniões em família não era mais bem vinda, que ter um emprego também se tornou muito difícil, pois

nenhum contratante queria um usuário, pois sabia das dificuldades em cumprir horários, disposição, enfim se sentia prejudicado em todas as questões de sua vida. Para um usuário alucinado a ajuda às vezes não é de bom agrado, porém a família nesses casos é essencial. Rogério recebeu ajuda de vários tipos: religiosa, psicológica, psiquiátrica, neurológica e internação. Mas somente com 25 anos saiu do vicio, quando conheceu uma Irmandade de auto ajuda, onde tinha várias pessoas com histórias iguais a dele e agraves. Foi ali que ele se sentiu motivado. Hoje ele diz que não sente preconceito, mas que ainda ficou a ‘imagem de usuário’ para algumas pessoas, porém, hoje é uma pessoa sem vícios, se tornou instrutor de autoescola e segue o lema “Por hoje não”. Para a pedagoga Shaiane Andrade, o vicio, por algumas vezes, começa na adolescência e em situações extremas até quando crianças, nas escolas públicas onde a renda é menor, esses casos são mais vistos, começam sempre com a maconha ou a cerveja, depois passa para a cocaína e o crack, por dezenas de situações são estimulados por amigos ou pela própria família. “O papel da escola é importante para conscientizar o jovem ou a criança de que as drogas podem acabar com a vida”. 11


Foto: Juliane Cristine


que libertam a literatura

Fotos: Divulgação

Algemas

Texto: Juliane Cristine

O preconceito atinge diferentes tipos de pessoas, e nessa matéria entrevistamos o expresidiário Paulo Henrique Milhan, 47, que após três condicionais dedicou-se à literatura. Foi na cadeia que ele encontrou a esperança, e foi fora dela que bateu de

frente contra o preconceito por ter sido um detento. Paulo é natural de Andirá (PR), e desde criança gostava de ler, mas nunca havia pensado em ser escritor. Completou o ensino médio e aos 20 anos entrou no crime. Foi aí que sua vida começou a mudar. Ele ficou

20 dias atrás das grades em 1995 na sua cidade natal, mas o advogado o soltou e o inquérito foi arquivado. Mas sua primeira condenação foi em 1996, em Piedade, por tráfico de drogas. Paulo ficou por dois anos e 20 dias, saindo no final do mês de novembro de 1998. >> 13


Após essa condicional, conheceu uma moça que mexeu com seus sentimentos, Jaqueline, amiga de sua cunhada. Mas Paulo não conseguiu conquistar a jovem e continuou cometendo crimes. “Com a mesma mente que entrei, eu saí. Nada mudou meu intuito de ter uma vida diferente”, relata. Milhan conta que saia com várias meninas da “biqueira” e quepor ter certa autoridade, as conquistas eram mais fáceis. Porém nenhuma destas garotas tinha o respeito e admiração que Paulo sentia por Jaqueline. Milhan começou a expandir seu tráfico para Mato Grosso do Sul e Bolívia, >>

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todo dinheiro que recebia gastava na compra de mais drogas. Acabou sendo preso novamente em abril de 2002, quando a polícia encontrou drogas embaladas em sua residência. Durante essa condicional, escreveu uma carta para Jaqueline que não foi respondida. “Chegou um dia em que bati o martelo e disse que se chegasse uma carta dela, eu não iria abrir. E no outro dia nenhuma carta chegou, mas se ela tivesse me mandado, não sei se conseguiria não ler”, conta. Também foi incentivado pelos colegas de sala a participar de um concurso de poesia na penitenciaria; as cinco melhores

poesias iriam para o jornal da cidade. Mas pediu para ser desclassificado, após um conflito entre o professor da cadeia e Milhan. A partir desse dia ele começou a criar um livro em sua cabeça, não registrava no papel porque tinha medo de rebelião e que seus registros se perdessem, mas contava aos seus amigos detentos cada capítulo. Saiu da prisão em 2005 e continuou com seu tráfico. Em 2006 foi novamente preso por uma emboscada armada com uma prostituta que revendia sua droga, já era a terceira condicional. Dentro desta cadeia, Paulo percebeu que as pessoas que haviam


Foto: Divulgação

começado nessa vida junto com ele, estavam tendo fins trágicos. “Não era uma coisa muito concreta, mas eu já estava a fim de parar com o tráfico de drogas. Eu só ficava nessa vida por causa do dinheiro que era muito fácil”. Nessa prisão, terminou seu primeiro livro ‘Tarde Demais Para Acreditar no Amor’, inspirado em Jaqueline. Quando foi libertado em 2009, decidiu de vez não voltar para a vida de traficante. Para se sustentar, Milhan começou a trabalhar. Um dos seus empregos foi em uma empresa automotiva onde sofreu preconceito por ser ex-presidiário. A empresa

estava fazendo corte de funcionários, e quando soube que Paulo e mais um amigo haviam sido presos, tirou eles da equipe. “Quando a pessoa sai da prisão, ela não tem condições de montar um negócio próprio, então sai para arrumar um emprego com a sua carteira de trabalho, mas muitos não conseguem por ter antecedentes criminais”, relata. Milhan queria publicar seu livro e seguir na carreira de escritor, encontrou dificuldades para publicá-lo e teve desavenças com editoras. Foi à Bienal do Livro de São Paulo para dar autógrafos, mas ele não estava recebendo os direitos autorais dos livros

vendidos no site, publicado pela editora Baraúna. “Quando lancei o meu documentário biográfico no Youtube, Prelúdio da Liberdade,o [programa] Revista de Sábado e Jornal Cruzeiro do Sul [ambos de Sorocaba, interior de SP] fizeram uma matéria sobre a minha vida. Automaticamente, mandei também para a livraria Travessa, do Rio de Janeiro, e eles entraram em contato comigo para divulgar o vídeo, pedindo para a Baraúna entrar em contato. Conversei com os donos da editora e solicitei que aprimorassem o livro, mas só mudaram a capa. Então, desfiz o contrato com a Baraúna”. >> 15


A partir então, o aspirante a escritor resolveu montar sua própria editora e vender seu livro por ela, a Editora Milhan, onde livros estão sendo comercializados pela internet. Paulo entrou em contato novamente com a Livraria Travessa, para publicarem o livro, mas aguarda um retorno das distribuidoras.

Foto: Juliane Cristine

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E fez também uma noite de autógrafos na Livraria Curitiba, em Sorocaba (SP). Ao todo, já foram vendidos mais de 70 livros pela Editora Milhan. Paulo também está focado em um projeto para fazer palestras em escolas, contando sobre sua vida e como a literatura o fez mudar radicalmente. Sua vontade por escrever não para! O

ex-presidiário ainda tem mais três livros para publicar e já está escrevendo o quarto, todos romances. Ele não nega que sua musa inspiradora foi Jaqueline, e que na escrita encontrou o primeiro passo para a liberdade. “Todos sabem que o caminho das drogas não é correto. E nessas palestras, vou falar para os alunos como a literatura mudou a minha vida e me tornou uma pessoa melhor”.


DIVULGAÇÃO AECAS


HUMOR NEGRO Uma das maneiras de arrancar sorriso das pessoas

É possível utilizar dor, doença ou racismo para divertir?

Texto: Beatriz Facchini e Carolina Borsato

O humor negro, um subgênero do humor, apresenta-se não apenas através de piadas, mas músicas, filmes, entre outros. Estes trazem como tema racismo, dor, suicídio, doenças, indo de encontro com o que muitos chamam de ‘politicamente correto’. Machado de Assis, um dos mais renomados escritores brasileiros, utilizou muito desse recurso ao escrever famosas obras como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, redigida em um tom irônico. Jorge William Martins, 22, estudante de Jornalismo, acredita que o humor negro é inclusivo: “Acho que todo mundo pode e deve ser motivo de piada. Sou fã do Danilo Gentili e do Rafinha Bastos. O estilo de humor que eles fazem não tem limites, não tem restrição”, conta.

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Em 2011, Rafinha Bastos chamou a atenção por fazer uma piada com a cantora Wanessa. Na ocasião, o humorista foi suspenso do programa Custe o Que Custar (CQC), da TV Bandeirantes, e condenado a pagar uma indenização por danos morais à cantora. Luiz Carlos Ferreira, 25, trabalha há três anos como humorista e diz que a intenção é fazer rir, mas não ofender ninguém. “Não é meu estilo preferido, mas gosto de humor negro porque ele deixa coisas pesadas e tristes mais leves e divertidas”, diz. Do outro lado, diversas pessoas acabam por achar desagradável piadas que envolvam temas mais polêmicos. Para Sávio Trindade Lobato, 17, estudante, o humor deve ter um limite: “Certas brincadeiras que são consideradas humorísticas podem ofender ou discriminar certas classes, pessoas, raças. Gosto muito do Renato Aragão, por exemplo, pois ele usa do humor sadio para divertir tanto jovens como adultos”, afirma.


Foto: Arquivo Pessoal/Agito São Roque

Paradigmas

de uma sociedade

no look /

Texto: Caroline Moraes

Vivemos em contemporaneidade, em que o novo já foi e o velho voltou, seja pensamento, seja política, seja o visual. A “ditadura” da moda está em fazer sua própria forma de se portar perante os outros, ou seja, condescendente aos tempos atuais. “Não sei se estamos alcançando um liberalismo ou uma máscara dele”, foram palavras da estudante de rádio e TV, Débora Azevedo, 21. Pra ela, sempre vamos ter tabus em relação ao que os outros pensam de nós. Lá nos anos de 1970, os punks se vestiam com seus coletes e calças coloridas, cabelo moicano jogado ao ar, e incontáveis piercings. Eram julgados, arguido por uma sociedade posta a qualificar. Não é diferente de hoje! Thomas, 22, fotógrafo, brinca ao falar sobre a visão da sociedade sobre um homossexual. Ele, com seus 1,98 de altura, encorpado, barba bem feita, passa longe do protótipo gay, que geralmente é associado à jovens magros, com cabelo chamativo e despojado, calças justas e cores chamativas. “Estava em uma balada GLS uma vez, e na época, uma amiga foi com o namorado dela, e tal. Estávamos conversando e eu acho que comentei alguma coisa sobre ter ficado com um menino. E ele “O que?

Você é gay?”, eu ri muito na hora e disse “Mas é claro!”, contou Thomas aos risos. Do outro lado da passarela, vem ela, que não tem 80 de cintura, mas diz não se importar. Larissa Santos, 21, jornalista, é gordinha assumida e diz não se importar com os padrões impostos pela sociedade. “Não é porque sou gorda, que não posso usar roupa curta, dançar até o chão, ou fazer o que eu gosto”, disse. Ela que já sofreu um pouco por um olhar preconceituoso, nos contou sua história de vida: “Tinha 11 anos conheci um menino na escola e me apaixonei. Eu sempre fui gorda e ele só me esnobava e dizia que jamais ficaria comigo“. Larissa contou que os anos se passaram e no seu aniversario de 18 anos, ele a procurou e se desculpou, mas não foi tão lindo assim. “Começamos a ficar, mas, o fato de eu ser gordinha o fazia ter vergonha e não ter coragem de me assumir. Íamos para mesma balada e não conversávamos”, contou. A jornalista conta que ficou muito mal, justo ela que sempre teve a autoestima elevada, estava totalmente para baixo. “Mas eu tirei forças não sei da onde, e não sai mais com ele. Conheci uma pessoa que me aceitou do jeito que sou, e estamos namorando há um ano”. 19


“VENDENDO PRAZER”

Vitimas de tabus e preconceito, conheça histórias de quem vive na noite.

Texto: Leidiane Rodrigues e Caroline Moraes

Com a modernidade e a contemporaneidade batendo a porta nesse, ainda novo, século XXI, e com profissões como garotas de programa tendo sido legalizadas, a sociedade, mesmo que com um grau maior de conhecimento, ainda as encara com tabus e preconceitos. “Sou prostituta, homossexual e tenho doenças transmissíveis sexualmente. Ainda ‘vendo’ meu corpo para muitos desconhecidos. Saio para trabalhar, mas não sei se vou voltar.”, desabafa Laurinha, 28 anos, que trabalha em salão de cabeleireira de dia, e na noite para poder

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complementar sua renda ganha a vida na noite, já que sustenta sua mãe que não trabalha para cuidar de sua avó, que é aposentada por problemas de saúde. “Gostaria de sair dessa vida, mas faço isso por necessidade. É muito grande a luta pelo preconceito, mas não tenho vergonha de quem sou, me orgulho, pois sou honesta, trabalho honestamente e minha família me apoia”, conta. Segundo a psicóloga Maria Truzzi, 33, em analise, a sociedade é preconceituosa com tudo que foge da regra do normal: “desde a infância

fomos criados com regras de condutas impostas e ditadas pela sociedade como sendo normais, e o que foge dessa educação padrão, e é denominado como fora das regras e condutas aprendidas causam preconceito. Preconceito do diferente”, esclarece. Carla, 45, conta que se prostitui há 30 anos, e já sofreu agressões até por um próprio cliente: “Ele me abordou para fazer programa e fomos para o motel. Chegando ao local, ele não entrou e seguiu por uma estrada de terra ao fundo e começou a me xingar. Não entendia nada!”, relembra Carla.


e de possuir uma estrutura muitas vezes sádica, que leva o agressor ter prazer quando pratica a agressão a aquilo que ele não aceita ou tolera. Ambas garotas de programa entrevistadas, contam que é um dinheiro fácil, mas uma profissão muito perigosa: “é fácil entre aspas, estou vendendo o que é meu, não prejudico ninguém, não roubo, não mato, e ainda dou conselhos para muito deles que as vezes estão com o casamento em crise”, salientam. Para que haja uma grande diminuição no preconceito na sociedade a psicóloga Maira, diz que

há necessidade de mudar a falta de conhecimento e a aceitação do que é diferente, e para isso, é necessária uma criação mais aberta desde a infância. “Hoje muitas escolas e os educadores, estão se modernizando e se preparando para poder atender as famílias, e abordarem o assunto no cotidiano das crianças, não usando mais o tema com preconceito ou mencionando o que é certo ou errado, mas sim, que todos devem ser respeitados por suas escolhas”, finaliza.

Foto: Reprodução/Reporter FCAD

Ela disse que tentou pegar o celular para pedir ajuda, mas que ele começou a agredi-la. “Ele me mostrou uma faca e me dizia palavras horríveis. Depois me tacou para fora do carro e disse que passaria por cima. Fui até a delegacia, mas nada aconteceu com ele, senti pavor durante anos e por segurança mudei de cidade. Hoje moro em cidade pequena e só saio com homens conhecidos”, desabafa. Com relação às devidas agressões que as prostitutas sofrem a psicóloga Maira, diz que o que leva ao acontecimento do fato, é um desvio de comportamento da pessoa não aceitar o diferente,

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Imagens: internet

O tabu da homossexualidade na religião Texto: Isabela Noronha

Há séculos homossexuais vem sendo alvos de preconceito em todos os lugares do mundo, e também a não aceitação da igreja, ou alguns religiosos sobre a questão. As doutrinas religiosas não vê com bons olhos o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Gays começaram a deixar de seguir a religião, para conseguirem aceitação em outros lugares. A pastora carioca da Assembleia de Deus, Sidineia Oliveira,35, acredita não haver preconceito em seu ambiente religioso. “Nunca chegou a meus ouvidos algum ato de preconceito contra alguns de meus fiéis, e eu não aceitaria isso”, conta. “Alguns fiéis não se assumem por medo de serem expulsos de uma Igreja, mas cada Igreja tem suas ‘regras’ e usam a palavra de Deus para dizer o que pode ou não pode fazer. Não acho isso certo”, expõe. “Se um filho meu chegasse em casa e me falasse que sofreu preconceito eu não iria gostar, então eu não vejo 22

um homossexual como uma há muitos fiéis que não ameaça, e sim como uma concordam com a aceitação mudança”, conclui. de homossexuais na Igreja”, A catequista paulista disse. “Queria poder dizer Regina Barbarini, 59, segue ao Papa se ele concorda com a Igreja Católica há 40 anos tanta discriminação que eles e diz que acredita em uma fazem contra nós, isso não acolhida, mas não a aceitação. é o correto”, desabafa, “já “Acredito que acolherão os vi amigos meus sofrerem homossexuais, só não vejo preconceitos em muitos esperanças da Igreja aceitar lugares onde deveriam um casamento gay, isso ainda ajudar um ser humano, como será muito discutido”, hospitais e quartéis”, justifica. “A Igreja conclui. está acolhendo Já o estudante disfarçadamente pernambucano “As pessoas ao os fiéis Célio de Lima, meu redor já aceitam homossexuais, 17, acredita minha opção, tanto amigos que o Papa com esse quanto a família, só falta a Francisco novo Papa. minha religião me aceitar Ele está não toma o do jeito que sou” abordando assunto como assuntos como uma coisa a saída [destes tão absurda, Célio de Lima fiéis] da Igreja, “quem sabe ele evangelizar. Mas consegue espalhar mesmo dando maior pros fiéis que isso atenção, não acredito que as não é ruim”, anseia. “O Papa Igrejas, em modo geral, irão deveria abençoar uma união aceitar”, completa. com um casal gay, como O estudante Weverton abençoa um casal hetero”, Santiago, 18, quer ter uma sugere. “As pessoas ao meu aceitação da Igreja. “Eu redor já aceitam minha opção, acho que eles irão aceitar tanto amigos quanto a família, isso um dia, mas terão só falta a minha religião me um longo caminho, pois aceitar do jeito que sou”.


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Foto: Fábio Duran

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Desabafo de uma deficiente visual Texto: Carolina Borsato

Desde o início dos tempos as pessoas com deficiência visual existem no mundo. E desde o início dos tempos também temos preconceito com essas pessoas pelo simples fato de elas não enxergarem. Não se sabe o porquê, mas as pessoas pensam que uma pessoa que não enxerga não desenvolve corpo mente e menos ainda inteligência. Na escola é a parte mais complicada, pois escolas comuns até hoje não estão preparadas para receber esses alunos. Eles ficam mais atrasados na escola, pois precisam antes de tudo aprender a ler e escrever e isso só em instituições ou nas pouquíssimas salas com recursos. E antes delas aprenderem a leitura e escritas precisam de um preparo da pele dos dedos indicadores, que são seus olhos. Pois só com a pele bastante sensibilizada que poderão sentir os pontos Braille. Não é fácil essa tarefa, pois passar as mãos em objetos muito ásperos pode machucar tem que ser algo pouco áspero. Em instituições tem uma atividade onde um livro com um quadrado em relevo, parecido com Braille, é entregue a criança. Dentro dele tem várias bolinhas do mesmo relevo e uma bolinha está toda pontilhada por dentro, a outra só a metade e a outra só o contorno. A criança precisa pintar só a bolinha que está toda preenchida por pontinhos e apenas dentro. Depois sentir como fica a pintada com o giz de cera. Na escola essas crianças ficam geralmente sozinhas, crianças que enxergam não querem brincar com elas pelo fato de elas não verem, e assim elas não podem correr como as outras. Isso vira uma situação bastante frustrante, pode até dizer que é por isso que alguns deficientes visuais crescem traumatizados e passam a se comportar de maneira errada diante de algum adulto oferecendo ajuda. Na rua, no lazer, sempre vem o preconceito se juntar ao deficiente visual, as pessoas nem sempre ajudam, e ainda tem quem ajuda de má vontade e reclamando.


Quando passa de a exclusão, a discriminação, ano, mais uma dificuldade e pois as pessoas julgam sem mais preconceito. Nem todo ao menos conhecer. professor da escola comum Sem o conhecimento não ajuda o aluno, ainda tem os existe chance, sem chance como que dizem: “eu não tenho essas pessoas vão subir na vida? que ficar fazendo nada, ouça É claro que precisa de um bom e preste atenção”. Mas o preparo, além da reabilitação, professor precisa fazer esse porém centro de reabilitação aluno entender. Ele tem que se tem em cidades grandes interessar em ensinar. O aluno onde haja bastante apoio, que não enxerga tem tantos principalmente do governo e de pontos positivos para deixar empresas grandes. de lado o aprendizado As empresas não e fazer bagunça querem se preparar com os outros. para receber um Eles também deficiente visual. Fora de casa, as precisam de uma Se ele ficar pessoas se afastam do motivação vinda em algum deficiente visual, pois do professor. computador Simplesmente acham que cegueira pega. essa máquina passam a precisa ter matéria na um leitor de Carolina Borsato lousa e quem tela, porém o aprendeu, sistema destas aprendeu. Quem não empresas não são aprendeu que se lasque. compatíveis com o Amizade com pessoas leitor, muitas vezes a ponto que enxergam é complicada, de não dar para o deficiente pois essas pessoas muitas vezes fazer nada. Então colocam só falam em coisas que não é do uma placa dizendo que estão interesse de quem não enxerga. contratando deficientes, mas Os deficientes visuais são quando um deficiente se excluídos da maioria das coisas, apresenta a empresa diz “não pois tudo hoje em dia é com temos vaga para você só para imagens, e imagens o deficiente cadeirante”, por exemplo, aí visual não vê. começa a exclusão. Com a falta da Pode-se dizer que o descrição em áudio piora preconceito com deficientes ainda mais a situação. visuais é atribuído ao tempo Pois sem uma voz para que gasta em preparo e descrever programas de capacitação. Tudo que um TV, exposições e etc., o deficiente precisa para deficiente visual nunca vai estar preparado não é só poder imaginar um pouco do trabalhar como um bom quê está sendo mostrado. O cidadão, mas também estar preconceito começa com a bem preparado para a vida. falta de acessibilidade, com Enquanto as pessoas que

enxergam observam as outras cozinhando para aprender, os deficientes visuais precisam de uma pessoa que saiba todos os cuidados que elas precisam saber para cozinhar. Fósforo? Nunca! É perigoso o deficiente visual se queimar. Varrer e passar pano no chão sempre descalço, para os pés sentirem onde está seco ou onde tem poeira para ser varrida. Deixar as coisas sempre nos mesmos lugares, evitando ficar procurando por muito tempo, não é fácil tatear cada detalhe dos móveis procurando um chaveiro de chaves pequenas. O ritmo de uma pessoa que não enxerga vai ser um pouco mais lento, precisa ter paciência e a sociedade não quer esperar, totalmente dentro de um mundo muito corrido e sem tempo para ajudar o próximo. Porém tem muito tempo para excluí-lo e discriminarem por todo esse tempo gasto. Mal param pra pensar que um deficiente visual muito bem preparado pode chegar tão longe quanto quem corre e não precisa de nada disso. Necessidade e ajuda são duas palavras que não cabem no mundo de hoje. Para um deficiente visual ser totalmente independente é necessário ter toda tecnologia que tem sido inventada nos últimos tempos. E isso não é possível para todos, nem todo deficiente visual tem dinheiro sobrando. E tudo que é tecnologia é caro, e quanto melhor é o produto mais caro vai ser seu custo. 25


Foto: Karla Proença

Texto: Beatriz Facchini

“Cabeça chata”, “coisa de baiano”, “Paraíba”. Estes são apenas alguns dos termos pejorativos que muitos de nós ouvimos no nosso dia a dia, entrando em conflito com a tentativa de velar uma discriminação que está a todo o momento diante de nossos olhos. Grande parte da população migrante do Nordeste para a região Sul e Sudeste é acusada frequentemente como causa da pobreza nas metrópoles, embora os mesmos tenham auxiliado muito no desenvolvimento destes lugares. De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Sudeste é a região mais receptora de nordestinos: 66,6% que saíram do Nordeste foram para São Paulo, Minas Gerais ou Rio de Janeiro. Samara Lopes, 30, é de Fortaleza/CE, e afirma que qualquer nordestino sofre preconceito, em sua maioria indiretamente: “Ora, sou mulher, negra, gorda e nordestina. O que mais acontece é cyberbullying Quando a gente emite alguma opinião, critica algo, o pessoal ‘cai em cima’ por ser do Nordeste. Eu sempre bloqueio”, completa. Em 2012, a estudante de Direito, Mayara Petruso, 26

“Coloque-se NO SEU

lugar!”

o nordestino no Brasil

foi condenada por postar em seu Twitter mensagens preconceituosas contra nordestinos no final das eleições de 2010. Em um de seus comentários, Mayara escreveu: “Nordestino (sic) não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!”. Segundo Brenda Mendes, 19, também de Fortaleza (CE), não tem como não se sentir mal por algo que alguém fala do Nordeste brasileiro: “Ao ler certas coisas, isso me atinge, pois não entendo o motivo. Quando aconteceu o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), vi gente falando que deveria ter sido aqui no Nordeste, porque as pessoas que morressem não fariam falta”. A professora de Sociologia de rede pública de ensino Angélica Soares, 35, está no último ano do curso de Psicologia no Centro Universitário Nossa

Senhora do Patrocínio (CEUNSP) e afirma que através deste determinismo geográfico acredita-se que as diferenças de ambiente físico condicionam as pessoas: “A sociedade brasileira, mesmo em face das mais profundas transformações, ainda possui elementos de senso comum enraizados. Somos culturamente diversos e geneticamente muito parecidos para julgar um indivíduo por seu local de origem”, diz.


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Os Operários - Tarsíla do Amaral Releitura por Hugo Prando

19ª Edição - Revista Foca - Faces do preconceito  

Não é de hoje que o preconceito existe. Um dos primeiros registros de preconceito racial no Brasil, por exemplo, é assinado por Conde Gobine...

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