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Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato | Edição Nº 3 | Junho/Julho 2013

Poeta sempre presente

“‘‘E então, certo dia, por aca’so...’”‘‘


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Junho/Julho 2013 | nº3

EDITORIAL

Mais cultura

O

suplemento especial de cultura do jornal ES de Fato, nesta edição, faz uma pequena homenagem ao poeta Newton Braga. Além da homenagem, vários colaboradores contribuem com seus talentos para a qualidade do Artefato.

artefato

Carlos Felipe: Estudante de Letras/ Português/Literatura, escritor e colaborador do caderno especial de cultura do jornal Espírito Santo de Fato.

Claudia Sabadini: Jornalista, Assessora de Imprensa e escritora, mantém o blog www.recantodasletras.com.br/ autores/claudiasabadini.

Quem faz

Leo Machado: Psicanalista, psicólogo cristão, professor, Administrador de Serviços de Saúde. Atualmente residindo em Kissimmee, Flórida, USA.

Ronald Onhas : Estudante de Letras/ Português/Literatura, escritor e colaborador do caderno especial de cultura do jornal Espírito Santo de Fato.

Rabisco

Outra novidade são matérias culturais que estão nas páginas do caderno especial para informar e registrar o que acontece no cenário cultural sul capixaba. O Artefato é um espaço para quem gosta de ler, escrever, criticar e acompanhar o desenvolvimento e crescimento de novos talentos. Há lugar para todos e a proposta é que cada edição novos colaboradores se revezem dentro da linha editorial. Na edição novos convidados especiais e formadores de opinião se reuniram para levar ao leitor o que há de melhor entre a literatura e arte do sul do Espírito Santo . Continuamos com o intuito de incentivar a cultura mantendo a periodicidade do Artefato. Espero que gostem. Boa leitura! Roney Argeu Moraes - editor roneyamoraes@gmail.com

Olhar do Braga sobre Cachoeiro No ano em que Rubem Braga – o mais importante cronista brasileiro – completa 100 anos de nascimento, a Editora Cachoeiro Cult lança uma publicação definitiva: o livro “Olhar do Braga sobre Cachoeiro”. É um projeto editorial arrojado que contempla o leitor com uma seleção de 35 crônicas em que o “Sabiá” revela, de forma referencial ou simbólica, plurais nuances de uma Cachoeiro de Itapemirim ao mesmo tempo interiorana e universal. Seleção e organização dos textos por Marcelo Grillo, Fernando Gomes e Maria Elvira Tavares Costa. Projeto gráfico e ilustrações de Diego Scarparo. Apoio do Governo do Espírito Santo, por meio da Secult e Banestes, Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim, Foz do Brasil e Unimed Sul Capixaba. Lançamento em 29 de junho! Diretor - Wagner Santos wagnersantos25@hotmail.com Departamento Comercial - Lília Argeu e Elenir Atalaia

Desde 14 de março de 2003

Editorador/Design - Gil Velasco

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Editor - Roney Moraes roneyamoraes@gmail.com Suplemento Especial mensal de cultura, arte e literatura do Jornal ES de Fato.

Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato

Jornal Espírito Santo de Fato - CNPJ.: 06056026000138 - (28) 3515-1067 es.fato@terra.com.br - Bernardo Horta, 81, sala 101, Guandu, CEP 29.300-782 - www.jornalfato.com.br


cultura

Arte

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Entre parênteses Maria Gabriela

Maria Gabriela: Blogueira, estudante de Letras/Literatura no São Camilo e bolsista da CAPES, através do programa de iniciação à docência.

Roberto Al Barros: Escritor, Jornalista, membro efetivo da Academia Cachoeirense de Letras, colaborador do caderno de cultura do Fato.

Protestos ganham a rua

Manoel Manhães:

Advogado, jornalista, cronista e colaborador de diversos jornais e sites, além do caderno especial de cultura do Jornal Espírito Santo de Fato.

Foto: Vicente Pessini Thiego

Higner Mansur: Advogado, escritor, articulista, cronista, membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e colaborador do Jornal Fato.

Confira nesta edição alguns dos momentos mais marcantes das manifestações em Cachoeiro

www.maises.com.br | Nona edição - Julho de 2013 - R$ 5,00

FESTA DE

CACHOEIRO Conheça resumo histórico do município que homenageia seu padroeiro, São Pedro

Nasci entre aspas e agora estou presa entre dois parênteses. Eterna catarse sem vasão. As palavras ficam sempre mal acomodadas entre vírgulas equivocadas. Tento usar a metáfora pra me proteger, mas sou dissolvida como um sonrisal num copo d’água. Eu já deveria estar acostumada com essa rotina trêmula que me acompanha desde sempre, mas não estou. Um dia parei pra observar minhas expressões e eu pareço estar sempre com cara de quem acabou de fazer uma “arte”. Uma ca-ga-da daquelas como quebrar o porta bijuterias de porcelana da mãe, aquele que ela ganhou da avó que tanto amava. Fica difícil transparecer simpatia pensando nessas coisas, mas juro que tento. Tem sempre alguma coisa escapando das minhas mãos, e eu simplesmente parei de tentar segurar. Para uma controladora de destino como eu, admito que não foi uma tarefa fácil, mas com certeza menos dolorosa. Entre aspas há ironias demais e entre parênteses há espaço para muitas justificativas. Estou agora dentro dessas duas paredes curvas, tentando descobrir o significado da minha desistência. Aprendi a respeitar meus limites, mesmo que isso signifique perder. Com as mãos livres não seguro mais o que me entregam, agora eu alcanço o que quero e o que posso. Se cair, paciência.


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Baseado na crônica de Rubem Braga, Um Pé de Milho…. Ronald Onhas Grolla Maria – Patrão, sabia que os americanos, através do radar, entraram em contato com a lua? Zé - Isso não deixa de ser emocionante. Mas, o fato mais importante da semana que aconteceu foi com o meu pé de milho. ( lendo jornal ) Maria - Patrão, lá vem você falar do seu pé de mio. Eu acho que o senhor fez alguma mandinga, para ele crescer. Zé- Maria, para de falar asneira e vai abrir a porta que deve ser o Niltin. ( Maria abre a porta ) Maria - Niltiiiiiiiin ! Quer dizer, Doutor Nilton, boa tarde. Nilton - Boa tarde, Maria, minha flor do dia. ( beija a bochecha dela). Maria - Assim eu desmaio. (Maria se abana com a mão). Zé – Maria, volte para seu serviço e Niltin para de fogo. Nilton - Já parei. Passei aqui rapidinho só para saber da sua novidade. Qual a novidade? Zé - Lembra que eu tinha contado que no meu quintal, em um monte de terra trazido pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de capim? Nilton - Lá vem você com essa história de novo. Você não para de falar nisso. Maria - Verdade, só fala nesse tal pé de mio. Zé - Maria… Maria - Tá bom, tô voltando para o meu ser-

viço. Nilton - Mas, afinal, o que aconteceu? O que você fez? Zé - Mudei – o para um pequeno canteiro em frente daqui de casa. Secaram as pequenas folhas, pensei que fosse morrer. Mas, ele reagiu. Nilton - Reagiu? Como assim reagiu? Zé - Quando estava com dois palmos, veio nosso amigo Vinícius e declarou desdenhosamente que era capim. Maria - Vinícius! Ah aquele…. Zé - Maria… Maria - Já voltei. Nilton - Ele disse que era capim? Vinícius não sabe de nada, é um ignorante mesmo. Zé - Você é o quê, então? Pois eu me lembro que o senhorzinho falou que era cana. Nilton - Sou menos ignorante que o Vinícius. Maria - E mais bonito também. Zé - Eu sou um ignorante, um pobre homem da cidade, mas eu tinha razão. Olhe lá fora através da janela. Nilton - Então, era um pé de milho? Zé vai falar que você nunca viu um pé de milho? Maria - Eu perguntei a mesma coisa para ele Niltin... quer dizer,Doutor Nilton. Zé - Gente, um pé de milho em um canteiro, espremido, junto do portão, numa esquina de rua, não. Não é um número numa lavoura, é um ser vivo e independente.

Maria - É,dá para ver que suas raízes roxas que agarram o chão... Zé - ... e suas folhas longas e verdes nunca estão imóveis. Nilton - Zé,acho que você está imaginando demais. Maria - Tá ô... ( faz sinal de doido ). Zé - Eu não estou doido, Maria, e nem imaginando demais. Eu detesto comparações surrealistas, mas na glória de seu crescimento, tal como eu o vi em uma noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, as crinas ao vento em outra madrugada, parecia um galo cantando. Nilton- A flor do pé de milho não é a mais linda das flores. Maria- Eu já vi gostarem de rosa, girassol, margarida, tulipa até de cacto. Mas, de milho? Zé - Aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer meu canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que fazem bem. Nilton – É, confesso, meu amigo, seu pé de milho é um belo gesto da terra. Mas,agora, preciso voltar para o trabalho,minha hora já esgotou. (Nilton sai ). Maria - Patrão, agora que eu vi a hora.Preciso ir senão vou perder o buzu.( tira o avental e sai) Zé - Lá se vão todos, sem tempo, para reparar nas coisas simples da vida. E eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de um chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da Rua Júlio de Castilhos.

Um caminho sem volta? Carlos Felipe É irônico dizer para a pessoa que perdeu um ente querido: “Que Deus te conforte”. Até porque, pela lógica religiosa, é exatamente ele quem determina a hora da partida. É ele quem decidirá se você acordará vivo ou acabará vivo no fim do dia E se isso acontecer: agradeça-lhe! Tem algo mais irônico ainda: não nos preparamos para a morte, seja a nossa morte ou a de alguém bem próximo, pois sabemos que nascemos para morrer. Mas, se sabemos, por que não aproveitar o dia como se fosse o último? Por que não tentar ser feliz, passar alegria,

pedir perdão? Por que não demonstrar seu amor à pessoa amada ou prestar atenção às coisas simples da vida? Você precisa mesmo esperar seu último dia? E se o último dia chegar e você não souber que é? Viverá o momento como se fosse normal, porém, não será um dia qualquer...será o fim! Ensolarado ou chuvoso, será o último dia, para ver quem você gosta ou, até mesmo, quem você não suporta ver. Pense: é a última vez! Da morte pra frente, será apenas uma interrogação, uma incógnita... talvez, indecifrável.


cultura Poeta sempre presente O título de Cachoeirense Ausente nº 1 foi criado em 1939, pelo poeta Newton Braga, como forma de homenagear os conterrâneos que não viviam mais no município, mas que mantinham vínculos afetivos com a terra natal. Neste mesmo ano, também por iniciativa de Newton, o 29 de junho (dia do padroeiro do município, São Pedro) foi instituído como o Dia de Cachoeiro e do encontro dos cachoeirenses ausentes com os presentes. Newton nasceu em 11/08/1911, na Fazenda do Frade, no município de Cachoeiro de Itapemirim, filho de Francisco Carvalho Braga e Raquel Coelho Braga. Poeta, cronista, jornalista, advogado. Fez os estudos primários no Colégio “Nossa Senhora da Penha”, na “Escola do Centro Operário e de Proteção Mútua”, em frente à casa dos pais, na rua 25 de março, em Cachoeiro e os secundários no Colégio “Pedro Palácios”. Bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais, em 1932, foi colega de Cyro dos Anjos, Guilhermino César e Tancredo Neves. Iniciou-se no jornalismo ainda estudante em Belo Horizonte, escrevendo reportagens e crônicas nos “Diários Associados”. Foi também na capital mineira que publicou seus primeiros poemas. Na volta a Cachoeiro passou a dirigir o jornal “Correio do Sul”, fundado por

seu irmão Armando e tornou-se titular de Cartório. Manteve também, durante algum tempo, na imprensa do Rio de Janeiro, uma coluna de crítica literária e, no Suplemento Literário do “Diário de Notícias”, uma coluna de casos e epigramas. Em 1939 criou o “Dia de Cachoeiro”, que desde então é a maior festa da cidade, e que inspirou promoções idênticas instituídas mais tarde em quase todas as cidades do Espírito Santo e algumas de outros Estados. Em 1959 transfere-se para o Rio de Janeiro. Trabalhou como redator de publicidade e de jornalismo na TV Tupi, como copy-desk e redator do “Mundo Ilustrado”, onde escrevia sob pseudônimos. Foi chefe do Serviço de Relações Públicas da Secretaria de Saúde do Estado. Trabalhou na Rádio Ministério da Educação, publicou artigos em revistas como “Chuvisco”, “Publicidade e Negócios” e “Senhor”. Faleceu. no dia 01/06/1962, aos 51 anos, no Rio de Janeiro. É o patrono da cadeira n. 2 da Academia Cachoeirense de Letras. Amante da vida provinciana, imortalizou Cachoeiro de Itapemirim, através de suas crônicas e poemas. Num preito à memória de Newton Braga, a Academia Cachoeirense de Letras criou um prêmio com seu nome, denominando-se a instituição, daí em diante, Casa de Newton Braga.

E então, certo dia, por acaso... ... e então, certo dia, por acaso, nós nos veremos, de novo, frente a frente. Cada qual estará algemado a outros destinos e parecer-nos-á que andamos às tontas, muito tempo, e que as estradas que julgávamos familiares e imutáveis eram mundos estranhos em que vivêramos sonâmbulos. Um pequenino detalhe qualquer, vago, impreciso - o meu modo de olhar, teu jeito de sorrir, um gesto, uma expressão, um desses quês inapagáveisreacenderá, talvez, por um momento, a memória de outros tempos e outros sonhos. Sim: apenas por um momento. Voltaremos logo ao presente, voltaremos apressadamente a nós mesmos, com teimosia e rancor, com o sobressalto, o desamparo, o desespero de quem, mesmo sabendo inútil, vão, quer impor, com o cérebro, o ritmo que o coração deva bater. -E então cada qual continuará o seu caminho, pisando firme, com decisão, obstinadamente; -nenhum dos dois olhará para trás. Newton Braga

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Obras “Lirismo perdido” (coletânea de poemas publicados na imprensa capixaba, mineira e carioca, durante mais de 10 anos) - Leitura, Rio de Janeiro, 1945 “Histórias de Cachoeiro” ( visão panorâmica dos principais aspectos históricos, geográficos, sociais e literários ligados a sua cidade natal) 1947 “Cidade do interior” (contém uma seleção dos casos e epigramas, publicados no “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro), Cadernos de Leitura/MEC, Rio de Janeiro, 1959 “Poesias e Prosa” (volume póstumo, organizado por seu irmão Rubem Braga, incluindo textos e poemas das obras anteriores, além de novos casos e epigramas. Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1963 Traduziu Gente da Terra, de Agnes Smegley, para a Editora Leitura. Ausente O último a receber a honraria foi o jornalista Sérgio Magalhães Garschagen, em 2012. O homenageado participa das atividades tradicionais da programação da Festa da Cidade, como a Sessão Solene do Legislativo, o Baile de Gala, desfile escolar, entre outras. O Cachoeirense Ausente nº 1 de 2013 é o médico José Sérgio Franco. A eleição foi realizada na quarta-feira (5), na Sala Levino Fanzeres, no edifício Bernadino Monteiro. Ele será homenageado durante a programação da festa de Cachoeiro, no fim deste mês. José Sérgio Franco é médico ortopedista e nasceu em 30 de setembro de 1951. Aos 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde graduou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual atua como professor e chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina. É presidente da Sociedade Latino-americana de Ortopedia e Traumatologia (gestão 2013/2014) e do Congresso Mundial de Ortopedia, que acontecerá em 2014, no Rio.

FONTES: BRAGA, Newton. Histórias de Cachoeiro, 2ª edição. Vitória. Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES/Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, 1986. PACHECO, Renato. Os Braga de Cachoeiro, Vida Capixaba, Vitória, n. 613, junho de 1951 A Poesia Espírito-Santense no Século XX, organização, introdução e notas de Assis Brasil, 1998


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artefato Crônicas

Feito para quebrar Claudia Sabadini

Há meses não via meu afilhado. Depois de tanto tempo, muita saudade e querendo compensar a ausência (adulto adora fazer isso), resolvi comprar-lhe um brinquedo. Coisa boba, uma pista com dois carrinhos à pilha. No caixa, o vendedor me ‘sugere’ com certa imposição que eu faça um seguro para o brinquedo. Seguro? Pergunto eu, incrédula que exista seguro para brinquedo. Pois existe e eu sou uma madrinha desatualizada. Seguro para brinquedo é ideal para aqueles pais que compram as bonecas mais caras e os carrinhos e jogos mais tops do momento e não permitem que seus filhos brinquem com outras crianças com receio de danificá-los. Pois acreditem, por um valor irrisório se pode garantir a substituição de brinquedos desmontados e intensamente explorados pelos pequenos.

Se brincando a criança aprende a lidar com o mundo, descobre sentimentos e sensações, é saudável que o brinquedo seja destruído e reconstruído exaustivamente. Brinquedo é apenas o objeto que cria e recria fantasias. É o faz-de-conta que vai se modificando à medida que a criança cresce. Daí, qual o sentido de ter de volta um novo brinquedo, se ele terá o mesmo destino? Que mania que adulto tem de estragar a brincadeira! Não é a toa que as esquisitices nos perseguem vida a fora. Mania de organização, de perseguição, de sobressair e de vencer sempre. Crescem com a ilusão de que as coisas não quebram, se rompem, acabam. Fim. Gosto do imaginário das crianças e sou uma observadora delas. Admiro como elas transformam a realidade, em que

A MORTE NOSSA DE CADA DIA

“Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de vida e isso é um erro. Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo o dia. A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio! A morte nada mais é do que o ponto de partida para o início de algo novo. É a fronteira entre o passado e o futuro. Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente. Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descomprometido que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas. Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro ou ciumento ou o solteiro solto que pensa poder fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projetos e tempo com mais ninguém.

Que graça tem preservar um objeto concebido para ser quebrado? Sem brincar, sem fantasiar, a criança não vive a infância. Assim, a pista se transforma em Rodovia do Sol, com guarita policial e pedágio. A mãe fica responsável pelo guincho que socorre os carrinhos com defeito e a madrinha se reveza entre ser motorista, pedestre, policial e dono da oficina. E assim, brincando, se ensina e se aprende. Uma lembrança boa para guardar.

Exílio Leo Machado

Manoel Manhães

Num artigo muito interessante, Paulo Angelim que é arquiteto, pós-graduado em Marketing dizia mais ou menos o seguinte:

uma simples bola convida os meninos para uma algazarra, o bichinho de pelúcia é o amigo que protege a menina no escuro do quarto e o inocente quebra-cabeças pode ser um grande desafio. Criança improvisa para se divertir e não se importa com o status do brinquedo. Coisa que a gente perde quando cresce.

Enfim, todo processo de evolução exige que matemos o nosso “eu” passado, inferior. E, qual o risco de não agirmos assim? O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo nossa produtividade e, por fim prejudicando nosso sucesso. Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser. Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam. Acabam se transformando em projetos inacabados, híbridos, adultos infantilizados. Podemos até agir às vezes, como meninos, de tal forma que não matemos virtudes de criança que também são necessárias a nós, adultos, como: brincadeiras, sorriso fácil, vitalidade criatividade etc.. Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes infantis, para passarmos a agir como adultos. Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga) melhor e mais evoluído? Então, o que você precisa matar em si ainda hoje para que nasça aquele que você tanto deseja ser? Pense nisso e morra! Mas, não se esqueça de nascer melhor ainda!”

Exílio Exilado no interior da minha existência Ando buscando fagulhas de um fogo que se apagou! Antes ele me aquecia o espírito, Iluminava minha’lma, E mostrava-me o caminho a seguir... As vezes os caminhos que pareciam ideais, Tornavam-se difíceis, Mas ainda assim eram caminhos. Hoje ele não me conduz a lugar nenhum Simplesmente fico aqui... Parado buscando uma fagulha, Para reacende-lo. Sei que não esta extinto por isso busco...


cultura

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Personagens de Nossa História BERNARDO HORTA

Higner Mansur

Bernardo Horta de Araújo é a maior figura de nossa História, diz Newton Braga. Filho do Desembargador José Feliciano Horta de Araújo (que dá nome ao Fórum de Cachoeiro) e de D. Izabel de Lima, filha do Barão de Itapemirim, nasceu em 20 de fevereiro de 1862, em Itapemirim, na Fazenda Muquy, nas terras do avô barão. Fundador do 1º Clube Republicano do Estado, foi vereador e Presidente da Câmara Municipal de Cachoeiro, cargo que equivalia ao de Prefeito. Casou-se com Angelina Ayres Horta em 26/12/1896, às 17 h, na casa do sogro, na Rua 25 de março. Angelina, apelidada Nininha, era chamada por Bernardo de “Ni” (ele casou-se com 34 anos e ela com 14 anos. Angelina morreu por volta dos 21 anos de idade). Tiveram cinco filhos: Maria Izabel, Fábio, Zilma, Lélia e José, os quais, após a morte de Bernardo, foram criados pela mãe de Nelson Sylvan. Seu adversário político, Júlio Pereira Leite, cidadão importante da época, médico e deputado, afirmou em carta escrita no Rio de Janeiro: Bernardo Horta “nunca se acomodou a conve-

niências e cambalachos. Tudo que aí existe de bom está ligado a seu nome. A água, a luz elétrica, o calçamento, o edifício da Câmara, o transporte de carnes verdes, o matadouro, a Santa Casa, etc. etc.”. Bernardo, maçom (iniciado em 15 de dezembro de 1898), é fundador do Grêmio Bibliotecário Cachoeirense, a primeira biblioteca de Cachoeiro, a biblioteca da Maçonaria. Farmacêutico formado em Ouro Preto – MG (dezembro/1881), jornalista (redator-chefe do “Cachoeirano”) e político (vereador e deputado federal), seu nome está inscrito na história principalmente pela grandiosa atuação pública. Simples, idealista, honesto, sonhador e grande orador, como define Evandro Moreira, esses predicados foram glória e martírio seus. No término de seus dias, pobre, endividado, doente e desprestigiado, desgostoso com os rumos da República, suicidou-se no Rio de Janeiro em 20 de fevereiro de 1913, dia em que completava 51 anos, cinco dias após a inauguração do Grupo Escolar Bernardino Monteiro. Imagine o sofrimento do grande homem: esquecido

por Cachoeiro, num canto qualquer do Rio, enquanto aqui inauguravam a Fábrica de Tecidos e a Fábrica de Cimento (fins de 1912) e o mais portentoso de nossos prédios públicos. “Deixou um nome limpo na vida pública, como na particular”, diz Antonio Marins. Bernardo Horta pediu, em carta de 19/02/1913 (ainda conservada): “Enterro de última classe, sem acompanhamento. Sepultura rasa. Ninguém de luto por mim”. A cidade teve vergonha, seus restos mortais foram trasladados para cá apenas em 1919, com imensa multidão a acompanhá-los. Depois, a única homenagem que a cidade lhe prestou foi dar seu nome a uma de nossas principais ruas. Pouco, quase nada. (Recentemente, o Instituto Newton Braga e a Loja Maçônica Fraternidade e Luz rememoram o centenário de sua morte e lançaram livreto em homenagem a Bernardo e o Prof. Adilson Souza Santos publicou sua biografia política. Ambos estão disponíveis).

A Sombra do Vento (III) Roberto Al Barros

Estava vivendo do jeito que a maioria dos escritores principiantes determinados sobrevivem, determinado a encontrar um editor, quando recebi o inesperado telefonema de meu ex-mestre. – (...) Aqui é o professor Lacan! – disparou ele com seu vozeirão tonitruante. – Professor! – exclamei. – Que grata surpresa! – Veja bem, Zarzuela, resolvi telefonar para lhe fazer uma proposta. Estamos para reativar o jornal acadêmico do campus. Lembrei-me de ti para a sessão literária. O que me diz de ser colaborador convidado, enviando-nos um texto por semana? A universidade pode ajudar a divulgar teu nome em outras instituições. Quem sabe assim tua tão decantada carreira literária não deslancha? Fiquei alguns segundos pensando na proposta que acabara de receber. – Além disso – prosseguiu o professor

Lacan –, caso tu queira, poderá participar do ciclo mensal de conferências. Poderia falar sobre tua experiência de escritor inédito e ser bem remunerado. A universidade tem excelentes cachês para conferencistas. Trata-se de uma verba especial do Ministério... – Professor! – interpelei-o –, não querendo ser deseducado, estou concluindo meu novo livro de contos. Gostaria imensamente de aceitar teu convite, que muito me honra, mas não posso abandonar agora esses contos e me comprometer a colaborar com um texto por semana, mesmo com essa possibilidade das palestras remuneradas. O restante da conversa, para ser sucinto, resumiu-se no seguinte: sempre muito cortês, professor Lacan se despediu após minha recusa não sem antes prometer-me uma assinatura do periódico, que me enviará pelo correio “assim que começar a circular” – garantiu, antes de desligar.

Voltei-me então ao trabalho em serões madrugada adentro. Três dias depois, comecei a pensar se não perdera uma oportunidade de reatar meus laços acadêmicos. O professor não iria me telefonar para fazer promessa vã. Pesaroso, por me ter recusado a colaborar, peguei o telefone e liguei para a universidade. – Posso falar com o professor Lacan? – indaguei à telefonista. – O professor Lacan não está mais conosco! – respondeu a telefonista. – Como assim? ...não está mais conosco!... Onde está o professor Lacan? – retruquei aturdido. – Você não está acompanhando os noticiários? – Não! Não sei de nada! O que aconteceu com o professor Lacan? – respondi enquanto amaldiçoava minha mania de reclusão. Continua...


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Artefato - Caderno Especial de Cultura - Nº 3  

Artefato - Caderno Especial de Cultura - Nº 3 | Cachoeiro de Itapemirim - ES

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