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SEXTA-FEIRA, 6 DE JANEIRO DE 2017 j WWW.ESHOJE.COM.BR

HUGO BORGES POR CÉSAR HERKENHOFF L cesarherkenhoff@hotmail.com

De volta pro meu aconchego Fidelidade partidária não pode ser apontada como um atributo importante na vida do governador Paulo Hartung. Mas é, indiscutivelmente, o melhor jogador de xadrez político da história recente do Espírito Santo, equiparando-se aos ex-governadores Gérson Camata e Eurico Rezende. De malas prontas para o PSDB, a decisão, mais do que a volta do ninho, prenuncia o que vem sendo costurado desde o início desse terceiro mandato: Hartung tem um projeto nacional, pessoal, individual e particular, no melhor estilo “Eu, eu mesmo e Irene”... Tendo iniciado a vida política no PMDB, no início dos anos 80 (era militante do Partido Comunista Brasileiro, na época na clandestinidade, desde o fim dos anos 70), cumpriu dois mandatos de deputado estadual pela legenda para, em seguida, ajudar a fundar o PSBD, partido que o conduziu à Câmara Federal e, posteriormente, à Prefeitura de Vitória, em 1992. Consolidou-se como grande gestor público mas, engolido no ninho tucano pelo

então governador José Inácio Ferreira, acabou chegando ao Senado Federal pelo próprio PSDB, mas logo em seguida filiou-se ao PPS, sucedâneo do PCB. Passagem curta, porque em 2001 já estava no Partido Socialista Brasileiro até retornar ao PMDB em 2005. Teria entoado “boemia, aqui me tens de regresso” no PMDB ad infinitum, mas a projeção que conseguiu na mídia nacional como um dos mais qualificados gestores da atual safra política brasileira, passou a sonhar mais alto e hoje nutre o inequívoco – e legítimo – projeto de ser candidato a vice-presidente na chapa do paulista Geraldo Alckmin. Parece, portanto, uma equação absolutamente simples: um gestor bem avaliado nacional-

mente agrega um valor importante ai ninho tucano. O que me remete sempre à clássica história do fabuloso Mané Garrincha que, ao receber do técnico Zezé Moreira as instruções – “passa pelo seu marcador, vai até a linha de fundo e cruza para a área” – questionava com a ingenuidade de sempre: “O senhor combinou isso com o lateral, professor?”. Desde a posse de Hartung, o quadro político capixaba vem sendo desenhado a partir de dois importantes movimentos: o do Palácio Anchieta e a frente de oposição, que agrega o ex-governador Renato Casagrande, o senador Ricardo Ferraço, os prefeitos de Vitória e de Vila Velha, Luciano Rezende e Max Filho, respectivamente, e o ex-prefeito de Vitória, Luiz

Paulo Velloso Lucas. Desse grupo sairiam um candidato a governador (Renato Casagrande ou Ricardo Ferraço) e um a senador (Luiz Paulo Lucas ou Renato Casagrande) para enfrentar uma possível candidatura de Paulo Hartung à reeleição. Como um adolescente que resolve “melar” o pique das crianças, Hartung entra na brincadeira e dá o recado: “Eu sou o PSBD”. Tira de cena ou das mãos de Renato Casagrande, numa única tacada, Ricardo Ferraço, Max Filho e Luiz Paulo Velloso Lucas. E melhor ainda: tem a possibilidade de lançar Ferraço como seu sucessor e Velloso Lucas para o Senado Federal. Muitos pensarão como eu: mas com essa gestão pífia Paulo Hartung continua no

cenário político? Definitivamente, sim. A muito qualificado com o respaldo das grandes lideranças políticas nacionais, inclusive do presidente Michel Temer, de quem é amigo há muitos anos. A parte ruim da história é que para cumprir seu projeto nacional Hartung não precisa mudar o modus operandi: vai continuar gerindo o Espírito Santo com o modelo que lhe garantiu visibilidade nacional e o credenciou para se tornar uma alternativa viável. Significa, em última análise, que ao final da gestão Hartung, ele, sempre ele e só ele, estará surfando em ondas magníficas do paraíso havaiano. E o povo capixaba, na melhor das hipóteses, continuará pegando jacaré na praia de Camburi.

COLUNA FEU ROSA

ARTIGO

O sino de Belém

2016 matou a esperança

Há alguns dias, lá no Reino Unido, alguém teve uma ideia interessante: reduzir a números o cotidiano dos mendigos de Londres, umas das mais ricas e cosmopolitas cidades do planeta.

A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal.

Os resultados obtidos fariam corar de vergonha qualquer povoado miserável dos mais atrasados países do mundo. Só para começar a conversa, apurou-se que 79% deles já foram vítimas de agressões físicas causadas por discriminação - em 35% dos casos, foram socados e chutados. 9% deles já serviram de "banheiro" - dormiam em paz (eu disse "em paz"?) na sarjeta quando alguém decidiu urinar em suas faces. Em 34% deles foram arremessados pedras e objetos diversos. Se nos limitarmos às agressões verbais, 48% já foram ameaçados e 50% insultados. Constatou-se, ainda, que 54% deles já foram vítimas de roubos e 7% de violência sexual. Mas talvez o mais triste seja a constatação de que o Estado foi acionado em apenas 47% dos casos - os miseráveis de Londres simplesmente não acreditam nas instituições que deveriam defendê-los, material e moralmente. Deixemos o Estado para lá. Afinal, o que de mais chocante constatou-se foi mesmo a falta de sentimentos humanos de larga parcela da população. Aliás, talvez esteja aí a explicação da omissão estatal. Abro a janela de minha casa. Olho pa-

ra fora. Começo a recordar as notícias dos mendigos em cujos corpos jovens abastados atearam fogo, pelas avenidas de nossas mais ricas cidades, e episódios de agressões tão brutais que resultaram em morte. E subitamente dou-me conta de que Londres é lá, aqui e em todo lugar. Com o espírito estremecido, saio à rua. Contemplo a cena rotineira de alguns miseráveis preparando-se para mais uma noite na sarjeta, sob o silêncio cúmplice de tantos, a embalar as gargalhadas de escárnio dos Estados. Eis que aproxima-se e aninha-se, dentre eles, um cachorro. Um vira-latas. Manso, ali estava mostrando respeito e afeto, não para rosnar ou morder - afinal, ele era apenas um cachorro, não um ser humano impiedoso. Enquanto isso, há poucos dias celebramos o Natal. Era meia-noite quando os sinos dobraram. Ouso dizer, com o poeta John Donne, que eles dobravam pela raça humana - que deveria, recordando Thomas Jefferson, mostrar temor diante de um Deus que, acima de tudo, é justo. Simplesmente justo. PEDRO VALLS FEU ROSA

Obviamente há políticos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração, progressistas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à politica e um sentido social ao Estado vigente, de cariz neoliberal e patrimonialista. Ao se referir à corrupção todos pensam logo no Lava Jato e na Petrobrás. Mas esquecem ou lhes é negada, intencionalmente pela mídia conservadora e legitimadora do establishment, a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal, que junto com o nascimento de Cristo se narra a matança de meninos inocentes pelo rei Herodes, hoje atualizado pelos corruptos que delapidam o país (O Estado de São Paulo 25/12/2016). Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que nos últimos treze anos esquemas de corrupção, de fraudes e desvios de recursos da União, repassados aos Estados, municípios e ONGs e direcionados a pequenos municípios com baixo índice de Desenvolvimento Humano podem superar

um milhão de vezes o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato. São 4 bilhões mas camuflados que podem se transformar, num estudo econométrico, em um trilhão de reais. As áreas mais afetadas são a saúde (merenda) e a educação (abandono das escolas). Diz o Secretário: “A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”. A nação precisa saber desta matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são anti-sistêmicas. Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança. Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está ao nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança. LEONARDO BOFF - Teólogo e escritor


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