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Braganรงa Paulista

Sexta

13 Janeiro 2017

Nยบ 883 - ano XV jornal@jornaldomeio.com.br

jornal do meio

11 4032-3919


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Para pensar

Jornal do Meio 883 Sexta 13 • Janeiro • 2017

Expediente Jornal do Meio Rua Santa Clara, 730 Centro - Bragança Pta. Tel/Fax: (11) 4032-3919 E-mail: jornal@jornaldomeio.com.br

Ouro, incenso e mirra? por Mons. Giovanni Baresse

Diretor Responsável: Carlos Henrique Picarelli Jornalista Responsável: Carlos Henrique Picarelli (MTB: 61.321/SP)

As opiniões emitidas em colunas e artigos são de responsabilidade dos autores e não, necessariamente, da direção deste orgão.

O dia 6 de janeiro

não judeus. São pagãos. E

foram escritos. Mateus dá

cristãos de sua época e aos

As colunas: Casa & Reforma, Teen, Informática, Antenado e Comportamento são em parceria com a FOLHA PRESS

marca o “Dia de Reis”

suas oferendas são muito

a sua resposta mostrando,

que viriam depois, um qua-

na linguagem do ca-

mais que coisas materiais.

até de forma provocadora,

dro referencial consistente

Esta publicação é encartada no Bragança Jornal Diário às Sextas-Feiras e não pode ser vendida separadamente. Impresso nas gráficas do Bragança Jornal Diário.

tolicismo popular do Brasil.

São o reconhecimento de

que são os pagãos que se

para a profissão de Fé. E faz

Existem ainda, aqui e ali, as

Jesus como Senhor (ouro),

mexem, em primeiro lugar,

superar a análise simplória

os cristãos do nosso tempo

celebrações do “Reisado”.

como Deus (incenso) e como

para encontrar Jesus, o Mes-

de um fato narrado para

é a de dar continuidade à

Junto com o espírito religioso

Homem (mirra). O texto do

sias prometido. E o fazem

ser entendido literalmente.

profissão de fé dos magos.

soma-se o caldo de tradições

evangelho coloca uma das

com grandes sacrifícios. E

Ajudam a perceber isso os

Confessando Jesus como

populares. A celebração dos

grandes questões vividas pela

são eles, os pagãos, a fazer

presentes. O texto fala que

Senhor, Deus e Homem, os

Reis Magos tem suas raízes

Igreja dos primeiros séculos.

a primeira profissão de fé no

os magos abriram seus cofres

cristãos se comprometem com

nos dados que o evange -

Um dos grandes desafios vi-

Cristo Senhor, verdadeiro

e ofereceram ouro, incenso

a sua missão. Porque a fé não

lho de Mateus (2,1-12) nos

vidos pela Igreja que nascia

Deus e verdadeiro homem.

e mirra. Não teriam viajado

é uma simples declaração. É

deixou. É oportuno sempre

era a aceitação de cristãos

Há, ainda, um detalhe. Os

tanto e trazido cofres com

e deve ser sempre Vida!

recordar que os evangelistas

que não viessem do judaísmo.

magos são pessoas qualifica-

pouca coisa. O que teria sig-

E os magos, afinal, quem são?

não tiveram a intenção de

Na mentalidade dos cristãos

das. São sábios astrólogos.

nificado o ouro para a pobre

Segundo velhas tradições

escrever biografia ou histó-

judeus isso não cabia. Como

Na Antiguidade a Astrologia

família de José? Sabe - se

eram três. Um da Ásia, um

ria de Jesus. Nem mesmo a

é que pessoas e povos que

era uma das ciências mais

que era carpinteiro e assim

da África e um da Europa.

intenção “jornalística” sobre

tinham costumes condenados

apreciadas. Nos aspectos

viveu... A oferta de incenso

Um amarelo, um negro, um

acontecimentos. A intencio-

pela Torá (A Bíblia judaica)

físicos pelo auxílio dado a

soaria como uma blasfêmia.

branco. Chamavam-se Gaspar,

nalidade dos evangelistas foi

podiam participar do mesmo

caminhar de forma segura

Não se ofertava incenso para

Melchior e Baltasar. Depois

a de passar à Igreja do seu

caminhar religioso? Uma

para as metas de viagem,

pessoas. Quem fazia isso era

que visitaram Jesus viveram

tempo e dos tempos futuros

possível saída seria, para os

conhecimento das variações

condenado severamente pela

até os 120 anos. Um dia se

uma proclamação de fé que

pagãos, assumirem valores e

do tempo, etc. Por outro

lei judaica. Como ficaria isso

encontraram numa cidade

fundamentasse a adesão a

posturas judaicas para serem

lado havia toda a parte das

em relação a uma criancinha?

da Turquia para celebrar o

Jesus Cristo e a continuidade

aceitos nas comunidades

previsões que, alimentadas

Por fim a mirra. Era um un-

Natal. Nesse dia morreram. E

da sua missão de anunciar o

cristãs. Os pagãos, por sua

pelo sentimento religioso,

guento usado, principalmente,

seus corpos estão sepultados

Reino de Deus. Deve-se, por-

vez, não entendiam porque

manifestavam o desejo dos

na preparação dos corpos

na catedral de Colônia, Ale-

tanto, sempre estar atento à

deveriam assumir valores

deuses e a realização dos

a serem sepultados. Ora,

manha. O mais importante e

lição que o texto evangélico

judaicos se a sua conversão

destinos do mundo e das

oferecer isso a um nenê!...

totalmente verdadeiro, porém,

apresenta. O que estaria sub-

era para Jesus Cristo. Esta

pessoas. Mateus, ao colocar a

Percebe-se, claramente, que

é que os magos representam

jacente à narrativa da visita

controvérsia desembocou no

presença dos magos, mostra

há outra intenção - e muito

as pessoas do mundo inteiro

dos magos? Ao menos duas

concílio de Jerusalém (Atos

que são pagãos de qualidade

mais abrangente - na apresen-

que se deixam guiar pela

intuições estão presentes:

dos Apóstolos, 15). É neste

a procurar e a adorar Jesus

tação do episódio dos magos.

mensagem de paz e amor de

quem reconhece Jesus são

contexto que os evangelhos

Cristo. Com isto oferece, aos

A mensagem que fica para

Jesus Cristo!


Reflexão e Práxis

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Jornal do Meio 883 Sexta 13 • Janeiro • 2017

PALAVRAS CRUZADAS DIRETAS

recorde com o Congresso Nacional

do governo federal e eliminariam as con-

provando medidas com uma pressa cuja

trapartidas?

explicação é clara e sem nenhum diálogo

Os escândalos de corrupção cada vez mais

com a sociedade.

numerosos e com cifras que ultrapassam

Na mesma semana que o governo federal

4 trilhões de reais, prefeitos que pagam

anunciou o plano final de aumentos para

altíssimas fianças, outros condenados pela

os servidores públicos, com um impacto de

Justiça ou acusados de associação com o

mais de 3 bilhoes nas contas do Estado, foi

crime organizado mostram o panorama

anunciado o novo valor do salário mínimo

político e social que temos em 2017.

que terá um impacto de mais de 2 bilho-

Enquanto isso, em Bragança Paulista, as-

es nas mesmas contas. Qual a lógica do

sistimos uma mistura de falta de convicção

exemplo citado? Garanto um aumento com

política, de caráter e de muito oportunismo,

impacto de 3 bilhoes e reduzo o aumento

marcado pela busca de um “carginho”na

do salário mínimo pelo impacto que um

nova administração municipal, que pode

aumento maior teria nas cotas públicas?

ser confirmado quando pensamos nas

Outra questão curiosa – a falência de inú-

posições políticas de algumas pessoas nas

meros Estados brasileiros, incapazes de

últimas eleições que se colocavam como

honrar seus compromissos, como salários

criticas vorazes do atual prefeito. Muitos

de servidores, e com prefeitos presos ou

oportunistas que trocaram de grupos polí-

desaparecidos, tornando explícita a cala-

ticos por mera conveniência, na esperança

midade política que o Brasil experimenta.

de ganhar algo e por um egoísta interesse

Vale pensar com calma o exemplo do Estado

pessoal tornando clara a falta de visão

do Rio de Janeiro. Este Estado recebeu os

política e de uma ideia do que seja o fazer

Jogos Panamericanos, estourou o orçamento

Política, ou seja, não há um plano coletivo.

em 444% e teve as investigações arquivadas;

O que há é o interesse em ganhar sabe lá o

foi a sede principal da Copa do Mundo, que

quê e de que forma for possível.

também estourou os orçamentos; e recebeu

Portanto, temos poucos motivos para

as Olimpíadas, que, sem surpresa, também

comemorar neste início de ano, restando,

estourou o orçamento. Tudo isso em dos

como de costume, o esperar e torcer para

primeiros Estados a decretar falência e

que a lógica perversa da péssima atuação

a pedir auxílio ao governo federal e que

do Estado, aquela do acertamos nosso

ficou ainda mais em evidencia pelos casos

lado e fazemos o mínimo para os outros,

de corrupção e pelas prisões de alguns de

infelizmente funcione, condenando ao es-

seus principais políticos.

quecimento, à pobreza e à morte milhares

Com relação ao auxílio do governo federal,

de pessoas em todo o país.

uma série de exigências feitas aos Estados para o recebimento do auxílio foram reti-

Pedro Marcelo Galasso - cientista político,

radas pelos deputados federais o que fez

professor e escritor.

o presidente Temer barrar as alterações

E-mail: p.m.galasso@gmail.com

Vontade (fr.)

Simples; comum Anísio Teixeira, educador brasileiro

Local de comércio de antiguidades

Marco (?), imperador

Imposto bancário Viagem de avião

(?) Sharif, ator de "Funny Girl" (Cin.) O que o rico faz à toa (dito)

Traz à lembrança Veículo para viajar no espaço

Peça que faz o sino soar Carl Orff: compôs "Carmina Burana" "Metade", em "semicírculo"

Curso d'água como o Amazonas

(?) de Sá: 3º governador-geral do Brasil

Átomo energizado Fase sexual animal

Clube de futebol de Santa Catarina

Frequência de rádio Fonte do sal

Arthur Moreira Lima, pianista brasileiro

Camada de gás que envolve a Terra BANCO

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Solução T A M A N H O F A M I L I A

deputados federais alterariam o projeto

O pneu gasto (pop.) Isento

S E N Z C O E R E C E L A T R A R I I O V O C A O O N A M A V A F E R

feitas pelos nobres deputados. Por que os

didas pouco populares em tempo

Filtrem (o café)

X I N F L U G U I P C A I A M E RO E X A A NT I Q U O M A R R I E B A D A L C O I I C O S EM I T M O S

O governo federal tem tomado me-

Sigilosa Forma de (?) Rosa: pizzas o Poeta Papagaio da Vila da Disney

Agressão sofrida Bebida por vários jogadores alcoólica de futebol negros de sabor na Europa doce

A

por pedro marcelo galasso

© Revistas COQUETEL

A primeira incógnita algébrica Vírus responsável por surtos de gripe (Med.) Apelido de Guilherme Louça do lavabo

3/pia. 4/élan — omar. 6/careca. 7/aurélio — eximido. 10/antiquário.

Desmedidas do Brasil

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Jornal do Meio 883 Sexta 13 • Janeiro • 2017

por GABRIEL ALVES/FOLHAPRESS

Sabe qual é a importância que os

referência a lei de 1966, que diz que “o

aos dados. Aqui, vale lembrar que a regra

fácil de ser resolvido. Os Estados preci-

governos dos mais de dez Estados

intercâmbio de informação sigilosa será

derivada da Constituição seria exigir, no

sam adotar uma política de privacidade

que implantaram programas de

realizado mediante processo regularmente

mínimo, ou o consentimento do usuário

completa e bem redigida, passando a

“nota fiscal” dão à privacidade dos seus

instaurado”.

ou uma autorização judicial prévia para o

lidar de forma séria com o tema. Seria um

cidadãos? Nenhuma.

Isso dá a entender que um mero processo

compartilhamento com outras autoridades.

componente importante de um programa

É o que mostra um interessante estudo

administrativo permitiria o livre acesso

A boa notícia é que esse é um problema

que é desejável e bem-sucedido.

feito pelo professor Jorge Machado e Foto: Almeida Rocha/Folhapress

o pesquisador Bruno Bioni, ambos da USP, com o título “A proteção dos dados pessoais nos programas de Nota Fiscal”. Esses programas foram criados para estimular que consumidores exijam a nota na hora da compra, reduzindo a sonegação. Para isso, devolvem parte do ICMS. Para funcionar, é necessário coletar alguns dados sobre o cidadão, tal como CPF e valor da compra. No entanto, os autores mostram que os Estados vão muito além do que seria necessário para o programa funcionar. Por exemplo, coletam a identificação dos itens adquiridos, quantidade e marca, o local da compra, o nome do estabelecimento, dia e hora exata em que a compra foi feita. Com isso, é possível descobrir informações sensíveis sobre qualquer pessoa. Por exemplo, se costuma comprar fraldas com frequência, é provável que tenha um bebê em casa. E assim por diante. A pergunta é: como esses dados são protegidos? Quem pode ter acesso a eles? A resposta do estudo é desalentadora. Dos 11 Estados pesquisados mais o Distrito Federal, nenhum possui política de proteção à privacidade. Mais do que isso: nenhum informa sequer como os dados são usados, protegidos, analisados. Se há cessão dos dados para terceiros, por quanto tempo são guardados, ou se há possibilidade de pedir que sejam apagados ou retificados. Ou seja, nada, niente, nichts. Diante da inexistência de informações, os pesquisadores enviaram um questionário de 26 perguntas ao Estado de São Paulo, por meio da Lei de Acesso à Informação. Perguntaram, por exemplo, se os dados podem ser cedidos à Receita Federal para identificar sonegadores. Ou, ainda, se podem ser acessados pela polícia, com ou sem ordem judicial. A resposta foi enigmática. Relatou que os dados são acessados por “usuários autorizados”, sem dizer quem são. Disse ainda que todos os dados ficam de fato armazenados nos servidores da Secretaria da Fazenda, sem dizer por quanto tempo. Sobre a hipótese de os dados poderem ser cedidos à Receita ou acessados pela polícia, a resposta foi preocupante. Fez

Governo paulista diz que dados são acessados por ‘usuários autorizados’, sem dizer quem são.


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Arquitetura para ler Leva de livros injeta algum vigor ao fim de um ano difícil também para a turma das pranchetas

Por RAUL JUSTE LORES/FOLHAPRESS

O ano que terminou foi horrível também para a arquitetura brasileira. Encomendas foram adiadas ou canceladas, escritórios tiveram que demitir vários profissionais, e projetos de urbanismo continuaram a rechear gavetas públicas. Panorama semelhante havia acontecido mesmo nos anos do boom econômico, quando arquitetos ficaram ao longe dos debates sobre Copa do Mundo e da execução do Minha Casa, Minha Vida. As boas surpresas ficarão reservadas a quem lê e consome informação sobre arquitetura –o patrimônio construído da cidade, prédios clássicos paulistanos, trabalhos de um jovem escritório de sucesso e uma bem-vinda história dos espaços públicos em São Paulo estão entre os lançamentos editoriais deste último bimestre. A ESCOLA MÍTICA Segundo volume da série “Obras Fundamentais”, editado pela faculdade de arquitetura Escola da Cidade, é dedicado à sede da congênere uspiana, abrigada no prédio mais interessante e ousado da Cidade Universitária. O livro traz muitas plantas, fotos e detalhes do edifício brutalista erguido nos anos 60 no então distante bairro do Butantã, e ensaios de vários autores. Há um texto importante de Silvio Oksman que inquire sobre como preservar obras tombadas sem condená-las ao congelamento. O EDIFÍCIO DA FAU-USP DE VILANOVA ARTIGAS AUTOR Antonio Carlos Barossi (org.) EDITORA Editora da Cidade

Quanto R$ 90 (208 págs.) JOVEM GUARDA Entre os raros formados pela FAU-USP que declararam independência do brutalismo de Vilanova Artigas, Marcelo Morettin e Vinicius Andrade apresentam neste livro projetos seus da última década, como o Vilela 3, no Tatuapé, para a construtora Porte, e o Pop e o Box 298, ambos na Vila Madalena, para a Zarvos. O livro traz ainda dois trabalhos que venceram concursos de projetos: o novo campus do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio, e a nova sede do Instituto Moreira Salles, na Paulista, obra em fase de acabamento. CADERNOS DE ARQUITETURA - ANDRADE MORETTIN AUTORES Vinicius Andrade E Marcelo Morettin EDITORA Bei Quanto R$ 120 (208 págs.) FLANANDO PELA CIDADE Editado de forma independente pelos autores, o vol. 2 do livro ‘Prédios de São Paulo’ propõe um percurso bastante livre pelo melhor da arquitetura paulistana entre 1910 e 2014, em que excelentes fotos e textos curtos contam a história e os traços de 36 edifícios de São Paulo. Entre os selecionados, há vários nada óbvios, que merecem um passeio ao vivo para quem gosta de flanar: o Banco Francês e Italiano (de 1919), o Prédio Santo Antônio, na r. João Moura, da década de 20, e o Albina (1962), na Conselheiro Brotero. Há ainda imagens de aspectos não visíveis da calçada, como a cobertura

do edifício Anchieta, na esquina da av. Paulista com Consolação, ou as áreas comuns do Saint Honoré, na Paulista, um predecessor da estética Jetsons. No final do livro, uma esperança de que o pior da arquitetura paulistana tenha ficado para trás: há cinco empreendimentos residenciais de qualidade feitos recentemente. PRÉDIOS DE SÃO PAULO (VOL. 2) AUTORES Matteo Gavazzi, Milena Leonel, Emiliano Hagge e Carolina Mossin EDITORA independente (à venda em prediosdesaopaulo.com) Quanto R$ 100 (228 págs.) CASA DE FERREIRO Paulo Mendes da Rocha, o arquiteto brasileiro vivo com mais prêmios internacionais, ganha este pequeno e delicado livro sobre a casa que construiu para viver com a família dos anos 1970 aos 1990. O livro traz comentários do autor sobre cada elemento da residência em concreto aparente projetada em 1964, no estilo brutalista da Escola Paulista. Ele fala sobre o piso de madeira, as claraboias na cobertura, o desenho das portas, a escada e o aproveitamento da água de chuva. Plantas e desenhos do arquiteto são acompanhados por textos de Catherine Otondo, organizadora do volume. Na infância, ela foi vizinha da casa no paulistano bairro do Butantã, ‘uma casa sem pintura e sempre aberta’, como define. Há ainda um ensaio do professor Flávio Motta, que escreveu sobre a obra em 1967, na finada revista ‘Acrópole’, e fotos do filho do arquiteto, Lito Mendes da Rocha. É uma rara oportunidade

de ver sua obra residencial –por muito tempo, o autor preferia destacar suas obras públicas em detrimento das obras privadas. CASA BUTANTÃ AUTORES Catherine Otondo (org.); Lito Mendes da Rocha (fotos) EDITORA Ubu Quanto R$ 79,90 (112 págs.) O PÚBLICO E O PRIVADO O administrador de empresas Mauro Calliari consegue, a partir dos estudos feitos para sua dissertação de mestrado, descrever de forma simples, sem jargão acadêmico, a ciclotímica relação dos paulistanos com o espaço público. A partir de uma constatação recente –a de que os paulistanos passaram, nos últimos 20 anos, a evitar o êxodo urbano no Carnaval para ficar na cidade e curtir os blocos de rua– Calliari explica as origens da redescoberta da ocupação de ruas, praças e viadutos. Ele relembra o Plano de Avenidas, de Prestes Maia, com sua visão rodoviarista e que privilegiava o transporte individual –plano para o qual não faltou verba–, e a cidade de muros e grades que vingou desde os anos 1960 até o início dos anos 2000. Após explicar a legibilidade de espaços públicos de qualidade, das ‘ramblas’ de Barcelona, na Espanha, à Lapa, no Rio, ele conta o que, afinal, define os atrativos desses locais. ESPAÇO PÚBLICO E URBANIDADE EM SÃO PAULO AUTORES Mauro Calliari EDITORA Bei Quanto R$ 90 (208 págs.) Foto: Divulgação 31.10.2015

A Casa Butantã, de Paulo Mendes da Rocha, é tema de livro.


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Saúde

Jornal do Meio 883 Sexta 13 • Janeiro • 2017

50 % de pulmão

Após ter descoberto doença rara e progressiva, italiano que vive no Brasil conta como percepção de vida mudou com a condição

Por MIRIAN GOLDENBERG /FOLHAPRESS

Há pouco mais de cinco anos, quando o ítalo-brasileiro Michele Lebani, 80, caminhava em um parque, surgiu a falta de ar. Segundo o primeiro médico que visitou, não era nada sério. O problema era que a ausência do ar não passava. E, bem ou mal, até hoje não passou. Lebani nasceu na bela Costa Amalfitana, na região de Salerno, na Itália. Em 1952, aos 15 anos, veio com a família para o Brasil. Ano passado ele completou 50 anos de casado com sua mulher, Neide, mas as comemorações foram suspensas por causa de uma nova parceira que deve estar presente por toda a vida. Ele tem uma doença conhecida como fibrose pulmonar idiopática. Trata-se de uma condição em que a parte do pulmão responsável por fazer as trocas gasosas entre sangue e o ar inspirado acaba sendo reduzida, ao ser substituída por um tecido fibroso, como se fosse uma cicatriz, inerte e sem função. “Idiopática” porque não se sabe a origem da doença. “E quando é assim, é o pior prognóstico”, diz o pneumologista Carlos Pereira, da Universidade Federal de São Paulo, que atende Lebani. “Após o diagnóstico, a expectativa de vida é de três a quatro anos”. O tempo é curto também porque o diagnóstico definitivo demora a acontecer. No caso de Lebani foram quase dois anos. Em 70% dos casos dá pra bater o martelo só com a exames de imagem (radiografia e tomografia). Nos demais, só com uma biópsia. A chave para o diagnóstico, afirma o médico, é o som produzido pelos “estertores em velcro”, no jargão da área, uma assinatura da doença. Segundo ele, 90% dos casos podem ser identificados dessa maneira. Ele avalia que muitos médicos generalistas e até especialistas não sabem identificar corretamente a fibrose pulmonar idiopática. Existem alguns possíveis gatilhos para a doença: quem fuma tem maior risco, assim como quem tem refluxo gastroesofágico (a entrada do material gástrico nas vias aéreas pode desencadear o processo). Também há o risco de infecções virais iniciarem o problema, afirma Pereira. Os sintomas aparecem de repente e são facilmente confundidos com outras doenças pulmonares (como tuberculose) e com doenças cardíacas. Além da falta de ar progressiva, podem surgir tosse e irritação nas vias aéreas. Após chegar ao Brasil, Lebani trabalhou em um depósito de material para construção, em serralheria e como metalúrgico. Depois virou empresário, atuando na área de loteamentos e construção civil. Ele foi fisicamente ativo por toda a vida e não esperava que uma doença assim pudesse acometê-lo. O empresário já tinha tido uma experiência marcante em relação à sua saúde, quando teve de tirar o que parecia ser o começo de um câncer na garganta. A remoção do tumor levou junto um pedaço de uma prega vocal, deixando sua voz rouca. Desafiou a sorte também outras vezes: uma vez foi atropelado por um caminhão, outra por um ônibus e em três ocasiões foi ameaçado com armas de fogo em tentativas de roubo, relata à reportagem.

“Após o diagnóstico da fibrose pulmonar, não me apavorei. Tentei pensar da mesma forma de quando fui operar a garganta: ainda bem que descobri a tempo”, diz. Com a doença, a capacidade pulmonar, ou seja, a quantidade de ar que cabe no órgão, é reduzida. No caso de Lebani, essa capacidade está atualmente em 50% –o suficiente para as atividades diárias dentro de casa, para dirigir e para trabalhar em seu escritório, no centro de São Paulo. “Quando tenho algo para fazer, eu nem penso na doença. É como se ela não existisse”. Em um futuro não muito distante, pode ser que Lebani tenha de utilizar cilindros de oxigênio para garantir que o organismo receba a quantidade adequada do gás. “O melhor dos cenários é a não progressão –não há recuperação da função perdida”, afirma o pneumologista. “Prefiro pensar na vida como um tanque de gasolina. Na largada alguns têm combustível para viver cem anos, outros têm 50 e outros menos ainda. O que importa é viver bem com tudo que o seu tanque permite”, diz. “Quando chega a hora, você não escapa, então não adianta se preocupar com o que vai ocorrer.” “Se eu tiver que usar um balão de oxigênio, fazer o quê? Eu uso. Mas talvez eu não tenha motivação para sair de casa.” Ele foi à Espanha e viu a seleção italiana ganhar a Copa do Mundo de 1982 e viajou para várias cidades europeias, mas hoje conta ter perdido a vontade de viajar. “Não quero conhecer mais nada. Acho que só a Sicília, na Itália”. A doença, progressiva, parou de evoluir em Lebani após uso de um novo remédio à base de esilato de nintedanibe (vendido com o nome de Ofev). A droga inibe a proliferação e movimento dos fibroblastos, células que, ao se alojarem no pulmão causam a fibrose. Em estudo que durou um ano, 10% dos pacientes, porém, não responderam à droga e 20% desistiram do teste por causa dos sintomas gastrointestinais, como diarreia. Estima-se que no Brasil mais de 15 mil pessoas sofram com a doença, a grande maioria ainda não diagnosticada. “O que as sociedades médicas e associações de pacientes querem é a incorporação do medicamento na lista de medicamentos de alto custo do SUS”, diz Pereira. O desejo, porém, esbarra no valor alto –cerca de R$ 13 mil ao mês. Como costuma acontecer com novas drogas, a judicialização vira o caminho de acesso à droga. “Prefiro pensar na vida como um tanque de gasolina. Na largada alguns têm combustível para viver cem anos, outros têm 50 e outros menos ainda. O que importa é você viver bem com tudo que o seu tanque permite MICHELE LEBANI, 80 -EMPRESÁRIO NASCIMENTO - Bélgica, em 1959 FORMAÇÃO -Formou-se bacharel em 1983 e obteve seu PhD em 1989 em física atômica no Technion (Instituto de Tecnologia de Israel). Fez pós-doutorado no Laboratório Nacional de Argonne, nos arredores de Chicago CARREIRA - Foi eleito presidente do Instituto Weizmann em 2006, aos 47 anos. É o mais jovem a ter assumido essa posição

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Michele Lebani, 80, que tem fibrose pulmonar idiopática.


Saúde

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Mala de viagem Mala de viagem deve incluir remédios para socorro rápido

por LUCILENE OLIVEIRA /FOLHAPRESS Arte: Folhapress

Especialistas sugerem ida preventiva ao médico. Férias com crianças também requer mais cuidados Para garantir que os dias de descanso fora de casa não sejam interrompidos por alguma dor de cabeça ou por aquela indesejada má digestão, é fundamental levar na bagagem um kit de medicamentos para utilizar em casos de emergência. Especialistas afirmam que o estojo de remédios deve ser reforçado quando a viagem inclui crianças. Além dos frascos de remédio, é fundamental preparar um kit de primeiros socorros -com itens como antisséptico e material para curativo- para usar imediatamente em casos de quedas ou cortes e assim, evitar infecções. “Nunca dá para prever quando a criança vai ter um problema de saúde ou sofrer um pequeno acidente. Os pais devem sair de casa preparados para tudo porque pode ser que eles estejam em um local com difícil acesso a uma farmácia ou hospital e terá de se virar sozinho”, disse o pediatra Alexandre Okamori, da Rede de Hospitais São Camilo. O especialista destaca a importância de antes da viagem os pais procurarem um médico para obter orientações sobre a dosagem dos produtos. O profissional também pode indicar remédios possíveis de serem usados pelo paciente em caso de necessidade, pois isso evita os riscos da automedicação. Okamori destaca também que, por ser um medicamento seguro, o antialérgico pode ser usado sem grandes preocupações dos responsáveis pelas crianças após picadas de insetos. Mas ressalta que é necessário fazer a prevenção, usando repelentes nos em um local de mata. É preciso conter no estojo de medicamentos, também, remédios para o alívio de azia e má digestão. “As pessoas costumam exagerar na comida nesses dias, por isso é preciso ter um remédio na mão para aliviar incômodos estomacais”, afirmou o clínico geral e geriatra do Hospital das Clínicas Paulo Camiz. Ações simples podem evitar transtornos Atitudes simples podem ajudar a evitar desconfortos. “O uso do protetor solar, óculos solar, boné e o consumo abundante de água são atitudes cruciais para evitar dor de cabeça neste período”, diz o clínico geral e geriatra do Hospital das Clínicas Paulo Camiz. Pode impedir uma insolação, por exemplo. Ele ainda sugere remédio contra enjoo meia hora antes de atividade em que a pessoa costuma passar mal.


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Jornal do Meio 883 Sexta 13 • Janeiro • 2017

883 Edição 13.01.2017  
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