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Braganรงa Paulista

Quinta 08 Julho 2010

Nยบ 543 - ano IX jornal@jornaldomeio.com.br

jornal do meio

(11) 4032-3919


quinta 08 • julho • 2010 Jornal do Meio 543

Para Pensar

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EXPEDIENTE

NÃO É JUSTO!

E-mail: jornal@jornaldomeio.com.br Diretor Responsável: Carlos Henrique Picarelli Jornalista Responsável: Alexandra Calbilho (mtb: 36 444)

MONS. GIOVANNI BARRESE

Penso que os leitores têm acompanhado as notícias das enchentes ocorridas nos estados de Pernambuco e Alagoas. Certamente nos condoemos com as perdas de vidas humanas. Também com as perdas das casas, dos bens. Também com a destruição de, praticamente, toda documentação de algumas prefeituras e fóruns. E, como sempre, percebe-se no povo o desejo de ajudar, de socorrer as vítimas. Confesso minha ignorância a respeito de catástrofes como as que ocorreram no Nordeste. A não ser pelo rompimento dos açudes. Assistindo uma reportagem fiquei sabendo que, nas regiões atingidas, o fato não era novo. Segundo depoimentos já em 1982 e 1989 ocorreram inundações. Menores que a deste ano, mas causadoras de estragos. Isto me levou a fazer ligação imediata com as enchentes que, todos os anos, atingem o sul do Brasil. Também a capital do nosso

Jornal do Meio Rua Santa Clara, 730 Centro - Bragança Pta. Tel/Fax: (11) 4032-3919

estado. Vi a promessa do presidente Lula de liberar 550 milhões para reconstrução das cidades arrasadas. Vi noticiário dizendo que falsos desabrigados estão se inscrevendo para ter casas. Ouvi de um menino (deve ter uns 10 anos) que a culpa não era de Deus: “Era da água mesmo!” Testemunhei o esforço de centenas de pessoas em enviar alimentos, roupas, remédios. Isso tudo me fez sentir uma sensação de inconformismo. Meu primeiro pensamento foi: “Por que o povo deve sempre correr para juntar o possível e o impossível sendo que o Poder Público parece não ter competência para gerenciar situações de risco?” Como é possível, com a experiência de perdas anteriores, não tomar medidas concretas que previnam, amenizem e resolvam definitivamente esses problemas? Se existe dinheiro para catástrofes, por que não usá-lo para preveni-las? Sabendo que partes de nossas cida-

des foram construídas em várzeas, por que não reestruturar, remover? Penso que poderão dizer que o custo é muito alto. Mas até quando o dinheiro será o fator preponderante? Adianta consolar mãe que perde filho num deslizamento quando o necessário era criar condição para saída de situação de risco? Além do mais, como agir quando o dinheiro prometido parece não chegar nunca? A sociedade parece inerme diante das medidas necessárias. Em Atibaia, onde exerço meu ministério, vive-se a situação de promessa de liberação de recursos para os estragos feitos no verão passado. O dinheiro prometido pelo Estado e pela União ainda não chegou! Para cerca de 34 famílias que perderam seus barracos apenas 24 tem possibilidade de ter sua casinha de alvenaria. Num desses dias estive na cidade de Francisco Morato. Pude notar inúmeras construções feitas em barrancos. Algumas com enormes

alicerces aparentes. A parte exposta mostrando-se enterrada ladeira abaixo. Como se aquilo fosse seguro numa movimentação de terra. Claro que sei que quem ganha pouco ou quase nada vai se arranjando como é possível. Com a esperança que nada aconteça. Mas quanto tempo ainda vai demorar para que caminhemos para uma educação que possibilite a consciência cidadã. Será que deveremos ainda suportar séculos de políticas de favores e leniência? Parece que hoje todas as cidades têm seus planos diretores. O que dificulta a sua implantação? Olhando tudo isso não acho justo jogar sempre sobre as costas do povo o socorro em situações de aflição. Não sou contrário à solidariedade. Creio que a dor do irmão deve ser nossa dor. Mas não está na hora de uma exigência mais profunda em relação àqueles que exercem o poder em nome de todos para que medidas enérgicas e soluções defi-

As opiniões emitidas em colunas e artigos são de responsabilidade dos autores e não, necessariamente, da direção deste orgão. As colunas: Casa & Reforma, Teen, Informática, Antenado e Comportamento são em parceria com a FOLHA PRESS Esta publicação é encartada no Bragança Jornal Diário às Sextas-Feiras e não pode ser vendida separadamente. Impresso nas gráficas do Jornal do Meio Ltda.

nitivas sejam tomadas? Ou vamos continuar, ano após ano, a juntar roupas, remédios, alimentos para socorro? Será que não mexe com a nossa consciência todo ano escutar “Perdi meu marido, minha mulher, meus filhos?”, “Perdi tudo!” Ainda bem que uma criança percebeu que o sofrimento não foi mandado por Deus e soube perceber que a água é que causou tudo! Um dia ela vai saber que não foi a água. Foram aqueles que não fizeram a coisa certa: deixaram construir onde não se poderia ou sabendo que não era permitido quiseram ser espertos.


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Endurecer, sem perder a ternura Como é ser mulher numa banda de rock

por SHEL ALMEIDA

entusiasmado, dão um “chega pra lá”. Segundo ela, os que se aproximam geralmente estranham seu jeito de ser natural, pois a julgam pelo que vêem no palco. “Criam uma personagem de mim”. Alegre e bonita aprendeu a se impor também para a platéia, acostumada a ver homens cantando covers do heavy metal. Já tocou muitas vezes Love Metal em moto clubes e conta Andressa Alves Aparecido, 24 anos, começou que “o pessoal mais velho a cantar ainda criança em festas da família. A olhava torto”, coisa que brincadeira ficou séria quando o irmão mais já não acontece mais. Ela velho lhe apresentou o heavy metal de bandas tenta aproximar sua voz Luciana toca bateria desde criança como Deep Purple e Iron Maiden. A partir e respiração à do cantor, de então, como hobby, passou a estudar as mas ainda assim procura éramos a única com vocal feminino”, conta músicas para aperfeiçoar o canto. Dali para deixar sua identidade na os shows foi questão de tempo. Em 2003, música. Além disso, estuda inglês para não envaidecida. Talvez por conviver com muitos através do ex-namorado, conheceu os rapazes cometer equívocos. Muita gente no come- homens, já aprontou algumas molecagens: que viriam a formar com ço estranha uma mulher “Terminou o show e o pessoal começou a ela a banda Nightmare. cantar músicas conhecidas pular do palco na platéia. Eu pulei também, Mulher tem que na voz de homens, mas eles me pegaram, mas jogaram pra cima de Mesmo se considerando fazer duas vezes o que o justamente por conseguir novo e não conseguiram pegar de volta. Caí tímida, enfrentou o desafio homem faz. As pessoas inserir sua personalidade de cabeça”, ri, apesar do perigo. do palco e não parou mais. “Superei muitas barreiras”, olham e pensam se vou é que recebe elogios. Suas Batera ela diz. Logo que a primeira dar conta do recado. maiores referências são Luciana Paes, 29 anos, toca bateria desde os banda acabou, já entrou Precisa ter competência Bruce Dickinson, do Iron seis, incentivada pelo pai músico. “Quando em outra, a Remorse, onde Maiden, Ronnie James eu era criança ele montou uma bateria do ficou conhecida na região Dio, do Black Sabbath Luciana Paes bragantina. Hoje canta e principalmente Tarja meu tamanho pra eu poder tocar”, conta. clássicos do rock, no estilo love metal, na Turunen, ex – Nightwish: “Me identifiquei Começou se apresentando na banda da igreja The Casting. Única mulher na banda, tem os com ela nos gestos e na música, entrou na que freqüentava. “Eles não achavam que uma parceiros como irmãos, mas sabe que precisa minha veia. Não consigo mais assimilar lírico menina pudesse tocar bateria. Mas ou era eu impor limites. “Se você se dá ao respeito, sem rock’n’roll”, diz. A maior conquista que ou não era ninguém.” Logo depois conheceu cria uma barreira”, afirma. “Não quero que alcançou como cantora foi quando ganhou o rock’n’roll e se identificou com o ritmo. Para acabe o cavalheirismo”. Quando é preciso eles o Festival de Rock de Pedra Bela, na época ela, quando toca é o momento em que é mais a defendem: se alguém chegar até ela mais com o Remorse. “Das dezesseis bandas, feliz “Parece que a gente faz parte de uma coisa só”, diz. Luciana, que já tocou em cerca de cinco bandas, hoje faz parte da BKP. Como bateria é um instrumento difícil de carregar e montar os ensaios geralmente acontecem na casa dela. “Tem que ter vizinho bacana, porque domingo de manhã é dia de passar repertório”, ri. Depois de alguns problemas com proprietários de imóveis que alugava, por reclamações, resolveu comprar uma casa. E com um quarto exclusivo para a bateria. “É como uma filha”, ela sorri. Quando vai se apresentar é comum as pessoas estranharem que, justamente ela, a única mulher da banda, seja a baterista. Mesmo Andressa precisou se impor para o público do heavy metal o pai, que a influenciou

Apesar de o rock ter um quê de masculinidade, desde a época de Rita Lee muitas mulheres gostam e se identificam com os acordes da guitarra e todo o conceito que acompanha esse universo. Da platéia ao palco, elas conquistam seu espaço e deixam sua marca, sem se importar com quem ainda vê o estilo como algo ameaçador. Duas dessas mulheres, Andressa e Luciana, fazem da música ao mesmo tempo referência e refúgio na vida. Em especial no ambiente “roqueiro” sabem que precisam endurecer, sem perder a ternura.

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

musicalmente, chegou a pensar que esse não seria o instrumento adequado, mas se rendeu ao seu talento. Já chegou a ouvir de um segurança que o palco era lugar só para os músicos. “Mulher tem que fazer duas vezes o que o homem faz. As pessoas olham e pensam se vou dar conta do recado. Precisa ter competência” fala. Hoje já quebrou o rótulo de “mulher na bateria”, mas gosta de afirmar que é a “menina” da banda. “Eles precisam me ajudar a carregar as ferragens, é muito pesado.” A namorada, Max Nunes, 26 anos, com quem está há sete, dá apoio total. “É ela quem monta a bateria. A Max tem uma calma que eu não tenho pra elaboração da montagem.” Ela acompanha Luciana em 98% dos shows e já resolveu um problema num pedal durante um deles. “Tem que ter uma pessoa de confiança e raciocínio rápido por perto”, fala. Para ela, as pessoas acham que mulher toca delicadamente, mas não é assim. “O desempenho depende do público. Se a galera quer que eu ouse, sinto no olhar.” Suas principais influências são Aquiles Priester, ex- Angra e Vera Figueiredo, integrante da banda do programa Altas Horas. “Ela é uma referência por ser a pioneira, começou nos anos 80, era a única”, diz. Hoje Vera mantém o Instituto de Bateria Vera Figueiredo. Luciana diz ter tido sorte por crescer numa família envolvida com música. “As crianças estão com tudo hoje. É legal ver pais que apóiam. Tocar é uma terapia.” Para ela música serve para unir as pessoas. “Não importa o gênero ou estilo. Tem que ser bem tocada e o vocalista tem que ser afinado”.

Web Se quiser saber mais acesse: www.myspace.com/bandathecasting www.verafigueiredo.com.br


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INFORME PUBLICITÁRIO


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Teen

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Os feirantes Jovens brasileiros faturam alto em competição internacional de ciências

por DIOGO BERCITO /FOLHAPRESS

2010 é um ano de troféus para o

À noite, foi hora de aposentar a calculadora

Brasil - pelo menos para os alunos

e curtir as festas -sem álcool- do evento. E

responsáveis por 19 projetos pre-

teve paquera? “Rolou uma interculturalidade

miados durante a Intel Isef, a maior feira

muito grande!”, brinca ela.

estudantil de ciências do mundo.

A celebração, porém, não termina nem com

Foi a melhor participação do país no evento.

o fim do evento nem com a volta ao Brasil.

Rendeu medalhas e dólares a esses craques

Lucas Ferreira, 18, e Eduardo Boff, 18, já

dos livros e equipamentos de laboratório.

estão de olho na aplicação prática da prótese

O páreo foi competido por 1.600 estudantes

de baixo custo para amputações que lhes

de 56 países, reunidos em maio na cidade de

rendeu o segundo lugar no evento.

San Antonio (EUA).

“Estamos registrando a patente e pensando

“Foi inacreditável”, resume Alejandro Scaffa,

no uso industrial”, diz Lucas.

17, cuja pesquisa sobre produção de etanol

co, trocou suas válvulas e usou a engenhoca

Estudante volta à feira e leva R$ 20 mil em prêmios

para matar os micróbios presentes na garapa

Para brasileiros, o convite para a Isef é con-

da cana. Assim, conseguiu produzir etanol

quistado por bom resultado na Mostratec

com até 8% mais eficiência do que o obtido

(mostratec.com.br) ou na Febrace (febrace.

pelo processo usual.

org.br).

Tamara Gedankien, 17, foi outra que celebrou

Durante o ano passado, o Teen esteve nessas

a primeira colocação. Somados, seus prêmios

três feiras para conferir os projetos. Nesse

chegam a R$ 13 mil.

trajeto, foi possível ver de perto a evolução

Pela segunda vez no evento, a garota criou

de alguns dos estudantes.

um projeto de ensino que resgata conheci-

William Lopes, 20, por exemplo, não ganhou

mentos antigos. Por exemplo: no colégio em

nada na Isef de 2009 com seu projeto de retirar

que estuda, ensinou matemática para alunos

resíduos de corantes usando um fungo.

mais novos a partir de conceitos da Torá (o

Estudou mais e apresentou a mesma pro-

livro sagrado do judaísmo).

posta na feira deste ano. “Aprofundei a

A apresentação das pesquisas para os jura-

pesquisa”, diz.

dos, no pavilhão da feira, é um momento

Ganhou, além do segundo lugar (R$ 2.700),

solene. “Tem de usar até salto alto!”, diz

um prêmio de R$ 17 mil do Google, que

Tamara.

visitou seu estande e gostou do que viu.

foi premiada na categoria bioquímica. O garoto partiu de um micro-ondas domésti-

FOTO: DIVULGAÇÃO

Lucas e Eduardo criaram prótese FOTO: DIVULGAÇÃO

Tamara, 17, atualizou saberes antigos


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Casa & Reforma

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Guia do aluguel Em um mercado aquecido, leia dicas sobre como e onde procurar um imóvel residencial e que cuidados tomar antes de assinar o contrato de locação

por EDSON VALENTE /FOLHAPRESS

O aluguel de um imóvel começa muito antes da assinatura do contrato. Para dificultar a primeira fase desse processo a procura pelo bem, a demanda tem sido maior que a oferta no mercado de locação da cidade de São Paulo, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. Números do Secovi-SP (sindicato de administradoras e imobiliárias) mostram que os aluguéis na capital subiram 11,4%, em média, de abril de 2009 a abril de 2010. “Houve visível melhora na renda das pessoas”, explica José Augusto Viana Neto, presidente do Creci-SP (conselho de corretores). “Há mais gente com chance de procurar uma moradia.” Ele observa que cerca de 60% dos aluguéis na capital são os de até R$ 800, segundo pesquisa do Creci-SP referente ao mês de abril. “Faltam imóveis de um e de dois dormitórios”, afirma. “Em geral, quando há um inquilino saindo, não há possibilidade de o imóvel ficar uma semana vazio, seja ele de que categoria for.” O publicitário Moises Felippe Bertges, 24, conta ter passado dois meses procurando um apartamento para alugar depois de sair de uma quitinete na República (centro), em que pagava uma mensalidade de R$ 980. Além de ter se assustado com os preços, Bertges diz que as exigências de garantia impediram que ele fechasse negócio. “Não tenho fiador e eles [da imobiliária] pediam vários aluguéis adiantados, um dinheiro que não tenho.” O publicitário se refere ao depósito-caução de três mensalidades, uma das modalidades de garantia previstas pela lei. Agora ele pensa em partir para a compra de uma casa. “Prefiro pagar as prestações de um financiamento, mas o problema vai ser a entrada.”

ETAPAS Quem quer de fato alugar e não financiar

a casa própria precisa, em primeiro lugar, escolher a região em que quer morar. Outras decisões importantes vêm em seguida: achar um imóvel com documentação e manutenção em dia, providenciar a garantia pedida pelo locador ou pela imobiliária, conferir quais são os deveres do locatário e quais as obrigações do locador.

Mobilidade é principal fator na hora de escolher o imóvel para alugar Preços em alta e falta de oferta são os grandes empecilhos para quem procura um imóvel para alugar na cidade de São Paulo. Essas condições são verificadas em regiões periféricas, caso de distritos da zona leste, mas marcam sobretudo o mercado de locação de áreas centrais da cidade. “Pela mobilidade que oferecem”, diz Cicero Yagi, consultor imobiliário e responsável pelas pesquisas do Secovi-SP (sindicato do setor). “É a principal variável de decisão”, afirma. E é por essa razão que “as maiores altas se concentram no eixo do metrô, como no trecho entre as estações Ana Rosa e Jabaquara [zona sul]”, cita. Um exemplo de distrito valorizado é o de Pinheiros (zona oeste). A demanda perto da rua Teodoro Sampaio é de “jovens estudantes ou executivos solteiros na faixa de 25 anos”, define a corretora Graça Araújo, que atua no local. Eles alugam apartamentos de um quarto, 30 m2 e três anos de idade por valores de R$ 1.100 a R$ 1.300, mais R$ 350 de condomínio e IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), afirma a corretora. Em Moema (zona sul), outra região valorizada, a administradora de empresas Ana Cecília Amorim, 27, avalia que teve sorte

ao alugar um apartamento de 120 m2 “em andar alto” por R$ 2.200 mensais: “Foi um achado”. Recém-casada, ela diz ter desistido da compra de um imóvel. “Os preços estão inviáveis onde queremos morar - Moema, Vila Olímpia [zona oeste] e Itaim [idem]. No imóvel que alugamos, é preciso arrumar algumas coisinhas, mas vamos abater os gastos das mensalidades.” O centro ainda é uma opção para quem quer alugar, em bairros como Santa Cecília, Campos Elíseos, Liberdade e República, onde boa parte dos imóveis se destina à locação, caracteriza Yagi.

Escolha passa por entorno e vagas de garagem por ADRIANA CHAVES/FOLHAPRESS

As características do entorno são um aspecto importante na hora de escolher o imóvel que se deseja alugar. “É importante pensar na região, se ela oferece segurança e transporte, se costuma ter enchente, se há feira livre em frente ou barzinhos com barulho na porta”, reforça Roseli Hernandes, diretora da Lello Imóveis. “Devem-se considerar a comodidade, o fato de ser perto do trabalho ou da escola e se é um bairro em que se entra e de onde se sai tranquilamente”, ressalta. Imobiliárias que atuam na região pretendida costumam dar uma consultoria mais dirigida e oferecer mais opções de escolha. Quem possui carro precisa ainda se preocupar com o lugar em que vai estacioná-lo. “Tem gente com carro grande que deixa de alugar um imóvel porque percebe que o veículo não vai caber na vaga disponível. Também precisa ver se ela é coberta”, alerta Hernandes. EDITORIA DE ARTE\FOLHA IMAGEM


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Comportamento

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Quieto aí A barulheira da metrópole já faz seus estragos

por JULLIANE SILVEIRA /FOLHAPRESS

O consumo de calmantes e a queda de cabelo causada por estresse não têm relação com a vida pessoal e profissional da analista contábil Cristiane Alves, 35. A fonte de tensão é o barulho na sua casa, na zona sul de SP. As janelas antirruído não dão conta de barrar o volume alto dos carros nem o som dos bares. Houve noites em que foi dormir em um hotel. “O próximo passo será colocar forro de lã de rocha no teto. Um investimento louco. Deveria estar pagando uma pós, mas tenho de gastar dinheiro por causa da inconsciência alheia”, desabafa. Seu plano de médio prazo é se mudar de São Paulo. “Os bairros calmos foram muito valorizados e não tenho condições de ir para eles.” A exposição crônica a altos ruídos pode gerar mais danos do que perda auditiva e zumbido. Trabalhos científicos associam som alto a insônia, ansiedade, estresse, aumento da pressão arterial e alteração no funcionamento do estômago. Para Ayurveda, um dos mais antigos sistemas medicinais, o excesso de estímulo a algum FOTO: DANIEL MARENCO/FOLHAPRESS

O templo Busshinji, na Liberdade, é um destes lugares silenciosos

dos sentidos afeta o físico e a mente. “Barulho demais gera vibrações que aceleram o organismo”, diz o terapeuta Erick Schulz, vice-presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

De Berço Crianças já sentem os efeitos de ambientes ruidosos. Para seu pós-doutorado na Unicamp, a fonoaudióloga Keila Knobel está entrevistando alunos de sete a 11 anos sobre ruídos. Dados preliminares mostram que mais de 90% das crianças não gostam de música alta nem de barulho e sabem que esses sons fazem mal. Dizem que são expostas ao ruído pelos adultos. “Estamos em um mundo onde vence quem fala mais alto. Os alunos reclamam, mas eles mesmos não conseguem controlar o barulho que fazem”, diz Knobel. No Colégio Santa Maria, em São Paulo, a professora Luciana Proença criou o “minuto do silêncio”, em que seus alunos, de três anos, fazem uma pausa para pensar. “Eles não entendem o que é silêncio”, conta. Algumas iniciativas isoladas já indicam a necessidade de ouvir menos. O bar Sonique, em São Paulo, faz uma balada sem música ambiente. Quem quer dançar escuta o som em fones de ouvido. “Mesmo para o maior amante de música eletrônica, passar

horas ouvindo é maçante. Nas festa em silêncio, a equipe trabalha mais tranquila”, conta o gerente Daniel Maculan. Quando os retiros de silêncio surgiram no Brasil, achavam que era “coisa de louco”. Balada silenciosa no bar Sonique Nesses encontros, que duram dias, pratica-se meditação e todos ficam mudos a maior parte do tempo. “Hoje há vários retiros lotados. A necessidade é tanta que as pessoas pagam preços exorbitantes”, diz Schulz. No dia a dia, a saída é buscar oásis no caos. “Cerca de 15 minutos A área verde da Casa das Rosas, em plena Avenida longe do barulho já desPaulista, é um destes lugares silenciosos. cansa as células ciliadas efeito do silêncio no corpo e na mente. do ouvido”, diz a otorrinolaringologista Márcia Kii, do Instituto Seus achados são descritos no livro “In Pursuit of Silence” (Em busca do Silêncio, editora Gunz Sanchez. Com a ajuda de Kii, a reportagem mediu os Doubleday), ainda sem previsão de lançamento níveis de ruído de alguns lugares em São Paulo no Brasil. A experiência inspirou a criação do blog onde é possível descansar o ouvido. inpursuitofsilence.com. Para ele, o silêncio ‘O silêncio não pode ficar nos não deve se limitar a algumas religiões nem ser “commodity de butique”. guetos de religiões’ O escritor norte-americano George Prochnik “Muita gente não acredita em religião e saiu em busca do silêncio pelo mundo. Passou não tem dinheiro para sair do barulho. uma temporada em monastérios, visitou Quero mostrar que existem diferentes projetos e conversou com quem pesquisa o formas de silêncio.” FOTO: DIVULGAÇÃO/CÍNTIA SANCHEZ

FOTO: DANIEL MARENCO/FOLHAPRESS


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Informática

&

Tecnologia

Coisa de sociólogo Acadêmicos começam a explorar os mundos virtuais para tentar entender melhor o real

por RAFAEL CAPANEMA/FOLHAPRESS

Apinhados de criaturas fantásticas como elfos, goblins e trolls, os mundos virtuais estão sendo povoados por novas espécies: antropólogos, sociólogos e outros acadêmicos. Ao explorarem territórios do RPG on-line World of Warcraft e do Second Life, os estudiosos tentam compreender melhor o mundo real. Sai nos EUA ‘My Life as a Night Elf Priest: An Anthropological Account of World of Warcraft’ (Minha vida como um elfo-sacerdote noturno: um tratado antropológico de World of Warcraft), de Bonnie Nardi, que se soma a títulos como ‘The Warcraft Civilization: Social Science in a Virtual World’ (A civilização Warcraft: ciência social em um mundo virtual), do sociólogo William Sims Bainbridge. REALIDADE VIRTUAL Acompanhe a produção de livro sobre mundos virtuais, em inglês, em sites.google.com/ site/metaverseparadigms

‘Ainda somos pessoas quando jogamos’

Para especialista, as pesquisas sobre games não têm diferença nenhuma em relação a outras arenas sociais Hilde G. Corneliussen, professor de cultura digital da Universidade de Bergen, na Noruega, passou milhares de horas jogando o RPG on-line World of Warcraft, fazendo entrevistas com outros usuários e estudando o design do game para escrever ‘Digital Culture, Play, and Identity: A World of Warcraft Reader’ (Cultura digital, jogo e identidade: uma compilação de World of Warcraft, em tradução livre), publicado em 2008 pela editora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). ‘Fiquei fascinado com o jogo, com a forma como ele une pessoas de culturas diferentes, ao mesmo tempo em que você tem que se ajustar à cultura própria do game’, afirmou Corneliussen em entrevista à Reportagem. O pesquisador crê que World of Warcraft e outros mundos virtuais podem ajudar a melhor compreender a natureza humana porque, apesar de sintéticos, ‘são feitos por humanos e habitados por humanos’. ‘Certas condições e aspectos desses mundos faz a nós ou aos personagens que interpretamos realizar coisas e fazer escolhas que obviamente não faríamos na vida real’, afirma. ‘Ao mesmo tempo, ainda somos pessoas quando jogamos, nos encontramos e nos comunicamos com outras pessoas no jogo’. Segundo Corneliussen, as convenções de boas maneiras do mundo real se estendem

FOTO: REPRODUÇÃO

aos universos virtuais. ‘O que é considerado comportamento bom ou educado off-line é, na maior parte dos casos, considerado bom e educado no jogo’.

PESSOAS Para o pesquisador, não há diferenças entre os estudos tradicionais e aqueles feitos sobre mundos virtuais, já que são pessoas de verdade que os habitam. ‘Quando se focam as pessoas, estudar gamers não tem diferença nenhuma de estudar qualquer outra Cenas de Second Life arena social’. Depois dos meses de estudo, qual a constatação mais importante a que Corneliussen chegou? ‘Além do fato de jogos de computador serem muito divertidos também para mulheres de meia idade, você quer dizer?’, responde, bem humorado. E completa: ‘Considero o World of Warcraft uma plataforma interessante de cooperação. Enquanto escrevíamos o livro, nos encontrávamos no jogo mais ou menos uma vez por semana, para discutir, fazer planos e, é claro, jogar juntos. Ninguém disse que pesquisa científica precisa ser chata!’.

Lucrativo, Second Life continua vivo por ALEXANDRE ORRICO/FOLHAPRESS

Sumido das notícias e dos comentários nas redes sociais, o Second Life continua vivo. Pelo menos é o que diz o cofre da empresa: durante o primeiro trimestre de 2010 as movimentações financeiras entre usuários do serviço bateram recorde: chegaram a US$ 160 milhões, aumento de 30% em relação ao mesmo período do ano passado. A Xstreet, loja oficial de complementos para o ambiente virtual, também teve um trimestre em alta, com aumento de 84% em relação ao começo de 2009 e arrecadando US$ 2,3 milhões. Assim como o FarmVille e outros jogos, Second Life tem uma moeda própria, o Linden Dollar. Usuários podem comprar Lindens com dinheiro real para torrar com seu alter-ego virtual, e vice-versa: se seu personagem faturar com alguma atividade dentro do jogo, você pode transformar Lindens em dinheiro de verdade. Nesse caso, é cobrada uma taxa sobre as transações financeiras. De acordo com a empresa, 826 mil internautas acessaram o Second Life em março.

Em 2009 o site movimentou o valor de US$ 549 milhões. Estes e outros dados podem ser encontrados no blog oficial da companhia: blogs.secondlife.com.

Pesquisadores comentam influências dos mundos virtuais Metaverso é a terminologia usada para indicar um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade por meio de dispositivos digitais. O Second Life é um exemplo. O tema é o foco de um livro que está sendo editado por Nelson Zagalo, professor da Universidade do Minho, em Portugal. ‘O interesse é perceber qual o alcance comunicativo dos ambientes virtuais e de que modo estes afetam a identidade, a emoção, o entretenimento e a colaboração das pessoas’, diz Nelson. ‘O que acontece no ciberespaço não é muito diferente daquilo que acontece no mundo real, ao nível de relações sociais. Por isso, games como World of Warcraft podem servir para estabelecer modelos sobre a evolução dos processos sociais’, completa o professor. Zagalo chama ainda a atenção para a facilidade de registro das ações virtuais. ‘Podemos seguir um jogador 24 horas e ter acesso a todas as suas reações, quantificá-las e procurar padrões de comportamento’, explica. Thiago Falcão, doutorando em cibercultura da UFBA (Universidade Federal da Bahia), teve como objeto de mestrado a modificação da estrutura linguística pelo World of Warcraft. ‘Não é raro vermos que jogadores utilizam termos on-line no mundo off-line, com outros significados, como “lol’ [que significa risada em inglês] ou “cone’ [jogador ruim], o que causa confusão para quem não é do meio’, diz Falcão. O pesquisador comenta ainda que o game influencia o comportamento do jogador no mundo real, ‘mas a interferência

não é maior do que outro meio de comunicação’, ressalta.

Jogo virtual ocupa lacunas da nossa vida, diz pesquisadora por AMANDA DEMETRIO/FOLHAPRESS

Quando a pesquisadora Bonnie Nardi, da Universidade da Califórnia, colocou os olhos na vasto mundo virtual do World of Warcraft (WoW) percebeu que havia muita pesquisa a ser feita. Para ela, o WoW deve ser estudado porque está preenchendo lacunas em nossas vidas. Nardi afirma que, nos Estados Unidos, muitos vivem em subúrbios e não podem ir com facilidade a bares ou cafés e se divertir depois do trabalho. ‘E é isso que nós agora fazemos no WoW’. A pesquisadora também credita a fascinação pelo jogo ao caráter desafiador da disputa. ‘Alguns de nós temos trabalhos chatos, aos quais faltam desafios e, no WoW, existem vários desafios e divertidas recompensas’. A questão da autonomia que falta aos jogadores em seus trabalhos fora do game também explica a adesão ao WoW, para ela. ‘Nos dizem o que fazer e quando fazer e nós aceitamos, mas, no nosso tempo de lazer, queremos fazer o nosso próprio show’, diz. No WoW, o jogador pode escolher boa parte dos detalhes do seu personagem. Nardi também fez estudos sobre o comportamento de jogadores de WoW na China. ‘Lá, descobri que as pessoas jogam por razões parecidas com as dos americanos, mas elas fazem isso em cafés. Elas gostam de jogar sentadas ao lado dos colegas’. Segundo ela, outra diferença entre norteamericanos e chineses é que, na China, existe uma relutância em relação a jogadores do sexo masculino em jogar com personagens femininas. ‘Nos EUA, gamers homens frequentemente jogam com personagens femininas, porque gostam do jeito como as avatares se parecem.’


Seus Direitos e Deveres

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Cobrança indevida nas contas de telefone e energia GUSTAVO ANTÔNIO DE MORAES MONTAGNANA/ GABRIELA DE MORAES MONTAGNANA

Recentemente o Superior Tribunal de Justiça se pronunciou sobre uma questão que há tempos vinha sendo questionada no Poder Judiciário e que envolve a devolução em dobro de valores cobrados indevidamente do consumidor, pelas concessionárias, prestadoras de serviços de telefonia e energia elétrica nas respectivas contas de consumo. A cobrança indevida refere-se a duas contribuições sociais: PIS (Programa de Integração Social) e COFINS (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), que nos termos da legislação tributária em vigor, não incidem sobre a operação individualizada de cada consumidor, mas sobre o faturamento global da empresa, razão pela qual o contribuinte de tais tributos é a empresa e não o consumidor. As concessionárias procedem a referida cobrança, tranferindo o encargo ao consumidor, com fundamento em uma Resolução da Anatel. Tal resolução, contudo, não é válida, pois é necessária a existência de lei prevendo, expressamente, a possibilidade da cobrança, lei que inexiste em nosso ordenamento jurídico. Tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro são somente aqueles em relação aos quais a própria lei, em sentido estrito, estabeleça dita transferência. No caso das contas telefônicas os valores dos tributos são embutidos nas tarifas e sequer são discriminados na fatura. Sem saber, o consumidor paga todo mês o equivalente a 7,65% de sua conta de telefone a título de PIS/COFINS. Nas faturas de energia elétrica, ao contrário, os valores vêm discriminados no campo “Demostrativo: Impostos/Composição Tarifa”. Pelo entendimento do STJ, o repasse indevido do PIS e da Cofins na fatura telefônica configura “prática abusiva” das concessionárias, nos termos

do Código de Defesa do Consumidor, pois viola os princípios da boa-fé objetiva e da transparência, valendo-se da “fraqueza ou ignorância do consumidor” (artigo 39, IV, do CDC). O mesmo entendimento foi estendido às companhias de energia elétrica. A grande contribuição do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) ao regime das relações contratuais no Brasil foi ter positivado normas específicas impondo o respeito à boa-fé na formação e na execução dos contratos de consumo, confirmando o princípio da boa-fé como um princípio geral do direito brasileiro, como linha teleológica para a interpretação das normas de defesa do consumidor (artigo 4º, III, do CDC), como cláusula geral para a definição do que é abuso contratual (artigo 51, IV do CDC), como instrumento legal para a realização da harmonia e eqüidade das relações entre consumidores e fornecedores no mercado brasileiro (artigo 4º, I e II, do CDC) e como novo paradigma objetivo limitador da livre iniciativa e da autonomia da vontade. É o princípio máximo orientador do Código de Defesa do Consumidor e basilar de toda a conduta contratual que traz a idéia de cooperação, respeito e fidelidade nas relações contratuais. Refere-se aquela conduta que se espera das partes contratantes, com base na lealdade, de sorte que toda cláusula que infringir esse princípio é considerada, como abusiva. No que diz respeito ao aspecto contratual das relações de consumo, verifica-se que a boa-fé na conclusão do contrato é requisito que se exige do fornecedor e do consumidor, de modo a fazer com que haja “transparência” nas relações de consumo, e seja mantido o equilíbrio entre as partes. Note-se que a cobrança de PIS e da Cofins na fatura acarreta o enriquecimento ilícito do prestador de serviço, o verdadeiro responsável pela recolhimento

destes tributos, abusando da posição mais forte que ocupa na relação consumerista. A Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS, e o Programa de Integração Social - PIS são contribuições sociais com comandos no artigo 195, I da Constituição Federal de onde se obtém seus regimes jurídicos aplicáveis às contribuições, nos termos das normas gerais de direito tributário. Não havendo lei que prevê a repercussão do tributo do contribuinte de direito, quais sejam as concessionárias, para o contribuinte de fato, os consumidores, a tranferência do encargo tributário ao consumidor não pode ocorrer, sendo ilegal. Apenas o ICMS, imposto sobre circulação de mercadorias, pode ser cobrado dos consumidores, apesar de serem as empresas verdeiras contribuintes, conforme autoriza a própria Constituição Federal, tratandose assim de um tributo indireto. As constribuições sociais menciondas, por outro lado, são calassificadas como tributos diretos, tendo em vista que o contribuinte de fato e de direito residem na mesma pessoa. Não vislumbramos na natureza destes tributos a possibilidade de haver transferência do encargo financeiro para outra pessoa, que figuraria como contribuinte de fato. Por se tratar de cobrança indevida, o consumidor pessoa física ou jurídica tem direito a restituição em dobro dos valores cobrados, com juros de um por cento ao mês e correção monetária pelo índice do IGPM. Para tanto, deverá ingressar com uma Ação de Repetição de Indébito, pleiteando a devolução do valor cobrado nos últimos dez anos. Não é necessário que o consumidor possua todas as faturas de energia/telefone, mas apenas a última, devendo as demais ser exibidas em juízo pela concessionária ré. A questão, contudo, não é pacífica. As conces-

sionárias se defendem alegando que não repercussão jurídica do tributo, onde ocorreria uma substituição tributária, modificando-se o sujeito passivo da obrigação, o que, diga-se de passagem, como ressaltado, somente pode ser estabelecido em lei, a qual inexiste em nosso ordenamento jurídico. Alegam que a hipótese é de repercussão econômica da despesa com o tributo, assim como ocorre com os demais custos do serviço, repassado para o preço, tornando-se a atividade lucrativa. E que continuam obrigadas pelo recolhimento do tributo e por todas as suas obrigações acessórias, apenas repassando economicamente a despesa do serviço para a tarifa, conforme admite a resolução da agencia reguladora (Aneel), e nos limites estabelecidos por ela, a quem incumbe estabelecer a tarifa de energia elétrica. Recentemente a 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) interrompeu mais uma vez, por um pedido de vista, o julgamento sobre a legalidade do repasse do PIS e da Cofins na fatura telefônica. A Corte analisa um recurso da Brasil Telecom que contesta um acórdão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS). O tribunal gaúcho considerou ilegal a inclusão das contribuições na tarifa. Até agora, os consumidores vencem a disputa no STJ por quatro votos a dois. A discussão deve voltar à pauta no próximo semestre, em razão do recesso do Judiciário. Lutem por seus direitos!! Até a próxima! Advogados Gabriela de Moraes Montagnana OAB/ SP 240.034 Gustavo Antônio de Moraes Montagnana OAB/ SP 214.810


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Cerco à pornografia Cruzada moralista da Apple é ponta de lança de investidas contra sites de conteúdo adulto, que perdem espaço para as redes sociais

por BRUNO ROMANI/FOLHAPRESS

A pornografia está acuada. O consumo de pornografia adulta por maiores de idade não tem restrições legais, mas os sites com esse tipo de material estão sob ataque. A onda pudica inclui grandes empresas de tecnologia, governos e pensadores. A Apple, por exemplo, quer a sua maçã sem pecados. A empresa de Steve Jobs levantou polêmica ao proibir aplicativos que levassem qualquer coisa que pudesse ser interpretada como pornográfica aos seus impolutos iPhone e iPad. Não satisfeita, ela já começa até a interferir na reprodução do conteúdo off-line em aplicativos das publicações que são disponibilizados na loja virtual App Store. Na Wikipédia, o próprio cofundador do serviço, Jimmy Wales, arregaçou as mangas EDITORIA DE ARTE\FOLHA IMAGEM

e começou a deletar imagens que pudessem ser consideradas pornográficas. Já o Google proibiu até mesmo anúncios de um site canadense de encontros em sua plataforma de publicidade por considerá-lo ‘inseguro para as famílias’. Enquanto isso, governos também tentam combater a pornografia. A alfândega australiana ganhou poderes para vasculhar computadores e celulares de viajantes. Nos EUA, o FTC (Comissão de Comércio Federal na singla em inglês) fechou um provedor de internet que, entre outras coisas, se especializava em pornografia e pragas virtuais. Além disso, internautas podem garantir que olhos desautorizados não navegarão por sites pornô usando aplicativos para bloqueá-los. Mas o que o FTC parecia já saber agora ganha perspectiva acadêmica em uma pesquisa da Universidade Técnica de Viena que conecta o uso de sites pornográficos à pirataria on-line. O estudo analisou as estruturas econômicas de sites adultos e concluiu que eles têm práticas que vão de ‘suspeitas’ a ‘claramente maliciosas’. Já Bill Tancer levantou em seu livro a tese de que os sites pornô estão perdendo popularidade para as redes sociais. E uma enxurrada de dados parece confirmá-la, mas há quem discorde. Por outro lado, a pornografia on-line contribuiu com à internet ao adotar tecnologias como autenticação e sistemas de pagamento antes de elas se popularizarem.

Congressista quer fechar seção adulta de site de anúncios A congressista americana Jackie Speier quer que o site de classificados Craigslist, o maior do gênero nos Estados Unidos, feche sua seção de serviços para adultos.

FOTO: REPRODUÇÃO

Para criticar as políticas antipornografia da Apple, o artista alemão Johannes P. Osterhoff colou imagens explícitas sobre um anúncio do iPad no metrô de Berlim; para ele, o tablet é “perfeito para espectadores de pornografia

O motivo são as suspeitas de que essa parte do portal venha sendo usada para promover sexo com menores de idade, de acordo com a agência de notícias Bloomberg. Spier pretende marcar uma audiência no comitê judiciário do Congresso americano para discutir como sites como o Craigslist ‘facilitam a atividade criminosa’. A democrata enviou uma carta para o executivo-chefe do site, Jim Buckmaster, que afirmou estar disposto a debater o assunto. O executivo já adiantou, porém, que, para ele, ‘fechar partes do Craigslist não é a solução’.

Estudo de pesquisador da universidade austríaca afirma que endereços têm práticas ‘suspeitas’e‘maliciosas’ Aproximadamente 40% dos internautas fazem visitas sem proteção; 3,23% de páginas rodam arquivos perigosos

Sites pornográficos são usados por piratas virtuais para espalhar pragas e códigos maliciosos. O alerta, que ecoa o que internautas já sabem faz tempo, vem de um estudo liderado por Gilbert Wondracek, pesquisador da Universidade Técnica de Viena, que será apresentado na próxima segunda em um workshop na Universidade de Harvard. Ao investigar a estrutura econômica de sites com conteúdo adulto, Wondracek encontrou práticas que, ele diz, vão de ‘suspeitas’ a ‘claramente maliciosas’. Essas práticas têm origem principalmente em métodos para aumentar o número de visitantes, como a compra de tráfego (tipo

de negócio pelo qual um site adquire de intermediários um número alto de visitas). O problema, diz Wondracek, é que os serviços que vendem visitas não fiscalizam os endereços para os quais encaminham as pessoas, e muitos são usados para hospedar pragas virtuais. Para o projeto, o pesquisador montou seu próprio site e comprou 47 mil visitas. Para surpresa dele, 20 mil delas, ou 43% do total, tinham vulnerabilidades simples no navegador que poderiam ser exploradas por cibercriminosos. Isso significa que não apenas os sites se mostraram perigosos como também que seus usuários os frequentam desprotegidos. Essas vulnerabilidades, diz o estudo, poderiam facilmente levar os PCs a fazer parte de uma botnet, uma rede de máquinas escravizadas a serviço de piratas on-line. O baixo valor pago pelo total das visitas assusta: US$ 160, o que constrói um cenário bem favorável aos cibercriminosos. Além disso, esses internautas poderiam ter sido infectados por arquivos maliciosos que são executados assim que a página é aberta. De acordo com Wondracek, 3,23% dos cerca de 270 mil endereços ligados aos sites adultos pesquisados faziam isso, cinco vezes mais do que ele esperava, e isso não inclui outras práticas maliciosas que não precisam executar arquivos. O pesquisador disse que sites pornô são os mais perigosos não por causa das pragas em si, mas pela ‘institucionalização de práticas suspeitas de negócio’. O estudo parece confirmar algo que a FTC (Comissão Federal de Comércio dos EUA, na sigla em inglês) já sabia. Em maio, a agência fechou um provedor de internet, que, diz ela, se especializava em spam, pornografia, botnets e conteúdos maliciosos.


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Antenado

CRÍTICA BIOGRAFIA/TEATRO

Biografia revela o dia a dia de Célia Helena Livro e revista acadêmica reconstituem o legado da artista e educadora no teatro e na memória cultural do país por CHRISTIANE RIERA /FOLHAPRESS

Escrita por Nydia Licia, ‘Célia Helena:

res e colegas de palco fazem depoimentos

à frente da criação do Teatro-Escola Célia

Vargas e Nydia Licia sobre o desenvolvimento

Uma Atriz Visceral’ reconstrói sua

espontâneos ao relembrar anedotas mais

Helena focam mais as dificuldades do dia a

da prática de se debruçar sobre os textos nas

trajetória através de tons distintos.

atrevidas de coxia.

dia, não possibilitando ao leitor acessar com

décadas de 1940 e 1960.

Numa vertente mais clássica, o livro combi-

clareza seu legado didático.

Nas originais seções fixas, merecem destaque

Por uma via mais intimista, alguns familia-

na relatos de grandes diretores com

FOTO: DIVULGAÇÃO

trechos de resenhas publicadas por

Célia Helena e Lígia Cortez, sua filha com Raul Cortez

REVISTA

‘Técnica’, em que o iluminador Davi de Brito dá dicas sobre sua arte; ‘Dramaturgia Latino-

críticos de teatro.

Esta pequena falha na biografia parece se

Americana’, com a peça ‘Mulheres Sonham

Recebem maior atenção suas par-

redimir na bem-vinda revista ‘Olhares’, uma

Cavalos’, do argentino Daniel Veronese; e

ticipações no Teatro Oficina, com

fusão de estudos acadêmicos com textos vol-

‘Retrato’, um grande final com Cleyde Yáconis,

a histórica montagem nos anos

tados à prática teatral, publicada pela Escola

por Oswaldo Mendes.

1960 de ‘Pequenos Burgueses’, de

Superior de Artes Célia Helena sob a editoria

‘Olhares’ acaba por cristalizar o verdadeiro

Máximo Gorki, dirigida por José

de Lígia Cortez e do convidado Luiz Fernando

legado de Célia Helena, fundadora de um

Celso Martinez Corrêa, e nos anos

Ramos, também crítico da Folha.

espaço de discussão que se tornou hoje um

1970 de ‘Pano de Boca’, dirigida

Com conteúdo abrangente e sólido, este

dos maiores núcleos de pesquisa em artes

por Fauzi Arap.

primeiro robusto número abre com uma

cênicas no país.

Com isso, o grande trunfo do livro

reflexão dos diretores Renato Ferracini, Mar-

é alinhavar passagens mais marcan-

celo Lazzaratto e Marco Antonio Rodrigues

tes de sua carreira a fragmentos da

sobre a pedagogia do ator.

memória cultural do país.

O ‘processo colaborativo’ é abordado por

Ao se voltar para seu passado como

Antônio Araújo e Rosyane Trotta. Há uma

CÉLIA HELENA: UMA ATRIZ VISCERAL

Autor: Nydia Licia educadora, porém, os generosos brilhante discussão sobre o ‘trabalho de Editora: Imprensa Oficial testemunhos de colaboradores que mesa’ por profissionais da área, que culmina Quanto: R$ 30 (160 págs.) serviram como seu braço direito com uma bela entrevista com Maria Thereza Avaliação: bom


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