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anorama 30 P A N O S

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013

AURACÉBIO PEREIRA/ARTE/JC

Edição celebra três décadas de caderno cultural do JC


Panorama 30

2 HISTÓRIA

Uma época de transformações

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Av. João Pessoa, nº 1282 Fone: 3213-1367

Páginas do Panorama registraram a evolução das culturas gaúcha e brasileira nos últimos 30 anos

Publicação do Jornal do Comércio de Porto Alegre Editor-chefe Pedro Maciel l Secretário de redação Guilherme Kolling l Edição e texto Cristiano Vieira l

Projeto gráfico - Juliano Bruni Diagramação - Juliano Bruni e Luis Gustavo Van Ondheusden l Revisão - Juliana Mauch, Mauni Oliveira e Gustavo Rückert l Colaboração - Ricardo Gruner l l

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013

VICENTE DE PAULO/DIVULGAÇÃO/JC

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Panorama

A N O S

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À imprensa, cabe registrar estes fatos e desmitificar preconceitos, como o de que a cultura é algo supérfluo. Pelo contrário, ela exerce papel importante na formação do caráter do indivíduo e de sua construção intelectual. O que se discute, sim, é o acesso democrático aos bens culturais. Obviamente que um ingresso de cinema ou a compra de um livro ficam em segundo plano quando existem necessidades básicas - como alimentação e saúde - como prioridades. Por outro lado, é cada vez maior a oferta de atividades gratuitas, como exposições e oficinas. Um simples passeio no parque pode ser palco para um recital ao ar livre, por exemplo. No Panorama, normalmente, é grande o volume de atividades culturais gratuitas divulgadas. E é também na editoria de cultura do JC, que engloba ainda o Viver, que temos dois dos críticos mais respeitados do Rio Grande do Sul: Antonio Hohlfeldt, da área de teatro, e Hélio Nascimento, referência em crítica cinematográfica no Brasil. Neste caderno especial, relembramos 30 fatos que consideramos importantes desde o início do suplemento. Também convidamos personalidades gaúchas para comentar o jornalismo cultural feito pelo JC. Outro texto analisa historicamente as mudanças culturais dos últimos anos. Para encerrar, na contracapa, reunimos três dos quatro editores (Jefferson Barros, que atuou entre 1992 e 1995, faleceu em 2000) para relembrar, em artigos, sua trajetória no caderno. Boa leitura!

Porto Alegre, terça-feira, 14 de maio de 2013 - Nº 195

Panorama

Já se vão trinta anos desde que a cultura ganhou espaço próprio nas páginas do Jornal do Comércio. Em 1983 - quando o JC completava 50 anos de circulação -, o caderno Panorama foi lançado em 1 de agosto. Desde então, o foco econômico do jornal ganhou a companhia de um suplemento responsável por abrir espaço para os mais importantes fatos da cultura local, nacional e internacional. A comemoração, hoje, se dá justamente no ano em que o próprio JC completa oito décadas de circulação. O ecletismo nos temas abordados era evidente (e continua assim) na primeira edição do Panorama, cuja capa reproduzimos ao lado. O filme Retratos da vida, do francês Claude Lelouch, mantinha excelente desempenho nas bilheterias; a moda já garantia seu espaço com uma matéria sobre tendência africana; a cantora Loma se preparava para cumprir temporada de shows no Theatro São Pedro - que ainda se encontrava em reforma; e a chamada principal dava destaque ao lazer, convidando o leitor a conhecer o zoológico de Sapucaia do Sul. Dos anos 1980 à atualidade, não faltam mudanças que alteraram completamente o tecido social. De uma época em que a liberdade pós-ditadura era aproveitada com sutileza a um tempo em que as famílias não são mais famílias como as conhecíamos, a imprensa registra também os hábitos culturais. Enquanto nos anos 1980 o vídeogame Atari era o máximo para os guris, a boneca Barbie frequentava os braços das gurias. Hoje, a tecnologia abriu as portas para uma geração consumir informação e cultura de modo acelerado. Estão aí para provar os celulares e os tablets - com fãs desde a mais tenra idade.

MARIA RITA

Ao sabor do

vento

Comparação já é algo comum entre filhos e pais famosos. Agora, quando a mãe é considerada a maior cantora brasileira, o termo adquire um significado maior ainda. Com dez anos de carreira, Maria Rita reitera que nunca quis imitar Elis Regina e acredita ter trilhado seu próprio caminho. O que vem pela frente? “Só o tempo sabe...”, diz, em entrevista especial. PÁGINA 3


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3 No Centro Histórico, local de passagem, novas instituições culturais surgiram a partir da década de 1980

JOÃO MATTOS/JC

EVOLUÇÃO

Caminho sem volta lembra ela. Ainda de acordo com Cida, a mentalidade de revitalização transparece na medida em que são estabelecidos territórios de memória para se trabalhar o patrimônio da cidade. Se os centros culturais se aglomeraram na região central, nos últimos trinta anos destaca-se a concentração dos cinemas nos shopping-centers, fenômeno que não pode ser separado das condições no País e no mundo. Ao redor do globo, o número de frequentadores das salas de concerto diminuiu - em Porto Alegre, não é diferente. “O público da Ospa é um termômetro importante”, expõe Francisco Marshall. “A orquestra precisa ir para rua, para a Redenção, para outros lugares, a fim de conseguir se comunicar com o povo, que antes frequentava mais.” Para ele, isso não se deve necessariamente ao desinteresse da população em música clássica, mas, sim, ao contexto atual. Aspectos como conforto doméstico e crescimento da insegurança nas ruas pautaram e seguem pautando os hábitos culturais das últimas décadas, modificando o perfil do público. Neste mesmo retrato, se enquadram o desaparecimento dos cinemas de rua e o fortalecimento das salas nos shoppings - em fenômeno no qual o indivíduo sai da garagem do prédio e vai para a garagem do shopping, onde se sente seguro. Isso quando há realmente a necessidade de sair de casa para consumir cultura: “A própria questão do cinema, que antes era um espaço de sociabilidade muito efetivo, também se pulverizou e deu lugar a práticas mais individualizadas, em casa”, afirma Cida, relembrando a popularização da televisão e, ainda, a evolução tecnológica. Seguindo o pensamento da jornalista, com home theaters e recursos de som a preços acessíveis como facilitadores, hoje há quem prefira não se deslocar para assistir a um filme ou a um show ao vivo. Como fator agravante, Francisco Marshall ainda cita a vida social e gastronômica - que trilhou seu percurso paralelamente nestas três décadas. “Veja a quantidade de restaurantes que abriu nesse período. É um fenômeno mundial e fica com uma boa fatia orçamentária”, diz ele, crente de que há aqueles que resistem a pagar R$ 40,00 para um show mas não se importam em gastar R$ 70,00 em um restaurante. “Faz parte do estilo de vida atual... Vejo um pouco de hipocrisia por parte de alguns críticos que dizem que as atividades culturais são muito caras”, sentencia ele, fazendo ressalva a professores e estudantes.

Público consumidor de cultura mudou nas últimas décadas, lembra Francisco Marshall

MARCELO G. RIBEIRO/JC

Fragmentado e seletivo são adjetivos que podem facilmente ser identificados no homem contemporâneo. A afirmação é de Francisco Marshall, professor do departamento de História e do Instituto de Artes, ambos ligados à Ufrgs, e fundador do StudioClio. O contexto? Uma análise sobre as mudanças nos hábitos de consumo e apreciação da cultura nos últimos 30 anos. Segundo o historiador e arqueólogo, vivemos em uma época em que, sim, possuímos maior grau de inteligência, critério e sofisticação (ativos sensoriais do corpo) - mas isso não se reflete, necessariamente, em maior utilização de bens culturais. Para narrar essa transformação e elencar alguns dos principais fatos ocorridos de lá para cá, é preciso voltar à década de 1980 - de efervescência no setor. Foi naqueles anos que surgiu a ideia da Casa de Cultura Mario Quintana, com salas dedicadas ao cinema, música, teatro, artes visuais e literatura, ocorreu a reinauguração do Theatro São Pedro - interditado na década anterior - e que o então Teatro Leopoldina reabriu como Teatro da Ospa. A década ainda marca a criação do Ministério da Cultura - apenas para relembrar uma ação no âmbito federal. “A Casa de Cultura Mario Quintana, por exemplo, surgiu naquele momento em que se criaram os órgãos de Estado para a cultura. Foi o primeiro grande investimento”, relembra Marshall, que acredita que a promessa não se cumpriu. O motivo para justificar seu ponto de vista seria uma crise típica dos centros culturais de administração pública: a descontinuidade curatorial, uma vez que os cargos de direção são de indicação partidária. “Sem que os órgãos tenham profissionalização e estrutura curatorial e de gestão consistente, se expõem às fragilidades das nomeações. Aí temos isso que verificamos: o colapso da credibilidade”. Já Cida Golin, professora de jornalismo cultural da Ufrgs, ressalta a criação dos espaços de memória. Para ela, assim como em outras cidades, Porto Alegre acolheu o Centro Histórico como território cultural para resgatá-lo da destruição. Neste cenário, entram instituições como Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural e Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, que vieram nos anos seguintes. Um local em que o frenesi de transeuntes apressados convive harmoniosamente com a memória cultural. “Dentro da cidade, foi criado espacialmente um lugar em que a cultura pode ser agenciada e consumida e, ao mesmo tempo, deu valor a uma região que desde os anos 1970 vinha sendo degradada”,

Próteses digitais como extensões do corpo Outro efeito da evolução temporal é a transformação da qualidade e da quantidade da informação a que se tem acesso. “O público tem, sim, um consumo cultural, mas é mediado pelos meios eletrônicos”, define Francisco Marshall, ciente de que isso torna o espectador mais crítico. Para o historiador, o homem já teve como prótese de seu corpo a espada e o cavalo. Depois, o carro. Hoje, são várias próteses digitais que fazem parte de um ser que busca teclas, imagens, informações ao longo do dia. E, com a facilidade para alcançá-las, o pesquisador ou produtor cultural deve também atualizar-se em relação a este meio: o intelectual não pode ser mais um amador de Powerpoint, não deve se comunicar usando imagens inadequadas,

sem contexto, por exemplo. “Temos uma enciclopédia cultural de altíssima qualidade e de acesso imediato. Por vezes, o Narciso que se coloca no palco não percebe e se autossacia com seu narcisismo”, diz ele, utilizando simbologia mítica para explicar sua tese. Neste sentido, Cida Golin cita outra característica dos públicos de hoje: o consumo de nichos. “Você entra na internet e tudo está direcionado ao seu gosto, indicado e especificado sempre mais. É o resultado da segmentação de mercado”, finaliza ela. Neste mundo de consumo cultural misturado com tecnologia, é impossível reduzir a evolução. Mas podemos acompanhá-la, principalmente pela imprensa. É o que o Panorama continuará fazendo por muito tempo.

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013


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Muito para

contar

Muitos dos nomes a seguir costumam frequentar as reportagens da editoria de cultura. Desejam divulgar um novo show, o lançamento de um filme, um disco, ou, ainda, uma exposição que está por abrir. Desta vez, invertemos os papéis e convidamos as personalidades a comentar a respeito dos 30 anos de cultura no JC.

É de se registrar o fato de que o JC é o único jornal que mantém espaço para crítica de artes cênicas, com o jornalista Antonio Hohlfeldt dissertando suas opiniões sobre dança e teatro e tudo o que acontece na área em Porto Alegre. Nada mais justo que, nos 45 anos da nossa trajetória, sempre com cobertura do JC, e mais do que isso, atenção carinhosa e dedicada dos seus colaboradores, criássemos, há três anos, o Prêmio Helio Barcellos Jr. - em homenagem ao jornalista, ator e dramaturgo que tanto se desdobrou em favor das artes cênicas no JC.

Carlos Gerbase - cineasta e professor

ANTONIO PAZ/JC

Ronald Radde - diretor de teatro

Um caderno cultural que completa 30 anos de atividade merece mais que festa de parabéns. Merece o reconhecimento de todos os seus leitores pelo imenso bem que faz, valorizando a arte e a cultura de um Estado que já exportou tanta gente boa. O JC faz força para colocar a produção regional na vitrine e tornar significativo o esforço dos nossos artistas. Um agradecimento especial ao mestre Hélio Nascimento, sempre generoso, muitas vezes vendo o que outros não enxergaram ou não quiseram enxergar. Um crítico erudito e independente nunca sairá de moda. Que venham mais muitos anos, porque, como diz o ditado e uma música dos Replicantes: “A vida começa aos 30”!

JOÃO MATTOS/JC

DEPOIMENTOS

Luciano Alabarse - diretor de teatro e Raul Ellwanger - músico e compositor Para mim, o Panorama é leitura diária obrigatória, um dos suplementos culturais mais importantes do País: diversificado e inteligente. O caderno do Jornal do Comércio traz, em seu nome, sua missão: a de oferecer aos leitores uma ampla visão sobre tudo o que acontece na vida cultural de Porto Alegre, das visitas importantes às estreias teatrais, dos shows aos lançamentos de livros, sem falar dos filmes e dicas culinárias. Tanta coisa bacana, tanta matéria essencial, tanta inteligência em páginas relevantes. O tempo passou, e esse aniversário é motivo de júbilo para todos nós, gaúchos que fazemos e amamos cultura. Parabéns, Panorama!

Vera Chaves Barcellos - artista plástica

Charles Kiefer - escritor Desde os meus primeiros livros publicados, sempre recebi apoio e cobertura do Jornal do Comércio. Essa postura ética e responsável do jornal é admirável, pois é fácil falar de autores consagrados. Além disso, sempre me impressionou muito a seriedade e competência com que o JC trata de nosso maior evento livreiro e livresco, a Feira do Livro de Porto Alegre. Deixo aqui uma sugestão bibliográfica: que a direção do jornal publicasse um livro com todas as matérias produzidas ao longo da história da Feira. Isso seria extremamente importante para escritores, pesquisadores, livreiros, editores, distribuidores e também para a sociedade do Rio Grande do Sul. Tal publicação deveria ser distribuída a todas as bibliotecas públicas e escolares do Rio Grande do Sul.

MARCELO G. RIBEIRO/JC

Há 35 anos me formava em jornalismo e passei a frequentar as redações na busca de divulgação para os meus filmes. Depois, com o Ponto de Cinema, em 1980, recebemos, logo no início, do crítico Hélio Nascimento, uma generosa crônica sugerindo que nossa programação “continua sendo uma opção ao espectador mais atento”. Quem, desde o seu início, trabalhou com filmes diferenciados, que os espectadores não tinham como uma opção preferencial e a despeito disso transformou muitos em sucessos, uma grande parcela deste destaque devemos a cadernos como o Panorama.

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013

Vera Bublitz - diretora da escola ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC

Carlos Schmidt - jornalista e proprietário do Guion Cinemas

A imprensa escrita do Rio Grande do Sul jogou um importante papel na difusão do movimento musical que se firmou a partir de 1980. Chamado por alguns de Música Popular Gaúcha (MPG), este movimento abriu caminhos para o rock, pop, latino-americanismo, chegando ao hip-hop e outras manifestações. Nas colunas do JC, encontrou bom espaço para difundir seus eventos e suas ideias, podendo assim chegar a mais corações. A semente lançada por Osmar Meletti, Glenio Reis, Osvil Lopes, Juarez Fonseca, Danilo Ucha, Eduardo Martins ali encontrou terra boa, sendo na época recente cuidada por seus jornalistas especializados.

MARCOS NAGELSTEIN/JC

JONATHAN HECKLER/JC

Somos assinantes do JC e acompanhamos com interesse as notícias e resenhas que esse jornal realiza sobre os principais eventos culturais da cidade de Porto Alegre. Parabenizamos a equipe atual que, com competência e dedicação, dá continuidade a essa cobertura que vem sendo realizada há três décadas.

FREDY VIEIRA/JC

JONATHAN HECKLER/JC

coordenador do Porto Alegre em Cena

de Ballet Vera Bublitz

Acompanhar a trajetória do Panorama é uma grande alegria. Mesmo com o foco em economia e negócios, o jornal possibilitou que os editores ampliassem a cobertura do universo artístico da nossa cidade e do nosso Estado, sempre com um olho voltado para o que acontece no meio cultural brasileiro e internacional. Ganhamos todos! As reportagens são abrangentes e bem escritas, ilustradas com ótimas fotos. Gosto muito das capas. Observo que a dança ocupa um lugar interessante na editoria, o que não é muito comum. Desejo vida longa ao Panorama. Palmas para essa equipe talentosa.


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André Venzon - artista plástico e

Carlos Konrath - presidente

É possível conhecer a história e a produção atual da arte contemporânea no Rio Grande do Sul nas páginas impressas e digitais do Panorama. Há 30 anos, este dedicado e habilidoso veículo de comunicação dos gaúchos é instrumento e espaço da edificação de instituições culturais e carreiras artísticas, que se tornaram mais públicas e valorizadas em razão de um jornalismo cidadão e inteligente. Parabéns ao JC por ser nosso patrimônio cultural.

Com 37 anos, a Opus pôde acompanhar o surgimento e o crescimento do Panorama desde seu início. Enquanto expandíamos a produtora, vimos o caderno evoluir ao nosso lado, destacando sempre a programação de shows, teatros e grandes espetáculos nacionais e internacionais. Assim, passamos a admirar o profissionalismo com que a equipe construiu matérias e reportagens. O Panorama também foi aliado da Opus, pois incluiu não só a agenda de shows realizados no Rio Grande do Sul, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro e Natal, locais onde administramos grandes casas de espetáculos. Parabéns e vida longa ao caderno Panorama.

Há muito tempo tenho contato com Panorama e sou tratada com atenção, respeito e profissionalismo tanto pelos jornalistas quanto pelos fotógrafos quando preciso noticiar eventos relacionados ao meu trabalho nas artes visuais, os cursos e eventos culturais como a proposta da criação do Museu das Águas de Porto Alegre. Os assuntos que o caderno aborda propiciam aos leitores uma visão abrangente do que acontece aqui e em outros lugares. Infelizmente, nem todos os jornais têm esta visão humanista sobre os bens culturais e o grande público se ressente com isso.

Loma - cantora TOMAS EDSON SILVEIRA/DIVULGAÇÃO/JC

CLLEBER PASSUS/DIVULGAÇÃO/JC

Zorávia Bettiol - artista plástica

da Opus Promoções

GABRIELA DI BELLA/ARQUIVO/JC

JONATHAN HECKLER/JC

presidente do MAC-RS

Há 30 anos, o Rio Grande do Sul passava por um período efervescente na produção musical. O Jornal do Comércio faz parte dessa história. Vivenciamos tempos difíceis que nos moveram a um empreendimento audacioso: enquanto gravadoras dominavam o mercado, os artistas independentes gaúchos vendiam bônus para gravar seus LPs. Podíamos contar com divulgação no Panorama. Na atualidade, seguimos com este valioso apoio. Ações de fomento às manifestações regionais são relevantes para a preservação da nossa identidade! Me cabe parabenizar o JC pelo trabalho de acompanhar e informar cada movimento que impulsiona a engrenagem da produção cultural gaúcha.

w w w. j o r n a l d o c o m e r c i o . c o m

Os leitores do JC dão valor à cultura. Há 30 anos, o JC lançava o Panorama. Um caderno com informação independente e de qualidade sobre todas as formas de arte. De segunda a quinta, uma leitura obrigatória para quem valoriza a cultura.

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013


PALAVRA DOS EDITORES

Bons motivos para evoluir

Hélio Nascimento

Maria Wagner

Cristiano Vieira

Na década de 1950, quando o Jornal do Comércio centralizava sua atenção na atividade econômica, o cinema já tinha seu espaço nos três dias da semana em que o órgão circulava. J.A. Moraes de Oliveira, um dos tantos jornalistas incentivados pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, assinava a seção. Com a circulação transformada em diária, a seção adquiriu maior importância e foi o núcleo gerador de um processo que teve prosseguimento e ampliação com a criação de um espaço dedicado ao teatro, mantido por Marcelo Renato. O interesse do jornal em divulgar e assim também ser um participante do movimento cultural da cidade não se limitou a tais áreas. Na medida em que o tempo passava, outras atividades culturais foram obtendo e ampliando seu espaço, nas proximidades dos locais onde era possível ler informações e opiniões sobre cinema e teatro. O que aconteceu há 30 anos, portanto, foi uma consequência lógica de um processo gerado pela constatação de que a atividade cultural não deveria ser negligenciada e muito menos colocada em segundo plano. Se tudo que o ser humano produz é cultura, era natural que, ao lado da atividade econômica, as atividades artísticas deveriam obviamente merecer o devido destaque. Foi assim que a criação do Panorama consolidou e ampliou a área destinada a valorizar o trabalho de músicos, pintores, escultores, coreógrafos, encenadores teatrais e cineastas. Num jornal voltado para a economia, um espaço dedicado às artes logo se transformou em destaque. Nenhuma atividade artística está dissociada da realidade. E esta tem na economia um de seus sinais mais reveladores. Não apenas por isso, o Panorama, nestas três décadas, ampliou o papel deste jornal no movimento cultural da cidade. Vivemos uma época em que a superficialidade é extremamente cultuada. Nada mais gratificante, então, do que ver a atividade artística ser valorizada pelo espaço a ela concedido e pelo diálogo em torno dela mantido. O Panorama é, portanto, um território destinado a valorizar a imaginação, esta força sem a qual nenhuma atividade humana obterá o material necessário à sua sobrevivência e ao seu enriquecimento. Não há progresso sem ela.

Foi a convite do jornalista Hélio Gama, então diretor de redação do Jornal do Comércio, que assumi o Panorama em 1995. E não demorei a descobrir que havia encontrado o lugar ideal. Era o espaço perfeito para quem gosta de ouvir as pessoas com quem trabalha e confia no comprometimento delas com a qualidade do produto. Fiquei nessa função durante 14 anos, contando com Mônica Kanitz como editora-assistente. O primeiro desafio foi a transição da máquina de escrever para a informática. E começou pelo Panorama. Seria um privilégio? Não. Era uma questão de lógica, pois, com exceção da capa, o caderno era baixado com dois dias de adianto. Algo inimaginável na editoria de Economia, que é o foco do JC. O bom é que aproveitamos o momento para, além do factual, sair em busca de pautas sem prazo de validade, como uma sobre depressão e memória; e outra a respeito de uma pesquisa feita na Europa sobre a influência que o desenho do cérebro tem sobre nossa capacidade de ter fé. Que nunca nos faltou. Outro desafio foi a criação do caderno Viver, em agosto de 1996. O que ele tem a ver com o Panorama? Muita coisa. Primeiro, porque o tirou de circulação na sexta-feira; segundo, porque foi construído pela mesma pequena equipe da editoria de Cultura: os repórteres Mônica Kanitz, Tânia Barreiro e Helio Barcellos Jr.; Hélio Nascimento (crítico de cinema, que migrou para o Viver); Antonio Hohlfeldt (crítico de teatro); Décio Azevedo, depois substituído por Eduardo Bins Ely na página Vida Social; e Jaime Cimenti (literatura), que também se mudou para o Viver. Em 2002, quando fiz um curso de três meses na Alemanha, essa turma levou o barco, já com mais dois tripulantes: Ivan Mattos (Clubes) e Carlos Pires de Miranda (Gastronomia). Cada um deles - e cada estagiário - foi imprescindível ao Panorama, que perdeu a sexta-feira, mas se amplia a cada semana no Viver e diariamente no Em Foco (contracapa do JC). Agora completa 30 anos. Sempre discretamente sisudo. Mas esse é o seu charme.

No mesmo ano em que o Panorama comemora três décadas, completo quatro anos na liderança da editoria de Cultura do Jornal do Comércio. Antes, havia passado cinco anos na reportagem e na edição da editoria de Economia, carro-chefe do veículo. De um estranhamento inicial sentido lá em 2009 para uma completa integração nos dias de hoje, digo com certeza: trabalhar com cultura no JC é produzir, diariamente, reportagens que fazem do Panorama e também do Viver, seu irmão mais novo, dois dos cadernos culturais mais conceituados do Rio Grande do Sul. Desde 2009, houve renovação em parte da equipe. Permanecemos com críticos e articulistas consagrados no meio intelectual - para citar dois exemplos, o JC conta com o único crítico de teatro em atividade no Rio Grande do Sul, Antonio Hohlfeldt, e o mestre em cinema e primeiro editor do Panorama, Hélio Nascimento. Gastronomia, literatura, os registros da sociedade e dos clubes têm em seus comandos, respectivamente, Carlos Pires de Miranda, Jaime Cimenti, Eduardo Bins Ely e Ivan Mattos. A todos eles, um abraço, pois me receberam carinhosamente. Da equipe então liderada por Maria Wagner, nos restou o querido Helio Barcellos Jr., conhecidíssimo no meio teatral, pois construiu uma sólida carreira como setorista de artes cênicas. Infelizmente, ele partiu cedo demais, em 2011, deixando uma lacuna difícil de ser resolvida. Mas não podemos parar. Da equipe que temos hoje, Michele Rolim se tornou uma hábil interlocutora com a classe teatral, além de também mostrar aos leitores as novidades das artes plásticas. Ricardo Gruner e Priscila Pasko fazem do cinema e da literatura campos férteis para seus textos. Na área musical, todos metem um pouco a mão - com destaque para a editora-assistente, Caroline da Silva. E o que seria de nós sem o precioso auxílio dos estagiários? Três jovens trabalham conosco diariamente, completando um time de oito pessoas. Uma equipe incansável, que produz semanalmente 36 páginas sobre cultura em um jornal com foco em economia. Adquirimos respeito e admiração ao longo destes 30 anos, mas queremos mais trabalho. Porque é isso que nos move: informação de qualidade para o leitor. Nestes 80 anos do Jornal do Comércio, é muito bom comemorar três décadas de Panorama. Que venha muito mais!

Editor de 1984 a 1992

Editora de 1995 a 2009

Atual editor

CADERNO ESPECIAL / PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2013

JOÃO MATTOS/JC

Sisudo e charmoso

GILMAR LUÍS/JC

Espaço para a cultura

FREDY VIEIRA/JC

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Panorama 30 anos