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CONSTRUÇÃO CIVIL

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Porto Alegre, quarta-feira, 28 de agosto de 2013 Caderno Especial do Jornal do Comércio

A hora de fechar negócios


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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CONSTRUÇÃO CIVIL CONJUNTURA

ÍNDICE Conjuntura Mão de obra Mercado Perspectivas Inovação Crédito imobiliário Infraestrutura Sustentabilidade

O ano da retomada

2e3 4e5 6e7 8 e 10 12 e 14 16 e 18 20 e 21 22 a 24

Segurança Tendências

Caderno Especial do Jornal do Comércio

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Pesquisa Responsabilidade social

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PERFIS

Joal Teitelbaum Melnick Even Nex Goldsztein Arquisul

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EXPEDIENTE Editor-Chefe Pedro Maciel Editora de Cadernos Especiais Ana Fritsch Subeditoras Cíntia Jardim e Sandra Chelmicki Reportagem Douglas Cecconello e Clarissa Barreto Projeto gráfico e editoração Ingrid Müller Editor de Fotografia João Mattos Revisão Adriana Grumann, Gustavo Rückert, Juliana Mauch e Mauni Lima Oliveira

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Sinduscon-RS

Após ver seu desempenho frear em 2012, o setor da construção civil começa a recuperar o fôlego. Ainda não se compara ao impulso tomado no histórico ano de 2010, quando apresentou crescimento de 11,6%, mas deve ser superior ao 1,4% do ano passado. Conforme a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic), em 2013 o setor deve crescer cerca de 3%. A confiança ainda oscila, mas já se fala em retomada dos empreendimentos. Em 2012, o número de lançamentos do mercado imobiliário caiu aproximadamente 30%, mas o financiamento de imóveis continua crescendo, mesmo tendo como base os grandes resultados dos anos anteriores, o que indica que o setor está passando por outra fase de seu ciclo – em vez de lançar e construir, está vendendo o que produziu recentemente. Em Porto Alegre, em abril, foram lançadas apenas 90 unidades – em termos de comparação, em março haviam sido 686 unidades. É a menor quantidade lançada em um mês desde dezembro de 2011, conforme dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil do

Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). Conforme a pesquisa Sondagem Indústria da Construção, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a atividade no setor continuou a recuar no mês de junho. O índice que mede a atividade do setor caiu de 46,9 em maio para 44,3 em junho, sendo que resultados abaixo de 50 indicam retração. Desde março de 2012, o nível de atividade não apresenta crescimento e, a partir de dezembro daquele ano, começou a mostrar retração. Entre os segmentos avaliados, o menos favorecido é o de construção de edifícios, atrás das obras de infraestrutura e dos serviços especializados. Apesar de estar abaixo da média histórica na pesquisa da Confederação, a expectativa das empresas para o nível de atividade do próximo semestre é de crescimento, o que evidencia a esperança em retomar um bom volume de empreendimentos. “O pior momento já passou, o mercado imobiliário esfriou e apresentou uma reação de produção em junho”, pondera o presidente da Cbic, Paulo Safady Simão.

Já o Índice de Confiança da Construção, calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), apontou em julho a maior queda desde o início da série, em 2010, chegando a 118,8 pontos, mas mesmo assim indica que o setor continua otimista (pois está acima da faixa de 100 pontos). “Mesmo que seja para o ano que vem, esperamos que haja alguma movimentação nas obras de infraestrutura, até porque será ano eleitoral. A construção civil é responsável por 50% dos investimentos realizados no País.” O levantamento da FGV também mostrou que as empresas apostam na recuperação do setor no segundo semestre de 2013, ainda que as companhias ligadas à construção de imóveis e às obras de infraestrutura estejam menos confiantes – queda de 3,5% e 1,9%, respectivamente. “Há uma diminuição da demanda, também pela expectativa em relação ao desempenho da economia. Não existe mais aquela euforia de uns poucos anos atrás, mas ainda se cresce”, aponta Gilberto Cabeda, vice-presidente de comercialização do Sindicato da Habitação (Secovi-RS).

Empresas apostam na recuperação do setor até o final do ano


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O fator formiguinha

Varejo de materiais de construção cresceu 6% no primeiro semestre

JOÃO MATTOS/JC

Quem compra um saco de cimento para reformar sua casa não sabe, mas está contribuindo para um mercado que deve girar R$ 120 bilhões em 2013. E não é uma contribuição qualquer. Somadas, as compras de material de construção para pequenas obras familiares ou reformas são responsáveis por 50% do que o setor arrecada por ano no Brasil, conforme a Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção (Abramat). No primeiro semestre, a indústria apresentou crescimento 3,7% acima da evolução da economia. É um desempenho “razoável”, conforme o presidente da Abramat. “Trata-se de um crescimento real, pois mede o faturamento das empresas sem considerar a inflação. Foi um pouco menor em produtos de base, como ferro e conexões, mas maior em termos de acabamento, como tintas, pisos, cerâmicas”, analisa Walter Cover. O mercado da indústria de materiais de construção divide-se em três segmentos: varejo, imobiliário (construtoras) e infraestrutura. O segmento de varejo destacou-se nos primeiros seis meses do ano, crescendo 6%, pois é afetado diretamente por renda, emprego e oferta de crédito, índices que mantêm bom desempenho. “A taxa de desemprego está baixa, a renda está crescendo, e o crédito continua disponível”, pontua Cover. Com um emprego seguro, dinheiro no bolso e possibilidade de pagamento, o consumidor comum sente-se seguro para investir em sua residência. O setor imobiliário dos materiais de construção, em termos de obras, está com desempenho semelhante ao do ano passado, ainda concentrado nas vendas de imóveis construídos em 2010 e 2011, que agora estão sendo entregues, enquanto no setor de infraestrutura, a expectativa é de mercado mais aquecido a partir do segundo semestre. “Com isso, esperamos

um crescimento para este ano de 4,5%, praticamente o dobro do PIB. Não é o que já tivemos no passado, mas ainda assim é um bom desempenho.” Em 2012, a indústria de materiais de construção cresceu 1,4%. Conforme Cover, o varejo deve continuar forte, talvez chegando a 7%, enquanto a compra de materiais voltados para obras de infraestrutura tende a alcançar 4% de expansão. “A questão do setor imobiliário ainda está nebulosa, principalmente a construção de apartamentos, que tem a ver com o setor e o momento da economia no País.” A gradual recuperação econômica no cenário internacional também é apontada como aliada do setor, pois estimula

o investimento de empresas de grande porte em obras complexas, como shopping centers. Outro fator que causa forte impacto positivo e incentiva a venda familiar é que os materiais de construção estão subindo menos que a inflação. Segundo a pesquisa mensal de desempenho nas vendas do varejo de material de construção realizada pela Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), as vendas em julho cresceram 11% em comparação ao verificado em junho. Entre janeiro e julho, o setor cresceu 3,5% em comparação com 2012. Segundo o levantamento, esse crescimento acontece em todas as regiões do País. Os resultados animadores refletem-se na confiança das empresas: a

intenção de contratar funcionários pulou de 23% para 27%. Se o consumo doméstico anima o setor, o mesmo não se pode dizer das ações de governo. Em julho, a sondagem entre as empresas do setor apontou queda de 6% no otimismo em relação a junho, baixando de 26% para 20%, índice mais baixo alcançado no último ano. Para Cover, a redução do otimismo está relacionada à lenta execução de obras de infraestrutura e à indefinição sobre importantes medidas de desoneração, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Apesar da desconfiança, a indústria mantém atitude positiva – 70% das empresas pretendem promover investimentos nos próximos meses.

em 2013 já apresentou elevação de 9,1%. O banco de dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic) aponta que o CUB/m2 do Sul do País é o mais elevado entre as regiões. Para construir um metro quadrado em junho, eram

necessários R$ 1.106, enquanto a média brasileira é de R$ 1.057. Ao longo de 12 meses, o CUB/m2 local aumentou 8,92%, a maior elevação entre as cinco regiões do Brasil. A região Nordeste tem o menor índice, com R$ 980.

No Estado, areia é a vilã Conforme divulgado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS) no início de agosto, o custo unitário básico por metro quadrado (CUB/m2) de construção do mês de julho apresenta a areia lavada como grande em-

pecilho ao setor. Apenas no mês passado, o material mostrou alta de 20% - no ano, já alcançou 84,5%, especialmente nos últimos três meses, devido à suspensão da extração de areia no Rio Jacuí. O aumento da areia refletiu diretamente no valor do concreto, que


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CONSTRUÇÃO CIVIL MÃO DE OBRA

MARCELO G. RIBEIRO/JC

Há vagas, faltam interessados gico não são mais tão incomuns, assim como bonificações por metas atendidas. Tudo para manter o funcionário. Anunciada no final do ano passado e posta em prática em março, a medida provisória que prevê a desoneração de impostos na construção civil surgiu com uma promessa de aumento da lucratividade das empresas, o que poderia repercutir nos salários e tornar o setor mais atraente. Foram reduzidas a alíquota do Regime Especial de Tributação (RET) Social, de 6% para 4%, e a contribuição sobre o faturamento bruto da empresa, recolhida ao INSS, de 20% para 2%. Porém, o vice-presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS) – provável presidente a partir de outubro, pois em setembro ocorrerão as próximas eleições na entidade – e diretor financeiro da Goldsztein Patrimonial, Ricardo Sessegolo, lamenta que na prática isso não tenha ocorrido: a desoneração alcançou apenas as construtoras, não as incorporadoras. A diferença está na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae): as incorporadoras são as que podem vender imóveis; enquanto as construtoras erguem os edifícios e se desvinculam de sua administração. Assim, as empresas que constroem e comercializam apartamentos e salas comerciais – o caso da maioria das grandes marcas no setor de construção do Estado – não podem se beneficiar da desoneração. Já os empreiteiros conseguirão usufruir da mudança, mas não em projetos com mão de obra programada. Por isso, irá levar um tempo até que apareçam os reflexos desse suposto benefício. Presidente do Sticc de Porto Alegre, Valter Souza espera que a iniciativa do governo federal reflita no bolso dos trabalhadores.

Remuneração melhor passa por redução da carga tributária das incorporadoras A redução da alíquota das incorporações de 6% para 4% no Imposto de Renda é outra medida importante, também prevista na Lei 12.844, desde que haja afetação do patrimônio – quando os recursos obtidos com a comercialização da obra só podem ser usados no mesmo projeto, um reflexo do chamado Efeito Encol no mercado da construção civil. Além disso, conforme o vice-presidente do Sinduscon-RS e diretor financeiro da Goldsztein Patrimonial, Ricardo Sessegolo, a meta é fazer o governo estender às incorporadoras a redução do INSS. “Com menos carga tributária, será possível baratear a obra e melhorar a remuneração do operário”, diz. Um indício do momento de escassez no mercado está no cálculo do Custo Unitário Básico (CUB). Os números de julho do Sinduscon-RS mostram que o percentual do investimento necessário para mão de obra na composição do CUB varia de 39,59% a

57,65%. Para Sessegolo, isso indica não só um ganho salarial generalizado no País, mas também a necessidade de competição pelos mais qualificados profissionais. Embora os gastos com mão de obra tenham subido, o presidente do Sticc de Porto Alegre, Valter Souza, ainda considera a remuneração insatisfatória. Por outro lado, há uma maior preocupação com a formalização hoje. Só com esse tipo de estímulo será possível, a médio prazo, atrair de volta profissionais que resolveram tentar outras funções, em especial em serviços e no comércio, e não apenas para os cargos mais baixos na pirâmide da construção civil. Uma das grandes dificuldades hoje é formar mestres de obras, profissionais que lidam direto com os engenheiros e comandam, de fato, o andamento no canteiro. Por isso, além do conhecimento técnico, precisam demonstrar liderança.

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Empresas oferecem vantagens e melhores salários aos seus funcionários

O pleno emprego está atrapalhando a construção civil. A avaliação é de entidades ligadas ao setor no Rio Grande do Sul, que buscam as razões para a migração de profissionais aos setores de comércio e serviços e por salas de aula esvaziadas em cursos técnicos. O fato é que, hoje, não é tarefa fácil montar uma equipe para erguer um prédio em Porto Alegre. Um dos itens mais raros no mercado é o servente, o responsável por deixar o canteiro de obras limpo e organizado. Essa ocupação, chamada de auxiliar de produção, tem o piso salarial de R$ 783,20. Por hora, recebe R$ 3,56, conforme o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil (Sticc). A falta desses profissionais causa um efeito cascata nos canteiros de obras: a solução encontrada pelas empreiteiras é colocar pedreiros ou carpinteiros, que ganham mais, para fazer o trabalho pesado. E o gasto aumenta. Engenheiro civil e coordenador do Conselho Técnico Consultivo do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio Grande do Sul (Senge-RS), Vinícius Galeazzi aponta os dois últimos anos como os mais problemáticos na busca por mão de obra especializada. Segundo ele, a remuneração para o mestre de obras, aquele que orienta os profissionais e lida com os engenheiros, fica entre R$ 3,8 mil e R$ 5 mil por mês. “Ganha melhor que muito professor por aí”, diz. Se por um lado a dificuldade de encontrar gente para preencher as vagas existe, por outro as empresas estão se obrigando a oferecer vantagens e melhores salários aos seus funcionários. Cesta básica e vale-transporte são fundamentais, e o sindicato realiza fiscalizações para assegurar um ambiente de trabalho adequado. Planos médico e odontoló-

Para Sessegolo, os números do CUB de julho indicam ganho salarial e competição dos profissionais


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Cresce qualificação e escolaridade na construção civil gaúcha Profissional da Construção Civil de Porto Alegre, mantido por Sinduscon-RS, Senai-RS e Sindicato dos Trabalhadores (Sticc), passou de 433 alunos em 2009 para 977 em 2012 e deve crescer 10% em 2013. Pesquisador da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Vinícius Dias Fantinel aponta que a mão de obra é um dos principais gargalos do setor, ao lado do preço elevado da matéria-prima e da elevação no preço dos terrenos. “A mão de obra que existe no País é reduzida e custosa para as empresas. Ademais, a indústria da construção possui atualmente um nível de ocupação elevado, fator que pressiona os custos das obras para patamares mais altos.”

Cursos profissionalizantes capacitam operários e recuperam a defasagem de formação

MARCOS NAGELSTEIN/JC

O presidente do Sinduscon-RS, Paulo Vanzetto Garcia, afirma que nos últimos anos a mão de obra do setor no Estado apresenta índices crescentes de escolaridade, bem como conta com diversas iniciativas de formação e qualificação. Esse cenário recupera a defasagem de formação presente em grande parte do quadro de trabalho do setor, já que muitas pessoas procuraram ingressar na construção civil após o boom do setor ocorrido nos últimos cinco anos. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontam que a percentagem de trabalhadores da construção civil gaúcha com Ensino Médio pulou de 22% em 2006 para 33,4% em 2011. Já o Centro de Educação

Aulas no Senai estão com salas esvaziadas O mercado pode até não encontrar os profissionais de que precisa, mas não pode reclamar da sólida estrutura formada para garantir que esses treinamentos cheguem aos interessados. Sinduscon-RS, Sticc de Porto Alegre e Senai-RS atuam juntos incentivando tanto cursos de capacitação quanto a inclusão do trabalho feminino nas obras. A chegada das mulheres à construção civil, aliás, ainda é tratada como uma novidade.

Para incentivar a formação técnica, o Senai disponibiliza turmas em todos os turnos para 17 tipos de curso, no mínimo, necessários à construção civil. Pedreiro, pintor, carpinteiro, encanador, gesseiro e outras profissões são ensinadas em períodos que variam de 80 a 1,2 mil horas nas 150 unidades espalhadas pelo Estado. Diretor regional do Senai no Rio Grande do Sul, José Zortea assegura que a oferta de vagas é abundante. Difícil,

mesmo, tem sido preenchê-las. “As pessoas não estão procurando muito. Temos entre 50% a 60% de ocupação, em geral”, afirma. Os cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), do Ministério da Educação (MEC), têm no mínimo 260 horas e mais de 17 mil vagas no Estado. As inscrições são feitas na Secretaria de Educação, na rede estadual, nos institutos federais ou direto nas unidades dos

serviços nacionais de aprendizagem, como Senai e Senac. O porém é que em muitos cursos o Ensino Médio é pré-requisito, afastando quem não conseguiu completar os estudos. O presidente do Sticc critica exatamente essa exigência, o que está distante da realidade do profissional. “Os tecnocratas do MEC desconhecem como funciona o mercado como um todo e atrasam a colocação de gente qualificada no mercado”, afirma Souza.


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MERCADO

Momento de vender

Novidade no Estado, conceito de empreendimentos mistos (mixed-use) veio para durar

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Se a construção residencial arrefeceu nos últimos dois anos, a explicação está no funcionamento do setor, sempre operando de forma cíclica. É hora de fazer negócios, e as construtoras afirmam que nunca venderam tanto. Os imóveis em Porto Alegre respondem à demanda e, por consequência, tornam-se mais caros. Nos últimos 12 meses, até julho, o valor médio do metro quadrado apresentou alta de 13,3% - nos sete primeiros meses de 2013, a alta é de 6,9%, conforme o índice Fipezap da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Entre 16 cidades analisadas, a capital gaúcha é a quinta em valorização de imóveis, em razão de que o mercado não sofreu os efeitos do baixo desempenho econômico e continua aproveitando-se de índices importantes, como a redução do desemprego e a oferta de crédito com taxas reduzidas para financiamentos. “É muito importante lembrar que a inadimplência do mercado imobiliário é das mais baixas, em torno de 2%, enquanto em bens de consumo fica até 8%”, afirma Carlos Alberto Schetter, presidente da Nex Group, que apenas no primeiro semestre vendeu R$ 360 milhões. Entre as construtoras gaúchas, o momento é de euforia. Se depender do desempenho do primeiro semestre, as metas de vendas para 2013 serão ultrapassadas até com certa folga. “O mercado está muito comprador. Estamos atingindo resultados rapidamente”, comemora Juliano Melnick, diretor da Melnick Even. A empresa fez apenas um lançamento neste ano, o Icon, empreendimento mixed-use na avenida Assis Brasil, com valor geral de venda de mais de R$ 200 milhões, metade da meta da empresa para

os 12 meses. “Em 10 dias, foram mais de 300 unidades vendidas, um recorde da empresa e do mercado.” Desde que o empreendimento foi lançado, há três meses, já são mais de 500 unidades comercializadas. A construtora também dispõe de empreendimentos voltados para o público que está adquirindo seu primeiro imóvel, com apartamentos de até R$ 350 mil. Novidade no mercado gaúcho, o conceito de empreendimentos mistos (mixed-use), com espaços integrados de moradia, trabalho e compras, é uma tendência que veio para durar. A Nex Group lançou, em parceria com a incorporadora

MaxCasa, o projeto MaxHaus, grife já sedimentada em São Paulo, onde há 10 prédios seguindo o mesmo conceito inovador de arquitetura aberta, onde o comprador recebe uma planta de 70 metros quadrados e pode recriar o ambiente, acrescentando cômodos e paredes, por exemplo, modificações que podem ser feitas durante toda a vida útil do imóvel. Também existe a possibilidade de combinar uma ou mais plantas para obter imóveis maiores, na vertical ou na horizontal. Para o vice-presidente de comercialização do Secovi-RS, Gilberto Cabeda, o desempenho recente é animador, mas o momento é de

aguardar. “A comercialização de imóveis vem crescendo nos últimos três anos, mas a partir de maio o mercado está estável, então estamos esperando para saber se esta situação é provisória ou vai se manter.” O Secovi-RS avalia apenas imóveis usados – a partir da segunda venda. No mercado desde 1994, a Allgayer não sente queda nos negócios. Direcionada ao nicho de construção de lojas para o varejo, a empresa atende clientes como Lojas Renner, Ponto Frio e Kalunga e já está presente também nos mercados paulista e baiano. “Atualmente, estamos com oito execuções de obras. Como

o segundo semestre geralmente é melhor, nosso faturamento pode superar em até 30% o ano de 2012”, afirma Oscar Allgayer, proprietário da empresa. Quem deseja alugar imóveis, não encontrará um cenário muito diferente em termos de valorização. Conforme dados do Secovi-RS e Agademi, em agosto o preço médio da oferta para imóveis residenciais em locação elevou-se 6,48% nos últimos 12 meses. Os apartamentos de dois dormitórios respondem por 24,5% entre imóveis usados disponíveis para comercialização, seguidos pelos de um dormitório, com 17,1%.

corretores de imóveis é nítida a percepção da redução do núcleo familiar. “Esta é uma realidade. Existe uma busca constante e expressiva por imóveis menores, geralmente jovens solteiros que estão saindo de casa ou casais recém-formados. Isso nos indica que é importante dirigir projetos para este segmento.” Indicativo de que mesmo quem pretende morar sozinho está optando por imóveis arrojados e com maior sofisticação é a ampla aceitação e procura pelo Nine, da Melnick Even, escolhido empreendimento do ano pelo

Sinduscon Premium 2012, que premia as melhores iniciativas do mercado imobiliário gaúcho. Com previsão de entrega para 2015, o Nine possui projeto arquitetônico inovador – o nome do empreendimento refere-se à área de lazer interna, localizada no nono andar, um espaço-conceito com estrutura diferenciada, que conta com fitness, espaço de convivência, jogos e área gourmet. O empreendimento também oferece spa e tem uma piscina suspensa de vidro, projeto arquitetônico único em Porto Alegre. “É um empreendimento dife-

renciado e inovador, voltado para um público exigente, que recebeu o prêmio mais importante da construção civil gaúcha”, aponta Juliano Melnick, presidente da Melnick Even. Focado no público single e em jovens casais, o projeto pretende quebrar conceitos e oferece quatro opções de plantas: loft, duplex com pé direito duplo e apartamentos de dois dormitórios. O tamanho das unidades varia entre 35 e 70 metros quadrados de área privativa. O térreo conta com seis lojas, área comercial com acesso independente da parte residencial.

Sozinho, mas com sofisticação A imagem de alguém que prefere morar sozinho e vive em um apartamento apertado que serve basicamente apenas para dormir é coisa do passado. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no final de 2012, Porto Alegre é a capital brasileira com a maior proporção de pessoas que moram sozinhas – 21,4% dos domicílios, ou cerca de 508 mil unidades. É a única capital entre as vinte cidades do País com mais moradores únicos, com o maior número total de “solitários” entre todos os municípios listados.

Em todo o Brasil, são 6,9 milhões de domicílios com apenas um morador, aumento de 68,3% em uma década. Mas isso não significa que aqueles que escolhem não fazer cópia da chave descartem conforto e sofisticação. Conforme o IBGE, a maioria dos que vivem sozinhos é formada por homens, que geralmente gastam mais energia e água, além de adotarem um custo de vida mais elevado. Conforme o presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Rio Grande do Sul (Creci-RS), Flávio Koch, para os


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Terceira maior população do Rio Grande do Sul e quarta cidade em potencial de consumo, Pelotas está vivendo um momento econômico auspicioso, que serve de convite ao nascimento de grandes projetos relacionados à construção civil. Diretamente beneficiada pelos vultosos investimentos no Polo Naval de Rio Grande, que causam reflexos em toda a região Sul do Estado, Pelotas vê seu potencial de consumo crescer. Estima-se que nos próximos anos a cidade deve absorver como residentes parte dos profissionais de classe média e alta atuantes na atividade naval de Rio Grande. Devido a este contexto, grandes construtoras gaúchas já investem pesado em empreendimentos diferenciados na cidade. A Nex Group está desenvolvendo um projeto de 1536 unidades, com valor geral de vendas de R$ 320 milhões, em um grande terreno que vai contar com área interna de lazer, conceito inovador na cidade. Ao realizar entrevistas na fase pré-vendas, a empresa se surpreendeu que muitas pessoas

JOAL TEITELBAUM /DIVULGAÇÃO/JC

Pelotas vive boom imobiliário

Quartier será o primeiro bairro sustentável do Rio Grande do Sul

pediram para serem avisadas quando começasse a comercialização, algo não comum. “Tem um testemunho de uma pessoa que disse: ‘como eu gostaria que meu filho pequeno, em vez de ser

craque no computador, jogasse futebol, brincasse na terra e tivesse amigos no condomínio’”, relata Enio Pricladnitzki, diretor comercial da Nex Group. O Quartier, primeiro bairro

sustentável do Rio Grande do Sul, projeto assinado pelo renomado urbanista Jaime Lerner e desenvolvido pela Joal Teitelbaum Escritório de Engenharia em parceria com a Guapo Capital Group,

deve estar concluído em 2017 e vai movimentar cerca de R$ 2 bilhões no mercado local. Também vai agitar o mercado imobiliário da região Sul, além de renovar a concepção urbanística de Pelotas.


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PERSPECTIVAS

MARCO QUINTANA/JC

Lentidão em obras de infraestrutura preocupa

Governo concederá à iniciativa privada operação de estradas e ferrovias que ligarão diversos portos, entre eles o de Rio Grande

Faltando menos de 300 dias para a Copa do Mundo de 2014, o Brasil corre sérios riscos de não saber aproveitar a grandiosidade do evento para construir um legado permanente em infraestrutura. Metade das obras programadas para os aeroportos das cidades-sede, por exemplo, estão paradas. Também as grandes obras de infraestrutura do País não estão contribuindo para aquecer a indústria da construção civil. Em relação às obras rodoviárias do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), existe um atraso médio de quatro anos. Entre as entidades representantes da construção civil, o clima é de pessimismo. Em 16 de agosto, foi anunciado o pacote do governo que concede à iniciativa privada a operação de estradas e ferrovias em diversos pontos do Brasil. Ao todo, serão 10 mil quilômetros de estradas de ferro, distribuídos em 12 novas ferrovias que ligarão diversos portos, entre eles o de Rio Grande. O setor privado também será res-

ponsável pela duplicação e manutenção de 7,5 mil quilômetros de estradas, podendo contar com financiamento de até 80% do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes). A estimativa é de R$ 133 bilhões em investimentos. Apesar das concessões, os frequentes adiamentos de prazos em obras do PAC fazem com que representantes da construção civil permaneçam desconfiados. No Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre, a construção do novo terminal de cargas, prevista para 2012, acabou adiada para janeiro de 2015. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção (Abramat), Walter Cover, o setor de infraestrutura é um dos que menos contribui para o segmento. Enquanto as vendas de material de construção devem fechar o ano com crescimento de 6%, as obras públicas vão se expandir 4%. “O mercado de infraestrutura deve melhorar no segundo

semestre, mas ainda está muito devagar. Nossa expectativa é de que cresça em 2014, até porque é ano eleitoral, e não podemos desconsiderar este cenário.” Criado em 2007 para impulsionar o desenvolvimento do País em infraestrutura e manter o mercado interno aquecido, a segunda versão do programa foi lançada em 2010. No último balanço do PAC 2, em junho, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, anunciou que 54,9% das obras já estavam concluídas e que os empreendimentos somaram R$ 388,7 bilhões apenas entre 2011 e 2013. Conforme o governo, as obras em estado preocupante chegam a 3%, e quase 60% estão concluídas. Até agora, o programa já gastou aproximadamente R$ 557 bilhões em infraestrutura logística, social, energética e urbana, sendo que R$ 19 bilhões foram aplicados somente neste ano. Na divulgação do balanço, o governo afirmou ainda que já haviam sido injetados na economia, entre 2011 e 2014,

47,8% de R$ 1 trilhão previstos. O programa compreende seis eixos de investimentos: urbanização, fornecimento de água e eletricidade, moradia, transportes, energia e cidadania. No final de julho de 2013, as construtoras responsáveis pelas obras rodoviárias do PAC sinalizaram que poderiam paralisar as operações devido à falta de pagamento pelo governo federal – cerca de R$ 1,5 bilhão, que não entrou na conta das empresas devido à greve do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Essa situação estaria prejudicando especialmente as pequenas e médias empresas. “As obras do PAC não têm um ritmo adequado. Agora, com leilão de aeroportos e rodovias, esperamos que melhore. Mesmo que seja para 2014, é preciso que tenhamos alguma movimentação”, analisa o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Paulo Safady Simão.

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As obras que a Copa não verá

Prioridade será concluir o entorno do estádio Beira-Rio, que receberá os jogos

Em julho, a prefeitura de Porto Alegre estabeleceu novos prazos e estipulou que muitas das obras que serviriam para melhorar a infraestrutura da cidade já para a Copa do Mundo na verdade serão acabadas apenas depois de julho de 2014. Entre os projetos que não estarão prontos até o Mundial, encontram-se a duplicação da avenida Tronco, o viaduto da avenida Plínio Brasil Milano e a operação de transporte rápido BRT. A prioridade será aprontar o entorno do estádio Beira-Rio, que receberá os jogos. “Infelizmente, o País não soube aproveitar com competência a chegada deste grande evento. Era uma grande chance de deixar um legado, mas não tivemos competência. Torço para que pelo menos os novos estádios continuem operando bem”,

desabafa Simão. Recentemente, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou que as obras das novas arenas precisam ser intensificadas para cumprir os prazos e mostrou preocupação com o andamento de obras em seis arenas. No Rio Grande do Sul, apesar dos atrasos, as obras públicas são encaradas como válvula de escape para a indústria da construção civil continuar crescendo. Conforme o Índice de Atividade da Construção Civil Gaúcha (IAC-RS), levantamento do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RS), o setor de obras públicas apresentou crescimento de 1,35% de janeiro a outubro de 2012 – nos 12 meses fechados, a expansão foi de 2,04%. Para 2013, a expectativa é de crescimento de 2% a 3%.


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PERSPECTIVAS

Burocracia desafia o setor

MARCOS NAGELSTEIN/JC

queixa dos empreendedores é a demora no licenciamento ambiental. O licenciamento no município de Porto Alegre é urbano-ambiental. Há necessidade de superar questões urbanas, antes da finalização do licenciamento ambiental. Reconhecendo que há necessidade de diminuição nos tempos do licenciamento urbano-ambiental, o prefeito criou o Escrito de Licenciamento, que está procurando simplificar e qualificar o processo”, explica Mauro Gomes de Moura, supervisor de meio ambiente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam). Em março, a prefeitura criou o Escritório Geral de Licenciamento e Regulação Fundiária (EGLRF), departamento que tem a missão de promover a integração entre as empresas da construção civil e o Poder Público. As construtoras também reivindicam critérios mais claros dos fiscais da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os empresários afirmam que muitas vezes os empreendimentos embargados cumprem as normas específicas, como andaimes e elevadores de carga. “Nós temos uma obra embargada há mais de 280 dias por um critério individual do auditor fiscal. As principais companhias são escolhidas para servir de modelo, na tentativa de disseminar as melhores práticas, o que é necessário, mas muitas obras não são vistoriadas, e há grandes acidentes”, pondera Schettert. Representantes do setor da construção civil organizaram-se para buscar esclarecimentos junto ao ministério.

Entre as principais reclamações das construtoras, está a demora da prefeitura na aprovação de projetos

MARCOS NAGELSTEIN/JC

A cidade de Porto Alegre vem sendo apontada como território hostil para a indústria da construção civil. A lentidão na aprovação de projetos e na concessão de licenças prejudica a velocidade de construção dos lançamentos e alonga ainda mais o caminho entre lançamento e venda das unidades residenciais. O tempo estimado pelas construtoras desde o lançamento e as vendas, passando pela construção, até a entrega dos imóveis aos clientes em Porto Alegre, supera os cinco anos. Para termo de comparação, segundo Fernando Fabian, diretor do grupo paranaense Plaenge, presente no Sul do Chile, o ciclo da construção naquele país demora cerca de 60% desse tempo. Os entraves para aprovar projetos e obter licenças fazem com que empresas dispostas a investir procurem outras cidades, e isso se reflete diretamente no número de lançamentos em Porto Alegre. Conforme dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RS), até abril foram lançadas 1.893 unidades – no mesmo período de 2012, haviam sido lançadas 2.000 unidades. Até dezembro, a estimativa é de que sejam lançadas 4 mil unidades, enquanto a demanda projetada é de 7 mil unidades. Na capital gaúcha, entre as principais reclamações das construtoras, estão a demora da prefeitura na aprovação de projetos de construção e critérios controversos no momento de embargar empreendimentos em construção. “Estamos com dificuldade na aprovação de projetos, devido a processos de gestão inadequados da prefeitura, e também junto a concessionárias de água, esgoto e energia”, reclama Carlos Alberto Schettert, presidente da Nex Group. Dessa forma, o desempenho da empresa fica condicionado à agilidade da prefeitura. A construtora Melnick Even deve bater seus próprios recordes de lançamentos e vendas em 2013. Para alcançar o objetivo, no entanto, ainda aguarda a liberação de seus projetos pela prefeitura. “Os terrenos foram comprados, e os projetos estão feitos, mas precisamos aguardar a prefeitura”, salienta Juliano Melnick, diretor da empresa. No protocolo da prefeitura há cerca de 155 mil documentos - 500 novos pedidos chegam todos os dias e depois seguem para a Secretaria Municipal de Urbanismo (Smurb), As indústrias se mobilizaram para diminuir as barreiras burocráticas, e a própria prefeitura de Porto Alegre reconhece que são necessárias melhorias nos processos, a fim de deixar mais ágil a aprovação dos projetos. “A

Construção e ambiente não são antagônicos As empresas da construção civil estão procurando cumprir as normas estabelecidas em relação às disposições ambientais no momento de desenvolver seus empreendimentos, e alguns projetos de maior valor inclusive têm agregado melhorias além das especificações da prefeitura. “Durante a construção dos empreendimentos, há uma

tendência de melhoria na gestão dos resíduos gerados, tanto por uma questão de sustentabilidade como também por redução dos custos da obra”, aponta Mauro Gomes de Moura, supervisor de meio ambiente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam). Conforme Moura, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e

Ambiental de Porto Alegre permite conciliar o crescimento da cidade e o progresso urbano com uma proposta sustentável e ambientalmente responsável. O plano é avaliado periodicamente, para que novos conhecimentos técnico-científicos sejam incorporados. O supervisor garante que o conceito de sustentabilidade e responsabilidade

ambiental já acontece em várias legislações e ações adotadas na capital gaúcha, tradicionalmente engajada nestes conceitos, tendo inclusive criado a primeira secretaria municipal de meio ambiente do País. “Não é uma adesão de momento, mas a continuidade de um processo em uma sociedade com grande consciência ambiental.”


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CONSTRUÇÃO CIVIL

INOVAÇÃO

Eficiência e praticidade O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação divulgou no final de julho que os investimentos do setor da construção civil em pesquisa e inovação subiram de R$ 23 milhões para R$ 40 milhões em dois

anos. O levantamento, feito pela consultoria Global Approach Consulting, indica que os incentivos fiscais foram responsáveis por boa parte dos investimentos. E, na esteira do crescimento da construção

civil, as universidades apostam em muita pesquisa para tornar os processos mais modernos. O resultado aponta benefícios objetivos, ou seja, ganho em tempo e redução de impactos ambientais. Projetos

nas áreas de energia, automação e materiais de construção aparecem nas faculdades de engenharia, todos em busca de novos métodos para ampliar a eficiência do setor.

UFSM/DIVULGAÇÃO/JC

Energia produzida em casa poderá ser comercializada

Conversores desenvolvidos pela UFSM devem permitir a extração máxima da energia solar captada pelos painéis fotovoltaicos

Não é novidade a utilização de energia solar para produzir calor - é relativamente comum encontrar residências que tenham painéis para esse fim. O que ainda é raridade é o uso de painéis fotovoltaicos, que transformam a energia solar em energia elétrica. Dessa forma, ela pode ser usada para acender lâmpadas ou ligar eletrodomésticos. O alto custo do equipamento é o principal responsável pela baixa popularização desse tipo de energia, o que deve mudar em breve. No ano passado, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou regras destinadas a facilitar a instalação e troca de energia entre os pequenos e microprodutores com as distribuidoras locais. Na prática, o Sistema de Compensação de Energia vai permitir que quem produz energia com fontes alternativas (solar, eólica, biomassa ou hídrica) em sua própria casa possa comprar, quando

não estiver produzindo o suficiente para o próprio consumo, ou repassar o excedente à distribuidora. Nesse último caso, será uma compensação feita por meio de abatimento nas contas de luz. É com base nesse cenário que uma equipe de engenheiros da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) está desenvolvendo um projeto de geração de energia para residências com a ajuda de painéis fotovoltaicos. “A ideia é desenvolver um sistema que, além de produzir a energia, consiga injetá-la no próprio sistema elétrico”, diz Cassiano Rech, engenheiro elétrico. Ainda é preciso que o sistema elétrico brasileiro se adapte a essa troca de energia, o que demanda tempo, admite Rech. “A geração deverá ser mais descentralizada. Mas será necessária uma rede inteligente, com tráfego de dados entre os pequenos produtores e a distribui-

dora, para controlar e mensurar essa produção.” O grupo de Rech está focado em desenvolver conversores - equipamentos capazes de captar a energia solar e transformá-la em elétrica. “Elas são incompatíveis, por isso os painéis não podem ser ligados à rede diretamente”, diz. O diferencial é que os conversores desenvolvidos na universidade têm como objetivo permitir a extração máxima da energia solar captada pelos painéis fotovoltaicos. Outra mudança que entra em vigor a partir do ano que vem também está voltada à produção de energia em casa. As tarifas poderão ser diferenciadas em relação aos horários de uso, ou seja, entre 18h e 21h, a luz poderá ser mais cara, já que o horário é considerado de pico de consumo. Nos demais horários, a energia será mais barata que a tarifa média. O sistema funcionará de acordo com a adesão

de clientes residenciais e comerciantes com a solicitação de um novo relógio. Na prática, os produtores da própria energia poderão usá-la, ou parte dela, nos horários de pico, deixando para fazer uso da energia produzida pela geradora tradicional no restante do dia. No entanto, a grande mudança de paradigma apontada pelo engenheiro para justificar a pesquisa é a popularização dos carros elétricos que deve se dar nos próximos anos. “Com uma esperada explosão no uso de veículos elétricos, o Brasil não terá condições de abastecer uma frota tão grande com a energia que produzimos hoje”, diz. Por isso, ele e a equipe apostam em novas resoluções que estimulem a produção de energia em casa. “Quem tiver baterias extras, no futuro, poderá armazenar energia nos horários mais baratos e ‘revendê-la’ nos horários de pico”, projeta.


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INOVAÇÃO

Há alguns anos, as mostras de decoração e construção insistem em mostrar as casas do futuro, sem fios aparentes, sem interruptores. Um pequeno paraíso de temperatura controlada já estaria aguardando o dono que, de longe, seria capaz de acionar TV, ar-condicionado, cortinas etc. O sonho de uma casa dos Jetsons, a família do futuro dos desenhos animados, já seria possível, mas distante. O preço dos equipamentos de automação residencial e o quebra-quebra de paredes para receber a nova fiação representavam impedimentos consideráveis para viabilizar projetos desse tipo. Os custos já caíram, e hoje é possível automatizar um apartamento de 60 metros quadrados - ou uma sala grande com home theater, TV, cortinas e luzes acionadas via automação - com R$ 10 mil. E as paredes já não caem mais, pois a automação sem fio vem ganhando espaço e tornando mais fácil a instalação de equipamentos em casas prontas. O bônus é a praticidade. Além dos controles remotos, a automação ganhou a ajuda preciosa de tablets e smartphones, que são capazes de controlar todas as funções por meio de aplicativos

dedicados. E não são apenas equipamentos de lazer, a automação também aciona câmeras de segurança e alarmes. Uma das empresas que surfam na onda da popularização da automação residencial é a Home Manager, de Porto Alegre. A empresa é incubada na Raiar, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), e já tem dois anos de funcionamento. O sócio da Home Manager Bernardo Pianta, formado em Engenharia Elétrica, explica que há dois tipos mais frequentes de instalação, a por sistemas cabeados, ou seja, com fios que ligam os equipamentos até uma central, e a por wireless, como os desenvolvidos pela empresa. “A central de controle funciona como um roteador de internet”, diz. Cada casa atendida pela Home Manager recebe um painel ao qual podem ser acoplados diferentes equipamentos via módulos, desde cortinas e lâmpadas até cafeteiras. Os sistemas podem ser acionados via tablet, notebook ou smartphone via Android, iOs, Mozilla e Windows. Também é possível acionar os equipamentos sem internet, via controle remoto. Os resultados já apareceram.

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Automação sem quebra-quebra

Em um ano e quatro meses de operação comercial, a empresa cresceu nada menos que 100%, com mais de 20 sistemas instalados no Rio Grande do Sul. Além de não quebrar paredes, o sistema wireless ainda tem outra vantagem: a rapidez na instalação.

“A interface é muito simples. Os sistemas completos podem ser instalados em no máximo dois dias úteis”, diz Pianta. Mas, em alguns casos, é possível ter a casa do futuro em até 3 horas. Nada mal para quem esperou alguns anos para que os sistemas fossem mais acessíveis.

Pianta explica que a central de controle funciona como um roteador de internet

Restos de tênis na parede Não é novidade que os resíduos de derivados de petróleo são uma dor de cabeça para o meio ambiente. De olho na destinação correta de alguns dos seus derivados, alunos do grupo de pesquisa de materiais para a construção civil da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, estudam

a utilização de resíduos da indústria calçadista na mistura de concreto. A região, que abriga o polo calçadista do Estado, é grande geradora desses resíduos, entre eles alguns que não podem ser reciclados - o caso do EVA e do poliuretano (PU), ambos derivados de petróleo utilizados na fabrica-

FEEVALE/DIVULGAÇÃO/JC

Pesquisadores da Feevale estudam a utilização de resíduos da indústria calçadista na mistura do concreto

ção de solados, palmilhas e outros componentes de tênis e calçados. Estes laminados sintéticos são termofixos, ou seja, não são maleáveis com o calor, o que, segundo um dos pesquisadores, o engenheiro químico e pesquisador do doutorado em Qualidade Ambiental Fabiano Trein, prejudica o processo de reciclagem. A ideia da equipe da Feevale é utilizar as rebarbas produzidas na fabricação dos calçados para a produção de concreto no lugar da areia - o concreto é uma mistura de água, areia, pedra e cimento. As sobras se tornam pó e são agregadas a um tipo específico de cimento - o álcali-ativado, que por si só já é um material de construção mais ecológico do que o cimento comum, o portland, já que em sua produção a emissão de gás carbônico é reduzida. “Ele reage junto com o pó do EVA e do poliuretano. É como se fosse um encapsulamento das partículas dos laminados”, diz Trein. “Eu posso fazer um tijolo com ele, e isso não vai contaminar os lençóis freáticos em contato com o ambiente”, afirma. O produto é considerado classe 2 A na Norma Brasileira de Classificação de Resíduos Sólidos - não inerte e não perigoso.

“É como se, ao fazer um pão, em vez de farinha, usássemos casca de ovo, eliminando um resíduo”, diz Trein. Não é pouca coisa: segundo o engenheiro, as indústrias calçadistas da região gastam entre R$ 100 e R$ 130 pela destinação do metro cúbico de resíduo em aterros sanitários. Dessa forma, o desfazer deste material sem danos ao meio ambiente representaria também um corte de custos considerável para os fabricantes. Há ainda a vantagem da substituição da areia como componente do concreto, já que reduz a extração do recurso da natureza. Estão sendo testadas várias proporções de resíduo e areia, 30% para 70%, meio a meio e 70% de resíduo para 30% de areia. “A primeira análise foi: funciona? Fazendo os ensaios, a resposta foi sim. Agora, partimos para os ensaios de desempenho, para verificar a absorção de água, a capacidade de compressão e a capacidade de isolamento acústico e térmico”, diz Trein. Esta fase do projeto se encerra em janeiro. O engenheiro sonha em fechar o ciclo completo da logística reversa: “Imagine a indústria utilizando esses resíduos na construção de novos galpões, por exemplo”.


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CRÉDITO IMOBILIÁRIO

A construção civil pode estar erguendo menos prédios, mas os clientes estão fazendo a festa com os imóveis colocados no mercado nos últimos anos. Nos primeiros seis meses do ano, o volume de empréstimos consolidados para financiamento imobiliário atingiu a marca histórica de R$ 49,6 bilhões, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). O desempenho representa alta de 34% em relação ao primeiro semestre de 2012, quando foram liberados R$ 37 bilhões. É o melhor resultado desde 1994. Os dados fazem referência apenas às operações vinculadas ao Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), que tem recursos custeados pela caderneta de poupança, com juros que variam de 5,79% ao ano na Caixa Econômica Federal a 15,93 ao ano na Poupex. A Abecip espera que em 2013 o crédito imobiliário alcance o histórico índice de 8,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Até 2015, a estimativa é de que chegue a 10% de tudo o que o Brasil gera de riquezas. Apesar de crescente, a importância do crédito imobiliário na economia nacional é tímida em comparação com os países desenvolvidos. “Estamos evoluindo, mas ainda nos encontramos muito atrasados no que se refere a crédito imobiliário”, pondera Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic). O crédito imobiliário parece desconhecer os percalços que acometem a economia brasileira atualmente. “Estamos vivendo um momento emblemático, apesar da expectativa de um PIB baixo e da inflação, porque as pessoas

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Finalmente a todo o vapor

continuam empregadas e com ganhos reais de salário, variáveis necessárias para um bom desempenho do crédito imobiliário”, aponta o presidente da Abecip, Octavio de Lazari Junior. A expectativa é de que o ano seja encerrado com crescimento entre 15% e 20%, com o segundo semestre apresentando desaceleração, mas ainda muito superior ao desempenho de 2012, quando se expandiu 3,6%. A expectativa é de que até o final do ano as operações de

crédito imobiliário movimentem R$ 95 bilhões. “O que aconteceu no primeiro semestre foi que alguns projetos que seriam lançados no final de 2012 foram transferidos para o começo deste ano”, salienta. O crédito para a aquisição de imóveis alcançou R$ 35,4 bilhões, com expansão de 45%, destacando-se as operações envolvendo imóveis usados, que somaram R$ 23 bilhões, alta de 53%. Também o financiamen-

to destinado à construção de imóveis apresentou indícios de recuperação no primeiro semestre, atingindo um crescimento de 12% em comparação com o mesmo período de 2012, ano em que recuou 20%. Para o presidente da Abecip, contribuíram para a retomada a aceleração de prefeituras na hora de liberar licenças para novos imóveis e a retomada de confiança por parte das operadoras.

Expectativa é de que até o final do ano as operações de crédito imobiliário movimentem R$ 95 bilhões

Caixa atinge marca histórica Principal agente do setor de crédito a imóveis no Brasil, a Caixa Econômica Federal fechou o primeiro semestre com volume de contratações em financiamento imobiliário na casa de R$ 66 bilhões. O desempenho é 44% superior ao do mesmo período de 2013, quando foram movimentados R$ 45,9 bilhões. Os resultados fizeram com que a instituição ampliasse a expectativa de contratações do crédito imobiliário para 2013 – de R$ 126 bilhões para R$ 130,2 bilhões. Do montante aplicado, R$ 38 bilhões destinaram-se à aquisição de imóveis prontos, enquanto R$ 28,6 bi foram aplicados no financiamento à produção de empreendimentos habitacionais. Em média, a aplicação diária no período alcançou R$ 537 milhões, com 5.783 contratos assinados por

dia, totalizando 711 mil em seis meses. Os imóveis novos apresentaram participação de 67% do total, tendo como grande destaque o Programa Minha Casa, Minha Vida. “Não há estagnação. Percebemos uma evolução, tanto de imóveis novos quanto de usados. No mercado imobiliário, passamos por fases, e as empresas estão em fase de vendas”, salienta o gerente regional para construção civil da Caixa, Rodrigo Monteiro. No financiamento à produção, foram contratados R$ 34,3 bilhões, destinados a 352 mil unidades. No Rio Grande do Sul, foram 9,3 mil unidades, que movimentaram R$ 1,18 bilhão. “Temos linhas de crédito para financiar empreendimentos. Se o projeto for viável, a construtora pode financiar até 80% da obra. As construtoras

estão buscando esta alternativa, tanto no Estado como em âmbito nacional”, avalia Monteiro. Dos R$ 66,1 bilhões em financiamentos imobiliários do primeiro semestre, as operações com recursos da poupança conforme o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) alcançaram R$ 30 bilhões, enquanto as modalidades que usam recursos do FGTS responderam por R$ 23 bilhões. Somente o Programa Minha Casa, Minha vida foi responsável pela contratação de R$ 28,5 bilhões – estima-se que 1,5 milhão de pessoas tenham sido beneficiadas com 378,9 mil moradias. Deste valor, 58% foi destinado a famílias com renda de até três salários-mínimos. Com os resultados do semestre, o lucro da Caixa cresceu 10,3% em comparação com o mesmo período de 2013, além de ser

um desempenho recorde em relações aos primeiros semestres dos anos anteriores, com retorno sobre lucro líquido alcançando 26,7% - no segundo trimestre, o lucro líquido alcançou R$ 1,8 bilhão, alta de 39,7% em relação aos primeiros três meses. O resultado operacional alcançou desempenho recorde para um semestre, com R$ 3,1 bilhões, crescimento de 8,1% em relação os seis primeiros meses de 2012. Em um ano, a Caixa aumentou seu volume de empréstimos para R$ 431,3 bilhões, crescimento de 42,5%, consolidando sua liderança no mercado de crédito brasileiro. Em 12 meses, a participação da Caixa no mercado de crédito saltou de 14% para 17%. A inadimplência entre os clientes da Caixa atingiu 2,27%, abaixo do percentual médio do mercado, que é de 3,40%.


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CRÉDITO IMOBILIÁRIO

Opção que faz bem para o bolso

No primeiro semestre do ano, volume de negócios saltou de R$ 38,2 milhões para R$ 40,8 milhões

FREDY VIEIRA/JC

Para quem pode esperar para adquirir seu imóvel, pretende mudar para uma casa ou apartamento maior ou simplesmente quer investir suas economias em um lugar seguro, uma opção indicada por especialistas é o consórcio. No Brasil, a modalidade vem se expandindo com força e ganhando adeptos. No primeiro semestre de 2013, o número de participantes em consórcios cresceu 9,6% em relação a 2012, passando de 4,99 milhões de pessoas para 5,47 milhões. No período, o volume de negócios saltou de R$ 38,2 milhões para R$ 40,8 milhões, alta de 6,8%. Os dados são da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac). Escolher um consórcio também é uma alternativa eficiente para aquelas pessoas que não conseguem economizar dinheiro por conta própria. Como é preciso depositar determinado valor todos os meses, acaba funcionando como uma forma segura e eficaz de juntar dinheiro. “É como uma poupança. A pessoa se programa, geralmente já possui um imóvel e pretende vender para comprar outro maior, e faz um planejamento não imediato”, aponta Octavio de Lazari Junior, presidente da Abecip. Conforme Lazari, no último ano, o consórcio imobiliário apresentou evolução de 17%, ocupan-

do um lugar importante no setor. É possível realizar consórcio no valor de até R$ 1 milhão, em um prazo que pode se estender por até 180 meses. Na modalidade, tam-

bém não há pagamento de juros, apenas o de uma taxa de administração que pode chegar até 0,2% ao mês. Conforme dados da Caixa Eco-

nômica Federal, os consórcios da instituição no Estado no primeiro semestre de 2013 alcançaram R$ 149,8 milhões, correspondentes a 1.273 unidades. O Rio Grande do

Sul é responsável por 12% da participação de vendas no País, que apontou R$ 1,28 bilhão para 12,3 mil unidades. Em 2012, o Estado possuía 8% de participação.

ABECIP/DIVULGAÇÃO/JC

Sem risco de bolha Desde 2002, o setor de crédito imobiliário cresceu mais de 52 vezes no Brasil. Naquele ano, as operações movimentaram R$ 1,8 bilhão, enquanto a expectativa é de que em dezembro de 2013 se alcance a histórica marca de R$ 95 bilhões. Com um mercado tão aquecido e com cada vez mais brasileiros procurando financiamento para adquirir a casa própria, com frequência surge o temor de o País estar criando uma bolha imobiliária semelhante à que afetou a economia norte-americana e gerou a crise de 2008. Esta possibilidade, no entanto, é fortemente rechaçada pelos especialistas. “É importante ressaltar que o momento do crédito nos últimos anos é muito positivo. Estamos apresentando um crescimento sustentável, com preços estáveis e crescimento da poupança. Ou seja, estamos muito longe de qualquer Lazari ressalta que o momento do crédito nos últimos anos é muito positivo

possibilidade de bolha imobiliária”, explica o presidente da Abecip, Octavio de Lazari Junior Conforme Lazari, diferentemente da maneira como se comporta para consumir em outros setores, o brasileiro não age por impulso na hora de adquirir imóveis. “O cliente faz muitas contas na hora de adquirir a casa própria, usa a poupança e o Fundo de Garantia. Em média, o consumidor brasileiro financia 65% do imóvel, o que é um índice extremamente positivo. Muita gente inclusive faz questão de dar 50% de entrada.” Além disso, o crédito imobiliário ainda tem uma participação pequena no Produto Interno Bruto (PIB) do País. Neste ano, deve chegar a 8,7%. Conforme informações do Banco Mundial, países como Dinamarca e Reino Unido aplicam mais de 100% de suas riquezas em recursos imobiliários, sendo os primeiros colocados no ranking de 15 países com maiores investimentos em imóveis. Na economia da última colocada da lista, a França, o crédito imobiliário é responsável por

40% do PIB nacional. “Em relação ao surgimento de uma bolha imobiliária no Brasil, é possível dizer que é pouco provável, visto que o grau de inadimplência decorrente de financiamentos imobiliários no País não é alto”, avalia Vinícius Dias Fantinel, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Sobre o aumento das taxas de juros, Lazari explica que os efeitos sobre o crédito imobiliário são limitados, pois geralmente as operações usam recursos da poupança. Diante da possibilidade de a taxa Selic chegar a 9,5%, o aumento nas taxas para aquisição de imóveis seria de no máximo 0,5%, exemplifica. O dirigente faz questão de ressaltar que, se o resultado do primeiro semestre é reflexo do crescimento tímido de 2012, também é importante lembrar que o crédito imobiliário tem como comparação bases muito expressivas de evolução nos últimos anos. “Estamos muito satisfeitos com o desempenho, justamente porque acontece em um período de dificuldades, com inflação e alta de juros.”


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INFRAESTRUTURA

À espera da Porto Alegre da Copa Na prefeitura, as obras que vão transformar Porto Alegre até a Copa estão sob o nome de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Mobilidade Urbana. Os 14 projetos indicados pela Empresa Pública de Transpore e Circulação (EPTC) como os mais importantes foram retirados do PAC da Copa para não correrem o risco de perder as condições de financiamento caso não fiquem prontos até o evento. “Resolvemos fazer esse trabalho para não correr o risco de ter que concluir as obras a qualquer custo, porque uma cidade não tem o mesmo fluxo que um organograma”, afirma Schmitt. Os atrasos sistemáticos, porém, não são vistos com bons olhos pelos porto-alegrenses. No caso da Voluntários da Pátria, o secretário de Gestão lembra que as escavações foram suspensas por mais de três meses quando foi encontrado um sítio arqueológico. Outro exemplo de contratempo que gerou atraso nas obras é o da avenida Severo Dullius, onde sob o anel viário foi encontrada uma camada de lixo de três metros, fazendo com que a licença ambiental tivesse de ser revista. Na Anita Garibaldi, mais um imprevisto: foi descoberta uma rocha durante a escavação, mas não pode ser detonada para não afetar os prédios ao redor. E também há casos como o da avenida Tronco, em que a prefeitura já fez três chamamentos públicos para a construção de residências para as famílias que serão desapropriadas, com recursos aprovados na Caixa, mas ninguém se interessou.

MARCOS NAGELSTEIN/JC

A menos de 300 dias da Copa do Mundo, o som de Porto Alegre é o de máquinas e operários trabalhando. A cidade passa por uma transformação estrutural não só para sediar o torneio de futebol, mas também em busca de uma herança para a mobilidade urbana. Se os prazos forem cumpridos, a Capital depois da Copa será cobiçada pelos gaúchos. “O otimismo é grande de que as obras vão reformular Porto Alegre, que tem uma grande demanda reprimida”, afirma o secretário municipal de Gestão, Urbano Schmitt. O certo é que todo o entorno do estádio Beira-Rio, escolhido para receber os jogos da Copa em Porto Alegre, estará impecável. A avenida Edvaldo Pereira Paiva duplicada, a nova ponte sobre o arroio Dilúvio liberada, o viaduto da Pinheiro Borda inaugurado e o BRT funcionando na avenida Padre Cacique. Já a Arena do Grêmio, que pode ser um campo de treinamento das seleções que se hospedarem em Porto Alegre, não terá a mesma sorte. Embora a ampliação da Voluntários da Pátria esteja caminhando, o que irá melhorar o acesso ao estádio, e a prefeitura já tenha projetos aprovados e recursos sinalizados pelo PAC 2, vias estruturantes do bairro Humaitá não vão estar prontas. É o caso das avenidas A. J. Renner e Ernesto Neugebauer. Para o secretário Schmitt, a situação é mais crítica onde são necessárias desapropriações e não se consegue chegar a um acordo. É o que emperra, por exemplo, a duplicação da avenida Tronco. Outro entrave se dá na retomada de bens da prefeitura, como é o caso do entorno do Beira-Rio, exigindo medidas judiciais.

Entorno do Beira-Rio recebe grande parte dos investimentos

Sperb Neto afirma que licenças de execução dificultam o andamento

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Entraves prejudicam andamento das obras A crise de mão de obra que castiga a construção civil é responsável pelos atrasos, mas não a principal. Conforme o presidente do Sindicato da Indústria da Construção de Estradas, Pavimentação, Obras e Terraplanagem em Geral no Estado do Rio Grande do Sul (Sicepot-RS), Nelson Sperb Neto, os entraves colocados pelas licenças de execução das reformas são muito maiores que a falta de funcionários. “Tem obras que o custo de deixar paradas é mais alto do que o de executá-las”, afirma. Quando liberadas, à prefeitura, ao lado da Caixa Econômica Federal, cabe fiscalizar e acompanhar tudo

que é feito pelas empresas contratadas, que são passíveis de punições e multas. Outras dificuldades de execução, hoje, estão ligadas ao impacto nas vizinhanças, além das próprias questões ambientais. A prefeitura tem realizado reuniões com as comunidades da Cristóvão Colombo, da Anita Garibal e da Plínio Brasil Milano, onde serão feitas passagens sob a Terceira Perimetral, para minimizar as repercussões. Para Sperb Neto, o selo da Copa apenas ajuda a cidade a conseguir ver saírem do papel, em um prazo mais curto, projetos esperados há muitos anos.

No total, as obras terão um investimento de R$ 888 milhões. “A sociedade deveria clamar pela solução desses entraves e pelas obras de infraestrutura da mesma maneira que reclama sobre uma série de problemas na saúde, na educação. Quem fica preso na BR-116 todos os dias deveria reclamar mais”, diz. Para se ter uma ideia, ao ano, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) tem investido em média R$ 1 bilhão, desde 2011, em obras no Estado. Já o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer-RS) entra com mais R$ 500 milhões nessa conta.


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No embalo do crescimento

MARCOS NAGELSTEIN/JC

têm muitos lançamentos. Mas também está atenta à zona Sul. “Recentemente, nossa empresa adquiriu uma área de 100 mil metros quadrados na região para desenvolver um projeto multiuso”, afirma. Outra expectativa está além das obras da Copa, quando finalmente Porto Alegre terá seu metrô. “Haverá um grande impacto na cidade, principalmente na zona Norte”, lembra Melnick. A revitalização do Centro, por outro lado, não parece estar empolgando as construtoras. Isso porque há restrições para novos empreendimentos por parte do plano diretor. “Tudo depende de como ficará o potencial de edificação da região, que deve ser olhada com muito cuidado até ficarem claras as diretrizes do poder público”, afirma Rotta Ely. A Melnick Even, por sua vez, tem diversificado suas áreas de atuação, com uma atenção especial à zona Norte. “Hoje, temos em construção mais de mil salas comerciais em empreendimentos como HOM João Wallig e Lindóia, Icon Assis Brasil, Baltimore Office Park (na avenida Osvaldo Aranha) e D.O.C. (na esquina da rua Ramiro Barcelos com a avenida Cristóvão Colombo)”, afirma o diretor da construtora. No seu planejamento estratégico, a meta era lançar investimentos entre R$ 350 milhões e R$ 500 milhões por ano desde 2011. No primeiro semestre de 2013, foram mais de R$ 200 milhões. “Neste ano, já lançamos duas torres de salas comerciais no Icon, na Assis Brasil, que vendeu todas as suas 280 salas em menos de 10 dias, e deveremos lançar ainda mais uma, na Anita Garibaldi”, diz.

Construtora deve investir R$ 280 milhões em Porto Alegre neste ano, garante o diretor Pedro Rotta Ely

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Se a parte da cidade que a prefeitura parece assegurar para a Copa está na região do Beira-Rio, então é para essa área que o foco dos investidores está voltado. Pensando assim, não é só o poder público que está procurando torná-la mais atrante: as grandes construtoras veem potencial no eixo entre o estádio e os primeiros bairros da zona Sul. Para a construtora Rotta Ely, que projeta investir R$ 280 milhões em Porto Alegre neste ano, o foco tem sido esse. O BarraShoppingSul, inaugurado há cinco anos, atrai projetos para o seu entorno. Além disso, como as zonas consolidadas - as avenidas Nilo Peçanha, Carlos Gomes e Independência - já não têm opção de terrenos, o jeito é se voltar para outros centros. “Nós miramos nessa região pela melhoria na estrutura viária que terá”, afirma o diretor da construtora, Pedro Rotta Ely, que aponta o Murano um mix com 72 apartamentos, 112 salas comerciais e hall de cinco lojas na avenida Icaraí - como um dos principais investimentos recentes. A favor da zona Sul, além de terrenos disponíveis, também está a paisagem privilegiada. O Murano, por exemplo, tem vista para o Guaíba. “Estamos buscando sempre localizações com pouca oferta de mercado, pois isso acaba resultando em um melhor preço de locação para o investidor. A lei da oferta e da procura nunca falha”, diz ainda o diretor da Melnick Even, Juliano Melnick. A construtora busca se afastar de regiões mais óbvias e com muitos prédios comerciais, como Carlos Gomes ou Menino Deus, que

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Grandes empresas veem potencial no eixo entre o estádio Beira-Rio e os bairros da zona Sul

Para Back, venda de prédios comerciais independe da sazonalidade de um evento como a Copa

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Mercado acompanha a dinâmica da Capital Diretor da Ivo Rizzo, Rui Back não gosta da visão de que a cidade está crescendo para este ou aquele lado. Segundo ele, Porto Alegre se transforma todos os dias com sua dinâmica de crescimento. “Não dá para segmentar a zona Sul ou a zona Norte, porque a abertura de um shopping ou uma nova via muda tudo”, diz. A estratégia da construtora, que tem como área de atuação tanto prédios corporativos quanto residenciais, no médio e alto padrão, é evitar justamente áreas que estão na moda, embora estejam atentos às mudanças que deverão acontecer na região no Beira-Rio. Para Back, os prédios comerciais têm público definido e sua co-

mercialização não depende de sazonalidade de um evento como a Copa. Quem procura uma sala comercial são, geralmente, profissionais liberais. Pedro Rotta Ely ainda afirma que a busca por prédios corporativos está ligada ao retorno que o mercado financeiro dá ao investidor. Quando a rentabilidade está baixa, quem tem dinheiro de sobra logo pensa em uma sala comercial para aumentar seu lucro. Compra na planta e vende depois de pronta, ou até mesmo garante uma renda mensal por meio do aluguel. Embora exista uma demanda latente por edifícios comerciais, o empecilho às construções está na morosidade pública para a aprova-

ção de licenças. Essa reclamação é uma unanimidade entre as construtoras. “A dificuldade de aprovação de novos projetos na prefeitura é muito grande”, afirma Back. Um dos principais empreendimentos da Ivo Rizzo no momento é o Vasco 720, com Valor Geral e Venda (VGV) de R$ 24 milhões. São 55 conjuntos moduláveis, cujo foco são os profissionais de saúde. Outro destaque é o empreendimento Cristóvão 1800, que será lançado em setembro, por R$ 33 milhões. O diferencial do segundo será uma central única para prestar serviços aos profissionais ligada à administração do condomínio, uma opção para os que não querem arcar com as despesas de uma secretária.


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CONSTRUÇÃO CIVIL

SUSTENTABILIDADE

A adesão aos conceitos e práticas de sustentabilidade já é uma realidade no setor de construção civil brasileiro. Além do discurso ambientalmente responsável, os próprios números comprovam a mudança de filosofia na hora de erguer prédios residenciais ou comerciais. Hoje, cerca de 740 empreendimentos buscam o selo Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) e mais de 100 já foram certificados em todo o País. Nos primeiros cinco meses de 2013, o número de projetos que buscam a certificação aumentou 40% na comparação com o ano passado, conforme o Green Building Council Brasil (GBC Brasil), organização não governamental que atua para estimular a indústria de construção sustentável no País. No ranking mundial de empreendimentos que buscam a certificação Leed, hoje o Brasil ocupa a quarta colocação, atrás apenas de Estados Unidos, China e Emirados Árabes, e a previsão é que alcance o terceiro lugar até dezembro deste ano. Para se obter o selo, é necessário atender a critérios como eficiência energética, uso racional de água e uso de materiais, tecnologias e recursos ambientalmente corretos. Dos 100 empreendimentos brasileiros certificados, três já obtiveram o nível Platinum, que é a categoria máxima. Atualmente, os estádios-sede da Copa do Mundo 2014 são os projetos que mais buscam a certificação. Conforme o diretor técnico e educacional do GBC Brasil, Marcos Casado, hoje é possível perceber que a visão do setor de construção civil se modificou e existe a compreensão de que é necessário desenvolver práticas sustentáveis. “A construção civil é um dos setores que mais utiliza e transforma recursos naturais. Práticas sustentáveis podem reduzir este impacto.” Para contribuir na evolução da mentalidade em torno da sustentabilidade, o GBC Brasil

JOAL TEITELBAUM/DIVULGAÇÃO/JC

Um país cada vez mais verde

A construção civil é um dos setores que mais utiliza e transforma recursos naturais

realiza o Programa Nacional de Educação, dedicado à formação de profissionais em MBAs em Construções Sustentáveis. A iniciativa já formou mais de 47 mil profissionais, capacitando-os para esta nova realidade em que está inserido o mercado brasileiro de construção civil. Entre os empreendimentos que buscam a certificação Leed, a procura é maior, cerca de 65%, por parte do segmento comercial, já que o selo significa um importante diferencial competitivo. “Obter a certificação é uma ótima oportunidade para se destacar neste mercado, não só pela questão de sustentabilidade, como pela economia de recursos empregados na manutenção de um prédio.” Para os empreendimentos residenciais, o GBC Brasil vem trabalhando desde 2011 no projeto Referencial Casa, voltado especificamente para residências sustentáveis.

Conforme Casado, o trabalho é dividido em comitês técnicos e temáticos e, além de suprir a demanda do setor, tem o objetivo de criar parâmetros nacionais de sustentabilidade para residências unifamiliares ou multifamiliares. A iniciativa compreende residências de baixo, médio e grande porte que procuram viabilidade econômica e redução do impacto ambiental. Já existem nove projetos-piloto sustentáveis, entre os quais alguns que serão inaugurados ainda em 2013. “Além disso, a partir da finalização do projeto Referencial Casa, o GBC Brasil oferecerá cursos de capacitação para profissionais e pessoas interessadas em aprender como tornar uma habitação sustentável a partir das diretrizes apontadas. O novo curso será o MBA em Cidades, Bairros e Condomínios Sustentáveis.”

De olho na emissão de carbono dimentos. A Melnick Even desenvolveu um projeto pioneiro, o Inventário de Carbono. Trata-se de um estudo detalhado, realizado durante dois anos, que se propôs a entender o impacto do

consumo de carbono em todo o ciclo de uma obra da construção civil. “Isso é complicado porque o consumo não está na obra em si, talvez só 5%, mas especialmente nos materiais indus-

MELNICK/DIVULGAÇÃO/JC

As construtoras gaúchas também investem em iniciativas visando contribuir para a disseminação da sustentabilidade e não apenas adotando conceitos modernos em seus empreen-

Ponta da Figueira Marina, em Eldorado do Sul, segue práticas responsáveis

trializados, como cimento e argamassa”, explica Juliano Melnick, diretor da empresa. O trabalho é aberto para consulta e pretende servir de parâmetro para qualquer empresa. A construtora adota práticas sustentáveis em seus empreendimentos e incorporou esta cultura especialmente a partir de 2008, após a consolidação da parceria com a Even, construtora paulista que tem a sustentabilidade como um de seus pilares, sendo a primeira companhia da construção civil a participar do índice de sustentabilidade da Bovespa. Entre outras ações, a Melnick Even usa apenas madeira certificada em seus empreendimentos e passou a utilizar tintas que consomem um volume menor de água. Entre os lançamentos mais destacados da Melnick Even, que também segue práticas responsáveis, está o Ponta da Figueira Marina, em Eldorado do Sul, inspirado em condomínios europeus e norte-americanos de luxo. O empreendimento conta com 718 mil metros quadrados de área, praia artificial e extensão de 8,5 quilômetros de canais navegáveis.


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Sudeste é líder em certificações Região que mais dinheiro movimenta no País, o Sudeste também conta com mais empreendimentos com a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Conforme o Green Building Council Brasil (GBC Brasil), São Paulo é o estado com maior número de projetos que obtiveram o selo – são 80 certificações e 428 registros. Em segundo lugar, aparece o Rio de Janeiro, com 12 certificações. O Rio Grande do Sul

apresenta três empreendimentos certificados e 13 registros realizados. A concessão de certificações abrange obras dos mais diversos setores. Para o diretor técnico e educacional do GBC Brasil, Marcos Casado, o fato da busca pela certificação alcançar setores diferentes é motivo de comemoração, pois aponta interesse generalizado. Por isso, é emblemático que o 100º empreendimento certificado no Brasil

tenha sido uma garagem de ônibus rodoviários, algo inédito. Trata-se da Auto Viação Urubupungá, localizada no município de Santana do Parnaíba (SP), certificada em junho deste ano. Construída em 2012, a garagem adotou diversas estratégias durante toda a fase de projetos e construção e ocupação para viabilizar as metas estipuladas e aumentar o desempenho ambiental. O investimento para obtenção da certificação

foi de 4,4% do custo total da obra. Todas as regiões apresentaram crescimento na obtenção de certificações. Segundo Casado, os números tendem a crescer de maneira proporcional à adesão ao Programa Nacional do GBC Brasil. O diretor do GBC Brasil destaca ainda que também é importante salientar a preocupação da cadeia de suprimentos e fornecedores de produtos e serviços.


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SUSTENTABILIDADE

Em Pelotas, está nascendo um projeto pioneiro no mercado imobiliário do Sul do País, mesclando uma concepção arrojada de urbanismo e sofisticados aspectos sustentáveis. Com a assinatura do renomado urbanista Jaime Lerner, executado pela Joal Teitelbaum Escritório de Engenharia em parceria com a Guapo Capital Group, o Quartier será o primeiro bairro sustentável do Rio Grande do Sul. Com o conceito de “vida em evolução”, o bairro Quartier ficará localizado numa área de 30 hectares a alguns minutos do centro de Pelotas. O megaprojeto deve movimentar mais de R$ 2 bilhões no mercado local e em toda cadeia produtiva da construção, gerando milhares de empregos diretos nos próximos 10 anos, tempo estimado para construção e desenvolvimento do bairro. “É um projeto inovador, que vai seguir de forma permanente todas as orientações de sustentabilidade”, aponta Jader Teitelbaum, diretor da Joal Teitelbaum. Serão construídas 3 mil unidades residenciais e a estimativa é de que a população do bairro chegue a 9 mil pessoas. O empreendimento está baseado em três conceitos modernos da construção civil: Green, Lifestyle e Smart, pois vai apresentar soluções urbanas sustentáveis, como preservação ambiental, baixa emissão de carbono, gestão de energia, água e resíduos, bem como promover a interação entre pedestres e a vida de bairro, além do bem-estar de moradores e frequentadores, em um ambiente que irá estimular a qualidade de vida e a facilidade para as atividades de rotina. “O Jaime Lerner nos disse que era a primeira vez que lhe procuravam para um projeto com as mesmas características daque-

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Surge o primeiro bairro sustentável do Estado

les que geralmente ele precisa tentar convencer seus clientes a realizarem”, relata Teitelbaum. A intenção, seguindo os conceitos do novo urbanismo, é priorizar a ocupação inteligente dos espaços. Assim, a mobilidade urbana foi meticulosamente planejada, com ciclovias, previsão de transporte público limpo e uma rua voltada exclusivamente para pedestres. “Será um bairro aberto, dentro da cidade, adotando sistema de segurança integrado, com monitoramento eletrônico. Não adiantar querer praticar sustentabilidade levantando um muro de concreto.” Também será estimulado o conceito de walkability, com os mo-

radores conseguindo chegar a pé aos pontos comerciais. No bairro Quartier, prédios comerciais, residenciais e de serviços serão de uso compartilhado entre os frequentadores, com o boulevard Quartier sendo a artéria central do bairro – um passeio verde com 30 metros de largura e espaços de convivência, playgrounds e fitness ao ar livre. Nas extremidades do boulevard, estarão um palco ao ar livre e uma praça de convivência com uma grande arquibancada verde. À disposição de toda a população, estará o Parque Quartier, com seus mais de 10 hectares de área verde preservada, com lagos, piers, trilhas para caminha-

da e quadras poliesportivas. A escolha do local para um empreendimento tão inovador não é aleatória. Terceira maior cidade gaúcha em população, Pelotas também vem sendo beneficiada pelo forte desenvolvimento do Polo Naval de Rio Grande. As obras do bairro Quartier estão previstas para começar em março de 2014 e vão até 2017. O projeto já nasce com a chancela da certificação Leed-ND (Leed for Neighborhood Development), conferida pelo US Green Building Council. A construção dos mais de 400 mil metros quadrados será realizada em parceria com incorporadoras e construtoras locais.

Em Pelotas, o megaprojeto deve movimentar mais de R$ 2 bilhões

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Consciência que se reflete no bolso Além da preocupação ambiental, da responsabilidade social e da adesão a ideias modernas, investir em sustentabilidade gera retorno financeiro – estima-se que um empreendimento certificado aumente seu valor de venda entre 10% e 20%. Conforme o diretor técnico e educacional do GBC Brasil, Marcos Casado, outro aspecto fundamental é que uma edificação sustentável gera redução de custo de até 8% em manutenções durante toda sua vida útil, além de ganhar eficiência energética e apresentar redução no consumo de água e na geração de resíduos. Um empreendimento concebido segundo conceitos sustentáveis também reduz conside-

ravelmente o impacto ambiental da construção civil, gerando até 65% menos resíduos, economizando até 40% em energia gerada e 30% de água potável, além de reduzir de 30% a 50% a utilização de recursos naturais. Marcos Casado acredita que o aumento da oferta de empreendimentos sustentáveis fará com que o público passe a buscar esse diferencial na aquisição, pois, além de gerar menos impacto ao ambiente e reduzir custos, a possibilidade de maior valorização e velocidade de venda tornarão o imóvel um investimento ainda mais promissor. “Hoje, temos cerca de 2% do mercado seguindo estes padrões, e a tendência é que nos próximos 10 anos isso já seja 10% do mercado.”

Empreendimentos que levam em conta a preocupação ambiental geram até 65% menos resíduos


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SEGURANÇA

Prevenção a incêndios custa 2% da obra tivos mais comuns na causa de incêndios. Grievs alerta para os fatos de que as especificações técnicas dos produtos devem ser avaliadas rigorosamente e de que preço baixo de equipamentos algumas vezes é indicativo de má qualidade. “Também é importante ter em mente que não adianta apenas instalar. Depois, a manutenção tem que ser feita periodicamente e por pessoas especializadas.” O especialista recomenda também que, sempre que possível, é importante que sistemas de proteção sejam elaborados já na concepção do empreendimento. MARCOS NAGELSTEIN/JC

Após a instalação, os cuidados com a manutenção dos equipamentos são essenciais

MARCOS NAGELSTEIN/JC

O trágico sinistro na boate Kiss, em Santa Maria, disparou o nível de alerta da sociedade para a necessidade de prevenção de incêndio. Meses depois, o histórico prédio do Mercado Público de Porto Alegre teve parte de sua estrutura consumida pelas chamas, renovando a preocupação. O plano de prevenção contra incêndio (PPCI) do prédio estava vencido há seis anos. Em junho, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou o projeto da nova lei de prevenção a incêndio, que torna mais rígida a obtenção de alvarás, passando a determinar ainda a carga de incêndio de cada imóvel – a presença de madeira, borracha e espuma, entre outros materiais, eleva o potencial de combustão. Conforme especialistas, o principal obstáculo para alcançar uma consciência preventiva no Brasil é a falta de cultura. Para o engenheiro Aleksander Grievs, consultor e proprietário da empresa Speed Safety, muitas vezes se abre mão de bons materiais, de profissionais capacitados para instalação e manutenção e de normas mínimas apenas para reduzir custos. “Depois de Santa Maria, os bombeiros endureceram a fiscalização, mas as normas ainda falham, não existe conscientização. E há muitas variações nas normas, dependendo do estado.” Conforme Grievs, há esforços de entidades do setor de segurança para que seja implantado um padrão nacional de prevenção a incêndios. Estima-se que o preço para se obter uma edificação segura contra incêndios chegue no máximo a 2% do custo total da obra. A incorreta instalação elétrica é um dos mo-

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Conforme especialistas, falta consciência preventiva no Brasil

Brasil é o maior mercado de segurança do continente Maior mercado de segurança privada do continente, o Brasil conta com 2,9 mil empresas atuantes no setor e cerca de 1,6 milhão de profissionais, segundo estudo divulgado no final de 2012 pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 2011, um relatório elaborado por pesquisadores suíços já havia apontado o País como o quinto maior mercado de segurança privada no mundo. Apesar do número expressivo, ainda são poucos os empreendimentos imobiliários que incluem a questão da segurança já no início dos projetos. O crescimento do setor no País é expressivo e deve tornar-se ainda mais aquecido com a proximidade da Copa do Mundo e das Olimpíadas, conforme o diretor da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança

(Abese), Oswaldo Oggiam. “O setor de segurança eletrônica tem apresentado crescimento de 10% ao ano nos últimos cinco anos. Com a aproximação de grandes eventos, que requerem estrutura e trazem empresas ao País, esperamos um crescimento ainda maior nos próximos meses.” Conforme o especialista, muitos setores são obrigados por lei a adotar medidas de segurança, como bancos, indústria e construção civil, o que impulsiona ainda mais o mercado. Segundo Oggiam, as grandes construtoras, que operam seguindo conceitos mais atualizados, já se deram conta de que existem vantagens financeiras quando o projeto inclui estrutura de segurança desde a sua concepção. “Hoje os condomínios já nascem com essa concepção de

segurança e existe uma economia de 30% a 50% no equipamento utilizado, o que é um valor muito significativo, sem contar os próprios procedimentos necessários.” O próprio efeito estético também contribui, pois é possível prever questões como implantação de guaritas, vegetação baixa e muros retilíneos. “Hoje já temos a utilização de barreiras de vidro, que esteticamente são mais interessantes, e toda uma certa composição arquitetônica que segue os padrões de segurança.” Oswaldo Oggiam acrescenta que é preciso integrar a segurança à questão do condomínio, mas não de forma ostensiva, para não intimidar ou interferir na rotina dos moradores. “É uma mudança cultural. A pizza não vai mais chegar na porta da sua casa.” Nos últimos anos, o Circuito Fechado

de TV (CFTV) foi a tecnologia de segurança eletrônica que mais cresceu no mundo, representando 40% do faturamento do setor, que movimentou mais de US$ 1,5 bilhão. A exemplo do que aconteceu em países como Chile, Argentina e Estados Unidos, no Brasil a área residencial, que realmente conta com menos investimentos na questão da segurança, tem sido impulsionada pela indústria do seguro residencial. “Vivemos uma evolução nos últimos 10 anos, estamos caminhando para uma cultura de prevenção, pois no Brasil nunca tivemos a cultura da segurança. As pessoas geralmente são mais reativas do que preventivas, e a segurança eletrônica fundamentalmente é preventiva.” Segundo estimativa da Abese, o custo da segurança é de aproximadamente 5% do imóvel.


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Para Aclaene, o maior desafio está em conciliar conforto e tecnologia

TENDÊNCIAS

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maravilhosas”, observa. Entre seus projetos mais modernos, ela destaca um flat planejado para um executivo paulista que periodicamente passa por Porto Alegre. No apartamento, todo o controle da casa se dá na ponta dos dedos, pelo tablet ou smartphone, possibilidade que costuma agradar a casais jovens, público acostumado à vida conectada 24 horas. A automação de residências já permite controlar de dispositivos móveis o funcionamento de condicionadores de ar, persianas, home theater e oferece até o acesso biométrico, ou seja, leitura de digitais para a entrada na casa. Responsável pelas áreas de relacionamento e marketing da Makrovision, Camila Rühmann destaca uma característica que vai além do deslumbramento por gadgets: a segurança. Ações preventivas que podem ser tomadas a distância vão desde o acesso a câmeras de vigilância até o desligamento remoto de aparelhos e o fechamento de aberturas externas por meio de sensores de vento e luminosidade. “É possível programar que o ar-condicionado do quarto ligue a partir do acionamento de um interruptor de luz na entrada da casa. Em resumo, tudo é possível”, diz Aclaene.

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Um retorno ao aconchego da família Sofisticação, aconchego e tecnologia. Reunir esses três desejos é o desafio dos arquitetos hoje. Com acesso cada vez mais fácil à informação de todas as áreas, o cliente chega aos escritórios cheio de referências - o que pode ser bom ou ruim. “Antigamente, a informação era propriedade exclusiva dos arquitetos. Hoje tudo está ao alcance de um clique. Nosso desafio é responder às expectativas do cliente sem perder espaço para a criação”, diz a arquiteta gaúcha Aclaene de Mello. Para ela, o maior desafio está em conciliar conforto e tecnologia. Famílias cujos filhos têm cada um o seu computador são cada vez mais comuns entre a sua clientela. “Nesses casos, sugiro tirar os computadores dos quartos. Caso contrário, fica cada um em um ambiente diferente, conectado com outras pessoas fora da família. Confesso que sou conservadora: comer é na mesa, e não na frente do computador ou televisão”, diz. Mas é claro que não tem como fugir da tecnologia - e nem é essa a proposta de Aclaene. “Eu só acho que há uma certa fantasia em relação a novidades tecnológicas. Mas a automação de residenciais, por exemplo, nos dá possibilidades

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Banheiro destaca personalidade e sofisticação

MAKROVISION/DIVULGAÇÃO/JC

A TV foi parar atrás do espelho

Tecnologia inovadora foi utilizada no Espaço do Cervejeiro Baden Baden, na Casa Cor RS 2013

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que... a Paola Oliveira? O seu espelho agora pode ser invadido por celebridades. “A tão sonhada TV de LED, fininha, já está sendo eliminada”, conta a arquiteta Aclaene de Mello, referindo-se à possibilidade de esconder o aparelho com um espelho. A alternativa foi utilizada no Espaço do Cervejeiro Baden Baden, assinado por Aclaene e pela colega Clarice Mancuso na Casa Cor Rio Grande do Sul 2013. Em parceria com a Makrovision, as arquitetas colocaram um monitor suspenso na parede, atrás de um espelho. Quando o aparelho está desligado, ele não interfere na decoração, dando lugar ao espelho que, com uma película especial na face anterior, fica um pouco escurecido. O funcionamento da televisão se dá normalmente pelo controle remoto: ligada, a sua

imagem é vista através do espelho. Camila Rühmann, da Makrovision, alerta para uma pequena perda de qualidade na transmissão, mas já existem marcas brasileiras, como It Magic e Smart Mirror, que fabricam aparelhos com a tecnologia específica para serem colocados atrás de espelhos e prometem imagens de alta qualidade. “São televisões de alto brilho. Sem o espelho, elas transmitem imagens muito claras que são incômodas para o olho humano”, explica Alexsandro Magalhães, gerente de marketing da Dag Brasil, empresa que atua no mercado de áudio, vídeo e automação residencial. Os projetos partem de cerca de R$ 15 mil para televisões simples e de R$ 18 mil para smart TVs, incluindo monitor de 32’’, o espelho e a instalação. Os preços variam conforme o tamanho do aparelho, que pode chegar a 60’’.


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Arquiteta com 23 anos de mercado, Aclaene de Mello diz que seu objetivo é criar ambientes não só aconchegantes, mas acolhedores, que reúnam as pessoas. “Estamos sempre buscando soluções para problemas que nós mesmos criamos. Com espaços cada vez menores, acabamos nos afastando uns dos outros. Neste segundo momento, queremos juntar as pessoas”, afirma. Seu trabalho vai ao encontro do pensamento de Eduardo Braga, designer de interiores graduado há dois anos. Para ele, a maior tendência do setor é o conforto. “Isso pode ser visto em sofás cada vez maiores. Por muito tempo ficamos presos aos sofás de linhas retas, retráteis, mais enxutos. Agora vemos opções com braços menores, com 30 centímetros, em vez de 40, para ganhar espaço no estofado”, explica. Ambiente que costuma reunir a família, a sala ganha ainda composição de mesas de centro, com duas ou três peças, além de opções que compõem com

pufes, destaca Braga. O designer ressalta ainda a importância da iluminação para contribuir com o conforto do ambiente. “Nem sempre o cliente se lembra disso, mas a luz muda totalmente a atmosfera do projeto. Costumo indicar de duas a três cenas por espaço. A luz indireta é mais confortável e pode compor com sancas e alguma outra luz pontual, para dar destaque a algum objeto”, recomenda. Na última edição da Casa Cor Rio Grande do Sul, Braga projetou um espaço com projeto luminotécnico pensado para proporcionar climas para leitura, recepção ou descanso. Cores fortes e estampas em papéis de parede podem ser alternativas para salas de estilos mais ousados. Tons fortes de azul - como o do tapete persa tingido por Braga no ambiente da Casa Cor Rio Grande do Sul - e o verde-esmeralda são apontados como tendência. Nas paredes, quadros de tamanhos diversos e dispostos assimetricamente também estão em alta.

EDUARDO LIOTTI/DIVULGAÇÃO/JC

Sofás maiores para mais conforto

Cores fortes e estampas complementam o ambiente no projeto luminotécnico

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CONSTRUÇÃO CIVIL

TENDÊNCIAS

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Criatividade e reaproveitamento

Apartamento é decorado com sobras de materiais

Azulejo no escritório, tecido do lado avesso para a cadeira e lavabo com piso de sobras pastilhas de vidros. Tudo isso convive em harmonia e bom gosto na casa da arquiteta Aclaene de Mello. Seu apartamento é decorado quase que totalmente com sobras de materiais de eventos ou mesmo de projetos de clientes. “Eu não reaproveito para economizar, mas porque as coisas precisam de uma segunda vida. Assim também consigo exercer minha criatividade”, diz. O planejamento começa na hora da montagem dos espaços em eventos de grande porte. O piso, por exemplo, é assentado de forma que não precise ser destruído na desmontagem. Segundo

Imitação virou moda

Aclaene, a prática é cada vez mais comum entre os arquitetos. O que não é reaproveitado pelos profissionais, é doado. Criatividade e reaproveitamento de materiais costumam andar juntos. As lâmpadas com os soquetes e fios expostos que fazem o maior sucesso em ambientes para jovens, de bares noturnos a residências, podem ter uma origem menos sofisticada: quem sabe nasceram da necessidade de alguém que não tinha um lustre bacana para pendurar no teto, aposta Aclaene. “Já vi muitas ideias autênticas e inovadoras em ambientes nada chiques. Basta um profissional colocar em um evento e, pronto, vira tendência”, comenta.

Para receber amigos e família

ANDRÉ BASTIAN/DIVULGAÇÃO/JC

Antigamente, era feio usar materiais não originais, que imitavam madeira ou outro efeito. “Hoje acabou o preconceito”, diz o arquiteto e paisagista Benedito Abbud, de São Paulo. Atualmente há opções de porcelanatos que imitam pedra, madeira e até peças com desenho de ladrilho hidráulico, este último faz parte da onda retrô que invadiu todos os ambientes residenciais. “O ladrilho hidráulico original, se não for encerado direitinho, como era no tempo das nossas avós, vai manchando e desgasta”, explica Abbud. Os porcelanatos têm muitas vantagens: em geral, são mais baratos, não exigem mão de obra especializada para a instalação, são fáceis de limpar e duram mais. A variedade de formatos e estilos é cada vez maior, assim como as possibilidades de aplicação, que vão além do piso, chegando a paredes, bancadas, móveis e até objetos de decoração. Na coleção 2013 da Portobello, há revestimentos que reproduzem mármores em três tons diferentes. As peças que imitam madeira também estão se sofisticando. Há opções ideais para ambientes internos, com superfícies acetinadas, e outras para áreas externas.

Porcelanatos são usados em paredes, bancadas, móveis e até objetos de decoração

PORTOBELLO/DIVULGAÇÃO/JC

Ambiente da paisagista Cíntia Aguiar integra churrasqueira e piscina

Parceiro de empresas gaúchas como Rossi, Cyrela Goldsztein e Maiojama, o arquiteto e paisagista Benedito Abbud, de São Paulo, atua no País inteiro. Foi na região Sul, há 30 anos, que conheceu um galpão crioulo e apaixonou-se pela ideia de um ambiente feito para reunir amigos e familiares em torno da comida. “Quando fui levar a ideia para outras regiões, precisei mudar o nome, porque causava estranhamento. Chamei de gazebo gourmet e ficou chiquérrimo”, brinca. A tradicional reunião do churrasco aos domingos ou mesmo o compartilhamento cotidiano do chimarrão inspiram o arquiteto paulista em seus projetos. Para ele, é preciso resgatar o gosto pela troca, pela conversa que não passe por mensagens de texto ou aplicativos. “Nos dias de hoje, as pessoas dividem o mesmo ambiente, mas fica cada um no seu tablet ou celular. A tradição gaúcha nos ensina a compartilhar”, diz. No espaço que projetou para a Casa

Cor Rio Grande do Sul 2013 (foto acima), a arquiteta e paisagista Cíntia Aguiar também privilegiou o costume do gaúcho de reunir a família e os amigos. O ambiente que integra churrasqueira e piscina apresenta mesa e bancadas grandes, lareira, televisão e espaço para momentos de festa. O jardim tem bastante verde e também tem pouco mobiliário. Cíntia buscou materiais inovadores para fazer o acabamento da área externa. Para a piscina, usou um revestimento de pastilhas em MDF que apresentam três alturas diferentes, o que resulta em um efeito de profundidade. No entorno, foi instalado um piso de porcelanato da Eliane que imita madeira clarificada. Para o deck, um revestimento em PVC, da Pertech, que não esquenta muito e é ideal para áreas molhadas, já que não absorve a água nem umidade. O material é o mesmo para os ambientes externo e interno, reforçando a ideia de integração.


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CONSTRUÇÃO CIVIL

Diferentes jardins ao longo do ano

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Madeira de verdade resíduos de madeira Teca maciça e certificada, produzida por reflorestamento segundo os critérios internacionais do Forest Stewadship Council (FSC). Submetida a tratamento para dar mais durabilidade e evitar ataque de fungos e cupins, a madeira pode ser aplicada em paredes, murais e projetos moveleiros. A instalação deve ser executada por profissionais com noções de marcenaria e não é recomendada para áreas de contato com água ou que recebam incidência solar direta.

ANDRE BASTIAN/DIVULGAÇÃO/JC

Apesar dos avanços nas linhas de porcelanatos que imitam madeira, as peças originais ainda encantam. A arquiteta e paisagista gaúcha Cíntia Aguiar optou por pastilhas de madeira da Oca Brasil em um projeto realizado em Canoas. O revestimento em mosaico foi aplicado no entorno da churrasqueira, dando um toque rústico ao ambiente com um visual que os porcelanatos ainda não conseguem reproduzir. A marca brasileira trabalha com revestimentos cuja matéria-prima são

Para a arquiteta e paisagista Cíntia Aguiar, é fundamental pensar em um jardim que se mostre bonito o ano inteiro. Não necessariamente com flores. É possível trabalhar com espécies que floresçam em diferentes meses, mas também se pode investir em árvores que, mesmo em épocas de folhas secas, possam compor a beleza do jardim. “Existem espécies que florescem em diferentes épocas do ano, mas não precisa ter flores o tempo todo. Folhas de

cores diferentes ou mesmo as folhas secas no chão podem dar um toque especial ao ambiente”, explica. Ao planejar seus projetos paisagísticos, Cíntia investe na iluminação. Luminárias de bola, velas de acrílico e pontos de luz em degraus podem mudar completamente áreas externas, sem precisar usar muito mobiliário. Para finalizar, acentos visuais em buxos, orquídeas e bromélias fazem a diferença.

OCA BRASIL/DIVULGAÇÃO/JC

Luminárias, velas e pontos de luz transformam o visual de áreas externas

Revestimento em mosaico garante toque rústico ao ambiente

DIVULGAÇÃO/JC

Muros verdes para pequenos e grandes espaços Não há mais desculpa para não ter um cantinho verde dentro ou fora de casa. Mesmo em espaços pequenos, como em recuos laterais ou varandas com 1 m ou 1,2 m de largura, é possível investir em jardins verticais. Segundo o arquiteto e paisagista Benedito Abbud, a hora é de reinventar os ambientes externos com essa opção. “Já se usam painéis verdes há algum tempo, mas, de fato, estão se tornando mais comuns agora. E é uma tendência no mundo inteiro”, afirma. Para o paulista, o muro verde pode ser o ator principal do jardim ou um elemento secundário. “Se usarmos pândanos, uma planta mais escura, temos de pensar em um painel mais claro, com barba de serpente, por exemplo”, recomenda. Abbud destaca a funcionalidade dos jardins. Cultivar temPainéis estruturais são alternativa na composição de exteriores

peros ou uma pequena horta nos muros é alternativa para quem procura mais do que contemplação no seu contato com a natureza. Quando há algum espaço horizontal, vale a pena investir em uma jabuticabeira ou maracujazeiro, cujas flores são vistosas. Com sistemas de irrigação automática, os painéis verdes já são vendidos no mercado como módulos montáveis e cada vez mais práticos. A marca GreenWall oferece peças em cerâmica, que podem receber acabamentos diversos, como verniz, pátina, pastilhas de vidro etc. Cada módulo mede 29 cm de comprimento, 25 cm de altura e 19 cm de profundidade e custa, em média, R$ 150 por metro quadrado na capital paulista. A escolha das espécies depende das características climáticas e da exposição ao sol do local, podendo ser ervas aromáticas, flores nativas ou exóticas e temperos. A aplicação do painel pode ser feita em qualquer parede, desde que rígida e estruturada.


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CONSTRUÇÃO CIVIL

PESQUISA

A baixa mecanização da indústria da construção civil no Brasil ainda é um ponto sensível na produtividade do setor. Uma pesquisa de 2004 da consultoria McKinsey, “Medição e Resultados da Produtividade da Mão de Obra do Setor de Construção no Brasil”, indicava que o trabalhador brasileiro tinha um desempenho 2,9 vezes inferior ao do norte-americano. Para Rodrigo Bernardi, sócio da BMarket, empresa de desenvolvimento imobiliário de Porto Alegre, isso acontece principalmente porque nos EUA se trabalha com estruturas metálicas e pré-moldados, que são mais rápidos - porém mais caros - do que as principais matérias-primas utilizadas no Brasil - entre elas, o concreto. E a rapidez, nesse caso, é uma questão de sobrevivência - a mão de obra intensiva lá é 50% mais cara que a brasileira. “Os americanos ficam um ano planejando uma obra e 3 meses executando; aqui, são 3 meses de planejamento para um ano de obra”, diz. No entanto, esse cenário vem

mudando. Outra pesquisa, essa mais recente, produzida pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) em parceria com a Fundação Getulio Vargas, indica que, de 2003 a 2009, a produtividade da mão de obra brasileira cresceu 5,8% ao ano. “O investimento realizado pelas empresas em máquinas, equipamentos e terrenos contribuiu para aumentar a produtividade do trabalho e diminuir a do capital nos seis anos como um todo. A produtividade do trabalho se reduz para 4,4% ao ano entre 2006 e 2009, em razão do aumento das contratações, da formalização e dos salários”, aponta o estudo. Bernardi faz coro: “O Brasil caminha para esse modelo americano de produção na medida em que não encontra mais mão de obra abundante. Esses números devem se repetir por aqui em breve”. A pesquisa indicou ainda que 64% das empresas ouvidas apontaram dificuldades para investir em itens como máquinas, equipamentos e processos produtivos mais moder-

nos. A principal dificuldade indicada pelas empresas foi em encontrar mão de obra especializada para novidades (67%) – o que, segundo o estudo, reforça o papel estratégico do treinamento para o aumento da produtividade. Em segundo lugar, aparecem os próprios custos das máquinas, equipamentos e processos, com 60%. O estudo conclui que essas dificuldades relatadas ganham mais realce porque 98% das empresas julgaram importante ou muito importante o investimento em máquinas, equipamentos e processos. O cenário não agrada aos empresários. Apenas 4% dos gestores ouvidos pela pesquisa responderam estar totalmente satisfeitos com a produtividade da empresa; 35% declararam estar insatisfeitos. Ao apontar os investimentos prioritários para melhorar a produtividade da empresa, 55% indicam a necessidade de treinamento da mão de obra; 39%, a adoção de novos processos produtivos; e 22%, o investimento em máquinas e equipamentos.

MARCELO G. RIBEIRO/JC

Baixa produtividade ainda preocupa

Empresários apontam para a necessidade de treinamento da mão de obra


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CONSTRUÇÃO CIVIL

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RESPONSABILIDADE SOCIAL

Da prevenção de acidentes à melhora na qualidade de vida dos funcionários, as ações internas e externas de empresas da construção civil têm foco na educação. Além do modelo formal voltado à capacitação, iniciativas mais pontuais investem em formação para envolver os trabalhadores na busca pela segurança total e até mesmo passam pela educação alimentar. É assim na Construtora Zagonel, em Lajeado. Uma simples atitude para começar o dia de trabalho mudou a rotina dos seus funcionários há cerca de um ano. Uma conversa diária, de menos de 10 minutos, repassa as atividades do dia e reforça questões de segurança. A iniciativa foi considerada inovadora pelo Serviço Social da Indústria (Sesi-RS) e, junto de outras ações de responsabilidade social, levou a empresa a conquistar o Prêmio Sesi de Qualidade no Trabalho em 2012. “Considerando o tipo de trabalho, que exige agilidade e rapidez, ter momentos como esse de pausa e diálogo é fundamental. E, quando há falhas na educação, é ainda mais

importante e mais difícil. Por isso, reconhecemos o trabalho da Zagonel, eles têm um olhar fortalecido sobre a pessoa”, diz o diretor-superintendente do Sesi-RS, Edison Lisboa. O executivo ressalta a importância de as empresas olharem primeiro para dentro, para as pessoas que trabalharam para ela, e depois se voltarem a ações sociais externas. Dentro das 27 práticas premiadas da Zagonel, estão ações de prevenção de doenças e acidentes, educação alimentar e estímulo ao voluntariado, um ponto que ultrapassa os limites da empresa e impacta na comunidade da região. Com os diálogos diários, a construtora com 230 trabalhadores diretos e 30 indiretos viu cair pela metade o índice de acidentes com afastamentos: de 2% passou para 1%. O gerente comercial, Jean Zagonel, conta que foi lançada uma campanha entre os trabalhadores para que criassem frases sobre segurança no trabalho, como mais uma forma de envolvê-los na causa. “Com isso, invertemos a ordem. A preocupação passa a ser deles também”, comenta.

VOVOLAR/DIVULGAÇÃO/JC

Educação é o foco das ações sociais do setor

Os esforços das empresas do setor para facilitar o acesso à educação e estimular os trabalhadores a estudarem refletem em avanço. De acordo com o Sinduscon-RS, no Estado, em 2006, 22% dos trabalhadores do

setor tinham Ensino Médio completo, já em 2011, o percentual passou para 33,47%. “Proporcionar uma vida saudável ao trabalhador representa qualidade de vida para ele e ganho também no trabalho”, resume Lisboa.

Construtora Zagonel aposta no diálogo para buscar soluções

Solidariedade e inserção janelas, além de instalações elétricas, hidráulica e pintura nas residências dos funcionários que mais precisam. Conhecida por ações sociais que envolvem as comunidades onde estão algumas de suas obras, a Melnick Even também estimula a solidariedade. A empresa, junto de parceiros, investe mais de R$ 500 mil anualmente para recuperar e manter praças de

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Entre os projetos sociais destacados por Lisboa, está ainda o Construção Solidária, da Goldsztein, que já foi premiado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), em 2005. Com o apoio voluntário de funcionários de obra, da administração da empresa e de empreiteiras de mão de obra, são feitos serviços de reformas e consertos de telhados, portas,

A chegada da creche Eremi deu abrigo a 120 crianças da comunidade

Porto Alegre, promover turmas de capacitação de novos profissionais e realizar eventos como o Natal na Praça e a Páscoa na Praça. Estas duas iniciativas buscam reunir crianças de regiões menos favorecidas da cidade com outras em situações melhores, para que estas realizem doações. O diretor da empresa, Juliano Melnick, destaca a importância de despertar, desde cedo, o sentimento de responsabilidade social nos pequenos cidadãos. Cerca de 600 pessoas são impactadas anualmente pelos eventos, entre crianças, funcionários e familiares. A capacitação de novos profissionais é outro investimento da empresa. O programa Empreiteiro Parceiro, premiado por diferentes entidades gaúchas, fomenta a criação de mão de obra para a construção civil. No seu quarto ano, a iniciativa já formou mais de 200 alunos que hoje são pedreiros, carpinteiros, azulejistas, entre outras funções. “Buscamos, dentro do possível e com foco em nossa atividade, ajudar as pessoas menos favorecidas, para que estas possam se desenvolver e crescer, além de inserção social e da devolução à sociedade”, afirma o diretor. A educação também está no foco das ações do Nex Group. Como contrapartida exigida pela prefeitura, o grupo já construiu cinco creches na

capital gaúcha. Uma das mais recentes, inaugurada em 2011, no bairro Partenon, foi erguida pela Capa Engenharia, que hoje integra o Nex Group. Concluída a obra, a relação entre empresa e comunidade permanece em ações pontuais, como eventos de final de ano e outras datas especiais, quando os funcionários da construtora são estimulados a arrecadar alimentos, roupas e brinquedos para serem doados às creches. “Entendemos que a educação é o primeiro passo para a construção da personalidade de um cidadão digno”, diz o gerente-geral de obras do grupo, Tales André Pens. Para a comunidade, a chegada da creche Eremi “foi a realização de um sonho”. O lugar abriga 120 crianças, de zero a cinco anos e 11 meses, oferece cinco refeições por dia e emprega 25 pessoas, boa parte da comunidade, como ressalta Marilia Fidel, presidente da Associação Comunitária Unidos da Paulina. Ela é também diretora da instituição educacional, cargo que exerce voluntariamente. “A comunidade se apropriou da escola e cuida tão bem que parece que ela recém foi inaugurada. Este é o meu entender de equipamento comunitário, tem que envolver a população”, diz, completando que o local é uma esperança para as crianças terem melhores oportunidades na vida.


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CONSTRUÇÃO CIVIL

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SINDUSCON

Burocracia na aprovação de projetos é principal gargalo

Parcerias garantem qualificação

Garcia lembra que, na incorporação, o cenário é positivo, com velocidade de venda de 8% ao mês

Não é novidade que a construção civil brasileira cresceu e se modernizou em seus processos. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), Paulo Vanzetto Garcia, nos últimos oito anos, período de explosão de crescimento no setor, foi duplicada a velocidade e a produção em obras, ao passo que a burocracia para aprovar os projetos não se modernizou. “Nosso gargalo permanente são os órgãos públicos que liberam as obras”, desabafa Garcia. “A metodologia ainda é antiquada. Tudo se faz do mesmo jeito que se fazia na década de 1970. Os processos andam em carrinhos de supermercado, os arquivos são prateleiras de madeira entulhadas de documentos. Quando um engenheiro abre um projeto para analisar, o faz do mesmo jeito que há 40 anos. A produção é a mesma - ou melhor, ainda pior, pois há menos pessoal”, critica. “Pagamos os impostos, que não são poucos, e estamos sempre pressionando por uma solução”, diz. Porém, continua Garcia, não cabe ao sindicato elaborar a solução para esse problema. “Cabe aos legisladores e aos governos, que precisam modernizar os processos de aprovação dos projetos de construção”, avalia. O Índice de Atividade da Construção Civil Gaúcha (IAC) cresceu 1,35% entre janeiro e outubro do ano passado. Os números consolidados ainda

não foram divulgados, mas a expectativa é de um aumento da atividade em 1,5% em relação ao ano anterior, mesmo percentual do crescimento do uso do cimento no Estado - um dos principais indicadores. “No Brasil, esse percentual foi de 6,6%. Já o emprego cresceu 5,22% aqui e somente 2% em 12 meses”, diz Garcia. Ele credita a disparidade ao maior número de obras públicas em outros estados do País em comparação com o Rio Grande do Sul, como em Pernambuco e Minas Gerais. “O Rio Grande do Sul não tem dinheiro para investir”, lamenta. Para o dirigente do Sinduscon-RS, a Copa do Mundo e as Olimpíadas devem ainda impulsionar os investimentos no setor neste ano e no próximo. Novos investimentos em grandes obras de infraestrutura, como em ferrovias, hidrovias e rodovias, também serão fonte de crescimento para a construção no biênio 2013 e 2014. Já na incorporação, o dado é positivo: “Temos uma velocidade de venda de 8% ao mês em Porto Alegre, o que quer dizer que um empreendimento é vendido integralmente em um ano. É um ótimo patamar”, avalia. Para 2013, a perspectiva é de um crescimento entre 2% e 3%, impulsionado por pacotes de incentivo do governo como o Minha Casa Minha Vida. No entanto, Garcia alertou para o Custo Brasil e o Custo RS. “É necessária a revisão de itens como legislação antiquada e impostos”, diz o dirigente.

ro, instalação hidráulica predial, pintura de obras e assentamento de placas cerâmicas. “Em qualquer recanto do Estado há algum trabalhador - empregado ou autônomo - da construção civil”, afirma. O número de empregados no Rio Grande do Sul é de 154 mil pessoas, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), ou seja, essa quantidade registra apenas os formalizados com carteira assinada, não incluindo os informais ou que trabalham por conta própria. “Uma grande parte tem esse perfil, mas a verdade é que, se não trabalham com carteira, é porque preferem ser empresários deles mesmos, já que sentem que podem ganhar mais por conta própria”, diz. Mas esse percentual informal tem caído, diz Garcia. “Em sete anos, 10 mil pessoas ao ano passaram para a formalidade.” Na Região Metropolitana de Porto Alegre, houve, em 2012, um incremento de 4,39% com a criação de 3.105 postos de trabalho. E em Porto Alegre, o emprego formal no setor teve incremento de 2,66% nos últimos 12 meses, fechados em dezembro de 2012, o que corresponde a 1.004 novas vagas.

ANTONIO PAZ/JC

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Outros gargalos que um dia foram complicadores do mercado hoje não são mais problema. Essa é a conclusão de Paulo Vanzetto Garcia, presidente do Sinduscon-RS, entidade que representa aproximadamente 4 mil associados no Estado (300 empresas de médio ou grande porte e as demais, de pequeno ou microporte). “A mão de obra hoje é uma questão praticamente solucionada. Em 2010, faltava gente para trabalhar. Hoje, isso está estabilizado. Temos boas parcerias com o Sindicato Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e outros órgãos de qualificação”, comenta. O dirigente deixa a presidência do Sinduscon-RS em outubro próximo, após dois mandatos. O Centro de Educação Profissional da Construção Civil de Porto Alegre, mantido por meio de parceria entre o Sinduscon-RS, o Senai e o Sindicato dos Trabalhadores (Sticc), vem intensificando as atividades. As matrículas junto à instituição passaram de 433 alunos em 2009 para 977 em 2012, e a previsão é de um crescimento de 10% em 2013. Entre os cursos oferecidos, os mais demandados são os de instalação elétrica predial, pedrei-

Entidade representa aproximadamente 4 mil associados no Estado


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JOAL TEITELBAUM

Para Jader Teitelbaum, sucesso também decorre da variedade de produtos

Uma das mais renomadas grifes da construção civil gaúcha, a Joal Teitelbaum Escritório de Engenharia passa por um momento digno de comemoração. Em 2013, consolidou sua presença no mercado de obras corporativas. Atualmente, está gerenciando obras do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, do Hospital Regina, em Novo Hamburgo, e também de uma universidade. Recentemente, nesse mesmo segmento, a empresa já havia entregado a sede do Operador Nacional do Sistema (ONS), primeiro prédio com certificado LEED de Santa Catarina, e a sede da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), além do Kurotel, centro médico de longevidade e Spa, em Gramado. Entre os tradicionais lançamentos a preço de custo, a empresa inova com o Atlântida Green Square, condomínio-clube que tem apartamentos a partir de R$ 380 mil e contará com serviços pay per use, camareira, concierge e transporte para a praia, sistema já conhecido e aprovado por quem frequenta praias como Punta del Este, que agora está disponível ao público gaúcho. “Nosso foco é a qualidade, independentemente do tamanho do empreendimento”, ressalta o diretor Jader Teitelbaum. Para o segmento comercial, está começando o Portland Center. Sempre focada em inovação, a empresa está iniciando um projeto pioneiro no Sul do Brasil. Concebido segundo a ideia de novo urbanismo, o

Trajetória de referência em sustentabilidade e inovação Para desenvolver empreendimentos diferenciados e atuais, a Joal Teitelbaum considera todos os pilares da sustentabilidade e da inovação, áreas em que é referência. Quando realiza projetos, seja em Porto Alegre, no litoral ou em Pelotas, a empresa já inclui ações como reúso de água, aproveitamento de energia solar e emissões individuais de gás, água e energia. “Também utilizamos painéis pré-moldados nas fachadas, para dar maior isolamento térmico e acústico, que têm alta durabilidade e segurança na aplicação. Desde a concepção do projeto, o DNA da sustentabilidade já está presente.” Conforme Jader Teitelbaum, hoje o cliente já está mais familiarizado com o que deve verificar na hora de comprar o imóvel. Assim, a empresa procura conscientizar seu público acerca dos elementos constitutivos dos prédios que comercializa, como vidros duplos em dormitórios, laminados nas áreas sociais e painéis de isolamento. “São elementos que, se tu não colocares desde a concepção inicial do produto, não há como fazer depois. Mostramos isso para os consumidores para que conheçam a qualidade do produto que estão adquirindo.” A empresa usa sua expertise adquirida em uma trajetória de 52 anos para atuar com desenvoltura na área de consultoria

e gerenciamento de obras e desenvolver operações que sempre buscam aspectos inovadores. “Nossa expertise nos respalda na parte de conhecimento para auxiliar na tomada de melhores decisões, desde o projeto até o orçamento e o gerenciamento da obra. Temos uma marca de referência que dá segurança e agrega valor àquele empreendimento.” Para se diferenciar do restante do mercado e operar com estoques reduzidos, a empresa busca constantemente desenvolver projetos exclusivos e inovadores, muitas vezes com vendas expressivas obtidas por meio de indicações. “Com inovação, qualidade elevada e localização, sempre haverá sucesso. O que não pode é haver a massificação de produtos, porque, em algum momento, o ciclo, que acaba com a venda, não vai se completar”, analisa Jader Teitelbaum. Importante player do mercado gaúcho, a empresa tem entre seus destaques atuais do segmento residencial o Príncipe de Greenhill. Dotado de inovações tecnológicas, está em fase final de construção, com um apartamento de 334 metros quadrados por andar, 4 suítes e ampla vista, na avenida Lucas de Oliveira. Também foi lançado recentemente o Príncipe de Constantino, com apartamentos de até 207 metros quadrados a partir de R$ 1,5 milhão.

Quartier, em Pelotas, será o primeiro bairro sustentável do Estado. Contando com 30 hectares, o projeto começará em março de 2014 e, nos próximos 10 anos, deve girar R$ 2 bilhões na economia de Pelotas. “O princípio é criar centralidades, sem que a pessoa precise caminhar mais de 400 metros, que more no próprio local e não precise de carro. Será administrado pela própria comunidade do bairro, pois é uma minicidade”, explica Jader Teitelbaum. Dessa forma, a empresa inaugura um novo segmento, a urbanização de bairros sustentáveis, que se junta ao gerenciamento de obras corporativas e aos empreendimentos comerciais e residenciais. “Todos segmentos são muito importantes. O grande segredo da nossa empresa é possuir essa variedade de produtos, o que permite que tu consigas regular a empresa junto com o mercado.” O fato de ser uma empresa familiar que se profissionalizou permite que todas as áreas tenham pleno acompanhamento da diretoria. Em 2003, a Joal Teitelbaum Escritório de Engenharia conquistou o Prêmio Nacional da Qualidade, entregue pela Fundação Nacional da Qualidade, premiação inédita na construção civil. Desde 2007, a empresa é membro do US Green Building Council e do Green Building Council Brasil, possuindo obras de engenharia pioneiras que atendem aos requisitos de sustentabilidade e da Certificação LEED. MARCOS NAGELSTEIN/JC

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Foco na qualidade

Príncipe de Greenhill é um dos destaques do segmento residencial


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CONSTRUÇÃO CIVIL

MELNICK EVEN

Consolidada no topo tre as principais empresas e teremos tempo de estruturar coisas que ficaram para trás.” Este segundo ciclo, a época da estabilidade, será concluído em 2014. Mas ao que tudo indica, os números continuarão crescendo mesmo neste período de acomodação, já que apenas em um semestre deste ano a Melnick Even já vendeu o mesmo montante de todo o ano de 2012, que havia sido o recorde da empresa. O grande desempenho do primeiro semestre é ainda mais significativo quando se considera que foi realizado apenas um lançamento, o Icon Residencial, empreendimento mixed-use localizado na avenida Assis Brasil, na zona Norte de Porto Alegre, que possui valor geral de venda de R$ 200 milhões – metade da meta para 2012. Para o segundo semestre, estão previstos mais alguns lançamentos, projetos que ainda dependem de tramitação na prefeitura. Um destes empreendimentos é um condomínio fechado de casas junto à avenida Ipiranga. “Porto Alegre não dispõe de muitas áreas para condomínios de casas, então este tipo de lançamento sempre se sai muito bem no mercado.” Desta forma, a Melnick Even abrange praticamente todos os nichos de mercado: comercial, condomínio de casas, alto padrão e imóveis acessíveis. Em 2012, a Melnick completou vinte anos de presença no mercado imobiliário gaúcho. E assoprou as velinhas em grande estilo. Além do expressivo resultado em vendas e lançamentos, foi eleita a empresa do ano Sinduscon Premium 2012, “o Oscar do

Juliano Melnick diz que o evento surgiu da motivação de fazer uma campanha inovadora

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Com vendas que já superaram os R$ 300 milhões no final de julho, a Melnick Even segue pisando firme no cenário imobiliário gaúcho, amparada pelo planejamento estratégico que traçou em 2008. Na época, quando Melnick e Even uniram-se, a ideia era superar os R$ 400 milhões em lançamentos anuais, colocando-se como protagonista no setor. “Em 2008, estipulamos nosso crescimento até 2011, que seria o ano para buscar um lugar no mercado, deixando de ser uma empresa de nicho, líder em alto padrão, para nos transformarmos em um grande player”, aponta o diretor Juliano Melnick. A meta foi atingida em 2011 e solidificada em 2012, quando a empresa conseguiu lançar mais de R$ 400 milhões, tornando-se líder em lançamentos entre as empresas de capital aberto do mercado gaúcho. Assim, quadruplicou suas operações em relação a 2008, quando havia lançado R$ 50 milhões no mercado. “Uma empresa que entregava 30 ou 40 apartamentos por ano e passa a entregar 500 apartamentos é uma outra empresa.” A partir desse salto de desempenho, a organização buscou navegar em águas mais tranquilas, para consolidar sua chegada a outro patamar, e estipulou que a próxima meta, a partir de 2012, seria transcorrer três anos de forma estável. “Já tínhamos um tamanho importante e observamos empresas que não souberam crescer e se desestruturam rápido. Nossa ideia então era ter três anos de estabilidade neste patamar. Se conseguirmos isso, nos manteremos en-

nosso segmento”, conforme Juliano Melnick. Também conquistou sete prêmios em categorias importantes, entre eles o de empreendimento do ano (o Nine, na avenida Ipiranga), bem como o segundo colocado (o Vida Viva Clube Centro, em Canoas, misto

de prédios e casas) e do prêmio de inovação e sustentabilidade. “Consideramos um coroamento dos nossos 20 anos, desde os resultados econômicos e até este reconhecimento por meio dos prêmios, que é algo intangível.”

MELNICK/DIVULGAÇÃO/JC

Um dia de loucura no mercado imobiliário

Com diferentes opções de plantas, o Nine conquistou o prêmio de empreendimento do ano

Três meses em 24 horas. Este foi o resultado da segunda edição do Melnick Even Day, que alcançou R$ 107 milhões em vendas em apenas um dia, com cerca de 300 unidades comercializadas. O valor é mais que o dobro do resultado da primeira edição, em 2012, quando se atingiu R$ 50 milhões em vendas. Uma vez por ano, em um domingo, a partir das seis da manhã, todos os empreendimentos da empresa são oferecidos com preços especiais. Um dos grandes diferenciais do Melnick Even Day é que ele acontece anualmente, impreterivelmente em apenas um dia. Se o cliente chegar na segunda-feira, vai se deparar com os preços regulares. Então, tem que aguardar até o próximo ano. “Observamos muitas campanhas e elas estavam ficando parecidas. Todo mês se repetia, só trocava de nome, apenas rodando os estoques. As pessoas se acostumavam e deixavam para depois. Então a gente quis fazer algo diferente, realmente em apenas um dia, e não só estoque, mas incluindo também lançamentos”, afirma Juliano Melnick.

Os clientes entenderam o recado e, após a primeira edição, passaram a se planejar para o evento. Tanto que filas com mais de 300 pessoas se estenderam pelas quadras do bairro Bela Vista dois dias antes do último Melnick Even Day. “É um evento para o mercado. Praticamente ninguém compra nas duas semanas anteriores, quando começamos a divulgação.” Conforme Juliano Melnick, para atender a uma demanda tão grande e tão concentrada, é elaborada uma complexa operação, que conta com centenas de corretores e um vasto departamento jurídico, já que todo o processo acontece em um único dia – atendimento, demonstração do produto, escolha e assinatura do contrato. Nesta edição, apenas em contratos, foram 50 mil páginas. Projeto inovador em Porto Alegre, o Nine foi escolhido empreendimento do ano no Sinduscon Premium 2012. Trata-se de um prédio com lofts e apartamentos duplex voltados para o público single ou jovens casais, que conta com piscina no nono andar (daí o nome) e diversas opções diferenciadas de lazer.”


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NEX GROUP

Fundada em 2011, resultado da fusão de quatro empresas tradicionais do mercado gaúcho, a Nex Group chega a 2013 firmada no cenário imobiliário do Estado. A empresa já se volta para o mercado além do Mampituba e também procura investir nos mais diversos nichos, equilibrando a importância deles no quadro geral dos valores de venda obtidos. “Unimos empresas que têm no seu DNA o Rio Grande do Sul, que conhecem bem seu produto e seu cliente. Esse foi, é e será nosso propósito”, afirma o presidente Carlos Alberto Schettert. Apesar das raízes gaúchas, a Nex Group – já presente na Capital, no Interior e na Região Metropolitana – pretende atuar fora do Estado. A empresa atualmente privilegia sua consolidação no mercado catarinense, onde já está presente com dois grandes empreendimentos que envolvem expressivos volumes de venda – um para alto padrão e outro megaexclusivo, ambos na Praia Brava, em Balneário Camboriú. Também já avaliou o mercado paranaense e aguarda mo-

mento mais oportuno. Em solo gaúcho, a Nex Group mantém obras herdadas das quatro companhias, que possuíam seus próprios land banks e já contavam com projetos que hoje estão em produção. Por meio de uma parceria com a Rodobens Negócios Imobiliários, acordo firmado desde os tempos da Capa Engenharia, a empresa atua de forma expressiva com projetos ligados ao programa Minha Casa, Minha Vida. Neste segmento, a Nex opera com a marca Capa Max, não apenas em Porto Alegre, mas também em Alvorada, Gravataí, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Santa Cruz, algumas das principais cidades participantes do programa. Atualmente, são 4.217 unidades em produção – 1.584 originárias das quatro empresas e 2.633 executadas em parceria com a Rodobens. Para serem lançadas no próximo semestre, são 960 unidades da Nex Group e 1.306 em parceria com a Rodobens. Conforme Schettert, em comparação com os demais produtos da empresa,

MARCOS NAGELSTEIN/JC

DNA gaúcho, mas com o pé na estrada

os empreendimentos voltados ao Minha Casa, Minha Vida possuem um valor de venda mais baixo, o que torna necessário operar com quantidades maiores para se obter uma margem satisfatória de lucro. “Por isso, os números dentro da parceria com a Rodobens são tão expressivos, pois o valor da unidade é menor e temos que chegar a um equilíbrio.” A empresa procura manter a igualdade no valor geral de venda dos principais segmentos em que atua: produtos do programa Minha Casa, Minha Vida, de médio padrão,

alto padrão e altíssimo padrão, procurando manter 25% de faturamento em cada um deles. “Para se alcançar resultado nos empreendimentos do programa, é preciso ter escala. Hoje, a gente domina esse processo, então estamos com nosso nível de satisfação altíssimo. Todo produto que a gente lança tem uma demanda muito acentuada.” Em termos de volume, os produtos do Minha Casa, Minha Vida são responsáveis por 46% do estoque da Nex Group, mas em valores representam 26% do total das vendas da empresa.

Empresa procura expandir e investir em nichos variados, segundo Schettert

Um ano de resultados a serem celebrados empreendimentos em Santa Catarina (R$ 20 milhões). Em termos de valor, há equilíbrio, mas foram 1,6 mil unidades da parceria e 500 da Nex Group, devido aos valores de venda diferentes. “Todas as unidades que vendemos serão construídas por nós”, aponta Enio Pricladnitzki, diretor comercial. “Isso faz com que busquemos empreendimentos de porte maior, porque, se ficarmos apenas em projetos de 30 a 60 unidades, não

conseguiremos criar empreendimentos suficientes para nossa demanda.” Entre os lançamentos do segundo semestre, estão empreendimentos que apresentam as mesmas características: têm grande porte e são altamente voltados ao bem-estar familiar e ao meio ambiente. “A gente entendeu que isso veio para ficar,” afirma Enio. Lançado recentemente, o Polo causou furor no mercado. Localizado a 200 metros do Shopping Iguatemi, ao lado do Parque

NEX GROUP/DIVULGAÇÃO/JC

Polo, lançado recentemente ao lado do parque Germânia, causou furor no mercado

O primeiro semestre é motivo de comemoração para a Nex Group. As operações alcançaram índice de venda sobre oferta (VSO) alto, de 20% ao mês - significa que, de cada 100 unidades disponíveis, 20 são vendidas a cada mês. Outro motivo de celebração são os R$ 360 milhões em vendas – divididos entre empreendimentos próprios da Nex ou das quatro empresas que a compõem (R$ 170 milhões), parceria com a Rodobens (R$ 170 milhões) e os dois

Germânia, o empreendimento dispõe apenas de suítes - são duas ou três por apartamento. Conta com quadra de tênis e espaço poliesportivo, além de duas piscinas, externa e interna. Outra tendência em que a empresa aposta são os empreendimentos mistos (mixed-use), como o MaxHaus, que integra espaços de moradia, trabalho e compras. Em Pelotas, a Nex Group está desenvolvendo um empreendimento de 1.536 unidades, 384 das quais serão lançadas no segundo semestre. Trata-se de um grande terreno com área interna de lazer, seguindo conceito que ainda não existe na cidade. A primeira parte do lançamento terá um valor geral de vendas de R$ 80 milhões – o total do empreendimento é de R$ 320 milhões. Outro empreendimento no qual a empresa aposta muito será lançado em Canoas e terá, além de características semelhantes as do projeto de Pelotas, dois diferenciais: está localizado entre um dos principais parques da cidade e um shopping em fase de construção. “A localização é insuperável. Por ser uma cidade mais urbanizada, carregada de trânsito, a gente quis ir em outra direção, então vamos ter grande apelo de sustentabilidade.”


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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CONSTRUÇÃO CIVIL

Caderno Especial do Jornal do Comércio

CYRELA GOLDSZTEIN

Expansão com respeito às diferenças

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Um dos principais focos da Cyrela Goldsztein hoje, Porto Alegre tem como particularidade a rigidez do Plano Diretor. Para o diretor comercial da incorporadora, Ricardo Jornada, as diretrizes são restritivas e impedem alguns crescimentos. “Temos uma preocupação ambiental muito grande e sabemos que a proximidade com o Guaíba exige cuidados”, afirma, lembrando que ainda há áreas nas zonas Norte e Sul para onde a cidade pode crescer. No entanto, além dos investimentos nas zonas Norte e Sul, a empresa foca em bairros estratégicos da Capital. Um exemplo é o Reserva Menino Deus, que alia praticidade e sofisticação, com área de lazer completa. Hoje, a Cyrela Goldsztein tem 30 empreendimentos na área, em todas as fases e todos com valores muito parecidos. No Rio Grande do Sul, estão cerca de 60% deles; Santa Catarina tem participação de em torno de 10%, e o resto fica com o Paraná. Mesmo com as restrições da capital gaúcha, o Estado está em vantagem frente aos outros da região Sul. Quanto às tendências em que a Cyrela Goldsztein está investindo, seguem a lógica das famílias e das sociedades atuais. Os jovens acabam comprando o primeiro imóvel com um ou dois quartos. Conforme a família aumenta, começa a procura por imóveis maiores, de três dormitórios. E para os mais maduros, a busca é por alto padrão. Além disso, há hoje também um mercado de separados, de pessoas mais velhas que moram sozinhas. “Hoje, as pessoas procuram segurança, acessibilidade, sustentabilidade e conveniência de serviços. Em essência, buscam qualidade de vida”, lembra Jornada. Mas a compra de um imóvel também representa investimento. O crescimento econômico aumentou a procura por salas comerciais como alternativa de negócio, para evitar o aluguel, ou mesmo para compor renda futura.

tina, onde atua há três anos. “Porto Alegre tem uma taxa de crescimento muito serena, com um mercado imobiliário maduro, parecido com o de São Paulo, mas cada um no seu tamanho”, diz Jornada. Por um lado, a vocação empresarial da Cyrela Goldsztein está ligada a dominar a tecnologia construtiva. Por outro, quanto às fatias do mercado, a atuação mais forte da construtora está nos imóveis para as classes A e B, embora a participação do segmento econômico esteja perto de 40%. A mudança, porém, está no conceito. Conforme Jornada, os empreendimentos econômicos hoje são construídos para o Minha Casa Minha Vida, na região Sul, com imóveis de até R$ 140 mil. A partir desse valor, já é um padrão classe C. Em uma análise do mercado atual, o gargalo da construção civil, por sua vez, continua ligado à mão de obra. Jornada revela que há no País um déficit de 12 mil engenheiros. “A grande conta que o mercado pagou no crescimento acelerado foi ter recursos, clientes e financiamento facilitado, mas não ter quem construa”, analisa. Assim, os preços da cadeia acabam explodindo, o que afeta a qualidade e o processo de produção dos imóveis. Já as taxas de inadimplência estão sob controle. O problema maior, hoje, são as devoluções, o que mostra que imóveis na planta têm riscos para todos os lados. Isso acontece quando o negócio é fechado antes, mas na hora de receber as chaves o futuro proprietário perdeu a disponibilidade de recursos para efetuar a compra. Assim, o apartamento é devolvido, causando um custo alto. No caso da Cyrela Goldsztein, há prédios que chegam a ser vendidos uma vez e meia. Por isso, há um patamar razoável de especuladores e um desafio de buscar os melhores compradores. “Nosso trabalho é conquistar o cliente no início e mantê-lo na carteira o tempo todo”, completa Jornada.

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Jornada diz que empresa vai continuar defendendo a liderança do setor

O respeito às diferenças tem ditado a expansão acima da média da Cyrela Goldsztein no País. Isso porque a empresa não apenas expandiu, e, sim, absorveu as peculiaridades de cada região para oferecer o produto certo. No caso do Rio Grande do Sul, a incorporação da Goldsztein foi decisiva para entender o que o gaúcho quer, de fato, quando compra um imóvel comercial ou residencial. Conforme o diretor comercial da incorporadora, Ricardo Jornada, a indústria não pode aplicar as mesmas variáveis, simplesmente, por aqui: tem de pensar o produto que o gaúcho gosta. A construtora teve um período de crescimento acelerado entre 2008 e 2011, um momento em que a economia foi beneficiada por aberturas de capital e por uma explosão do mercado imobiliário nacional. Nesse período, a construção civil serviu como uma alavanca para o crescimento do Brasil como um todo. Agora, há um momento de estabilização - em vez do mesmo ritmo acelerado -, e as empresas estão se sedimentando. Em receita líquida, o crescimento de faturamento da Cyrela Goldsztein em 2012 foi de mais de 20%. Embora não tão altas, as projeções seguem consistentes. “Assumimos o topo no segmento e vamos continuar defendendo essa posição”, afirma Jornada. Uma taxa saudável de expansão do ponto de vista empresarial, segundo ele, deve se manter sempre acima da taxa do Produto Interno Bruto (PIB) - entre 4% e 10% já é um número adequado. No Rio Grande do Sul, estão entre 10% e 12% dos investimentos nacionais da Cyrela Goldsztein. Embora a taxa seja estável, a projeção é de aumento nos próximos dois anos. Para a construtora paulista, há três mercados muito claros: São Paulo, Rio de Janeiro e região Sul - partindo de Porto Alegre tanto para Santa Catarina e Paraná quanto para Uruguai e Argen-

Com o jeito gaúcho de viver

Reserva Menino Deus valoriza um dos bairros mais característicos da Capital


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CONSTRUÇÃO CIVIL

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ARQUISUL

Uma especialista em Porto Alegre. Com taxas de expansão de gordos 30% anuais na última década, a Arquisul aposta em seu conhecimento profundo do mercado local para manter as taxas neste patamar, muito acima do mercado da construção civil, que foi de um minguado 1,4% em 2012. A concorrência com as incorporadoras nacionais não assusta a marca gaúcha, que credita os números ao foco. “É completamente diferente construir em Porto Alegre, em Curitiba, em Rio Grande. E, por incrível que pareça, é diferente construir no Petrópolis e na zona Sul de Porto Alegre”, diz o diretor-presidente da Arquisul, Paulo Roberto Silveira. Conhecer a Capital é um dos trunfos da incorporadora, mas não o único. A Arquisul trabalha com imóveis na faixa de preço entre R$ 300 mil e R$ 900 mil, cujas vendas são as que mais crescem no segmento. É com essa expertise que a Arquisul comemora 45 anos em 2014 com fôlego de

sobra para crescer. Inicialmente uma empresa focada em construir para terceiros, a Arquisul já ergueu hospitais, salas de aula, sedes comerciais e edifícios para entidades privadas. Aos poucos, foi migrando para tornar-se uma incorporadora e hoje se consolida com o foco no consumidor final - os investidores não chegam a 20% nos novos produtos. Administrador à frente da empresa familiar, Paulo Roberto resume o que sempre foi o seu desejo: “realizar aquele que ainda é o sonho de todo brasileiro, o da casa própria”. Para o filho Rodrigo Silveira, diretor-comercial da companhia, outra qualidade da empresa que a mantém bem acima do crescimento médio do setor é a inovação. “Estamos sempre de olho nas tendências”, comenta. O pai também destaca a importância do investimento em pesquisas que a Arquisul faz para garantir um conhecimento detalhado da cidade e de seus potenciais clientes. “Este é o nosso di-

JOÃO MATTOS/JC

Quase cinco décadas com musculatura para crescer

ferencial. Formulamos projetos que se identificam com aspirações e necessidades dos porto-alegrenses, levando em conta as diferenças de uma região para outras dentro da mesma cidade”, explica Paulo Roberto. Com cerca de 60 funcionários diretos e uma estimativa de 500 trabalhadores em seus canteiros de obras, cujo trabalho é terceirizado, Paulo Roberto é ciente da escassez de mão de obra e de fornecedores de qualidade, por isso preza por suas parcerias para mantê-las com serviço constante e perspectivas. O calcanhar de Aquiles está em uma questão comum ao

setor: a burocracia enfrentada na prefeitura na hora de aprovar e licenciar. Com crédito facilitado, Rodrigo tem segurança para afirmar que não falta dinheiro hoje, mas celeridade nos processos. O pai observa que dois anos é um prazo recorde para aprovação de projetos em Porto Alegre, mas faz uma ressalva: “não estou criticando os técnicos e os profissionais, que se desdobram para poder atender, mas as condições, que são de 50 anos atrás”. É assim, com personalidade e expertise, que a Arquisul se encaminha para completar seus 45 anos em 2014 com muito a celebrar.

Paulo Roberto Silveira e o filho Rodrigo creditam o sucesso ao conhecimento do mercado

Empresa concentra investimentos em formato mixed use aposta da Arquisul vem sendo no formato “mixed use”, que reúne, em um mesmo condomínio, moradia, trabalho, lazer e conveniência. A reboque estão os conceitos de sustentabilidade ARQUISUL/DIVULGAÇÃO/JC

Os investimentos em infraestrutura de lazer, cuja moda iniciou-se no final da década de 1980, já não são mais suficientes para os moradores da Capital. Nos último quatro anos, a

e qualidade de vida, valores cada vez mais atuais. “Nos últimos anos, qual o maior impacto na vida nas grandes cidades? A mobilidade urbana. A qualidade de vida está prejudicada. Perdemos meia hora aqui, meia hora ali. Se for somar isso… Hoje a pessoa quer sair de casa, entrar no elevador e já chegar ao trabalho, sem gerar consumo de combustível e poluição”, diz. A Arquisul já tem quatro empreendimentos nesse formato, entre os quais um está em fase de pré-lançamendo; e os outros, com previsão para o primeiro semestre de 2014. O Neo 360º, o Neo Superquadra, o Neo Grande Lindoia e o Neo Petrópolis trazem o significado da inovação no próprio nome. A velocidade de vendas desses novos produtos é o dobro da média, diz Paulo Roberto. Com aceitação positiva no mercado, os empreendimentos chegam a ser lançados com até 70% já vendidos. Com foco na Capital e na Grande Porto Alegre, a empresa especializou-

-se em identificar grandes oportunidades, sempre buscando os “melhores lugares nos melhores bairros”, frisa Paulo Roberto. Por isso, a importância em dominar o conhecimento sobre a região. Fiel aos seus objetivos e à sua história de mais de quatro décadas, a Arquisul comemora ter saído incólume de um conturbado período nos últimos quatro anos. “Para nós, está muito melhor hoje”, afirma o diretor-presidente. “Não quisemos surfar naquela ‘onda de oba-oba’, porque sabíamos que seria fugaz. Teríamos de alterar nosso escopo, nossa personalidade”. Longe de enfrentar questões de devolução relatadas por empresas nacionais, Rodrigo afirma que seus clientes têm um perfil qualificado e que a empresa trabalha para garantir um formato de venda seguro. O pai complementa: “A gente prefere vender menos, mas com segurança, com qualidade”, diz, explicando que seu planejamento parte de análises muito bem acuradas na hora da venda.

Empreendimentos como o Neo 360º unem moradia, trabalho, lazer e conveniência


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Caderno Especial do Jornal do ComĂŠrcio

Contrução Civil  

Caderno especial.