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ANO 34 - Nº 464 SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016

MAJO CAMPOS

MAJO CAMPO

Produzido por alunos de Jornalismo da ECA-USP

Afetada com a segunda edição do plano de demissão voluntária, Escola de Aplicação (foto) sofre com saída de funcionária e falta de professores UNIVERSIDADE p. 8 e 9

O segundo PIDV

Com 397 servidores a menos, USP tem áreas precarizadas CIÊNCIA

UNIVERSIDADE

ESPORTES

HC realiza primeiro transplante de útero da América Latina

Sem motivos claros, edital de bolsas é cancelado

Volta da USP chega à 53ª edição com 2.500 inscritos

p.11

p.7

p.13

CULTURA

EM PAUTA

Os uspianos que fazem sucesso como youtubers p.15

PEC 241 corta verbas em educação e saúde, dizem especialistas p.10

ENTREVISTA

“Nunca parei de estudar”, diz Julieta Widman, mestre aos 76 anos

p.3


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DIÁLOGOS

SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

EDITORIAL

Entre a persistência e a novidade OMBUDSMAN

As incertezas e a superfície MATHEUS PICHONELLI*

ESPAÇO DO LEITOR

GUILHERME WEFFORT

O Jornal do Campus também é feito por você. Participe do JC pela #JornaldoCampus, no Instagram. Para sugerir pautas, entre em contato pelo email jornaldocampus@gmail.com.

VALTER VASCONCELOS FILHO

CAMPUS DA USP RIBEIRÃO PRETO, POR @ GUIWEFFORT

CORRIDA PARA MULHERES REALIZADA PELA ASICS NO CEPEUSP NO DIA 16 DE OUTUBRO. NO MOMENTO DO CLIQUE, @ JU.ORTOLANI CHEGAVA NA LINHA FINAL DOS 10 KM.

Proposta de reforma do ensino médio, desempenho no Enem, cortes, incerteza. Para usar um jargão em desuso, nunca antes na história recente foi tão importante radiografar e pensar a escola e a universidade que queremos e tememos perder. Alvo de polêmica, a MP do Novo Ensino Médio suscita debates e preocupações, e o Jornal do Campus deu a sua contribuição ao ouvir especialistas e mostrar a complexidade do tema. Mas, em vez de mergulhar a fundo, limita-se a molhar os pés na superfície. A reportagem principal poderia ser desdobrada em pelo menos duas entrevistas em forma de pingue-pongue para que ficassem mais claras as posições de cada um. Isso ajudaria a entender, por exemplo, o que exatamente Elizabeth Balbachevsky quer dizer com frases do tipo “sociologia e artes têm condições de lutar por seu público”. O texto, em vez disso, chega recheado de jargões como “cura” e “tiro pela culatra” que mais enfeitam do que esclarecem. Perde, assim, a chance de colocar em perspectiva o desempenho das escolas públicas no Enem, divulgadas pelo MEC com alarde, sem levar em conta as notas dos institutos federais, como que para reforçar a sensação de “falência” do ensino público. A jogada política, se há, passou em branco. Na fala de Renato Janine Ribeiro, faltou contextualizar a referência ao Escola Sem Partido. Faltou também a avaliação de professores de sociologia e filosofia sobre a perspectiva de se distanciarem do ensino médio, a exemplo da reportagem sobre educação física – em página distante da principal. A pauta com a opinião de estudantes sobre o que falta na graduação é pertinente, mas falha ao não deixar claro o universo avaliado. Eram diversos quanto? Quais eram as perguntas? Qual o período? Sobre a parceria da USP com a McKinsey & Company, a notícia chega num tom que parece natural que o governador se reúna com empresas privadas em audiência para definir o “futuro” da universidade. Para quem a consultoria trabalha? Há estimativa de custo? Qual o papel da Comunitas? São perguntas que ficaram no ar, mas, com um pouco de fôlego, ainda podem e devem ser investigadas a fundo.

A Coordenadoria da Administração Geral (CODAGE) da Universidade de São Paulo emitiu em 4 de outubro a segunda revisão orçamentária deste ano. No documento, de 22 páginas, é apontado que o déficit uspiano deverá atingir R$ 659,91 mi, 32 milhões maior do que a previsão anterior. Onze dias antes, foi divulgada a lista dos servidores aprovados no Programa de Incentivo à Demissão Voluntária, a fim de enxugar a folha de gastos com pessoal, avalizada em 105% do orçamento da USP, segundo última avaliação. Longe de desimportantes, os fatos acima enumerados têm sido o contexto de produção deste jornal-laboratório em todas as suas edições mais recentes. Esta, de número 464, não falará, durante as próximas páginas, diretamente do orçamento uspiano, da gestão fiscal acirrada ou das políticas austeras, pregos já muito martelados. De qualquer forma, como estrutura subjacente, tais parâmetros soaram decisivos: a falta de professores na Escola de Aplicação (carência que pode ser alargada, caso outros docentes sejam aprovados em próximo PIDV), por exemplo, é um dos sintomas da enfermidade (e estão pautados na editoria de Universidade, como manifestação das atuais limitações da instituição). Também nesta editoria figurará um dos resquícios da greve: a briga entre empregadores e empregados, estes que ficaram paralisados durante mais de 70 dias entre maio e julho deste ano, no chamado dissídio. Os primeiros recusam-se a pagar os dias devidos; os segundos, argumentam que o pagamento é constitucional e inegociável. Ao menos da parte do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, já se deu a razão aos últimos e ordenou-se a liquidação dos rendimentos. Positivamente, porque o noticiário também diz belas coisas, o Hospital das Clínicas da USP foi o primeiro a realizar com sucesso uma cirurgia de transplante uterino em terras latino-americanas, e assunto desta monta, que não pode estar de fora, é destaque na editoria Ciência desta edição. Esportivamente, a Volta da USP, maratona que teve lugar na noite de 15 de outubro, recebeu especial atenção. Em Cultura, os holofotes foram direcionados a uspianos donos de canais no Youtube. O Jornal do Campus nº 464 também aborda a presença de idosos no campus. Universidade pauta o acolhimento dos longevos na USP (através do Programa Universidade Aberta à Terceira Idade) e Entrevista foi atrás de uma mulher de 76 anos recém feita mestre pela instituição. Entre a persistência dos problemas estruturais e a novidade dos temas está o equilíbrio que sustenta este impresso.

*Matheus Pichonelli mantém uma coluna de cultura e comportamento na CartaCapital e escreve sobre política no Yahoo Brasil

SIGA E PARTICIPE!

/jornaldocampus JORNAL DO CAMPUS - Nº 464 TIRAGEM: 8 MIL Universidade de São Paulo - Reitor: Marco Antonio Zago. Vice-Reitor: Vahan Agopyan. Escola de Comunicações e Artes - Diretora: Margarida Maria Krohling Kunsch. Vice-Diretor: Eduardo Monteiro. Departamento de Jornalismo e Editoração - Chefe: Dennis de Oliveira. Chefe Suplente: Ciro Marcondes Filho. Responsáveis: Alexandre Barbosa, Luciano Guimarães e Wagner Souza e Silva. Estagiária PAE: Marcelle Souza. Redação - Secretário de Redação: Felipe Saturnino. Editor de Arte: André Calderolli. Ilustradora: Natalie Majolo (Tuxa). Editora de Fotografia: Natalie Majolo. Fotógrafa: Majo Campos. Editor Online: Vitor Andrade. Repórter: Carolina Tiemi. Entrevista - Editor: Victor Matioli. Repórter: Leonardo Mastelini. Universidade - Editores: Alexandre Amaral, Flávio Ismerim, Lidia Capitani. Repórteres: Aline Naomi, Bianca Kirklewski, Bianka Vieira, Helena Mega, Luiza Missi, Luiza Queiroz. Em Pauta - Editora: Giovanna Wolf Tadini. Repórter: Bruna Martins. Cultura - Editora: Isabella Schreen. Repórteres: Larissa Lopes, Ethel Rudnitzki. Esporte - Editora: Victória Del Pintor. Repórteres: Marina M. Caporrino, Rafael Oliveira. Ciência - Editora: Carla Monteiro. Repórteres: Juliana Brocanelli, Victória de Santi. Opinião - Editora: Carolina Ingizza. Repórter: Liz Dórea. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 433, bloco A, sala 19, Cidade Universitária, São Paulo, SP, CEP 05508-900. Telefone: (11) 3091-4211. Fax: (11) 3814-1324. Impressão: Gráfica Atlântica. O Jornal do Campus é produzido pelos alunos do 4° semestre do curso de Jornalismo Matutino, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso II.


ENTREVISTA

JORNAL DO CAMPUS SEGUNDA QUIZENA | OUTUBRO 2016

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Julieta é mestre pela USP aos 76 anos Aluna mais velha entre 30 mil pós-graduandos retornou à Universidade após quatro décadas LEONARDO MASTELINI

Aos 76 anos, a psicanalista Julieta Widman começou outubro com um sonho realizado: ser mestre pela USP. Formada pelo Instituto de Psicologia na década de 60, Widman voltou ao mundo acadêmico em meados de 2010 com o programa Universidade Aberta à Terceira Idade (tema da matéria da página 4), no qual se aventurou por aulas de Jornalismo e Arquitetura. Mas foi na Letras que Widman conheceu sua nova paixão, a tradutologia — o estudo das traduções —, e decidiu seguir com a pós-graduação. Aprovada no mestrado com o tema “A hipótese da retradução pelas modalidades tradutórias nas traduções para a língua inglesa de A Paixão Segundo G.H.”, a mestre recém formada agora se prepara para um novo desafio: ser doutora pela melhor universidade da América Latina.

Quais foram os motivos que a levaram a voltar? Eu trabalhava como psicanalista, e os pacientes não caem do céu. Quem os encaminha são pessoas que conhecem a gente: professores, colegas, os médicos colegas do meu marido. Essas pessoas já estavam com mais de 60 anos, se aposentando, e meu consultório foi diminuindo. E aí pensei: preciso fazer algo. De que forma você conheceu o programa Universidade Aberta à Terceira Idade? Fui em uma festa que tinha uma pessoa que estava fazendo. Quando a escutei, pensei “não quero nada para a terceira idade”. Não me sinto velha. Mas me disseram que as vagas eram para a sala de graduação, e então eu fui procurar saber mais. Como eu moro relativamente perto, eu vim e, logo lá na entrada, tem as informações. Existe um livrinho da terceira idade com tudo sobre o programa. Foi aí que decidi fazer a inscrição.

O que a senhora achou da qualidade da iniciativa? O nível é excelente. Não só o nível do que é ensinado, porque é USP, mas dos alunos. Sinto que eles não caíram de paraquedas; sabem do que está se tratando. Quando eu fui fazer aulas de Jornalismo e Sociologia, por exemplo, vi que quem escolheu aquilo sabia o que estava fazendo.

“Eu só percebia que eu não era um deles se eu olhasse para algum vidro, algum reflexo, e visse meu cabelo. De repente, eu dizia: ‘puxa!’”

LIZ DÓREA

Jornal do Campus — Como começou sua trajetória na USP? Eu terminei o colegial e queria fazer faculdade. A princípio, queria fazer Arquitetura. Mas tinha química no vestibular e eu não iria passar, sabia que ia zerar — principalmente química orgânica. Então, peguei livrinhos de vestibulares e fui ver quais cursos não caíam química. Eu não queria ser professora, então sobraram poucas opções. Uma delas era Psicologia. Aí eu fiz [o vestibular] e entrei em 1959. Interrompi alguns anos, porque fui para os Estados Unidos: trabalhei, estudei e voltei, e me formei em 1969.

Como foi sua participação? Fiz duas matérias de Jornalismo, duas de Arquitetura e uma que se chamava Tradutologia, na FFLCH. Como eu fazia muitas traduções para a Revista Brasileira de Psicanálise, pensei que seria interessante saber o que iam falar sobre tradução. Fiz tradução comparada, análise contrastiva, e fui ficando muito animada com isso. Formamos até um grupinho de alunos, de amigos, para os estudos. Fui comparar uma obra de literatura brasileira e uma tradução para o inglês, aí achei “A Paixão Segundo G.H.”, da Clarice Lispector, que eu não tinha lido. Abri três colunas e botei o original e as duas traduções, lado a lado, e escrevi os três livros. Levei uns três meses e meio para fazer isso, e era lindo porque eu via em cada pedacinho como ele foi traduzido. Prestei para entrar no mestrado e a monografia virou projeto. Terminei agora dia 30 de setembro. Apresentei o trabalho, passei... agora sou mestra pela USP.

Quais são as principais diferenças na Universidade entre a década de 60 e agora? São muitas. Primeiro, minha classe não completava nem 20 alunos. Tínhamos aula fora, na Maria Antônia, Alameda Glete, Rua Cristiano Viana, com casinha alugada pela USP para aulas de clínica. Nossas aulas eram em volta de uma mesa, na maioria das vezes. A maneira de lecionar e de estudar era diferente. A gente estudava para um seminário e apresentava só aquilo que vimos. Hoje, em função do computador, o pessoal vem e faz uns powerpoints sofisticadíssimos... quando eu vi pela primeira vez, achei lindo. Tem molduras, títulos diferentes, que eu nem sabia como se fazia. Agora já sei. E a relação com as pessoas? Em todas as minhas classes eu fui bem recebida. Não senti preconceito. Em relação a isso, estávamos discutindo outro dia: naquele tempo não tinha muita gente de mais idade. Hoje tem pouco, mas tem mais do que antes. Naquele tempo, a mulherada tingia o cabelo branco. Pessoal que tinha mais idade, quando começavam os primeiros cabelos brancos, tingia depressa. Por que hoje as pessoas deixam mais natural? Tolerância. Tolerância com a diversidade, porque antes o velho não era aceito e precisava disfarçar. Toda a diversidade precisava ficar dentro do armário, escondidinha. Hoje em dia, a diversidade é mais aberta, mais aceita. A senhora sentia que pertencia às turmas? Sim, o tempo todo. Eu só percebia que eu não era um deles se eu olhasse para algum vidro, algum reflexo, e visse meu cabelo. De repente, eu dizia “puxa!”. Para mim, eu estava muito igual. Seria como aqui, entre nós, e de repente eu vejo que sou diferente. Mas não é. Enquanto eu estou na aula, enquanto estou participando, eu esqueço que eu sou de mais idade. No ambiente universitário, surgiram muitas amizades? Muitas. Vieram todos na minha defesa de mestrado e depois foram todos almoçar na minha casa. A casa ficou cheia!

Houve alguma grande dificuldade durante este processo? Não. Ao contrário, a minha bagagem ajudou muito. Eu nunca parei de estudar. Fiz a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), sempre fui em congresso, escrevi. Tenho filhos entre 40 e 45 anos de idade e sempre acompanhei os estudos deles. Meu marido, que é médico, ainda trabalha e escreve, e eu acompanho. Leio dois jornais por dia. Eu não posso dizer que, de repente, caí de paraquedas por aqui... Não posso dizer que depois de muitos anos eu voltei a estudar. Nunca parei. Tudo isso, 60 anos de bagagem, me ajuda muito. Eu tenho muita facilidade. Como é ser a aluna de mais idade entre os 30 mil pós-graduandos da USP? Por um lado, me sinto bem. Por outro, eu gostaria de ser a aluna de menos idade... Eu queria nascer de novo, começar de novo. Mas se eu nascesse de novo, eu não teria essa cabeça. E essa cabeça eu só tenho porque tenho 76 anos. E agora, quais os seus planos para o futuro? Meu pai, que viveu até os 97 anos, dizia que nessa época da vida tudo é urgente, porque ele tinha consciência de que não ia durar para sempre. Estou esperando o resultado do primeiro exame do doutorado. Se eu passar, mando o projeto na próxima segunda-feira. Minha orientadora disse para deixar para o ano que vem. Não deixar para fazer o exame de conteúdo em um dia e defender no outro, porque tem que se preparar, tem que estudar. E eu recusei, porque doutorado é cinco anos. Nessa altura da minha vida, um ano faz diferença. Então, mesmo que eu não passe nessa seleção, vou fazer como se eu tivesse passado e me adiantando. Se por um acaso não der, eu presto de novo no ano que vem e, em vez de terminar em cinco anos, termino em quatro. Quais conselhos daria aos jovens universitários sobre vitalidade e persistência? Não parem nunca. Se parar, em qualquer idade, é muito difícil retomar. A pessoa veste um pijama, se aposenta, e aí sim fica velho. Eu sou velha só olhando; se você fechar os olhos, me escutar, me ler, eu não sou. Fisicamente, eu não me sinto velha. Eu não tenho dores, como de tudo. Vejo os meus amigos, e os que pararam estão velhos. A chave é essa: não ficar contando os anos que faltam para a aposentadoria.


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UNIVERSIDADE

SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

Projeto traz idosos à sala de aula O programa Universidade Aberta à Terceira Idade incentiva o estudo e atividades culturais BIANCA KIRKLEWSKI

“Já fiz curso de fotografia digital, história da arte, cultura árabe, música popular brasileira.” — Leonete Ângela Cardoso, matriculada no programa desde 2013

com os alunos é boa, os meninos não têm nenhum preconceito com os mais velhos”. Formada em Estatística, Nádia conta que está feliz em poder retornar à Universidade. “Voltar para a USP depois de tanto tempo é bom. A gente se sente em casa”. Lucas de Lima, estudante de 20 anos, cursa a mesma disciplina que Nádia e acredita que o convívio é enriquecedor. “A participação da terceira idade nas salas é boa porque muitos trazem vivências próprias e incluem muito nas aulas”. Só no primeiro semestre de 2016, o programa ofereceu 534 atividades, que contaram com cerca de 2.500 inscritos. Ao longo dos 23 anos de história, o projeto teve a participação de mais de 100 mil idosos.

Leonete Ângela Cardoso está matriculada em disciplinas desde 2013. A idosa, que é formada em Direito na São Francisco, busca matérias que fujam de sua área de graduação. “Já fiz curso de fotografia digital, história da arte, cultura árabe, música popular brasileira”, relembra. O programa Universidade Aberta à Terceira Idade não consiste apenas em aulas de graduação. Leonete exemplifica outras atividades as quais já participou: “dentro do programa, tem um ciclo de palestras que é bem interessante para o pessoal que tem interesse em ler, ouvir alguma coisa, se atualizar”. As inscrições para o primeiro semestre de 2017 começam em fevereiro, e devem ser feitas pessoalmente no local onde a disciplina será oferecida.

BIANCA KIRKLEWSKI

O programa Universidade Aberta à Terceira Idade vem, desde 1993, oferecendo atividades acadêmicas, culturais e esportivas para pessoas acima de 60 anos. Ao todo, mais de 100 mil idosos já passaram pelo projeto, que é executado em todos os campi da USP. Professora emérita do Instituto de Psicologia da USP, Ecléa Bosi é a idealizadora do programa. Ela conta que seu interesse pelo público mais velho surgiu após elaborar uma tese sobre memória e sociedade. “É um estudo sobre lembranças de pessoas idosas e a transformação da cidade”, diz. A psicóloga revela que o caminho para a criação do projeto foi simples: “Escrevi para os

professores perguntando se eles aceitariam alunos da terceira idade. Quando eles responderam que sim, o projeto estava criado”. Marisa Midori é uma das docentes que coopera com o projeto. A professora do curso de Editoração, da Escola de Comunicações e Artes, possui um grupo de idosos na disciplina que ministra, ‘História do Livro no Brasil’. Midori afirma que nenhum tipo de diferenciação é feita. “A turma anda bem, e são todos iguais. Não há distinção de idade”. Uma de suas alunas é Nádia Dini, que participa do programa Universidade Aberta à Terceira Idade há três semestres. A senhora confirma não enfrentar dificuldades em lidar com estudantes mais jovens. “A interação

TRT considera greve como não abusiva Tribunal Regional do Trabalho determina que salários devem ser pagos, porém não reajustados LUIZA MISSI ALINE NAOMI

No dia 28 de setembro, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª região determinou que a greve dos funcionários da USP não foi abusiva e que a Universidade deve pagar os salários referentes aos 67 dias de paralisação - que, até então, estavam suspensos. Apesar disso, o reajuste de 12,34% referente à inflação reivindicado pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) não foi concedido, pois o TRT julgou que, como o empregador é um órgão público, não lhe cabe a competência de decidir. Na última greve, 460 trabalhadores não receberam salários, apesar de haver milhares de funcionários paralisados.

Esses trabalhadores que não receberam salário são, em sua maioria, de menor renda dentro da Universidade. “Coincidentemente, os funcionários que tiveram o salário cortado foram aqueles do nível básico, isto é, de menor rendimento”, explicou Magno de Carvalho Costa, diretor do Sintusp. Em 11 de maio, em e-mail enviado aos servidores e estudantes, a Reitoria defendeu que a greve era ilegal. O principal motivo seria a deflagração anterior ao início das negociações acerca do reajuste salarial. Além disso, a instituição alegou que não foi comunicada do início do movimento paredista com a antecedência prevista em lei. Em contrapartida, Magno afirma que a greve foi comunicada previamente e o

TRT declara, no acórdão do dissídio, “a legalidade do movimento e não abusiva a greve”. O reajuste salarial era uma das pautas dos trabalhadores, que também se colocaram contra o desmonte da Universidade, a terceirização dos bandejões e do Hospital Universitário, entre outras. O fim da greve, em julho, ocorreu principalmente por conta dos salários congelados. Em seu boletim, publicado no dia 27 de setembro, o Sintusp afirmou que “nesta greve, além de praticamente não termos a reposição das nossas perdas salariais, dos benefícios, ainda tivemos o absurdo corte de salários de uma parcela dos grevistas”. Em 2014, o Tribunal concedeu o reajuste e não acatou ao pedido da Reitoria por reposi-

ção do trabalho. Neste ano, a reposição do trabalho não foi mencionada. Outra diferença entre as decisões do TRT é que, em 2014, o Tribunal deu à instituição prazo de 48 horas para devolver os salários. Agora, nenhum prazo foi mencionado. Diante disso, o Sintusp ingressou com uma medida processual para que a juíza relatora do caso esclareça essa questão. Ao Jornal do Campus, a Reitoria afirmou que os salários já foram pagos. Segundo o Sintusp, a Universidade entrou com um recurso à decisão do TRT sobre o pagamento dos salários. Paralelamente, o Sintusp entrará com um recurso no Tribunal Superior do Trabalho (TST) para recorrer da decisão sobre o reajuste dos salários e solicitar o pagamento.


UNIVERSIDADE

JORNAL DO CAMPUS SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016

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ONG leva matemática para escola pública BIANCA KIRKLEWSKI

Projeto de alunos da Poli atende mais de cem alunos e oferece oportunidades de ensino das principais dificuldades da função. “Quando eles buscam o projeto, vêm com uma ideia de que a gente vai fazer eles aprenderem”, afirma.

HELENA MEGA

Nas manhãs de sábado, mais de cem alunos de diversas instituições da rede pública de ensino se reúnem em uma escola municipal na zona sul de São Paulo para aprender matemática. Os encontros são organizados pela ONG Matemática em Movimento (MM), fundada em 2012 por alunos da Escola Politécnica da USP. O projeto começou a partir de sete amigos que se voluntariaram para dar aulas em uma escola pública de São Paulo. Como todos cursavam engenharia, a matéria escolhida foi matemática. Com uma turma inicial de dez alunos do primeiro ano do Ensino Médio, a ideia era que eles fizessem o acompanhamento desses estudantes até o último ano da escola. Quatro anos depois, a equipe do Matemática em Movimento

(MM) concentra 84 voluntários, sendo a maioria estudantes da Poli. Após a primeira turma, chamaram mais uma, e assim por diante. Hoje, trabalham com alunos desde o nono ano do Ensino Fundamental até o terceiro do Ensino Médio. São seis salas divididas entre os 30 professores, que se revezam entre si. No ano passado, o MM ganhou um estatuto e passou a ser considerado uma associação de voluntários, não apenas um projeto de extensão. Assim, sua missão foi estruturada em orientar jovens do ensino público a investirem em educação como modo de desenvolvimento pessoal e profissional. “Nosso foco não é nem ensinar matemática nem fazer com que os alunos passem no vestibular, mas mostrar a importância da educação em sua

vida. Muitas vezes eles não se permitem sonhar, acham que isso não é para eles”, explica Renata Inacio, aluna da Poli e voluntária do projeto. Desse modo, promovem outras atividades além das aulas teóricas, como feira de profissões, palestras e discussões sobre temas da atualidade. Um modo de diminuir a evasão das turmas foi implantar um processo seletivo, no qual são selecionados os alunos que mais demonstram interesse - e não necessariamente mais conhecimento. Formado em Engenharia Química na Escola Politécnica, Guilherme Klein ajuda nas aulas, ora como professor, ora como auxiliar, ora como corretor. Ele conta que desmistificar a matemática para os alunos, que nem sempre tiveram acesso àquele conteúdo, é uma

“Nosso foco não é nem ensinar matemática nem fazer com que os alunos passem no vestibular, mas mostrar a importância da educação em sua vida.” — Renata Inacio, aluna da Poli e voluntária

Gratidão Depois de não passar no vestibulinho para ingressar em uma ETEC (Escola Técnica Estadual), Pietro Santana percebeu como o ensino da sua escola pública não era dos melhores – um choque, afinal sempre teve notas boas. Foi quando, seis meses depois, assistiu a uma palestra do Matemática em Movimento. “Fiquei interessado, pois falavam em realizar sonhos e obter um ensino melhor, justamente o que eu precisava no momento. Fiz a prova do processo seletivo e passei. Foi um ano incrível, aprendi coisas simples que eu nunca vi na escola, como regra de três, por exemplo”, conta Pietro. Um ano depois, o estudante passou em primeiro lugar para o curso de Técnico em Eletroeletrônica do Senai, não só com a ajuda das aulas de matemática, mas com outras orientações dos voluntários. Hoje, no terceiro ano do Ensino Médio e no último semestre do curso técnico, Pietro tem certeza que frequentar o projeto foi determinante para chegar onde conseguiu. “Eu saía – e saio – de cada aula com a certeza de que aprendi algo novo. Em todo esse tempo, nunca me desapontei com o Matemática em Movimento. Pelo contrário, o MM me deixa tão feliz que pretendo me tornar um voluntário também”, diz o estudante.

Funcionária da USP é eleita vereadora Integrante do Sintusp, Sâmia Bomfim é a vereadora mais jovem já eleita em São Paulo LUIZA MISSI

Estudante da FFLCH, integrante do movimento estudantil, funcionária da Universidade, diretora de base do Sintusp: foram várias as denominações que a tornaram uma representante da USP na sociedade. Agora, Sâmia Bomfim (PSOL) acaba de conquistar mais uma: o cargo de vereadora jovem, feminista e ativista. A eleição de Sâmia Bomfim à Câmara dos Vereadores não foi a primeira vez em que ela foi manchete nos jornais. No ano passado, ganhou destaque ao ser processada por Alexandre Frota, após o ator contar no programa Agora É Tarde, da Band, uma história em que teria estuprado uma mãe de

santo. Sâmia criou um evento online para reunir mulheres indignadas com o episódio. Frota a denunciou por calúnia e difamação. Em junho, foi expulsa da Câmara Municipal de São Paulo, especificamente de uma sessão convocada para comemorar dois anos da retirada da discussão de gêneros do Plano Nacional da Educação. Ricardo Nunes (PMDB) foi quem convocou a sessão e, também, quem ordenou que os militantes feministas e do movimento LGBT fossem retirados à base de truculência. Hoje, ela brinca sobre o ocorrido em seu perfil no Facebook, afirmando que voltará pela porta da frente. Em julho, foi convidada no programa Fla-Flu, da TV Folha,

para debater sobre feminismo com Sara Winter, que se declara “ex-feminista e ex-esquerdista”. O vídeo viralizou na internet por conta dos argumentos polêmicos de Winter: ela afirmou, por exemplo, que feministas “inventam casos de estupro para promover sua ideologia”. Na Câmara dos Vereadores, Sâmia enfrentará desafios parecidos: ela é um dos onze vereadores (dentre 55) que se propõem a fazer oposição ao prefeito João Doria. “Meu cargo de vereadora deve estar a serviço das lutas e mobilizações sociais. Muitas delas devem acontecer dentro da universidade, tendo em vista a constante precarização do ensino, dos serviços e do trabalho aqui dentro”, afirma.

“Meu cargo de vereadora deve estar a serviço das lutas e mobilizações sociais, muitas delas devem acontecer dentro da universidade.” — Sâmia Bomfim, vereadora de São Paulo


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UNIVERSIDADE

SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

Mais de 20% dos alunos deixam a USP Número de alunos que deixa a universidade ainda é elevado, se comparado à média nacional

Um estudo realizado pela Pró-Reitoria de Graduação (PRG) entre 2000 e 2015 revela que a taxa de evasão de alunos na USP é de 20,2% – o que se encontra dentro da média das universidades estaduais públicas de São Paulo, porém acima da média nacional de evasão para o ensino superior público. Dentre os principais motivos relatados pelos alunos para a desistência da graduação estão: a dificuldade das aulas, a falta de didática de alguns professores, a pouca diversidade das grades curriculares, a falta de conhecimento a respeito do curso escolhido e, nos casos das faculdades localizadas no interior do estado, a falta de segurança e infraestrutura das cidades. Em comparação com as outras universidades públicas do estado, a taxa de alunos da USP que não concluem a graduação é mediana: na Unesp, a taxa atual de evasão também é de cerca de 20%, mas a universidade estadual já registrou picos de até 30% (em 2014, por exemplo). A Unicamp também tem uma taxa média de evasão que oscila entre 15% e 20%, mas a universidade é uma das que mais consegue garantir a permanência estudantil, com taxas de evasão que já chegaram a 5,04% em 2004 e a 7,5% nos últimos três anos (um dos fatores que influenciam é a maior oferta de bolsas de auxílio pela universidade de Campinas). Entretanto, mesmo apresentando índices semelhantes aos das outras universidades paulistas, a taxa de evasão da USP ainda é superior à média nacional, que gira em torno de 18,3% para universidades públicas e 25,9% para instituições privadas, segundo um estudo do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), feito com base em dados coletados pelo Inep. Razões para desistências Dentre as graduações com média de evasão superior à da Universidade, encontram-se os cursos da área de exatas: o de matemática na USP registra uma taxa de evasão de 38%, e no Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da USP São Carlos esse índice chega a 48%. Matheus Marques, ex-aluno de engenharia civil da Escola Politécnica da USP, relata que a dificuldade para acompanhar as aulas era grande e levou à desmotivação com relação à carreira de engenheiro: “No começo do semestre, eu pretendia fazer diversas coisas dentro da faculdade e aproveitar ao máximo meu tempo lá dentro. Porém, com o passar do tempo, eu me esforçava demais

para conseguir uma nota 5 em todas as matérias. O esforço necessário me fez repensar se era realmente aquilo que eu queria para a minha vida”. Outro fator relatado por Matheus é a falta de diversidade da grade curricular – agravada pelo fato de que os alunos só podem escolher disciplinas optativas a partir do segundo semestre. Hoje, Matheus deixou a Universidade e estuda para entrar em Medicina. Para Bruna Pinhati, ex-aluna de História na Faculdade de Filosofia, Letras, e Ciências Humanas, o motivo da desistência estava mais relacionado aos professores do que com a grade curricular em si: “a grade não me desmotivava, os professores sim. Acho que fui com uma expectativa muito grande que não foi atendida”. A estudante permaneceu na faculdade durante apenas um semestre, em grande parte devido á qualidade das aulas oferecidas: “Eu até sentia que os professores eram preparados, mas não tinham uma coisa que é fundamental: didática”. Com relação a esse ponto, Marcos Neira, professor do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação, comenta que “didática não pode ser entendida simplesmente por ‘domínio e uso de técnicas de ensino’. Na USP os alunos têm a oportunidade de estabelecer contato não somente com professores que conhecem bem o que ensinam, mas também o processo de construção daqueles conhecimentos.” O educador afirma que isso contribui para criar um outro patamar da relação professor-aluno, que iria além de ter ou não ter didática. Evasão ou Desvinculação? Um caso mais comum dentro da USP é o do aluno que decide trocar de curso, ao invés de deixar a universidade. A Pró-Reitoria explica que o termo para a migração interna do aluno de um curso para outro é chamada de desvinculação, e, portanto, difere-se da evasão (que ocorre quando o aluno de fato sai da instituição de ensino). O caso de Lucca Palmieri ilustra uma situação de desvinculação: o estudante inicialmente cursava Astronomia, porém decidiu migrar para o curso de Ciências Sociais. “Eu decidi trocar por dois motivos: eu senti que o campo de trabalho não era muito apropriado para mim, e eu também sentia bastante falta de humanidades”. O estudante relata que tentou diversificar a grade com disciplinas optativas livres, porém teve dificuldade em conseguir uma vaga. “Eu fiquei um ano na Astronomia e até tentei,

LUIZA QUEIROZ

LUIZA QUEIROZ

Lucca Palmieri, aluno de Ciências Sociais, deixou a Astronomia por não conseguir diversificar a grade mas não consegui pegar nenhuma disciplina optativa livre”. Outro exemplo de desvinculação é o caso de Matheus Conti, que estudava Engenharia Bioquímica em Lorena e atualmente cursa Engenharia Elétrica na Escola Politécnica. O estudante relata que, além de não ter gostado da área de Engenharia Bioquímica, o fato de o curso ser ministrado no interior de São Paulo teve influência em sua decisão de escolher uma nova graduação: “Gostava muito da minha vida lá, mas a cidade era um problema pra mim, porque me decepcionava estar numa cidade onde eu via que eu não ia pra frente, onde só ia fazer minha faculdade e voltar pra São Paulo depois. E eu achava a cidade muito insegura: meu amigo foi assaltado, o menino que morava comigo foi assaltado”. De qualquer forma, tanto a desvinculação quanto a evasão dos alunos têm causas semelhantes: a falta de diversificação nas grades curriculares, a dificuldade das aulas, a falta de informação sobre o curso e a qualidade das aulas estimulam o aluno a mudar de curso e até de universidade. O que pode ser feito Neira afirma que a evasão possui múltiplas causas e que é necessária

uma postura ativa da Universidade para combatê-la institucionalmente. “Uma parcela dos nossos alunos acaba se evadindo devido à dificuldade de acompanhar o curso, somada a outras exigências como o trabalho para sustentar-se e cuidar da família. A grande maioria dos nossos alunos trabalham. Muitos moram bem longe do campus. As políticas em voga não têm dado conta de garantir a permanência desses estudantes após a aprovação no vestibular”. O docente levanta também a questão dos professores da rede pública, e afirma que há pouco incentivo por parte do Estado para os docentes: “Especificamente na rede estadual paulista temos uma grande evasão de professores concursados. Muitos aprovados nos concursos sequer chegam a assumir as aulas porque encontram oportunidades mais atraentes em outras instituições ou profissões”. A PRG afirma que realizou estudo sobre medidas de combate à evasão e o encaminhou às Unidades para que “pudessem avaliar e encaminhar sugestões”. Como exemplos de ações já efetuadas, a Pró-Reitoria cita o incentivo à reformulação de cursos e alteração da grade curricular, e a criação do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras (vinculado à própria PRG).


UNIVERSIDADE

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Aucani suspende bolsas para intercâmbio Novo edital já foi aberto, mas poucas explicações foram concedidas ao longo de uma semana BIANKA VIEIRA

Foi com surpresa que Carolina Benazzato deparou-se com a notícia de que o edital pelo qual concorria à bolsa no valor de R$ 20 mil estava cancelado. O dinheiro, ela conta, seria destinado a gastos com moradia, transporte e alimentação durante os seis meses de intercâmbio que passaria na Università di Torino, Itália. “É muito frustrante. Eu já estava fazendo vários planos, indo atrás de moradia e tudo o mais, para depois checar o arquivo [do edital] e ver que ele foi cancelado assim, do nada”, diz a estudante do quinto ano de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). “São muitos gastos, eu não tenho nenhuma condição de ir pra lá sem a bolsa”. Infelizmente, Carolina não estava sozinha: outros 99 alunos de diversas unidades da USP também perderam o benefício cedido pelo Edital 543/2016, nomeado como Bolsa Mérito do Programa de Bolsas de Intercâmbio Internacional para os Alunos de Graduação USP. A notícia, no entanto, sequer foi divulgada. Para saber do cancelamento — que veio a público no dia 10 de setembro — era necessário que o aluno acessasse o Sistema Mundus e baixasse a última versão retificada do arquivo. Só então ele teria acesso à breve informação de que, em função de questionamentos sobre pontos do edital, uma recomendação jurídica da própria USP levou ao seu cancelamento. E isso era tudo. Falta de comunicação. Carolina Mantovani, também estudante da Letras, reclama ao contar que não fora comunica-

da por e-mail ou telefone. “Eles divulgam um cancelamento de edital através de uma retificação sem notificação. Isso é muito grave!”, afirma. Nesse sentido, sua colega Benazzato endossa a afirmação e atenta para a possibilidade de que alguns alunos ainda não saibam do cancelamento, como um amigo seu que já tinha comprado passagens aéreas para o intercâmbio na Alemanha. “Deve ter gente que se viu como ‘classificado’ e não entrou de novo no arquivo para ver que foi cancelado. Esse meu amigo mesmo só ficou sabendo da notícia por mim, mas até aí ele já tinha comprado as passagens. É possível que agora ele fique no prejuízo”, afirma. Os problemas, no entanto, não pararam por aí. Em busca de esclarecimentos, as duas alunas afirmam ter entrado em contato com a Aucani, mas dizem que não obtiveram respostas concretas. “Muita gente mandou e-mail e ligou, eu mesma mandei três e-mails para a Aucani. Eles só falam que é por motivos jurídicos, mas não especificam quais. Nem uma justificativa decente a gente tem”, explica Carolina Benazzato. “No dia em que isso aconteceu, muita gente foi atrás pra ver o que estava acontecendo, mas nem as unidades de Cooperação Internacional tinham sido notificadas pela Aucani.” Das 23 unidades que tiveram alunos selecionados para o intercâmbio e foram contatadas pelo JC, 13 delas deram um retorno até a manhã do dia 17 de outubro sobre o assunto. Assim como os alunos, todas elas afirmaram, unanimemente, não terem recebido qualquer informação ou instrução oficial da

“Eles divulgam um cancelamento de edital através de uma retificação sem notificação. Isso é muito grave.” –– Carolina Mantovani, estudante da Letras

Aucani durante a semana em que o edital foi cancelado. “Estamos surpresos tanto quanto os alunos”, afirmou a Comissão de Relações Internacionais (CRInt) da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades); “Me disseram que qualquer comunicação sobre o 543 deve ser feita pelo Fale Conosco. Disse que já enviei o um Fale Conosco, mas ainda não obtive resposta. Eles disseram para aguardar”, conta Claudia Sarkis Rezende, responsável pela seção de assuntos internacionais da FDRP (Faculdade de Direito de Ribeirão Preto). Enfim, o novo edital. Foi somente na tarde do dia 17, uma semana após o cancelamento, que um novo edital para o Programa de Bolsas de Intercâmbio Internacional, o 590/2016, apareceu no Sistema Mundus. Com inscrições abertas até às 12 horas do dia 31 de outubro, ele mantém a concessão de 100 bolsas de R$ 20 mil para intercâmbios a serem realizados entre 2 de janeiro e 30 de junho de 2017. Em relação ao edital cancelado, o novo documento apresenta algumas mudanças. Se antes as inscrições online deveriam ser feitas exclusivamente pelos alunos, por exemplo, agora ela é de responsabilidade da CRInt ou CCInt da Unidade USP. Houve também alteração no prazo para a prestação de contas dos benefícios concedidos pelo Programa de Bolsas: de 30 dias, agora o estudante terá 90 dias para entregar a documentação após o término do intercâmbio. O novo edital, por sua vez, não garante vaga aos alunos anteriormente classificados pelo edital 543/2016. Todos eles deverão participar novamente do

processo burocrático de entrega de documentos para concorrer à bolsa de estudos. Confusão com a papelada? Anteriormente ao lançamento desse novo edital, o presidente da Aucani Raul Machado Neto foi procurado diversas vezes pela nossa reportagem. Em uma dessas ocasiões, ele limitou-se a responder que a decisão foi tomada para que não houvesse prejuízo aos alunos, mas sem especificar o que ou quais seriam. Apesar de não serem apontados como parte da justificativa oficial, alguns casos encontrados pelo JC confirmam o questionamento sugerido a despeito do processo seletivo. Um deles é o de Amanda Doi, estudante da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, que conta que não foi aceita por “ter dependências em disciplinas obrigatórias”; a verdade é que não possuía nenhuma pendência do tipo. “Não esperava que este tipo de erro pudesse acontecer. Foi falta de atenção ao examinar meu resumo escolar”. Giovanna Chencci, que cursa Jornalismo na ECA (Escola de Comunidações e Artes), também teve de lidar com algumas confusões. “Na hora da minha inscrição, ao invés de considerarem o edital de intercâmbio para o qual fui aprovada, só consideraram um outro em que eu estava na lista de espera”, conta Giovanna. “Isso mostra que eles não checaram os documentos enviados”, diz.outros editais lançados anteriormente [em comparação com o 543/2016]. Mas, assim como qualquer outro documento, ele estava suscetível a questionamentos da comunidade acadêmica“. BIANKA VIEIRA

Carolina Mantovani e Carolina Benazzato, estudantes da FFLCH, descobriram o cancelamento do edital por conta própria e reclamam sobre a falta de informações


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UNIVERSIDADE

SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

Precisa-se de professores na Escola de Aplicação

Tempo de serviço (media em anos) 34 (media em anos) Tempo de serviço 33 32 31

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Reitoria

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FMUSP

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Prefeitura

BIANCA KIRKLEWSKI

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Prefeitura

IF

Outros

IF

SEF

397

No primeiro semeste, os alunos ficaram 44 dias sem aulas de química. Biologia tem futuro incerto com falta de docentes

30

25

FMUSP

A lista dos servidores classificados a participar do Programa de Incentivo à Demissão VolunOutros tária (PIDV) foi divulgada no Diário Oficial do Estado, no último sábado de setembro, dia 24. No total, 397 funcionários sairão de seus cargos. Para as indenizações, foram destinados cerca de R$ 118 milhões, valor remanescente da primeira edição do PIDV, que ocorreu em 2015. A somatória dos valores de indenização e rescisão dos inscritos ultrapassou o montante fixado, resultando numa lista de espera de 1.058 servidores que não tiveram seus requerimentos de adesão deferidos. O Jornal do Campus fez um mapeamento de dados com base nos nomes publicados. Confira os detalhes:

35

ANDRÉ CALDEROLLI

35

Reitoria

SEF

funcionários

397

SAS

funcionários Prefeitura

SAS Prefeitura

FMRP Outros Outros

FMRP

Outros

São Paulo Outros

ESALQ EESC ESALQ EESC

Ribeirão Preto Outras cidades

Quantidade de funcionários por instituto Quantidade de funcionários por instituto

Entre os que vão fazer falta, a única psicóloga da Escola

MUDAAR O vazio dos corredores não é simbólico: a falta de profissionais faz com que alunos de graduação e de pós se organizem para dar aulas, mas isso não supre o apoio necessário aos estudantes fora do horário de aula HELENA MEGA

BIANCA KIRKLEWSKI

seria psicoeducadora. “Minha vida profissional está alicerçada na psicologia de educação, particularmente na educação infantil”, diz. Ela admite que, depois de passar décadas dirigindo as creches da USP de Ribeirão Preto e São Carlos, sua transferência à EA não ocorreu por opção própria. “Foi difícil, pois rompi com uma história profissional sólida. Não tinha experiência com educação fundamental e média”. Em seu dia a dia, Ana faz acompanhamentos com estudantes e familiares, participa de reuniões e rodas de conversas,

MAJO CAMPO

Ao ver seu nome na lista de servidores classificados no Programa de Incentivo à Demissão Voluntária, Ana Maria de Araujo Mello não ficou surpresa. A psicóloga, que dedicou 30 anos de sua carreira à Universidade de São Paulo, vinha ocupando os últimos quatro na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação, e já esperava pelo resultado, por conta da sua idade e carreira longínqua na USP. Ana conta que desde que ingressou no curso de psicologia na Unesp, em 1978, sabia que

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MAJO CAMPO

397 servidores saem na segunda etapa do PIDV

UNIVERSIDADE

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Em sua sala, Hashimoto diz que não espera ser substituída

escreve relatórios, organiza pareceres para especialistas e ocasionalmente, para conselhos tutelares e varas de infância. “Este é um trabalho intenso, considerando que a Escola mantém centenas de estudantes e que sou a única psicóloga”, declara. Outros casos Ana não é a única psicóloga contemplada pelo PIDV. No total, outros seis profissionais da área, que trabalham em locais como a Prefeitura da USP, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais e a Superintendência de Assistência Social, foram aprovados no programa. Para o Mestre em Psicologia Social e do Trabalho Felipe Hashimoto, essa perda possui algumas faces que precisam ser analisadas. “Os psicólogos que deixam a Universidade podem estar saindo por interesses próprios, e nesse caso irão abrir espaço para outros ocuparem suas vagas. Se este for o motivo, pode-se proporcionar uma ‘oxigenação’ com a vinda de profissionais com novas ideias, possivelmente mais atualizados e motivados”, afirma o pesquisador. Quando questionada se será substituída, Ana Maria Mello responde: “Acredito que não, pois não há quadro de psicólogo na FEUSP”.

“A Escola não irá fechar”. Esse foi um dos recados mais importantes dados na reunião de pais da Escola de Aplicação (EA) da Faculdade de Educação da USP, que aconteceu no último dia 8. Sem novas contratações desde 2014, a falta de professores é o principal problema que afeta a instituição, que abriga alunos do ensino fundamental e médio. Uma das origens do boato foi o anúncio próximo da lista de aprovados no PIDV (Programa de Incentivo à Demissão Voluntária) da Reitoria. Contudo, apenas uma funcionária da Escola foi inicialmente contemplada: a psicóloga Ana Maria Mello. Há seis professores na lista de espera e, caso sejam aprovados, não há perspectivas de substitutos para eles no próximo ano. A causa da apreensão, no entanto, é mais antiga. No primeiro semestre do ano, os alunos ficaram 44 dias sem aulas de química por falta de professores. Recentemente, dois funcionários da USP assumiram o cargo e se revezam nele. Como não são professores contratados, no entanto, acumulam funções em outros institutos e não se integram inteiramente à comunidade escolar: não dão recuperação, não

atendem famílias, não vão na reunião de pais e não estão presentes nos conselhos da escola, quando os professores discutem os problemas e os avanços na aprendizagem de cada estudante. “Vêm aqui, dão a aula, e vão embora porque têm outros compromissos nos seus postos de trabalho. Não têm vínculo com a equipe de professores”, explica Adriana Oliveira, professora de artes da EA e integrante da Associação de Pais e Mestres (APM) da Escola. Também não se sabe se eles continuarão na Escola no próximo ano. Mãe de um aluno do 9º ano e voluntária na APM, Sônia Reis percebe, através do filho, a precarização da disciplina. “Meu filho faz cursinho para entrar numa escola técnica. O que ele aprendeu de química lá não chega nem perto do que está aprendendo aqui”, conta. “Como a vinda dos substitutos foi projetada de uma maneira muito corrida, nós pais questionamos o plano de ensino que a escola deveria ter apresentado lá atrás”, continua a mãe. Já a reposição do conteúdo perdido no início do ano está ocorrendo à tarde, oferecida por alunos de graduação do IQ (Instituto de Química) e coordenadas pelo professor Marcelo Giordan, da Faculdade de Educação (FE).

“Vêm aqui, dão a aula, e vão embora porque têm outros compromissos nos seus postos de trabalho.” -– Adriana Oliveira, professora de artes

Arranjos Na terça-feira, dia 11 de outubro, foi a vez da professora de biologia despedir-se da Escola. Ela passou em um concurso e irá lecionar na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “As pessoas têm o direito de continuar suas vidas em outros locais, a nossa preocupação é falta de contratações”, explicou aos pais, a diretora da instituição, Andréia Botelho de Rezende. Agora, o conteúdo será ministrado por alunos de pós-graduação em Biologia, sob coordenação das professoras Martha Marandino, da FE, e Suzana Ursi, do Instituto de Biociências (IB) da USP. Para os alunos do terceiro ano do ensino médio, a antiga professora deixou a matéria adiantada e praticamente finalizou o conteúdo do ano. No entanto, do mesmo modo como a reposição de química, o conteúdo de biologia será dado na parte da tarde, quando nem todos alunos, por motivos diversos, podem comparecer — alguns, por exemplo, frequentam ensino técnico ou cursinho no período vespertino. “Percebemos um esforço muito grande da direção da EA, mas esses arranjos são muito precários e é inegável que prejudicam a qualidade do ensino dos nossos alunos”, aponta a professora de artes.

Diante disso, os pais planejam recorrer ao Ministério Público (MP) com uma ação cautelar (procedimento judicial que busca prevenir, conservar, defender ou assegurar a eficácia de um direito) para forçar a Reitoria a abrir novas contratações. O anúncio foi feito pela mãe Lucineia durante a reunião de sábado. Porém, até que a gestão Zago se encerre, não há previsão para que as contratações ocorram. “Eu sou pela resistência, só que a minha resistência também tem limite. Se chegar fevereiro e não tivermos alternativa para sete disciplinas, não tem como continuar nessa escola”, lamentou Lucineia ao microfone. Assim, sobre 2017, os pais ainda estão sem respostas. “Nossa maior preocupação é terminar o ano”, avisou a diretora. Na sala da APM, há uma pasta cheia de documentos com registros de ações anteriores, uma delas no nome de Sônia, que contatou o Geduc (Grupo de Atuação Especial de Educação), órgão do MP, para denunciar a situação da Escola. Cadê a merenda Outro agravante da situação da Escola é o fechamento da cantina, que funcionou pela última vez no dia 17, já que a administração atual optou por não renovar o

contrato. Como a Escola nunca ofereceu merenda, direito previsto pela lei nº 11.947 de 2009, os mais de cem alunos bolsistas, que costumavam ganhar lanche do local, ficarão sem alimentação garantida nos intervalos. A concessão de bolsas a esses alunos foi resultado de outra luta da Escola, que conseguiu junto à SAS (Superintendência de Assistência Social) o pagamento do auxílio alimentação para alguns estudantes que também podem frequentar os bandejões. Agora os pais, junto à diretoria, buscam alternativas para que ninguém fique sem lanche até o fim do ano. Sobrou espaço na reunião do dia 8, no entanto, para que algumas notícias boas fossem dadas aos pais que compareceram ao auditório recém pintado da Escola. Essa pequena reforma foi feita graças a uma verba doada pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) à EA, dinheiro que também possibilitou a reinauguração do parquinho fechado há seis anos e algumas manutenções nas quadras. Também foi anunciado que a EA ficou em 1º lugar no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2015 na categoria Ensino Fundamental II entre as escolas públicas do município de São Paulo.


10 EM PAUTA

JORNAL DO CAMPUS SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016

Professores contestam proposta da PEC 241 Especialistas em educação e economia avaliam a Emenda que pretende limitar despesas públicas BRUNA MARTINS

ANTES DA PEC 241...

PIB GASTOS PÚBLICOS INFLAÇÃO

com juros superou a despesa relacionada a benefícios previdenciários, atingindo 436 bilhões, segundo dados do Banco Central. Mas, segundo Carmen, “ainda assim, o Governo elege como prioridade cortar direitos dos trabalhadores e manter intocados os ganhos dos rentistas”. Nos últimos anos, o país conseguiu alguns avanços com relação aos investimentos na área da educação, como por exemplo mudanças realizadas no Artigo 212 da Constituição Federal, que estabelece um repasse mínimo da União, de 18%, e também dos Estados, Municípios e do Distrito Federal, de 25%, a essa área. No ano de 2007 foi instituído o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), capital formado por arrecadações estaduais de recursos de naturezas diversas, como impostos e transferências, destinados à educação. Além disso, o Plano Nacional de Educação estabeleceu o compromisso de aplicação de 10% do PIB em educação, e também foi determinado que, a partir de dezembro de 2012, a área passaria a receber a aplicação de 75% dos recursos de royalties do petróleo nacional. Com a PEC 241, segundo a professora, todos esses avanços se estagnam e inverte-se a lógica constitucional: “onde há a obrigação de gastos mínimos, de acordo com a Constituição, passa a haver a determinação de um teto de gastos”. De acordo com Carmen, tudo indica que a PEC 241 afetará as universidades públicas, como a USP, e demais instituições federais. Para ela, uma vez desaparecido o acordo de evolução dos investimentos públicos em educação, além de outras medidas recentes no campo da

Medida não soluciona Em audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos, realizada dia 11 de outubro no Senado, a professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Laura Carvalho, explicou que, na realidade, “a crise fiscal que o país vive atualmente não é fruto de uma gastança descontrolada”. Analisando dados dos últimos governos, vê-se que o total de despesas no primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff cresceu 4,2%, valor inferior aos dos dois mandatos do presidente Lula (5,2% e 4,9%), e bem próximo do valor correspondente ao do segundo governo Fernando Henrique Cardoso (3,9%). Em contrapartida, a receita total do país veio diminuindo ao longo dos anos: cresceu 6,5% durante o segundo mandato de FHC, 4,8% e 3,6% nos primeiro e segundo governo Lula, respectivamente, e apenas 2,2% no primeiro mandato de Dilma. Ou seja, na opinião de Laura, atualmente o Brasil vive uma crise fiscal de receita, e não de despesa, e esta crise fiscal é muito mais o sintoma da crise econômica brasileira do que a causa dela. “A PEC 241 e suas reduções de gastos não só não soluciona os problemas que temos como pode prejudicar muito uma retomada, uma estabilidade política”, afirma. De acordo com Eduardo Caldas, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP, a possível aprovação da PEC 241 aparece como tentativa de solução fiscal do Brasil, por parte

“A eficiência econômica da educação, transformada em critério, vem substituir o direito à educação de qualidade.” — Carmen Moraes, professora da Faculdade de Educação da USP

do Governo, mas não se mostra capaz de atingir a raiz dos problemas de maneira eficiente. Na opinião dele, o que se precisa é compatibilizar gastos eficientes com arrecadação adequada. Além disso, o professor lembra que políticas públicas de qualidade, em saúde e de educação, se faz com valorização das pessoas. “Nas duas áreas, o que se precisa é estruturar carreiras, valorizar os profissionais com salários compatíveis a suas atribuições e apostar em tecnologias apropriadas”, ele afirma. Por isso, o que se precisa é inverter a lógica de pensamento: aumentar o custeio para ampliação da cobertura do Sistema Único de Saúde e do oferecimento de educação de qualidade, algo que vai contra a proposta da PEC 241. A Emenda estabelece limite de despesas do Governo a cada ano: o valor total a ser gasto no período seria o mesmo despendido no ano anterior, corrigido apenas pela inflação. Dessa forma, o Orçamento se mantém praticamente congelado, pois o seu poder de compra seria o mesmo do ano anterior. Essas regras valem para os próximos 20 anos, podendo ser revisadas após os 10 primeiros anos da medida. O conjunto de regras da Emenda, ainda segundo o Governo, se aplica aos três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Além disso, de acordo com a proposta atual, a medida já entra em vigor a partir de 2017, mas os limites ligados a gastos nas áreas de saúde e educação passam a valer apenas depois de 2018. A primeira votação na Câmara dos Deputados, em 10 de outubro, aprovou a proposta com 366 votos a favor e 111 contrários, além de duas abstenções. A previsão é de que o segundo turno na Câmara ocorra antes do dia 24 de outubro e que as duas votações pelos senadores aconteçam até a primeira quinzena de dezembro.

DEPOIS DA PEC 241...

O Orçamento se mantém praticamente congelado, pois o seu poder de compra seria o mesmo do ano anterior. GASTOS PÚBLICOS

GIOVANNA WOLF TADINI

Em junho deste ano, o presidente Michel Temer apresentou sugestão de criação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241. A Emenda apresenta um conjunto de ações que busca estabelecer teto de gastos para o Brasil pelos próximos 20 anos e, assim, melhorar suas condições econômicas. Para ser colocada em prática, a proposta precisa passar por duas aprovações na Câmara dos Deputados e também duas no Senado Federal. Porém, especialistas da Universidade de São Paulo acreditam que a PEC representa um retrocesso para um país que necessita, ainda, de grandes investimentos em áreas fundamentais, como educação e saúde. Para Carmen Sylvia Vidigal Moraes, professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP), “a proposta de mudança deste governo ilegítimo volta-se contra o modelo de cidadania e as conquistas civilizatórias garantidas na Constituição de 1988”. O governo Temer pretende fazer ajustes econômicos através da redução de investimentos em direitos sociais e em serviços públicos prestados à sociedade. Para Carmen, a imposição dessas restrições irá prejudicar justamente os setores mais pobres da população: “é uma política anti-povo”. Ainda segundo a professora, o Governo ignora outras medidas que poderiam resultar em maior justiça social, especialmente medidas no campo tributário, como a taxação das grandes fortunas ou das maiores heranças. “É preciso taxar os segmentos sociais e econômicos que sempre ganham muito, mesmo e especialmente com a crise atual, e que estão submetidos à menor carga tributária, a que incide sobre patrimônio e renda”. O Brasil, hoje, paga uma das maiores taxas de juros no mundo - em 2015, a despesa

educação, como a última versão da Base Nacional Comum Curricular (que estabelece regras no ensino que devem ser cumpridas em todo o país), e também a proposta de reforma do Ensino Médio, surge o risco da política de privatização relacionada ao programa de ajuste fiscal na educação para redução de custos. “A eficiência econômica da educação, transformada em critério, vem substituir o direito à educação de qualidade”. Na opinião da professora, as próprias medidas assumidas pela atual gestão da Universidade de São Paulo, como busca por formas alternativas de financiamento, proibição de contratação de pessoal, de criação de novos cargos e de reajustes salariais, centralização e exclusão da participação coletiva na tomada das decisões e imposição de mudanças na carreira são exemplos desse risco. “As semelhanças entre as ações tomadas aqui dentro e as imposições da PEC 241 me levam até a pensar que somos um laboratório de sua aplicação”, afirma.


CIÊNCIA

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HC realiza transplante inédito de útero O procedimento, feito em jovem de 28 anos, foi o primeiro bem-sucedido da América Latina JULIANA BROCANELLI

Não é todo dia que se vê um transplante de útero. Na verdade, a cirurgia realizada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) foi a terceira no mundo e a primeira na América Latina. O procedimento, realizado no fim de setembro, foi considerado bem-sucedido pela equipe médica e reforça a atuação do país em transplantes. A mulher que recebeu o transplante é uma jovem de 28 anos, que havia nascido sem útero e tinha o desejo de engravidar. De acordo com o professor titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas, Edmund Chada Baracat, a cirurgia ainda é um procedimento experimental, recomendada a mulheres com ausência congênita de útero­­­ situação que acomete uma em cada 5000 mulheres no mundo, de acordo com pesquisa realizada por médicos e acadêmicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Embora não esteja aberta à população, a cirurgia foi aprovada em todas as instâncias éticas do HC da Faculdade de Medicina e do Conep (Conselho Nacional de Ética e Pesquisa), além de contar com autorização do Ministério da Saúde. Coordenado pela Divisão de Ginecologia do HC, em parceria com a equipe de Transplante Hepático da instituição, o transplante foi um longo procedimento: Baracat contou à reportagem do JC que a equipe permaneceu por mais de dez horas na sala de operação. Diferentemente do ocorrido na Suécia, a doadora do transplante brasileiro foi uma jovem já falecida. Segundo Chada Baracat, a cirurgia segue o mesmo protocolo de compatibilidade que é aplicado a outros órgãos. A pesquisa que levou ao transplante bem-sucedido teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi idealizada para cirurgias em humanas e ovelhas. Já o procedimento humano foi custeado pelo Sis-

“Apesar do útero não ser considerado um órgão vital, como o coração ou fígado, ele é muito importante para a mulher e pode lhe trazer uma satisfação pessoal.”

— Edmund Chada Baracat, professor titular da FMUSP

tema Único de Saúde (SUS) juntamente com o HC. O professor destaca, no entanto, que este é um trabalho delicado e que acaba implicando muitos gastos. “O procedimento é oneroso e indicado em casos específicos”, explica. Formada por mais de dez médicos, a equipe cirúrgica recebeu treinamento por duas semanas na Suécia, onde existe um centro responsável por transplantes de úteros de doadoras vivas que obtiveram resultados positivos. Além disso, os profissionais treinaram em cadáveres e, posteriormente, em ovelhas. Daqui pra frente A paciente, que já estava em acompanhamento psicológico, continuará o tratamento clínico pelo Hospital das Clínicas por mais um ano. Ela também deve receber doses de imunossupressores, a fim de evitar a rejeição do órgão. Questionado sobre as consequências para a vida sexual dela, Dr. Edmund Chada Baracat afirma que não há interferências.

Como existe o risco de rejeição, a partir de agora, a equipe médica acompanhará como será a receptividade do útero transplantado na paciente, para garantir que o órgão tenha condições de receber o embrião. Antes da cirurgia, oito óvulos da jovem foram fecundados e congelados pelo próprio HC, o que possibilita futura fertilização in vitro. Apesar do sucesso da cirurgia, o professor acredita que a permanência definitiva do órgão na mulher deverá ser avaliada ao longo dos próximos meses. A perspectiva é de que o útero seja removido depois de completada a gestação. Sobre o aspecto psicológico, o professor afirma que “o efeito deve ser dos melhores. Afinal, ela terá condições de realizar seu desejo: gestar um filho. Apesar do útero não ser considerado um órgão vital, como um coração ou fígado, ele é importante para a mulher e pode lhe trazer uma satisfação pessoal”. O projeto prevê a realização de três cirurgias, com preferência a mulheres que tenham ausência congênita de útero.

Robô interativo torna aulas mais atrativas VICTÓRIA DE SANTI

O Instituto de Ciências Matemáticas e Computação da USP em São Carlos (ICMC) vem testando o uso de inteligência robótica para auxiliar o ensino de matemática com adolescentes. O simpático robozinho se chama NAO, tem uma página no Facebook (https://www.facebook. com/robonao/) e gerou bons resultados com alunos das redes pública e estadual da cidade. Os testes fazem parte de projetos de pesquisa da faculdade e visam a estimular as atividades em sala de aula. Exemplo desses projetos é o mestrado de Adam Moreira, que utilizou o NAO no ensino de geometria para 62 alunos. Um dos desafios propostos aos estudantes era adivinhar figuras geométricas planas a partir de dicas dadas pelo robô, que reagia aos resultados. Quando o aluno acertava, NAO comemorava levantando os braços e

THIAGO ZANETTI

acendendo luzes de LED em seus olhos. Em caso de erro, a tristeza aparecia em seus olhos vermelhos e a cabeça baixa. A interação foi positiva, e os alunos que tiveram contato com o robô obtiveram resultados melhores que os que não tiveram o contato. Outro projeto, também do ICMC, estudou o rendimento dos estudantes em relação à interação com o robô, programado para ser mais simpático com um grupo do que com o outro. Para o primeiro, ele demonstrava interesse em conhecer o aluno e reagia às respostas certas e erradas, enquanto com o segundo grupo reagia de forma indiferente. Como resultado do projeto, que tem o desafio de envolver as áreas da pedagogia e tecnologia, os estudantes que tiveram contato com o robô interativo se sentiram mais motivados, segundo o doutorando responsável, Daniel Tozadore. Limites da tecnologia O pesquisador e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Cesar Alexandre de Souza, conta que a tecnologia

vem assumindo diversos espaços na área: “a inteligência artificial teve uma evolução grande recentemente com novas aplicações, muitas na educação, para automatizar diversas coisas que são feitas hoje por professores. Universidades americanas estão usando inteligência artificial para corrigir provas dissertativas”, exemplifica. Mas a tecnologia, para Souza, é uma aliada do ensino e não a peça-chave. Como a educação é uma das grandes questões da humanidade, a sua complexidade não pode ser resolvida somente pela inteligência artificial, uma vez que a presença humana é indispensável. “O professor tem que ensinar a postura de entender criticamente a educação, ensinar o aluno a se apropriar dessa informação para aquilo que ele precisa, coisas que não são ensinadas em curso ou vídeo. O professor tem o papel de formar o cidadão”, afirma. E ver a tecnologia como uma solução para a educação, antes de ser uma alternativa, para Souza, é um risco. “O risco da tecnologia é as pessoas acreditarem que é uma solução mágica, achar que a tecnologia vai resolver os problemas essenciais, porque formar as novas gerações é muito mais que só transmitir conhecimento”.


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SEGUNDA QUINZENA | OUTUBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

Projeto ensina ciência através de cultura pop O foco é enriquecer e descomplicar o cotidiano de aprendizado em aulas do fundamental II LARISSA LOPES

NATALIE MAJOLO

Além de proporcionar muita diversão; músicas, brincadeiras, filmes e livros de ficção podem ensinar muito sobre a ciência formal. Desde o ano passado, o projeto Alice (Arte e Lúdico na Investigação em Ciências na Escola), parte do grupo de pesquisas Banca da Ciência, da Escola de Artes, Humanidades e Ciências (EACH), têm se dedicado a utilizar esses elementos da cultura para enriquecer e facilitar o aprendizado nas salas de aula do ensino fundamental II. Com uma quantidade razoável de bolsas de estudo e o interesse de alunos dos mais diversos cursos da EACH, o professor Luís Paulo Piassi é um dos coordenadores do projeto Alice e do projeto Joaninha, voltado para crianças do ensino fundamental I. Juntos, os projetos de extensão oferecem atividades extraclasse para alunos de três escolas da Zona Leste da cidade: EMEF Arquiteto Luís Saia, EE Irmã Annete Marlene Fernandes de Mello e EMEI Jardim Keralux. Segundo o professor, o principal propósito das atividades é trazer uma abordagem mais humana da ciência, ciência como cultura. “Embora haja uma preocupação na aprendizagem do conceito, o nosso objetivo com o projeto é voltado para a questão de compreender o papel da ciência em outros

âmbitos da vida humana, tanto na cultura como na política e na sociedade”, afirma. Para Lívia Delgado, estudante de Gestão de Políticas Públicas e membro do projeto Alice, “a importância dessa aproximação se dá principalmente pela popularização da ciência na educação. Por meio de obras literárias, canções, filmes, entre outros produtos midiáticos, torna-se mais didático e divertido discutir questões relacionadas à ciência”. Questão de gênero Uma questão muito frequente no DNA do projeto é também a questão de gênero. O Alice, nome escolhido em homenagem à personagem de Alice no País das Maravilhas, é estruturado em seis frentes que agraciam mulheres das artes e das ciências. Essas frentes se integram e se revezam na

“Por meio de obras literárias, canções, filmes, entre outros produtos midiáticos, torna-se mais didático e divertido discutir questões relacionadas à ciência” — Lívia Delgado, membro do projeto Alice

organização das dinâmicas e, assim, conseguem abranger as diversas áreas da ciência e usam ferramentas variadas da cultura para o processo de aprendizagem. “Desde que eu ingressei na EACH, nós temos trabalhado com projetos de pós-graduação e de iniciação científica no sentido de trazer elementos a cultura pop para o estudo da ciência. Chegamos, então, nesse desenho que contempla várias possibilidades de objetos e áreas”, conta Piassi. Emma Watson, atriz conhecida por interpretar Hermione na saga Harry Potter e por ser embaixadora da ONU Mulheres, é uma das personalidades homenageadas que conquistou uma frente de atividades, a Emma (Estudos sobre Mulheres e Minorias na Arte-Ciência). Além dela, a cantora Rita Lee ganhou um grupo que usa a

música como instrumento de pesquisa e a escritora Lúcia Machado de Almeida deu origem à frente sobre literatura. Já a comediante Maria de las Nieves (sim, a Chiquinha) encabeça a frente de brincadeiras. Cientistas não poderiam deixar de ser agraciadas: Jacqueline Lyra, engenheira brasileira da Nasa, ganhou um grupo sobre robótica e Dian Fossey, zoóloga norte americana, foi homenageada com uma frente que discute a natureza. A estudante Lívia integra o grupo Emma e nota que as discussões sociais em sala de aula provocam uma mudança no comportamento e no olhar dos pré-adolescentes. “Os alunos do ensino fundamental, principalmente, demonstraram uma clara evolução ao longo das intervenções realizadas, tornando-se mais críticos e participativos”.

Mostra no MAC questiona arte contemporânea Exposição de Gustavo Von Ha critica a autenticidade das obras de grandes nomes modernos

Pollock, Warhol, Klein. Esses são nomes renomados da arte moderna da década de 50. Tidos como vanguardistas, suas obras são consagradas como estilos próprios e originais de cada artista. Mas será que a arte moderna é tão única assim? É essa reflexão que a nova exposição de Gustavo Von Ha desperta. São 34 obras do artista brasileiro expostas no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, incluindo pinturas, objetos, cartazes, documentos e um filme. A mostra, chamada “Inventário: arte outra”, ficará em cartaz até 5 de fevereiro de 2017 no segundo andar do prédio. Até lá, o público pode visitar gratuitamente as obras e compartilhar do questionamento do artista. O visitante e engenheiro, Cláudio Munhoz, de 53 anos, gostou da mostra, “eu gosto quando a arte interage comigo e essa faz isso.”

A exposição começa com diversas pinturas feitas com camadas de tinta tiradas de réplicas de outras obras. Em seguida, o público se depara com telas que imitam as técnicas de respingamento e pintura de Pollock, além de vários objetos supostamente utilizados na produção das obras. Na última sala de exposição, exibe-se um filme fictício, feito pelo próprio Von Ha, que encena um documentário póstumo dele mesmo, se ele fosse um artista da vanguarda dos anos 50. Na mesma linha, diversos cartazes datando das décadas de 30, 40, 50 e 60 anunciam as obras do artista, que só nasceria em 1977. Para a curadora do museu, Ana Magalhães, “é justamente por esse aspecto provocador, de jogar com o autêntico e o falso, a ficção e a realidade, que von Ha é instigante.” Porém, para entender melhor a crítica por trás de todas essas obras expostas de Von Ha,

é preciso entender o contexto da arte moderna. A curadora do museu, Ana Magalhães, explica que o artista “questiona a noção de autoria e autenticidade da obra de arte, e faz isso a partir de um momento preciso da história da arte: a produção artística dos anos 1950, entre o Brasil e os Estados Unidos. Esses são os anos da afirmação de uma pintura de caráter gestual, para a qual reinventa-se, por assim dizer, a noção do artista genial, heróico, cuja ação resulta de uma espécie de intuição.” Deste modo, ao exibir técnicas de reprodução de artistas modernos e ironizar a deificação dessas figuras, Von Ha desconstrói a ideia de obras de vanguarda e provoca reflexão sobre a arte contemporânea. Assim, ao exibir “Inventário: arte outra”, o MAC toma uma reflexão para si mesmo, além de disponibilizá-la para o público. “O trabalho apresentado por Gustavo von Ha interessa

ETHEL RUDNITZKI

ETHEL RUDNITZKI

ao MAC USP na medida em que ele nos lança uma provocação, como instituição artística, como museu de arte contemporânea”, diz Ana. Como parte da USP, o museu também ganha com a mostra “O MAC USP, a meu ver, por ser um museu universitário de arte, é um museu-escola onde a reavaliação da história da arte e da crítica de arte é um imperativo. Acho que as obras do Von Ha nos ajudam nessa reflexão crítica”, finaliza.

Exposição Gustavo Von Ha

Terça a domingo das 10 às 18 horas MAC USP Ibirapuera Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 04094-050 - São Paulo - SP - Brasil (11) 2648.0254 Entrada gratuita


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JORNAL 2016 JORNAL DO DO CAMPUS CAMPUS SEGUNDA SEGUNDAQUINZENA QUINZENA| |OUTUBRO AGOSTO 2016

youtubers uspianos ETHEL RUDNITZKI LARISSA LOPES

Segundo a revista Forbes, o YouTube, plataforma on-line e colaborativa de vídeos criada em 2005 e comprada pelo Google em 2006, ganha mais de 200 milhões de dólares por ano. Todo esse lucro se explica pelo sucesso do site: a cada semana, 1 bilhão de pessoas acessam a plataforma e, a cada minuto que passa, 400 horas de vídeos são postadas lá. Além dos donos do site, os usuários do Youtube também podem ganhar visibilidade e dinheiro com ele. Os chamados youtubers são pessoas ou grupos que postam vídeos regularmente e falam sobre todo e qualquer assunto, criando blogs em vídeos, os canais. O dinheiro nesses canais pode vir através de merchandising nos vídeos ou por meio de parcerias com o Youtube, que funcionam a partir de anúncios que o próprio site coloca nos vídeos. Assim, um canal com 500.000 inscritos, por exemplo, pode ganhar de 6 mil a 50 mil reais por mês. O youtuber mais famoso e mais bem sucedido do Brasil é Whindersson Nunes, comediante piauiense de 21 anos que soma mais de 13 milhões de inscritos em seu canal. Entre os maiores empreendedores brasileiros do Youtube, encontra-se também um ex-aluno da USP: Iberê Thenório, formado em jornalismo pela ECA, apresenta o canal Manual do Mundo que tem quase 7 milhões de inscritos e é o único canal educativo entre os mais vistos pelos jovens brasileiros. Além de Iberê, outros ex-uspianos podem estar no seu histórico de visualizações. Otávio Albuquerque, conhecido como Tavião, é formado em Ciências Sociais pela FFLCH (e seu primeiro emprego foi como monitor da sala pró-aluno do prédio) e divide o canal Rolê Gourmet com PC Siqueira, além de manter seu canal pessoal, Coisas que nunca vivi (ou evitava viver). Atila Iamarino dá voz ao Nerdologia e fez sua graduação e doutorado no Instituto de Biociências. Para o biólogo, a curiosidade de pesquisador o ajuda muito na hora de formular teorias científicas acerca de objetos ficcionais, como a construção da Estrela da Morte e como funcionam as viagens no tempo. Por último, Stephanie Noelle, autora do blog Chez Noelle, também é formada em jornalismo pela ECA e é uma referência em moda no Youtube. Curioso para conhecer a nova geração de estudantes youtubers? O JC foi atrás de pessoas que buscam no site uma maneira de se divertir, publicar conteúdo e até ganhar dinheiro. Conheça alguns youtubers da USP.

REPRODUÇÃO

conheça as histórias dos canais com mais sucesso QminutosQ Os irmãos Francisco e Franco Moro, estudante de Física e mestrando de engenharia do Campus São Carlos respectivamente, participam do canal QMinutosQ (Quantos Minutos Quisermos) junto com mais cinco amigos e acumularam mais de 48 mil inscritos em quase sete anos de produção. Inspirado no programa 15 Minutos, do comediante Marcelo Adnet, o canal foi criado para que os apresentadores pudessem pôr em prática sua veia cômica e observar a repercussão para além do círculo familiar. A paixão pelo teatro e a criatividade para fazer paródias foram amadurecendo e hoje já faz um ano que o QMinutosQ lança vídeos semanalmente. “Cada vídeo passa pelo processo de ter a ideia, desenvolvê-la, escrever o roteiro, gravar, editar, avaliar e postar. É bastante trabalhoso e ocupa nossos finais de semana e feriados. Lucrar com isso seria um ótimo incentivo a continuar produzindo conteúdo”, conta Francisco, que alerta os jovens youtubers ambiciosos: “Quem começa um canal pensando em ganhar dinheiro pode se decepcionar facilmente”.

IFSC e EESC • Inscritos: +48k • Vídeo mais visto: Desafios de Bar com Everson Zoio

Tempero Drag A cada semana um prato diferente, mas a personagem sempre a mesma. O canal do ator e estudante de letras Guilherme Terreri Pereira, ou melhor, de Rita Von Hunty, mistura uma performance drag queen, entrevista e aula de culinária a cada vídeo. O canal foi inaugurado no ano passado em um evento para fãs de Rita e já soma 18 mil inscritos. “O Tempero Drag tem um pouco do Mais Você, do Programa da Palmirinha, do programa da Julie Child e, é claro, existe uma veia autoral e muito humor nonsense da crítica de costumes”, explica Guilherme. Como muitos shows de televisão (ou Youtube) fazem, apenas receitas veganas entram no vlog, porque Rita segue essa dieta rigidamente. Outra diferença é a personalidade da youtuber, uma drag queen com atuação profissional e única: Rita é uma dona de casa com 16 filhos, casada, com excelente talento para COzinhar (com O, ela enfatiza) e sem papas na língua. De acordo com Guilherme, para levar à frente um canal “é importante ter em mente qual é a frequência que os vídeos serão postados. Apesar da liberdade da internet, o público ainda tem uma reminiscência da lógica da TV”.

FFLCH • Inscritos: +18k • Vídeo mais visto: Please don’t stop the mousse

Minha vida literária Quando Aione Simões começou se aventurar no youtube, ela já tinha uma boa ideia de como é lidar com a blogosfera. A base de leitores da autora do blog Minha Vida Literária começou a migrar rapidamente para o canal do Youtube, e hoje Aione o considera muito mais conhecido do que o blog que lhe deu origem. “O número de pessoas que me acompanham é muito maior hoje em dia, e o vínculo entre nós se fortificou. Os vídeos aproximam as pessoas de nós [youtubers], e elas acabam criando laços afetivos justamente por nos acompanharem. É muito bacana e gratificante receber o carinho dos leitores”, conta a estudante de Letras. Com a mudança de plataforma, o projeto pessoal agora demanda muito mais tempo e planejamento até chegar aos seguidores de Aione, e o canal no Youtube disputa atenção com a graduação. Inevitavelmente, a estudante resenha e comenta algumas leituras da faculdade, que despertam o interesse de muitos vestibulandos que querem cursar Letras. Para Aione, o Minha Vida Literária foi fundamental para escolher sua atual carreira. A estudante estava cursando o último ano de Nutrição quando decidiu que faria Letras, assim que possível, por seu amor à literatura. “Se não fosse o Minha Vida Literária, talvez eu não estivesse aqui hoje.”

FFLCH • Inscritos: +15k • Vídeo mais visto: BookShelf Tour - Parte 1

Matemaníaca ”Oi, bonitos”; é assim que Júlia Jaccoud inicia seus vídeos em seu canal “A Matemaníaca”. Lá, ela fala de educação e, em especial, de matemática, sua paixão e seu curso na USP. Para ela, o Youtube ajuda em seu sonho de fundar uma escola: “Acredito que é uma plataforma que pode democratizar a educação”. O canal começou em 2014 por um desejo de Júlia de continuar em contato com seus alunos de estágio do Instituto de Matemática e Estatística (IME). Ela não conhecia o potencial da plataforma, só possuía uma câmera e noções básicas de fotografia. Hoje, ela tem mais de 11 mil inscritos em seu canal, ganhando até dinheiro com merchandising e monetização de vídeos. Porém, números não importam para ela: “Um comentário falando ‘você me ajudou’ já é o pagamento do mês.” Apesar do impulso inicial, ser aluna da USP não ajudou muito a Matemaníaca. “O IME é muito ciumento e quer todo o nosso tempo, então é difícil ter tempo para o Youtube”, brinca. Além dessa dificuldade, ela enfrentou quase um ano com menos de mil inscritos, por isso ela aconselha aos novatos na plataforma “Só vai! Não pare de fazer conteúdo.”

IME • Inscritos: +11k • Vídeo mais visto: Como é ser Engenheiro Mecânico ARTE: ANDRÉ CALDEROLLI


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OPINIÃO

SEGUNDA QUINZENA | SETEMBRO 2016 JORNAL DO CAMPUS

TEXTO: LIZ DÓREA ILUSTRAÇÃO: NATALIE MAJOLO

Mamãe, dentre outros segredos, já foi pedagoga. Nunca falou palavra sobre a faculdade. Provavelmente, suspeito, porque aprendeu o que é ensinar sujando as botas no barro da vida concreta. Minha mãe é filha da multidão, amante do céu aberto, gente com gente demais dentro de si. É como existência que não sacia e precisa sentir o calor que só um sussurro no pé do ouvido abrasa. Por isso, não me espanto que tenha largado os artigos acadêmicos e metido o corpo no mundo. Mas mesmo a alma mais braba sentiria as pernas bambearem diante dum quadro negro cravado numa parede de pau-a-pique, empesteado pelas partículas de areia cuspidas pelo chão batido. Ainda assim, no miolo do agreste baiano, onde deus parece ter se esquecido das vidas que ali pelejavam pra sobreviver, minha mãe acreditava, até a medula dos ossos, no tento de ensinar. Talvez educação seja ainda sua razão de estar no mundo. Mas quando a maior dúvida dum estudante é saber se vai ter o que comer na janta, educador nenhum tem o privilégio de arrebitar o nariz. Tampouco força, menos ainda recurso. Numa escola agrária dum município paupérrimo, quem prepara a aula é a pedagogia da miséria. A pedagogia da violência doméstica; do alcoolismo, do trauma, da fome. Então, a professora baixa a cabeça e olha com respeito pr’aquele corpo desnutrido e guerreiro,

porque dar vida à educação onde a própria vida é um fiapo dói. E nunca deixou de doer. Amanhã, se a memória cair nos pensamentos de mamãe, aposto a alma que seus olhos vão aguar. Não à toa, tive donde puxar o hábito do choro incontido. Mas, assim como eu, ela reconheceu que seus ombros não suportariam o mundo. E não suportaram. A escola do sertão virou memória política e eu zarpei de casa pra estudar em São Paulo. Alguns anos galoparam desde lá. Mas nunca vou me esquecer do que ela ainda me disse antes de partir: empatia, Lica. Aquelas crianças iam pra escola pela merenda. Escola era pra sobreviver. E eu, gozando de toda a condição material do mundo, fui embora, com a garganta seca de engolir. Diante de mim, desterrada e pequena, a Universidade. Sentei em suas cadeiras (que em minha utopia Hollywoodiana seriam poltronas num anfiteatro) e esperei o momento de olhar nos olhos daqueles homens e daquelas mulheres que galgaram o professorado na mais abastada instituição de ensino da

América Latina. O instante não chegou. No fim do segundo ano de graduação, não espero mais. Já sigo feito uma lâmpada queimada: de olhar defunto e com a consciência de que ninguém, lá do alto do ofício, percebeu que um dia ele cintilou. Daí, daquele ano em diante, me fiz apática e impenetrável tal qual todos os excelentíssimos professores doutores defronte de mim. Não levem a mal meu instinto; mas é que sobrevivo num regime de redução de danos. Foi preciso descolar meu peito do corpo pra não espumar. Pra não endoidecer com a total ausência de sentimento da educação universitária. Eu, você e eles. Nada, senão, caixas-pretas assertivas, com grande potencial de armazenamento. Poderia ser diferente? Estou exigindo demais? Não, não quero que saiba meu nome, professor. Quero que me olhe nos

olhos. Quero que me enxergue como mulher, de carne, osso, paixão, dor e história. Quero que me escute declamar Cecília. Percebo seu rosto triste e magro, seu lábio amargo, suas retinas vazias e indago: em que espelho ficou perdida a sua face? Eu me interesso pela resposta. Porque todos temos dias ruins. Dias pra querer atear fogo no mundo ou dormir por dois anos. Então, me perdoe, mas às vezes o insight genial dum filósofo do século passado cujo nome não sei pronunciar pouco me emociona naquele momento. Lá fora, pr’além das paredes anêmicas da sala de aula, existe uma vida, real e honesta, pra me ou-

riçar os pelos. precisamos, nós, ombro a ombro, acolher o arrepio. Aprender a deixar o sangue quente pulsar. Deixar que escorra pelos poros, que inunde a boca, que salte aos olhos. Deixar sentir. E entender que, eu e você, podemos sangrar. Empatia é isso, diria mamãe. Mas quem sou eu pra lhes ensinar alguma coisa? Deixo essa tarefa pra vida. Por enquanto, isso aqui é só mais uma opinião apaixonada, professor. Nada, senão, a confissão melancólica de quem descobriu, ainda na fibra da infância, que empatia não acha lugar nem no peito, quem dirá num Lattes.

Jornal do Campus Ed. 464  
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