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UNIVERSIDADE

JORNAL DO CAMPUS SEGUNDA QUINZENA | MARÇO 2019

CAMPUS

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JORNAL DO

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ANO 37 – Nº 502 PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 Produzido por alunos de Jornalismo da ECA-USP

LUIZA FERNANDES

UNIVERSIDADE

Com os últimos cortes, ciência brasileira corre risco de amputação total

EM PAUTA

Retrocesso de 50 anos 2019 ou 1969: Liberação seletiva de verbas para produções audiovisuais gera acusações de censura p.14

p.8

CULTURA

Exposição Ocupação relembra trajetória de

Vladimir Herzog p.15

UNIVERSIDADE

TV USP, uma autocensura

Sem devida conservação, acervo e equipamentos da TV USP perecem largados em sala da Rádio p.6

Nesta Edição: Suplemento claro!

p.15


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DIÁLOGOS

PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

OMBUDSMAN

Texto e imagem: espaços de ação DULCILIA BUITONI

EDITORIAL

O que nos liberta? PEDRO FORMIGA

CHARGE

SIGA E PARTICIPE!

Sabe-se que a ciência gera lucros e soberania. No primeiro caso, pode-se inserir toda a indústria de bens de consumo, enriquecimento de matérias-primas e afins. Esse conhecimento é o que separa, por exemplo, os países que vendem um minério escavado à custa de vidas e rios daqueles vendem o aço pronto, e ganham muito em cima disso. No segundo, há as tecnologias de defesa e inteligência, sabedoria estratégica para que o Estado esteja à frente de seus concorrentes na corrida política global. É simplesmente impossível que um país seja grande e forte sem gerar conhecimento. Por seu papel edificante e fortalecedor, não há quem venda-o sem cobrar caro, numa conta que será necessariamente desfavorável para o comprador. Cientes disso, todas as potências globais perceberam que o caminho é conhecimento dentro de casa, com pesquisadores comprometidos com sua pátria e orientados para a solução de problemas específicos de cada local. Acima de partidos e lados, um verdadeiro patriota saberia que não há um Brasil grande sem educação forte. Saberia que é impossível que grupos estrangeiros tenham interesse em controlar nossas riquezas para o nosso bem, em primeiro lugar. Saberia, sobretudo, que só nós amamos do Oiapoque ao Chuí o suficiente para dedicarmo-nos por horas, recebendo escassas bolsas, em busca de resolver os inúmeros problemas de casa. Patriotas, se vocês amam tanto o Brasil, e ele está acima de tudo, por que não seguir o que, sabidamente, é melhor para a nação? Qual o sentido da educação não ser prioridade plena na rota de nossas pretensões? Se os brasileiros não puderem criar progresso para o Brasil, quem criará?

Primeiro, o reencontro com o jornal que acompanho desde seu início; nos últimos tempos mais esporadicamente. Sempre que passava no CJE, pegava um exemplar, curiosa de saber como andava o jornal laboratório; havia também o gosto de manusear as folhas impressas. Fiquei contente com o que vi. Bastante consistência, boa variedade de conteúdo, matérias antenadas às nossas angústias atuais. Vou escrever um parágrafo inspirado no mexicano Carlos Fuentes em A morte de Artemio Cruz (um de seus mais belos romances, ponto alto das aulas de Literatura hispano-americana de Eduardo Peñuela para a primeira turma de Jornalismo da ECA): Ambiental: desintegração: resíduos: divergências: obscurantismo: educação: barreira: retorno: permanência: encolhimento: contestação: desmatamento: reciclável: transgênico: polícia: variação: alimentação: coletivo: desigualdade: biblioteca: emocional: ingresso: confiança. Palavras que indicam caminhos e descaminhos. Examinei apenas essa edição; não comparei com nenhuma outra. Impressionada com o esforço para cobrir o micro e o macro, faço algumas observações. Desejo ainda dialogar pessoalmente com seus editores e repórteres. Questões fundamentais para a vida emergem: a educação como eixo, destruição ambiental, soja e não reciclagem de copos plásticos, contratação de professores, violência na universidade, sarampo, esportes. Eu gostaria de ter visto mais cultura. O JC apresenta temáticas que deveriam estar presentes em quase todas as edições: educação, desigualdade, meio ambiente, violência, saúde. Os textos ganhariam se tivessem intertítulos, capitulares, quadros com resumos ou explicações; os títulos são um tanto longos. O design gráfico é bastante convencional; apesar de informativos, alguns infográficos estão muito pequenos. Finalmente, o meu foco nas imagens: fotos apenas identificatórias, sem alcançar uma dimensão de fotojornalismo. Vivemos na era da cultura visual. Precisamos explorar mais sentidos para a visualidade jornalística.

Dulcilia Buitoni, jornalista, pesquisadora e ex-professora da ECA

/jornaldocampus

JORNAL DO CAMPUS – Nº 502 – TIRAGEM: 8 MIL EXEMPLARES Universidade de São Paulo – Reitor: Vahan Agopyan. Vice-Reitor: Antonio Carlos Hernandes. Escola de Comunicações e Artes – Diretor: Eduardo Monteiro. Vice-Diretora: Brasilina Passarelli. Departamento de Jornalismo e Editoração – Chefe: André Chaves de Melo Silva. Chefe Suplente: Dennis de Oliveira. Professores responsáveis: Marcos Zibordi, Luciano Guimarães e Wagner Souza e Silva. Estagiário PAE: Gustavo Longo. Redação - Secretário de Redação: Eduardo Passos. Editor de Arte: Marcelo Canquerino. Ilustradoras: Lígia de Castro, Beatriz Cristina, Pedro Formiga, Yuyu. Editora de Fotografia: Thaislane Xavier. Fotógrafos: Maria Eduarda Nogueira, Carolina Fioratti, Marcelo Canquerino, Crisley Santana. Editora Online: Thaislane Xavier. Entrevista - Editor: Beatriz Cristina. Repórter: Guilherme Roque. Universidade - Editores: Lígia de Castro, Ligia Andrade, Marcus de Rosa. Repórteres: Gabriel Aaújo, Ligia Andrade, Beatriz Sayuri, Diego Bandeira, Crisley Santana, Christian Villaverde, Amanda Capuano, Larissa Silva, Carolina Fioratti, André Netto, João Vitor Ferreira. Em Pauta - Editora: Mariah Lollato. Repórter: Marcelo Canquerino. Cultura - Editora: Giovanna Stael. Repórteres: Daniel Terra, João Gabriel Batista, Ana Gabriela Zangari Dompieri, Beatriz Cristina. Esporte - Editor: Laura Scofield. Repórteres: Eduardo Passos, Pedro Smith. Ciência - Editora: Isabella Velleda. Repórteres: João Pedro Malar Massa, Carolina Fioratti, Caio Rodrigues. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 433, bloco A, sala 19, Cidade Universitária, São Paulo, SP, CEP 05508-900. Telefone: (11) 3091-4211. Fax: (11) 3814-1324. Impressão: Gráfica Atlântica. O Jornal do Campus é produzido pelos alunos do 4° semestre do curso de Jornalismo (matutino), como parte das disciplinas Laboratório de Jornalismo: Jornal do Campus e Laboratório de Fotojornalismo.


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JORNAL DO CAMPUS PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 Na Veterinária da USP...

Com licença, podemos deixar alguns JCs aqui?

Claro!

Vou deixar isso Não aqui rapidinho, pode, ok? não!

Desculpa,

mas não pode

C CUA I IDA DES D MEU D SA SA RDMEA RDA EN ES ENTÃTO!!Ã ! O !!!

É rapidinho, eu já volto

Crônicas da Veterinária

Que cara maluco...

Vamos ver se o guarda

Uma vez, amarraram um cachorro no banheiro, e ninguém sabia do dono...

entendeu o que rolou

Isso acontece sempre? Vish, não é de agora não

Isso já é normal por aqui

AU!

AU!

AU!

Já deixaram até cobra!

É um É um GAMBÁ!! GAMBÁ!! E o que vão fazer com esse bicho?

Ahhh...., a gente joga ele no mato aí da frente...

Na volta da Veterinária... Com certeza vamos pautar isso pro

ROTEIRO: MARCUS DE ROSA ILUSTRAÇÃO: LÍGIA DE CASTRO REPÓRTERES: CAROLINA FIORATTI GABRIEL ARAÚJO LIGIA ANDRADE

JC

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PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

PROCURA-SE! Um lugar para estudar na USP

Um depoimento de São Carlos Outro morador do Crusp, Gustavo Augusto dos Santos, também se queixa dos poucos lugares para estudar aos fins de semana. Estudante de Ciências Atuariais, ele conta que a FEA (Faculdade de Economia e Administração) não foi a primeira unidade que o abrigou como aluno da USP. “Eu fazia Matemática na USP de São Carlos, e lá me sentia mais motivado a estudar, porque podíamos usar todas as salas aos fins de semana, 24 horas. Já virei noites com amigos estudando. Onde

Saúde s Horário de unidades CRISLEY SANTANA CHRISTIAN VILLAVERDE

daria para fazer isso na Cidade Universitária?”, questiona. Como alternativa, ele costuma sentar nos bancos do Instituto de Geociências (IGc), ainda que não seja um local adequado para estudar. Entre todas as alternativas que a USP oferece aos seus universitários, a sala de estudos do Bloco A do Instituto de Matemática e Estatística (IME) é a única que fica aberta 24 horas. Mudanças nas normas de acesso ao local poderiam causar um grande transtorno para seus frequentadores. Acesso restrito? No último sábado de agosto, dia 24, funcionários barraram a entrada de alunos que não possuíam vínculo com o IME na sala de estudos. O motivo dessa decisão, na opinião de alguns estudantes, eram os casos de vandalismos nos banheiros. De acordo com a Assistente Administrativa do instituto, Gislaine Lima, ocorreram casos de vandalismo, mas eles não teriam sido os causadores da restrição. No dia 22 de agosto houve uma tentativa de furto em sete salas do Bloco B, episódio que afetou a rotina do local. “No dia 24 estava acontecendo

um evento no Bloco B com mais de 200 pessoas. Contratamos mais seguranças e fechamos o Bloco A.” Os acessos voltaram a ser liberados. Durante a semana, quem não é aluno do IME pode entrar até às 23h. Aos finais de semana, até às 22h - porém, Gislaine afirma que quem estiver no local após esse horário pode permanecer. Afinal, a sala funciona 24 horas.

Unidade Básica de Assistência à Saúde (Ubas) Leste oferece serviços odontológico, psicológico e de enfermagem

ca

Dia 15 de agosto de 2019, oito horas da noite: um grupo de cerca de dez homens armados invade o campus da USP de Lorena, rende e amarra alguns seguranças e furta objetos de salas de aula e laboratórios da Universidade. A ação durou cerca de quatro horas e não deixou feridos. Segundo o relato de alguns alunos, os assaltantes também roubaram pertences de entidades estudantis e danificaram seus LARISSA SILVA

“Quando está quente, não aparecem muitas pessoas; quando está frio, vem mais”, disse o funcionário enquanto olhava os nomes escritos no caderno de acesso à sala de estudos, localizada no Bloco G do Crusp. Antes de escolher um número, pergunto: “é verdade que a internet é melhor aqui?.” Risos. “Internet no Crusp é bem complicada.” Após entrar em uma das quatro pequenas salas, é fácil entender quais motivos tornam aquele lugar pouco procurado em dias de altas temperaturas. Além de algumas mesas, cadeiras e tomadas, não há ventiladores, só as janelas. Miguel do Ó, morador do Crusp, além de utilizar a sala de estudos, também frequenta o Bloco B, onde encontra-se o laboratório de informática do programa Pró-Aluno. No entanto, a “internet é que nem um irmão mais novo: tem dia que ele tá de boa e tem dia que ele tá atentado.” A terceira opção de um possível lugar para estudar é próxima ao Cinusp: os usuários da rede de wi-fi “craconet” ficam distribuídos pelos arredores, faça chuva ou faça sol. Contudo, não é fácil manter a concentração com tantas pessoas transitando ao redor.

Assalto ocorrido no DIEGO BANDEIRA

Nos finais de semana fica difícil encontrar um local adequado para estudo no campus, sobretudo para os moradores do Crusp CRISLEY SANTANA LARISSA SILVA

Mãos a

Na USP, todos os campi possuem alguma área de saúde destinada a atender os estudantes, tanto física quanto mentalmente. Na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), localizada na Zona Leste de São Paulo, não é diferente. A Unidade Básica de Assistência à Saúde (Ubas) Leste, é o local em que os alunos podem receber tratamento psicológico, odontológico e de enfermagem. Mas há problemas. As Ubas da USP ficam localizadas nos campi do interior. Assim como as outras unidades, a Ubas Leste possui um horário de

de


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JORNAL DO CAMPUS PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019

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s ao alto, Lorena!

no

campus escancarou o problema cotidiano de quem frequenta a unidade espaços. Uma investigação mais detalhada está sendo feita pela Superintendência de Prevenção e Proteção Universitária – órgão responsável pela segurança da USP – em conjunto com a Polícia Civil, para averiguar o que foi roubado, calcular o prejuízo e descobrir os criminosos envolvidos na ação. Um assalto dessas proporções dentro do campus universitário é incomum, por isso o episódio foi um alerta para a falta de segurança que os alunos da USP de Lorena vêm enfrentando.

Vítimas De acordo com Thiago Guimarães Lopes, que estuda na Escola de Engenharia de Lorena (EEL) desde 2016, a maioria dos estudantes da região vive com medo da violência, principalmente para ir às aulas e voltar para casa. “Fora da faculdade o medo e o terror são mais que comuns, ainda mais porque quase não há policiais em Lorena fora da praça principal”, explica Thiago. Ele foi assaltado na cidade e conhecidos passaram pelas mesmas experiências.

Grazielle Almeida, que estuda na EEL há menos de um ano, confirma que assaltos ocorrem com frequência na cidade e que, dentre as pessoas que já sofreram com tentativas de roubo, ela é só mais uma. A estudante diz que o trajeto entre sua casa e a universidade é preocupante e perigoso. “Não tenho coragem de fazer esse trajeto a pé ou de bicicleta, é impossível. Tem que passar por algumas áreas muito precárias”, explica a aluna. “À noite também é muito perigoso,

tenho medo de andar 500 me- na é promover, através de parcetros para chegar em casa”. ria, maior aproximação entre USP, PM e GCM para ações integradas e Medidas A USP de Lorena vem ações preventivas eficazes. buscando parcerias para aumenEnquanto as novas medidas tar a segurança de seus alunos. O não entram em vigor, a alternaPrefeito do campus, Carlos Alber- tiva são caronas solidárias. “Elas to Santos, se reuniu com o secretá- são oferecidas por alunos ou prorio de Segurança Pública do Muni- fessores que têm carro. Existem cípio, major Carlos Lescura, e com pontos no centro da cidade para o tenente-coronel Lessa, da Polícia isso e, conforme os carros passam, Militar (PM), para discutirem for- vão oferecendo carona”, conta mas de enfrentar o problema. Grazielle. Thiago diz que outra O objetivo da direção da USP e alternativa é o Uber, que passou da prefeitura do campus de Lore- a funcionar neste ano em Lorena.

e só em horário comercial

es

de saúde básica da EACH segue padrão das outras Ubas da USP funcionamento das 8 às 17 horas, o que tem impedido os alunos do período noturno de utilizem os serviços oferecidos. É o que nos relata a aluna de Lazer e Turismo, Mila Caliento. Estudante do período noturno, ela nunca conseguiu utilizar os serviços da Ubas. “Não consegui ser vacinada pela campanha de vacinação contra sarampo que teve aqui e nem quando ofereceram contra H1N1, ainda que tenha sido até às 19 horas. Quando cheguei, já estava fechado”. Renata, chefe de sessão da Ubas Leste, relatou que o período de funcionamento foi maior há alguns anos, mas depois pas-

sou a funcionar no horário atual para seguir o padrão das outras unidades. “Dado o caráter ambulatorial e não de emergência, entendemos que não é preciso funcionar no período completo. Se a pessoa quiser uma assistência médica, de fato, precisa recorrer aos bairros próximos”. “A diferença é que no campus central, pela urbanização do território, seria mais fácil encontrar serviço de saúde; porque aqui estamos em uma região menos urbanizada. Mas há instituições de saúde que não estão tão distantes assim”, acrescenta Renata. Procuramos entender com a Superintendência de Saúde da

USP se há alguma possibilidade de ampliação do horário de funcionamento da Unidade de Saúde. “Na época que funcionava até mais tarde, a Ubas não era gerida pela Superintendência e havia um funcionário, técnico de enfermagem, que cuidava da unidade até aquele horário. Ele faleceu e não houve reposição”, conta João José Garcia Filho, Assistente Técnico de Direção do Departamento de Assistência à Saúde. “Além disso, como não há médicos na unidade, só o técnico de enfermagem não pode realizar procedimentos, então não há sentido ampliar o horário de funcionamento, também porque

todos os serviços são realizados com consultas agendadas. A Ubas é estritamente ambulatorial”, explica João, mencionando também que houve tentativas de contratar médicos. A localização da EACH, teria sido o motivo para os profissionais não aderirem ao edital. Ainda que não haja perspectiva de mudança na Ubas Leste, a Superintendência de Saúde relatou estar em processo de negociação com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de uma base do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) na EACH. Não há data prevista para instalação do serviço.

CHRISTIAN VILLAVERDE


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PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

Quem te viu, quem TV USP JC encontra parte do acervo em salas da Rádio USP que servem de depósito, sem as condições mínimas de conservação ANDRÉ NETTO JOÃO VITOR FERREIRA

ANDRÉ NETTO

A USP possui diversos meios de comunicação que buscam levar o conhecimento produzido na universidade para a sociedade. A partir daí, surgiram veículos como a Rádio USP, o Jornal da USP, a Agência USP e a TV USP. Com o passar do tempo, a situação se tornou financeiramente insustentável. O resultado disso foi uma fusão ao redor do Jornal da USP, que resultou no fim da Agência USP em 2016 e em uma redução expressiva da TV USP, que perdeu funcionários e equipamentos. Todo o acervo do canal, contendo centenas de programas produzidos ao longo de décadas, está esquecido e inacessível. O Superintendente da Secretaria de Comunicação Social da USP (SCS), Luiz Roberto Serrano, conta que a TV USP foi desativada durante a transição para o meio digital, e que aos poucos a programação está retornando. “Na verdade nós repusemos em funcionamento. Não achamos necessário fazer

uma transmissão como era antigamente, na televisão. Nós achamos que o Youtube hoje é o canal que dá mais vazão em vídeo, então a TV USP está voltando ao ar via Youtube”, explicou. Onde estão? Quando se imagina um acervo de um órgão como a TV USP, espera-se que toda a produção esteja organizada e sob os devidos cuidados para sua preservação. Porém, o que temos são duas pequenas salas repletas de caixas de papelão empilhadas e alguns equipamentos. As duas salinhas ficam no prédio onde atualmente funciona a Rádio USP. O local funciona como um depósito, e não é apropriado para armazenar o acervo. As fitas contendo os programas e documentários filmados pela extinta TV estão todas empilhadas umas sobre as outras. No mesmo ambiente também se encontram monitores e equipamentos de iluminação, sem possibilidade de identificar se ainda teriam alguma serventia.

George Campos, Web Developer da SCS confirma que o acervo está nas caixas armazenadas no prédio da Rádio USP. Campos também apontou para a importância de digitalizar o acervo, tanto pela preservação do material, quanto pelo conteúdo guardado nas fitas. Para ele, “assim como parte da produção do que foi feito pelo Jornal da USP está em livros impressos guardados, seria importante ter a digitalização de tudo, mas isso precisaria ser um projeto”. Djalma Ferreira, ex-funcionário da TV, disse que desde o seu desligamento, há cinco anos atrás o material está sendo guardado dessa maneira. O técnico também lembrou de um projeto anterior de digitalização do acervo enquanto trabalhava la´, mas que a ideia foi descartada.. Djalma não acredita que as fitas possam ser recuperadas. Devido ao estado de conservação, ele supõe que os materiais devem estar embolorados. Os equipamentos Em uma das duas salas da Rádio USP que contém o acervo, há também vários equipamentos como monitores, peças de televisões e tripés que estão largados no recinto. Eles não foram reaproveitados pela própria SCS e, atualmente estão obsoletos, mas poderiam ter sido utilizados por outros institutos logo que a TV USP foi desativada. Campos explicou que alguns equipamentos foram doados no início

“Ainda não é o local ideal, a gente gostaria de ter um projeto de digitalização, mas ainda não temos condições para fazer esse tipo de serviço. Parte deste conteúdo está em fitas e precisa ser digitalizado e tratado para que seja disponibilizado, e a gente ainda não recursos nem mão de obra, é bem complicado”.

— George Campos

Acervo da extinta TV USP, em depósito impróprio no prédio da Rádio USP

do ano para a ECA, depois de um longo período sem nenhuma utilização. Ainda assim, uma boa parte segue sem ser aproveitada ou sem ter o descarte adequado. “Se houvesse um interesse de alguém na universidade a gente faria a doação numa boa. Nós mesmos já fomos até o descarte de equipamento tecnológico fazer doações”, disse. Márcia Blasques, assistente técnica de direção do Jornal da USP, informou que parte do material em vídeo está inscrito no PRONAC ( Programa Nacional de Apoio à Cultura). As fitas são do programa Trajetória, que contam a história de vida de professores, e já existe uma empresa interessada em fazer a restauração desse material, esperando apenas a aprovação do projeto. Como deveria ser Para fazer uma comparação, visitamos o acervo de fitas cassete da biblioteca da ECA. O que encontramos foi um cenário completamente diferente: todo o material estava devidamente organizado em prateleiras metálicas, com as fitas na vertical e rebobinadas. A sala, embora pequena, possui ar condicionado e desumidificador, para evitar que fungos se propaguem pelas fitas. Como citamos, o material da TV, ao invés de prateleiras, está em caixas; a sala não possui desumidificador e o único equipamento encontrado que preenche os requisitos mínimos foi um aparelho de ar condicionado.


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jornal do campus PRIMEIRA quinzena | SETEMBRO 2019

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O bom filho à casa torna.. e doa Poli, FEA, Faculdade de Direito e outras unidades têm projetos financiados por ex-alunos amanda capuano

Desde o início do ano, o congelamento da verba destinada à educação pública tem sido pauta constante no noticiário. Em um cenário em que estudantes e pesquisadores são deixados à própria sorte pelo governo, o amparo financeiro de ex-alunos pode ser uma alternativa de socorro aos desassistidos. Lançado em 2013, o Fundo Patrimonial Amigos da Poli surgiu com o intuito de apoiar projetos de estudantes e docentes da Escola Politécnica. Desde então, financiou 113 iniciativas e soma R$ 2,9 milhões em assistência financeira. A instituição abre um edital por ano e atende projetos baseados em quatro pilares: inovação, contribuição para a formação, impacto na comunidade e sua continuidade. A seleção é feita em duas fases – a primeira, realizada online, e a outra, por meio de uma banca avaliadora. Ambas têm como base os critérios pré-estabelecidos.

O aluno Cauê Muriano foi assistido pela iniciativa em 2013, em um projeto da ThundeRatz, equipe de robótica da Poli. O apoio se repetiu em 2014, com um investimento de 30 mil para o desenvolvimento de um robô de combate – o Apolkalipse. Dois anos depois, o projeto deu à equipe o título do campeonato mundial da RoboGames, maior competição de robótica do mundo. Desde então, o jovem se dedica como voluntário, e não pretende desligar-se depois de formado – quer que outros estudantes desfrutem de oportunidades como a dele. Iniciativa semelhante está em formação na FEA, que acumula R$ 717.316 em seu Fundo. Segundo a assessoria, o primeiro edital será aberto em 2020. A ideia é utilizar os rendimentos da aplicação para financiar projetos de ensino e pesquisa. O aporte pode ser feito por pessoas físicas em forma de doações, ou por pessoas jurídicas, com patrocínio. Outra modalidade de auxílio são órgãos como o Arcadas, a

Fundo banca reformas na SANFRAN A Faculdade de Direito da Universidade passa atualmente por uma série de reformas. A primeira, no porão da faculdade, espaço de convivência dos alunos que sofreu um princípio de incêndio no início do ano. Além disso, busca-se conseguir aprovação e apoio da Prefeitura para a revitalização do entorno da faculdade. Duas outras reformas buscam outros tipos de financiamento para serem realizadas: no

caso do reparo na Sala dos Estudantes, local histórico que conectava a faculdade com o porão como rota de fuga na época da ditadura, utiliza recursos da Associação dos Antigos Alunos. Já a diretoria da Casa do Estudante, que recebe graduandos de fora da capital sem condições de custear moradia, busca autorização para utilizar verba do Fundo do XI - fundo de investimentos que tem como acionista o Centro Acadêmico XI de Agosto – para parte da reforma do prédio.

Associação de Antigos Alunos da Faculdade de Direito. Neste ano, a instituição liberou verbas para a reforma da Sala dos Estudantes, local simbólico por ser palco da luta estudantil em momentos históricos, como a resistência à ditadura. “Essa sala é especial

porque é a única que os próprios alunos tomam conta por intermédio do centro acadêmico”, conta Mateus Fraga, membro do C.A XI de Agosto. O aluno ainda completa: “Em uma conjuntura de retirada de espaços estudantis, isso é bem interessante.”

Beatriz crivelari

Reforma tributária mal começou e já preocupa universidades de São Paulo maria eduarda nogueira

Tramitação do projeto começa e instituições alertam para possíveis mudanças no ICMS

O ICMS e as universidades O ICMS representa 80% do orçamento do Estado de São Paulo

2,1958% Unicamp

9,57% vai para as universidades estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) na proporção verificada ao lado

2,3447% Unesp

5,0295% USP Esse valor representou, em 2018, 97,8% do orçamento da USP

Fontes: Jornal da USP; Lei de Diretrizes Orçamentárias 2020; Folha de S.Paulo, Secretaria da Fazenda

gabriel araújo

Os orçamentos das universidades estaduais paulistas hoje dependem quase que completamente de quatro letras: ICMS. 9,57% do valor arrecadado anualmente pelo Estado com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços é repassado para USP, Unesp e Unicamp. Mas o cenário pode mudar: com as propostas de reforma tributária em discussão no Congresso, o ICMS pode ser amplamente modificado, por isso o tema acende um sinal de alerta nas universidades. Os dois projetos debatidos atualmente em Brasília extinguem o ICMS e o somam a um Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Seria um tributo único, que aglutinaria taxas federais (como Pis, Cofins, IPI), estaduais (ICMS) e municipais (ISS). Uma das propostas é do ex-deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), assumida pelo presidente

do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); a outra, do economista Bernard Appy, abraçada pelo deputado Baleia Rossi (MDB-SP). As discussões são iniciais, e o governo federal ainda promete um projeto para chamar de seu. A federalização do ICMS, porém, chama a atenção exatamente por sua sensibilidade – o tributo é a principal fonte de receita dos Estados. Não à toa, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou que “uma reforma tributária sem mexer no ICMS não é eficaz”. “Não tenho ouvido ninguém comentar sobre as consequências diretas que essas propostas podem ter”, alerta o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, em entrevista ao Jornal do Campus. Ele acrescenta que é importante que os parlamentares conheçam as consequências diretas e, além disso, que se pense em como ficarão os repasses às universidades se o ICMS for extinto ou modificado.

“Ainda depende de muitas discussões”, disse Knobel. “Por isso, acho que a gente está ainda em tempo de poder discutir, comentar, influenciar e mostrar para os deputados a importância das universidades públicas e o quanto qualquer reforma vai ter um impacto.” Assim como o reitor da Unicamp, o próprio Estado de São Paulo ainda aguarda os desdobramentos das discussões. “Quando me perguntam qual vai ser o impacto da reforma tributária, eu não sei. Nenhum de nós sabe, e quem disser que sabe está enganado. Mas ninguém discorda da necessidade da reforma”, disse a secretária de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen da Silva, em um evento realizado na USP em agosto. O caminho da reforma, portanto, ainda pode ser longo, mas os debates começam a caminhar. Os olhos das universidades podem ficar abertos.


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primeira quinzena | SETEMBRO 2019 jornal do campus

Com últimos cortes, ciênc

USP calcula de 4% a 8% a diminuição de bolsas do CNPQ. Pesqu beatriz crivelari tamara nassif

A justificativa para os cortes foi a mesma: o orçamento destinado às bolsas. No caso do CNPq, desde o começo do ano o órgão anuncia que o orçamento para 2019 é insuficiente para pagar as 84 mil bolsas em vigência. Para que os pagamentos ocorram é necessária uma suplementação de 310 milhões de reais, já que na situação atual o orçamento cobre a remuneração

O quanto a USP perde com o corte de bolsas do CNPq?

maria eduarda nogueira

arquivo pessoal de aline

No mês de agosto começaram a circular notícias sobre os orçamentos das bolsas de pesquisa nas universidades. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou, no dia 15, a suspensão de 4.500 novas bolsas de pesquisa, afetando estudantes de graduação e pós de

diversas instituições de ensino superior. Menos de 20 dias depois, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) informou o bloqueio de 5.600 bolsas de mestrado e doutorado, além da não renovação ou substituição de bolsas de estudo e pesquisa a partir de setembro. Somado ao corte de bolsas anunciado em maio, o órgão deixará de oferecer cerca de 11 mil bolsas.

Fonte: Portal da Transparência

5649 bolsas afetadas na USP

ALINE

importância para a sociedade e, como a pesquisa e a ciência são produzidas nesse ambiente, há uma falta de entendimento do público dessas áreas. “Fala-se muito mais da importância de não desmatar e não queimar do que da importância da ciência. As universidades e associações científicas deviam tomar essa luta para si e irem atrás de estratégias para se tornarem mais presentes no cotidiano das pessoas”. Para ela, se a situação continuar assim, irá ocorrer uma elitização da ciência e, num cenário mais pessimista, “vai acabar a ciência no Brasil. E isso significa acabar com o futuro do país, com a chance de não depender de tecnologias do exterior e com as possibilidade de se pensar além do senso comum”.

4 a 8% dos futuros pesquisadores da USP podem desistir da ciência, por falta de apoio financeiro

Total de bolsas no Brasil: 84 aproximadamente

Fonte: Pró-reitoria de Pósgraduação da USP

LÍGIA*

“Esse corte não é só na minha pesquisa, é um projeto de governo. Tem que ser uma briga da educação, não só da pós-graduação, porque, ao cortar as bolsas, a entrada de outras pessoas na vida acadêmica deixa de ser uma escolha possível”, afirma Lígia, doutoranda de Educação Física na EEFE pelo CNPq. Apesar do corte dificultar o andamento de sua pes-

quisa, ela diz que a frustração maior é a injustiça: “O que teria acontecido se não tivesse tido verba no surto de Zika? A gente não estava no Nordeste, não era a gente lá. A falta de pesquisa afeta toda a saúde de uma população que, na grande maioria das vezes, não pode nem se defender. Isso é o que mexe mais, é uma revolta muito grande”.

2015

mil,

marcelo canquerio

Bolsista do CNPq, Aline faz doutorado na área de Sociologia e estuda a produção e a circulação de uma determinada ideia sobre universidade pública, principalmente nos grandes jornais do país. O foco da pesquisa é o que a motiva a continuar: “Mesmo que eu tenha que trabalhar, eu não pararia a minha pesquisa porque, com esse tema, eu acredito ser uma resistência minha continuá-la”. Ainda assim, afirma sentir-se aterrorizada com o cenário atual. “Pessoalmente é péssimo, porque eu estou há mais de dez anos dedicando minha vida à pesquisa, que demanda esse tempo. Eu não saberia onde me encaixaria no mercado de trabalho, nem o que ele exige”, afirma. Aline acredita que a universidade deixou de se preocupar em mostrar sua

MARINA

Marina é doutoranda de História Social pela USP há três anos e foi afetada pelos cortes na Capes. “Tive a confirmação de que eu receberia bolsa na sexta-feira, 30 de agosto. Na segunda de manhã eu recebi o contrato e, à tarde, veio a notícia. Na terça, a confirmação de que não a teria. Me senti paralisada. Dá uma sensação de impotência absoluta”.


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jornal do campus primeira quinzena | SETEMBRO 2019

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ncia brasileira corre risco

uisadores da pós-graduação também sofrem com cortes da Capes dade, Prof. Dr. Carlos Gilberto Carlotti, 6.063 pesquisadores da USP recebem atualmente financiamento da Capes, entre mestrandos e doutorandos. Outros 5.649, dentre professores, alunos de graduação e de pós, se beneficiam com as bolsas CNPq. Apesar de ainda não possuir o dado concreto, a Pró-Reitoria calcula que entre 4 a 8% deste total serão afetados pelos cortes.

Considerando todo este cenário, o Jornal do Campus buscou pesquisadores da Universidade de São Paulo para relatarem suas experiências e o impacto das bolsas em suas carreiras acadêmicas. Apesar das múltiplas vivências e ramos de pesquisa, os cinco entrevistados possuíam todos uma coisa em comum: a angústia de um futuro incerto para um trabalho de anos.

arquivo pessoal de luiz

dos bolsistas somente até o mês de setembro. Já a Capes tratou o anúncio dos cortes como um congelamento. De acordo com o governo, a medida representará uma economia de R$ 37,8 milhões em 2019 e o critério utilizado para o bloqueio foi o de manter as bolsas ativas e bloquear as não utilizadas. De acordo com o Pró-Reitor de Pós-Graduação da Universi-

Valor orçado para o CNPq X valor efetivamente gasto O CNPq representa 23,72% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC)

LUIZ

2016

2017

2018

Setembro 2019

ANA*

MARINA

Ainda que consiga terminar seus estudos a duras penas, sente como se não tivesse perspectiva na vida acadêmica. “É um cenário lastimável. No dia seguinte dos cortes, vi no Facebook algumas empresas privadas anunciando créditos de financiamento. É nítido o projeto: não é por falta de dinheiro, é um desmonte da ciência, de valorização da iniciativa privada”.

Graduada na UFScar e doutoranda de Filosofia na FFLCH pelo Capes, Ana conta que, ainda que sejam históricos os problemas nas universidades públicas, o que se tem hoje não é por uma questão meramente financeira. “É ideológica. Mesmo estudando um cristão, me sinto uma subversiva fazendo pesquisa em Filosofia. É quase criminoso”, conta ao JC.

Além disso, o desmonte na educação é pauta que, para ela, precisa ser vista com mais seriedade: “Que a minha bolsa seja paga, que eu termine o doutorado. A gente tá falando de ciência, e ciência não se faz só com a minha pesquisa. O elo quebra e ela é atacada frontalmente. A ciência precisa de continuidade, de gente estudando coisas diferentes”.

Doutorando em Sociologia, Luiz estuda há 3 anos os impactos do agronegócio em Sorriso, MT. Em seu quarto ano como bolsista do CNPq, não sabe como vai fechar as contas, caso mantida a perspectiva de não receber as parcelas da bolsa de novembro e dezembro. “Eu recebo R$ 2.200,00 por mês. Tenho um bebê de dois anos e vivo na cidade de São Paulo. Isso já é um valor irrisório, mas esses cortes vão me quebrar as pernas de uma forma bem dramática, a ponto de inviabilizar meu cotidiano”. Em seu departamento, é permitido que pesquisadores trabalhem na docência de ensino fundamental e médio e ele é um dos poucos com certa estabilidade, ainda que pequena. Perguntado sobre possíveis mobilizações contrárias

aos cortes, disse que o movimento de pós-graduandos existe, mas é pontual e “tem o alcance de uma formiga”. Fazem discussões com representantes de entidades estudantis e panfletam, mas a mobilização é mais massiva quando se ancoram a grupos estruturados, como secundaristas e ambientalistas. Mesmo que pouco articulados, Luiz sente que “esse é o momento de silêncio que precede o esporro. Esse acúmulo de tensão não tem para onde extravasar e não encontra forma, mas não tenho dúvida alguma que vai. Não tem como aguentar a desigualdade em um ritmo acelerado, dar declarações que são corrosivas para sua própria base e desmantelar aparelhos públicos de pesquisa sem consequências”.


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CIÊNCIA

PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

ISABELLA VELLEDA

O misterioso Curso de Ciências Moleculares Conheça a curso da USP com processo seletivo diferenciado CAIO SANTANA

Conheci o Curso de Ciências Moleculares (CCM) quando era calouro, em 2018, vendo informativos pelos arredores do CRUSP e pontos de ônibus. Um ano depois, eu havia descoberto que as instalações do CCM eram no CRUSP, entre os blocos B e D, nos chamados favos das colméias. Após início das atividades do majestoso prédio da Inova USP, este se tornou a nova sede do curso. Visitei o local, e fui para a sua escadaria, onde marquei encontro com um dos estudantes do CCM, Rafael Badain. Minutos depois, ele chega com outro aluno, Ian Lucas. No segundo andar do prédio estão as salas e demais instalações do curso. A modernidade do prédio instiga com árvores no centro, além de longas paredes e janelas de vidro aproveitando a luz natural, uma de suas prerrogativas, como me contou Ian. Ele me disse que a posição do prédio permite entrada da radiação solar durante todas as estações. Sobre o curso A sexta-feira era o único dia da semana que não havia aula e os alunos ficam estudando nas salas disponíveis. Entrei em uma sala dominada por calouros da 29ª turma. A ideia de criação do curso veio em 1990 para integrar áreas. “A proposta inicial do curso foi ter profissionais que atuassem em áreas interdisciplinares; na época, não se tinham profissionais capacitados para atuar em duas ou mais áreas”, afirma o professor Fábio Rodrigues, coordenador do curso e docente do Instituto de Química. O Curso de Ciências Moleculares está vinculado à Pró-Reitoria de Graduação da USP e congrega pessoal do Instituto de Química (IQ), Instituto de Física (IF), Instituto de Biociências (IB), Instituto de Ciências Biomédicas

(ICB) e Instituto de Matemática e Estatística (IME). Conforme Rodrigues, “a ideia do curso é mostrar como cada área da ciência produz conhecimento”. Dessa forma, o enfoque das disciplinas seria a plena construção do conhecimento científico.

O reconhecimento do CCM pelo Ministério da Educação só ocorreu em 1996

Processo seletivo Fábio fez parte da 11ª turma, de 2001. “A seleção é, no mínimo, esquisita. Para entrar no CCM você só precisa estar em um curso da USP. O processo seletivo funciona em duas etapas: a prova escrita, que é discursiva, e a entrevista, que tem uma dinâmica em grupo”, me contou Gabriel Cruela, da 27ª turma, oriundo do curso de Engenharia Química da Escola de Engenharia de Lorena (EEL). A secretária Patrícia Taborda confirma que a divulgação do processo seletivo para o curso não é tão ampla com os cartazes espalhados e as palestras que os alunos fazem em alguns institutos. “Os alunos melhores colocados no exame vestibular do ano recebem um convite para conhecer o curso, além de um workshop no prédio da Fuvest”, revela Patrícia. O coordenador Fábio Rodrigues diz que “apesar de ter esse convite, não é só essa pessoa que pode se inscrever”. O convite, que antes fazia parte do processo seletivo, é mais uma forma de divulgação do curso. Atualmente, todos os alunos da USP podem se inscrever. Não

é preciso estudar um conteúdo em específico, recorda Cruela. “Mas lógico, você precisa ter o mínimo de familiaridade com matemática para fazer conta, por exemplo. Mas é muito menos do que você encontra na primeira fase da Fuvest. Muito menos mesmo!” As questões cobram que o candidato pense além da resolução de um problema. Se aprovado, a pessoa é transferida, mas continua com sua vaga original garantida, seja para voltar ao regime normal ou para, ao concluir o CCM, terminar a graduação de origem. De acordo com Gabriel, essa última situação é muito rara. Até o ano passado, eram 25 vagas por turma. Na 29ª turma, foram 30 alunos. No site do curso, há uma lista que aponta 37 egressos. A maioria deles vêm de unidades como a Poli e o IF. “Porém, o curso inegavelmente tem um grande teor de exatas, o que atrai alunos dessa área” aponta Cruela. Corpo docente e disciplinas O CCM é dividido em dois ciclos: o básico, composto por disciplinas de Química, Biologia, Física, Matemática e Computação, com duração de quatro semestres; e o avançado, com total protagonismo do aluno na escolha de sua área de aprofundamento de pesquisa com uma Iniciação Científica e acompanhamento de professor orientador.

Por que estudar no Curso de Ciências Moleculares? “As razões para escolher esse curso se deve a alguns fatores. Pontuarei cinco deles: Ter uma turma relativamente reduzida e que se manterá unida sem acréscimo de alunos durante dois anos; Ter oportunidade de saborear um pouco de cada uma das ciências básicas; Ter dois anos para se dedicar a pesquisa e

estágio; Ter conforto no prédio novo devido a doações realizadas pelos próprios alunos, que possibilitam relaxar antes ou pós prova, utilizar o espaço da vivência para jogar, comer, dormir, estudar; E por último, o status do curso perante os docentes da USP abre boas oportunidades.” Geovanna Hernández, aluna do CCM.

Por não possuir corpo docente próprio, os professores são oriundos das unidades ligadas ao CCM. “O curso fica muito na mão do professor. Mas não no sentido de conteúdo ser mais difícil ou mais fácil. É de interação. Tem professores que passam prova para casa e outros para sala. E isso faz com que as turmas sejam muito diferentes.” O nome Ciências Moleculares remete ao momento de criação do curso. “Hoje esse nome não mais reflete no sentido de que todos os alunos trabalham com moléculas. Temos alunos na área da física teórica, astrofísica, astronomia, matemática pura”, explica Rodrigues. “Em dois anos de curso, não estamos preparados como físicos, como um aluno do IF. Mas ganhamos independência suficiente para entrar em qualquer área e o curso serve para isso”, declara Gabriel Cruela. Atuação dos formados Em 1991, o intuito inicial do CCM era a carreira acadêmica, mas isso foi se modificando. “No começo, o curso foi pensado na área acadêmica, para que o aluno seguisse nas suas pesquisas. Hoje temos alunos que foram para consultorias, mercado financeiro, área de programação e indústria, e tem os que, de fato, continuam com suas pesquisas acadêmicas”, afirma o coordenador do curso. Mas seguir a carreira científica parece ser uma escolha difícil. “Com a condição que está agora na questão de financiamento público de pesquisas, eu não sei se teria entrado em CCM. Não sei se eu escolheria virar cientista agora. Porque o cara que quer virar cientista, ele pode ser daqui 5 ou 7 anos, segurar um pouco essa vontade e tentar outra coisa, até essa situação se normalizar”, desabafa Cruela ao lembrar os cortes de bolsas de pesquisas da Capes e do CNPQ.


CIÊNCIA

JORNAL DO CAMPUS PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019

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Evitando Frankensteins Comissões de Ética em Pesquisa da USP garantem direitos para humanos e animais Comitês de Ética na USP

MARIA EDUARDA NOGUEIRA

As Comissões de Ética em Pesquisa da USP são divididas em três tipos: Comissão de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP), Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) e Comissão de Ética Ambiental na Pesquisa (CEAP). Apesar da importância delas, as unidades da USP não são obrigadas a possuir os três órgãos, apesar dos benefícios que trazem ao ambiente acadêmico. As CEPs e CEUAs possuem previsão na legislação brasileira. As primeiras na resolução nº 196 do Ministério da Saúde, de 1996, visando garantir o respeito aos direitos básicos e bem-estar de humanos que participam de pesquisas, tanto como objeto quanto como pesquisador. As CEUAs, como explica o professor Urbano dos Santos Ruiz, presidente da CEUA da Esalq, seguem a Lei Arouca, criada em 2008 para “eliminar ou minimizar o sofrimento de animais e a sua utilização desnecessária”. As CEAPs não possuem previsão na legislação, mas têm como

objetivo garantir que não haja impacto ambiental a partir da pesquisa ou de descarte de resíduos de pesquisas, seguindo leis de proteção ambiental. Apenas o Instituto de Química de São Carlos (IQSC) e a Esalq possuem esse órgão. O Instituto de Psicologia é a única unidade da USP com cursos exclusivamente da área de Ciências Humanas que possui Comissões de Ética em Pesquisa.

Em uso de animais

25

41

15 9

BIOLÓGICAS

EXATAS

HUMANAS

Fonte: Pró-reitoria de Pesquisa da USP

Em pesquisa com seres humanos

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Comissões de ética da USP de acordo com as áreas do conhecimento dos cursos oferecidos pelas unidades

MARIA EDUARDA NOGUEIRA

JOÃO PEDRO MALAR

Ética ambiental em pesquisa

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Fonte: Pró-reitoria de Pesquisa da USP

O professor José Siqueira, presidente da CEP do Instituto de Psicologia (IP), observa que “os membros do CEP devem ser de diversas áreas de conhecimento deve haver a participação de membros de ONGs da área da Saúde”. A portaria 196 também prevê uma composição mínima de sete membros. Ruiz comenta que essa variação também ocorre nas CEUAs, pois a Lei Arouca exige a presença de “um médico veterinário, um biólogo e um representante de uma associação protetora dos animais local”. O que varia é o número de docentes.

O selo de ética Tanto Ruiz quanto Siqueira observam que as Comissões não podem, sozinhas, proibir a realização de uma pesquisa. Elas geralmente recomendam alterações para evitar a quebra de princípios éticos. Entretanto, obter a aprovação desses órgãos é cada vez mais importante, pois diversos periódicos exigem a apresentação desses “selos” para a divulgação dos resultados de pesquisas e artigos. “As comissões são importantes para uma inserção internacional, como por exemplo a partir de publicações em periódicos internacionais. Isso é uma tendência mundial”, comenta Ruiz. Outro elemento destacado pelo professor Ruiz é que, após a análise dos projetos de pesquisa, as comissões “não conseguem acompanhar do início ao fim todas as atividades, mas mediante denúncias há uma investigação”. Essa falta de acompanhamento ocorre pois “não há pessoas suficientes para acompanhar” as pesquisas; os membros, em sua maioria docentes, possuem outras atividades de pesquisa, ensino e extensão.

Fadados à Terra Apesar de avanços na tecnologia, habitar outros planetas é inviável CAROLINA FIORATTI

MARIA EDUARDA NOGUEIRA

“Não há lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, para o qual nossa espécie possa migrar”, disse Carl Sagan em seu famoso texto O Pálido Ponto Azul. Raphaëlle Haywood, astrônoma que trabalha em Harvard para a NASA, certamente concordaria

com ele. Levando em consideração os rumos que o mundo está seguindo, pesquisamos outros planetas para ver se, algum dia, o homem conseguirá habitá-los. No entanto, a resposta é clara: não há para onde fugir. Em palestra no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosférias (IAG-USP), em agos-

A palestrante buscou abordar a Terra sob a “perspectiva cósmica”, ressaltando a nossa respondabilidade em cuidar dela

to, Raphaëlle explicou que, para um planeta ser semelhante à Terra, é necessário que ele receba entre 30% e 100% de radiação luminosa que a Terra recebe, ou seja, deve estar próximo a uma estrela similar ao Sol, e ter ½-1 vezes o raio do planeta Terra. Calculando, tem-se que um em cada cinco planetas (21%) possui compatibilidade com o que vivemos. Seria pouco, caso não existissem 300 bilhões de estrelas na galáxia, totalizando 63 bilhões de planetas parecidos com a Terra. Apesar da tecnologia desenvolvida, segue sendo inviável e impossível chegar a tais planetas, pois eles estariam próximos de outros sóis - o mais próximo está a quatro anos-luz de distância, e os planetas que poderiam ser habitáveis, entre 50 e 3.000 anos-luz longe de nós. Seriam 50 anos viajando na velocidade da

luz mas, como brinca a pesquisadora, apenas a luz é capaz disso. Considerando a inviabilidade da viagem, é responsabilidade do ser humano olhar para os problemas da Terra e revertê-los, como é o caso dos recentes ataques à Floresta Amazônica. Os níveis de concentração de carbono sempre foram oscilantes, mostra a pesquisadora. Todavia, nos últimos 20 anos, alcançaram quase o dobro do maior já documentado. Mostrando algumas fotos de autoria da NASA, observa-se oceanos, florestas, nuvens e fumaça provenientes de queimadas na região. Raphaëlle ressalta a importância global da floresta e diz que estamos impactando o único mundo que temos. Existe vida em outros lugares? De acordo com Haywood, provavelmente sim. Eles estariam interessados em nós? Provavelmente, não.


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ENTREVISTA

PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

“Não podem ser os cientistas, os acadêmicos e os estudantes que lutem sozinhos” Ex-presidente do CNPq alerta para o corte do fomento às pesquisas, que para ele é pior do que a diminuição de bolsas GUILHERME ROQUE

Com os atuais cortes financeiros, tem alguma maneira de que o CNPq possa auxiliar os pesquisadores? Pera aí, você tem que ver os números: os números do orçamento do CNPq para o ano que vem são 950 – ou algo assim – milhões de reais para bolsas. Isso não é uma quantidade inexpressiva. 950 milhões de reais são 250 milhões de dólares. E então isso não é suficiente, porque há dois anos atrás, esse número era 1 bilhão e 200 milhões de reais. Mas por outro lado, o dinheiro para fomento é de 6 milhões. Então o que está sendo cortado no CNPq é essencialmente

ARTE: BEATRIZ CRISTINA

Hernan Chaimovich dedicou sua vida à academia, ocupando cargos de importância na ciência brasileira e mundial. É graduado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Químicas da Universidade do Chile. Veio para o Brasil com bolsa da FAPESP, fazendo doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado nas universidades da Califórnia, em Santa Bárbara, e Harvard, nos Estados Unidos. Foi professor nas universidades do Chile e livre docente, professor adjunto e professor titular de Bioquímica do Instituto de Química da USP. Foi vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e presidiu o CNPq no período de 2015 a 2016. Agora, conta em entrevista ao Jornal do Campus, ele conta um pouco do que foi, do que é e do que será da instituição que presidiu há 3 anos, entre 2015 e 2016.

Como a perda de fomento à pesquisa impacta o país? Bom, veja, você não pode ter pesquisa sem gente. Isto é: você não pode ter pesquisa sem bolsa. Mas ter bolsa sem fomento, é quase uma malversação de recursos públicos. Isto é: a pesquisa acaba.

Você acha que é possível reverter esse quadro a curto prazo? Veja, minha bola de cristal quebrou faz tempo (risos). Eu já escrevi sobre isso em vários lugares, e uma das coisas que me preocupa profundamente é se nós, Brasil, queremos reverter esse quadro. Não pode ser os cientistas, os acadêmicos e os estudantes que lutem sozinhos. É absolutamente necessário que todos os setores econômicos que usufruíram tremendamente do conhecimento gerado nas universidades públicas, quanto dos profissionais formados por elas, venham a dizer o que pensam de uma destruição do sistema – por enquanto não ouvi. Alguém pode considerar que a luta dos estudantes, dos pesquisadores e dos acadêmicos é uma luta corporativa. Eu não vejo isso. Mas o país só vai se dar conta se os setores econômicos e sociais que usufruíram durante todo esse tempo do conhecimento dos profissionais venham a manifestar o que que eles acham.

Como que funciona o pagamento das bolsas assim que o orçamento é feito? As bolsas do CNPq, a grande maioria, estão destinadas às instituições. Então o CNPq todo ano diz: “a Universidade de São Paulo vai ganhar tantas bolsas”, aí é responsabilidade da Universidade de São Paulo distribuir essas bolsas. As bolsas de pós-graduação são mais ou menos a mesma coisa, são institucionais na sua grande maioria. Para o docente ou pesquisador graduado, o assunto é totalmente diferente, porque a bolsa é individual, não é institucional, portanto tem uma seleção por currículo e tudo mais, e você dá um certo número de bolsas.

Quais as dificuldades de um presidente de uma instituição como o CNPq? Primeira coisa que tenho que dizer é que ser presidente do CNPq é uma honra. E acho que qualquer brasileiro tem que ter profundo orgulho de ocupar essa posição. Agora, dificuldade é basicamente orçamento. Porque veja, uma coisa importante de dizer é que o pessoal que trabalha no CNPq é de altíssimo nível. A relação dos pesquisadores com o CNPq é excelente. Agora, orçamento não se trata de negociar com pesquisadores nem com servidores do CNPq, é outro tipo de negociação.

“De 6 milhões o que o CNPq pode fazer é chorar. Porque veja, um projeto grande pode custar alguns milhões de reais. E nós estamos falando de um país como Brasil, onde tem dezenas de milhares de pesquisadores sem dinheiro de fomento.”

Passado, presente e futuro preocupante do CNPq

História do Conselho revela como ele veio deixando de atender seus objetivos iniciais

GUILHERME ROQUE

Segundo Chaimovich, é difícil responder sobre a importância do Conselho sem considerar três momentos, o de nascimento, de evolução e o atual. “O CNPq nasce como uma afirmação de soberania nacional. Isto é, um almirante, Álvaro Alberto da Motta e Silva, com uma visão extraordinária, consciente de que a pesquisa nessa época é a energia nuclear. Ele decide criar uma agência de financiamento de pesquisa em qualquer área de conhecimento que possa cobrir a necessidade do Brasil de fazer pesquisa em qualquer parte do território nacional: aí nasce o CNPq.” Até 1962, o Conselho era a única fonte de financiamento para a pesquisa. CAPES nasce na mesma época, voltada para apoio institucional, ou seja, formação de pessoal

do ensino superior. “Conservando o etos inicial de pensar ciência como elemento de soberania e fazer investimento em pesquisa, logicamente isso era acompanhado com algumas bolsas; contudo, o foco não era exclusivamente a bolsa, mas o fomento à pesquisa, que são coisas completamente distintas.” Essas agências crescem e, a partir de 1968, aumentam as fontes, impulsionadas pelos estímulos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - outros estados começam a criar fundações semelhantes. “Você começa a ter um sistema, onde o CNPq cobre o fomento à pesquisa nacional, e as fundações estaduais cobrem a pesquisa olhando basicamente para os interesses do estado, particular.”

Some-se a isso, no começo do ano 2000, os fundos setoriais, outra ferramenta de apoio à pesquisas voltadas para determinadas áreas de interesse econômico. Então, segundo Chaimovich, “começa a acontecer um negócio muito estranho, que é uma diminuição do orçamento para fomento do CNPq; não tem uma diminuição do orçamento para bolsas, mas tem uma diminuição do orçamento para fomento. Isso vai se agudizando na medida que o tempo passa.” “Isso passa a ser crítico a partir do ano de 2014, 2015, quando o orçamento de fomento começa a ter muito mais uma cara de agência de bolsas do que de agência de pesquisas. Quando você vê a LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2020, o troço quase beira uma piada.”


ESPORTES

JORNAL DO CAMPUS PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019

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Funcionários do campus da USP são atletas de

poda de árvores e arremeso de sacos Em uma volta pelo campus, o JC encontra trabalhadores que fazem esforços físicos iguais ou superiores a atletas profissionais EDUARDO PASSOS CAROLINA FIORATTI

Em suas mais de 80 unidades espalhadas pelo estado de São Paulo a USP tem, de acordo com o anuário de 2018, mais de 18 mil funcionários. Apesar de grande parte deles estarem envolvidos no ensino, pesquisa e extensão, muito esforço é necessário pelos funcionários da administração e terceirizados para manter tudo em ordem na extensa estrutura da Universidade. Noé de Moraes Lima, mais conhecido por Maranhão — o prestador de serviços gerais nasceu na cidade maranhense de São Mateus — é um dos muitos exemplos da polivalência física daqueles que mantêm o campus central funcionando. Em uma manhã chuvosa e fria, ele operava tranquilamente seu assoprador de folhas, ao passo que seus outros companheiros manipulavam um aparador de grama cuja velocidade do fio podia chegar aos 580 km/h.

“Faço de tudo: podo, corto árvore, trabalho com motosserra... minha rotina de segunda a sexta é essa”, explica Maranhão. Com a motosserra, ele chega a cortar galhos a 30 metros de altura — equivalente a prédios de três andares ou três vezes a altura do trampolim mais alto usado em competições de saltos ornamentais. É tão alto que há normas específicas de treinamento para uso equipamento de segurança especiais para a operação no topo das árvores. O cálculo do esforço físico usa a unidade de gasto de energia chamada MET (equivalente metabólico da tarefa). De acordo com o Departamento de Saúde dos EUA, um jogo de basquete ou futebol gira em torno de 6 METs. Atividades como a de Maranhão podem chegar 7 METs, sem que o funcionário tenha todos os preparativos e cuidados médicos de um atleta de alto nível. Perto de Maranhão, o chuvisco não atrapalhava o trabalho de

Antônio Bispo. Mesmo aos 49 anos, o mestre de obras demonstrava porte musculoso e uma breve análise do seu material de trabalho, usado na reforma das quadras do CEPE, explica sua forma física. “A gente recebe a manta asfáltica em barris de 200 litros. Depois temos que virá-los na betoneira e bombeamos o material para a quadra”, detalha. Dada a densidade do material, o barril, 40 litros maior que um barril de petróleo, pode chegar a 300 kg. Vários barris são carregados por Antônio e um companheiro durante o dia. Para se ter uma ideia do esforço, o gergioano Lasha Talakhadze levantou 258 kg em sua barra para conquistar o ouro na categoria mais disputada do levantamento de peso nos Jogos Olímpicos de 2016. Acostumados ao trabalho braçal, os homens não se queixam do esforço: “A gente rola os barris até a betoneira, então é tranquilo”, diz, modesto, Bispo.

OPINIÃO

Espaços e direitos PEDRO SMITH

“Ao transformar o campus numa extensão das academias de alto padrão, não se exclui grande parcela daqueles que poderiam usufruir prioritariamente do campus?” — Pedro Smith

CAROLINA FIORATTI

Em tempos de polarização política e constantes ataques às conquistas comuns, a ocupação dos espaços públicos é pauta cada vez mais constante entre as temáticas sociais, principalmente quando o espaço em questão é um dos que mais sofre com os cortes e ofensivas por parte do poder executivo. O campus da Cidade Universitária projeta-se, mais do que nunca, como campo de ocupação e resistência. Entretanto, não é bem esse o ideal das empresas de corrida e atividade física que ocupam o campus central para treinos de seus alunos mensalistas. Até que o ponto a ocupação privada e comercial remodela o sentido do espaço público? Exemplos de distorções desse conceito não faltam na USP: de catracas em institutos à elitização dos cursos, as fronteiras para a entrada e permanência são das mais diversas. São montadas vistosas estruturas para atender aos

esportistas que pagam por esse serviço particular. Não se trata de demonizar, muito pelo contrário: o uso do espaço urbano como berço da boa-saúde é uma das ações mais nobres de valorização do que é de todos. As questões são outras. Até que ponto o uso desses espaços pela iniciativa privada não esconde – perversamente – seu real propósito? Ao transformar o campus numa extensão das academias de alto padrão, não se exclui grande parcela daqueles que poderiam usufruir prioritariamente do campus? A temática ganha contornos ainda mais dramáticos no contexto político atual, capaz de tornar cada centímetro de chão decisivo na defesa do que resta de comum. Se hoje discute-se, academicamente, indivíduos atomizados, presos em bunkers, cercados de catracas, condomínios particulares e shoppings-centers, por que não voltar os olhos para o nosso espaço, onde parte desses debates homéricos se desenrolam?


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EM PAUTA

PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

O ano é 2019 ou 1969? Cortes de verba e censura dificultam produção audiovisual apoiada pela Ancine MARCELO CANQUERINO

vemos as pessoas, as minorias, nesta discussão, não quer que histórias de superação sejam contadas, histórias de força, de amor, de conquistas.” A demissão de Henrique Pires, agora ex-secretário especial da Cultura, após a suspensão do edital de filmes com temática LGBTQI+ revela muito sobre o período que a cultura e a arte vivem atualmente no Brasil. Chegar ao nível de pedir demissão por não concordar com a falta de liberdade de expressão e a censura vindas do próprio governo é, no mínimo, alarmante. Atualmente, organizações conservadoras estão em contato com o governo federal para discutir políticas de cinema. Um dos grupos mais atuantes, a Cúpula Conservadora das Américas, busca promover nos filmes símbolos nacionais, a preservação da família, valores conservadores e o patriotismo. Qualquer temática que fuja desse escopo, para eles, não deveria ser financiada com dinheiro público. A propósito: quem assumiu o posto de secretário especial da Cultura foi Ricardo Braga, economista que nunca teve experiência na área cultural.

O que diz a demissão do ex-secretário especial da Cultura? A demissão de Henrique Pires, agora ex-secretário especial da Cultura, após a suspensão do edital de filmes com temática LGBTQI+ revela muito sobre o período que a cultura e a arte vivem atualmente no Brasil. Chegar ao nível de pedir demissão por não concordar com a falta de liberdade de expressão e a censura vindas do próprio governo é, no mínimo, alarmante. Atualmente, organizações conservadoras estão em contato com o governo federal para discutir políticas de cinema. Um dos grupos mais atuantes, a Cúpula Conservadora das Américas, busca promover nos filmes símbolos nacionais, a preservação da família, valores conservadores e o patriotismo. Qualquer temática que fuja desse escopo, para eles, não deveria ser financiada com dinheiro público. A propósito: quem assumiu o posto de secretário especial da Cultura foi Ricardo Braga, economista que nunca teve experiência na área cultural.

LIGIA DE CASTRO

Os ataques à cultura tornaram-se cada vez mais constantes desde o começo do governo Bolsonaro. Um dos principais alvos: a Ancine (Agência Nacional do Cinema). No dia 31 de agosto, por exemplo, o presidente disse que queria uma pessoa extremamente evangélica para comandar a Agência - ela precisaria saber “recitar 200 versículos, ter uma Bíblia embaixo do braço e o joelho ralado de ajoelhar no milho”, comentou em tom de brincadeira, talvez mais sério do que parece. Para Rubens Rewald, professor do curso de audiovisual da Escola de Comunicações e Artes da USP, os cortes que a Ancine vem sofrendo impactam burocraticamente as produções. “A Agência está emperrada e vários projetos estão parados. Muitas produtoras estão fechando. É muito triste, pois diversos filmes estão prontos para estrear, mas o dinheiro para distribui ção está preso.” O financiamento público garante a continuidade da indústria audiovisual brasileira. O dinheiro da Ancine é gasto na produção e salário de diversos profissionais. Rewald explica que esse dinheiro aquece a economia, pois grande parte dos lucros voltam para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), destinado ao desenvolvimento da cadeia produtiva do audiovisual no país. Profissionais que trabalham no setor estão sentindo os efeitos dos cortes de verba. Sérgio Roizenblit, diretor e proprietário da produtora Miração Filmes, conta que muitos editais de financiamento para televisão e cinema foram fechados, representando queda real em seu volume de trabalho. Ele precisou demitir funcionários. “Tive que entrar em produção sem ter clareza sobre recursos para a finalização. Muitos filmes foram cancelados.” Censura por preconceito Dez dias antes da declaração de Bolsonaro sobre o perfil evangélico desejado para a Ancine, um edital da mesma Agência destinado a filmes LGBTQI+ para TVs públicas foi suspenso. A portaria

que veta o edital foi assinada pelo Ministro da Cidadania Osmar Terra. A suspensão motivou o pedido de demissão de Henrique Pires, secretário especial da Cultura. Pires se colocou a favor da liberdade de expressão e optou por abandonar o cargo por não estar alinhado, nesse sentido, aos pensamento de Osmar Terra e Bolsonaro. Uma semana antes, o presidente havia criticado, em live no Facebook, algumas produções inscritas no edital cancelado, como o filme Afronte, de Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo, que conta a rotina de LGBTQI+s do Distrito Federal. A produção foi inscrita com a perspectiva de virar série. Transversais, de Émerson Maranhão e Allan Deberton, sobre a vida de cinco transgêneros do Ceará, também foi alvo de Bolsonaro. Deberton explica que o projeto estava inscrito em uma modalidade específica do edital, para conteúdos com foco em diversidade de gênero. “Atendemos a este critério, com um excelente projeto. Mas o presidente não acha importante falarmos deste assunto. Ele não quer que moti-


CULTURA

JORNAL DO CAMPUS PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019

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Vlado Herzog: histórias além da História Ocupação no Itaú Cultural humaniza o ex-professor da USP, cuja vida muitas vezes é pincelada em livros apenas como símbolo da luta contra o regime militar

Nem todo mundo tem uma vida excepcional. Nem todo mundo vive na hora ou no lugar exatos para isso. Não se pode dizer, porém, que a vida cotidiana e banal que vivemos seja destituída de beleza. A memória coletiva guarda apenas os momentos marcantes da vida de alguém. Muito disso é culpa do jornalismo, certamente. Triste quando ocorre do fato marcante ser a morte. A vida de Vladimir Herzog em seus aspectos cotidianos não tem nada de muito excepcional, mas tem muito de bela. Em Ocupação, a câmera se aproxima de um barco na areia. Há mais de um barco. E, chegando mais perto, é possível distinguir algo dentro. Mais perto. É um homem, que dorme. O barco é pouca coisa mais largo que ele. E tábuas foram colocadas em cima para protegê-lo do sol. É dia no Rio de

Janeiro. Este é um trecho do mini documentário Marimbás, que retrata os homens praieiros que vivem das sobras deixadas pelos pescadores. Retrato da miséria. Dirigido por Vladimir Herzog, o assistimos após saber que o cinema era uma de suas paixões. Se a mostra é repleta de sua vida, por outro lado é inevitável não esquecer sua morte. Independente da parte da mostra, sente-se pesar pela interrupção bruta da vida. Vlado está presentificado, materializado e vivo. Em meio a objetividades concretas e sensações particulares, as leituras que se tornam possíveis na exposição, aproximam o olhar para uma vida. Alguém que de fato viveu: esteve presente em lugares, possuía desejos e angústias, família e amigos. Esteve longe de cometer qualquer crime. Trabalhou e produziu. A mostra cumpre bem o papel de humanizar a personagem, que antas vezes é retratada em livros apenas para ilustrar o

Maternidade em vertigem ANA GABRIELA ZANGARI DOMPIERI BEATRIZ CRISTINA

A relação entre a figura da mulher e a maternidade quase sempre foi imposta de forma idealizada. O “papel principal” de gerar um ser humano sem considerar as reais dificuldades socioeconômicas, psicológicas, fisiológicas e o direito sobre o próprio corpo tem diversas implicações. De modo geral, a chamada “violência obstétrica” é normalizada em suas gravidades, desde os insultos à “moral” da grávida, passando pelo desrespeito à vontade da mulher, mutilações no recém-nascido e a incompreensão sobre a depressão pós-parto, tratada como um “despreparo e falta do instinto maternal”. Engravidou e não tem condições? Agora ame-o. Seja cuidadosa e gentil. Ser mãe é tudo o que uma mulher precisa ser. Mudará de comportamento quando tiver um filho. Cesariana é bem mais cômodo. Abortar? Jamais, mas que absurdo! Maternidades problemática: esse é o tema da mostra do CINUSP que vai até o fim de setembro.

Incômodas perguntas Desconforto: é a isso que se vincula a maternidade no filme “4 meses, 3 semanas e 2 dias” — ou não maternidade, já que o enredo se desenrola com o drama de um aborto clandestino na Romênia ditatorial dos anos 80. Uma amiga grávida e outra, que a ajuda, passam por situações que vão de mal a pior, chegando a momentos em que não conseguem nem se olhar nos olhos. O realismo cênico abduz os espectadores para dentro do incômodo, deixando-os mudos e imóveis no subir dos créditos. Mas se as durações das cenas, os cortes, a sonoplastia e os diálogos se propõem a realísticos, a devoção extrema da amiga em amparar a grávida é bem “de filme”. Ela passa mais por super-heroína, ocupando o lugar deixado pela fragilidade da outra. A princípio, é óbvia a compreensão em relação à vulnerabilidade e dependência daquela que faria o aborto, mas depois essa certeza se borra, lançando a dúvida: amiga que ajuda, heroína ou otária?

CRISLEY SANTANA

JOÃO GABRIEL BATISTA DANIEL TERRA

período ditatorial. A experiência é apurada por diversas linguagens e meios multimidiáticos — fotos impressas em tecido e poder tocá-las; cartas destinadas a amigos em que é revelada uma parte tão pessoal e significativa de Herzog; notar sua aparição em fotografias da infância e ausência nas da vida adulta, o fotografado se tornando fotógrafo.

Ocupação, com entrada gratuita, pode ser visitada até 20 de outubro e tem entrada gratuita

É a vontade de descobrir cada vez mais sobre a sua vida e alcançar esse desejo em um mesmo espaço. A aproximação do público se estabelece nessas peças de quebra-cabeças que vão se encaixando e formando uma imagem íntima e nítida em nossas mentes. É na construção de uma vida que se pode entender a morte.

Onde moram memória e receio JOÃO GABRIEL BATISTA

Há vinte minutos de caminhada da estação Anhangabaú do metrô, cruzando pontes e vielas, está a Casa de Dona Yayá, espaço que concentra atividades culturais, mantido pela USP. Cheguei lá na manhã de um domingo cinza e chuvoso, para participar de oficina sobre arqueologia. Somente eu, um professor de História do ensino médio e a diretora da Casa estávamos presentes. Para não ser injusto, por pouco mais de 15 minutos passaram por ali outras duas mulheres curiosas. Sobre uma mesa grande situada no centro da sala, havia maquetes, cerâmicas, xícaras, pedras e instrumentos primitivos. Caminhando em volta da mesa, o professor conduzia a atividade com disposição. A maquete trazia um terreno de Perdizes, onde se abriu um sítio arqueológico. Ali, há mais de cem anos, houve uma fábrica de cerâmicas, descoberta ao se desenterrar materiais arqueológicos. A partir deles, muito se

soube de toda uma sociedade: quem trabalhava ali, em que condições, o que se produzia, quem comprava… Falando de sua profissão, o semblante do professor poderia ser radiante, não fosse este momento histórico. O tom calmo de sua fala resvalava na tristeza ao comentar os recentes ataques ao trabalho arqueológico, “que muitos veem como impedimento para o progresso do país”. Numa notícia publicada pela Folha de Londrina em 2013 relatava, em tom otimista, que arqueólogos podiam escolher vários campos de atuação. Isso ocorria devido às políticas ambientais, que prevêem estudos arqueológicos em locais onde futuramente serão feitas grandes obras. Hoje, a legislação ambiental agoniza no Ministério do Meio Ambiente Naquele domingo chuvoso, na Casa de Dona Yayá, ouvi sobre a importância de não esquecer o passado. Não à toa, muitos de fato querem que o esqueçamos.


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CRÔNICA

PRIMEIRA QUINZENA | SETEMBRO 2019 JORNAL DO CAMPUS

OCEANO Daniel Terra

Ela chega tirando os sapatos. Sentindo nos pés a maciez da areia. Ela olha pra mim e me vê. Ouve o meu som e percebe que seu silêncio pode ser barulhento. Então faz barulho com o olhar. Ela precisava se ouvir, por isso veio ao meu encontro. Algo nela estava diferente, mas ela não sabia o quê. Consciente de que todos os segredos residiam em minha profundidade, quis conhecê-la. Mostrei que não era só beleza. Havia deixado seus velhos costumes junto da sua cidade natal. Na verdade, levou-os consigo ao se mudar, mas não pôde mantê-los. Vivendo em uma nova cidade, deixou de demonstrar sentimentos. Agarrou-se à seriedade. Ouviu dentro de si que era limitada. Preferiu o silêncio, assim não incomodava. Optou por alimentar a imagem que achava que os outros tinham dela. Preferiu acreditar que riam dela e não para ela. O seu melhor havia sido levado. Ela já não agradecia seus privilégios. Mesmo tendo sido bem recebida lá. Quando chegou, tudo a deslumbrava. Adorava ver os ônibus circulando às 4h da manhã, ternos sobre rodas, artistas por aí. Ela era grata por tudo o que tinha lhe acontecido, principalmente por estar em uma universidade. Se aquietava para ouvir seus novos colegas falarem. Conhecia apenas suas superfícies. Ela era boa pra eles e eles para ela. Sentia-se parte. Eles não mereciam sua nova versão. Sua agonia se mostra no andar. Ela olha pra mim e vê. É atingida como num tsunami. Entorpecida. Lágrimas pesadas escorrem, sem esforços, contornando suas bochechas. Sentiu meu gosto. Ficou tudo escuro, porque estava claro. Só conseguia ver sua mãe. Afogou-se em mim. Só existe eu, só existe água. Eles a silenciaram. Não com palavras ou ações, mas com seus idiomas, iPhones, Macbooks e intercâmbios. O pouco pra eles era muito pra ela. Tudo de melhor nela era detalhes neles. Uma corrida incessantemente sem fim. Ela já não agradecia seus privilégios. Notou que não existiam. Deixou também de ser grata pelas suas conquistas e sua grandeza. Era inundada de sua pobreza ao se sentir uma igual. Já não lhe encantavam os bonitos e grandes prédios. Nunca trabalharia neles. Com vinte e três anos, está velha demais para segundas chances. Em minhas ondas, a transporto para um novo estado de consciência - de mais autoconhecimento e mais angústia. Não só beleza, mas dor. Ela queria ter sido sincera com os seus; assim, seria consigo mesma. Precisava se ouvir, então veio me encontrar.

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Edição 502 (Setembro/2019)  

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