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OPINIÃO 9

03/02/2011

Notas Semanais

Notas & Comentários

CÍLIO CORREIA

JOÃO VENTURA DA COSTA

SIMPLESMENTE, HUMANO…

C

inquenta e três, vírgula, quatro por cen to dos portugueses abstiveram-se nas eleições presidenciais. Foi um dos valores mais altos, senão mesmo o mais alto. Face a este resultado apareceram uns quantos a dizer que a abstenção ganhou. Quem primou pela não comparência não pode, em boa verdade, reclamar vitória. Mesmo no futebol que está uma bagunça, a nível federativo, e não só, a falta de comparência é penalizada com multa pecuniária e derrota por 3-0... De facto, não vale a pena dramatizar, mas também não faz sentido menorizar a abstenção no último acto eleitoral. Nem uma coisa nem outra. As coisas são o que são. Há que olhar para as situações com o devido distanciamento e sentido crítico. Nada mais. Importa mesmo, é saber o porquê deste comportamento e porque ficaram agarrados ao sofá, em vez de se deslocarem a uma mesa de voto para exercer o seu direito. Sim, porque o voto é um direito. Não é uma obrigação legal, embora haja quem se pronuncie a favor da sua obrigatoriedade. Não comungo desse desiderato, mas os direitos exercem-se e não devem ser menosprezados. Votar, não é um jogo de conveniência: é um ato cívico. Por isso, não nos

venham dizer que ganhou a abstenção. Ao contrário, quem perdeu foram os abstencionistas: uma oportunidade, no mínimo, de se exprimir e nem sequer aqui coloco os que votaram em branco (4,3%) ou nulo (1,9%), porquanto, esses, apesar de tudo, marcaram presença no dia das eleições. Não ficaram em casa. Claro que as votações de “100%” só mesmo em regimes ditatoriais que até distribuíam “urnas de voto”, semelhantes a “panelas com tampa”, para colocar no terreiro principal das localidades… Também se disse que nos Estados Unidos a percentagem de abstencionistas é elevada e não vem mal ao mundo por isso. Nada mais verdadeiro: só que votar constitui mais uma forma de expressão da sociedade civil americana que tem uma intervenção na vida social e política qualificada, activa e diversificada. E aqui é que bate o ponto. Os portugueses, apesar de terem vindo a acolher candidaturas independentes (Fernando Nobre, agora, e Manuel Alegre, há cinco anos) nas últimas presidenciais, têm uma participação cidadã pouco mais

do que incipiente. Certo mesmo é que Cavaco Silva foi (re)eleito Presidente da República, de forma inequívoca, com 2,230 milhões de votantes, embora com menos 500 mil votos do que há cinco anos, mas, ainda assim, sem margem para dúvidas. Ganhou. Ao contrário do que se disse, penso que o grande derrotado, para além de Manuel Alegre, obviamente, foi a abstenção. Bem podem dizer, os abstencionistas, que tiveram uma percentagem superior, mas sem expressão numa sociedade democrática. Ninguém sai diminuído, politicamente falando, por perder um ato eleitoral democrático, mesmo aqueles que produziram afirmações ou adoptaram posturas pouco condizentes com o respeito que devemos uns aos outros. Surpresas na noite eleitoral, foram duas: Fernando Nobre e José Manuel Coelho. Este, na Madeira, conseguiu um score que causou incomodidade no sempiterno Alberto João Jardim. Jardim encontrou no Coelho o seu antónimo: no dia seguinte, já estava a esgrimir argumentos contra ele. Podemos ser tentados a considerar o Sr. José Coelho, da Madeira, um epifenómeno ou um

Aníbal, o cruel! zepelim que a vida se encarregará de esvaziar, mas, acima de tudo, é um cidadão livre que tem o direito de se exprimir. Ainda assim, vamos esperar para ver se o “efeito Coelho” não passa duma mera epifania, no sentido de descoberta inesperada, ainda assim, estimulante para outros, anti -sistema. Por isso, digo, a maior surpresa veio da Madeira, apesar de Fernando Nobre ter tido um resultado deveras interessante (593 mil votos), mas longe dum “resultado histórico” como o pretendeu classificar na noite das eleições, a partir dum apelo à cidadania responsável e activa. Ficou a metade do Manuel Alegre de há cinco anos (1,125 milhões). O Sr. José Coelho (195.000 votos) que não é um “zé-dosanzóis” e, muito menos, um “jagodes”, sozinho, de táxi, a distribuir batatas e com algum sentido de humor à mistura, conseguiu ser o segundo mais votado na ilha madeirense... A título de reflexão final, permitam-me que recorde a história do “Lavagante” que o saudoso escritor José Cardoso Pires relata no livro do mesmo nome. E que passa por considerar o lavagante como um crustáceo primitivo, avesso aos viveiros, mas com uma “tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios”. Dotado duma inteligência intuitiva e emocional, alimenta a sua vítima, o safio, a todas as horas, até à exaustão. Leva-lhe comida à toca submersa, onde este se deixa engordar, e de tal maneira, que vai chegar o dia em que já não consegue sair pela abertura. Nesse dia, o lavagante vem, já não para trazer comida, mas para o devorar. Vem de garras afiadas para se alimentar do safio que se deixou encurralar na sua própria toca e se tornou numa presa fácil... Simplesmente, humano.

H

á alguns séculos, por causa duns sarilhos com saias, houve um monarca que ficou baptizado como o cruel, cognome que ganhou depois de ter procedido a uma operação de peito aberto ao coração dum compatriota azarado que limpara o sebo à sua dama; como o monarca não tinha lavado as mãos antes de arrancar o órgão do peito do seu paciente, o desgraçado acabou por morrer vitima de falta de ar e duma infecção generalizada – pelo menos é esta a versão em que eu acredito. Tal como o conhecido monarca, temos agora um presidente a ser rotulado de cruel pela gentinha que nos desgoverna há quinze anos opinião publicada de referência por causa dos avisos que deixou, em directo e ao vivo, a certos cavalheiros da trupe do Zezito, nos dois discursos que fez na noite em que foi reeleito. Pela voz do magoado aristocrata camarada Almeida Santos, foi oficialmente anunciado ao povo português que o filho do gasolineiro é um tipo cruel, sentimento autorizado a presidentes e gente da esquerda socialista pura e dura mas indigno deste dum presidente da república. Segundo o magoado camarada, o vencedor das eleições deveria, pura e simplesmente, ter esquecido tudo o que os seus apaniguados socialistas foram insinuando ao longo da campanha e deveria ter sido magnânime na hora da vitória em vez de “ter feito um julgamento feroz dos seus adversários”. Basicamente, pretende-se, com a prestimosa ajuda da propaganda comunicacional, que o presidente reeleito mantenha a mesma atitude que os eleitores portugueses vão mantendo para quem os vem arruinando há década e meia: respeitinho! O aristocrata Almeida Santos tem este cavaco espinho atravessado desde que competiu com ele para o cargo de primeiro-ministro numas eleições no ano de 1985, cujo resultado foi uma sova monumental que ainda hoje lhe provoca dores, especialmente quando o tempo está húmido. Além de zurzir no presidente reeleito, Almeida Santos também malhou no seu camarada Carrilho dizendo que “neste momento é quase um adversário do PS, porque está agastado por ter sido apeado do lugar que tinha. Está zangado connosco, compreendo isso, mas não é bem o exemplo típico do indivíduo que se possa citar como característica da situação interna do partido.» Não deixa de ser curioso, dada a situação nalguns países do norte de África, ter malhado neste seu colega de partido, já que o dito Carrilho foi “apeado” do cargo por se ter recusado a seguir as instruções do governo do Zezito que o obrigavam a votar num candidato egípcio, conhecido por organizar umas queimas de livros. Como o partido a que o dito egípcio pertence, governa, há décadas, aquele país africano e é membro da Internacional Socialista, organização que tem Mário Soares como um dos seus presidentes honorários, será que o camarada Almeida Santos também achará que o povo egípcio, como Cavaco, é cruel e feroz demais para com os seus governantes? Aguardemos…

JT 1033  

Jornal de Tondela

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