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Lattoog Design Entrevista com Leonardo Lattavo

Na mesma semana em que o principal evento de design do mundo acontecia em Milão, na Italia, o Jornal Design Serra também voltou os olhos para o Brasil. Para ilustrar a força que design tem tido por aqui, procuramos os designers cariocas da Lattoog Design, que tem se destacado de forma significativa no mercado nacional. Confira aqui, algumas questões abordadas junto aos profissionais, que já são figuras conhecidas até por aqui no nosso polo moveleiro. Jornal Design | Como é o desafio de posicionar o design entre o livre exercício de expressão e ao mesmo tempo como uma disciplina que visa gerar negócios? Leonardo Lattavo | Desde o inicio da Lattoog cultivamos a ideia de projetar livremente e experimentalmente, mas nunca deixamos de lado o rigor técnico e a consciência industrial. Rapidamente percebemos que isso era uma maneira de pensar correta e que naturalmente gerou muitos negócios. Procuramos sempre que nossas criações combinem, com igual ênfase, características culturais, funcionais e industriais. Quando isso não acontece, o produto não é pleno. JD | Quais as principais manifestações que tem engrandecido o design brasileiro? LL | Dentro do Brasil, foi a recente aceitação dos valores da nossa cultura no campo do design. Aqui, por exemplo, a música nacional tem admiração que vêm de longa data. Disciplinas como o design, moda, começam somente agora a ganhar um real tom brasileiro, deixando cada vez mais de importar ideias, para exportá-las. Fora do Brasil, o design nacional foi beneficiado pelo crescente interesse geral pelo nosso país. Especificamente no campo do design, a incorporação do artesanato brasileiro ao produto industrial é um dos fenômenos que mais repercutiu. JD | Quais os movimentos que deveriam estar sendo observados no Brasil e que seriam tão importantes como o que acontece em Milão? LL | É cedo para termos uma macro visão disso. Na Itália o movimento em prol do design industrial foi pioneira e já dura várias décadas e teve a ADI (Associação italiana do desenho industrial) como principal articulador. No Brasil, ainda é um processo recente, mas que tem amadurecido rapidamente. Observem a criação da recente Associação Brasileira de Designers Industriais que começou no Rio de Janeiro. Feita nos 16 Jornal Design | Serra

mesmos moldes da ADI, seus afiliados não são apenas designers industriais, mas também fabricantes, empresários, lojistas, jornalistas – que cobrem todo o espectro dessa cadeia produtiva.

Vidigal Poltrona

JD | Quais as principais fontes de inspiração para o trabalho de vocês? LL | Tudo a nossa volta pode nos dar ideias – assim funciona o olhar treinado do designer. Sem dúvida o Rio de Janeiro tem sido uma das maiores fontes de inspiração para nós desde as primeiras peças, mas procuramos buscar respostas em outras disciplinas, como literatura, artes plásticas, música, arquitetura, gastronomia. Essas referências são menos processadas - se buscássemos inspiração diretamente em outros móveis, atingiríamos resultados menos originais. JD | Na sua opinião, como tem sido a relação entre o profissional de design e a indústria?

Cortina Aparador

Design: Leonardo Lattavo e Pedro Moog, 2007 Inspirado na obra de Hélio Oiticica, como os Penetráveis e o Parangolés, este armário faz uso de uma cortina de fios sintéticos que substituem as convencionais portas e cria uma nova relação do usuário com o armário – uma relação mais tátil, mais sensual.

LL | No Brasil essa relação ainda deve amadurecer, mas esse processo já começou. Os industriais começam a dar valor ao design por perceber os vantajosos ganhos, tangíveis e intangíveis, que esses investimentos têm gerado para seus negócios. Muita coisa ainda precisa melhorar, mas vemos esse processo de uma perspectiva bastante otimista.

Design: Leonardo Lattavo e Pedro Moog, 2007 Esta poltrona é resultado de experiências diversas com tramados de fibra de taboa. No projeto da Poltrona Vidigal, procuramos explorar as inúmeras possibilidades de texturas e contrastes que o manuseio da trama de taboa pode oferecer. A peça foi projetada para uso em varandas e faz parte de uma coleção desenvolvida para a empresa carioca Vimoso que leva os nomes das praias do estado do Rio de Janeiro. Outras peças da coleção ´Praias Cariocas´ são o Sofá Itaguaçu, cadeira Marambaia, Poltrona Joatinga, cadeira Urca. A taboa (Typha domingensis) é uma planta aquática abundante no Brasil e típica de manguezais, várzeas e outros espelhos de águas. É uma planta depuradora de águas poluídas, que absorve metais pesados e é altamente adaptável, encontra-se espalhada por todo o mundo, e em algumas partes é até mesmo considerada uma praga.

JD | Para vocês, qual o principal desafio do Design Brasileiro? LL | É um dever de todos os profissionais ligados ao design procurar levantar a qualidade do produto industrial brasileiro e contribuir para o estabelecimento de novos patamares críticos da população em relação ao design, arte, sustentabilidade, arquitetura e cultura em geral. JD | Para vocês, qual é a contribuição do polo de Bento Gonçalves para o design brasileiro? LL | O Polo moveleiro de Bento Gonçalves vem se afirmando como o maior e mais importante do Brasil. Essa posição traz também a responsabilidade tomar a dianteira no cenário do design nacional. Temos visto inúmeras iniciativas positivas em relação a isso, principalmente o Salão Casa Brasil, que apresenta incríveis melhorias a cada edição. Ainda faltam muitas empresas de Bento entenderem a cultura do design e implementá-la dentro de suas fábricas. Mas é uma questão de tempo até que todas as empresas comprem a causa, já que são visíveis os resultados positivos das empresas que tomaram a dianteira no investimento em design.

São Cristóvão Mesa de Centro

Design: Leonardo Lattavo e Pedro Moog, 2007 Série de móveis constituída por mesa lateral, mesa de centro e aparador tem como referência os gradis de janelas encontrados nas casas e subúrbios de diversas cidades do Brasil. Os gradis de janela, como os utilizados nesta série foram muito difundidos durante os anos 60 e 70 e são uma derivação das grades e guarda-corpos de ferro fundido presentes na arquitetura dos períodos precedentes. Hoje eles que são associados aos subúrbios das cidades brasileiras e à classe média-baixa. Neste projeto acreditamos ter conseguido elevar a estética desses gradis a ponto de serem considerados objetos de desejo. Esperamos também poder ter dado alguma contribuição para a recuperação de um precioso valor estético local que, como muitos outros, está caindo em esquecimento. Foi selecionada para a mostra Brasil é Cosi que aconteceu durante o salão do móvel de Milão de 2009.

Ipanema Poltrona

Design: Leonardo Lattavo e Pedro Moog, 2007 Esta poltrona foi projetada para uso em varandas e se apresenta em duas versões, ambas inspiradas em dois dos maiores ícones da arquitetura carioca: Os calçadões de pedra portuguesa das praias de Ipanema e Copacabana. As poltronas são constituídas por 3 partes: A base de tubo de aço virado; as duas faixas de couro que sustentam as peças de madeira e os módulos de madeira maciça que constituem o assento e encosto. O sistema completo, depois de montado, resulta em uma poltrona de assento e encosto flexíveis. casa

Edição 14  

Especial noivas

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