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Sobre tatuagens e servidão voluntária

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ossos corpos são corpos marcados, cobertos de marcas Tenho pintas e cicatrizes, fruto da reação de resistência da pele ao sol e a fortuitos cortes e pancadas que a vida nos traz. Não tenho celulites, mas somente algumas estrias provocadas pelo rápido crescimento muscular (minhas medalhas particulares). Não tenho tatuagens, embora queira muito fazer. Poderia já ter feito? Sim, sem dúvida. Por que não fiz? Porque não sei qual desenho ou inscrição levarei na pele a vida toda. Uma coisa são as marcas do acaso, outra totalmente diferente é a forma que podemos projetar e voluntariamente, decidir seu destino. Já pensei em frases de Nietzsche e Fernando Pessoa, palavras de ordem dos gladiadores romanos, símbolos hindus e budistas, notações matemáticas, formas da natureza como fractais e flocos de neve, símbolos do zodíaco, da alquimia, da umbanda, laços celtas, anjos e arcanjos (meu preferido é São Miguel), fora os tradicionais desenhos maoris e toda a ordem de pictogramas tribais. Já pensei inclusive em delinear e destacar as veias azuis que a pele encobre. Acho que começarei tatuando meu próprio símbolo “dop”. Porém, entre as marcas da vontade e do acaso, nos-

so corpo serve de suporte para outras marcas. Elas também cobrem o corpo, articulam-no, mobilizam-no, porém, não como conjunto móvel de órgãos sujeito às intempéries, mas como tela, tela movente, outdoor ambulante. Somos marcados não pelo acaso nem pela nossa vontade, mas pela vontade de outrem. Aceitamos passivamente essa marcação como animais de corte? Caso sim, essas marcas agem como forças da natureza contra as quais não há reação possível – elas se tornam marcas do acaso. Caso não, ativamos nossa vontade em participar dessa marcação e, deliberadamente, tornamo-nos co-produtores dessas marcas. Toda marca sabe que a melhor forma de publicidade é o próprio produto, pois, além de ser comprado, ele é ostentado, brilhando aos olhos não só de quem o possui, mas de quem é atingido em seu raio de per-

cepção pela reluzente marca que este produto traz. Assim, as ruas se tornam passarelas, os corpos se tornam modelos, os produtos, placas, e a realidade, uma supertela, vitrine onde a vida passa. Portanto, a pergunta que não quer calar: entre as marcas do acaso, da nossa vontade e da vontade dos outros, desejamos, no fundo, viver em Matrix?

Douglas Pastore

Coord. Design Gráfico UCS

10 Jornal Design | Serra

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Edição 14  

Especial noivas

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