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Bom Despacho (MG), 12 a 18 Agosto 2018

DESTAQUE

Chegou a Temporada das Mágicas FERNANDO CABRAL Fernando Cabral é advogado, auditor federal e prefeito de BD

Quinta-feira a TV Bandeirantes realizou um debate entre 8 candidatos à presidência. Quem teve paciência e insônia suficiente para ficar acordado até tarde ouviu análises superficiais, propostas tolas, ideias mirabolantes e, de raro em raro, alguma coisa aproveitável. Mas, uma das coisas que chamou atenção foi uma renque de soluções fáceis para problemas difíceis que nos assolam há décadas e séculos. Tudo misturado a um festival de obviedades e infantilidades.

Em agosto temos a temporada dos ventos e dos papagaios. Em setembro, temos a temporada das flores e do renascimento. Em dezembro temos temporada das chuvas, das festas, das praias. Esta sucessão infinita foi magistralmente registrada pelo Eclesiastes há mais de 2.000 anos: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Assim é. Este mês, no Brasil entramos no tempo das eleições. Abriu-se a temporada da caça aos votos que acontece a cada dois anos. E a primeira amostra que tivemos traz mais do mesmo: políticos que oferecem soluções simples para problemas muito, muito complexos. Isto nunca ajudou a melhorar nosso país, mas muitas vezes funcionou para eleger incompetentes e desonestos. Funcionará mais uma uma vez?

Primeiro, a tautologia: para acabar com o desemprego, o candidato afirma que é preciso “botar trabalho para o povo”. Bá! Então, para acabar com o desemprego precisamos de trabalho? Em seguida o candidato garante que depois que “botar trabalho para o povo”, o “mercado vai se abrir e nós vamos empregar esse povo.”. É o trabalho que vai abrir o mercado ou é a abertura de mercado que trará o emprego? É o famoso pensamento circular. O candidato patinha, patinha, mas não sai do lugar. O cachorro que corre atrás do rabo. Mas a confusão que ele faz entre educação e geração de emprego não é menor. Educação é palavra mágica que todo candidato pronuncia

Assim como o fazendeiro não deve colocar no lombo do burrinho mais peso do que ele pode carregar, o governo também não deve colocar sobre os ombros do contribuinte mais impostos do que ele pode pagar. Se isto acontecer, o empresário não terá como investir e gerar emprego e o cidadão não terá como pagar os impostos. O governo que queria receber mais, acabará recebendo menos. Mas há dois problemas na referência do candidato à Curva de Laffer. O primeiro é que no Brasil, os tributos representam 34% do PIB. Portanto, estamos muito longe dos 70% que muitos economistas acreditam ser o limite (São comuns países que cobram impostos que somam mais de 50% do PIB). Assim, a justificativa simplória da Curva de Laffer não se aplica ao Brasil.

O desconhecido Cabo Daciolo, do Patriota, foi o campeão em simplismo e arrogância. Arrogância na convicção de que seu desejo pessoal resolve problemas e simplismo de quem não entende patavina de política, economia, direito ou qualquer outra coisa que se espera de um candidato à presidência. Quando perguntado sobre a forma de resolver o problema do desemprego, ele despejou um balde de truísmos combinados com tolices, redundâncias e tautologias. Algo no estilo: “[para acabar com o desemprego ] “tem que investir em educação, botar trabalho para o povo, mexer em educação, entrar em ciência e tecnologia e institutos federais. Capacitar e preparar a mão de obra e, a partir daí, baixo os juros, retiro os impostos e isso vai oxigenar o país. Automaticamente, o mercado vai se abrir e nós vamos empregar esse povo.”

no peso, chegará uma hora em que o burrinho não dará conta da carga e empacará. Empacado, o burrinho não levará o queijo à feira e o roceiro ficará sem dinheiro.

Da esquerda para a direita estão Álvaro Dias, Cabo Daciolo, Geraldo Alckmin e Marina Silva (em cima), Jair Bolsonaro, Guilherme Boulos, Henrique Meirelles e Ciro Gomes (embaixo).

repetidamente na temporada de caça aos votos. O problema, neste caso, é achar que investimento em educação resolverá o problema do desemprego que hoje assola 13 milhões de brasileiros. Ninguém duvida que investimento em educação é essencial para o país avançar. No entanto, do nascimento à formação de um mestre, um doutor, ou mesmo um graduado em universidade nós levamos 25 anos. Os desempregados não podem esperar tanto. Portanto, é tolice propor a educação como caminho para resolver o problema dos nossos desempregados que precisam de emprego agora. Precisamos investir em educação. Mas precisamos ter um plano independente para gerar empregos imediatos. Isto mostra que o leitor precisa ficar alerta com os discursos que misturam assuntos e confundem nossas mentes. O desemprego será tema central das campanhas. Todos os candidatos tratarão do assunto. Mas quais apresentarão propostas factíveis, realistas, baseadas na economia que temos e nas limitações que sofremos? Outro problema que se vê neste e em outros candidatos é o voluntarismo e o

personalismo. A ideia de que o presidente tudo pode. É o que ele dá a entender quando afirma “a partir daí, baixo os juros, retiro os impostos e isso vai oxigenar o país. Automaticamente, o mercado vai se abrir e nós vamos empregar esse povo.” O candidato e o eleitor precisam ter em mente que vivemos numa república com poder tripartite. O presidente tem apenas uma parcela do poder. Outras duas estão com o legislativo e com o judiciário. O presidente pouco fará se não houver concordância, complacência ou compra pura e simples destes poderes. Mais relevante, porém, é a primazia da realidade. Por exemplo, baixar juros não depende da pura vontade do presidente. Se dependesse, todos teriam feito isto. Baixar juros depende, em especial, do aumento de competição no sistema financeiro, do controle da inflação, do crescimento da poupança. Bons planos podem melhorar tudo isto, mas nenhum presidente terá resultados só com bravatas e fanfarronices. Mistificação Candidatos querem parecer sabidos. Nesta linha ninguém ganha de Ciro Gomes. O sabichão emérito da corrida presidencial. Com boa

formação acadêmica, mostra conhecimento de forma crível. O mesmo não acontece com o Cabo Daciolo, cujos conhecimentos acadêmicos mostram-se paupérrimos. Por isto, apenas destacou sua ignorância quanto tentou mostrar conhecimentos que não tem. Deitou falação sobre juros, combustíveis, desemprego, mercado exterior, investimentos públicos. Com cada tópico deixou claro o tanto que não sabe. Mas seu tropeço maior foi quando, tentando apropriarse de termos da moda e jargões que não domina, amparou-se na “Curva de Laffer” para demonstrar que vai aumentar a arrecadação diminuindo os impostos. Poucos eleitores sabem o que é Curva de Laffer. Será que ficaram impressionados com tal referência? A Curva de Laffer é um dispositivo teórico que os economistas usam para indicar que os governos só podem aumentar os impostos até certo ponto. Depois deste “certo ponto”, aumentos adicionais causam perdas e não ganhos. É como o roceiro que transporta queijo no lombo do burrinho. Quanto mais queijo ele coloca no balaio, mais queijo ele leva para a feira e mais dinheiro ele ganha. Mas, se ele exagerar

O segundo problema é que quem discute rótulos e modelos teóricos num debate de televisão está, na verdade, fugindo de sua obrigação de dizer de forma clara e simples como se propõe a resolver os infinitos problemas que o eleitor quer ver resolvidos. Foi isto que este candidato e outros fizeram: fugiram das respostas que os eleitores queriam. Por coisas assim, após ouvir os 8 candidatos, nos lembramos outra vez do Eclesiastes, o pregador, filho de Davi e rei em Jerusalém: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” Assim tem sido nossa política: uma eterna repetição de temporadas onde o novo quase sempre já nos chega velho e rançoso. Por enquanto, nada inovador no discurso dos candidatos.

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Jornal de Negócios - Bom Despacho (MG)  

Jornal semanal publicado na cidade de Bom Despacho (MG), Brasil, desde 1988.

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