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Foto: Victor Henriques

Comportamento

pág. 11

Vilas de sustentabilidade em Juiz de Fora Ecovila Viva! e Nécta Boards: ações de preservação do meio ambiente mobilizam grupos da cidade e incentivam a melhor utilização dos recursos naturais.

Jornal de Estudo

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da UFJF | Juiz de Fora, Junho de 2011 | Ano 46 | Nº 214

Cidade

Especial

pág. 4

Golpes financeiros assustam consumidores em Juiz de Fora

Segundo Procon, número de reclamações até o mês de maio já superou o registrado no mesmo período do ano passado.

Política

pág. 6 e 7

Assembleia discute ações para o desenvolvimento econômico da Zona da Mata

Foto: Divulgação

pág. 5

Câmara investiga fraudes em radares eletrônicos Consultor contratado por vereadores afirma que 11 dos 13 radares instalados na cidade apresentam irregularidades.

Cultura

pág. 12

Eles que fazem a festa pelo país afora Juiz-foranos que levam a vida como palhaços animadores de festas se destacam no cenário circense brasileiro.

Para reverter tendência de declínio econômico na região, a assembleia criou uma Agenda Regional de Desenvolvimento visando atrair investidores e desenvolver infraestrutura em busca de

crescimento. Entre 2011 e 2012, Juiz de Fora vai receber novos investimentos, como o Parque Tecnológico , que juntos vão gerar 6.680 novas vagas de emprego na cidade.

Pesquisa

Campus pág. 3

Esporte pág. 10

pág. 8

Partidas de futebol em três dimensões

Mosaico é premiado no Intercom Sudeste

Pendurados pelas praças e parques

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Projeto pioneiro desenvolvido por professores da UFJF pesquisa tecnologia para a transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2014 em 3D e alta definição.

Programa produzido por estudantes da Faculdade de Comunicação da UFJF concorre ao prêmio nacional na categoria telejornal em congresso que será realizado em setembro.

Esportes urbanos, como slackline e parkour, vêm conquistando espaço entre os juiz-foranos. Baixo custo de equipamentos e abundância de locais incentiva o crescimento.


2 Opinião

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Editorial

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e você mora em Juiz de Fora, certamente já se perguntou, em algum momento, por onde anda o progresso que por tanto tempo “morou” na cidade. Ele está nos livros, nas histórias de famílias, na arquitetura, mas um pouco sumido dos olhos dos juiz-foranos. O desenvolvimento da Zona da Mata se deu a partir das décadas de 1930 e 1950, quando as principais decisões políticas e econômicas do país eram tomadas no Rio de Janeiro. E por isso, indústrias e comércios começaram a ser instalados na jovem Juiz de Fora. A construção da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em 1960, atraiu e empregou estudantes, potencializando o consumo de bens e serviços no município e estimulando o debate político e a consolidação da região no cenário intelectual e cultural do país. Mas se tais indústrias, comércios, universidade e instituições continuam a existir e a aumentar em número, por que falamos em declínio socioeconômico? O ritmo de crescimento diminuiu. Juiz de Fora hoje é “mãe adotiva” de cidades vizinhas órfãs e carentes de serviços básicos, absorven-

Fraudes bancárias do, portanto, suas demandas de saúde, educação e lazer. Então, além de seus quase 600 mil habitantes ainda presta atendimento a essa população flutuante. E se antes a proximidade com o Rio era vantajosa, por trazer movimentação financeira e de pessoas, atualmente ela prejudica. Juiz de Fora tem perdido a guerra fiscal com as cidades fluminenses que oferecem impostos mais baratos que os mineiros. Surge então uma questão importante para nós, juiz-foranos. Quando teremos um desenvolvimento sustentável para a cidade? Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado à continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana. Ou seja, Juiz de Fora só poderá se considerar sustentável quando conseguir dar continuidade ao seu desenvolvimento de outrora e de hoje, para que seus habitantes futuros também possam usufruir e aprender a conservar e passar adiante. Isso inclui as gestões municipais, os órgãos públicos em geral e a consciência urbana, a principal engrenagem de tudo isso.

Artigo Um trabalho de todos nós

O crack não pode ser comum Claro que há exceções. Alguns órgãos atuam na cidade com recuperação e prevenção ao uso de drogas, stamos diante de um novo mal o que é um trabalho louvável. Mas reque assola a população. O crack cuperar dependentes de crack tornounão atinge apenas os seus usuários, se um problema de maior gravidade mas sim toda a sociedade. O medo da do que os que eram enfrentados com violência, as áreas que passam a ser outras drogas, pelo poder viciante da de domínio exclusivo dos usuários e substância. o dinheiro público As recaídas são empregado na recucomuns, e é pequena “A situação precisa a parcela de usuários peração, atendimento e tratamento de usu- de uma solução rápi- que consegue efetivada, antes que o con- mente parar, nem que ários fazem com que o problema seja de sumo da droga seja seja por alguns dias. todos nós. A situação precisa incorporado ao senso Mas a situação uma solução rápida, comum da sociedade, de atual encontra-se em antes que o consumo suspenso por razão como já ocorreu com da droga seja incorpodrogas mais leves” rado ao senso comum de duas perguntas que não se sabe a resposda sociedade, como já ta: De quem é a culpa? Como resolver ocorreu com drogas mais leves. Sem o problema? As opiniões divergem, que se perceba, vamos considerando a mas nenhuma é conclusiva. Muitos situação cada vez mais comum e parte defendem que os usuários não podem do dia a dia, até que paramos de nos ser tratados como criminosos. Mas trá- importar. fico é crime e não foram encontradas As dificuldades existem, mas pesmaneiras de coibi-lo. soas são pagas para encontrar soluções O acesso à droga é fácil e barato, e tomar atitudes, e isso deve ser feito o que leva a um maior número de de- com rapidez. Até que se encontre uma pendentes. A fiscalização do acesso à solução efetiva, o primeiro passo é a droga é difícil e cara, o que leva à uma indignação e a cobrança por atitudes. situação de conformismo, mesmo que “Cracolândia” não pode se tornar mascarado de indignação. nome oficial de bairro. Bruna Pfeiffer Rafael Simão

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Amanda Antunes Laís Mesquita

A

princípio, quem escuta falar sobre ecovilas e não sabe do que se trata, pensa logo em algo natural e ecológico. Seguindo por esse raciocínio imaginamos que as ecovilas são comunidades rústicas, que não oferecem conforto algum aos moradores do lugar, e que, principalmente, não contam com o aparato da tecnologia, tão presente nas sociedades atuais. Pois esse pensamento está bastante equivocado. Quando conhecemos a proposta das ecovilas, notamos que, na verdade, trata-se de uma busca por novas técnicas que permitam a construção de uma comunidade utilizando recursos sustentáveis. Para isso, muitas pesquisas são realizadas com o intuito de desenvolver novas tecnologias. O foco daqueles que vivem nas ecovilas está na preocupação com o meio ambiente, tema muito discutido atualmente, mas pouco colocado em prática pela maioria. Os moradores procuram viver sem desperdícios, principalmente no que diz respeito aos recursos naturais e ao lixo. Além disso, as construções são feitas com materiais que agridem menos o meio ambiente e há o uso de fontes de energia renováveis.

Agora, você já pensou nas dificuldades de se alcançar esses objetivos? As ecovilas estão apoiadas em um modo de pensar que enxerga além da atual etapa de desenvolvimento na qual estamos inseridos. Ou seja: um pensamento que, mais do que dimensionar as consequências provocadas pela ação do homem sobre o meio ambiente, leva esses visionários a buscarem soluções e tomarem atitudes em relação a isso. Filosofia muito coerente e bonita. Mas não deixa de ser um desafio. Vivemos em um mundo baseado no consumismo que, na maioria das vezes, vem acompanhado pelo desperdício. Então como manter nesse sistema um “microssistema” baseado no reaproveitamento de recursos e na troca de favores? Seria necessário uma reconfiguração de valores éticos? Inserir nas escolas aulas sobre generosidade? Acho que não. Quem me deu a resposta? Está escrita nas mãos de cada uma das pessoas que se propuseram a contribuir de forma efetiva para a preservação da nossa vida. Não é um enfrentamento fácil, mas necessário e possível. Triste é pensar que muitos podem acabar sendo beneficiados com o grande trabalho de poucos. Mas ao mesmo tempo, é bom pensar que talvez todos nós sejamos beneficiados com um trabalho mínimo de cada um.

Expediente Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora Produzido pelos alunos de Técnica de Produção em Jornalismo Impresso Reitor: Prof. Dr. Henrique Duque de Miranda Chaves Filho Vice-Reitor: Prof. Dr. José Luiz Rezende Pereira Diretora da Faculdade de Comunicação: Profª. Drª. Marise Pimentel Mendes Vice-Diretor da Faculdade de Comunicação: Prof. Dr. Paulo Roberto Figueira Leal Coordenador da Faculdade de Comunicação diurno: Profª. Ms. Letícia Barbosa Torres Americano Coordenadora da Faculdade de Comunicação noturno: Profª. Ms. Eduardo Sérgio Leão de Souza

Chefe do Dept. de Jornalismo: Profº. Drº. Boanerges Balbino Lopes Filho Professores orientadores: Prof. Dr. Wedencley Alves, Profª. Ms. Janaina Nunes, Profª. Ms. Simone Martins Estágio docência: Flávia Lopes Tiragem: 1.000 exemplares Endereço: Campus Universitário de Martelos, s/n – Bairro Martelos 36036-900 Telefones: (32) 2102-3601 / 2102-3602

Projeto Gráfico: Karolina Vargas e Poliana Cabral Monitoria: Felipe Zschaber Reportagem e Diagramação: Amanda Antunes, Ana Luiza Maia, Bruna Pfeiffer, Camila Guedes,Guilherme Landim, José Renato Lima, Laís Mesquita, Lorena Goretti, Mariana Brandão, Paula Duarte, Rafael Melo, Rafael Simão, Rayan Siqueira, Thauan Monteiro, Andréia Oliveira, Carlos Alexandre, Diego Casanovas, Edmo Olavo, Fred Castro, Gustavo Araújo, Janaina Morais, Luiza Sansão, Mariana Melo, Naira Gabry, Rafael Rezende, Renato Itaboray, Tainá Costa e Victor Henriques


Campus 3

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Mosaico é premiado em congresso regional Desenvolvido pela produtora de Multimeios da Facom, programa concorre a prêmio nacional do Intercom 2011 Luiza Sansão

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projeto de resgate da história dos bairros de Juiz de Fora por meio das pessoas que a construíram rendeu à Produtora de Multimeios da Faculdade de Comunicação da UFJF uma premiação no Intercom Sudeste 2011, em São Paulo. O programa, que mostrou os principais aspectos da Avenida Rio Branco, venceu na categoria telejornal do Expocom, em que concorreu com vídeo produzido por estudantes do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Viçosa (UFV). foi produzido por bolsistas da produtora. Representando a Região Sudeste, o programa também pode ser premiado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Intercom Nacional, que ocorre entre os dias 2 e 6 de setembro, em Recife. O apresentador do programa e estudante de comunicação, Mário Braga, 23 anos, diz que a produção diferenciada e a possibilidade de novas experimentações estimulou a equipe a inscrever o trabalho no congresso. “Foi diferente dos programas que estávamos acostumados a produzir. E, por ser um dos últimos que fizemos no ano de 2010, a equipe já estava mais madura. Conseguimos experimentar coisas novas até mesmo na estética e na narração da história da avenida.”

Braga destaca a importância do prêmio para a Facom, que, segundo ele, ganha mais visibilidade no país. “Acho que vale para registrar um pouco a trajetória do programa e dar credibilidade e visibilidade à Facom e à UFJF. E vale para mostrar que o Mosaico é uma oportunidade para os estudantes se formarem tecnicamente e irem para o mercado, tornandose, muitas vezes, profissionais de sucesso na televisão brasileira.”, diz o estudante, que estagia hoje na TV Alterosa, filial mineira do SBT. Para ele, o prêmio serviu também como estímulo para que a Produtora envie mais trabalhos para congressos de comunicação. A história do programa O Mosaico surgiu em 2006, quando o professor Márcio Guerra reassumiu a Produtora de Multimeios da Faculdade de Comunicação e propôs que os bolsistas produzissem um programa que mostrasse os bairros de Juiz de Fora e abordasse questões culturais relativas à identidade de cada localidade, com suas singularidades e personagens. “O bairro seria mostrado não por seus problemas, porque disso o jornalismo diário já dá conta. A gente queria buscar as coisas diferentes, aspectos culturais, personagens, pessoas interessantes que conhecessem a história dos bairros da cidade, sem que houvesse qualquer conotação política, qualquer tipo

Foto: Angélica Simeão

Márcio Guerra, idealizador do programa, destaca importância de dar voz aos moradores

de interesse pessoal. E é isso que a gente tem feito até agora”, conta o professor. Após a determinação, em conjunto com os alunos, sobre qual seria o formato do Mosaico, Guerra se reuniu com os então administradores da TVE, Josino Aragão e Jovino Quintela, levando aos mesmos a ideia de uma parceria, que teve início já naquela ocasião. “Logo de começo, tanto o Bahamas quanto a Unimed se tornaram patrocinadores do programa, e aí a gente conseguiu fazer, com o mínimo do mínimo, o essencial pra colocar o programa no ar toda semana. O que aconteceu já no primeiro programa, em 2006”, lembra Márcio Guerra. A relação com o público Logo o programa caiu no gosto dos telespectadores juizforanos, que demonstraram sa-

tisfação em ver aspectos de seu bairro e de sua cidade narrados e valorizados na telinha. Em pesquisa feita pela TVE há dois anos, o Mosaico aparecia como o segundo programa de maior audiência, perdendo apenas para o Mesa de Debates. Márcio Guerra explica o sucesso: “As pessoas querem saber mais sobre sua cidade. Hoje a gente tem algumas escolas que requisitam cópias do Mosaico para aulas de História; alunos de diversos cursos que vêm aqui pegar o programa para fazer estudos. Então acho que a gente está contribuindo para a preservação da memória de Juiz de Fora e para buscar uma identidade que, muitas vezes, está escondida, porque a gente dá voz pra quem não tem voz. Esse é o propósito do Mosaico”. A possibilidade de mostrar as particularidades dos bairros

e as pessoas que constroem a história de suas localidades é outro pronto destacado pelo professor. “O Mosaico foi sendo reconhecido como um programa que dá voz às comunidades, sem estar ligado a acontecimentos ruins e tragédias, que são as formas como elas aparecem hoje nos telejornais. A diferença é essa, ele visita a cidade para saber como ela é no cotidiano. Acho que é isso que encanta as pessoas: verem a si mesmas e os projetos dos quais participam na televisão”, diz Mário Braga. A aposentada Marli Oliveira Batista, 66, acompanha o programa desde a sua primeira exibição e é sua maior admiradora. “O Mosaico me faz feliz, me faz sorrir. Sou a fã número um do programa”, diz. Ela conta que, como cidadã juiz-forana, sente-se representada pelo Mosaico e elogia a atuação dos repórteres. “O bairro que eu mais gostei de ver até hoje foi o Granbery. O Márcio Guerra participou diretamente do programa, contando a vida dele no bairro e no colégio Granbery, e eu me emocionei muito. O programa me comoveu tanto que eu chorei”, conta a moradora da Avenida Rio Branco, retratada no vídeo premiado no Intercom Sudeste 2011. Braga conta que, através do Mosaico, passou a conhecer melhor a cidade. “A gente vive só num canto ou outro da cidade, e aí, de repente, conhece coisas que de fato não imagina.”

Magrone atribui vagas ociosas a problemas no Enem Para pró-reitor, falta de divulgação de bacharelados também contribuiu para aumento das vagas excedentes Foto: Alexandre Dornelas/UFJF

Naira Gabry

A UFJF oferece atualmente trinta e oito cursos superiores. Na última edição dos programas vestibular e Pism, ofereceu 3.401 oportunidades aos estudantes interessados em ingressar no ensino superior público. Porém, mesmo com alto índice de concorrência – que chegou a 68,11 candidatos/vaga no curso de medicina (vestibular, grupo C) – a instituição registrou alto índice de desistência. Ao todo, 592 vagas não foram preenchidas após a primeira chamada do vestibular e do Pism. O número corresponde a mais de 17% do total e é maior que os de anos anteriores. Em 2010, as vagas ociosas chegaram a 467. Já em 2009, houve 400 oportunidades excedentes. Para o pró-reitor de graduação, Eduardo Magrone, a falta de divulgação dos bacharelados interdisciplinares é um dos motivos para a baixa procura desses cursos, assim como os problemas na última edição do Enem.

Jornal de Estudos: Qual o motivo desse grande número de vagas excedentes? Eduardo Magrone: O fator conjuntural talvez tenha prevalecido nesse último processo. Nós demoramos a liberar nosso resultado do processo seletivo em virtude do Enem ser a primeira fase e os problemas que decorreram do exame nacional acabaram jogando para fevereiro o resultado final do processo seletivo. E muitos candidatos que passaram na nossa instituição já haviam sido chamados por outras universidades, fazendo com que muitas dessas vagas não fossem preenchidas.

Outro fator diz respeito à fraca divulgação dos cursos novos, onde até a proposta do curso, que é diferenciada, foi divulgada da forma convencional. Esses foram divulgados nas mesmas proporções dos cursos já conhecidos e consolidados da universidade. Uma divulgação mais específica, mostrando a proposta do curso, facilitaria o preenchimento dessas vagas. Ainda é preciso levar em consideração a mudança no cenário universitário nacional. O candidato preparado está exigente e quer saber a proposta do curso, o que a universidade oferece.

54% das vagas de ensino superior não são preenchidas. Isso mostra uma inadequação do ensino superior ao interesse e à demanda dos candidatos

J.E: Então a pouca divulgação sobre a proposta dos cursos, no caso de bacharelado em Humanas e no curso de Ciências Exatas, podem ter provocado a grande quantidade de vagas excedentes nesses cursos? E.M: Esse fator pode ocorrer, mas é muito superficial.

Esses cursos estão contestando uma prática tradicional de ensino, e têm um desenho mais próximo da demanda dos cursos superiores no mundo. A tendência hoje não é de apenas enxergar a universidade como um espaço de formação profissional, mas também um espaço de debate de ideias, de aprofundar a formação geral proporcionada no ensino médio, proporcionar um estudo interdisciplinar. O aluno deve buscar uma formação mais ativa em relação a sua experiência acadêmica. A universidade não pode ser concebida apenas como um lugar onde o aluno vai receber conhecimento e depois a certificação profissional. A proposta é que o aluno possa sair daqui capaz de gerenciar seu próprio conhecimento. J.E: A UFJF tem buscado alternativas para facilitar o preenchimento dessas vagas? E.M: O primeiro passo é divulgar esses cursos. O aluno precisa enxergar as possibilidades que ele terá no segundo ciclo do curso. Quem cursa Ciências Exatas precisa saber que pode continuar seus estudos e

se formar em engenharia mecatrônica ou ciências da computação, por exemplo. A divulgação é fundamental. Precisamos trabalhar todos os conceitos e preconceitos que envolvem esses cursos, pois acabamos contestando uma indústria de cursinhos. Precisamos avaliar e adaptar esses cursos para que eles tenham uma maior visibilidade do que têm hoje. J.E: Essa situação de grande número de vagas excedentes também acontece em outras Instituições? E.M: Isso vem acontecendo no país todo. Consideramos dois fatores: o primeiro é que a demanda pelas vagas em instituições federais vem diminuindo, graças ao Prouni e à educação a distância das particulares. Essa situação já vem acontecendo há mais ou menos dez anos. A outra é que o censo da educação em 2008 mostrou que 54% das vagas de ensino superior (público e privado) não são preenchidas. Isso pode estar mostrando uma inadequação do ensino superior ao interesse e à demanda dos candidatos.


4 Cidade

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Fraudes bancárias aumentam 30% em 2011

Segundo Procon de Juiz de Fora, reclamações de cobrança indevida no cartão cresceu 15% de janeiro a maio

José Renato Lima Thauan Monteiro

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os últimos anos houve no Brasil um grande aumento no uso dos cartões de crédito. Juiz de Fora registrou do dia 1º de janeiro deste ano até o dia 25 de maio, 684 casos de cobrança indevida de cartão de crédito. No mesmo período do ano passado, foram registrados 595 casos, um aumento de 15%. O volume do chamado “dinheiro plástico” em um período de cinco anos aumentou 94,9% no país e essa tendência gerou consequências. Mais dinheiro se movimenta e mais criminosos voltam os olhos para o mercado de crédito. Segundo pesquisa da empresa americana ACI Worldwide, fraudes bancárias crescem proporcionalmente ao aumento das transações financeiras. No Brasil o aumento já é de 30% em 2011. Fraudes bancárias são golpes em que os criminosos usam documentos, cartões e senhas de outras pessoas para sacar o seu dinheiro. O crime pode ser efetuado por transações pela internet, clonagem de cartão de crédito, roubo de identidade ou fraude com cheques. Muitas vezes o lesado é surpreendido

ao ver seu boleto com valores alterados. Foi o susto que levou a contadora Carmen Rodrigues, 51, quando verificou sua conta. “Eu passei o cheque pré-datado num supermercado e ele entrou em um dia diferente do que eu estipulei, com o valor completamente errado. O gerente constatou que foi clonado” conta. Ser vítima da fraude, mesmo tomando os cuidados necessários, é o grande medo dos consumidores. Segundo a mesma pesquisa da ACI Worldwide, apenas 2% dos usuários de crédito têm medo de fraudes nos cheques. “Eu sempre dei cheque e é a primeira vez que aconteceu. Agora eu fico com um pé atrás, vou ficar um bom tempo sem usar”, ressalta Carmen. Como se proteger? Especialistas em segurança afirmam que a maior fragilidade do consumidor é a internet. São distribuídos diariamente muitos e-mails mal intencionados, atraindo a vítima para um clique que pode roubar sua senha. Alguns criminosos criam sites falsos com o fim de enganar o usuário e colher seu código. Outro meio muito utili-

zado é o telefone. Deve-se sempre suspeitar de ligações em que estranhos pedem dados pessoais como CPF, RG e número do cartão. Gerente geral do banco Santander, José Carlos Stensi, alerta os cliente a respeito da segurança da sua conta. “Jamais devemos passar nossa senha por telefone ou por e-mail. A senha é pessoal e intransferível. O banco já possui todos os dados do cliente e nunca faz recadastro ou atualiza informações pela internet. Na dúvida, o cliente deve sempre ligar para banco”. Stensi também orienta a acompanhar visualmente a operação com o seu cartão, quando estiver em um estabelecimento comercial. “Alguns podem ter dispositivos para roubar a senha e em consequência produzir a fraude”, explica. Nos cheques, o consumidor deve preencher corretamente os campos e anular os espaços em branco. Além disso, deve tomar cuidado com a guarda do talão, para que ninguém tenha acesso. “Muitos dos casos de uso indevido do dinheiro do cliente partem de membros da própria família. Filhos, netos, parentes próximos, até vizinhos”, ressalta Stensi.

Foto: Thauan Monteiro

A funcionária pública Alice Freesz teve R$ 16 mil roubados após transação pela internet

Em resposta ao crescimento no número de falsificações, os bancos estão produzindo cartões com chips, criando mais dificuldades para a fraude. Ainda assim, quem perceber valores discrepantes na sua conta deve fazer uma carta de contestação e registrar no banco. Outra medida importante é fazer um boletim de ocorrência na polícia para evitar problemas futuros, provando o roubo e isentando a pessoa do risco de sofrer sanções em outras compras. Direitos do consumidor Segundo o superintendente do Procon de Juiz de Fora, Eduardo César Schröder, a clonagem de cartão de crédito e os roubos de senha

pela internet são as duas reclamações mais constantes. Ele ressalta que “desde que o cliente não tenha agido de má-fé, a responsabilidade de ressarcimento é dos bancos. O código de defesa do consumidor é claro nesse sentido”, explica. Este foi o caso da funcionária pública Alice Freesz. Após fazer uma movimentação bancária pela internet, ela teve R$16 mil reais sacados de sua conta. “O banco me ligou dizendo que em menos de uma hora havia vários saques. Eles me ressarciram porque na movimentação pela internet é garantido segurança total, o que não aconteceu. Depois disto não faço mais transação nenhuma pela internet”.

Terreirão do Samba vira ponto de usuários de crack Movimentação na região próxima à Avenida Brasil incomoda moradores e oferece perigo à população local Foto: Amanda Antunes

“As pessoas acham que aqui é banheiro”, afirmou um funcionário que atua próximo ao local

Amanda Antunes Laís Mesquita

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eguindo a tendência dos grandes centros, o consumo do crack em Juiz de Fora também aumenta. Na região central de Juiz de Fora, próximo ao Terreirão do Samba, um terreno vem sendo usado como depósito de lixo, além de ser ocupado por usuários de drogas. Moradores e pessoas que trabalham próximos ao local observam a movimentação durante todo o dia e afirmam que também são comuns assaltos na região, que já vem sendo chamada de “cracolândia”. Segundo o funcionário de um sindicato que funciona no

local, a situação é problemática. “Ficamos com medo de chamar a polícia porque somos ameaçados por eles. Alguns são trabalhadores honestos, mas muitos usuários de droga estão se misturando a eles para fumar crack”, afirmou. Segundo ele, após às 18h, o local fica escuro e deserto, facilitando a ação dos usuários e também a prostituição. A secretária da Escola Municipal Maria José Vilela, Rosa Maria Duarte, declarou que esse problema não é novo. “Trabalho aqui há seis anos e isso sempre aconteceu. À noite é pior. Mas a imprensa está mostrando uma situação bem pior do que realmente é,

o que acaba apavorando muita gente. É preciso ressaltar que o trabalho da polícia com a Ronda Escolar está sendo essencial para nós”, afirmou. Os policiais militares também atuam na prevenção ao tráfico com os alunos de Ensino Fundamental. O Programa Educacional de Resistências às Drogas (Proerd) tem o objetivo de conscientizar e diminuir a presença das drogas entre os adolescentes. Segundo a capitão da PM Kátia Moraes, o programa dá resultados: “A melhora é visível. Quando a gente encontra um adolescente que fez o Proerd quando era criança, a gente percebe que ele absorveu as informações que passamos e hoje não dá problema algum”. O que procuram os usuários O uso de crack gera toda uma situação social envolvendo usuários, familiares e até mesmo pessoas que não têm ligação direta com a droga. A droga é altamente viciante, além de provocar inúmeros malefícios ao organismo. Os motivos que levam uma pessoa a experimentar o crack geralmente são os mesmos: a

busca por uma substância barata e que produza um efeito rápido. “Geralmente essa iniciação acontece na adolescência por curiosidade em sentir os efeitos e também pela necessidade que o jovem sente de romper com as regras”, afirma o psicólogo Artur Duarte Souza. A realização desse desejo não encontra muitos obstáculos, já que o acesso às drogas é muito fácil. Para Artur, existe ainda um fator que incentiva a realização dessa vontade: a mídia. As propagandas de bebidas alcoólicas e até mesmo filmes e seriados que mostram esse consumo acabam sendo estimulantes. O psicólogo ressalta que, raramente, o crack é a primeira droga experimentada. Na maioria dos casos, o usuário, sem dinheiro para comprar a cocaína, passa a consumir o crack, ou então, a pessoa que já usa outra substância passa a consumir também o crack. Alternativas para dependentes A internação é, para muitos pais, uma tentativa de resolver o problema. Porém, nem sempre é a saída, pois a recupe-

ração exige determinação do usuário. “É muito importante que a família esteja próxima do usuário durante o tratamento, principalmente respeitando suas vontades e ouvindo o que ele tem a dizer”, afirmou a psicóloga Ana Cecília. Depois de anos de sofrimento, brigas e objetos roubados, a mãe de um usuário pediu ajuda ao resto da família para interná-lo. Ele concordou com o tratamento, mas um mês depois, descobriuse que ele estava vendendo drogas para outros pacientes e por isso não poderia mais permanecer no local. “Quando levamos meu filho para a segunda clínica, ele já estava mais relutante. Dois meses depois, ele fugiu do local e desde então não tenho mais notícias dele”, afirmou a mãe. Entre as opções de tratamento está o Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (CAPS-AD), que cuida de pessoas com problemas com álcool e drogas e busca reintegrar o indivíduo à sociedade. No Bairro Santa Efigênia, a Casa de Cultura Evailton Vilela também trabalha na prevenção de drogas, oferecendo atividades de esporte, cultura e lazer.


Política 5

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Empresa de radar acusada de fraudes opera em JF Câmara Municipal iniciou investigações na cidade após denúncias veiculadas no programa Fantástico Foto: Fred Castro

Diego Casanovas Fred Castro

A

Câmara de Juiz de Fora montou uma comissão formada pelos vereadores Luiz Carlos dos Santos (PTC), José Emanuel (PSC) e Isauro Calais (PMN) para investigar a situação dos radares na cidade. A decisão ocorreu após denúncia divulgada no dia 13 de março pelo programa Fantástico, contra a empresa Engebrás. De acordo com a reportagem, empresas ofereciam pagamento de propina a prefeituras do Sul do país na negociação para a instalação de radares fixos e lombadas eletrônicas. A empresa citada na reportagem, é responsável pela administração dos 13 radares espalhados pela cidade. A Câmara Municipal, a pedido da comissão de vereadores, contratou o consultor de engenharia de tráfego José Alberto São Thiago Rodrigues para avaliar a localização dos 13 radares instalados pela Engebrás em

Radares de transito tem causado polêmica em cidades de todo país

Juiz de Fora. Segundo o estudo do consultor, do total, 11 equipamentos apresentam irregularidades com relação à visibilidade. Apenas dois, localizados na Avenida Rio Branco, no bairro Boa Vista, e na Avenida Juscelino Kubitscheck, no bairro Francisco Bernardino, foram considerados corretos. Outro questionamento da Câmara é em relação ao pagamento da Engebrás. Os contratos são baseados em re-

muneração por produtividade, ou seja, quanto mais multas forem aplicadas, mais a empresa recebe. Esse tipo de remuneração é proibida por uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) que entrou em vigor em novembro de 2002. O vereador José Emanuel, que faz parte da comissão que investiga os radares, adiantou que não pretende questionar a importância dos radares. “O que queremos é explicações

sobre como é o contrato com a empresa e como esses radares estão instalados. Estamos cumprindo a obrigação do Legislativo, que é de investigar”. A empresa Engebrás venceu licitação e começou a operar na cidade em maio de 2003. O primeiro contrato vigorou até 2009. Nesse ano, foi lançado novo edital para abertura de licitação, rejeitado pelo Tribunal de Contas do Estado. Desde então, o município tem fechado contratos a cada seis meses com a empresa, de caráter emergencial, sem licitação. Justiça Caso seja comprovada a existência de fraudes, em Juiz de Fora, os motoristas que receberem multas podem recorrer. A advogada Josiane Olga de Oliveira acredita que quem se sentir lesado deve recorrer à Justiça para ressarcimento das multas já pagas. “Se for comprovada a fraude, o motorista que pagou multa deve recorrer à Justiça para pedir o dinheiro de volta, já

que a multa foi gerada por uma ação fraudulenta”. Infrações As multas aplicadas a partir de infrações registradas por equipamentos eletroeletrônicos passam por avaliação de validação da imagem, e seus valores variam de acordo com o grupo em que elas se enquadram. Em uma infração leve, o condutor perde três pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e paga, até a data do vencimento da multa com 20% de desconto, R$ 42,56. Na infração média perde quatro pontos e paga R$ 68,10. A grave salta para cinco pontos e custa, no mínimo, R$ 102,15. Já na gravíssima o motorista perde sete pontos e paga de R$ 191,54 a R$ 957,70. Isto porque algumas multas deste grupo têm seus valores multiplicados por três ou por cinco vezes. Segundo a Portaria 115 do Inmetro, a tolerância dos radares é de 7 km/h para velocidades até 100 km/h e 7% para velocidades acima de 100 km/h.

Eleições para prefeito podem mudar cenário político

Quase 30 anos de revezamento de apenas três prefeitos em Juiz de Fora pode ter fim nas eleições de 2012 Diego Casanovas Fred Castro

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om mais de 500 mil habitantes, sendo que 378 mil desses são eleitores, Juiz de Fora é a quarta cidade mais populosa do estado, e o terceiro maior colégio eleitoral de Minas Gerais. Apesar desses números consideráveis, o município possui um cenário político peculiar. Há quase 30 anos, a Princesa de Minas tem o cargo de prefeito ocupado por apenas três nomes. Da eleição de 1982 até janeiro de 2013, Tarcísio Delgado, do PMDB, (19831988, 1997-2000 e 20012004), Alberto Bejani, sem partido, (1989-1992 e 2005julho 2008), e Custódio Mattos, do PSDB (1993-1996 e 2009-2012) foram os únicos eleitos pela população local. Segundo o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal, isso evidencia o baixo índice

de renovação de lideranças como foi o caso do depupolíticas na cidade. “Na ver- tado federal Júlio Delgado dade, essa série histórica de- (PSB) que optou por apoiar monstra que, diante do des- o então candidato do PSDB, gaste de um governante que Custódio Mattos. “É possíesteja no poder, a resposta vel deduzir que para muitos que tem sido dada pela maio- desses setores é mais conforria do eleitoratável manter a do nas últimas disputa concen“Para muitas décadas foi a trada nas forças desses setores, é reabilitação dos tradicionais a mais confortável ter que admitir antecessores - o manter a disputa novas forças que vem deixanconcentrada nas - o que implido pouco espaço forças tradicionais caria eventuais para a entrada a ter que admitir mudanças mais de novos atores novas forças.” na disputa.” significativas Ainda sede base social gundo o cientista político, ou de estratégias”, conclui esse quadro conservador é Paulo Roberto. muito forte. Exemplo disso é o resultado da última eleição Eleições 2012 para o executivo municipal, Nas eleições de 2012 a quando o primeiro turno foi tríade política já está sendo vencido por Margarida Salo- cotada, mas sua hegemonia mão e grande parte das forças pode terminar. Segundo Paupolíticas mais tradicionais da lo Roberto, é altamente procidade preferiu apoiar um vável que Custódio dispute a antigo adversário a endossar reeleição, e não é impossível uma proposta de renovação, que Bejani (se tiver condi-

“Acredito que esse revezamento de poder não é nenhum pouco saudável, o povo sempre sai perdendo quando as mesmas mentalidades se perpetuam no poder. A renovação é sempre bem vinda na política.” Camila Carvalho, estudante

ções jurídicas e políticas de fazê-lo) ou Tarcísio (se quiser enfrentar outra disputa dura, mesmo depois da derrota em 2008) resolvam participar. Mas essas lideranças podem ter uma concorrência à altura com outras possíveis candidaturas de nomes, como Margarida Salomão (PT), que teve uma boa campanha em 2008 e foi a candidata a deputada federal mais bem votada da história da cidade, com 66 mil votos conquistados só em Juiz de Fora, o que segundo o cientista político pode habilitá-la à disputa pela prefeitura. Outro nome que já confirmou sua intenção de entrar na corrida pela Prefeitura da cidade é o do vereador Isauro Calais (PMN). Seu nome tem sido comentado nos bastidores desde seu rompimento com a atual administração e a junção à bancada oposicionista do Legislativo. Com a experiência de ter ocupado a presidência da Câmara por dois

“A questão da politica local é ambigua. De um lado temos os políticos que estão no poder há alguns mandatos e sabem como a máquina administrativa funciona. Do outro, possuem um olhar viciado e não percebem pontos que precisam ser melhorados.” Marcus Schuchter, estudante

mandatos, chegou a disputar o cargo de deputado estadual, mas não se elegeu. Incertezas O cenário ainda está incerto. Outros candidatos ainda podem aparecer e surpreender nas urnas, como o atual reitor da UFJF, Henrique Duque, que cumpre seu segundo mandato à frente da reitoria. Duque pode ter como atrativo a boa imagem como administrador, construída em pilares de concreto assim como o de suas diversas obras espalhadas pelo campus da UFJF. Ainda como apenas rumores, temos os nomes do secretário-executivo do Ministério do Esporte, Wadson Ribeiro (PCdoB), o filho do ex-prefeito Tarcísio Delgado, o deputado federal Júlio Delgado (PSB), e quem sabe até do primogênito do atual prefeito, o vereador Rodrigo Mattos (PSDB), caso Custódio não encare uma reeleição. “Acho que esse revezamento é bom, pois se eles estão sendo reeleitos é porque o povo está gostando do das ações deles.” Rosângela Borel, auxiliar de serviços gerais


6 Especial

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Decadência econômica da Zona da

Autoridades políticas e empresariais trabalham em parceria afim de criar agenda de ações para que Foto: Divulgação/UFJF

Reitor da UFJF, Henrique Duque, faz discurso na abertura das atividades da Assembleia Regional de Desenvolvimento da Zona da Mata , realizada no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes Guilhere Landim Mariana Brandão Paula Duarte

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Zona da Mata passa por uma estagnação econômica acentuada na última década. Para se ter uma ideia, de 1999 a 2008, o Produto Interno Bruto (PIB) do Noroeste mineiro cresceu 62,4%, enquanto o da Zona da Mata variou 32%. Para debater o assunto e tentar reverter esse quadro, deputados, economistas, empresários e prefeitos da Zona da Mata e o Reitor da UFJF, Henrique Duque formaram a Assembleia Regional de Desenvolvimento da Zona da Mata, no dia 13 de maio. As discussões ainda não foram encerradas e o próximo encontro está ainda em junho, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). De acordo com o economista e diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival Batista de Oliveira, “o grupo busca nortear ações para estancar a decadência

e criar horizontes”. A partir das reuniões, foi elaborada uma minuta que caracteriza os déficits da região e aponta soluções. O secretário de Planejamento e Desenvolvimento da Prefeitura de Juiz de fora, André Zuchi, reforçou a importância da agenda proposta: “ela vem fortalecer o trabalho conjunto da região, ligando pontos em comum entre as cidades”. Outro fator abordado na reunião foi a guerra fiscal. Para atrair investimentos, os estados estão diminuindo os impostos, o que não vem sendo feito pelo Governo de Minas Gerais. Por exemplo, o Rio de Janeiro, estado mais próximo da Zona da Mata, reduziu o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de 18% para 2%. Essa prática vem sendo desincentivada pela presidente Dilma Rousseff, com apoio de todos os governadores petistas. Zuchi destacou os atrativos da Zona da Mata mineira que podem superar essa concorrência “temos um porto seco, o Ae-

roporto Regional, e o nosso diferencial, que é a parte agrícola. A economia da região é dinâmica e tem muito a favorecer”. Além disso, o secretário afirmou que a proximidade aos grandes centros pode ser usada a favor da economia regional. Oliveira, levantou a questão das “cidades órfãs”. O economista explica que os municípios das microrregiões da Zona da Mata apresentam diferentes graus de desenvolvimento socioeconômico, e algumas cidades de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) se tornam dependentes de outra maior e, assim, cria-se um polo. O professor apontou a necessidade de se favo-

recer os arranjos produtivos locais, como os móveis de Ubá, por exemplo. Além de investir nas áreas de saúde e segurança – que requerem um olhar especial, em virtude das zonas de pacificação do Rio de Janeiro. A Zona da Mata de Minas Gerais é formada por 142 municípios e é habitada por uma população de 2,7 milhões de pessoas. As microrregiões de Cataguases, Juiz de Fora, Manhuaçu, Muriaé, Ponte Nova, Ubá e Viçosa lideram a produção especializada e a economia da região. Juiz de Fora é o polo mais influente, além de possuir maior população e PIB industrial e de serviços. Cataguases desempenha ati-

vidades industriais nos setores têxtil, alimentar, químico e de papel e papelão. Manhuaçu tem predominantemente atividades agropecuárias, com destaque para a produção de café e cebola. Em Muriaé, destaca-se a indústria têxtil confeccionista, a produção de café, cebola, pecuária leiteira e de suínos. Ponte Nova funciona como centro logístico para operações de grandes atacadistas, na indústria de papel e papelão, na pecuária de suínos. Ubá é um dos maiores polos moveleiros do Brasil. Viçosa é a microrregião da Zona da Mata que tem como principal atividade o setor de ensino, representado pela Universidade Federal de Viçosa.

Potencial de desenvolvimento sócioeconômico da Zona da Mata Mineira Fonte: Eduardo Gonçalves (2009)


Especial

Jornal de Estudo

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a Mata é discutida em assembleia

e cada setor possa se empenhar na captação de recursos para o desenvolvimento da região Foto: Guilherme Landim

Novos investimentos na cidade e região

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“Colocamos a cidade no radar dos Investidores”, afirma André Zucchi

té o final de 2012, Juiz de Fora vai receber quase R$ 1,4 bilhão em investimentos privados. André Zuchi explicou que esse valor contempla empresas novas e também em expansão, ao todo são 12 empreendimentos. Os investimentos se dividem em metal-mecânica e setor de serviços que, juntos, vão gerar cerca de 6.680 empregos diretos. Zuchi disse que essa expansão econômica é um trabalho de uma política de atração de investimentos para a Juiz de Fora

e região. Essa política, criada pelo Governo do Estado e decretada pelo município, reduziu a alíquota do ICMS cobrado e do Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISS), além de isentar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) atraindo novos investimentos. Segundo o secretário de Planejamento, essas medidas “colocaram Juiz de Fora no radar dos investidores” e permitiram que a cidade se tornasse mais competitiva. Para o próximo encon-

tro, além dos participantes da primeira edição, foram convidados os secretários do Governo de Minas Renata Vilhena (Planejamento e Gestão); Dorothea Werneck (Desenvolvimento Econômico); e Danilo de Castro (de Governo); além dos ministros do Planejamento, Miriam Belchior; e de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. Esse novo encontro pretende definir a Agenda e traçar ações políticas para efetivá-la.

Parque Científico e Tecnológico vai trazer crescimento econômico e geração de empregos Foto: Divulgação/Critt

Rafael Melo Valentim Júnior

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criação do Parque Científico e Tecnológico é uma realidade em vários municípios mineiros e Juiz de Fora também está a caminho desta inovação. O estudo de viabilidade técnica e econômica foi concluído em 2009 e passa pelos últimos processos licitatórios para sair do papel. O Parque será edificado na BR-040 em frente ao Expominas-JF e possuirá 920 mil metros quadrados. Os projetos urbanístico e de infraestrutura, iniciados em dezembro de 2010, foram concluídos recentemente e, de acordo com o Secretário de Desenvolvimento da UFJF, Paulo Nepomuceno, a parte institucional do empreendimento deve terminar até o final de 2011. A construção do espaço deve custar entre R$35 milhões e R$40 milhões. Os impactos que o Parque trará para Juiz de Fora e Zona da Mata são inúmeros. As áreas de inovação, tecnologia e movimentação econômica serão beneficiadas, atraindo investimentos nacionais e internacionais, gerando empregos e fomentando o desenvolvimento. Na prática, o Parque será um espaço para a atuação de empresas, centros públicos e privados de pesquisa, inovação e prestadores de serviços tecnológicos complexos. Um estudo realizado pelo professor da Faculdade de Economia da UFJF, Eduardo Gonçalves, revelou que os indicadores socioeconômicos apontam que a arreca-

Parque Científico e Tecnológico irá ocupar uma área de aproximadamente um milhão de metros quadrados, na BH-040, em frente ao Expominas

dação de impostos e o Produto Interno Bruto (PIB) da região estão abaixo da média estadual no período de 1999 a 2008. “A soma de todos os bens e serviços produzidos comprova que a Zona da Mata apresentou a segunda pior taxa de crescimento entre as mesorregiões do estado no período. O Parque tem o objetivo de reverter estes números”, ressalta. E como uma das metas para o desenvolvimento é a criação de oportunidades de empregos, Paulo Nepomuceno acredita que o Parque cumprirá seus objetivos. “A pretensão é trazer empreendimentos de produtos de alto valor agregado, que gerem empregos especializados e proporcionem progresso para toda a Zona da Mata”, conclui.

Capital estrangeiro De acordo com o Reitor da UFJF, Henrique Duque, uma empresa da Europa manifestou interesse de ser a principal investidora no Parque e solicitou um prazo de seis meses para se instalar em Juiz de Fora. O Reitor afirmou que visitou sedes da companhia em Portugal, França e Itália e, mesmo mantendo em sigilo o nome da empresa, disse que ela detém 7,5% do mercado mundial e concentrará seus investimentos na cidade, empregando funcionários com salários entre R$8mil e R$15 mil. “O Brasil é a bola da vez. Por isso, a Universidade tem que aproveitar o bom momento para acompanhar esse forte ritmo de crescimento”, destaca. Além da Universidade,

Foto: Divulgação/Critt

estão envolvidos no empreendimento o Governo do Estado de Minas Gerais, a Prefeitura de Juiz de Fora, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (SebraeMG), a Federação das Indústrias do Estado de Minas

Gerais (Fiemg), o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a Agência de Desenvolvimento de Juiz de Fora e Região (ADJFR), o Pólo de Excelência do Leite e Derivados, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e o Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi).


8 6 Pesquisa Especial

Jornal de Estudo

Junho dede2011 agosto

Copa do Mundo pode ter transmissão em 3D Projeto tecnológico conta com a participação de professores do Instituto de Artes e Design da UFJF

Rafael Simão Rayan Siqueira

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Copa do Mundo de 2014 está se aproximando, e o Brasil corre para se preparar da melhor maneira possível para sediar o evento. Muito se fala das reformas nos estádios, melhorias da malha viária e da organização aérea no país. Mas um outro assunto que merece destaque é a transmissão das partidas, que será realizada para o mundo todo. Pensando nisso, está sendo desenvolvido o projeto ‘2014k’. O objetivo dos idealizadores é aperfeiçoar e administrar uma tecnologia que torne possível a transmissão das partidas da Copa do Mundo em três dimensões (3D) e em alta definição. O sinal seria emitido para salas de cinema em todo o território nacional e para os cinco continentes do mundo, ao vivo. Com os óculos especiais, os espectadores assistiriam às partidas em 3D e com resolução quatro vezes melhor do que o HD (alta definição) que possuímos hoje. O projeto é realizado pela Faculdade Mackenzie, de São Paulo, juntamente com o instituto de Gestão de Recursos de Telecomunicações (CPqD), de Campinas. A Universidade Federal de Juiz de Fora é parceira da iniciativa, contando com a participação dos professores Cícero Inácio da Silva e Alfredo Suppia, ambos do Instituto

Foto: Divulgação

de Artes e Design da UFJF (IAD). Coordenador do projeto na UFJF, Cícero explica como começou essa pesquisa: “O projeto surgiu a partir da possibilidade de se enviar imagens de ultradefinição por redes fotônicas de altíssima velocidade, a partir de 10GB por segundo (dez mil vezes a velocidade que temos em casa)”. Os pesquisadores estudam a realização de vídeos com a mesma tecnologia. Os avanços já realizados Para que o projeto torne-se viável daqui a três anos, a tecnologia já está sendo colocada em prática, em fase de testes. No ano passado, os pesquisadores realizaram a filmagem da final do Campeonato Gaúcho em 3D. A realização do vídeo foi pioneira no mundo, o que faz o Brasil despontar no cenário tecnológico mundial, com uma técnica avançada e inovadora. Os professores da UFJF participaram do evento, cujo making of foi produzido por Alfredo Suppia. Segundo ele, a gravação foi importante como passo inicial, mas há trabalho pela frente: “o projeto ainda está em andamento, portanto o making of ainda não está concluído. Vamos editando e disponibilizando conteúdo de acordo com o progresso do projeto” O professor Cícero destaca a longa duração do projeto: “Nosso trabalho começou em

Pesquisadores em ação: equipamento de gravação em tecnologia 3D foi utilizado pela primeira vez na final do Campeonato Gaucho

2009, e ainda vamos realizar muitos testes até chegar em um ponto ideal”. O que isso representa Os pesquisadores brasileiros largaram na frente com a pesquisa e a realização das gravações. Segundo Cícero, “nosso país é o primeiro a transmitir futebol em ultradefinição por ter o esporte como paixão e ao mesmo tempo contar com pesquisadores de ponta na área de cinema e física, baseados na Universidade Mackenzie e no CPqD”. Se tudo ocorrer como o planejado, a Copa do Mundo de 2014 será o primeiro evento

a colocar os novos métodos de filmagem em prática, o que faz o Brasil despontar no cenário tecnológico mundial. Apesar das oportunidades que podem ser geradas a partir da viabilização dessa nova tecnologia, Cícero garante que, pelo menos por enquanto, os objetivos do projeto não são comerciais: “Nos interessa entender a dinâmica do processo e a metodologia, assim como os desdobramentos no campo científico”. A tecnologia permanece Após a Copa do Mundo a tecnologia será mantida e uti-

lizada para a transmissão de shows, festivais de cinema e demais produções culturais. Segundo Cícero, os jogos mundiais “podem ajudar na ampliação da infraestrutura de redes de transmissão de dados, essenciais ao desenvolvimento do projeto”. O coordenador ressalta também a possibilidade dos resultados da pesquisa gerarem avanços tecnológicos no Brasil, destacando o país no cenário mundial. Momento oportuno para o Brasil ser reconhecido além de suas produções primárias e belezas naturais.

Sinal determina baixa audiência no Repórter Brasil

Falta de técnica e transmissão ruim faz com que telespectadores prefiram emissoras comerciais à públicas Foto: Divulgação

Bruna Pfeiffer Camila Guedes

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m 2007, o Governo Federal lançou a TV Brasil, uma emissora estatal que tem como objetivo atender às demandas da população, o que significa que seu posicionamento não é a favor do governo nem de qualquer outra plataforma política. A ideia é defender os interesses dos brasileiros de uma maneira geral. Para avaliar a qualidade de sua produção jornalística, a TV Brasil procurou a professora da Faculdade de Comunicação da UFJF, Iluska Coutinho, especialista em pesquisas nessa área. “Por perceberem a baixa audiência do jornal Repórter Brasil, a emissora solicitou uma pesquisa para apurar a adequação do conteúdo às propostas iniciais da TV Brasil, além de tentar reconhecer as causas da baixa visibilidade”, afirma Iluska. O Repórter Brasil Manhã é exibido de segunda a sexta, às 8h, e apresenta cerca de 20 notícias durante 45 minutos. O noticiário aborda editorias comuns ao jornalismo, mas privilegia assuntos culturais, sobre comportamento social

Conteúdo do Repórter Brasil é o objeto avaliado na pesquisa da professora Iluska

ou que fujam da violência do cotidiano. Já a edição noturna do telejornal apresenta diferenças substanciais em relação à matutina. O Repórter Brasil Noite, além veicular mais notícias, preocupa-se mais com a qualidade da produção e edição. Seus 55 minutos são distribuídos em mais editorias e o tempo médio das matérias é mais curto. Seu formato procura atrair o telespectador com forte ligação factual. Análise de conteúdos Para o desenvolvimento da pesquisa, a emissora envia o conteúdo do jornal periodicamente por DVD. Segundo Iluska, o objetivo do projeto é propor melhorias nos canais de comunicação da emissora.

“Diferentemente do Repórter Brasil Manhã, a edição noturna aproveita-se da participação popular – restrita às sedes da Rede Brasil em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo – em suas pautas, criando um canal direto entre a emissora e sua audiência”, afirma a bolsista do projeto Lorena Goretti. No Repórter Brasil Manhã e Noite, principais telejornais da emissora, existe um viés mais regionalista e uma pluralidade maior do que a encontrada nas emissoras comerciais. No entanto, algumas questões importantes acabam prejudicando o conteúdo e tornando o telejornal pouco atrativo. “Os erros técnicos, a falta de padronização e de criatividade fazem o jornal parecer

mal elaborado e conduzido, prejudicando a audiência e o alcance da população”, afirma a bolsista Allana Meirelles, que também atua na pesquisa. Segundo ela, o primeiro fator que dá origem à falta de acompanhamento efetivo da programação é o sinal ser de baixa qualidade. As falhas existentes e a falta de divulgação fazem com que muitos telespectadores prefiram uma emissora comercial. O grupo de pesquisa é composto por seis bolsistas de iniciação científica da Faculdade de Comunicação da UFJF. “É um trabalho árduo. Antes de iniciar as análises, os bolsistas tiveram que estudar métodos de avaliação. A equipe acompanha e avalia os jornais diariamente”, conta Iluska. Eles fazem uma análise quantitativa, levando em conta os seguintes itens: editoria, duração, formato, classificação das fontes, lugar, presença do governo e seu enfoque e presença de partidos. Em seguida, cada integrante do projeto se responsabiliza por analisar um ponto do noticiário. “Os aspectos levados em consideração para análise são a edição, a identidade visual e

as fontes do Repórter Brasil”, afirma Allana. O projeto tem previsão para ser concluído em setembro desse ano. Porém, Iluska diz que outros projetos podem ser desenvolvidos a partir desse: “Queremos saber como o público vai receber essas mudanças”, conclui. Programação diversificada Segundo o superintendente de programação, Rogério Brandão, que também é diretor de produção da emissora, a TV Brasil veio atender à antiga aspiração da sociedade brasileira por uma televisão pública nacional, independente e democrática. Sua finalidade é complementar e ampliar a oferta de conteúdos, oferecendo uma programação de natureza informativa, cultural, artística, científica e formadora da cidadania. A TV Brasil é gerida pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável também pela Agência Brasil, Radioagência Nacional, TV Brasil Internacional, Rádios MEC AM e FM, além das Rádios Nacional do Rio de Janeiro, AM e FM de Brasília, da Amazônia e do Alto Solimões.


Saúde 9

Jornal de Estudo

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SUS: queixas e reclamações na fila de espera

Demora no atendimento e número reduzido de médicos são os principais problemas para a população de JF Foto: Andréia Oliveira e Carlos Alexandre

Na Unidade de Atendimento Primário à Sáude (Uaps) no bairro São Pedro, pacientes esperam na fila para conseguir atendimento

Andréia Oliveira

A

s irmãs Simone e Cristiane Brasileiro, moradoras do bairro Ladeira, enfrentam um problema comum à maioria dos usuários do SUS: o atendimento precário do sistema de saúde pública de Juiz de Fora. O Ladeira não possui unidade básica de saúde, e os moradores do bairro precisam se deslocar até a “Regional Leste” para conseguir atendimento médico. Para Simone, o serviço de saúde prestado pela Regional deixa muito a desejar. “Começa pelo atendimento no balcão. Os atendentes preenchem a ficha errada, sempre trocam alguma coisa que, no caso de necessidade, vai ser

prejudicial. Depois disso, o que pesa é a demora no atendimento”. . Já Cristiane comenta que, das vezes que necessitou de uma consulta, o atendimento oferecido foi precário. “Inclusive minha filha precisa de um especialista em nefrologia e nunca tem vaga. Dizem que o motivo é a demanda, que é muito grande e o prefeito, ao invés de aumentar as vagas, só reduz”. Ambas concordam que a situação vivenciada pela população dependente do SUS é recorrente e afirmam que nunca tiveram problemas por erro no atendimento médico, mas pela falta dele. “Nossa avó precisou de uma UTI com urgência e alegaram que não tinha. Ela

teve complicações e veio a falecer, devido à demora”. Outra história que demonstra o estado crítico do SUS na cidade é a de Rosimere Rodrigues Ozório, moradora do bairro Industrial. Para a aposentada, o problema não está na falta de um posto médico no seu bairro, mas na quantidade de pessoas atendidas por dia. “Eles distribuem, somente, 14 fichas. É um absurdo ter que chegar às 4 horas da manhã pra ser atendido. Tem gente que precisa trabalhar e acaba pagando outras pessoas para ficar na fila, segurando a vaga”. Rosimere afirma que, quando não consegue ser atendida no bairro, a única solução é o HPS, onde o atendimento também é precário. “Quando

a gente reclama, não resolve nada, pois chamam uma pessoa a cada duas horas ou mais, e falam que estão atendendo. Aqui em Juiz de Fora mostram na televisão que a saúde está em primeiro lugar, mas eu não estou vendo isso. Tem que melhorar muito”, ressalta. Ela alega, ainda, que tem um problema sério de coluna e frequentemente vai ao PAM Marechal se consultar com um especialista. Porém, estas consultas e exames devem ser marcados no posto do bairro, o que leva de dois a três meses para conseguir vaga. “É costume o exame demorar a ser feito e não valer mais nada quando chego para mostrar ao médico”.

emergência, o adesivo é vermelho e o atendimento deve ser imediato. Já para o adesivo de cor laranja, a espera é de 10 minutos; o amarelo é 60; o verde é 120 e o azul 240 minutos. A dona de casa diz que “a iniciativa é relevante, mas não está resolvendo o problema da população”. Para a assessoria da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), as reclamações da população têm fundamento, principalmente no que diz respeito à morosidade no atendimento, e ainda podem ser intensificadas quando os profissionais da saúde entram em greve. A assessoria ressalta, também, que algumas unidades estão sempre lotadas pelo fato de atender somente urgência Triagem não é solução e emergência. Já a demora na Em janeiro de 2007 foi marcação de exames, ainda seinagurada a primeira UPA, gundo a PJF, pode ser justificaUnidade de Pronto Atendi- da pela existência de “um promento 24 horas, da cidade. A cesso burocrático”. Na maioria distribuição destas unidades das vezes, os exames são reafoi feita de forma a abranger lizados por convênios, ou seja, ao máximo a demanda dos as pessoas são encaminhadas bairros do município. para unidades secundárias, por Em relação a essas novas meio de encaminhamentos. unidades, um aspecto evidenAinda de acordo com a ciado pela moradora do bairro assessoria, os encaminhaSão Pedro, Maria Aparecida mentos são necessários sode Oliveira, é a identificação mente em casos de consultas do tempo de espera para os com médicos especialistas. pacientes receberem o atendi- “Os médicos da família, que mento, por meio de adesivos atendem nas Uaps, não estão coloridos. Ao chegar às unida- habilitados para fazer todos des de prontoatendimento, o os tipos de exames mais comdoente passa por uma triagem, plexos. Por isso, ocorre essa que identifica a gravidade do espera, às vezes mais longa estado de saúde em que ele pela realização de exames se encontra. Se o caso for de menos rotineiros”.

65% dos exames de mamografia não são utilizados

Programa Viva a Vida disponibiliza anualmente duas mil consultas em JF, mas somente 700 vagas são preenchidas Carlos Alexandre

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m Juiz de Fora cerca de cinco mil mulheres podem morrer de câncer de mama por ano. As projeções são do programa “Viva a Vida”, do Governo de Minas. Porém, das duas mil vagas disponibilizadas gratuitamente para exames de mamografia – uma das formas de diagnosticar o câncer de mama - pelo Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF), apenas 700 são preenchidas, ou seja, 35%. Os números são do coordenador clínico do “Viva a Vida”, Edval Nacle Estefen. “Só o HU tem dois equipamentos de mamografia em funcionamento, que diariamente podem realizar até cem exames. Muitas vezes não alcançamos esta perspectiva.” O coordenador ressalta, também, que o HU é uma unidade secundária de atendimento, ou seja, as

pessoas precisam de um encaminhamento das Unidades de Atenção Primária à Saúde (Uaps) para conseguir atendimento. “Esta necessidade de encaminhamento às vezes é fator de dificuldade”. O responsável pelo Instituto da Mulher da Secretaria de Saúde da prefeitura, Elídio Lanna, afirma que a cidade está “numa posição privilegiada, pois cerca de 30% da população possui plano de saúde, que já cobre este tipo de exame e que já descarrega o serviço oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS)”. Para Lanna, a sobra de vagas para os exames de mamografia pode estar condicionada à ausência de interesse e medo das mulheres. A falta de divulgação dos programas de rastreamento do câncer e a necessidade de as mulheres procurarem um médico para solicitar o encaminhamento para o exame são outros agravavantes. “Seria talvez necessário o desenvolvimento de uma campanha mais

Foto: Secom-UFJF

HU tem dois equipamentos de mamografia que diariamente podem realizar até cem exames.

massiva, a exemplo das realizadas para a dengue. O câncer de mama é responsável pela morte de 40 mil mulheres, por ano, só em Minas Gerais, segundo números da Secretaria de Saúde do Estado. Maior expectativa de vida Antônia Dalta Romão descobriu que tinha o câncer de mama aos 41 anos, quando o nódulo estava com 92 milimetros. A representante

de vendas perdeu a mãe da mesma doença. “Quando minha mãe descobriu que tinha câncer já era um pouco tarde. Ela, por orientação do médico, até começou a fazer um tratamento de quimioterapia, mas acabou não aguentando”. Antônia ressalta, também, que nunca foi incentivada a fazer um teste de mamografia e que tinha medo, pois as amigas falavam que era “desconfortável e doía muito”.

Se o exame for feito, a mortalidade de mulheres com idade acima de 50 anos, que sofrem de câncer de mama, pode cair em até 30%. Através da radiografia é possível detectar lesões em fase inicial. Assim, a mamografia tem importante contribuição na prevenção da saúde da mulher, com a descoberta precoce de doenças que afetam as mamas. Com desconforto mínimo e pequeno uso de radiação, o exame é recomendado principalmente para mulheres acima de 35 anos, mas, também, pode ser indicado para as mais jovens, nos casos em que apresentem sintoma de alguma anomalia ou histórico familiar. Edval Nacle afirma que “o grande índice da mortalidade de mulheres que sofrem dessa enfermidade pode ser justificado pelo fato de que quando uma pessoa tem sinais clínicos para perceber se ela tem alguma coisa, frequentemente, isso vai acontecer um pouco


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Jornal de Estudo

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Novos esportes conquistam jovens em JF

Baixo custo dos equipamentos e facilidade de adaptação seriam os motivos desse aumento de popularidade Rafael Simão Rayan Siqueira

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uando se fala em esportes urbanos o skate e o patins são os primeiros nos quais as pessoas costumam pensar. Mas nos últimos anos esse fenômeno tomou novos rumos, principalmente entre os jovens brasileiros. Outros esportes têm ganhado espaço no cenário nacional. Em Juiz de Fora não é diferente. Criado nos anos 80 na Califórnia por um grupo de alpinistas que não podia escalar devido ao tempo frio, o slackline chegou em Juiz de Fora há um ano. De início o slackline pode lembrar muito a famosa brincadeira da corda-bamba. A diferença são as execuções de manobras em cima da corda, com vários graus de dificuldade, dependendo da experiência

do praticante. “O segredo do slackline é o desafio de se superar a cada queda, depender somente de você e de mais nada”, diz o publicitário Tiago Godoy, 29 anos. Godoy é praticante há apenas três meses, mas já trouxe melhorias significativas para o esporte no Brasil. O orangotangoslackline.com, blog criado por ele em conjunto com alguns amigos, virou referência no país e ajuda a divulgar os competidores nacionais no exterior. “Hoje em dia temos visitantes da Alemanha, dos Estados Unidos e da França”, diz Godoy. O segundo campeonato mundial de slackline foi realizado em março desse ano e não contou com participação de nenhuma equipe brasileira. No Brasil não há registro de competições oficiais, e o esporte sequer é federado. “O Foto: Serghei Pakhomoff

Jovem pratica Le Parkour com ajuda de obstáculo urbano

primeiro passo para oficializar o slackline no Brasil é conseguir mais participantes. Por isso nesse primeiro momento estamos investindo na divulgação, chamando mais gente para praticar e abrir novos grupos na região”, afirma o publicitário. Segundo o fisioterapeuta Nelson Bissagio são vários os benefícios do slackline para a saúde. “Além de uma prática esportiva sociável, ele gera benefícios cardiovasculares por se tratar de um exercício físico de moderada intesidade e permite uma adaptação sensório-motora fantástica”, diz o fisioterapeuta. Para ele, o fato de o slacker ter de se manter sobre a fita o tempo todo faz com que as chamadas “respostas reflexas“ sejam aprimoradas. Com o tempo essas respostas seriam memorizadas no sistema nervoso central, fazendo com que o indíviduo desenvolva cada vez mais o seu reflexo. Para se tornar um slacker, além da vontade é preciso ter em mãos um kit básico que consiste em uma fita de poliéster, um par de catracas e protetores de árvores. O kit está a venda no próprio blog do Orangotango e os horários e pontos de encontro são abertos aos visitantes. A cidade como palco Outro esporte urbano que vem aumentando o número de praticantes nos últimos anos é o Le Parkour. Também criado da década de 80, por um

francês que sonhava em se tornar um grande bombeiro, o esporte exige que o participante busque escalar as construções urbanas como se elas fossem obstáculos. Quanto mais rápido a contrução for superada, maior o nível de importância da manobra. “ O diferencial do Le Parkour é que ele reúne vários esportes em um só. A pessoa é forçada a escalar, correr, e até fazer musculação para melhorar o desempenho durante as atividades”, diz o estudante Vitor Mendes, 20 anos. O grupo do qual ele participa existe há cinco anos, e é o mais antigo da cidade. A equipe formada por 10 pessoas costuma fazer os “circuitos“ na UFJF, no Merguhão ou pontos do Bairro Mundo Novo. Diferente do Slackline, o Le Parkour tende a ser bastante agitado. Isso porque, além dos obstáculos variarem muito a cada circuito, dependendo do lugar a sua prática não é muito conhecida e pode gerar confusão. “Esse ano mesmo estávamos praticando no Mergulhão e os moradores chamaram a polícia, dizendo que invadimos uma propriedade privada. Na semana passada nos acusaram de ter quebrado um corrimão”, conta Vitor. O Le Parkour aumentou bastante o seu grau de aceitação nos últimos anos, principalmente nos grandes centros. A cidade de São Paulo é hoje a favorita para os adeptos. O maior obstáculo para o Le Pakour conquistar mais

Foto: Serghei Pakhomoff

Slacker praticando sobre a corda

integrantes seria a dificuldade dos treinos. “As pessoas acham que é só chegar lá e sair escalando tudo que veem pela frente. Quando descobrem que há todo um preparo físico que envolve flexões, barras e trabalhos de equilíbrio a maioria desiste de se tornar um tracer”, diz Vitor. Para os interessados em praticar, o grupo de Juiz de Fora tem uma comunidade no Orkut e não é preciso muito, segundo Vítor. “O único equipamento necessário é uma vestimenta confortável, roupas leves que te façam se sentir bem”.

JF é pré-selecionada como “base-camp” da Copa

Comitê Organizador aprova a cidade como um dos seis municípios mineiros para receber equipes do mundial Lorena Goretti Ana Luiza Maia

A

lém de Juiz de Fora, outros cinco municípios pré-selecionados representam Minas Gerais na disputa: Araxá, Extrema, Matias Barbosa, Montes Claros e Uberlândia. Em todo o país, 145 locais ocupam a lista, sendo que 90 deles deverão ser escolhidos como Centro de Treinamento de Seleções (CTS). Após a definição das CTS’s, as federações poderão visitar as cidades aprovadas e efetuar a escolha definitiva do “base camp”, prevista para dezembro de 2013. De acordo com o secretário de Esporte e Lazer da Prefeitura, Renato Miranda, Juiz de Fora oferece benefícios que poucas cidades possuem. “O clima é altamente favorável, tem ficado numa média de temperatura de 19°, o que é

bem positivo, principalmente para alguns países europeus”, ressalta. O subsecretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, Jackson Moreira, valoriza também a “boa estrutura da cidade quanto a serviços médico-hospitalares, de hotelaria, telecomunicação, aeroportuário, segurança pública entre outros”. Ele afirma que, caso a Fifa se decida por Juiz de Fora, investimentos serão necessários para adequações específicas nos campos de treinamento e acomodações da delegação, por exemplo. Juiz de Fora também foi pré-selecionada como local de treinamento dos Jogos Olímpicos de 2016. Renato Miranda destaca ainda, como pontos favoráveis ao município, o Ginásio Poliesportivo Jornalista Antônio Marcos Nazaré Campos, que já está em nível avançado de construção, e o Com-

Foto: Divulgação/UFJF

Complexo de atletismo da UFJF: A boa infraestrutura foi um dos pontos que levou o comitê a pré-selecionar a cidade

plexo Esportivo da Faculdade de Educação Física e Deportos da UFJF (Faefid). O responsável pelo Centro Olímpico, professor Maurício Bara, garante que “há boas condições de infraestrutura para o treinamento de equipes de atletismo e de esportes disputados em quadra”. Para os demais modalidades, ele considera a necessidade de algu-

mas adaptações, o que cabe a qualquer entidade que vá receber um evento de grande porte. “Mas, isso será providenciado posteriormente”, afirma. É importante lembrar que os investimentos em melhorias são considerados como legados da Copa. Segundo Jackson, “os equipamentos esportivos, a infraestrutura urbana, bem como a qualificação e a capacitação

dos profissionais ligados direta e indiretamente aos jogos resultam em ativos que consolidam a condição turística do município em sediar grandes eventos”. Renato Miranda conta que uma das próximas ações é fazer uma visita, com a autorização do Comitê Organizador, a um país cuja seleção poderá ficar em Juiz de Fora.


Comportamento 11

Jornal de Estudo

Junho de 2011

Projetos agregam proteção à natureza e geração de renda Ecovila Viva! e Nécta Boards reúnem ações voltadas para a correta utilização dos recursos naturais Victor Henriques

A

pesar dos esforços observados nos últimos anos na preservação e conservação do meio ambiente, é fácil perceber em nosso dia-a-dia diversas atitudes contrárias a esta necessidade. Preocupados com essa situação, um crescente número de pessoas vêm tomando consciência da questão ambiental e buscando formas de reverter este quadro de intensa degradação. Uma dessas formas são as Ecovilas. E Juiz de Fora não fica para trás nessa nova tendência. Foi inaugurada, em março de 2009, na estrada do Salvaterra, a Ecovila Viva!. Em dois anos, a Ecovila já reúne diversos colaboradores e projetos voltados para a correta utilização dos recursos naturais (ver quadro). “Nossa missão é germinar e gerir empreendimentos socioambientais comprometidos com o uso consciente dos recursos naturais e focar na comunidade do entorno, criando uma economia solidária e consciente”, diz

a responsável pelos trabalhos culturais da Ecovila Viva!, Nina Nicoline. Por serem ainda recentes e não conhecidas pela população em geral, as Ecovilas podem parecer uma realidade distante de todos nós. A estudante Vanessa Feliciano conta que não conhecia o trabalho que eles faziam. “Fui apresentada por uma amiga e desde então, sempre que posso estou indo para lá. É incrível porque a gente produz boa arte, boa música, boa comida e fica ali, imerso na nature-

za, aprendendo com ela.” Para provar que a consciência ambiental é um dever de todos, um grupo de jovens skatistas juizforanos também encampou a bandeira. Os jovens do Nécta Boards iniciaram, há dois anos, um trabalho no sentido de desenvolver técnicas de produção de skates e roupas de forma menos impactante ao meio ambiente e respeitando os limites ecológicos, sociais e econômicos. O projeto encontrou na parceria com a Ecovila Viva! uma fonte de inspiração para a produção de rou-

Da iniciativa Ecovila Viva! surgiram diversos projetos comprometidos com o meio ambiente e que buscam a produção através da matéria prima que é oferecida pela natureza.

• Florestal Salvaterra: viveiro de Mudas da Mata Atlântica e Exóticas, Agrofloresta, Coleta e beneficiamento de sementes, produção de mudas de Oliveira e compostagem. • Cestas Vivas!: reúne a produção orgânica local para montar cestas de alimentos naturais que irradiem saúde. • Arte com Tato: empresa de brinquedos e instrumentos musicais em madeira e bambu. Utiliza preferencialmente matéria-prima local e madeira de reflorestamento. • Gestão de Resíduos: incentivo à reutilização criativa dos resíduos que normalmente seriam destinados a aterros ou lixões, realizando a triagem e reaproveitamento dos materiais. • Oca Viva!:  empreendimento responsável por bioconstruções, pela infraestrutura de água, energia e estradas da Ecovila. • Unidade de Sementes Florestais: levantamento florístico da mata nativa da Ecovila Viva!, georreferenciamento de matrizes produtoras de sementes e coleta e beneficiamento destas sementes florestais.

pas e acessórios, criação e desenvolvimento de pranchas para skate e uma forma de entender e se fazer encontrar no espaço junto à natureza. “O legal de se ter espaços como estes é a oportunidade que a gente tem de estar em contato com a natureza e de entender o quanto ela é importante. E também entender como ela pode nos ajudar a ter uma vida melhor sem, ao mesmo tempo, prejudicá-la como as pessoas vêm fazendo”, ressalta Gabriel Ferreira, um dos idealizadores do Nécta Boards. A matéria-prima utilizada na fabricação das pranchas, por exemplo, é a madeira do bambu, amplamente encontrado em nossa região e de fácil reposição na natureza. Gabriel diz ainda que “o bambu é uma madeira resistente, de fácil cultivo e adaptação e com um tempo de reposição curto, se comparado com outros tipos de madeira. Ele também produz um material final de qualidade, que não perde em nada para as opções que existem hoje no mercado”.

Grupos integram estilo de vida sustentável ao dia-a-dia De acordo com a convenção oficial, Ecovila é um modelo de assentamento humano sustentável. São comunidades urbanas ou rurais de pessoas que têm a intenção de integrar uma vida social harmônica a um estilo de vida sustentável. O engenheiro florestal Anderson Flávio Nunes explica que a Ecovila é uma opção importante no trabalho de conservação da natureza uma vez que “prima pela utilização responsável dos recursos que o ambiente coloca à nossa disposição”. Além disso, elas se utilizam das características de cada região, proporcionando qualidade de vida e aproveitamento dos recursos locais, segundo ele. Para alcançar este objetivo, as comunidades baseiam seu desenvolvimento em princípios como a produção local e orgânica de alimentos, utilização de energias renováveis (como a solar e eólica, por exemplo), construções que utilizem materiais de baixo impacto ambiental, diversidade cultural e espiritual, economia solidária, dentre outros.

Personalidade dos jovens é influenciada por ídolos

Para psicóloga a juventude absorve manifestações de ícones, o que pode ser prejudicial a sua formação

Rafael Rezende

O

s ídolos são formados pelo desejo de se tornar igual ao outro, ou apenas por admiração às realizações profissionais e conduta pessoal. Sejam membros da família, colegas da escola, ou celebridades da televisão, todos um dia já tiveram outras pessoas como exemplo. Essa busca é considerada natural, e faz parte da formação da personalidade dos indivíduos. Porém, a forma como um jovem absorve as manifestações de seu ídolo pode ser prejudicial, na avaliação de especialistas. A importância de ter ídolos existe especialmente na fase que vai do nascimento até aos 21 anos, explica a psicóloga Denise Penna. “Durante os primeiros sete anos, a criança recebe muito conteúdo de sua família. Nos sete anos seguintes, a escola entra na vida da pessoa, e dos 14 aos 21, é quando ela tem um impulso de ir buscar no mundo coisas que ela gosta.” As primeiras referências geralmente são a de familiares. Eliza Leão trabalha como faxineira em diferentes casas, e teve que conciliar o trabalho e o estudo com a criação dos seus três filhos. Hoje, Eliza

é formada em um curso técnico, e se orgulha dos filhos dizerem que querem um dia ser como ela. “Isso pra mim é muito gratificante, porque eu tive pouco tempo para acompanhar o crescimento deles, e eles hoje se espelham em mim”. Uma das filhas de Eliza, Marina Gonçalves, explica porque tem a mãe como exemplo. “Ela mostra interesse profissional e é dedicada com a gente, mesmo com o pouco tempo que tem”. Marina tem apenas 11 anos, e diz que sua mãe representa “uma estrela cadente, porque ela é a luz”. Fora de casa, a escola é outro ambiente importante para os jovens. Alguns professores e, principalmente, os colegas que ocupam lideranças exercem influência sobre os demais. Produção de novos ídolos Com o tempo, o adolescente começa a procurar referências distantes do seu convívio. Nesse cenário, a força dos meios de comunicação contribui na geração de uma produção em massa de novos ídolos. Eles brotam do rádio, cinema, televisão e, cada vez mais, da internet. Em pouco tempo, pessoas comuns passam a ser chamadas de cele-

Foto: Arquivo Pessoal

Camila Fernandes acompanha seus ídolos, como a baiana Claudia Leitte

bridades, famosas, galãs, musas e estrelas. A paulista Camila Fernandes é fã das cantoras baianas Claudia Leitte e Daniela Mercury. “A relação é de amor, de fã com o artista. Elas me conhecem, sabem meu nome, sabem do meu jeito. É muito bom ter o reconhecimento delas”, diz a fã. Acompanhando Daniela há 11 anos, e Claudia Leitte há seis, Camila já viveu bons momentos com as cantoras. “Já tive momentos mágicos. Com Daniela, jantamos com ela uma vez no aeroporto, já fomos ao shopping. Com a Claudinha, teve uma vez que

ela passou a semana toda indo nas emissoras de rádio, em São Paulo. Fomos a todas as rádios, entramos no estúdio, ficamos muito tempo juntas.” Outro fã de uma cantora baiana, a roqueira Pitty, é André Lopes, morador de Juiz de Fora. André nasceu no Espírito Santo, aonde integrou o fãclube Espírito Pitty. O jovem hoje é reconhecido pela banda, e conta que já fez alguns esforços para conseguir assistir a shows da cantora. “Ia escondido dos meus pais. Uma vez, com 16 anos, eu viajei até ao interior de São Paulo, pegando carona de caminhão.” Já Camila afirma ter via-

jado sem dinheiro, e dormido na rodoviária para conferir um espetáculo de suas artistas preferidas. “Depois a gente amadurece e por mais que continue acompanhando é de maneira mais organizada, sem passar necessidade”, diz. Um mau exemplo Em alguns casos, a construção de um ídolo pode ser prejudicial ao jovem. Denise Penna diz que isso ocorre “quando o ídolo não for um modelo muito virtuoso. Tudo que um ídolo faz o adolescente absorve. É importante oferecer bons modelos”. Em casos em que o ídolo se torna um mal exemplo, como o goleiro Bruno, suspeito de assassinato, e o pagodeiro Belo, preso por tráfico de drogas e porte ilegal de armas, a psicóloga aconselha às pessoas ensinar que o ídolo é um ser como qualquer outro. “Ele tem tanto as coisas boas, como as ruins. Os amigos devem criar a oportunidade de ensinar uma decisão correta.” Denise lembra também que ter diferentes estilos e estímulos é importantes para o adolescente. “Tem o outro lado da história que é o fanatismo. Se o modelo vira tudo na vida, o jovem deixa de buscar outras formas, de ser ele mesmo”.


Cultura 12 10 Esporte

Jornal de Estudo

Junho de 2011 agosto de

Uma rotina de luta para espalhar alegria Palhaços de Juiz de Fora contam como iniciaram as carreiras e falam do prazer que o trabalho proporciona Foto: Divulgação

Edmo Luiz Gustavo Araújo

P

rovocar alegria nas pessoas é a tarefa principal deles. A emoção criada é caracterizada por uma única expressão, o sorriso. Todos esses elementos são encontrados em quem tem a função de tornar a vida um pouco mais alegre, mais “viva”. O palhaço veio ao mundo para demonstrar que durante alguns momentos podemos ficar atentos a todos os gestos, falas e atrapalhadas de uma pessoa que nos faz mergulhar no mundo da fantasia e entram na vida de quem aprecia sua arte. As caras pintadas com maquiagens funcionam como uma outra personalidade. O personagem é criado a cada rabisco que mancha o rosto do artista. Muitos profissionais ainda ganham a vida como palhaço em Juiz de Fora. Alguns deles já são famosos por realizarem um trabalho de qualidade. Palhaço Trombetinha, Rosquinha e Fuzil são algumas das personalidades locais que levam gargalhadas até adultos e crianças. Algumas pessoas iniciam atividades com crianças na arte circense, como é o caso

Valdir Alves, o “Palhaço Rosquinha”: “A coisa começou a ficar séria, fiz algumas oficinas e hoje tenho orgulho do meu trabalho”

do ex-policial Dolor Pereira, que abandonou a vida militar para se dedicar à profissão de palhaço e fundar uma escola de circo com o nome “Carequinha”, localizada no Bairro Caiçaras. Nesse centro de treinamento, Dolor atua como Palhaço Jamelão e conta com uma equipe de cinco pessoas que animam festas de vários gêneros em Juiz de Fora. “Minha família está toda envolvida com meu trabalho, todos têm uma função no circo”, afirma. A escola desenvolve um trabalho gratuito que tem

a finalidade de tirar as crianças das ruas e inseri-las no mundo do circo. Outra referência no trabalho circense local é Valdir Alves, mais conhecido como palhaço Rosquinha. Ele começou a se envolver com o circo pelo teatro. “Fiz um espetáculo onde eu fazia um palhaço. Aí uma mulher assistiu a peça, gostou muito da minha atuação e perguntou se eu animava festas infantis, pois ela estava à procura de um profissional que fizesse essa função.” Rosquinha conta que, a partir daí

resolveu tentar a profissão e saiu-se muito bem, recebendo convites para animar festas. “A coisa começou a ficar séria, fiz algumas oficinas de circo e hoje tenho orgulho do meu trabalho”, acrescenta. Mas o caminho de Valdir não foi muito fácil. Ele diz ter enfrentado alguns problemas no início da carreira, como o preconceito por parte de amigos e familiares. Mas isso não foi um fator que impediu o artista de triunfar na profissão. “A pessoa que trabalha com competência pode se dar bem em

qualquer ramo.” Há também as pessoas que se apaixonam pelos palhaços e pelos espetáculos de circo. É o caso do arquiteto Ronaldo Cesário, que revela nutrir uma paixão pelos circos que visitavam sua cidade natal. “Eu ficava esperando o circo passar, adorava ir aos espetáculos. Morava em São Lourenço e sempre tinha um circo na cidade. Eu era uma daquelas crianças que tinham vontade de fugir com a trupe, mas nunca consegui fazer isso, minha mãe ficava tomando conta de mim”, confessa o arquiteto. Origem na China Relatos mostram que os primeiros palhaços surgiram na China, pois algumas pinturas de equilibristas e acrobatas de cinco mil anos atrás foram encontradas no país. Na Grécia, eles eram chamados de stupides e cicirus, depois vieram outras denominações: os bobos da corte, grotescos, saltimbancos e os fools. O palhaço, como conhecemos, surgiu junto com a formação do circo, por volta do ano de 1776. Expor situações muitas vezes ridículas era, e ainda é, o artifício que esses profissionais utilizavam para causar riso nas pessoas.

Murilo Mendes mobiliza produtores culturais Lei de incentivo à cultura financia projetos de arte da cidade. Em 2010, 80 propostas foram contempladas Edmo Luiz Gustavo Araújo

T

odos os anos, músicos, escritores, equipes de teatro, produtores de filmes, pesquisadores e historiadores da área de patrimônio se mobilizam. O objetivo é o mesmo: enviar propostas culturais para serem contempladas pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura. A Lei entrou em vigor em 1994, e foi proposta pelo exvereador Vanderlei Tomaz. No mesmo ano, foi publicado um livro póstumo com a obra completa de Murilo Mendes. O poeta juizforano que dá nome a esse projeto levou o nome da cidade para outras regiões do Brasil e para outros países da Europa, tornando-se símbolo do objetivo do projeto: incentivar artistas a crescerem artisticamente, desenvolvendo a qualidade e inovação artística local. O processo entre o projeto no papel e sua execução passa por várias etapas: após a proposta ser apresentada à Funalfa, ela passa pela avaliação da Comissão Municipal de Incentivo à Cultura (Comic). Se aprovado, o

projeto tem um ano para ser executado após o recebimento da verba. Caso o projeto se atrase, quem o propôs pode pedir para que o prazo seja prorrogado na Funalfa. Caso a instituição se recuse a prorrogar, o proponente tem de restituir integralmente o valor recebido à instituição. Rodrigo Itaboray produz CDs de alguns músicos contemplados pela Lei. Segundo ele, a falta de organização dificulta muitos artistas na execução de um projeto. “Quanto maior o número de pessoas envolvidas, pior é para conciliar agendas. Muitos projetos, principalmente

da área de música, são apresentados com o material ainda em forma de rascunho”. O produtor acrescenta que os contemplados pela Lei muitas vezes apresentam um material demo contendo somente seis das dez, 12 ou 15 faixas propostas para um CD. “E com isso, o artista tem aproximadamente oito meses para compor, arranjar, ensaiar, fazer a pré-produção, gravar, editar, mixar, masterizar, fazer fotos, registros, encarte e prensar o CD. Segundo ele, só na etapa final, de registro e prensagem normalmente se demora dois meses até o CD estar em mãos. “Por isso a organização Foto: Hércules Rakauskas

A banda Hibrida teve o projeto de seu CD contemplado pela Lei Murilo Mendes em 2010

é fundamental, para começar a trabalhar assim que o resultado do edital sair”, pondera. Dentre os projetos aprovados esse ano, um que se destacou pela organização foi o da banda Híbrida. Atualmente morando em São Paulo, a banda gravou o CD Souvenir no primeiro semestre e já está pronto para o lançamento. Tiago Vieira, vocalista e guitarrista da banda, conta que especificamente para o projeto da Lei Murilo Mendes, foram feitas várias reuniões. “Nos planejamos e conseguimos um bom resultado. Começamos a trabalhar na execução mesmo antes de a verba ter sido liberada. Fizemos uma pré-produção bem detalhada pesquisando timbres, melodias, harmonias e arranjos e já chegamos com a idéia pronta no estúdio na hora de gravar”. O modo de apresentar um projeto é fundamental para que o mesmo seja contemplado pela Lei. Rodrigo Itaboray, além de produtor, também foi avaliador do Comic na edição de 2010, e opina sobre o que considera fundamental na aprovação de um projeto: “Sem dúvida, o

“Souvenir”: Primeiro CD da banda Hibrida.

maior de todos os obstáculos é a apresentação de um projeto onde claramente se nota, por parte do proponente ou artista, a falta de domínio do assunto que o projeto propõe”. Outro ponto importante, segundo ele é o texto ser bem escrito e vender a ideia de forma clara e objetiva. “Uma boa parte das pessoas tende a florear demais, ou querer fazer o projeto parecer mais do que na verdade é, e isso acaba atrapalhando”. Como em toda lei de incentivo, na Murilo Mendes é fundamental o fomento à inovação. Tiago Vieira, da Híbrida, argumenta que eles se sentiram honrados por terem sido contemplados. “Achamos necessário e saudável para a cultura da cidade o investimento em novos artistas. Acreditamos no nosso trabalho e fazemos questão de respeitar os mais experientes”, conclui.

Jornal de Estudo  

Jornal laboratório produzido pelos estudantes de Comunicação Social da UFJF no mês de Junho de 2011.

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