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JORNAL DE

ARTES Artes Plásticas | Artes Cênicas | Cinema | Musica | Literatura

Porto Alegre | Setembro | 2012 | R$ 2,00 www.facebook.com/jornaldeartes www.twitter.com/jornaldeartes

CONTO

Noite de chuva Margareth Azevedo

CINEMA

OS INTOCAVEIS A trama trata da relação profissional – que mais adiante se torna afetiva e amiga – entre o cuidador e a pessoa assistida e cuidada.

ARTES PLÁSTICAS

Tchê Zorzio fé na arte Caé Braga, nasceu em Porto Alegre, (1961). Foi aluno do Atelier Livre, em escultura e litografia. Bolsista no atelier de Vasco Prado. Premiado no 1º Salão da Câmara de Porto Alegre (1988)


Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 2 ARTES PLÁSTICAS

Tchê Zorzio fé na arte

CARTUM

Caé Braga no paço municipal

Os Miseráveis

Caé Braga, nasceu em Porto Alegre, (1961). Foi aluno do Atelier Livre, em escultura e litografia. Bolsista no atelier de Vasco Prado. Premiado no 1º Salão da Câmara de Porto Alegre (1988)

Tchê Zorsio Fé na Arte, mostra do gravurista e ceramista Caé Braga, expondo obras recentes no Paço Municipal, de 29 agosto a 5 de outubro. U lizando materiais diversos: terracota, resina e ferro, Caé Braga faz da figura de São Jorge(San Zorzio) o mote para que o ar sta exercite o imaginário em obras em terracota, gravuras e desenhos. ...“Eu andarei ves do e armado, com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo olhos não me enxerguem, e nem pensamento possam ter, para me fazerem o mal...”

Bilheri

Obras na técnica lápis e aquarela, gesso e resina, nanquim e lápis de cor e nanquim e grafite, são apresentadas como um exercício de atelier e estudo na composição de obra. O traço inquieto e revelador apresenta a temá ca do cavalo, a exemplo do seu mestre Vasco Prado, de quem o ar sta se faz herdeiro em algum momento. A terracota Semblante da Morte transmite a preocupação do autor abordando temas do universo mí co como a morte e a religiosidade.

Se você enxergasse te levaria para ver um filminho de arte americano, que tá fazendo enorme sucesso entre os muçulmanos.

. ARTES PLÁSTICAS

Águas em Movimento Mais de 80 artistas expondo todo o seu talento por uma causa nobre: a água Por |

Luiz Antonio Timm Grassi e Zoravia Bettiol * Um olhar de artistas voando nas asas da imaginação, mergulhando nas águas em movimento. Porque as águas precisam de novos olhares, porque a substância essencial para a vida é limitada no planeta azul, mas é tratada como se fosse infinita, inexaurível. Cada vez mais usos, em quantidade maior sempre maior: as águas começam a conhecer a escassez: ‐ de quantidade, com rios quase secando com a retirada para a agricultura, para a indústria, para o abastecimento das cidades, com o desmatamento e as mudanças climáticas, ‐ de qualidade, com a poluição avançando, pelo lançamento de resíduos sólidos (lixo) e líquidos (esgotos, efluentes industriais, devolução das águas de irrigação, resíduos da navegação). Frente à crise, a necessidade do cuidado que tem o nome de Gestão Pública dos Recursos Hídricos – governo, usuários das águas e sociedade unidos para recuperar, conservar, racionar, melhor usar, melhor compartilhar. Eis o propósito desta exposição “ÁGUAS EM MOVIMENTO”, uma mostra que reúne mais de oitenta artistas, na XIX Semana Interamericana da Água e XII Semana Estadual da Água, contribuindo para defender a criação do Museu das Águas de Porto Alegre – MUSA, futuro centro cultural para a preservação da história dos mananciais e dos usos das águas, para promover ações educativas e de conscientização sobre a gestão dos recursos hídricos e para desenvolver a criatividade artística tendo

as águas como tema, matéria ou suporte e apresentar obras nas mais diversas modalidades artísticas não só nas artes visuais como na literatura, teatro, na dança e na música. Dos dias 26, 27 até 28 de setembro/2012 haverá Mostra Águas em Movimento com mais de oitenta artistas no Museu de Arte Contemporânea do RS, Espaço Vasco Prado, 6º andar, na Casa de Cultura Mario Quintana – Visitação de quarta a sexta das 10h às 19h. Nos dia 29 de setembro/2012 haverá a palestra: Museu das Águas de Porto Alegre como instrumento para a gestão de recursos hídricos com Teresinha Guerra, geóloga, professora da UFRGS e presidente do Comitê Lago Guaíba, no auditório Luis Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana. Já às 11h acontecerá a Cerimônia de abertura e coquetel de venda das obras dos artistas participantes da mostra Águas em Movimento. Preço único de R$ 200,00 cada obra, sendo que toda a renda arrecadada será revertida em prol do MUSA. A mostra Águas em Movimento acontecerá no Museu de Arte Contemporânea do RS – Espaço Vasco Prado, Rua dos Andradas, 736, 6°andar – Casa de Cultura Mario Quintana Bairro Centro Histórico, com visitação até 29 de outubro de 2012, De quarta a sexta das 10h às 19h, aos sábado das 11h às 18h. Maiores informações em www.macrs.blogspot.com.

* São Coordenadores do Comitê Pró‐Museu das Águas de Porto Alegre

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ARTES Artes Plásticas | Artes Cênicas | Cinema | Musica | Literatua

Colaboradores desta edição

EXPEDIENTE Jornal de Artes é uma publicação da MURUCI Editor Editor | João Clauveci B. Muruci Design Gráfico/Capa/Diagramação | Mauricio Muruci Email | jornaldeartes@yahoo.com.br Twitter | www.twitter.com/jornaldeartes

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Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 3 POESIA EM PROSA

Pra dizer que falei de amor Por |

Djine Klein (djineklein@gmail.com)

“Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário,...” Clarice Lispector

O desejo é algo que não dá trégua e não há disfarce que possa ocultar tanta ânsia. Sobre o corpo do amado só o soberbo era de sublimar o desarvoramento. Este se nega ardente e não recorre ao suicídio para apagar tamanha covardia. O soberbo. Mas quem pelo gozo não quis amar como os loucos! Com a sede dos luná cos o amor nos doidos nasce mais lúcido. E lúdico. E amam‐se em rebuliço para dar distração aos áridos. Os avaros. Eis que quem vê como sacri cio alongar os braços, buscando o amado para o encontro, nunca será amante amado. E nada sabe sobre dois corpos se amando em estreitamentos. E não sabe reconhecer os anseios da própria carne e se mente. Eis que teatrar o vício do amor ardido pode reduzir o abismo em tempo de separação. E têm olhos sábios os que acalentam os próprios sustos visando os desassossegos do ser amado. Todavia sei que é lícita a conjectura de que amar com escândalo é crime. Mesmo sendo o desvario a mando do coração. E quem são os que amam de amor e seu contrário no mesmo ato se não os enluarados? Eu sempre digo sim aos convites dos olhos de meu amado. E atendo ao chamado, meus olhar pra ele com faísca de pupilas. E me prá co uns sorrisos só para ele. Depois as impressões de mim nele, ele explorando minhas dimensões e guardamos tudo para o livro dos sacramentos. Hoje logo despertei ocultava uns restos do sono atrás das pálpebras e me dizia: chega de decifrar navalhas que isso é exercício para os esquivos. Ou será que por midez não sustentava o amor com riso? Será que me ficava à sombra com olhos à flor do corte! Por medo? Mas se eu penitencio os que falam de seus amados com distraimentos! Eu por exemplo só me quero como louca de pedra. Uma vidente anunciando o amor livre dos juízos. Serei eu na Ágora a falar do AMOR como os grandes de ROMA falaram em liberdade. E sendo para o meu amado de uma loucura aflita, entre o impulso de ternura e o beijo‐riso, o meu irisado gesto de poesia é só por ele. E hei de lhe tangenciar o rosto lindo com beijos, até os olhos à lágrima que de afeto imenso a criatura chora. Sobre a plebe tenho que quando me chegarem com injúrias, suavizaria a máscara respondendo a ofensa com um truísmo. E nunca mais farei escândalo quando descobrir que me enviaram um arpão oculto num lírio. Sim! Terei a coragem que não tem um exército inteirinho de desiludidos. Com os olhos em inclinação de modés a sou de ofertar uma rosa ou assemelhada flor a meus algozes. Os espinhos deixo oculto no grito interior. E em toda essa lida de amar com gosto‐mel e flor‐pele descobri que de salto em salto as auroras hão de a ngir‐me em cheio. E meus dias antes escritos com puro grafite agora as palavras registram‐se luminosas por mim. ‐ E ele? Onde está o teu amado? Muitos perguntam. ‐ Eu respondo: Ele é como um colibri no mundo! E meu absoluto Sol.

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Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 4 CINEMA

OS INTOCAVEIS Por |

Berenice Sica Lamas

*

A trama trata da relação profissional – que mais adiante se torna afe va e amiga – entre o cuidador e a pessoa assis da e cuidada. O jovem negro marginal e imigrante, oriundo do Senegal (AF), que mora na periferia pobre de Paris, recém‐ saído da prisão por assalto a uma joalheria, Foto: Divulgação

s e t o r n a p o r a c a s o c u i d a d o r, acompanhante, assistente, sem preparo algum, através de uma seleção na qual

aprendem, vivem, compar lham. Perfeitamente integrados, quer na

busca apenas uma assinatura para garan r o seguro‐desemprego e o

velocidade de um carro ou de um avião, quer correndo na cadeira de rodas,

paciente – um bilionário viúvo tetraplégico isolado do mundo através de sua

dançando, comendo, conversando, visitando museus, par cipando de

riqueza em sua casa, encarcerado em sua cadeira de rodas, morada

aniversários, em trocas de amizade, enfim... Um encontro de dois seres

denominada pelo cuidador de “gaiola de ouro”.

humanos diferentes e semelhantes, com suas potências, intensidades e

O choque sociocultural entre os dois homens é inevitável, no filme

ressonâncias.

se torna até mesmo hilariante, porém a convivência traz modificações

Driss, impulsivo e agressivo, sempre se nega na primeira vez a

posi vas às vidas de ambos. O cuidador traz ousadia e aventura de volta à

realizar algumas tarefas (massagear, limpar, banhar...), porém rapidamente

vida do paciente e este, integridade e disciplina à vida de seu cuidador, além

se adapta e passa a cumprí‐las. É engraçado como inicia a comprometer‐se

de proporcionar, com suas possibilidades financeiras, confortos ‐ e até

com o paciente, totalmente dependente pela sua condição de cadeirante

mesmo luxo‐ e segurança de moradia, alimentação, vestuário e novos

tetraplégico. Cuida‐o com atenção, mas sem piedade piegas, com realismo e

hábitos culturais.

pragma smo. Ele, um jovem transgressor da periferia parisiense desfruta

A irreverência, o humor, as informações e a visão do mundo de

prazeroso tudo de bom que o emprego propicia, inclusive aposentos

Driss ‐ o rapaz cuidador trazem novo alento e até mesmo alegria de viver ao

privados com banhos de banheira de espuma e a possibilidade de dirigir

deficiente, que supera dores e volta a voar de parapende, esporte radical que

carros espor vos potentes.

aliás, fora causa de seu acidente que o deixara paralisado do pescoço para baixo.

O filme – comédia, drama, entretenimento, aprendizagem, humor, tragédia, ironia, reflexão – misto de tudo isto, encanta sobretudo pela

A incompetência inicial e falta de jeito para exercer as funções de

humanidade tão frágil e guerreira ao mesmo tempo, e de quebra, demonstra

cuidador – e até mesmo a irresponsabilidade – cede lugar pouco a pouco a

um perfil inusual de um cuidador quase perfeito para aquele determinado

uma eficácia e efe vidade que enriquece a vida de Philippe e do próprio

papel com aquele específico paciente/patrão. Omar Sy no papel de Driss

cuidador e suas relações com as respec vas famílias. O relacionamento entre

tornou‐se o 1º ator negro a receber o prêmio Cesar do cinema francês. Ri‐se

os dois estende‐se, então, às famílias de ambos, e auxiliam‐se mutuamente

muito, e faz emocionar também. Um filme

em suas complicações familiares.

para saborear e refle r.

O cuidador, através do contato e convivência que inicia a desenvolver com as artes plás cas, quadros, pinturas e ar stas famosos, começa ele próprio a pintar e o paciente/patrão consegue vender seu 1º quadro por 11 mil euros !! Juntos, eles transgridem, passeiam, celebram, se exercitam, se curam,

* Berenice Sica Lamas é Psicóloga e escritora

Filme: “Os intocáveis” (França, 2012) Diretores/roteiristas: Eric Toledano e Olivier Nakache Texto/livro inspirador: O segundo suspiro, no Brasil em 2012, do autor Philippe Pozzo di Borgo. Atores: François Cluzet no papel de Philippe (bilionário viúvo tetraplégico branco) e Omar Sy no papel de Driss (cuidador negro, imigrante africano na França)

Foto: Divulgação


Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 5

Viamão ma

il‐ jart e

co m

CONTO

Cultural

Noite de chuva Por: Margareth Azevedo

il. s@gam

POESIA

Amor con do Amor sen do amor Amor mor amor maior Amor grandeza. Amor natureza. Amor canção silenciosa da paz. Amor coração: amar é mar... Amor oceânico. Amor imenso Amor intenso profundo, natural e simples. Amor razão do mundo! Amor humano. Amor tânico. Amor orgânico múl plo e monogâmico. Amor balsâmico. Sideral e cósmico. Eterno. Amar‐te amor em Marte, Na Lua. Na rua amor arte. Sorte. Doce aventura Fogo e brandura. E amor ternura ritmo ideal. Perenal, amor total. Viver sonhar. Amar Amor amar‐se, alar‐se. Andar no ar ou sobre águas Sobre asas de águias. Sobre o Pégasus levitar. Passear a boca no céu de uma outra E a alma louca a beijar estrelas Amor perfeito a florir no peito... O meu. O teu. O nosso Jardim universal. Amor par lha: pai, mãe e filho... Amor em verso único Uni‐Ser. Univerbo Transcendental Amor –Pan Divinal Fundamental Amor Deus. De eu E Eus.

Constelação Por | Dilamar Sasso

A noite desenhou‐se inteirinha.

A chuva começou sem que eu percebesse. Assim que me dei conta da água correndo e dos clarões e relâmpagos lá fora a luz apagou. O vento balançando as janelas fez me lembrar delas. Corri para fechá‐las e recebi água no rosto. Bateram à porta, mas não acreditei que pudesse ser alguém. Peguei uma vela que sempre nha na cômoda e fui até lá. Com a ventania a chama apagou. Fosse quem fosse, eu nada podia ver, mas sen a a presença ali na escuridão. Uma voz feminina pediu para entrar até que passasse a chuva. Logo a luz voltou, então, pude vê‐la. A moça com o cabelo escorrido, tapando o rosto, a pele muito branca. Nunca a nha visto, agora estava ali em minha casa em frente a um prato de sopa bem quente. Eu a observava disfarçadamente entre cada colherada e talvez ela fizesse o mesmo. Então, perguntou com voz rouca: ‐ A senhora sabe onde posso encontrar o Greco? Quase engasguei ao ouvir o nome. ‐ Sabe? insis u ela. ‐ Sim! consegui dizer. Sua roupa ensopada pingava no chão. ‐ Olha moça, acho melhor você ficar esta noite, a chuva não tem jeito de parar. Vou buscar uma roupa pra você trocar. Saí e deixei‐a ali. Quem seria? Eu nha até medo de perguntar. O que andaria uma moça, sozinha, sem bagagem nenhuma fazendo aqui, trazendo essas lembranças. Há quanto tempo não ouvia este nome. Greco, repe engasgada. As lágrimas vieram, mas consegui segurar os soluços. Quando saí do quarto, já recomposta, com a muda de roupa seca, ela estava na sala olhando as fotografias que eu man nha na parede. Sem se virar perguntou: ‐ É ele não é? Olhei para a foto de criança que apontava. Confirmei com a cabeça. Ela se virou sorrindo, e aquele sorriso me perturbou. ‐ Você morou por aqui? perguntei. ‐ É, já faz tempo. Dei‐lhe a muda seca e ela foi se trocar. Fiquei na sala pensando e a lembrança daqueles olhos me arrepiou. Só agora eu reparava nos olhos, muito azuis, era como se não pertencessem àquele rosto. Tolice de velha, disse a mim mesma. Já era tarde, mostrei‐lhe o quarto, despedimo‐nos com palavras curtas. Não dormi logo, remexi na cama por muito tempo. Mesmo cansada o sono demorou a vir e, quando veio, trouxe pesadelos. Acordei molhada de suor. Levantei, ela já estava na cozinha. Havia preparado o café, esquentado o leite. ‐ Olá ‐‐ disse um pouco sem jeito. ‐‐ Eu quis ajudar. A mesa estava posta como há muito tempo eu não colocava: doces, queijos, comi. ‐ Onde posso encontrá‐lo? ‐‐ perguntou. ‐ Quem? ‐ Greco. ‐ Ele... ele... ‐ Por favor. ‐ Mas... está bem, vamos. Saímos. Eu não sabia por que não lhe falara logo. Talvez fosse mais fácil mostrar. Caminhamos em silêncio por algum tempo, até chegarmos ao descampado. Entramos pela abertura no muro, onde deveria estar o portão de ferro. Andamos pela grama que cobria toda a passagem. Mal cuidado pelos homens a natureza se encarregava daquele lugar. ‐ Chegamos, eu disse. A moça não pareceu nem um pouco surpresa. Agachou‐se para ler a lápide.: ‐ “Greco Mário Poças, 1956 – 1976.” Sem se virar disse: ‐ Obrigada, senhora Poças. E sem dar tempo para que eu esboçasse alguma reação, com meus próprios olhos a vi penetrar na pedra e desaparecer. Meu coração disparou, acho que desmaiei, não lembro como saí dali. Isto aconteceu há alguns dias, mas estou velha demais, troco as datas, as pessoas, confundo tudo. No entanto, quando lembro dos olhos, um frio me passa pela espinha e fujo de acreditar. Olhos que meu filho perdeu, mesmo antes de eu perdê‐lo. A prova disso tudo que contei?! Acabo de queimá‐la junto com o lixo do pá o. Não há mais resquício algum, a roupa que ela deixou está se decompondo nas cinzas. A minha memória também.

E a noite debulhou seus grãos de estrelas. Os pássaros dormiam, já não nham a agitação da aurora. A solidão saíra de entre os ramos e o vento vinha bafejando com suas asas ocultas. Ardendo em seus segredos. Olhei para o céu, via cardumes de constelações. Animais passeavam na várgea. Depois já era tarde, mais que madrugada, em instantes e o céu ardendo em chamas... O sol abrindo vãos entre as nuvens. Uma fogueira. Mais um dia! Mais um dia de esperança acesa a queimar‐me, a cada instante, a cada minuto... Eu? Um jovem poeta.

Cloveci Muruci

Apoio Cultural :

Café da Praça

O ponto de encontro da Cultura


Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 6

vida ao verso

O Jornal de Artes abre espaço em duas páginas onde estarão as produções do Grupo diVersos e outros amigos, e os autores de Viamão, para nossos leitores terem contato com um universo maior da nossa produção literária. “É preciso expor a mercadoria”, enfatizou outro dia Bertolt Brecht, explicitamente. É nosso dever mostrar na prateleira nossos objetos de arte. A editora de literatura, Djine Klein estará encarregada de trabalhar junto a esses autores, e descobrir o melhor achado, um pequeno diamante junto a peneira de algum descuidado poeta , e trazer do fundo do rio a tímida criação. Boa leitura.

Ninfas

Peripaté co Por | Djine

Por | Adélia

ao crepúsculo resplandece minh'alma na solidão silenciosa voam ninfas luminosas Calíope, Polímnia deusas da poesia

Metrópole

Klein

Einsfeldt

Mergulho na voz do silêncio

Cloveci Muruci

Cloveci Muruci

Cloveci Muruci

POESIA

Por | Beatriz Balzan Barbizan Estava eu ideando... (de umas curiosidades) Assim... Tipo ‐ criança e carvalho. ‐ E como se enflora o pensamento!... Nisso um verme sem pressa Atravessava lírico todo o longe da janela. Foi uma visão extremosa: ‐ Quanta beleza e horror! O corpo morto ‐ Beija‐Flor.

O grito insano da sirene Fere meus ouvidos Acorda meus medos Incêndio? Emergência? Ladrão? É o grito desesperado da vida Chegando ou fugindo pelas mãos N'algum lugar logo adiante Alguém estará esperando Para ouvir aliviado

buscam o perfume néctar da paixão pura magia.

Esse grito que vai passando.

Amor eterno

Quando os conheci seus cabelos já eram brancos e os dias transcorriam em lazer com a família, caminhadas pelo bairro e longas conversas no sofá predileto. Porém certo dia Por | Gerson Dias de Oliveira ela largou o tricô sobre os joelhos e adormeceu. Foram muitas as lágrimas e abraços, mas não foi possível desperta‐la e assim a vida perdeu muito de seu brilho e gosto. Quando surpreendido nas caminhadas solitárias, culpava o vento pela lágrima que insis a em embaçar‐lhe os óculos e por conseqüência no sofá, aconteciam somente longos silêncios e leituras. Certa tarde quando um vento morno vindo do norte, com vagar abriu a porta da varanda, colocou o jornal sobre a poltrona e sorrindo, diante do espanto de todos, estendeu as mãos como a receber uma visita muito desejada.. Durante o o cio, a emoção foi geral quando um pássaro sobrevoou o templo e saiu pela janela na direção do sol, pois pareceu que a avó ali es vera para vê‐los e buscar seu amor, amor eterno. Cloveci Muruci

Apoio Cultural :

JOÃO DOSLIVROS


Porto Alegre |Setembro | 2012 | ARTES | 7 FOTOGRAFIA

Ponto Cego: Por

Miguel Rio Branco

Clauveci Muruci

Um dos mais importante artista brasileiro, a utilizar a fotografia como meio de expressão, além da pintura, objetos, desenho, assemblages, instalações, filmes e vídeos. As 110 obras apresentadas, por Miguel Rio Branco, no Santander Cultural que se impõem como a contemporaneidade de um trabalho vigoroso, destaca‐se com a linguagem fotográfica, que indica a apreciar a riqueza dessa produção. 1‐“A linguagem da cor‐luz persegue o obscuro no desejo, em qualquer dobra da alma, no gueto, na exclusão,na selva e nas diferenças para expô‐lo à flor da pele.” A obra de Miguel Rio Branco, é inquietante e sensual numa transformação de desmontar e remontar conceitos através da cor, ou a ausência dela. Miguel Rio Branco (1946) filho de diplomata brasileiro neto de desenhista nasceu na Las Palmas de Gran Canaria, Espanha, atualmente vive e trabalha em Araras, no Estado do Rio de Janeiro. Sua primeira exposição de desenhos e pinturas foi em 1964 em Berna, Suíça. E, 1965 começa a incorporar a fotografia em suas pinturas. Viveu em Nova Iorque entre 1970 e 1972, onde desenvolveu a fotografia de rua e filmes super‐ 8. Conheceu Oiticica, foi incentivado pelo artista nesse processo de criação. Junto com a companheira norte‐americana Patricia Nolan, sua obra começava a definir‐se entre uma postura crítica da vida das ruas das metrópoles e o refúgio romântico nas linhas do corpo da mulher. No Brasil, realiza viagens pelo Nordeste, sobrevivendo como diretor de fotografia de documentários de cinema. Na posse da realidade brasileira e com observação crítica e com construção poética, resultou em uma exposição em 1978, “negativo Sujo”, no Parque Lage. Em Salvador, começou a série das mulheres do Maciel, esse trabalho resultaria em exposições na galeria da Fotoptica e da Funarte, e finalmente no filme Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno, premiado a Melhor Fotografia no Festival de Brasilia, prêmio especial do Júri e Prêmio da Crítica Internacional no festival de Lille. Em 1983, realiza sua primeira instalação audiovisual importante, Diálogos com Amaú(apresentada na Bienal de São Paulo) e percebe que a questão documental serve de base para suas colocações poéticas. De volta a Salvador, retoma as telas gestuais com influência das pinturas corporais dos caiapós de Gorotire. Muitas exposições foram criadas e muitos espaços institucionais receberam seus projetos (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Funcació La Caixa, de Barcelona; Centro Português de Fotografia; Église dês Frères Pr~echeurs, em Arles; Maison Européenne,em Paris; e kulturhuset, em Estocolmo, entre outras. Em 1991, é realizada a sua obras mais lírica, Entre os olhos, o deserto, o que ocasionou o convite do curadorIvo mesquita para um projeto no In Site Diego. Sua obra hoje pode ser sentida e vivenciada no pavilhão com o seu nome, no que pode ser mais revolucionário projeto relacionando criação e natureza, que é Inhotim, em Minas, Criação do visionário Bernando Paz.

I SARAU DE POESIA E LITERATURA DA

ÁFRICA O Espaço Nomeando, é um novo lugar em Porto Alegre, que se caracteriza como um coletivo, disposto a novas propostas que desenvolvam a Cultura a Educação e o Desenvolvimento Social. Desenvolvem aulas de percussão, dança africana e capoeira de Angola, e se impõem imageticamente pelas intenções de criação, da liberdade e diversidade. É um local de exposições, debates de ideias, empenhado na construção do novo homem através da informação, do exercício da linguagem poética. O lugar é propicio a novos conceitos, e derrubar pré (conceitos) no campo da arte. O I Sarau de Poesia e Literatura de África terá na programação, exibição de vídeos da África, Exposição e palestra do artista Clauveci Muruci ‐ com gravuras sobre O Massacre dos Porongos. Venda e troca de Fanzines, livros sobre a África e Cultura africana disponíveis para leitura. Os ingressos antecipados(25 lugares)pelo enomeando@gmail.com ou piratafricanamente@hotmail.com Onde: Rua Aureliano de Figueiredo Pinto, 852, Bairro Menino Deus. Quando: 20 de outubro, das 20h às 22h.


Segunda Pele / Intervenção na Casa de Cultura Mário Quintana Foto: Clauveci Muruci / Kodak EasyShare C713

A Poé ca na Fotografia e suas Especifidades Por | Georgia

Quintas

A poética na fotografia transcorre por diversas especificidades que colocam o fotógrafo num processo insesante de tensão criativa. O que fotografar, como produzir uma representação que se alinhe com o desejo estético, subjetivo e imaginário?A fotografia propõe um mar de possibilidades que alimenta a poética dos autores. A busca por uma identidade visual e conceitual está em reconhecer a potência da criação. Ao criar operamos estruturas que reúnem sensibilidade, intuição, consciência e imaginação. É inerente ao fazer artístico e, por consequência, ao exercício poético o desassossego da criação. A fotografia criada e almejada por cada fotógrafo ou artista visual parte de premissas que solucionem suas imagens internas, ideias, propostas e apropiações da realidade ou da ficção como ampliação do nosso entendimento sobre o mundo através do olhar


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