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8 | Jornal da Universidade

Biodiversidade pela lógica

do envolvimento Preservação Pesquisadores apontam que a presença indígena favorece a conservação dos ambientes naturais

Felipe Ewald* Natalia Henkin**

FOTOS: felipe ewald/ju

Recém-eleito para governar o país nos próximos quatro anos, Jair Bolsonaro chamou a atenção do mundo todo com declarações polêmicas que reforçam a visão, predominante há muito no país, de que a demarcação de terras de povos e comunidades tradicionais é um obstáculo para o desenvolvimento. Em entrevista à TVBandeirantes, no dia 5 de

novembro, o futuro presidente declarou que, se depender dele, “não tem mais demarcação de terra indígena”. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), o cancelamento de novas demarcações de terras indígenas acabaria com 129 processos que hoje estão em andamento em diferentes etapas. Atualmente existem 11,3 milhões de hectares em estudo para demarcação, abrigando cerca de 130 mil indígenas. Além disso, retrocessos na política de demarcações ameaçam não só a existência e a sobrevivência dos povos tradicionais, mas também a preservação do meio ambiente. Segundo o etnoarqueólogo José Otávio Catafesto de Souza, professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, existe uma relação direta entre a presença humana de grupos tradicionais e a conservação da biodiversidade. “Dados publicados pela Unesco demonstram que, de todas as estratégias utilizadas para o resguardo da biodiversidade, sem dúvida nenhuma, as populações tradicionais são as mais eficazes e as mais baratas para a sua preservação e manutenção”, afirma. Em julho de 2017, o Google passou a iden-

tificar os territórios indígenas nos mapas das suas plataformas Earth e Maps. Analisando as imagens disponíveis, é possível verificar, em algumas regiões, a diferença evidente entre a cobertura vegetal a de dentro e de fora das áreas demarcadas, tendo as terras vizinhas uma cobertura muito mais escassa – por exploração de madeira, urbanização ou desmatamento para pecuária e agricultura. A empresa declara que adotou a medida justamente para expor o papel crucial de comunidades indígenas na preservação ambiental, sobretudo na Amazônia, maior floresta tropical do mundo. Catafesto conta que tem aprendido muito com a sabedoria dos grupos indígenas no trato com o ambiente. Segundo o professor, a lógica indígena é de envolvimento com a natureza, sem querer sair dela, enquanto a capitalista ocidental é de distanciamento da natureza. “A palavra desenvolvimento demonstra bem a maneira como nós concebemos a forma de estar no planeta: desenvolvimento é sair, é tirar do envolvimento. As sociedades indígenas jamais se propuseram a isso, pelo contrário. A gente chega numa aldeia e praticamente todas as atividades diárias são fora de casa, fora de qualquer estrutura humana: embaixo de uma árvore, com pé no chão”, acrescenta. Felipe Brizoela, cacique mbya guarani da aldeia Pindoty, no município de Riozinho, confirma: “A natureza faz parte da vida espiritual guarani. A preservação é importante para nós por conta da ligação espiritual”. Ele se queixa da falta de compreensão dos brancos sobre a relação de seu povo com a terra, ressaltando que o que querem não é acumular mais território, mas, sim, a preservação da mata que ainda existe. “Para nós, seria importante que toda a mata que ainda existe fosse preservada. Não

se trata de querermos mais terras; queremos garantir a permanência do que resta de mata para que, no momento em que precisar, a gente tenha condições de uso para medicina tradicional ou para matéria-prima. Só que o mundo não indígena não entende, acha que a gente quer ter mais terra”, critica. A bióloga Joana Bassi, técnica da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema), também reforça essa percepção. Representante da Sema no Conselho Estadual dos Povos Indígenas (CEPI), ela diz que a legislação brasileira reflete a visão predominante na cultura branca ocidental, que separa sociedade, cultura e natureza – separação essa que não se reproduz na cosmovisão indígena. “No caso dos guarani, especificamente, a gente vê que a terra é muito mais que um espaço físico. Ela representa ao mesmo tempo ancestralidade, sustentabilidade, espiritualidade, pertencimento. Ela tem vários significados para muito além do território físico”, afirma. Bassi explica que a demarcação de terras guarani é um processo recente, que se iniciou nos anos 1990, mas que áreas já demarcadas, em tantos anos de presença e de manejo, têm se qualificado em termos de biodiversidade. “Os guarani vão florestando, plantando, disseminando e garantindo a biodiversidade de acordo com o seu modo de vida. Onde tem guarani, tem mato. Se não tem, vai ter daqui a pouco, porque faz parte da dinâmica de existir num território garantir a existência da biodiversidade”, completa. André Benites, cacique da aldeia Ka’aguy Porã, em Maquiné, acredita que não há como separar as coisas. “A gente sabe que sem a natureza ninguém vive; isso para todos os povos, mas principalmente para a humanidade. A gente quer que os não

Jornal da Universidade  

Edição Dezembro 2018

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