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COMUNICAÇÃO

Jornalismo VIP: os ricos na fita

Rafael Martins

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA) Nº 20 - Maio de 2009

Pág. 06 e 07 CIDADE

Brigadas dos cinemas: quem já viu? Pág. 09

EDUCAÇÃO

Cadê os laptops dos BI?

Pág. 12 e 13

MODA

Modelos negras estão em alta

Pág. 18

Incêndio na UFBA alerta para improvisos

Pág. 14 a 17




Expediente/ Editorial

Jornal Laboratório - FACOM/UFBA - Maio de 2009

UFBA NOVA, TRAGÉDIA E OUTROS OLHARES Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia Endereços: Rua Barão de Geremoabo, s/n, Campus de Ondina CEP. 40.170-115 Salvador/Bahia jornaldafacom@yahoo.com.br Editoração eletrônica Fernando Duarte Assistentes de edição/ Monitores André Cerqueira Bárbara Lisiak Carlos Eduardo Oliveira Egidéilson Santana Fernando Duarte Filipe Costa Savana Caldas Assistente de fotografia Frederico Fagundes Secretária de Redação Camila Queiroz Subeditora Gabriela Vasconcellos Editor Responsável Malu Fontes, professora DRT-BA 1.480 Produção da disciplina Oficina de Jornalismo Impresso, semestre 2009.1: Ana Margarida Almeida, Camila Queiroz, Carol d’Avila, Felipe Dieder, Frederico Fagundes, Gabriela Vasconcellos, Giacomo Degani, Guilherme Vasconcelos, Iali Moradillo, Joseane Bispo, Julien Karl, Livia Montenegro, Luis Fernando Lisboa, Maitane Roa, Mariana Almofrey, Mariana Sebastião, Nelson Oliveira, Paloma Ayres, Paula Amor, Paula Boaventura, Rafael Freire, Raiza Tourinho, Rebeca Caldas, Renato Cordeiro, Rodrigo Wanderley, Verena Paranhos, Victor Gazineu, Victor Soares Diretor da Facom (2005-2009) Professor Giovandro Ferreira Reitor da UFBA (2006-2010) Professor Naomar Almeida Filho Tiragem: 5.000 exemplares

O

primeiro semestre do penúltimo ano da década será marcado, no contexto da Universidade Federal da Bahia, pela implantação das primeiras turmas dos Bacharelados Interdisciplinares, os Bis, marcos da chamada UFBA Nova, e por uma tragédia acadêmica, física, estrutural, financeira e, por que não dizer, pessoal, para centenas de alunos e professores de graduação e pós: o incêndio que, no dia 21 de março, destruiu todo o quarto andar do Instituto de Química, transformando em lixo laboratórios e trabalhos de pesquisa que vão exigir anos para a volta à normalidade. Em uma tentativa de apresen-

tar os mais diferentes aspectos que nortearam o incidente, sem precedentes na UFBA, este primeiro número do Jornal Laboratório produzido pelos alunos da Oficina de Jornalismo Impresso no semestre 2009.1, busca trazer ao leitor os diferentes personagens e cenários envolvidos na tragédia. Uma vez que, imediatamente após o episódio, não existiam respostas prontas para explicar o que, de fato, isolada ou coletivamente, levou ao incêndio, a iniciativa mais recomendada para a cobertura jornalística era traçar um panorama da conjuntura da unidade, seus personagens e suas instalações, bem como apontar conseqüências e medidas adotadas após a ocorrência. Essa foi a estratégia usada pelos alunos envolvidos na produção da matéria de capa deste exemplar. Levando-se em conta o fato de o jornalismo opinativo hoje experimentar um boom em diferentes suportes, o JF busca aliar ao exercício da apuração e da reportagem, algum espaço para a opinião, seja através dos textos de professorescolunistas, seja através da seção faconistas, em que alunos exercitam opiniões e críticas.

Numa tentativa de falar da própria imprensa, buscando sair da máxima de que a imprensa não cobre a si mesma, o JF traz também nesta edição a verve de seus repórteres sobre o que chamam de ‘jornalismo crasse A’, um segmento em franca emergência em Salvador, comprometido até a medula com o colunismo social paroquial e kitsch. Além disso, há a picardia da coluna Pimenta, produzida com a colaboração de todos os alunos da disciplina, e, neste semestre, o registro de impressões capturadas pelo olhar estrangeiro, de quem vê a Bahia com o ineditismo impossível para quem aqui vive, nesse caso o de duas alunas intercambistas que, neste semestre, compõem a Oficina de Jornalismo Impresso: a basca Maitane e a portuguesa Ana Margarida. Sempre em busca de um olhar que se aproxime mais das bordas do que do centro e comprometido em extrair dos alunos perspectivas críticas e distanciadas do jornalismo asséptico, burocrático e sisudo que muito se vê no campo profissional, esta edição do Jornal Laboratório da Facom apresenta ao leitor mais uma tentativa de fugir às armadilhas do mais do mesmo. Se ainda não foi desta vez, um dia, quem sabe, o desafio de não fazer jornalismo de plástico será plenamente contornado.


CIDADE

Jornal Laboratório - FACOM/UFBA - Maio de 2009



Ícone da vez, Obama vende Presidente dos EUA multiplica-se em souvenirs de todos os tipos e preços Carol d’Avila

Obama figura como ícone em quadros e outros objetos

Carol d’Avila Mariana Sebastião

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im, é ele, Barack Obama. O atual presidente dos Estados Unidos não garantiu só um dos cargos mais respeitados no cenário político, mas também virou celebridade mundial. Conquistou a população estadunidense e serviu de inspiração para a população de Salvador, ali mesmo no Pelourinho. Ao entrar no centro histórico, no Terreiro de Jesus, os visitantes se deparam com uma barraquinha onde se vendem camisas de diversas cores com o rosto do presidente estampado. Andando mais um pouco, Obama também já se mistura entre as pinturas de baianas e mães-de-santo nos quadros vendidos nas galerias. Lá está ele pintado em frente à Casa Branca, em tons de azul e vermelho e em outra estampa mais curiosa, o presidente dos Estados Unidos aparece correndo de bala perdida. Mas porque Salvador aderiu a essa

“Obamania’’? O que um presidente de um país tão polêmico faz servindo de logomarca para os soteropolitanos? Ricardo Miranda, artista plástico de 34 anos, é um dos responsáveis por essa moda. O seu ateliê é repleto de pinturas com o rosto de Obama. Há quadros de tamanhos diversos e o próprio artista recebe os visitantes com um sorriso do presidente estampado na camisa, parecendo até um uniforme do local. Em poucas palavras, Miranda conta que já vendeu mais de 30 pinturas desse novo líder e acredita que a razão do sucesso seja a grande identificação do povo com o presidente: “Obama é um líder negro e Salvador é uma cidade negra. É uma vitória contra a desigualdade que existe. Torna-se um estímulo: ‘se ele pode, eu posso’”. Ricardo Miranda já teve outras experiências com grandes personalidades. Começou pintando Che Guevara e Martin Luther King, e há algum tempo resolveu fazer algo diferente no Pelourinho, por isso

começou a vender a imagem de Obama. “Sou capitalista, também aproveito o momento da febre para vender meus quadros’’, explica, equilibrando a necessidade de vender a sua arte com a esperança que deposita: “A economia dos Estados Unidos rege a todos. Nós aqui esperamos a resolução dos problemas por Barack Obama, tenho muita esperança nele’’. Apesar da febre, nem todas as galerias aderiram à Obamania. Quando se pergunta a outros vendedores do Pelourinho sobre a existência de artefatos que fazem referência ao presidente, todos sabem da “febre do Barack Obama”. “Também fiquei surpreendido com o fenômeno’’, revela o artista plástico Sérgio, um italiano de 58 anos que também é artista plástico. Sérgio, como ele mesmo assina nas suas produções artísticas, entende que Obama é uma grande esperança principalmente por ser negro, mas não alimenta idéias românticas sobre o assunto. “A desmedida esperança dos brasileiros é ingênua, já que existem interesses particulares nos Estados Unidos que, mais cedo ou mais tarde, podem não atender a todas as expectativas”, analisa Sérgio quando revela que não partiu dele a idéia de produzir esses quadros, mas faz isso porque “o mundo está interessado”. Unanimidades no pelourinho também aderiram à Obamania. É o caso de Clarindo Silva, 66 anos, nomeado Rei Momo no carnaval 2008 e dono do tradicional restaurante Cantina da Lua, que deposita seu sonho em Obama e por isso vende camisas com a mais famosa estampa. Admirador ferrenho do presidente, Clarindo se vê representado por ele: “Torço e

me identifico por ele pela questão da origem negra. Ele conseguiu mobilizar o mundo inteiro com seu carisma”. O comerciante diz que a aceitação é muito boa, e no dia da posse improvisou um stand na frente do seu restaurante para venda de adereços. Clarindo afirma que a principal razão da confecção das camisas é o desejo de passar a idéia de Obama, da esperança e de um mundo melhor para os seus filhos, mas lembra que o lucro também é importante: “Se eu falasse que nossa proposta também não é ganhar dinheiro eu seria leviano. Vamos ter também em breve bonés, canecas e cinzeiros’’. Desta maneira, os artistas e os comerciantes criativos aproveitam a época da moda para obter lucro. As pinturas são vendidas na média de preço entre R$ 70 e R$ 120 e as camisas a partir de R$ 25. Apesar dos artefatos serem vendidos em Salvador, os vendedores afirmam que quem mais compra são os turistas, principalmente os estadunidenses: “Os estrangeiros tem uma melhor situação econômica e valorizam mais meu trabalho, mas se chegar um baiano interessado eu faço um preço mais baixo’’, diz o pintor Ricardo Miranda. Sobre o fim dessa moda, os comerciantes dizem que tudo depende do que Obama realizar enquanto estiver na presidência, mas garantem seu espaço mesmo se ele não realizar os desejos dos quatro cantos do mundo. Para os vendedores, o importante é ter opinião política, transformála em moda nas ruas e dinheiro no bolso, aproveitando qualquer eventualidade, como analisa Ricardo Miranda: ‘’Se Obama morre agora, vende mais. Porque ele morre como herói’’.




CIDADE

A burocracia perdoa

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Inúmeros prefeitos baianos são acusados de irregularidades com fundos da educação, mas poucos são penalizados Julien Jatobá Renato Cordeiro

Q

uem foi prefeito de um dos 417 municípios baianos entre 2001 e 2004, já pode comprar o champanhe. No fim do ano, prescreve o prazo para apresentação de denúncias de irregularidades durante este período de mandato. O que ficou debaixo do tapete, por lá mesmo, ficará. Podem ser licitações que não foram cumpridas, contas que não foram prestadas, obras não erguidas ou uma série de outras coisas que podem levar os chefes de executivos municipais a entrar no Cadastro de Responsáveis com Contas Julgadas Irregulares (Cadirreg), atualizado periodicamente pelo Tribunal de Contas da União e composto, quase totalmente, por prefeitos. Um balanço do primeiro trimestre deste ano aponta que um em cada três citados nesta lista, aqui na Bahia, teve pelo menos uma conta condenada envolvendo verbas recebidas do Ministério da Educação. No ano passado, a pasta repassou 6,85 bilhões de reais para prefeituras de todo o Brasil, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Foram recursos voltados para ajudar na melhoria do ensino, mas que nem sempre se transformaram em transporte escolar, merenda ou livro didático. Um caso ocorrido neste ano foi a denúncia do ex-prefeito de Serra do Ramalho, no oeste baiano. Alberto Anísio Souto Godoy é acusado de não prestar contas de 276 mil reais repassados pelo FNDE. “Não sabemos um centavo do que ele fez com esse dinheiro. Não há um documento sequer”, afirma o procurador Rafael Costa, que atua no Ministério Público Federal de Barreiras. Em outras vezes, os documen-

Julien Karl

tos existem, mas são considerados irregulares, como aconteceu com o ex-prefeito de Itaparica, Raimundo Nonato do Sacramento, cuja gestão recebeu 99 mil reais do Programa de Alimentação Escolar (PNAE), ainda no primeiro ano de mandato, em 2001. “Os poucos documentos apresentados, além de irregulares, não comprovam a vinculação Como não há o que cozinhar, o lanche trazido de casa é distribuído na sala dos gastos com a execução do PNAE”, declara a pro- da máquina pública, quando estava escritório, ela tinha uma considerável curadora Juliana Moraes, em nota no comando do antecessor, Jarbas pilha de papéis, divididos em quatro sobrecarregados. do Ministério Público baiano. Sa- Barbosa Barros. “A situação foi classificadores cramento falou à reportagem do JF realmente delicada. Não havia nada. Toda a papelada dizia respeito a uma que a prestação foi encaminhada ao Fizemos até um relatório para o Tri- única ação cível em curso. A procuTribunal de Contas dos Municípios bunal de Contas da União”, conta radora trabalha em mais de 150 proe está em ordem, e minimiza o pro- Antônio. O antecessor não tinha cessos. “Fazemos um mutirão para blema ao fato de auditores do Fundo feito a prestação de contas do uso atender a demanda (de casos de irconsiderarem que a merenda, basea- de recursos para o transporte esco- regularidades), nosso objetivo é não da em biscoito e suco em pó, não lar, o que tornou necessário contatar deixar que nenhum deles prescreva. era bem aceita pelos alunos. “Suco o FNDE para renegociar o prazo. “Estamos em um ano crítico. Em se dá para uma criança até em casa, Jarbas Barros negou as acusações 2010, a gente não pode mais ajuizar por exemplo”, argumenta o ex-ad- à reportagem do JF, dizendo que o ação de improbidade com relação a ministrador e atual procurador do prefeito atual não reconhece melho- gestores de mandatos cumpridos de município, que tem uma escola que rias do transporte escolar das quais 2001 a 2004.” De acordo com Juliana se vale neste mandato. No clima de Moraes, os processos são analisados leva o nome dele. As irregularidades também po- guerra entre prefeitos e ex-prefeitos, e atendidos com antecedência, mas a maioria deles acaba sendo apresentadem tomar parte da chamada “he- perdem os estudantes. “Não existe uma idéia do que é da no último ano. Os motivos aponrança maldita”, conhecida ainda como “política da terra arrasada”, público, o gestor muitas vezes não tados são a sobrecarga de trabalho que consiste em deixar a máquina disponibiliza os papéis para seu e os trâmites legais necessários, que pública em frangalhos para o pró- sucessor. Em outras situações o envolvem outras instituições. Uma ximo gestor, quando ele faz parte de sucessor não presta contas devida- única irregularidade, desde a denúnum grupo político adversário. Pelo mente e pode prejudicar seu ante- cia até as possíveis penalidades, pode menos, é o que alega o atual pre- cessor e sua própria gestão. O in- envolver o Ministério Público, a feito de Itacaré, no sul da Bahia. De teresse público, nesses casos, não é Controladoria Geral da União, o Triacordo com Antônio de Anízio, não levado em conta”, desabafa a procu- bunal de Contas da União, o Tribuhavia informações sobre a condição radora Juliana Moraes. Na mesa do nal Regional Eleitoral, a Justiça Fe-


CIDADE

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deral e o próprio FNDE. Tudo começa com a denúncia, que pode partir dos auditores do Fundo, do TCU, da CGU ou do próprio cidadão. Já as punições podem chegar à perda do cargo, proibição para contratar e, em casos considerados mais extremos, a suspensão dos direitos políticos, algo considerado muito raro pelas fontes de diversas autarquias procuradas pela reportagem do JF. Na maior parte dos casos, os prefeitos lidam com as ações de improbidade entrando com sucessivos recursos até que se passem os cinco anos que sucedem os mandatos em que ocorreu a notificação. E aí, estão prontos pra outra, e que venha 2012, com todos os fundos federais que as gestões têm direito. É o caso do ex-prefeito Edson Velasquez, afastado pelo poder judiciário em 2003 e que teve o mandato cassado pela Câmara Municipal de Vera Cruz. O Ministério Público questiona a falta de prestação de contas do repasse de 72 mil reais do Programa de Adequação Física de Prédios Escolares (PAPE), fruto de um convênio firmado com o FNDE em 2002. Ele ainda responde a seis ações cíveis públicas e quatro denúncias do Ministério Público Estadual. Das quatro condenações com o Julien Karl

Enquanto uns comem, outros olham

nome do ex-administrador municipal no Cadastro de Irregularidades do TCU, três envolvem verbas federais para educação. Edson Velasquez também é acusado de utilizar recursos do Fundo de Manuten-

plo, um erro de preenchimento de formulário. Mas para o auditor-chefe do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Gil Pinto Loja Neto, “o problema é que isso leva ao prejuízo. É preciso conhecer a lei,

Estamos em um ano crítico. Em 2010, a gente não pode mais ajuizar ação de improbidade com relação a gestores de mandatos cumpridos de 2001 a 2004 Juliana Moraes, Procuradora do MP

ção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). Ele teria destinado uma parte do repasse para pagar uma dívida contraída pela cidade, no valor de 260 mil reais, com a Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios (Capemi), empresa que disponibiliza planos de empréstimos e previdência privada para servidores municipais. A reportagem do JF não conseguiu contatar o ex-prefeito. Alguns administradores citados no Cadirreg reclamam quando o repasse federal é cortado de imediato, sob o argumento de que estão envolvidos em irregularidades de menor relevância, como por exem-

tem que saber o que está assinando ou está herdando.” Ele reconhece que alguns têm dificuldade em lidar com a burocracia que envolve o uso de recursos do FNDE. “Tem de tudo, desde fraude até problemas básicos. (...) O grande problema que eu vejo é a falta de capacitação, a ausência de técnicos que verifiquem a execução dos programas.” Neste sentido, o Ministério da Educação fez uma cartilha para os gestores, disponível pela internet, para auxiliar o uso da verba. Segundo Loja Neto, o controle da aplicação dos recursos também pode ser feito online através do Sistema Integrado de Monitoramento Execução e Controle do Ministério da Educação. O SIMEC possibilita verificar a topografia de um espaço onde se pretende construir uma unidade de ensino, e pela não-conformidade do terreno, condenar a obra antes mesmo que comece. Os mecanismos de controle empregados pela autarquia, que incluem a visita aos municípios com suspeita de irregularidade, permitem fiscalizar a aplicação de 20% dos recursos do FNDE, assinala Loja Neto. No município de Itaparica, uma diretora de escola primária relata



que a refeição oferecida é, por vezes, a primeira ou única consumida pela criança ao longo do dia, dada a carência de algumas famílias. Freqüentemente, pais e professores organizam-se para combater essa carência com alimentos trazidos de casa. Dificuldades como esta acabam colaborando para o abandono escolar. “O abandono do aluno, em alguma medida, reflete um abandono anterior”, pondera o coordenador de disseminação de informação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Bahia, Joilson Souza. Ele cita a Pesquisa de Evasão Escolar, relatório desenvolvido em 2002 pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). O estudo aponta que a falta de atratividade do centro de ensino é um dos diversos fatores que leva um estudante a deixar a escola. A pesquisa tomou por base a capital baiana, mas Souza acredita que os dados ajudam a entender a situação vivenciada nas escolas do interior, entre outras coisas, no que diz respeito à logística. “A logística é um fator complicador, sobretudo, no meio rural. A criança que vive por lá depende muito mais do transporte, das garantias de que poderá ter acesso à escola. Temos relatos de municípios que não ofertam transporte escolar, e quando ofertam, por vezes, não possuem condições mínimas para transportar crianças”. Mais do que um problema de gestão ou orçamentário, as carências vivenciadas pelos estudantes baianos intensificam prejuízos sociais que começam cedo, na pré-escola. “Nós já temos observado um atraso escolar aqui na Bahia desde o primeiro ano do ensino fundamental, algo em torno de 50% de todo o contingente escolar. Isso vai se agravando até as primeiras séries do ensino fundamental e médio”, avalia Souza. “Há reflexos no nível de empregabilidade, no período maior de dependência que o aluno terá em relação à sua família. A sociedade como um todo acaba pagando um preço muito alto”, completa.


cidade



Jornalismo ‘Crasse’ A

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Luxo, glamour e sofisticação, com muita qualidade... Mas não é para qualquer um Luis Fernando Lisboa Paloma Ayres

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u acho que todo mundo deveria ser rico, porque é tão bom, gente!”, já diria Narcisa Tamborindeguy, uma das mais conhecidas socialites brasileiras. Em Salvador, existe um mundo paralelo que partilha da mesma opinião e do mesmo modelo de vida. Para os habitantes desse mundo, o importante é ter luxo, classe e bom gosto. E o que mais interessa é saber das últimas novidades com glamour, beleza e sofisticação. É aí, então, que programas televisivos e publicações locais se

debruçam sobre essas personalidades - que de conhecidas não têm nada – e falam das minúcias dos seus estilos de vida. Aqueles que estão fora desse mundo, e são muitos, só desfrutam, de longe, o modus vivendi de uma “highsociety” cada vez mais segregada deles, formando o seu próprio conceito de “sociedade”. Esses produtos midiáticos consagram a modernização dos estilos de vida das elites. O número de veículos comunicacionais voltados para a “classe A soteropolitana” tem tido um expressivo aumento nos últimos anos. Publicações, programas, sites e colunas de jornais narram um lado da capital baiana, que não condiz com a Acervo pessoal - Alessandro Macedo

Luzia Santhana é uma expoente do gênero

verdadeira realidade do resto da população. Sites como o Bahia Vitrine, Michelle Marie e Balacobako; revistas como a Go’Where Bahia Style e Destaque, e programas de televisão, como Nomes, Fama e Sucesso, Dinamite e Tudo AV são expostos para o público em geral, mas falam a língua daqueles que não apenas consomem o que neles é apresentado, como também são os protagonistas sorridentes e aparentemente felizes, iluminados pelos flashes das máquinas e pelas luzes das câmeras. Eles acontecem no “café soçaite” “Esses produtos midiáticos prestam-se à manutenção daqueles modelos ideais de vida, baseados no sucesso e no bemestar”, é o que afirma o jornalista formado pela UNI-BH, Alexandre Alvarenga, na sua monografia intitulada “Coluna Social”. Além disso, eles têm a função decisiva na produção dos personagens que atuam nesses modelos, através da escolha das pessoas que aparecerão ou não naquela determinada publicação ou programa. O apelo pela imagem nesses veículos torna-se a melhor forma de vender o padrão de vida dos ricos e bem sucedidos. “A fotografia é praticamente indispensável na produção e manutenção daqueles modelos ideais de vida”, explica Alvarenga. A revista Go’Where Bahia Style é um exemplo de como as fotografias têm o poder de estimular o desejo naqueles que nunca terão o que a classe alta tem. “A publicação começou em São Paulo, há 15 anos, sempre voltada para o segmento de luxo”, diz Patrícia Magalhães, jornalista responsável pela editoria da publicação na Ba-

hia. De acordo com a jornalista, a Go’Where mostra jóias, roupas, automóveis importados e tecnologia, com o que há de melhor nestes produtos. As reportagens vão desde a descrição de um spa na Praia do Forte, que faz máscaras faciais de ouro e diamante com caviar, até a dos carros mais caros do mundo. Outro exemplo de como o elemento visual é importante na construção da aura sofisticada destes veículos de comunicação é a abertura do programa Nomes, apresentado pela jornalista Luzia Santhana. A vinheta dá destaque à imagem de Luzia, onde ela faz poses numa cadeira giratória, com roupas diversas, com toda sua “graça, simpatia e espontaneidade”. O programa, antes chamado Todos os Nomes, entrevista pessoas de destaque na Bahia e no Brasil. Depois de uma pertinente consulta numerológica, o nome do programa passou a se chamar somente Nomes. Luzia afirma que no seu programa ela fala sobre tudo aquilo que a interessa. Principalmente de luxo, já que segundo ela, “todo mundo gosta”. Enquanto a plebe rude da cidade dorme... Para Alexandre Alvarenga, esse jornalismo quer enfocar uma determinada camada social e também aquelas pessoas consideradas VIPs (sigla em inglês para very important person, que significa “pessoa muito importante”), ou seja, os fatos figurarão como notícia não por sua relevância jornalística, mas pela importância relativa da pessoa retratada, para aquela determinada faixa de público para qual o colunismo se volta. A Go’Where Bahia Style é de-


CIDADE

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da Go’Where Bahia Style, concorda que há um conceito de sociedade que engloba todos os cidadãos, mas, em outro contexto, “a sociedade”, segundo ela, “é composta principalmente pelas famílias abastadas e tradicionais, que fazem parte do ‘mitiê’ baiano”. Afinal de contas, basta ter uma conta bancária acima de cinco so, exibido na TV Salvador e apre- pessoas gostam das novelas da dígitos, e um reconhecido brasão sentado por Jorge Pedra, o mais Globo? Para ver o núcleo rico. familiar para ingressar nessa reaimportante são os eventos. Em As pessoas gostam de ver rique- lidade paralela de glamour. Jorge Pedra também formula seguida, é essencial dar destaque za, beleza. Tem gente que só às pessoas que estão neles, sem- gosta de ver miséria, notícias ru- o seu próprio conceito social: pre com muito “glamour, bele- ins. A população se sente atraída “Quando eu digo ‘alta socieza, sofisticação e boa música”, pelo luxo, sonha em um dia ter dade’, eu não falo só dos ricos. para “colocar essas pessoas para bastante dinheiro, satisfazer suas Os garçons, as cozinheiras tamcima”, de acordo com o próprio vontades, como viajar, que é o bém fazem parte. Eles vão acaapresentador. Ao invés do tão uti- desejo de todo mundo”, resume bar se encontrando no mesmo meio”. Pedra, portanto, não lizado termo “sociedade”, Jorge a jornalista. Pedra prefere utilizar a expressão Ainda sobre o público, Luzia acredita que, em Salvador, exista “jet set”, para representar a classe se baseia numa pesquisa feita por tanto preconceito ou diferenças dos endinheirados, dos novos sua equipe, que mediu a audiên- sociais. “Tem a sociedade de pessoas cia do programa, na qual 53% das ricos e emergentes. Ao assistir o programa, pode pessoas que assistem ao Nomes normais e a sociedade de pessurgir a leve impressão de que são de classe A e B. No entanto, soas anormais”, explica o coluJorge Pedra tenta imitar algum ela acredita que as outras classes nista Michel Telles. Para ele, as jornalista e apresentador de TV também são espectadoras do pro- pessoas anormais são aquelas que faz já paz parte do imaginário grama. “Até Neide, a empregada que precisam sair nos jornais e popular. Mas quanto a isso, ele é lá de casa, adora o programa, os consumir roupas de grifes toenfático: “O meu programa é vizinhos dela também assistem, dos os dias, sendo, portanto, totalmente diferente do Amaury prestam atenção nas roupas e, fúteis. “Tem muita gente pirada Jr., até a maneira como eu me ex- principalmente, adoram quando e que não consegue ficar sem sair no jornal nenhum dia. Eles presso”. Apesar da negativa de eu levo Carlinhos Brown”. formam essa sociedade que não Pedra, é impossível não classifitem o que fazer, só quer car o programa deste como saber de festa, não tem a versão local do seu colega inteligência nenhuma e paulista. Basta observar a só quer saber de comprar trilha sonora ultrapassada, roupas de grifes e desfilar de ambas as produções, em coquetéis da cidade”, embora o apresentador da Eu não uso muito (...) o termo VIP. confidencia o jornalista. RedeTV goze de melhor apuro na parte técnica e es- Porque para mim VIP significa ‘Viado Mas esse público não dei-xa de ser protagoniImpossibilitado de Pagar’ tética de seu programa. sta das suas “notinhas” e Luzia Santhana, apreMichel Telles dos seus “balacobakos”. sentadora do programa Nome, afirma sem preocupações Champanhe em vez de cacha- “Eu não uso muito o termo sociedade baiana e nem o uso terque o forte do seu programa é ça o luxo. No entanto, ela acredita O que já se sabe é que o foco mo VIP. Porque para mim VIP que o programa atende a todas desses produtos midiáticos são significa ‘Viado Impossibilitado as classes sociais. Mesmo as que as celebridades, artistas e os ricos de Pagar’”. Mesmo assim, eles não podem adquirir os produtos com seus luxos. Mas, talvez, seja seguem o conselho do cantor exibidos nos programas. Luzia o uso da palavra “sociedade” o Ronaldo Rosedá: “escolhem os garante que o público se inter- fator que gera alguns problemas a melhores vestidos e vão, porque essa, sim, por luxo: “Por que as essa roda cheia de classe. Patrícia, a festa nunca vai acabar”. Acervo pessoal

Banner do site de Jorge Pedra na internet

claradamente uma revista direcionada para sociedade “classe A” de Salvador, desde a elaboração das matérias até a distribuição das revistas. Da tiragem de 30 mil exemplares, 18 mil são distribuídas para uma lista de contatos específicos, que incluem clientes de alto padrão. “A intenção maior é a distribuição direcionada, entretanto nós também vendemos a revista em bancas”, esclarece Patrícia, que vê um contínuo crescimento no mercado do luxo em Salvador. “Fizemos uma pesquisa, na qual verificamos que as classes A e B se interessam cada vez mais em saber sobre artigos de luxo, muitas pessoas com grande poder aquisitivo estão chegando à cidade”. O colunista baiano Michel Telles trabalha há 10 anos para o jornal Tribuna da Bahia e possui um site que enfoca os bastidores da alta sociedade de Salvador, chamado Balacobako, e um programa na Piatã FM, de mesmo nome. “Para ser pauta da minha coluna ou site tem que ter acima de tudo algum conteúdo que interesse ao meu leitor. Eu recebo muitas coisas, mas muitas delas são fúteis. Eu sempre gosto de colocar o fútil com o útil”, diz Michel, que não deixa de ressaltar o valor que as pessoas lhe dão pela sua inteligência e influência no eixo Rio - São Paulo. Para ele, tem gente que só faz coluna com futilidade, e ele, então, segue na direção contrária. “Eu coloco de tudo, mas essa parte de futilidade infelizmente as pessoas adoram”, desabafa o colunista. Para o programa Fama e Suces-






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Música caribenha

Jornal Laboratório - FACOM/UFBA - Maio de 2009

Chris Combette estréia no país levando pluralismo cultural à Praça Tereza Batista Felipe Dieder

Chris Combette desfilou repertório de salsa, reggae e bossa nova em duas horas de show

Felipe Dieder

G

ênero que costuma ser reservado a tudo que não se enquadra nas categorizações já estabelecidas do mercado fonográfico, a chamada world music muitas vezes nos brinda com artistas que misturam de modo inconsistente uma verdadeira profusão de referências. Não foi isso o que se viu, porém, no show de Chris Combette, que se apresentou pela primeira vez no Brasil no dia 19 de março, na Praça Tereza Batista, no Pelourinho. Natural da Guiana Francesa, o cantor desfilou um repertório repleto de elementos caribenhos fortemente influenciado pela música pop. Chris Combette subiu ao palco às 20h30 acompanhado por Georges Mac (percussão) e Eric Bonheur (guitarra e efeitos). Visivelmente emocionado, chegou a arriscar um “esperei muito, muito por esse momento” em português. Ao longo de duas horas, tocou sua música caribenha cosmopolita cantada em inglês, francês, espanhol e dialeto creoulo. Os ritmos são variados: se Mo Kontan To é

salsa, La Danse de Flore é pura bossa nova. O fio condutor das canções são as melodias ao mesmo tempo elaboradas e assobiáveis. Mesmo com a chuva que caía, a praça foi aos poucos sendo tomada por um público diversificado. À medida que o repertório avançava, chamava a atenção o quanto música genuinamente feita para dançar e lirismo podem (e devem) caminhar juntos. Ao sair do show de Chris Combette, não é difícil dar alguma razão aos saudosistas de plantão quando afirmam que a axé-music de hoje já não é mais como a que se fazia. Talvez lá pelos idos anos 80, as raízes do gênero que é sinônimo de carnaval baiano estivessem mais “expostas”. A apresentação só terminou ao fim do primeiro bis por conta do horário – o público pediu e Chris queria tocar mais, mas encerrou o show se desculpando pela limitação do tempo. Mesmo com a boa receptividade, a maioria dos presentes não conhecia seu trabalho. Era o caso de Cleber Barros, 22, que se mostrou satisfeito: “acho muito importante esse intercâmbio e resgate de culturas

latinas. É fundamental para a unificação de nossas manifestações”, destacou. Chris Combette tocou ainda no Teatro Moliére na sexta-feira, 20, e em Recife no sábado, 21.

dos os sucessos das redondezas: de Trinidad, Cuba, Haiti, Jamaica e do Brasil. Eu ouvia todas essas canções e hoje é natural que essas influências se misturem à minha música. Todas essas músicas são a “minha” música.

Histórico Chris Combette é tido como um dos principais responsáveis pela introdução da música centro-americana na França. Nascido em 1955 na Guiana Francesa, ele se mudou ainda jovem para a ilha de Martinica, no Caribe. No começo dos anos 70, começou a fazer parte de bandas locais. Em 1975 foi para Paris, onde concluiu sua formação em matemática. Retornou para Martinica e só em meados da década de 80 se instalou novamente na capital francesa. Em 1990, começou sua carreira solo. Hoje, mora na Guiana Francesa. O cantor, que tem três álbuns lançados – Full South (1994), Salambô (1996) e La Danse de Flore (2003) -, conversou com o Jornal da Facom sobre o começo na música, viagens, e influências. Leia a entrevista a seguir.

JF - Você é nitidamente influenciado pela bossa nova. Quais músicos brasileiros te inspiraram? Na adolescência, a música brasileira me tocou profundamente. Eu escutava canções de Gilberto Gil e de outros artistas. O violão do Baden Powell, seja em bossa nova ou samba... esses ritmos me influenciaram decisivamente. Qualquer que seja a canção que eu intérprete, há sempre um momento em que o Brasil a perpassa.

JF - Quais suas primeiras lembranças do contato com a música? Fui atraído pela música cedo. Meus irmãos mais velhos tocavam violão e logo tratei de reproduzir o que eles faziam. JF - Li que você já conheceu muitos lugares. Existe algum pelo qual você tenha um apreço especial? Sem dúvida, Madagascar. É um país fascinante, cheio de graça em meio à grande miséria que o assola. JF - Suas canções trazem bagagens culturais distintas. De que modo você absorve aspectos tão díspares para a sua música? Cresci na Martinica e os grupos de música dos colégios em que toquei reproduziam to-

JF - Você morou em Paris. Como se deu o contato da sua música com a cultura francesa? Ela foi bem aceita por lá? Paris é uma cidade com uma vida cultural tão intensa que tudo pode ser bem aceito se o produto oferecido for bem trabalhado e transmitir emoção. Há espaço para tudo. JF - Você foi professor de matemática. Esse tipo de conhecimento, por mais distante que possa parecer, exerce influência na sua música? Talvez. Alunos numa sala de aula podem representar um público como qualquer outro. Além disso, lecionar é tão apaixonante quanto estar no palco. Acho que essa prática me ensinou muito sobre como me apresentar. JF - Existe previsão de lançamento de um novo disco? Estou trabalhando com um arranjador de Miami e espero poder apresentar novas canções em breve. JF - Você retornará ao Brasil? Durante anos eu sonhei em vir para cá. Meu sonho foi realizado. Espero que ele se repita o mais breve possível.


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E se pegar fogo? O JF adverte: em caso de incêndio no cinema, corra!

N

ossa brigada de incêndio estará a postos para qualquer eventualidade!”. Será? Você já pensou nos riscos que corre quando vai ao cinema? Numa comunidade do Orkut chamada Brigada de Incêndio nos cinemas!, um participante questiona: “Se nunca ninguém viu uma brigada de incêndio nos cinemas...o q me garante q ela está lá? [...] a gente corre risco! Se não tivesse problema não precisaria de seguro...Será q compensa ir aos cinemas hj em dia? Tendo em vista o alto risco q nós corremos? Estamos pagando para morrer?” (sic). A equipe JF foi atrás dos brigadistas e descobriu o que aconteceria se um cinema pegasse fogo. No final desta matéria, você vai descobrir que o melhor a fazer é rezar antes de sair de casa. As brigadas de incêndio existem (em alguns cinemas), mas não podemos contar com elas. Já aconteceu? Ana Carolina Mérola, estudante de administração da Universidade Federal da Bahia, diz já ter presenciado um princípio de incêndio no cinema. “Em 2007, fui ao Cinemark com uma amiga. Faltando 30 minutos para terminar o filme, sentimos um cheiro de queimado, e todos ficaram nervosos sem saber o que fazer, principalmente porque ninguém do cinema veio nos orientar. Apareceu um funcionário explicando que eles não sabiam o que tinha acontecido”. Para Fernando Ferreira, responsável pela manutenção do Cinemark do Salvador Shopping, a fumaça teria vindo da chaminé da loja Burger

King, que fica próxima dos condicionadores de ar da sala de exibição... Brigada de Incêndio Nos cinemas, a brigada de incêndio é formada pelos próprios funcionários - bilheteiros, gerentes, colaboradores da limpeza e operadores de cabine – e não por bombeiros. Cada um desempenharia um papel e ocuparia uma posição estratégica no caso de incêndio. Após receberem treinamento, os brigadistas deveriam ser capazes de operar os equipamentos de segurança, a caminhar no escuro em salas com muita fumaça e a realizar primeiros socorros. Porém nem todos os cinemas de Salvador têm uma brigada de incêndio - e os que têm apresentam uma estrutura deficiente. Podemos confiar?! O Cineplace Itaigara, o cinema do Shopping Center Lapa e o UCI Aeroclube não têm uma brigada de incêndio, nem oferecem orientação mínima aos seus funcionários. “A gente nunca teve essas coisas [brigada de incêndio], nenhum tipo de treinamento. Não tem nem bombeiro do shopping. É um absurdo, mas é a realidade”, revela Adriana Sousa, gerente do Cineplace Itaigara. Já no Center Lapa, a gerente Leide Lima, quando questionada sobre o que fazer no caso de um incêndio no cinema, responde sorrindo: “Correr!”. “Não temos um pessoal preparado para ficar em uma sala esperando por um incêndio. Porque não acontece sempre, então quem tem que ficar preparado realmente são os funcionários de todas as áreas”, explica Leandro Sales, gerente júnior do Multiplex Igua-

Paula Amor

Camila Queiroz Paula Amor

Na hora do pânico, todo mundo corre

temi. Segundo ele, todos devem receber treinamentos teóricos e práticos. No entanto, estes treinamentos duram aproximadamente quatro horas, o que não garante a eficiência e o preparo dos funcionários para lidar com incêndio. No Multiplex Iguatemi, cada um teoricamente tem uma função: o gerente é responsável por acionar a equipe de bombeiros do shopping e aos demais funcionários, dentre outras tarefas, cabe orientar a evacuação das pessoas pelas saídas de emergência. O funcionário Ataíde Andrade, no entanto, não hesita em dizer que “na verdade, cada um tem uma função, mas na hora do pânico, todo mundo corre”. Nas salas do Shopping Barra, os funcionários são orientados, porém nunca receberam treinamento prático nem possuem funções específicas em caso de incêndio. “Eles sabem como funciona, mas a gente nunca fez simulação”, afirma a gerente Noélia Santana. Sabem mesmo? No Cinemark, a situação é curio-

sa. Fernando Ferreira conta com orgulho que a equipe dispõe de uma cartilha de segurança. “Se acontecer alguma coisa, os funcionários que não sabem como agir abrem a cartilha, olham o que aconteceu e leem o procedimento”. Imagine o cinema pegando fogo e todos os funcionários reunidos em uma sala escolhendo quem lerá as instruções em voz alta – se é que todos já não estariam bem longe dali. Vale à pena ressaltar que Fernando era o único brigadista presente no local dentre os dez que compõem a equipe. Ainda bem que o material das cortinas é à prova de fogo e que há um bombeiro do shopping nas proximidades do cinema... Os gerentes alegam que nunca houve casos de incêndio nas salas de exibição: “O risco é de um cliente tocar fogo numa poltrona, no carpete ou na cortina abaixo da tela. É muito difícil, graças a Deus”, garante Sales, gerente do Multiplex Iguatemi. Mas, como diz o sábio ditado popular, é melhor prevenir do que remediar...


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Centenário das discórdias As divergências sob e sobre as estruturas da Praça Centenário Rdorigo Fiusa

Cleonilda Conceição, que defende a praça como um ambiente de todos desde que haja respeito mútuo, há quem analise a situação de forma diferente: “A praça é dividida sim. O lado Sul (região da Barra) é dos ricos e o lado Norte (Calabar) é do povo mais humilde.”, afirma Isac Lima, 23 anos. Depoimentos como estes confirmam os boatos de que estaria ocorrendo, de fato, um apartheid velado na Praça Centenário. “Quem quiser mais sossego e tranquilidade, tem que ir pra zona sul porque os moradores do Calabar são desordeiros e mal educados”, afirma Jean Siu, 25 anos, residente do Alto das Pombas. A situação é confirmada por Cleide de Jesus, moradora do Calabar: “O pessoal daqui (zona norte), até que leva as crianças pra brincar no lado da Barra, mas o povo de lá muito dificilmente traz seus filhos pra brincar aqui”- conclui.

Placa sinaliza contradição na Centenário

Rodrigo Fiusa Victor Gazineu

A

praça da avenida Centenário, inaugurada com alarde em setembro de 2008, causou uma ampla mudança na rotina de alguns moradores da região. Construída sobre o Rio dos Seixos, a obra custou R$ 28,5 milhões e conta com quiosques, ciclovias, parques infantis, pistas de cooper e jardins bem arborizados. Contudo, a beleza arquitetônica e paisagística da praça esconde grandes problemas sócioambientais. Como uma alternativa de lazer, o local foi bem aceito pela maioria das pessoas. Durante toda a semana, crianças, adultos e idosos utilizam o espaço para caminhar, andar de bicicleta, fazer exercícios e conversar. “Aqui é maravilhoso, não tenho do que reclamar”, afirma Cristina Gentil, 60, moradora do Jardim Apipema. Além disso, a intensa movimentação de pessoas neste espaço permite que todos sintam-se mais

seguros para aproveitar o espaço até mesmo em horários mais tardios. De acordo com a moradora Sônia Paranhos, 61, a avenida Centenário era um local muito propício para o uso de drogas, mas agora esta prática, apesar de ainda existir, diminuiu consideravelmente. A praça do apartheid A Praça Centenário liga bairros com realidades sociais distintas: a Barra e o Calabar. O espaço público tem chamado a atenção por reunir pessoas de classes completamente diferentes. Como dizia o baiano Castro Alves, “a praça é do povo como o céu é do condor”. Seguindo a máxima do poeta, o povo realmente tomou conta e transformou a praça num espaço de diversão para toda a família. A convivência entre ricos e pobres, contudo, parece não ser das mais harmoniosas. Já há boatos de que o local se tornou palco para conflitos envolvendo os “distantes” vizinhos. Apesar de frequentadores como

O que ficou para debaixo do “tapete” A construção da Praça Centenário foi realizada pela Prefeitura Municipal de Salvador, com recursos do Ministério da Integração Nacional, comandado pelo baiano e morador do Jardim Brasil (região bem próxima à praça) Geddel Vieira Lima, para fornecer uma alternativa de lazer para os soteropolitanos. Sob a promessa de resolver os problemas de alagamentos ocorridos em períodos de chuva, o Rio dos Seixos foi completamente coberto e, para a efetivação do projeto, teve que passar por um grande processo

de macrodrenagem gerenciado pela Superintendência de Urbanização da Capital (Surcap). Além disso, foram realizados procedimentos de dragagem, escavação e revestimento e a implementação de pistas de concreto ao longo de 1,5 km de extensão. Procurado pela equipe do JF, o chefe do Setor de Meio Ambiente do GEMAT (Gerência do Meio Ambiente e Apoio Técnico), João Deway, afirmou que todo esse processo melhorou muito a qualidade de vida na região. “Antigamente havia o acúmulo de resíduos sólidos e o lixo das comunidades próximas era, em parte, despejado no rio. Agora que está coberto, não tem mais como isso acontecer”, afirma. Da mesma forma, o geólogo e gerente do Meio Ambiente do GEMAT, Frederico Rossiter, diz que a poluição do local, além de causar mau cheiro, atraia inúmeros mosquitos para a região, facilitando, desta forma, a transmissão de doenças para os residentes. “O projeto envolveu, dentre outras coisas, a questão da higiene”, diz Rossiter. O coordenador executivo do GAMBA (Grupo Ambientalista da Bahia), Rogério Mucugê, por sua vez, possui uma opinião distinta. Segundo ele, o Rio dos Seixos consistia em um dos mais limpos da cidade e a sua cobertura foi um erro. “A pavimentação do rio contribui com o aquecimento do clima local, pois a água é naturalmente um regulador térmico. Com o seu fechamento, a troca de calor ficou inviabilizada, aumentando a temperatura ambiente”, sustenta. O ambientalista complementa afirmando que a impermeabilização do solo comprometeu a drenagem das chuvas torrenciais, além do fato de que as formas de vidas existentes no rio também foram destruídas.


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Teoria sem prática

Na escola de Medicina Veterinária da UFBA, a extrema dependência dos estágios compromete a formação

Guilherme Vasconcelos Rafael Freire

faculdade, o aluno do 9º semestre, Fernando da Silva Nascimento, reconhece a qualidade do corpo docente, mas aponta alguns problemas: “A biblioteca é uma vergonha. Os alunos das faculdades particulares têm livros em maior quantidade e mais atualizados que os nossos. Nossos professores são limitados pela precária estrutura da faculdade”. Outra reclamação bastante comum é a falta de contato com animais de grande porte, uma vez que o Hospital universitário atende, principalmente, caninos e felinos e as matérias relacionadas a eqüinos e bovinos, por exemplo, são escassas. A formação do aluno que deseja se especializar nessa área passa a depender quase que exclusivamente dos estágios.

ma, os estudantes de Veterinária têm, obrigatoriamente, que fazer estágios curriculares, os quais, segundo eles, não têm a duração necessária para pôr dilema é antigo. Qual o paem prática os conhecimentos adquiripel da universidade? Na teodos. A solução seriam, então, os esria, pelo menos, está tudo tágios extracurriculares – aqueles que definido: formar profissionais qualifios alunos fazem por conta própria. cados e cidadãos críticos. Na prática, Entretanto, a falta de diálogo entre os principalmente em países subdesenestudantes e a direção/coordenação volvidos, parece difícil, praticamente da escola é evidente. A desinformação impossível, que as instituições de enreina absoluta. De um lado, os alunos sino superior cumpram suas funções reclamam da dificuldade em conprioritárias. Os problemas vão desde seguir os estágios: “Aqui os estágios a dificuldade em obter estágios e a são muito escassos. Para quem deseja precariedade estrutural até o desinteseguir a área de campo, a situação é resse dos próprios alunos. mais complicada ainda. DesconheNo curso de Medicina Veterinária ço qualquer tipo de convênio que a da UFBA (Universidade Federal da faculdade mantenha”, revela Lucas Bahia), por exemplo, as queixas são Cardoso Botelho, estudante do 10º freqüentes. Os objetivos da instituição Semestre. – formar profissionais capacitados e Estágios Por outro lado, a direção da faculcontribuir para o desenvolvimento reComo o curso de Medicina Vete- dade alega que, muitas vezes, o progional – dificilmente são atingidos em rinária é essencialmente técnico, os blema não está somente na limitação sua plenitude. Tanto os alunos quanto estágios desempenham papel muito das vagas, mas também no desprea direção da Escola concordam que importante na aquisição de conhe- paro e desinteresse dos alunos. É cohá deficiências graves. Quando ques- cimento e desenvolvimento de habi- mum, por exemplo, segundo Maria tionado a respeito da estrutura da lidades práticas. Para receber o diplo- Consuelo Ayres, coordenadora da disciplina Estágio SuperviRafael Freire sionado, vagas não serem preenchidas por falta de capacitação dos estudantes. “Será que existe interesse do aluno? Muitas vezes, ele não consegue estágio por falta de preparo e comodismo”, rebate a coordenadora. Para facilitar a intermediação entre os alunos e as empresas que oferecem estágio, a instituição dispõe do NEP (Núcleo de Extensão e Pesquisa), órgão responsável por coordenar e supervisionar os estágios extracurriculares e os convênios firmados pela Universidade. Na prática, entretanto, o NEP tem a sua eficácia A estrutura precária limita a atuação dos professores e compromete o aprendizado comprometida pela deficiên-

O

cia na divulgação de suas atribuições, falha que a própria coordenadora dos estágios, Maria Celeste Viana, admite. “Um dos nossos defeitos é a falta de divulgação. A gente tem uma lista de convênios com instituições como ADAB (Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia), Embrapa, Secretaria de Agricultura e várias clínicas, mas não temos a cultura de fazer marketing daquilo que a faculdade promove. Falta divulgar e informar melhor”. Mercado versus formação geral A formação oferecida pelo curso não dá segurança aos profissionais recém-formados. Na hora de enfrentar o mercado de trabalho, as oportunidades de aprendizado que não foram aproveitadas ou oferecidas pela faculdade fazem falta. Há relatos de estudantes que retardam a conclusão da graduação por ainda se sentirem inseguros em relação ao mercado. Há também aqueles que depois de formados retornam à faculdade em busca de estágio. “Existe muito receio de quem está se formando. O pessoal sai com muita insegurança para o mercado. É lá fora mesmo que a gente vai ter que aprender”, afirma o estudante Lucas Botelho. Para o diretor da escola, Carlos Roberto Frank, é um equívoco esperar da Universidade uma formação profissional completa. Segundo ele, o aluno deveria sair do ensino superior com habilidades que lhe permitirão buscar e processar conhecimento dentro ou fora de sua especialização. As constantes mudanças no mercado seriam a razão pela qual a universidade não deve privilegiar a formação técnica. “A universidade prepara para o mercado? O mercado se transforma o tempo inteiro. Seria irresponsável preparar os alunos para uma tendência do mercado que amanhã poderá perder força.”


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Desafios da UFBA Nova Sem prédio e sem laptops, o projeto do Reitor segue em implantação Frederico Fagundes Mariana Almofrey

U

m show de luzes e cores. Assim foi a recepção dos alunos dos Bacharelados Interdisciplinares (BIs), a nova coqueluche da Universidade Federal da Bahia. Enquanto calouros de algumas unidades ganharam apenas tinta, farinha e ovos ao entrar na UFBA, o IHAC - Instituto de Humanidades, Artes & Ciências “Professor Milton Santos”, que funciona provisoriamente no PAF III, organizou um evento nunca dantes visto na UFBA pré-REUNI, com iluminação néon, clima lounge, música e performances feitas por professores e alunos. Os bacharelados, que tem a duração de três anos, são cursos superiores de dois ciclos. Nos três primeiros semestres o aluno adquire uma formação geral dada pelo IHAC e os três semestres restantes serão cursados nas unidades da UFBA que aderiram ao REUNI e oferecem “áreas de concentração” para os BIs. “Estas ‘áreas’ ainda não estão bem estruturadas, mas algumas já estão definidas, como Cinema e Vídeo, que será oferecida pela FACOM”, conta Albino Rubim, diretor interino do IHAC. Nos corredores do PAF III, o clima é de empolgação. Quanto à estrutura, não há queixas: pelo contrário. “Somos a primeira turma e eles querem que a gente faça propaganda positiva, temos ar condicionado e até televisão de LCD em algumas salas”, afirma Nti Uirá, aluna do BI de Artes. Se perguntados sobre a estrutura curricular do curso, a maioria declara estar satisfeita com os docentes e a proposta do curso. “Há matérias que quem vê acha loucura, como ‘Mudanças Climáticas’ e ‘Estudos da Contemporaneidade’, mas têm

tudo a ver com o que a gente está vivendo hoje em dia”, afirma Edmara Viana, aluna do mesmo BI. Universidade capenga? “Só quem é alienado não sabe que há um déficit de estrutura imenso na UFBA”, diz José Tavares Neto, diretor da Faculdade de Medicina. Segundo ele, o caminho percorrido pela universidade foi contrário a algo que “qualquer dona de casa sabe: primeiro deve-se arrumar a casa, para depois ampliá-la”. O reitor Naomar AlmeiPor enquanto laptops no PAF III só dos alunos da, porém, afirma que “nunca teremos as condições ideais ainda não se viu a cor, muito menos para crescer e não é correta a idéia o “design exclusivo”. Diante da dede que a expansão está sendo feita sistência da empresa do Pólo de Isem condições suficientes, porque a lhéus com a qual a UFBA estava neUFBA possui uma enorme capaci- gociando a aquisição dos aparelhos, a reitoria pediu ao MEC a aquisição de dade ociosa à noite”. O que Tavares alega é que não há 150.000 notebooks através do proequidade entre a nova unidade criada jeto Um Computador por Aluno. O e as antigas. Exemplo disso é a re- Tribunal de Contas da União, porém, quisição de laptops pela UFBA, que pediu vistas ao processo e suspenseriam destinados apenas aos alunos deu a licitação em curso, o que fez dos Bacharelados Interdisciplinares. parecer que os laptops eram ou um Perguntado sobre o assunto, o reitor devaneio da reitoria, ou propaganda esclareceu que, ao contrário do que enganosa, como afirma o “Saci Perefoi divulgado na imprensa, os laptops rê”, personagem criado pelo profesnão seriam dados aos bacharelandos, sor Menandro Ramos, da Faculdade o que é proibido por lei, “eles serão de Educação, para criticar a Universiemprestados apenas nas dependên- dade Nova. Os alunos, porém, não sentem cias do IHAC, não podem ser levados para casa. Seriam usados durante falta dos laptops. Inajara Simões, esas aulas, com ambientes virtuais das tudante do BI de Humanidades desdisciplinas”, afirma. Já Albino alega taca que existem outras prioridades que é preciso ter os laptops para de- na UFBA. “A reforma deveria ser pois saber que destino eles terão. Ele mais homogênea, ‘São Lázaro’ está afirma, no entanto, que os aparelhos precário e o Restaurante Universinão serão utilizados durante as aulas. tário está parado”, completa Nti. A Contradições à parte, dos laptops questão da segurança, para os alu-

Mariana Almofrey

nos, está bem providenciada. Além de iluminação nas trilhas, há rondas da Polícia Federal pelo campus de Ondina e estão sendo instaladas 477 câmeras. “Nenhum caso de violência dentro do campus foi reportado até agora”, afirma Sérgio Farias, vicediretor. O fato das aulas de todos os Bacharelados estarem provisoriamente concentradas no prédio do PAF III contribui com que os alunos e docentes do IHAC sintam-se mais seguros. Perguntado sobre o que fazer quando o PAF III não comportar mais os alunos, o reitor não hesita: “Já estamos construindo o PAF V, atrás do PAF III, vocês já viram?” A verdade é que não se vê nem uma pá de cimento no local, porque sequer o matagal foi aparado. Quanto à construção do prédio onde o IHAC deveria funcionar, não há sequer projeto ainda. “A previsão é de que o prédio esteja pronto em no mínimo dois anos. As coisas da Universidade demoram, tem que fazer licita-


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ção”, esclarece Albino. No entanto, o número de vagas crescerá em um ritmo muito mais acelerado que as obras. Até 2011, dois mil alunos entrarão nos BIs a cada ano. “Nesse ano entraram 900, mas esse número deve crescer gradativamente até lá”, afirma o diretor. O destino dos egressos Há três caminhos para os alunos formados pelos Bacharelados Interdisciplinares: ingressarem no mercado de trabalho, fazerem uma pósgraduação – já que os BIs são cursos superiores – ou seguirem para os cursos tradicionais. Anne Carneiro – aluna do BI de Humanidades – acredita que o mercado de trabalho possa abrir espaço para os estudantes egressos dos BIs. No entanto, Inajara afirma que grande parte dos seus colegas são graduandos, pretendem ingressar ou já são formados nos chamados “cursos de progressão linear”. Isto

demonstra a desconfiança dos alunos quanto à possibilidade de abertura do mercado para os futuros Bacharéis Interdisciplinares. “Todos os colegas com quem eu converso tem uma profissão em mente”, afirma Thaís Paixão, aluna de Humanidades. “Os alunos vão investir seu tempo e ficar com esse diploma na mão. Para fazer o que do ponto de vista prático?” questiona Telésforo Martinez, professor do Instituto de Geociências. Ele afirma que no Brasil ainda não há demanda para esses bacharéis. “Isso é muito bonito na Europa, nas universidades que o reitor cita, mas aqui não. O Brasil ainda não é um país que ‘vende idéias’. Eu não vejo a implantação desses bacharelados como uma demanda necessária da sociedade”, pondera. Segundo o reitor, a ampliação de vagas, da forma como vem sendo feita na UFBA, seria uma demanda social. “A universidade passou anos sem crescer, enquanto o setor privaPaula Amor

O reitor Naomar Almeida fala ao JF

do explodiu e a sociedade necessita de educação superior”. Para Martinez, a criação dessas vagas estaria sendo feita para atender não uma demanda da sociedade, mas uma “necessidade” do Governo Federal: “o que o governo quer é dizer que inseriu não sei quantas pessoas na universidade, isso tudo vai virar número para campanhas políticas”. Tavares Neto endossa o ponto de vista afirmando que se trata de uma Bolsa Universidade. Quando é questionado sobre o mercado e o futuro profissional dos 900 estudantes que entraram esse ano nos BIs, o reitor reconhece que sua preocupação não é o mercado de trabalho e expõe opiniões particulares: “eu acho incorreto, injusto e até triste se uma instituição que é chamada de universidade se limite a dar formação profissional, se submeta ao mercado de trabalho”. Mesmo que o reitor considere “triste”, é com isto que a maioria dos estudantes está preocupada. “Os supletivos chamados BIs são invenções desconectadas da realidade chamada mercado de trabalho. Quando essas pessoas concluírem, vão ser empregadas em quê?”, questiona Tavares Neto. Supletivos ou não, a demasiada abrangência e generalidade das aulas é uma preocupação recorrente entre os alunos. “Nos BIs você adquire o conhecimento geral”, completa Nti. Segundo o professor Telésforo, devido à formação abrangente, os bacharéis interdisciplinares perderiam o foco essencial a qualquer profissão: “Toda profissão tem um foco. Para que serve um engenheiro, um advogado, um dentista? Todo mundo sabe. Mas e os BIs?”. O reitor afirma que os alunos egressos do BI “podem trabalhar em qualquer coisa”. “Esses alunos estão sendo de alguma maneira enganados. Primeiro porque não há mercado de trabalho definido, e segundo porque esse diploma não serve para nada. Só serve no sistema universitário. Esses alunos vão concorrer por vagas de mestrado com alunos de cursos regulares, que são limitadas pela CAPES.

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Vai haver uma concorrência brutal entre quem tem curso regular e esses do curso que foi inventado”, diz o diretor da Faculdade de Medicina. E completa: “Os alunos de Saúde, por exemplo, não serão médicos, nem enfermeiros, nutricionistas ou bioquímicos. Existe uma coisa chamada mercado. Querer mudá-lo já é insanidade”. Cotas para bacharéis Segundo resolução aprovada pelo Conselho Universitário (CONSUNI), dentro de três anos, no mínimo 20% das vagas de cada curso regular serão reservadas para os concluintes dos BIs. Naomar explica que, a depender da demanda de alunos dos BIs por cursos tradicionais, seria feito um processo seletivo – somente para esses bacharéis – a ser definido pela câmara de graduação. Os problemas aparecem quando o próprio reitor e o diretor do IHAC reconhecem que grande parte dos alunos que cursam o BI de Saúde tem intenção de estudar Medicina. Diante disto, a cota de 20% pode não ser suficiente. Temendo essa situação, o diretor de Medicina, uma das unidades que não aderiu ao REUNI, alerta: “quando entrarem os 20%, vai haver um grupo que entrará na justiça federal porque foi desprestigiado por isso ou aquilo e vai ser um caos”. Caso a cota exceda os 20%, a situação ficará ainda mais complicada para quem planeja entrar pelo vestibular comum. Tavares Neto acrescenta ainda que a reserva de vagas é injusta, “porque vai favorecer um grupo de alunos com um diploma que não serve para nada na área da Medicina em relação aos pré-vestibulandos, que vão entrar em guerra civil por vagas.” Percebe-se que os problemas são muitos e, segundo o reitor, “trata-se de um modelo em adaptação,” planejado para os próximos anos. Não há dúvidas de que a expansão da universidade é uma necessidade social. Se o modelo que está sendo implantado é o mais adequado e dará certo, somente o futuro dirá.


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E o Instituto de Qu

Incêndio coloca bombeiros em xeq Livia Montenegro

Professores e estudantes recolhem o que sobrou do incêndio

Gabriela Vasconcellos Livia Montenegro

Nelson Oliveira Verena Paranhos

incêndio ocorrido na tarde do dia 21 de março no Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia não destruiu apenas os laboratórios da unidade, equipados ao longo de décadas com toda a sorte de dificuldades. Além do prejuízo causado a centenas de alunos do próprio instituto, e dos cursos de graduação e pós de diversas unidades das áreas de ciências exatas, biológicas e de saúde da universidade, o episódio deixou chamuscada a performance do Corpo de Bombeiros de Salvador e serviu de alerta para combater uma prática comum para driblar a falta de infra-estrutura e manutenção de ins-

talações de prédios públicos: o jeitinho e a cultura do improviso. O edifício, construído há cerca de quatro décadas, estava longe de ter estrutura suficiente para a incorporação, ao longo do tempo, de centenas de equipamentos sofisticados, de alta tecnologia e demandantes de consumo de energia em níveis muito acima do que se considera convencional. Neste contexto, o incêndio envolve uma cadeia de práticas e cenários que, lentamente, foram desenhando silenciosamente um desfecho que, por muito pouco, não se constituiu em uma tragédia maior.

O

Prejuízos

A

s cifras dos prejuízos, orçados na casa dos milhões, amplamente divulgadas na imprensa não passam de especulações. A reitoria afirmou que ainda não tem como contabilizá-los, mas deve fazer isso em tempo hábil para que a reconstrução comece nos próximos meses. Com esse intuito, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, pediu pessoalmente aos professores e diretores presentes, durante visita ao instituto, que produzissem relatórios relacionando todos os prejuízos. Dirceu Martins, diretor do Instituto de Química, revelou que a avaliação dos prejuízos vai

Chuva ácida

A

pesar de o incêndio ter atingido nove laboratórios do quinto andar, outras áreas do prédio também foram prejudicadas. Segundo o professor Silvio Cunha, professor do Departamento de Química Orgânica, a água usada para tentar apagar o fogo e a alta temperatura podem ter comprometido aparelhos nos outros andares. A professora Cristina Quintela, coordenadora do Lablaser explicou que a reação entre as cinzas e a água tem efeito semelhante ao da chuva ácida, e pode destruir os equipamentos: “se forem afetados, os equipamentos podem resistir por alguns dias, mas não semanas ou meses”. Por isso, a professora planejava, assim que a entrada dos professores fosse liberada no prédio (o que aconteceu na quarta-feira, 25), retirar os equipamentos e, com a ajuda de um técnico, verificar quais ainda funcionavam. Para guardar a memória das pesquisas, gravariam os conteúdos dos discos rígidos e entregariam aos seus respectivos donos. ser feita pelos coordenadores de laboratórios, através do sistema SISLAB, que registra as pesquisas cadastradas e os materiais utilizados. “Os pesquisadores terão que comprovar a compra de materiais que não constam no sistema através de notas fiscais. Caso tenham sido queimadas, terão que pedir as cópias aos fornecedores”. Martins destacou ainda que, do universo de cerca de três mil alunos que freqüentavam o Instituto, não foram prejudicados somente alunos de Química, mas também dos cursos de Farmácia, Engenharia Química e Nutrição, de graduação, iniciação científica e pós-graduação.


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uímica pegou fogo

que e revela cultura do improviso Pesquisas perdidas

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s nove laboratórios incendiados eram especializados em catálise, processo que acelera as reações químicas e proporciona a progressão das pesquisas. Por isso, eram considerados os mais importantes de toda a unidade. Sete deles eram dedicados apenas para a pósgraduação e concentravam toda a pesquisa de ponta realizada no prédio. A perda dos laboratórios deve desacelerar a produção acadêmica dos estudantes. Segundo a professora Cristina um terço dos artigos científicos produzidos anualmente na Bahia são oriundos da faculdade. Parte dos professores afirmou que alguns experimentos poderão nunca mais ser refeitos. Nesse sentido, Silvio Cunha aponta que a extensão da perda científica é incalculável. “A memória do experimento, o caderno de laboratório, todas as anotações foram queimadas. Será necessário refazer tudo, desde o início. Em uma estimativa imprecisa, imagino que para voltarmos ao estágio em que estávamos vamos demorar cerca de cinco a dez anos”. Por outro lado, Emerson Sales, um dos professores do departamento de Físico-Química prejudicados, aponta que os prejuízos não

foram maiores porque muitas coisas já estão publicadas e difundidas. “O prejuízo acomete os projetos que estavam em curso agora. Alguns dos meus orientandos passavam dois anos fazendo uma reação de catalisação”, lamenta. Raigenes da Paz Fiuza, que vai defender sua dissertação de mestrado em abril, é um dos alunos que teve parte de sua pesquisa perdida. Ele conta que perdeu parte dos materiais da pesquisa e não vai atingir o objetivo esperado, “mas de qualquer forma darei uma boa contribuição científica”, diz. O aluno de pós-graduação foi o terceiro a chegar ao laboratório onde o incêndio começou e ajudou na evacuação do prédio, que tinha cerca de dez pessoas.

Estrutura precária

D

esde sua construção, em 1971, o prédio do IQ nunca passou por grandes reformas e, entre outros problemas, tem a fiação elétrica visível em alguns pontos. Cristina Quintella, que juntamente com o professor Jorge Davi arrombou a porta do Laboratório 519 na tentativa de apagar o fogo, denuncia que as paredes dos laboratórios incendiados eram divisórias de fórmica, material inadequado para um laboratório que abriga produtos inflamáveis. Segundo Lafaiete Almeida Cardoso, professor do Departamento de Química Orgânica, um edifício horizontal seria ideal para o Instituto: um prédio de no máximo dois pavimentos e estrutura que comportasse motores

mais potentes, com fácil acesso e deslocamento. “Essa discussão vinha acontecendo há dois anos, o novo modelo já tinha sido aprovado”, disse. De acordo com Antonio Reis Cerqueira, mais conhecido como Reizinho, funcionário do Instituto há quarenta anos, os laboratórios passavam por manutenções, mas a estrutura do edifício estava decadente. “Chegou a esse estado porque o prédio foi construído para atender a uma demanda de aproximadamente dez anos e, quatro décadas depois, ainda tem as mesmas estruturas”, denuncia com indignação. Para ele, o patrimônio público vem sendo tratado com descaso e o ocorrido serve de exemplo para que as autoridades, a partir de então, passem a preservá-lo.

“Chegou a esse estado porque o prédio foi construído para atender a uma demanda de aproximadamente dez anos e, quatro décadas depois, ainda tem as mesmas estruturas” Antonio Reis Cerqueira (Reizinho) Nelson Oliveira

Bolsas-sanduíche

U

ma das prováveis medidas anunciadas pelo ministro Sérgio Rezende é a criação de bolsas-sanduíche para mestrado e doutorado. A decisão, de caráter emergencial, deve ser tomada em parceria com as agências reguladoras, CAPES e CNPQ, para que os estudantes possam concluir as pesquisas em outras instituições de pós-graduação nacionais. “A pesquisa não está perdida. O mais importante é o conhecimento que fica com cada um. Este é um momento para fazer intercâmbios”, disse o ministro.

IQ permanece interditado após incêndio


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Verbas Federais

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Segurança

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ara Dirceu Martins, a segurança nos prédios da universidade tem que ser revista. “Vamos repor os equipamentos perdidos e construir prédios com normas de qualidade e segurança”, afirma. O professor Emerson Sales também defende que esta questão deve ser repensada, pois o prédio não tinha itens básicos de segurança, como hidrantes. Na opinião de Reizinho, cada unidade deveria ter um engenheiro de segurança para verificar o crescimento dos institutos e adequar as necessidades dos cursos às instalações. O professor do Departamento de Química Orgânica, Silvio Cunha, contesta as especulações de que os alunos não são preparados para agir diante de incêndios. Segundo ele, existe uma preocupação no Instituto relacionada

S

egundo o diretor do Instituto, muitos professores começavam projetos de pesquisa sem a autorização do Departamento. Martins afirma que esses professores instalavam novos equipamentos sem se preocupar com a possibilidade de sobrecarga no sistema elétrico e contratavam empresas privadas para realizar as instalações por conta própria. “Nossa estrutura estava ade-quada para a demanda atual, mas todos os dias os pesquisadores recebem novos aparelhos, através dos projetos que enviam para o CNPQ”, assegura Dirceu Martins. O diretor não sabe afirmar a quantidade de equipamentos que existia no prédio. “Não é por omissão, mas porque não há um senso cooperativo. Todo mundo quer ser chefe de si próprio”, complementa.

à segurança e os estudantes são instruídos a controlar pequenos incêndios com extintores de pó químico. “Na semana seguinte ao incêndio, teríamos um treinamento ministrado pelos bombeiros para os graduandos”, exemplifica. Além disso, o professor afirma que cada andar tem uma pessoa responsável, treinada em brigada de incêndio. André Barreto, estudante do 5º semestre da graduação, confirma que desde o início do curso os alunos são preparados para lidar com incidentes. Cunha acredita que, se o incêndio tivesse ocorrido durante a semana, os próprios professores, estudantes de graduação e pós-graduação que estivessem no prédio, conseguiriam debelá-lo, pois provavelmente as chamas teriam sido notadas antes de tomar proporções extensivas.

Desde 2007, foram feitas duas solicitações para que a prefeitura do campus avaliasse a estrutura do prédio e as instalações elétricas. Somente a segunda foi atendida, mas apenas a situação estrutural do prédio foi avaliada. Durante as semanas anteriores ao incêndio, ocorreram sucessivas quedas de energia em todo o campus de Ondina. Segundo o diretor, isso pode ter tido alguma relação com o incidente. “Quando ocorrem quedas de energia, os equipamentos bifásicos ficam em uma fase só, o que faz com que eles desliguem e

queimem, ou fique ligado e ainda aquecendo. Neste segundo caso há um risco muito grande de acontecimentos como esse.” De acordo com a professora Cristina Quintella, por volta das nove da manhã de sábado (dia do incêndio) faltou luz por cerca de dez minutos. Ela não verificou se apenas uma fase estava ligada, esperou a energia retornar. “Não sei se as faltas de luz têm relação com o incêndio, mas quando descobrimos o foco no laboratório, o fogo parecia ter iniciado mais cedo”, considera.

Nelson Oliveira

ministro Sérgio Rezende, em visita feita ao IQ no dia 24 de março, prometeu ajuda para a retomada das pesquisas e recuperação do prédio. Segundo ele, o MCT exercerá papel de articulador entre as entidades subordinadas ao ministério, além de Petrobras e Eletrobrás. “Apesar da crise econômica internacional, nós temos recursos para investir na área. Nesta hora, não tenho dúvidas que não vai faltar apoio e solidariedade do presidente Lula”, afirmou o ministro. Além do apoio do MCT, a reconstrução do Instituto também receberá apoio do Ministério da Educação. “A verba do REUNI será usada para essa emergência. Agora é hora de reconstruir”, disse o reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho. Dirceu Martins, diretor do IQ, acrescenta que é importante também buscar apoio da bancada baiana no Congresso.

Cultura do improviso

Ministro e Reitor em visita ao IQ

“O corpo de bombeiros não estava preparado para lidar com gases explosivos e material inflamável” Emerson Sales


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Nelson Oliveira

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Bombeiros

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corpo de bombeiros chegou ao local do incêndio cerca de meia hora depois do início, mas de acordo com o professor Sales, sua atuação não foi satisfatória. Além da falta de hidrantes no campus, os bombeiros não tinham máscaras, nem qualquer outro equipamento que auxiliasse no combate a incêndios dessa proporção. “O corpo de bombeiros não estava preparado para lidar com gases explosivos e material inflamável. O coronel responsável pela corporação não quis admitir que não tinha condições de apagar o incêndio e mandou a brigada da Petrobras, que estava a caminho, voltar. Existem questões burocráticas nesses casos, precisávamos de uma solicitação oficial dos Bombeiros”. O professor, que preferiu não revelar o nome do coronel responsável pela ordem, afirmou ainda que a ajuda da brigada de incêndio do Pólo Petroquímico de Camaçari (que só chegou ao local por volta das 21h), foi fundamental para debelar o incêndio: “Não podemos chegar de peito aberto e enfrentar o fogo”, ressalta Sales. Segundo um segurança do Instituto, com a chegada da brigada do Pólo, em menos de uma hora o incêndio foi controlado.

Aulas Teóricas e Práticas

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o que tange a realização das aulas práticas da pósgraduação, a diretoria do IQ avalia buscar convênios com outras instituições de ensino do Brasil. Já em relação à graduação, Maria Luiza Corrêa, vice-diretora do IQ, afirma que as aulas teóricas continuam acontecendo, porque são realizadas no Pavilhão de Aulas da Federação (PAF). Já as aulas práticas da graduação es-

Diretor do IQ e o funcionário “Reizinho” lamentam o incêndio

Alunos

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esde o ocorrido, assembleias vem sendo realizadas para discutir o futuro das aulas práticas. Bárbara Pinheiro, aluna do 5° semestre de Licenciatura em Química, afirma que há bastante discussão, entretanto não se chega a um denominador comum. “Pensam muito na pós e em pesquisas, mas os alunos de graduação ficam de lado”, critica Bárbara. Segundo ela, a organização de

tão sendo organizadas por uma comissão designada pelo Diretor, que tenta concentrá-las no campus de Ondina, fazendo uso dos laboratórios de Geociências, Farmácia, Biologia, Politécnica e Física. “A Área 1 e a Unifacs ofereceram os laboratórios, mas, para evitar o deslocamento dos alunos, estamos tentando reunir as práticas aqui mesmo”, afirma Maria Luiza.

outros laboratórios depende da mobilização direta de cada turma, envolvendo professores e alunos. De acordo com a aluna do 7° semestre de Bacharelado em Química, Fabiany Cruz, a avaliação prática vai ser prejudicada, apesar dos professores estarem “correndo atrás” de outros laboratórios. “A expectativa é que as aulas continuem em outros locais, mas depende da transferência de equipamentos. Não é simples”. Para ela, o conteúdo não vai ser tão prejudicado, pois o curso também tem grande demanda teórica. Maria Luiza reconhece que, de alguma forma, as aulas serão prejudicadas: “estamos tentando minimizar os prejuízos. Vamos fazer de tudo para não estender o semestre”.

Biblioteca

Solidariedade

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esse momento de crise é grande a solidariedade recebida. Segundo Emerson Sales, “professores e alunos de outras universidades do Brasil inteiro tem ofertado ajuda. O telefone não pára de tocar”. Ele informou ainda que a UNIFACS se solidarizou, disponibilizando seus quatro laboratórios de pós-graduação destinados à catálise. Luis Pontes, Pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa da faculdade, declarou que os laboratórios da universidade encontram-se à disposição dos professores e alunos que tiveram pesquisas prejudicadas. Para o ministro Sérgio Rezende, este é um momento em que professores e estudantes devem se unir. “Toda a universidade deve tirar lições do acontecido e juntar forças. Vamos repetir o que tem dito o presidente Lula: vamos enfrentar a crise de frente”.

A biblioteca do Instituto, que conta com o terceiro maior acervo sobre química do Brasil, também está localizada no quinto andar, mas não foi incendiada, por estar situada na parte de trás do prédio e ter paredes de alvenaria. No entanto, sofreu ação do calor, fuligem e água – o que pode abreviar a vida útil dos livros.


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CIDADE

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Ser negro está na moda?

A recorrência pela imagem de mulheres negras e campanhas publicitárias tem sido cada vez mais forte Reprodução

locais “penduram” em meninas negras acessórios que variam entre jóias requintadas e adornos associados à cultura afro-baiana. O discurso do apelo multiculturalista e étnico tem sido utilizado de modo exaustivo.

É bom ‘pra’ vender Três horas da tarde de um domingo no Salvador Shopping, o que concentra a maior quantidade de lojas caras da cidade. Observando-se uma delas, durante uma hora, o que se vê são peruas e socialites num intenso frenesi. Por coincidência ou não, todas elas são brancas. O fenômeno não é isolado. Em outras grifes, o paradoxo é ainda mais evidente: negras são Débora Monteiro, modelo e estudante de publicidade, na campanha contra o Câncer de Mama vistas em editoriais e campanhas publicitárias, apesar de Luís Fernando Lisboa não serem parte significativa do resMariana Almofrey pectivo público-consumidor. Programas e publicações locais ancos, empresas diversas, especializados em moda não disgrifes e milhares de propa- pensam a escolha de modelos afrogandas eleitorais se apropri- descendentes. De acordo com Ilana aram da imagem do negro e não que- Strozenberg, professora da Escola rem mais largar. Ao abrir uma revista, de Comunicação da UFRJ, “as grifes ou ligar televisão, principalmente na caras não buscam atrair o público mídia local, é comum ver mulheres negro, apenas recorrem às modelos negras protagonizando campanhas negras para atingir o público que tem publicitárias de todo tipo. As propa- em dinheiro para comprar as peças, gandas do Governo do Estado são que quer se identificar com uma visão as que mais apresentam porta-vozes contemporânea do mundo.” Outros afro-descendentes. Geralmente, mu- especialistas avaliam a mercantilizalheres negras aparecem para falar so- ção da imagem do negro. De acordo bre as últimas conquistas do governo, com Antônia Garcia, pesquisadora e para apresentar os últimos números do NEIM (Núcleo de Estudos Inde desenvolvimento. Já as revistas terdisciplinares sobre a Mulher da

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UFBA), a sociedade tem questionado os padrões de beleza difundidos até hoje e, mesmo com mulheres negras aparecendo em propagandas, ainda é grande a desigualdade racial no Brasil. “Todos sabem que hoje esta negra é considerada tão linda, mas antes não era tão linda assim”, ressalta Antônia. “Essa comercialização da imagem traz em si um processo contraditório: imagine um banco, que é o símbolo maior do capitalismo, utilizando a imagem negra. Ele não a utiliza pelo fato de acreditar que o negro é igual ao branco”, alerta Antônia, mas para efeito de marketing inclusivo que não se verifica nas relações sociais. É chique e moderno A imagem do negro acrescenta aos editoriais de moda o ideal de modernidade e de responsabilidade social. As grifes de luxo lucram com a imagem do politicamente correto e, com isso, agregam valor a sua marca, atraindo consumidoras endinheiradas. O negro realmente vende, mas vende para brancos. As marcas então absorvem esse padrão e propagam a imagem das negras porque agora está interessante para a sociedade. Antônia Garcia esclarece que “eles vendem essa imagem porque fica bem na fita”. Ou seja, “com a intenção de agregar valores através da diferença e da concepção de que a beleza tem várias cores, de que pode ser encontrada em vários corpos, dando assim a idéia de modernidade, sofisticação e bom gosto”, como afirma Ilana Stronzerberg. Em Salvador, a demanda pelas modelos negras é grande. De acordo com Amaury Oliveira, booker da agência de modelos Bi Produções, “os clientes de fora, em geral, quando procuram modelos baianos, querem pessoas que tenham o perfil local, ou seja, negros.” Por conta disso, mulheres e homens negros compõem

50% do casting da sua agência. A cultura afro e a imagem das meninas negras são utilizadas como produto turístico, mas elas não se beneficiam disso. “Não vai ter um retorno coletivo, não faz parte desse padrão”, garante Antônia. As que se destacam são as negras “mais vendáveis”, como pondera Débora Monteiro, modelo e estudante de Publicidade. “Pelo perfil do cliente a gente sabe o que ele quer: aquelas com o nariz mais fino e o cabelo menos cacheado”, explica Débora. Só na vitrine De acordo com Antônia, “não podemos cair na ilusão de que os preconceitos estão resolvidos pelo fato de termos negros e negras na mídia. Temos um cotidiano extremamente racista e discriminador em todos os espaços da sociedade”. Marina Ferreira, integrante da Didá, conta que a mídia recorre cada vez mais à banda para mostrar a beleza negra. Um exemplo é o editorial de moda publicado na edição de 28 de junho de 2008 da revista MUITO, no qual outra integrante da banda posa com jóias, que chegam a custar mais de 30 mil reais. “Todo mundo vê a gente tocando com um sorriso no rosto e os cabelos estilosos, mas não sabe o que se passa por trás disso. Muitas vezes não temos nem dinheiro de transporte para ir às apresentações”, afirma Marina. Para Débora, as modelos negras baianas não devem se sentir melhor que ninguém. “É ilusão achar que modelo ganha muito, principalmente na Bahia. Aqui é pior que nos outros estados, os modelos baianos não são valorizados. Pra quê deixar o sucesso subir a cabeça e continuar morando no mesmo bairro?”, questiona a modelo. É ilusório se deslumbrar e continuar vivendo a mesma vida de sempre.


CIDADE

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O (Sub) Mundo no Pelô Centro de cultura internacional leva diversidade ao centro histórico de Salvador Rebeca Caldas

forma acessível, Reidar critica a tendência predominante no Pelourinho, onde, segundo ele, há um comércio da cultura. “É muito feio, o nosso objetivo não é o lucro”, sustenta. E segue afirmando que não há espaço para outras culturas no local, além da afrodescedente. No entanto, segundo Nattále Santiago, funcionária da Saltur, empresa de turismo de Salvador, somente cinco de cada 100 turistas procuram atividades culturais tidas como alternativas. “Eles vêm em busca do tradicional mesmo”, assinala.

Atrás da fachada têm um mundo

Raíza Tourinho Rebeca Caldas

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m um casarão histórico amarelo, localizado numa estreita rua do Pelourinho, encontra-se o Centro Cultural do Bispo (CCB). Trata-se de um lugar singular, que abriga viajantes de diversos lugares, sendo em sua maioria artistas. Ponto de intercâmbio cultural, é uma alternativa a homogeneidade de cultura encontrada no Centro Histórico. Ideia central O espaço foi fundado pelo filósofo norueguês Reidar Kgelawp, 39, há pouco mais de dois anos. Ele veio a primeira vez ao Brasil fazer um curso de pintura em Curitiba, cidade natal de um primo distante. Ao viajar pelo país, viu no Centro Histórico de Salvador o lugar propício para realizar uma antiga ideia sua: criar um ponto de encontro internacional de cultura. Priorizando a diversidade de

Singular e plural “A palavra chave do Centro é a diversidade”, afirma a paulista de 22 anos Daniela Barreto. Diversidade de países, culturas, línguas. Os hóspedes do CCB são oriundos de diversas partes do mundo, chegam primeiro para se instalar e logo passam a trabalhar na organização, discutir filosofias e expor sua arte. Nesse ambiente, a comunicação se dá em português, incentivando os estrangeiros a dominarem a língua. O lugar é querido pelos hóspedes, que possuem motivações diversas para estar lá. A francesa Annick Gerin, 23, que já viajou pela Europa e pelas Américas, expressa grande admiração pela cultura brasileira, principalmente pelas danças. Instalada no espaço pela segunda vez, destaca que “não existe muitos lugares como esse no mundo”. Já Daniela Barreto veio à Bahia fugir do estresse de São Paulo e da pressão da família,

quanto à aprovação no vestibular. Sua estadia no Centro já dura mais de um ano, e ainda não sabe quando vai voltar. “Aqui, você tem que se ligar, porque senão, não sai nunca”. Entre eles, há um clima de trocas e cooperação. “É como se fosse uma família” destaca Daniel França, músico percussionista, natural de Euclides da Cunha. Reidar Kgelawp define o perfil dos hóspedes como pessoas que têm a mente aberta e gostam de liberdade. Exemplo disso são os músicos do grupo uruguaio Cuarteto Ricacosa. Dois deles, Camilo Vega e Martin Teixeira, ambos violonistas de 26 anos, disseram que há muito desejavam visitar a Bahia. Admiradores da música afrodescendente, querem conhecer a cultura e se apresentar por aqui. No entanto, antes de chegar, não havia nenhum show marcado. É tudo feito na improvisação, se mantêm através da venda de CDs e passando o chapéu. Apesar de abrigar hóspedes, o Centro não é considerado albergue, já que os moradores devem estar alinhados com o perfil do lugar. “É mais como uma comunidade”, define Reidar. Segundo ele, os hóspedes pagam o quanto podem, até com trabalho, mas o site da instituição informa que uma temporada na casa custa cerca de US$ 600. Já a situação legal dos estrangeiros, não é tão importante para a administração do lugar. “Isso eles têm que acertar com a Polícia Federal”, desconversa o fundador. No mundo da lua... O Centro Cultural do Bispo é representado por uma lua, símbo-

Não é só vender dança afro, capoeira, percussão Reidar Kgelawp

lo feminino que inspira sensibilidade e criatividade. Neste sentido, Reidar salienta que não é preciso ser um artista consagrado, o importante é desenvolver a imaginação. Isso se comprova nas festas do Centro, onde há apresentações musicais de estilos diferenciados e, às vezes exóticos (como tribal). Pode até haver apresentações de pouca qualidade, mas o que se preza é a diversificação. “Melhor que seja assim do que ser um samba (música comercial), por exemplo”, afirma o norueguês. As festas acontecem geralmente aos sábados e, além de promover o intercâmbio cultural, possibilitam a sustentabilidade do centro. O público destes eventos são moradores de Salvador e turistas do Pelourinho, que sabem das festas através de panfletos produzidos pelos hóspedes e pela divulgação boca-a-boca. O espaço serve também para oferecer cursos de dança à população. Os professores são profissionais de Salvador, que pagam ao centro 25% do valor arrecadado nas aulas. Comunidade da diferença. É desta forma que se pode definir o Centro Cultural do Bispo, evidenciando que o Pelourinho pode, ao mesmo tempo, ser um lugar onde a cultura baiana se mostra ao mundo e a cultura do mundo se apresenta para a Bahia.

http://www.centroculturaldobispo.com/


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CIDADE

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O que é que a Bahia não tem? O que os turistas esperam é diferente do que encontram quando chegam ao Estado Gabriela Vasconcellos Livia Montenegro

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turismo da Bahia tem sido difundido pela Bahiatursa – responsável pela coordenação, execução de políticas de promoção e desenvolvimento do turismo no Estado – e a Secretaria do Turismo (Setur) de forma vigorosa nos últimos tempos, com uma força publicitária que vende a imagem de festas de grande destaque no cenário baiano, como o Carnaval e recentemente o São João. Esta propaganda é um dos fatores que mais influência o turista na hora de escolher o seu roteiro de viagem, como mostra o resultado de uma pesquisa, realizada em julho de 2008, pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), onde se verificou que 80% dos visitantes escolhem seus destinos através da internet – sites das cidades, de agências de turismo, comunidades em sites de relacionamentos, etc. Na Bahia, os locais mais visitados são: Salvador, Porto Seguro, Praia do Forte, Costa do Sauípe, Morro de São Paulo, entre outros. De acordo com o superintendente da ABAVBA (Associação Brasileira de agências de viagem), Cláudio Almeida, Salvador é a terceira cidade que mais recebe turistas no Brasil. E, apesar deste dado, a cidade possui menos leitos – aproximadamente 33.000 acomodações para os visitantes – do que, por exemplo, Porto Seguro, uma cidade menor, que possui mais de 40.000 leitos. O perfil dos turistas que viajam para Salvador e para os outros locais do estado é diferente em diversos aspectos. Salvador recebe mais turistas interessados em viagens de negócio do que em lazer, como ocorre em outros pólos turísticos. O poder aquisitivo do visitante de Arraial d’Ajuda,

Trancoso, Praia do Forte, Costa do Sauípe, Porto Seguro e Morro de São Paulo é maior que aqueles que frequentam a capital baiana. Vende-se, sim senhor Em 2008 foi intensificada uma campanha para divulgar o São João da Bahia, mas mesmo assim a maior demanda de turistas se voltou não para os municípios que realizam os típicos festejos juninos, e sim para aqueles já conhecidos e frequentados durante o verão, como demonstra os dados de uma grande agência de turismo, que projetou venda de 20.000 pacotes turísticos, no qual cerca de 12.000 foram vendidos para Porto Seguro. Este resultado sugere que a divulgação beneficiou apenas os tradicionais destinos turísticos da Bahia. Apesar dessa grande propaganda e do esforço do governo para vender o turismo da Bahia, quando o assunto é a melhoria da infraestrutura oferecida aos turistas o empenho não é o mesmo. Nas pequenas cidades, por exemplo, é notória a falta de condições para receber um grande número de turistas. Serviços básicos como transporte, segurança, atendimento médico e falta de informação são os itens que figuram no topo da lista de reclamações dos visitantes do Estado. A Secretaria de Turismo recebeu diversas queixas referentes a estes serviços. Entre elas, a cobrança abusiva ou recusa dos taxistas para realizar corridas de curta distância e a falta de preparo no atendimento de casais homossexuais que chegam a hotéis e são atendidos com “risos” exagerados e encaminhados, na maioria das vezes, para quartos separados, o que acaba causando constrangimentos que poderiam ser evitados. A superintendente da Setur, Clarissa Amaral, afirma que é necessária uma qualificação dos recepcionistas de hotéis, taxistas etc. Segundo ela,

CURIOSIDADES - Nessa época do ano*, 590 ou 4,6 do total de turistas que visitaram Cairu foram portugueses. - A predominância de turistas que vem de fora do estado é de paulistas e mineiros. Em Barreiras, a origem da maioria dos turistas é do Centro Oeste. Já em Paulo Afonso houve um maior número de pernambucanos. - Morro de São Paulo foi o local mais visitado por mulheres. Já Paulo Afonso foi mais procurada por jovens. E Itaparica/Vera Cruz teve o maior número de idosos. - Lazer foi o principal motivo das viagens. Salvador e Juazeiro receberam mais visitantes em razão de negócios. - O serviço médico foi apontado como um dos piores itens na infraestrutura das regiões visitadas. - O tempo de permanência da maioria dos turistas é de 1 a 4 pernoites, sendo que em Arraial d’Ajuda, Costa do Sauípe, Porto Seguro e Praia do Forte a permanência é maior. - 13% das pessoas que visitaram Barreiras afirmaram que não recomendariam esse destino. * Pesquisa preliminar realizada em 21 pólos turísticos da Bahia, entre os dias 19 a 22 e 26 a 29 de julho de 2008 pela Fundação Instituto em Pesquisas Econômicas (Fipe), concedidas ao JF pela Setur. são oferecidos para estes profissionais cursos gratuitos, voltados para a melhoria dos serviços, porém, a demanda ainda é muito pequena. Na tentativa de incentivar os profissionais a fazerem os cursos, o governo pretende criar um selo que identifique os profissionais qualificados. Método de pesquisa falho De acordo com a Setur, há duas formas de saber se quem está ingressando no estado é turista ou não. Uma é de acordo com a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), que estabelece 65% do fluxo total de passageiros no aeroporto, como sendo turistas, e a pesquisa presencial, em que o turista é abordado de forma rápida e questionado somente sobre seu local de origem. Este tipo de pesquisa é o que mais recebe reclamações, pois os turistas acham que são abordados de forma grosseira. Mas, de acordo com

a Setur, que não é responsável pela pesquisa, mas nos informou como ela é realizada, a abordagem é feita desta maneira porque vários voos chegam ao mesmo tempo e não há entrevistadores suficientes. Essas pesquisas são realizadas por empresas contratadas, pelo governo, através de licitações e não há nenhum controle direto de como elas são feitas. Isso acaba fazendo com que ocorram erros na contagem de turistas, como na última pesquisa realizada pela Fipe, em que pessoas residentes em Petrolina foram consideradas turistas em Juazeiro, residentes de Trancoso e Porto Seguro, também foram tidos como turistas em Arraial d’Ajuda, sendo que, de acordo com a Setur, para ser considerada turista, a pessoa precisa residir a mais de 100 km de distância do local que pretende visitar.


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Memórias do guarda-roupa

Um dos acervos mais raros e expressivos do cotidiano da mulher baiana se esconde no centro de Salvador

Joseane Bispo

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equinte, sofisticação e beleza podem representar uma realidade muito distante para algumas pessoas, mas o que poucos sabem é que Salvador abriga em um único lugar essas e outras qualidades dignas de luxo: trata-se da Fundação Instituto Feminino da Bahia. Localizado no bairro do Politeama, o Instituto é composto hoje pelo Museu do Traje e do Têxtil e pelo Museu Henriqueta Catharino, que homenageia a sua idealizadora, uma visionária dama da sociedade soteropolitana e pioneira do feminismo na Bahia. Com um dos maiores acervos memoriais de vestuário da alta sociedade feminina baiana dos séculos XIX e XX, o Instituto se iniciou como uma Escola Comercial Feminina. Henriqueta, uma mulher aparentemente a frente de seu tempo, teve acesso à boa educação da época, moldada no requinte europeu. Fascinada pelos ideais feministas, tornou-se uma defensora do movimento no início do século XX. Herdeira do maior parque industrial do Estado e muito envolvida nas atividades da Igreja Católica, circunstância que facilitou a concretização de um antigo sonho, junto ao Monsenhor Flaviano Osório Pimentel, fundou um local onde as mulheres socializavam-se entre si e com o conhecimento através dos livros. Foi sala de leitura, agência de locação e restaurante para senhoras e jovens, até ser transformada em associação de utilidade pública, chamando-se Instituto Feminino, que pautava não só os ideais de instruir a mulher baiana, mas também prepará-la para o movimento de emancipação, através da formação

profissional, intelectual, cultural e espiritual. A Fundação hoje Fazendo jus a sua essência feminina, quase todas as salas do Museu têm nome de mulheres de destaques da época, como a sala Princesa Isabel e o Auditório Isabel Foeppel. Nos seus quatro cantos, a Fundação conserva artefatos como móveis, cristal, prataria, Museu abriga vestuário dos séculos XVII a XX porcelana, pinturas e esculturas, que reconstroem Isabel no momento que assinou a momentos vividos pelas mulheres Lei Áurea. Além dessas, traz trajes que ali estiveram como também de crioulas remanescentes da esretratam o período de transição en- cravidão, como a Preta Fulô, e uma tre os séculos XIX e XX. réplica da carta de Carlos Gomes Pelo encanto do lugar e por re- à Princesa Isabel, de 1888, na qual produzir de maneira tão próxima a o mesmo agradece à Princesa por época, o Instituto é procurado para ter, no dia 13 de maio, abolido a esfestas como aniversários de 15 anos cravidão. e principalmente casamentos. SeDurante o ano, os funcionários gundo Marijara Queiroz, museólo- da fundação trabalham para garanga responsável pelas exposições, a tir uma aproximação do local com procura é intensa durante todo o a comunidade soteropolitana: “Seano a ponto do agendamento ter mestralmente acontecem cursos que ser feito com até um ano de ligados a história da arte e da moda antecedência. De acordo com ela, têxtil, já que o museu é o único do os eventos são uma forma de ma- país que tem essa temática”, explinutenção da fundação, uma vez que ca Marijara. Oficinas e workshops cada um dos seus setores é auto- relacionados à área também são resustentável e precisa trabalhar de alizados, principalmente direcionaforma independente para continuar dos a estudantes de escolas públias suas atividades. cas. Em 2008, quando a fundação Parte importante da fundação completou 85 anos, aconteceu a está no Museu do Traje e do Têx- oficina “Brincando e vestindo a til, que expõe roupas de bailes, pas- história” para crianças, resultando seio, cama e mesa, vestes eclesiásti- na exposição “Um olhar infantil cas como a do Papa João Paulo sobre a moda do passado”, além de II e o vestido usado pela Princesa outras atividades comemorativas.

Reprodução

Considerando a importância dos museus, como equipamentos de educação informal, os responsáveis pela Fundação, lutam por um novo olhar para a Instituição, que não seja apenas conhecida como uma casa de eventos. Ainda que promova diversas atividades que procuram aproximar a sociedade do espaço, a Fundação Instituto Feminino vive a mesma realidade da maioria dos museus da capital baiana: o desconhecimento. Marijara atribui o fato à essência da população de Salvador: “Salvador não tem cultura de visitação de museus ou galerias por ser uma cidade de sonoridade, de barulho, não no sentido de barulhos de carros ou outras coisas, mas em sentido de festas, batuque, vibração e o incentivo a esses hábitos é grande. Isso gera uma falta de concentração que não alimenta o interesse de conhecer esses lugares”. Colaboraram Mariana Rodrigues e Bárbara Lisiak


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ECONOMIA

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Dois pesos e duas medidas Salvador vive “crise estrutural”, enquanto a Islândia enfrenta uma nova realidade Nelson Oliveira

Construção civil em Salvador continua aquecida, principalmente ao longo da av. Paralela

Nelson Oliveira Verena Paranhos*

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uem já convive com uma crise estrutural pode aprender a lidar mais fácil com os males causados pela crise financeira. Muitos brasileiros, acostumados a conviver com a crise diária, não percebem tanto que suas vidas mudaram após o crash. Alguns problemas se agravam, enquanto outros continuam a existir, fazendo com que a situação permaneça complicada. Neste contexto, Brasil e Islândia (pequena ilha próxima ao Ártico) representam “mundos” antagônicos: o primeiro vive raros momentos fora da crise, enquanto o outro aprende a lidar com ela após período de bonança. Como a maioria das capitais brasileiras, Salvador, com seus quase três milhões de habitantes, convive com altos índices de desemprego, analfabetismo e violên-

cia. A Islândia, país nórdico com cerca de 300 mil habitantes (cerca de um décimo da população da capital baiana), por outro lado, foi considerada como o melhor país do mundo em termos de qualidade de vida, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano 2007 (IDH), com excelentes sistemas de saúde e educação, elevados índices de crescimento econômico e taxas de violência e desemprego quase zero. Para ilustrar: o número de desempregados da Região Metropolitana de Salvador representa dois terços dos habitantes da Islândia. São exemplos de realidades distintas, que vivem e enfrentam a crise à sua maneira. A crise parece ter rearranjado os papéis: enquanto em Salvador não ficam tão evidentes seus efeitos, o país dos gêiseres é considerado como o maior prejudicado pela instabilidade do mercado financeiro internacional. Contudo, esta comparação não pode ser feita de forma leviana, pois se

tratam de conjunturas e trajetórias históricas diametralmente opostas: uma grande população, herdeira de uma exploração colonial ferrenha que desencadeou um processo excludente e desigual versus uma pequena e modesta nação, que sobreviveu a inóspitas condições climáticas e que, devido a uma política neoliberal agressiva e recente, assumiu com rapidez as primeiras colocações nos rankings de riqueza e qualidade de vida.

Islândia Antes da crise, a oferta de emprego era tanta que, além de imigrantes, o mercado absorvia jovens que muitas vezes nem haviam concluído a escola: um jovem islandês de 17 anos comum tinha carro próprio, morava sozinho e fazia pelo menos duas viagens ao exterior por ano. No entanto, a derrocada é fruto da administração aventureira de Davíð Oddson, primeiro-ministro entre 1991 e 2004, que transformou o país, mas sem preparar bases sustentáveis. Antes pobre e economicamente isolada, a Islândia tornou-se uma economia empresarial e globalizada. Neste período, empresas pesqueiras, sistema bancário e até o patrimônio genético dos habitantes foram privatizados. Os principais bancos do país (que já atuavam em outros países europeus) decretaram falência devido a seu insustentável gigantismo, levando toda a economia junto: a Króna, moeda local, sofreu grande desvalorização e já não é mais aceita

no estrangeiro. Os preços subiram e a inflação atingiu em março deste ano a marca de 17,6%. Em janeiro, poucos meses depois de assumir as dívidas dos bancos e falir o país, todo o gabinete do primeiro-ministro Geir Haarde renunciou sob protestos violentos da população. Davíð Oddson, que havia assumido a presidência do Banco Central islandês, foi o último a cair. Em 25 de abril, foram realizadas eleições antecipadas que asseguraram, pela primeira vez na história, a maioria de esquerda no parlamento. Jóhanna Sigurdardóttir, que tinha sido escolhida primeira-ministra interina, continuará como chefe do governo e enfrentará como desafios, além de questões como a entrada da Islândia na União Européia, um de crescimento de 576,8% no desemprego (avaliada entre janeiro de 2008 e 2009), que atinge principalmente jovens e imigrantes. Em busca do emprego perdido O jovem islandês Hartmann Ingvarsson sentiu por algum tempo o que muitos brasileiros estão acostumados a sentir. Ele abandonou a escola em 2007 para trabalhar em uma microempresa do ramo de alimentos. Foi demitido após a crise, mas ficou pouco tempo desempregado: conseguiu um emprego como entregador de pizzas em Reykjavík, capital do país. Ele afirma que a rapidez se deveu a indicação do gerente assistente da rede, um amigo seu. “É um trabalho inferior ao que fazia, mas estou precisando. Tenho que pagar as prestações do meu carro, do meu notebook, além do básico para viver”, conta. A brasileira Tatiane Soares da Silva mora na Islândia há dois


ECONOMIA

anos e é um dos imigrantes que perdeu o emprego com a crise. Ela, que trabalhava em um hospital cuidando de idosos, acredita que é muito difícil encontrar outro emprego. Pretende retornar ao Brasil em junho, mas não descarta a possibilidade de ir morar em outro país escandinavo. “Não consigo ver futuro algum aqui”, revela. Em meio a todo o pessimismo, existem aqueles que se encontram otimistas com o futuro do país. Pedro Videlo, economista e professor da Universidade de Barcelona, afirmou a um programa de televisão islandês que os habitantes da ilha não devem entrar em pânico, pois a situação econômica do país não é tão grave quanto a mídia internacional diz. Para ele, o crash islandês pode ser comparado ao de países de tamanho similar, como o Uruguai. “A situação da Islândia não é pior que a média dos outros países. Haverá aumento de desemprego, queda de investimentos, mas se políticas econômicas corretas forem tomadas, não existe razão para pânico”, defende. Do outro lado do Atlântico No caso soteropolitano não é diferente: o mau momento da economia afeta principalmente os trabalhadores com menos experiência ou tempo de serviço. Segundo o IBGE, em janeiro, a Região Metropolitana de Salvador tinha 206 mil pessoas economicamente ativas sem emprego, das quais 22% tinham entre 18 e 24 anos. Mesmo com a crise financeira mundial, a taxa de desocupação na região diminuiu 0,1%, se comparada a janeiro de 2008. Joílson Rodrigues de Souza, coordenador de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia, destaca que, se a crise não existisse, a oferta de empregos teria aumentado. “O crescimento e a acessibilidade daqueles que buscam o primeiro emprego seria

www.flickr.com/photos/caravinagre

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maior”, afirma. Ele também acredita que o aumento de ofertas de trabalho no período está atrelado à alta estação e às compras natalinas: “Muitos postos de trabalho em Salvador surgem nesta época do ano”. No entanto, o coordenador afirma que o comércio sofreu declínio por causa da redução do crédito, influindo diretamente na indústria. Caio Gomes, estudante de engenharia mecânica, perdeu seu estágio, porque a empresa alegou corte de Islandeses fazem ‘Revolução das Panelas’ nas ruas e derrubam governo gastos. Assim como Hartmann, acredita que as indicações trução civil está completamente sar das empresas terem condições de amigos são o caminho mais parado. As empresas venderam de entregar as obras. Barretto afirma que o perigo rápido para conseguir novo em- suas máquinas e demitiram seus prego: “Tenho cadastro no IEL e funcionários. Reykjavík está cheia se instala quando a falta de confiCIEE, mas acho que é mais fácil de prédios e bairros inteiros ina- ança faz as pessoas pensarem que as coisas não vão bem: “Aí o emencontrar outro estágio através cabados e abandonados”. de contato com conhecidos que Em Salvador, os danos ao setor presário age de forma preventiva, trabalham na área”. ainda não são muito evidentes. investimentos são postergados, Grande parte das obras em anda- custos são reduzidos e empregos Construindo cidades e em- mento não foi interrompida e o são cortados”. Para ele, as ações pregos crédito tem sido mantido, apesar devem ser focadas no estabeleciA construção civil é um setor de algumas demissões. Para New- mento da confiança entre as difundamental em tempos de crise, ton Barretto, empresário do ramo versas partes, entre elas o Gopois é responsável por grande da construção civil, o bom mo- verno Federal, que deve exercer número de contratações. Se o mento vivido pelo mercado nos o importante papel de oferecer crédito e os investimentos vão últimos três anos, propiciado pelo linhas de crédito e abrir licitações bem, o segmento deslancha e superaquecimento da compra e para obras de infraestrutura ou de propulsiona o crescimento das venda de imóveis, foi fundamen- construções populares como forcidades. Mas, com as incertezas tal para que o setor não desem- ma de estimular as construtoras e do momento, comprar um novo pregasse tantas pessoas. “O ‘freio gerar empregos. O Plano Nacional de Habitaimóvel pode ser supérfluo: exa- de mão’ do fim do ano para cá tamente por isso, alguns donos não foi tão sentido em relação ao ção Minha Casa, Minha Vida, cude construtoras acabam inter- emprego. Na prática foram des- jas inscrições começaram no dia 4 rompendo obras iniciadas por ligados somente aqueles menos de maio, é uma iniciativa do Gotempo indeterminado e raramente qualificados, que só tinham con- verno Federal, em parceria com arriscam em algum novo empreen- seguido oportunidade pela escas- estados e municípios, que visa impulsionar a economia e gerar emdimento. Na Islândia, este foi um sez de profissionais”. dos ramos mais abalados, o que Fabio Teles, gerente regional pregos, viabilizando a construção forçou a interrupção imediata da da EBM Incorporações, afirma de um milhão de moradias, sendo maior parte das obras: o cenário que o final de 2008 (comparado 80 mil na Bahia. Dessa forma, o da região de Reykjavík (que con- com o final de 2007) apresentou Governo vem afirmando que os centra mais de sessenta por cento uma queda de 30% nas vendas. recursos do PAC não serão reduda população do país) acabou se Todo o ano de 2008, no entanto, zidos e por essas “bandas” a crise transformando em um cemité- registrou o dobro de vendas do não passará de uma marolinha. rio de guindastes, como conta o ano anterior. Segundo ele, o prinbrasileiro Pedro Ziviani, dono do cipal problema do setor é a crise *Verena Paranhos fez intercâmbio na blog Vida na Islândia [www.vidan- de confiança por parte dos clien- Islândia entre 2005 e 2006. Viveu em aislandia.com]. “O setor de cons- tes que deixaram de comprar, ape- Sauðárkrókur, norte da ilha.


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CULTURA

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Música sem informação

Falta de clareza e informação ainda dificultam a arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil Acervo JF

Giácomo Degani Victor Soares

A

ssim como a propriedade privada, a obra intelectual também é protegida pela legislação brasileira. Isso quer dizer que os que a produzem têm o direito de receber dinheiro quando as suas obras são executadas publicamente. No entanto, quando o assunto é direito autoral no Brasil, reina uma enorme polêmica. “Não acordamos para a questão do direito autoral”, afirma o advogado especialista no assunto, Rodrigo Moraes. De um lado está o escritório de arrecadação; do outro, os usuários que devem pagar os direitos. Em meio a toda essa controvérsia está o músico e o compositor. O direito autoral está previsto na Lei 9610, criada em 1998, que beneficia autores, intérpretes e co-autores. As obras não-materiais mais executadas são as músicas, por isso existe um órgão no Brasil responsável somente pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais relacionados a fonogramas e obras litero-musicais. Tratase do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), uma associação civil que não possui fins lucrativos. Nacionalmente, dez associações representam os músicos perante o Ecad. Elas possuem o cadastro dos compositores e intérpretes e são responsáveis pela intermediação da relação deles com o Escritório Central. Arrecadação e Distribuição A lei diz que músicas registradas não podem ser executadas livremente em lugares públicos, como ressalta o advogado do Ecad - BA, Ruyberg Valença: “Sempre que houver execução pública de obras musicais, o usuário está obrigado por lei a obter a prévia e expressa autorização do Ecad”.

Ruyberg Valença: “o que queremos é reconhecimento do sentido da norma”

Uma das discussões entre o órgão que representa os músicos e os usuários de suas obras é sobre o conceito de execução pública. “Esse conceito é que precisa ficar muito bem definido para que as pessoas entendam o sentido da lei”, declara Valença. No entanto, a lei é clara quando afirma que a reprodução musical dentro do recinto familiar não é passível de cobrança. Quem deve pagar direito autoral são os produtores de festa, além dos donos de hotéis, motéis, bares, casas de show, rádios e emissoras de televisão, que utilizam da música para prestar serviço aos seus clientes. As tarifas cobradas variam de acordo com as normas do Ecad. Elas foram definidas, segundo o es-

critório, juntamente com as associações e os músicos. O regulamento prevê formas de pagamento diferenciadas conforme a utilização da obra. Existem os “clientes mensalistas”, como as clínicas e escritórios. Eles devem pagar uma taxa mensal para que possam utilizar as músicas. Essa taxa é definida considerando-se alguns critérios, como a área sonorizada. Os produtores de shows são obrigados a pagar 10% da previsão de vendas da bilheteria. Segundo Fábio Cunha, supervisor do Ecad-Ba, “os promotores de festa costumam reclamar muito dessa porcentagem. Ele ainda observa que o escritório procura negociar para não cometer abusos”.

Para Débora Cheyne, presidente do Sindicato dos Músicos - RJ, há problemas na arrecadação. “Existem poucos critérios na cobrança das taxas feitas pelo Ecad. A participação dos músicos nas assembléias que definem o regulamento é mínima”, declara. Rodrigo Moraes, Mestre em Direito Privado e Econômico pela UFBA e pesquisador na área da “Propriedade Intelectual”, diverge da idéia de Cheyne. Para ele, a cobrança do Ecad é feita de forma proporcional à utilização das músicas, levandose em consideração, por exemplo, a área sonorizada e a quantidade de músicas tocadas nas festas. A finalidade da legislação brasileira e da existência do Ecad é garantir todos os direitos da obra ao autor. No caso dos compositores, a distribuição do que foi arrecadado pelo Escritório Central só pode ser feita se eles estiverem cadastrados em uma das dez associações espalhadas pelos Brasil. Entre elas estão a UBC (União Brasileira de Compositores) e a ABRAMUS (Associação Brasileira de Música). A primeira é responsável, inclusive, pela a arrecadação dos direitos de músicos internacionais. Por ser o órgão que centraliza as ações, o Ecad é responsável pelo recolhimento e distribuição dos valores em todo país, representando, assim, os milhares de artistas filiados às associações. A instituição conta com 23 unidades espalhadas pelo Brasil, 800 funcionários e 70 escritórios de advocacia. De todo o dinheiro arrecadado com a execução pública, 75% são destinados aos titulares (autores, intérpretes, músicos e editores), 18% pagam as taxas administrativas do Ecad e 7% ficam com as associações. Não há um consenso quanto à distribuição do dinheiro. Para Débora Cheyne, “os métodos utilizados são obscuros e o órgão não tem interesse em transparência.” O composi-


CULTURA

tor e intérprete baiano, Luiz Caldas, pensa diferente: “A má informação é a grande inimiga da nossa classe. Muitos falam mal do Ecad sem saber ao certo como as coisas funcionam”, declara. O “pai do axé” fez questão de ressaltar que já criticou o órgão, mas resolveu estudá-lo e, hoje, entende melhor seu funcionamento. “Tem gente que acusa o Ecad e não está nem filiado a uma associação, as pessoas deveriam ler mais”, afirma Caldas. Carnaval da Bahia A festa momesca é alvo de uma fiscalização mais acirrada com relação aos direitos autorais. Para facilitála, existe um equipamento que grava as músicas tocadas nos trios elétricos, além de que as bandas são instruídas a enviar, previamente, o repertório que será executado. Segundo Luiz Caldas, “ainda há uma escassez de equipamento e de fiscais para cobrir toda a amplitude da festa.” A cobrança feita no carnaval tenta se adequar à realidade da festa. O regulamento determina que 5% do valor das vendas de abadás de blocos particulares sejam repassados para o Ecad, mas o escritório diminuiu a arrecadação para 12 abadás por dia, porque assim todos os blocos possuem condições de pagar. Os trios independentes, que são financiados pela prefeitura, devem pagar 10% do valor dos contratos estabelecidos entre os músicos e os órgãos públicos. Esse critério é o mesmo utilizado no interior do estado, em micaretas e festas juninas. Os inadimplentes Segundo o Ecad, o número de maus pagadores é maior entre as prefeituras. Municípios como Paulo Afonso, Camaçari, Salvador e Jacobina, entre outros, possuem dívidas por não pagarem direito autoral nas festas que promovem. Os prefeitos alegam que por não lucrarem com a festa, não deveriam ser cobrados. Fábio Cunha (Ecad-BA) esclarece a situação. “Há uma confusão por parte dos prefeitos. Existe um ganho

indireto com as festas. Além disso, o autor deve receber pela execução pública, independente dela gerar lucro, ou não”. Quando uma festa não possui autorização prévia do Ecad, os advogados do órgão entram com um pedido de liminar para suspender ou interromper o evento. Caso o juiz atenda ao pedido, a festa fica impedida de ocorrer até que haja a autorização do órgão. A lentidão da justiça para resolver essas causas é explicada pelo advogado Rodrigo Moraes: “Poucos juízes possuem conhecimento sobre a matéria. Isso dificulta o julgamento dos processos, pois os magistrados são obrigados a estudar o assunto para tomar uma decisão”. As decisões dos juízes e tribunais da Bahia costumam ser positivas para os autores de obras. Segundo Ruyberg Valença, cerca 90% do judiciário baiano reconhece a necessidade de combater a execução ilícita. “Os juízes que não concordam argumentam que a suspensão do evento pode gerar problemas na relação produtor-cliente, mas esse pensamento não procede, porque o autor precisa do dinheiro”, afirma Valença. A questão do Estado Hoje o Ecad não possui nenhuma espécie de supervisão do Estado, mas nem sempre foi assim. Quando esse órgão foi criado, em 1973, havia uma participação do governo em suas atividades. O órgão responsável por isso era o CNDA (Conselho Nacional dos Direitos Autorais), que estava ligado ao Ministério da Cultura. O afastamento do Estado ocorreu durante a gestão de Fernando Collor e, desde então, o Ecad atua sozinho e sem nenhuma fiscalização. Débora Cheyne contesta essa exclusividade sobre os direitos autorais: “Como pode um órgão privado cuidar sozinho do direito público?”. Nesse aspecto, surgem tentativas de aumentar o diálogo entre o governo e o Ecad. O ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, iniciou a ampliação das conversações, que continu-

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Acervo JF

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Tim Rescala: “Ele [o Ecad] engana muita gente dizendo que é bonzinho, mas a mim não enganam não”

am com o ministro Juca Ferreira. O atual ministro afirma que “a posição do MinC é a de reforçar os direitos dos autores de obras intelectuais, estabelecendo o controle público sobre o sistema de arrecadação.” Ele ainda considera que a atual legislação erra quando não define a participação do Governo para fiscalizar a arrecadação e distribuição deste tributo. Segundo Juca Ferreira, essa omissão do Governo é responsável pela maioria das queixas que chegam ao Ministério. Resolver o problema: é possível? As dificuldades de relacionamento entre músicos e associações não é de hoje. Parte dos profissionais não confia na atividade exercida pelo Ecad. “Ele [o Ecad] engana muita gente dizendo que é bonzinho, mas a mim não enganam não.”, é o que afirma o compositor Tim Rescala, que já publicou artigos criticando a forma

como o Escritório Central age. Por outro lado, Luiz Caldas pensa que o problema não está somente no Escritório, que tenta realizar o seu trabalho, mas na falta de união dos músicos, que não se unem para resolver os problemas. A importância de um órgão como Ecad para a classe dos músicos é indiscutível. O que precisa ficar claro é quais são os verdadeiros direitos do autor e os critérios utilizados para arrecadar e distribuir os valores. De acordo com músicos e produtores, a questão dos direitos autorais precisa de mais transparência, para que o intelectual brasileiro seja definitivamente reconhecido pelo seu trabalho. Ruyberg Valença, advogado do Ecad na Bahia, afirma que o objetivo é um só: “o que queremos é reconhecimento do sentido da norma para que se respeitem os autores de obras musicais.”


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PIMENTA

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Dalila na Universidade Acabou o carnaval e a música de Ivete Sangalo ficou na boca do povo. Os estudantes da UFBA decidiram utilizar o momento para fazer uma campanha. A ideia é ir “buscar Dalila ligeiro” para cortar o exótico cabelo do reitor. Quem sabe, assim, os projetos da universidade andariam mais rápidos.

Um erro caro e notável O português da produtora do show de ViCtor e Léo em Salvador não é tão “notável” assim. Os primeiros outdoors da festa exibiam o nome de um dos cantores escrito errado. Tiraram o “C” do ViCtor. O fato é que alguém percebeu o erro e, alguns dias depois, todos os outdoors foram trocados. Nunca um “C” deve ter custado tão caro.

Passa e não devolva!

Alzheimer balzaquiano Rosana Jatobá, a garota do tempo do Jornal Nacional, que não é mais tão garota assim, declarou em entrevista publicada na Revista da TV, do A Tarde, que teve grandes mestres na Facom. Destes, só o nome de Wilson Gomes permaneceu bem guardado em sua memória. Parece que a jornalista está ficando esclerosada, mesmo com apenas 38 anos. Os professores que ela afirmou ter foram Elias Araújo, Ailton Sampaio e Heloísa Rocha. Ou nunca existiram, ou tiveram os nomes trocados.

A Princesinha do Sertão continua com essa brincadeira mesmo depois de velha. Em busca de respostas para uma matéria do Jornal da Facom, foi preciso entrar em contato com a Prefeitura de Feira de Santana. Uma tarefa extremamente complicada. Foi um passa ligação de cá, um “não é comigo” de lá, outro repassa aculá e etc. Fim das contas: conversei com todas as secretarias do castelo e nada foi resolvido. O mais incrível e cômico, para não dizer trágico, é que a pessoa que atendeu ao telefone por último foi a mesma que atendeu primeiro. Seria uma assessoria de imprensa boomerang? Ou talvez uma assessoria lulista, porque ninguém sabe de nada. Prometeram respostas para a reportagem. A Princesinha vai ficar velha e a gente esperando retorno. Vida de estudante de jornalismo não é fácil.

Os rumos insólitos da política baiana As eleições para as prefeituras em 2008 foram, na verdade, um grande pontapé para os projetos políticos de 2010 na Bahia. A expectativa fica em saber até onde o “gedelismo” vai conseguir chegar. Há quem diga que o ministro será candidato a senador, governador, ou até vice-presidente. Já o ‘pequeno príncipe’, que gerencia o ‘mini-carlismo’, anda declarando por ai que tem um candidato a governador que é do seu coração – referindo-se à Paulo Souto. Mas, o netinho não descarta a possibilidade de fazer alianças. No lado esquerdo as coisas parecem estar defasadas. Jaques Wagner será candidato à reeleição e ainda não sabe quem vai apoiálo. São muitos coronéis para poucas terras. E o povo? Fica torcendo para eleger o menos pior.

O incêndio do bem

Os olhos e ouvidos do reitor Durante a visita de Naomar Almeida Filho ao Instituto de Química, uma figura soturna chamou a atenção: sempre atento a qualquer conversa, infiltrava-se para saber tudo que se passava. Apelidado prontamente de “Coringa”, o assessor de imprensa do reitor parecia estar com os olhos e ouvidos bem cuidados, mas precisa urgentemente de aparelho: queixo protuberante e uma irresistível língua presa.

Trios de CUT’s e coisas Não é bom dizer que o povo baiano só toca berimbau porque só tem uma corda. Não dá certo e gera polêmica. Mas venhamos e convenhamos que os soteropolitanos não colaboram para amenizar os sórdidos comentários a seu respeito. Só aqui, em Salvador, são vistos trio elétricos, de CUT’s e coisas, desfilando ao som de uma “barata” batidinha de samba, em plena tarde de sexta-feira, no Campo Grande, com carros e ônibus se movimentando a todo vapor. Quem tiver compromisso que se dane. Viva ao batuque baiano, e atire a primeira pedra quem não gosta.

Em sua visita ao Instituto de Química da UFBA, o Ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula, Sérgio Rezende, declarou que os recursos serão liberados para a recuperação do Instituto. Depois dessa afirmação, muitos alunos de outros cursos estão bolando planos infalíveis para incendiar suas unidades. A ideia de “fazer as fogueiras” é para que todos os cursos possam ter uma estrutura melhor. È bom que os bombeiros comecem a se preparar!

Editor: Mané Jacobina

Quem não se comunica se trumbica

Quem entrar na Faculdade de Comunicação achando que vai se comunicar está muito enganado. Os produtos-laboratórios da faculdade precisam passar pelo crivo dos doutores e doutoráveis. Se não tiver análise cultural e contemporânea não vale. Se não levantar bandeiras contra a massificação de tudo, também não. O problema é que ir à França, hoje em dia, é tão blasé quanto ultrapassado. A moda agora é morte na televisão. Todo mundo quer ver as coisas por uma atenta LUPA. Gracias!


FACONISTAS

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Datashow: muleta da ignorância André Setaro

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excessivo uso do datashow (espécie de retroprojetor da imagem do computador) em seminários, mesas redondas, e, principalmente, na apresentação dos TCC - Trabalhos de Conclusão do Curso), nome esquisito que veio a substituir o sensato Projeto Experimental, está a se constituir num recurso para esconder a falta de confiança do aluno no que se encontra a apresentar. É claro que o datashow é precioso e valioso quando usado em função de uma melhor explicação do que se está a dizer, a exemplo de um determinado gráfico, de uma determinada imagem, de uma cena de um filme. Acontece, porém, que se o está a usar a torto e a direito. Tenho presenciado várias apresentações nas quais os alunos (e não somente alunos, mas também, professores e palestrantes) proje-

tam alguns parágrafos esquematizados e põem-se simplesmente a lêlos - a projetar, portanto, o que poderia ser dito sem a muleta do datashow. Confesso que o seu uso excessivo me deixa impaciente e, devo dizer, quando o datashow, se, por acaso, estou numa banca, é utilizado sem necessidade, diminuo, de imediato, dois pontos do apresentador. Muleta para esconder o despreparo, a falta de conhecimento, um recurso eficaz para enrolar. Em concursos também poucos são aqueles que confiam na sua voz e na sua competência e prescindem desse retroprojetor de computador. Em todo caso, sempre é bom dizer que o datashow tem sua valia quando serve de suporte a uma de-

monstração, quando aviva o que se está a falar (gráficos, cenas, fotos, etc). Nos demais casos, o datashow, assim é se me parece, é uma muleta de burros esforçados. E o Colegiado, neste sentido, deveria somente autorizar o seu uso quando constatada a sua necessidade. Se, hoje, nunca, na história da humanidade, se teve tanta informação, graças, principalmente, a internet, embora esta, no entanto, seja fator de facilitação para aqueles que não querem estudar e contemplar o objeto do trabalho. A montagem de textos buscados no espaço virtual observada nos trabalhos escolares é um exemplo. O professor, por outro lado, não pode ficar a verificar se o texto de cada trabalho foi copiado da internet - o que é possível se colocado no Google parte dele. Há casos aberrantes nos quais o apresentador se apóia única e exclusivamente nos recursos do

datashow, a colocar um esquema reducionista para desviar a atenção da falta de assunto. Na tela, tem-se projetados até o nome do trabalho, do aluno, como se o trabalho se reduzisse a um pequeno projeto. Mas, até agora, nunca vi ninguém se indignar com o mal uso do aparelhinho. Mas meu objeto de protesto é contra o uso indevido do datashow. Que as pessoas tenham mais consciência de seus papéis de construtores do conhecimento e, quando não for necessário, o hábito de repetir o óbvio ululante, com o auxílio dessa nova engenhoca, que surgiu para enriquecer, vem a transformar sujeitos em papagaios. André Setaro é Mestre em Belas Artes e professor da Facom/UFBA

Sua nota é um Datashow! Maurício Tavares

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ombinei com meu companheiro de página professor Andrézinho S. (S de Setaro, de Sozinho...) escrevermos sobre Datashow nesta edição do JF. Eu e ele, ou ele e eu, temos uma forte implicância com o uso da mais recente e famosa muleta pedagógica. Quase sempre ela é usada por aquele professor inseguro que escreve, ou copia, sua aula e depois simplesmente a lê em voz alta para seus analfabetos aluninhos. Quando vejo esse show me dá vontade de interromper a aula, ou a palestra, e dizer “Querida, eu sei ler!” O Datashow é apenas um projetor que permite o uso dos recursos multimídias do computador. Se você

tem uma imagem, um vídeo ou um arquivo de áudio ele é muito útil para enriquecer a aula. Mas se ele não passa de um monte de slides sem graça, com textículos insossos, give me a break! O pior de tudo é que mesmo o uso de recursos multimídias em mãos erradas pode ser desastroso. Parece que a forma substitui o conteúdo. Ao colaborar nas aulas da pós-graduação de uma professora me deparei com uma situação bastante inusitada.Uma bolsista da professora sacou do Datashow e de alguma empáfia pra mostrar sua pesquisa e eu fiquei perplexo. Além do texto ser cheio de erros de português (concordância, ortografia) e

o que mais me chocou foi a aluna usar um filme de baixa qualidade em cores porque, segundo ela, se usasse o filme na versão em preto e branco (um clássico de ótima qualidade) os alunos não se interessariam. O bizarro da história é que ela analisava a releitura de uma peça de teatro feita por um sitcom televisiviso mas o filme que ela exibiu tinha sido produzido depois que o episódio da série tinha sido apresentado na TV. Foi a primeira vez na vida que vi uma releitura inspirada em uma leitura posterior. Vocês entenderam? Também não. Reconheço que a ferramenta tem seus usos positivos. Organizar a aula, por exemplo. Por ser mui-

to multíplice (ver Ítalo Calvino) acabo introduzindo na aula muitos assuntos e gerando uma certa dispersão no nível de atenção dos alunos (que , diga-se de passagem, já não é muito alto). Uma aluna, com excesso de fofura, chegou a aventar a possibilidade de eu ter DDA (déficit de atenção). Pode ser. Mas acho que tenho mesmo é déficit na conta bancária. De qualquer forma vou começar a usar Datashow. Dá menos trabalho. É só repetir o que está na tela. Maurício Tavares é Doutor em Comunicação e professor da Facom/UFBA


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OUTROS OLHARES

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Sorria, você vai para a Bahia

Ana Margarida Almeia

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á conhecia um pouco do Brasil, como os turistas comuns, aqueles que se emocionam com as imagens da novela das oito (que passa em Portugal) e passam o dia entre o hotel e a praia, cheios de bronzeador para ficarem more-

nos rápido. O tipo de turistas que fazem city-tour pela cidade e parecem chineses a tirar fotos para mostrar depois aos amigos e dizer que conheceram tudo da cidade. Não é verdade. O turista comum pode até emocionar-se com as cores e a gente do país, mas não vive o suficiente para se apaixonar e aprender os detalhes. Conhece a sensação de um mergulho no mar em dia de calor, mas não conhece o calor dentro de um ônibus cheio de gente. Quando cheguei, percebi que não são só os turistas que vivem assim. As pessoas com mais dinheiro passam os dias entre o condomínio onde moram, uma miniatura das cidades dos contos de fadas, o trabalho (onde são le-

vadas pelos motoristas) e o fim de semana num complexo turístico ou no shopping aos domingos. Ainda não sei bem a quem se estava a referir Daniela Mercury quando cantou “[...] eu vou andando a pé pela cidade, bonita [...]. Eu vim parar aqui por acaso e sorte. É tudo muito intenso e muito vivo, o bom e o mau. A maior parte das pessoas são muito amáveis. Mais pragmáticas e mais mexidas e, ao mesmo tempo, mais leves. Outras parecem que nos querem sugar até nos levarem a essência, inclusive a que trazemos na carteira, também, mas não é dessa que estou a falar. Se te dizem o nome de uma rua que não conheces, exigem dinheiro. É a isso que me custa mais adaptar. A linha entre a segurança

e a indiferença é muito tênue e fácil de ultrapassar. Há demasiada indiferença. A parte do “sorria, você vai pra Bahia” só funciona se nos misturarmos uns aos outros, se formos todos um só, o que não quer dizer que temos de dançar com todos os negros sarados que aparecem à noite no Pelourinho ou falar com o sotaque do Ricardo Pereira em “Negócio da China”. Saudade é a palavra mais bonita de Portugal, de sentir falta e bem querer. Aqui a saudade é mais ritmada, tem mais sentidos, como se fosse uma música, mais próxima do axé que do fado. Ana Margarida Almeia é estudante portuguesa em intercâmbio na Facom/UFBA

Impressões da Chegada

Maitane Anitua Roa

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ser humano só dispõe de uma única vida. Com meus 25 anos, estou decidida a seguir meus impulsos e acho que aqueles que não os seguem são forçadamente infelizes. Um desses impulsos foi sair da minha terra para encontrar-me com novas realida-

des e enriquecer-me. O cheiro dos aeroportos sempre me dava a sensação de aventura com resultados terapêuticos e decidi tomar uma dose a mais. E assim meus pés levaram-me a uma estrelada noite no Pelourinho, onde “traka-trakatraka” da mala sonorizava vozes, miados e gritos que soavam distintos. “Medo?”. Não, só cansaço e calor. Sou gringa, reconheço, mas isso não impede que me sinta em casa, do outro lado do charco. Risos, choros e música aqui têm outro som, mas não deixam de ser isso: risos, choros e música, coisas de humanos, daqui e dali. Venho de um país que pequeno que tem sua luta, seu sonho. Acho que não somos tão diferentes, apenas vivemos longe e, talvez, um pouco esquecidos.

Não me esqueço de onde venho, onde estou e aonde vou. Venho do País Basco, estou em Salvador e irei aonde me leve o destino. Nestes momentos, pensar me dói e parece-me demasiado complicado explicá-lo “a la voz de pronto”. Farei apenas uma anotação: espero o dia em que nos livros de estilo se chame terrorismo aquilo que causa terror e democracia as decisões dos povos livres; o dia em que se diga que defender os governos atuais é apologia e colaboração e o dia em que se fizer jornalismo na mídia teremos dado um grande passo. O destino é incerto e não há mais que sobressaltos. Tenho tomada a decisão de não me torturar pensando nele enquanto estou aqui. Não devemos ficar parados e essa é outra das razões

para tentar centrar-me onde estou. Nesta cidade e nesta escola em que me sinto verdadeiramente afortunada por ter chegado. Ainda é cedo para se fazer uma idéia delas. Todas as cidades têm sua própria história e também uma história alheia, pessoal e múltipla, escrita por aqueles que a levam num resquício da memória. Essas são as histórias que eu tento encontrar, e não aquelas escritas pelos mesmos de sempre, às quais estamos muito mal acostumados. Sou nova em Salvador e ainda estou calada, formando a história que gostaria de conhecer em minha estadia. O bom se faz ao esperar. Maitane Anitua Roa é estudante Basca em intercâmbio na FACOM/ UFBA

Jornal da Facom nº20  

Jornal Laboratório desenvolvido pelos alunos da Faculdade de Comunicação da UFBA.

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