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Confira entrevista exclusiva com o diretor de redação dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, Josemar Gimenez Página 3

Veja a cobetura do último dia da 6ª edição do Festival de Jazz da Savassi, em Belo Horizonte Página 10

JORNAL LABORÁTORIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

nº9 ANO 3 - 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

contramão Entregue às infiltrações e fissuras, prédio que abriga o Mercado Novo, no centro de Belo Horizonte, aguarda projeto de revitalização e reforma Página 4

NADA DE NOVO NO MERCADO


2 contramão

Editorial

Fotos da capa

Ana Paula P. Sandim Josemar Gimenez e Festival de Jazz

EXPEDIENTE

CONTRAMÃO Jornal laboratório do curso de Jornalismo Multimídia da Faculdade de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira Vice-reitor: Átila Simões Pró-reitor de graduação: Prof. Johann Amaral Lunkes Pró-reitor de pós-graduação: Ricardo Viana Carvalho de Paiva Diretor da FCA: Prof. Silvério Otávio Marinho Bacelar Dias Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Joana Ziller Contramão - Tel: (31) 3224-2950 - contramao.una.br Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489) e Pedro Coutinho Projeto gráfico original: Bruno Martinez, Bruno Teodoro, Guilherme Brandão, Fabrício Costa e Renata Coutinho Diagramação: Áurea Maíra Costa Estagiários: Ana Paula P. Sandim, Áurea Maíra Costa, Felipe Rezende, Hélio Monteiro, Juliane Schlosser, Mara Rodrigues, Matheus de Azevedo e Natália Oliveira Tiragem: 2.000 exemplares Impressão: Sempre Editora Blog Encarnação do Demônio

Chega às suas mãos uma edição do nosso jornal laboratório inteiramente reformulada em seu aspecto gráfico. O Contramão, hoje, investe em um projeto que preconiza uma interface mais próxima de uma revista e mais atenta para as múltiplas possibilidades que o veículo impresso tem de se reinventar e de se reafirmar, enquanto mídia, no cenário contemporâneo. A equipe do Contramão começou a repensar o projeto gráfico do jornal há um ano. Duas reuniões, abertas aos alunos do curso de Jornalismo, foram realizadas com o intuito de debater essa reformulação. Alguns resultados desses encontros começaram a ser evidenciados nas edições 6, 7 e 8 do jornal, dentre eles: a mudança da marca, as editorias do jornal reunidas em um único caderno com numeração sequencial, o ecletismo e características visuais que evidenciassem um diálogo com a abordagem multimídia adotada pelo curso do UNA. Nesse ínterim, cumpre ressaltar a contribuição dos alunos do curso de Design Gráfico da Unatec, que, sob a orientação da professora Dunya Azevedo, desenvolveram, como forma de trabalho acadêmico, propostas gráficas para o Contramão. A escolhida foi assinada pelos alunos Bruno Martinez, Bruno Teodoro, Guilherme Brandão, Fabrício Costa e Renata Coutinho. A eles os nossos agradecimentos e felicitações pela formatura ocorrida em 20 de setembro de 2009. Nesta edição de número 9, em doze páginas, destacamos: a maratona enfrentada pelos moradores das cidades do interior do estado para terem acesso às consultas e aos tratamentos médicos em BH; um hospital peculiar onde os pacientes são brinquedos antigos; o abandono do 3º andar do Mercado Novo, no “centrão” da capital; os sebos de onde emergem a figura do alfarrabista e suas histórias; o poeta das ruas; o crossbooking; o jazz, e a entrevista exclusiva com o diretor de redação dos jornais Estado de Minas e Correiro Braziliense, Josemar Gimenez. Agora, convidamos você a iniciar sua leitura por uma viagem ao universo de Zé do Caixão.

Felipe Rezende Corredor do Mercado Novo.

Crítica de cinema

Zé do Caixão e seu estranho mundo Por Rodrigo Daher*

Volta e meia me deparo com alguém dizendo que cinema brasileiro se resume a filmes sobre favela ou road-movies sobre o sertão. Quando escuto isso, penso, imediatamente, numa figura que todos conhecem e desconhecem: José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Não é novidade que ele é um homem fúnebre, vestido de preto dos pés à cabeça e dono de longas unhas. O que, talvez, seja novidade é que o homem por trás das unhas é um grande exemplo da diversidade cinematográfica. Lançado em 1964, À meia-noite levarei sua alma tornou a personagem Zé do Caixão um ícone do gênero terror. Mais que isso: representou a audácia de um cineasta visionário e apaixonado por um gênero, até então, ignorado no cinema nacional. Se hoje temos pérolas do terror, como o curta-metragem Amor só de mãe, devemos agradecer ao senhor Mojica e seu “estranho mundo” por desbravar o território com tamanha paixão e precisão. Seu À meia-noite levarei sua alma conduz o espectador a um pesadelo dos mais sombrios, regido pelo coveiro ateu Zé do Caixão cuja postura desafia os dogmas da Igreja Católica. Zé debocha de Deus e não mede esforços para encontrar a mulher ideal que vai gerar seu herdeiro – cometer atos de sadismo ao longo do percurso não é uma necessidade, e sim um prazer incomensurável. O brilhantismo de Mojica não se deteve no ato de produzir um filme de terror num cenário, politicamente, perigoso. O cineasta conseguiu em sua trajetória consolidar a personagem Zé do Caixão como um dos “monstros” que habitam o imaginário popular. Ele não é uma variação de Drácula ou Frankenstein; não reside em um povoado coberto de neve, no alto de um castelo nos confins do mundo. Zé do Caixão é brasileiro e dono de uma funerária. Num país, majoritariamente, católico, a existência dessa figura é um ato transgressor. O filme Esta noite encarnarei no teu cadáver foi produzido em 1966 e trouxe de volta Zé do Caixão e seu mundo de perversões.

Com um orçamento maior em mãos, Mojica se deleitou em cenas de crueldade entre 200 cobras, 300 aranhas e 1.000 figurantes. Zé do Caixão fez a festa e o open bar era, literalmente, no inferno. Encarnação do demônio encerra a trilogia, foi lançado, recentemente, em DVD e elogiado pela crítica especializada. Mas vale lembrar que a personagem não se restringiu a esses filmes, Zé do Caixão faz aparições ao longo de toda carreira cinematográfica de Mojica (inclusive no filme A quinta dimensão do sexo, censurado pelos militares). A imagem de Zé do Caixão é tão forte que criador e criatura tornaram-se, com o tempo, um só. Em entrevista à revista Veja, André Barcinski e Ivan Finotti, autores da biografia Maldito - A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, comentam o paradoxo que acompanha a carreira do cineasta: “A idéia de escrever a biografia de Mojica surgiu há cerca de cinco anos, quando ele começou a ficar conhecido nos Estados Unidos e Europa como Coffin Joe. Ficamos felizes com seu sucesso no exterior, mas sua aclamação em terras estrangeiras também nos alertou para o revoltante esquecimento que ele experimentava em seu próprio país”. O cineasta Rogério Sganzerla disse uma vez que Mojica realizou o sonho impossível: fazer cinema, a arte mais cara do planeta, num país pobre, sem nunca ter estudado, sem contar com amigos influentes ou favores de quem quer que seja. Glauber Rocha e Luiz Sérgio Person referiam-se ao cineasta como um gênio do cinema brasileiro. No entanto, Mojica é tratado com descaso e sua personagem com deboche. O Brasil tem uma dívida com o Zé do Caixão, o maldito que desceu até o inferno e voltou. Tive a oportunidade de conhecer esse mito que marcou a minha infância com suas risadas e terríveis maldições. O que eu vi não era um velhote decadente, mas um cineasta amante da escuridão que nunca abriu mão da sua forma de pensar e fazer cinema. * Rodrigo é estudante do curso de Cinema e Audiovisual, do Centro Universitário UNA


contramão 3 Foto: Ana Paula Sandim

ENTREVISTA

Em entrevista exclusiva ao Contramão, o diretor de redação dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, Josemar Gimenez, fala sobre seu desapego com o jornal impresso e destaca a importância do estágio e do diploma para a formação profissional. O jornalista conta ainda como a convergência digital modifica a forma de fazer Jornalismo, migrando os leitores do impresso para a internet. “O jornalismo, hoje, está completamente diferente, porém continua em busca de novas alternativas”, afirma. Confira: Jornal Contramão: Qual a função de um diretor de redação? Josemar Gimenez: Coordenar o jornal, dando o tom editorial e promovendo as mudanças que o jornal precisa principalmente no mundo de hoje, onde o jornal impresso passa por diferentes e constantes alterações nos aspectos gráfico e de conteúdo. O diretor de redação também é gestor, lida com as despesas e custos, além de responder legalmente pela publicação. JC: Qual o maior desafio da sua profissão? JG: Acredito que o maior desafio para quem comanda uma redação é o de criar e inovar. Fazer com que o jornal tenha toda a sua batuta e desperte interesse de leitura. JC: E por falar em inovação, o Correio Braziliense foi o primeiro jornal a passar por um processo de convergência digital no Brasil. Quais foram os benefícios dessa mudança? JG: O objetivo principal desse trabalho de convergência é o de adquirir novos leitores e, ao mesmo tempo, migrar os leitores do impresso para a internet. Antes da convergência, nosso leitor estava envelhecido e precisávamos rejuvenecê-lo. Quando você utiliza instrumentos de convergência, um podcast, um vídeo ou um movimento de imagem, você interage com o leitor e atrai outros. Temos a missão de fazer com que o jornal tenha uma vida longa, se perpetue, não fique na berlinda, na encruzilhada sempre.

JC: E o que acontece com o jornal impresso? JG: O jornalismo está estabelecendo novos conceitos. Precisamos lembrar que temos apego ao serviço, apego à notícia, apego ao espírito de fazer jornal e não ao papel, coisa física. Eu não morro de paixão pelo papel. Eu gostaria de acordar com todo mundo lendo o Correio Braziliense e o Estado de Minas na internet. Só que isso não acontece de um dia para o outro. Temos vários exemplos de que essa transição é muito demorada. Os estudantes de Jornalismo, por exemplo, que chegarão no mercado em breve, irão encontrar um novo modelo de jornal. O Jornalismo, hoje, está completamente diferente, porém continua em busca de novas alternativas. Acredito que se nós não mudarmos a forma do jornal impresso e quebrarmos paradigmas, ele pode acabar. Agora, um jornal diferente, de extrema convergência com outras mídias eletrônicas é um caminho viável.

decepção para as escolas e para os estudantes. Porém não vejo muita alteração em curto prazo. No grupo de 150 profissionais sob o meu comando, apenas três não possuem diploma: dois colunistas e a Dad Squarisi, que é editora de opinião. Mas hoje, se chegarem para mim sem diploma, não contrato. Acho que muitas empresas de comunicação também não estão contratando. Esse é o caminho até encontrar uma forma de regulamentar essa coisa chamada profissão. E acho que nesse novo modelo de fazer Jornalismo, modelo digital, modelo da convergência, não tem como não se ter uma preparação para ele. Então vejo isso com muita tranqüilidade, até para quem está entrando no mercado de trabalho, pois não é motivo para se assustar.

“Eu gostaria de acordar com todo mundo lendo o Correio Braziliense e o Estado de Minas na internet”

JC: O que o senhor acha da formação acadêmica no jornalismo? JG: Sempre fui favorável ao diploma e não teria como não ser. Acho até que nós precisaríamos de uma regulamentação, mas o que veio foi uma decisão vertical do Supremo Tribunal Federal que foi uma

JC: Qual o melhor caminho para que o recém formado chegue às redações? JG: O profissional deve estar preparado. Sair da faculdade com uma boa presença nos meios de comunicação é primordial. Porque não adianta você sair da faculdade e depois de quatro anos procurar emprego. Quando lecionava eu sempre falei que isso é muito difícil. A pessoa tem que se preparar para que,no fim do curso, ela chegue com um di-

ploma na mão e diga: “Olha eu tenho três anos de experiência, já passei por determinadas empresas e estou preparada para o mercado”. A faculdade aliada ao estágio é o ideal para que o profissional consiga se inserir nos diversos veículos. Aquele aluno que sai da faculdade e simplesmente não tem uma vivência em algum tipo de plataforma para poder trabalhar, terá muita dificuldade. Essa é a opinião que eu sempre tive e ainda mantenho. JC: Para quem está saindo e quem está entrando na faculdade, o que esperar do mercado agora? JG: Tenho muita preocupação por quem está chegando, hoje, no mercado por questões de indefinição dos meios de comunicação. O momento atual está um pouco complicado. Eu tenho uma filha que está começando a trabalhar com Jornalismo também e este é o momento mais difícil para se chegar nesse mercado. Os jornais estão numa situação financeira difícil, estão descapitalizados e desmotivados. Em reuniões com os diretores isso fica bem nítido. Mas para os que estão entrando nas faculdades é bom, pois daqui a três anos os meios de comunicação terão saído dessa encruzilhada e teremos um horizonte mais aberto para trabalhar. Com relação ao diploma não tenho preocupação, porque acho que as empresas sérias continuarão trabalhando com quem tem diploma. Por Áurea Maíra Costa e Hélio Monteiro


4 contramão Foto: Felipe Rezende

MERCADO

CIDADE

CLAMA POR REVITALIZAÇÃO

NOVO

Apesar das audiências públicas, a situação do prédio ainda é precária e o seu destino está indefinido Por Márcia Collares

de aproximadamente 70% das lojas. “Não conseguimos alugar as lojas do terceiro andar, porque estão com muitas infiltrações. A prefeitura é dona do quarto andar, mas não resolve esses danos estruturais. Para termos dinheiro para investir no terceiro [andar], precisamos alugar suas lojas e, antes disso, a prefeitura precisa fazer obras no piso superior. Na situação atual, não conseguimos sair do círculo vicioso e o orçamento vai ficando cada vez mais deficitário, mês a mês, ano a ano”, lamenta. Inicialmente, procurávamos a Loja Grátis, uma iniciativa que teve repercussão nacional. As pessoas levavam algo que não usassem mais e trocavam pelo que lhes parecesse útil. A loja também fica no terceiro andar e os comerciantes dizem que, ultimamente, vem funcionando pouco. Gabriel emprestou a loja com a condição de que, se conseguisse alugá-la, fosse desocupada. As portas estavam baixadas, mas as pessoas com quem conversamos disseram que poderíamos abrir. Ficamos com um pouco de receio com o que nos depararíamos, mas abrimos a porta. Encontramos peças de roupas, bijuterias, discos de vinil e livros. O primeiro e o segundo andares do Mercado Novo têm uma variedade de serviços que vão de lojas de instrumentos musicais a bares. O segundo

e o terceiro andares seriam de feira livre, mas nunca funcionaram como tal. Balcões e pias que nunca foram utilizados fazem parte do cenário de abandono. Sobre a revitalização do Mercado Novo, o vereador Hugo Tomé comentou no site da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH): “Já são quatro anos de debates e luta pela revitalização desse espaço. Esperamos, agora, que a nova administração municipal tenha a sensibilidade necessária e enxergue a importância e a grandeza do Mercado Novo para nossa capital. Esse espaço gera três mil empregos diretos e indiretos, além de ser uma área de pólo gráfico e de abastecimento da cidade, entre outras atividades”. Em junho deste ano, houve audiência pública para debater a situação dos alvarás de localização e funcionamento das lojas do Mercado Novo,

assim como a destinação da área de propriedade pública no local. De acordo com o site da CMBH, o assessor especial da Prefeitura, Ricardo Pires, declara que tentará fazer um meio termo entre as secretarias de Regulação Urbana e Meio Ambiente, de forma a resolver os problemas físicos e políticos que atrapalham o processo de autorização para os comerciantes. Confirma, também, que a área existente no quarto andar do Mercado pertence mesmo ao Executivo. “Iremos repassar todas as demandas ao prefeito Marcio Lacerda para que as medidas cabíveis sejam aplicadas de maneira mais rápida e eficaz. Os espaços vazios que se encontram no prédio não geram renda e estão com a estrutura comprometida, tendo de passar por uma boa reforma, assim como parte elétrica, pintura, dentre outros”, afirma Pires. Foto: Felipe Rezende

Parecia um filme de suspense: goteiras na escada rolante paralizada, paredes acinzentadas e cheias de infiltração, poças d’água, poucas lojas funcionando, ambiente mal iluminado. Esse é o cenário do terceiro andar do Mercado Novo (foto acima). Planejado para substituir o Mercado Central de Belo Horizonte, começou a ser construído em 1962 no quarteirão formado pela avenida Olegário Maciel e as ruas Goitacazes, Tupis e Rio Grande do Sul. O projeto era arrojado para a época, mas com a sucessão de prefeitos, a obra foi sendo abandonada e, até hoje, está inacabada. Sem o “Habitese “ e com muitas irregularidades, o prédio está repleto de fissuras e vazamentos. Um senhor, dono de uma serralheria, quis vir falar conosco. É serralheiro, há doze anos, e diz não conseguir trabalhar agora porque não tem como pagar a conta de luz. Seu hálito etílico já denunciava o que os goles numa garrafinha escondida em um saco de papel comprovaram. A moça da loja de clichês conta que de uns tempos para cá ele se entregou a essa situação. Ele pede para ser fotografado e para divulgarmos sua loja. Esse pedido de socorro combina com a situação de todo aquele andar e do piso superior. Gabriel Filho é superintendente do mercado e trabalha em uma firma que é dona


contramão 5 Foto: Hélio Monteiro

A quilômetros de distância

SAÚDE

A quilômetros de distância

Moradores do interior compensam horas de desconforto com tratamento médico na capital

Consultas No município de Várzea da Palma, Norte de Minas, o programa é bastante procurado. Tanto que os 26 lugares do microônibus estão sempre ocupados. “Algumas vagas já

estão reservadas para pacientes de casos mais urgentes e as restantes são preenchidas rapidamente no decorrer da semana”, explica a funcionária da Secretaria Municipal de Saúde, Gilleide Ribeiro. Por meio do TFD, a dona de casa Maria Aparecida dos Santos, 33 anos, terminou seu tratamento hormonal. As viagens entre BH e Almenara duraram dez meses. “Sem essa ajuda eu não conseguiria me tratar”, afirma, “na minha cidade não tem endocrinologista e eu também não tenho condições de pagar pela passagem”.

Viagem Geralmente, os microônibus vindos do interior chegam por volta das 6h e partem às 17h. Entretanto, mesmo com o tempo cronometrado, há quem desfrute um pouco de Belo Horizonte quando surge um momento livre. Alguns passam o tempo em shoppings, conhecem novos restaurantes ou visitam os parentes. “Além das minhas consultas, aproveito a viagem para ver minha filha que mora aqui”, diz a aposentada Elizabeth Lima, da cidade de Turmalina. Para manter a ordem e gerenciar tantas pessoas,

as secretarias dos municípios marcam as primeiras consultas a partir das 7h e as últimas até às 16h. No fim da tarde, seja no Terminal JK ou na Praça Hugo Werneck, todos os pacientes se reúnem para voltar para casa. Porém, imprevistos acontecem. Muitos pacientes aproveitam a estada em BH para fazer várias consultas em um dia só. A ex-assessora da Secretaria de Saúde, Meire Waldolato, conta que cerca de vinte pacientes de Várzea da Palma ficaram para trás porque se atrasaram para o embarque. Se perder pelas ruas não é uma tarefa difícil para quem chega à capital pela primeira vez, pois existem pacientes que nunca saíram de sua cidade. Foi o que aconteceu com o pedreiro Sidney José da Costa, 38. “Às vezes a gente erra o cami-

nho, por isso saio muitas horas antes para chegar ao hospital”, diz.   É hora de ir embora. Aos poucos, os pacientes chegam carregando malas, sacolas e caixas. Enquanto o ônibus não vem, conversas sobre o dia são travadas, os últimos detalhes são arrumados e a alegria de poder voltar para casa se torna um sentimento comum. Dentre tantos rostos contentes, José Maria das Costas se entristece na despedida de seus conterrâneos. O morador de Pedras Maria das Cruzes terá de ficar mais uma semana na casa da cunhada, em Belo Horizonte, para terminar seus exames. “Estou cansado da capital, gosto mesmo é das coisas do interior”, desabafa.    Por Ana Lúcia Figueiredo e Hélio Monteiro

Foto e arte: Hélio Monteiro

Longas horas de viagem, noites maldormidas e muita espera. A rotina de pacientes do interior do estado que chegam à capital em busca de tratamento médico, é desafiadora. Além de enfrentar percursos que podem durar até 13 horas, eles ainda resistem quase o dia todo com a mesma roupa e sem local apropriado para descanso. A iniciativa de trazer pacientes do interior a locais com mais recursos, começou em fevereiro de 1999 com o lançamento do Programa Tratamento Fora de Domicílio (TFD), do SUS, destinado às pessoas que necessitam de tratamento especializado dificilmente encontrado em suas cidades de origem. Por meio do programa, os pacientes têm acesso a consultas e tratamentos ambulatorial, hospitalar e cirúrgico, previamente, agendados. As prefeituras ajudam no transporte e, em casos de pessoas mais carentes, oferecem auxílio financeiro para custear a alimentação e a estadia em outros municípios. Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte mostram que 688 municípios de Minas Gerais participam do programa. De janeiro a agosto de 2009, foram autorizadas 11.572 cirurgias para pacientes do interior, sendo 10.882 de média complexidade e 690 cirurgias de alta complexidade.


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Viagem da leitura Imagine-se em um dia qualquer da semana caminhando pela cidade. Você para em uma praça e resolve se sentar em um banco, mas percebe que ele não está vago: há um livro aparentemente abandonado ali. Se ele tiver duas etiquetas com instruções do que fazer, não precisa sair procurando o dono. Você acaba de ser fisgado pelo crossbooking. O crossbooking é uma espécie de movimento cultural cujo objetivo é abandonar livros por aí para serem encontrados, lidos e novamente abandonados por outras pessoas. É como se fosse um empréstimo, em que você fica com o livro o tempo que for necessário; só não vale tirá-lo do caminho e encerrar sua viagem. A idéia surgiu nos Estados Unidos, em março de 2001. Ron Hornbaker e sua esposa visitavam sites americanos sobre movimentos que incentivavam o cadastro e abandono de máquinas fotográficas descartáveis e notas de dólar pelo país, a fim de que elas “percorressem” diversos lugares. O casal tentou pensar algum outro objeto que poderia ser “abandonado” e encontrado pelas pessoas. Olhando sua estante de livros veio a ideia de solta-los no mundo. Para confirmar sua originalidade, Ron HorFoto: Ana Paula Sandim


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Foto: Hélio Monteiro. Arte: Áurea Maíra Costa

COMPORTAMENTO

Por Áurea Maíra Costa, Érica Maruzi e João Henrique Almeida

LIVROS QUE PROPORCIONAM VERDADEIRAS VIAGENS AOS LEITORES, CORREM O MUNDO ATRAVÉS DO CROSSBOOKING

nbaker procurou na internet algum site que incentivasse o “esquecimento” de livros, mas não encontrou nada muito relevante. Ele e sua mulher escolheram então o nome da iniciativa: bookcrossing (algo como “Encruzilhada do Livro”). Registraram o domínio (www.bookcrossing.com) e começaram a pensar nas etiquetas que acompanhariam os livros “perdidos”. No Brasil, o movimento ficou conhecido como crossbooking (sem tradução). Ele tem o apoio da rede de postos de combustíveis ALE, que batizou a iniciativa de “Livro para Voar”. “É um projeto de democratização da leitura no país. Ele tem o objetivo principal de fazer com que as pessoas leiam cada vez mais livros e que esses livros não tenham dono”, explica Rejayne Nardy, Coordenadora de Marketing e Comunicação da ALE. Segundo ela, o projeto já foi implantado em 134 postos no país: nas cidades de Vitória e Curitiba e nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte são 40 postos participantes; os demais da rede já foram convidados a aderir ao Livro para Voar. No site www.livroparavoar.com.br estão as instruções de como participar, mas a dinâmica é muito simples. A pessoa se cadastra e informa o nome do livro e o local onde pretende abandonálo. Daí ela imprime e preenche duas etiquetas que serão coladas na capa e na parte interna. Assim começa o ciclo de ler e abandonar os livros em diferentes locais. Nardy dá uma dica: “Você pode pegar um livro que você já leu, um livro que está parado na sua casa, e perder esse livro em algum lugar público pra que uma outra pessoa encontre, leia e perca o livro novamente”. Além de incentivar a leitura, o crossbooking também se tornou uma alternativa para a divulgação de livros no país. Alguns autores têm utilizado a ferramenta para lançar suas obras e ganharem mais leitores. É o caso do piauiense André Gonçalvez, que lançou o livro “Coisas de Amor Largadas na Noite”, em Teresina (PI).


8 contramão Foto: Ana Paula Sandim

POESIA

NA CALÇADA D

e rua em rua, copiadora em copiadora e de mão em mão. É assim que trabalham os escritores de rua que de forma descontraída vendem suas obras e ganham reconhecimento. Essa é a trajetória de Alexandre Washington Guimarães Paula, 33, mais conhecido como Joker Índio, ‘o escritor de todas as ruas’. Joker (foto acima) começou a se interessar pela escrita aos 18 anos. No começo dos anos 90, época na qual estava ligado ao movimento punk e diversos protestos “Foi ai que conheci a fontes de minhas inspirações: Augustos dos Anjos, Arthur Schopenhauer, Nietzsche, Franz Kafka, Albert Camus e é claro, as poesias dos poetas de rua”. Criava seus poemas ainda sem maturidade e somente em 2003 começou a tomar gosto pela literatura. O escritor, de maneira independente, publicou seu primeiro livro, Eu, e reproduzindo em copiadoras chegou a seu quinto livreto chamado As Faces da Poesia. Seus livros até o momento foram apenas de poemas, mas o escritor já pensa em diversificar seu repertório “Futuramente irei publicar contos”, adianta. Os livros têm um preço acessível, R$ 2,00 (dois reais), e com o dinheiro que ganha com as vendas, Joker se sustenta, paga um hotel ‘podre’ e ainda viaja pelo país. Vender os livros na rua não é opção, é prazer em se ver reconhecido. Não se pode ficar esperando a ajuda do Estado ou Governo. “Não quero morrer no anonimato.

Gosto de abordar as pessoas, é uma forma de me sentir mais próximo dos leitores e assim faço amizades verdadeiras” explica. A forma de interagir e efetuar a venda, para muitos ainda causa estranhamento, “A grande maioria ignora, acha que vou pedir esmola ou até mesmo furta-las, mas existem ainda pessoas legais que se alegram por eu estar mostrando a cara e não ter vergonha do que eu faço”. Joker, já conquistou o publico de bares, universidades e principalmente da rua. Com intuito de proliferar a literatura e a poesia de rua em Minas Gerais, Joker juntamente como mais quatro escritores de rua fundou a Associação dos Poetas Malditos de Ouro Preto ( APMOP). A associação foi criada de maneira não tradicional. Os encontros são nas ruas e nos bares da cidade e são usados para discutirem o que fazer para inovar suas artes e como realizarem eventos independentes. Como o Fodum das Letras, crítica ao Fórum das Letras, “evento voltado somente para aqueles que fazem parte da panelinha literária nacional”. O grupo é composto por escritores do Estado do Rio Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Esses escritores dominam todo o processo de produção. Desde a impressão e distribuição até o primeiro contato com os leitores, que seguem a caminhar perguntando aos transeuntes ‘Gosta de Poesia?’.

“Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas” Milton Nascimento

Ele vai abordar quem passa pelas ruas e apresentar seu trabalho. Ele vai fazer a pergunta em um tom cordial sem receio de um não: gosta de poesia? Por Ana Paula P. Sandim

A santíssima trindade brasileira “Não quero morrer no anonimato. Gosto de abordar as pessoas, é uma forma de me sentir mais próximo dos leitores”

...estou aqui sozinho bebendo vinho pensando na minha mulher que pensa que fui trabalhar! ...estou aqui sozinha juntinho do alfredo(cachorro) pensando no meu macho que pensa que fui cozinhar! ...estou aqui com meus amigos usando drogas pensando nos meus pais que pensam que eu fui estudar! (Joker Índio)

POESIA DE RUA (...)Nas ruas,desfilam mórbidos modelos. Passarelas paralelas ao caminho do inferno. Meu corpo é conduzido ao tronco dos açoites.Tendo como primeiros a me chicotear, os milicianos! Depois das chicoteadas, vem os cuspes dos brancos, negros e miscigenados da sociedade. Para agravar o meu estado, os ladrões ainda me levaram meus ultimos trocados. O que fazer então? A poesia é o meu único refúgio. O meu único pressagio. O mundo inteiro não nota - desço o poço da existência e retorno a surpefície - vejo que tudo neste mundo é quase idiota. Na solidão desta ruas, escrevo como quem dá as últimas setenças e como alguém que roga pragas. Morram todos... Não todos é claro! Mas, principalmente: os milicianos, a sociedade e principalmente os ladrões que me levaram os meus últimos trocados!


contramão 9 Foto: Ana Paula Sandim

CULTURA

Entre os livros, muitas vidas

Conheça as histórias dos profissionais que vivem de comprar e vender livros usados em BH Dois grandes corredores de prateleiras altas compõem o traçado do lugar. As estantes estão abarrotadas de livros antigos, limpos e, cuidadosamente, organizados. O responsável é Lourenço Cocco, 46, um homem que cresceu habituado à companhia dos livros. Formado em Engenharia Eletrônica, Cocco trabalha, hoje, na Livraria Amadeu, inaugurada em 1948, por seu pai, Amadeu Rossi Cocco, considerada, o sebo mais antigo de BH. Lourenço Cocco, assim como o pai, é um alfarrabista, um profissional cujo ofício consiste em comprar e vender livros usados. O alfarrabista sobrevive, hoje, graças ao amor que nutre pelos livros, resistindo, dessa forma, à concorrência das grandes livrarias e vendas online de livros que para muitos selariam o fim da atividade. Cocco parece não se intimidar com as “modernidades” do mundo contemporâneo e garante: “quanto mais livrarias, melhor para os sebos e para a população”. Cocco é um profissional clássico cuja satisfação está em procurar por um livro mesmo que não esteja em seu sebo, encontrá-lo e entregá-lo ao cliente. “Temos uma missão com o

cliente e quando isto acontece, me sinto com a missão cumprida”, enfatiza. Caso o título procurado não esteja em seu acervo, ele não hesita em direcionar o cliente para outro sebo de sua confiança, o que demonstra uma integração entre esses profissionais.

Histórias Por ser um profissional que lida com livros, histórias não faltam para contar. Lourenço Cocco se recorda bem das visitas ilustres que passeavam pela livraria, ainda nos tempos do pai. “Intelectuais como o antigo prefeito de Belo Horizonte, Ângelo Oswaldo; o padre Orlando Vilela; o professor catedrático da escola de Arquitetura de Belo Horizonte, Aníbal de Matos; professores da Faculdade de Filosofia, Direito e Medicina”, enumera. Uma história, em especial, envolveu a obra do médico e escritor Heinz Günther Konsalik. “Certa vez, chegou aqui um casal de médicos que me perguntou se aqui no sebo poderiam encontrar algum livro de Konsalik, pois eles iriam para a África conhecer o trabalho desse autor. Para minha surpresa tratava-se de um au-

tor que admirava muito. Eu tinha alguns de seus livros em minha biblioteca particular”, relembra. “Em princípio, o meu amor pelos livros e pela obra do autor me fez responder: ‘Infelizmente, não os tenho à venda e será muito difícil encontrá-los’, mas quando vi a reação de desânimo e tristeza do casal fiquei sensibilizado”, confessa. “Solicitei ao casal para que voltassem no outro dia. Logo pela manhã, o casal chegou e eu lhes entreguei todos os livros que havia em minha casa. Fiquei muito feliz, pois tinha a certeza que os livros com aquele casal teriam mais valor”.

vezes, aprendo”. Lima acredita que sua paixão pelos livros é o grande fator que o motiva a seguir adiante nesta profissão. Para o experiente alfarrabista, o perfil de clientes dos sebos diversificou. “Se no passado os sebos eram visitados apenas por intelectuais, eruditos, colecionadores de grandes obras, profissionais liberais, especialistas em determinados assuntos e pessoas de poder aquisitivo elevado, hoje, veio se somar a este grupo fregueses de todas as camadas sociais e estudantes de toda faixa etária”, avalia. José Ronaldo Lima torce para que os jovens estudantes não busquem somente um título de graduação, mas, sobretudo, que preocupem enriquecer seus conhecimentos com uma paixão pelos livros. “O livro só tem vida quando é tratado com respeito e carinho”.

“Sempre que posso, ensino um pouquinho e, na maioria das vezes, aprendo,”

Paixão

José Ronaldo Lima, 70, proprietário da livraria e sebo Shazan, no Edifício Maleta, é considerado o mais antigo alfarrabista em atividade na capital. Lima é conhecido por sua prosa franca e sua capacidade de desvendar a vida e obra de diversos autores. “Sempre que posso, ensino um pouquinho e, na maioria das

Por Raphael Jota e João Paulo Costa Jr Foto: Felipe Rezende


10 Foto: Ana Paula Sandim

CULTURA SAVASSI TROCA O TRÂNSITO PELO

JAZZ Acompanhamos o encerramento do Festival de Jazz na Savassi Por Natália Oliveira

Nos palcos, pianos, violoncelos e instrumentos de percussão exibiam sua exuberância. Os instrumentos de sopro, característicos do Jazz, reinavam. Os integrantes dos grupos musicais interagiam com a platéia, que ouvia as músicas atenta. Em todos os shows era possível registrar olhares concentrados, olhos fechados e balanço de corpo. Palmas uníssonas eram ouvidas ao final de cada apresentação. O pianista Bernardo Monteiro, 29 anos, integrante da banda mineira Jazz a Zero, atração do dia 3 de setembro, considerou inusitado o fato de fazer um show de música instrumental na Praça da Savassi, num horário em que as pessoas estão saindo do trabalho, às 18 horas. “A experiência foi ótima e tivemos um retorno muito positivo do público. Acho que a cidade é que mais ganha com essas iniciativas, por promover a circulação de música de qualidade acessível a todos”, ressaltou. As ruas foram cobertas por carpete amarelo, puffs coloridos e cadeiras de plástico brancas. Os puffs serviam de descanso para as pernas mais cansadas e eram, também, a diversão das crianças que estavam no evento. Esculturas femininas feitas de acrílico e fotos de olhos foram expostas ao longo dos caminhos que levavam aos palcos.

Enquanto os grupos musicais difundiam o jazz, os DJs investiam na miscigenação de estilos: música eletrônica, pop, rock e músicas latinas dominavam a cena. O público se dividia entre uma atração e outra.  O festival foi montado em formato de cruz sendo que em cada ponta se localizava um palco. O cruzamento entre as ruas Alagoas e Antônio de Albuquerque marcava, exatamente, o centro dessa cruz onde não era possível ouvir nenhum som. O operador de som Álvaro Nunes, 30, que acompanhava o festival, diz ter gostado do evento, porém achou que as caixas de som não foram suficientes para atender todo o público. “O festival cresceu, mas os equipamentos de som parecem não ter acompanhado essa evolução,” reclama. Essa foi a sexta vez que as ruas da Savassi substituíram o trânsito caótico pelo Festival. Mas não foram só as ruas dessa região: alguns cafés e praças da cidade também foram invadidos pelo Jazz. O evento durou cinco dias, de 3 a 7 de setembro. Segundo a organização do evento 130 artistas participaram do Festival. O ingresso foi um quilo de alimento não perecível, destinado à doação. Foto: Ana Paula Sandim

Mesmo com o sinal aberto para os carros, os pedestres continuavam na rua. Na esquina da Alagoas com Antônio de Albuquerque, o semáforo oscilava entre o verde e o vermelho, mas ninguém parecia se importar. Em plena segundafeira, a Savassi trocou o trânsito caótico de veículos pelo tráfego livre de pessoas, e as buzinas barulhentas por instrumentos musicais. A fumaça dos carros não pairava no ar e a região respirava Jazz O feriado de comemoração da Independência do Brasil reuniu uma multidão no coração da Savassi, mas não era nenhuma manifestação política. Pelo contrário, essa reunião tinha um motivo cultural: a música, mais precisamente, o encerramento do Savassi Jazz Festival: Jazz & Lounge. As apresentações do dia sete de setembro começaram à tarde e quem aguentou até o final viu o sol trocar de lugar com a lua e a música continuar no ar. Apesar das previsões de chuva e frio, o clima foi de calor e muito sol. Por todo lado era possível ver pessoas de óculos escuros, roupas de verão e filas enormes, onde a disputa por qualquer tipo de líquido, nem sempre gelado, era acirrada. Nas ruas Alagoas e Antônio de Albuquerque foram espalhados quatro palcos, mas o espetáculo estava por toda parte. As bandas e os DJs se apresentavam nos palcos. No asfalto, o público criava seu próprio show: malabares, equilibrismo, dança com tecido, dança individual, dança em conjunto e até uma reprodução do clipe Thriller, do cantor Michael Jackson, sem ensaio e sem número de participantes - quem quisesse dançar era só se aproximar. No meio da multidão se abriam diversas rodas onde cada hora alguém dançava no centro.


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depois

Fotos: Marina Costa e Áurea Maíra Costa

antes

ECONOMIA

Vida nova para velhos brinquedos Lojas de conserto e restauração recuperam objetos da infância Após uma análise da qualidade dos brinquedos que dão entrada no hospital, o enfermeiro faz um diagnóstico preciso: “[A qualidade] caiu muito, já não é mais a mesma. Há 50 anos os carrinhos eram de lata, mais duráveis e ainda chegam até minhas mãos para restaurá-los”, garante. “Hoje os brinquedos são descartáveis, a cada Natal é lançada uma boneca nova que não resistirá três ou quatro meses”.

A magia continua Eduardo de Vasconcelos é o responsável pela SOS Brinquedos, localizada no Centro da capital. São 30 anos no comércio de brinquedos antigos, de luxo, restaurações e assistência técnica autorizada. Ele conta que aos 13 anos esteve na fábrica da Estrela para um treinamento que duraria quatro meses, mas acabou permanecendo lá por cinco anos. Durante esse tempo, aprendeu a parte técnica e a aperfeiçoou com olhar clínico, para garantir a qualidade minuciosa de seu trabalho. “Tenho uma equipe de artistas, profissionais terceirizados que selecionei de acordo com a perfeição e qualidade de seu trabalho”, garante. Vasconcelos conta que tanto o conserto quanto a restauração envolvem uma série de detalhes, como a criação de embalagens personalizadas e o resgate de brinquedos de até 40 anos atrás. A meta dele é surpreender quem vai até a loja, independente do preço. “Quero fazer o mais perfeito possível e ir além do esperado, além do que o cliente imaginava”, afirma. Esse foi o caso da técnica em Contabilidade, Áurea Maria Costa que levou duas bonecas para serem res-

tauradas. “Elas pertencem à sua filha mais velha”, informa. “As bonecas estavam bem destruídas. Eu quis consertá-las porque são bonecas muito antigas, que nem existem mais”, explica. O serviço, ou melhor, a internação custou R$550,00, preço que inclui limpeza, troca das partes quebradas e implantes de cabelo. Se valeu ou não a pena, só ela pode dizer: “Pra mim valeu demais! Elas ficaram lindas, acho que nem vou devolver pra minha filha!”, brinca. De acordo com o proprietário, o foco da SOS Brinquedos é realmente a satisfação do cliente. Vasconcelos afirma que se preocupa com todos os detalhes, até o grampo da embalagem para não ferir quem a receberá. Quanto à qualidade,

ele é enfático, principalmente com os produtos importados da China. “Essas porcarias chinesas são péssimas e na maioria das vezes invadem o mercado pelo contrabando”, denuncia. Serviço: Hospital dos Brinquedos Avenida do Contorno, 7.197. Santo Antônio. Belo Horizonte/MG Telefone: (31) 3296-5366 SOS dos Brinquedos Rua dos Caetés, 530/522. Centro. Belo Horizonte/MG Telefone: (31) 3201-1923 Por Alessandra Gálatas

Foto: Alessandra Gálatas

É difícil encontrar uma pessoa que não tenha estimado um brinquedo na infância, aquele objeto de que não era possível afastar-se ou abrir mão, o preferido dentre tantos outros. Fomos em busca de locais, em Belo Horizonte, que têm como objetivo renovar essas saudosas lembranças. A questão central é: em tempos de consumismo e da invasão dos produtos chineses, ainda há espaço para os nossos velhos amigos inanimados? Vale a pena recuperá-los? Há 15 anos Marco Aurélio Galdino é “enfermeiro” no Hospital dos Brinquedos, uma loja especializada em consertos. Ele se considera um apaixonado por brinquedos e, especialmente, por video games que atraem mais sua atenção. Seu ofício é quase um hobby, já que se diverte trabalhando. De acordo com Galdino os clientes do Hospital estão na terceira geração. “Os pais que trouxeram os filhos agora são avós que trazem os netos”. A localização privilegiada, Zona Sul da cidade, o mercado restrito e a afeição aos brinquedos mobilizam os clientes. Enquanto entrevistávamos Galdino, num sábado pela manhã, nos chamou a atenção o movimento da loja. Ele afirma que todo mês 100 a 150 brinquedos dão entrada no Hospital. Cerca de 70% são de assistência técnica, por ser tratar de uma empresa autorizada. Presenciamos a entrega de uma encomenda por uma senhora que iria presentear a filha com as bonecas, guardadas pela garota há mais de 30 anos. Eram cinco bonecas: duas delas falavam e tinham movimentos e foram “internadas”; quanto às outras três nem a UTI poderia dar-lhes vida nova.

O enfermeiro Galdino diante de mais um paciente


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HIPERLOCAL

Uma vitrola americana nas ruas de BH

Belo Horizonte foi o destino final da vitrola Nova Jersiana, trazida por um uruguaio ao Brasil. O vendedor, identificado apenas como Artur, fez da rotatória das ruas Bernardo Guimarães com Sergipe sua vitrine. O aparelho musical fabricado em 1904, em excelente estado de conservação, estava em cima de uma caixa de papelão e tocava um disco do trio argentino Quinto Patio. Um médico que passou pelo local comprou, por R$ 500,00, a vitrola e sua sonoridade nostálgica. Texto e fotos por Hélio Monteiro

contramao.una.br


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