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ANO 1 - Nº2 - Julho/2007

COMPORTAMENTO

ENTREVISTA DO MÊS

Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social do Centro Universitário UNA

Professor Fernando conta como formar cidadãos dentro e fora das quatro linhas

Qual é o tamanho de um sonho?

CIDADANIA

Esporte e trabalho numa mesma corrida

BEAGÁ

Nem popular, nem elite! O xadrez conquista adeptos

O esporte e suas facetas

O esporte está presente por todo lado na cidade. Desde o xadrez na Praça Sete às peladas de rua, capoeira, skate e até meninas jogando futebol, além do milenar arco e flecha preenchem o lazer dos mineiros


E ntrevista

“Muitas vezes me coloco como pai, mãe, carrasco

Por Henrique Carmo - 2º Período

Fernando Eustáquio Mateus, 58, é um dos professores do projeto “De Olho no Futuro”, do Centro de Futebol Zico, em parceria com o América Futebol Clube. O professor iniciou sua carreira em 1972, no Colégio Loyola do bairro Planalto, evangelizando um grupo de mais ou menos 30 jovens dirigido por dois padres. Em 1979 recebeu um convite para trabalhar na escolinha do Santa Tereza. “Eles precisavam de um treinador que não trabalhasse só com a bola. Queriam uma pessoa que trabalhasse com o lado espiritual, social e pessoal dos garotos”, diz. Exigente e disciplinador, Fernando contou ao Contramão várias histórias, inclusive de jogadores que foram seus alunos e chegaram ao futebol profissional.

Jornal Contramão: Há quanto tempo você participa do Projeto?

diálogo, do bate papo e da oração, que sempre colocamos em primeiro plano, porque às vezes faltava um pouco de religiosidade. Lá no Santa Tereza, por exemplo, todo dia antes do treino a gente fazia uma leitura diferente da Bíblia. Isso ajudava a iluminar a mente dos garotos, que entravam em campo deixando seus problemas do lado de fora e não descontavam nos seus companheiros aquele sentimento que estava guardado. Aqui no projeto, a maioria foi aceitando essa filosofia e aí veio a forma de trabalhar, mostrando pra eles as regras sociais, como por exemplo saudar o companheiro com um abraço, olho no olho, de frente. Ensinei também que sempre ao acordar é fundamental dar bom dia àquele que possibilitou que eles acordassem, Deus. E digo para não

terem vergonha disso. É preciso cumprimentar todas as pessoas. Antes era mais difícil, mas agora eles já cumprimentam o colega pelo nome, falam bom dia ou boa tarde e perguntam como ele está. A turma melhorou 99%. Passei a visitar a casa de alguns deles de 10 em 10 dias pra conversar com suas famílias. O que você mais ouviu dos familiares? Ah, ouvi reclamações corriqueiras, que o filho era muito desobediente e mal criado. Com o decorrer do tempo eles vão aprendendo e dando uma resposta positiva pra gente. Os pais passaram a vir aqui visitar e me falam: “Meu filho mudou da água para o vinho. Ele matava aula, hoje não mata mais. Ele ajuda dentro de casa, vai ao

culto religioso”. Os meninos já tratam melhor o vizinho, pois na ausência dos pais ele é a primeira pessoa a quem se deve recorrer. Mudaram muito e aqui mesmo já dá pra notar a aceitação dos nossos ensinamentos. Deixei claro que eles devem respeitar as idéias dos companheiros e não interrompê-los enquanto falam, pois é importante demais ser um bom ouvinte. O que você tem a dizer do relacionamento entre o professor e os pais dos alunos? É essencial, porque os pais passam a acreditar mais no projeto e nos dão mais segurança e tranqüilidade para passar os nossos ensinamentos para os seus filhos. Teve um menino aqui, muito doce, que o pai e a mãe esta-

Foto: Henrique Carmo

Fernando Eustáquio: Trabalho aqui há 12 anos. Estou no projeto desde o início, há 6 anos. Qual o significado do esporte na sua vida? O esporte pra mim é tudo. Melhora a saúde física, mental e intelectual. O futebol cria uma condição pra me reciclar, estudar e buscar melhorar para saber o que passar para os meus alunos. Qual a principal mudança no comportamento dos meninos? Eles chegaram aqui muito rebeldes e indisciplinados. Era um olhar pro outro que já discutiam. Fomos trabalhando, mostrando pra eles os valores, os limites, os direitos de um e os do outro, o respeito. Tudo através do

Expediente

CONTRAMÃO - Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social – habilitação Jornalismo Faculdade de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Padre Geraldo Magela Teixeira Vice-reitor: Prof. Ricardo Cançado Gonçalves de Souza Pró-reitor de graduação: Prof. Johann Amaral Lunkes Pró-reitor de pós-graduação, pesquisa e extensão: Eugênio Pinheiro Chagas Pró-reitor de Administração e Finanças: Átila Simões Diretor da Faculdade de Comunicação e Artes: Prof. Glauco Grossi de Assis Coordenadora do curso de Comunicação Social: Profa. Samantha Simões Braga Coordenadora-adjunta de Comunicação Social - habilitação Jornalismo: profa. Joana Ziller

Jornal Contramão - Tel: (31) 3379-1226 - e-mail: contramao@una.br Coordenação: Profa. Joana Ziller (MTB 6219). Colaboração: Profa. Isadora Braga Camargos e Prof. Carlos Frederico Brito D´Andréa Estagiários: Áurea Maíra Silva Costa, Poliana Leite Resende, Rebeca Iene, Bráulio Vasconcelos Campos e Henrique André Silva Carmo Logomarca: Bráulio Vasconcelos Campos Projeto gráfico: Profa. Marília Lyra Bergamo (coord.), Poliana Leite e João Guilherme Queiroz Arruda Tiragem: 2.000 exemplares Impresso na gráfica Fumarc


e até psicólogo. Primeiro vem o elogio”

Na sua opinião, o que você representa para os seus alunos? Um pouquinho de cada coisa, de acordo com o momento. Porque muitas vezes me coloco como pai, mãe, carrasco e até psicólogo, respeitando a qualidade de profissional. Uma hora tem que passar a mão na cabeça, trazer um aconchego, abraçar o menino e fazer um elogio. Primeiro vem o elogio, depois a observação. Não é crítica, é observação. Isso é importante para que o garoto possa caminhar. Qual o seu maior sonho?

Foto: Henrique Carmo

O meu maior sonho é continuar nesse trabalho e quando sair aqui do Zico iniciar uma escolinha no meu bairro, porque é uma vila carente. E o principal é preparar o menino através do futebol para ser um cidadão bem honrado no dia de amanhã. O futebol tem que estar sempre presente.

Você tem algum ídolo no esporte?

Foto: Henrique Carmo

vam presos. A mãe cumpriu pena de seis anos por uso de drogas e ele nunca mostrou nenhum sinal de revolta. O projeto serve justamente pra isso, pra passar instrução para o garoto. Ele vive num ambiente hostil, se não tiver ajuda vai acabar seguindo o mesmo caminho dos pais. A gente mostra que faz parte da vida, mas ele tem outros caminhos pra seguir.

Entrevist a

Eu tenho um ídolo. É meu ex-jogador que hoje está na Alemanha, o Daniel. É um cara que não era bom de bola, mas tinha um físico muito bom e uma cabeça aberta. Hoje ele é profissional e ganha bastante dinheiro. Ele saiu do Santa Tereza para o Cruzeiro, depois foi para Portugal, Japão e hoje está na Alemanha. Ele soube lidar com o sucesso, pois vem de família bastante intelectual e é uma pessoa muito simples. Quais jogadores você treinou e que se tornaram profissionais? De renome tem o Palhinha, campeão Mundial pelo São Paulo, que jogou ainda no América, no Cruzeiro e em outros grandes clubes. Também treinei o Ronaldo Luiz, ex-jogador do São Paulo, o Wallace, que passou pelo Atlético, Evanilson que jogou no América, Atlético, Cruzeiro e no Borússia da Alemanha, o Alex Mineiro, que joga no Atlético Paranaense, o Irênio que está no América do México, o Daniel, que hoje joga na Alemanha, e vários outros jogadores que disputam as divisões de acesso. Algum desses jogadores consagrados visitam o clube de origem, o Santa Tereza? A maioria não. O único que até hoje nos visita no Santa Tereza sem-

pre quando chega ao Brasil é o Daniel. Ele põe o pé em Belo Horizonte e a primeira coisa que faz é ir nos visitar. Só tem gratidão quem tem berço, e a maioria deles não tem. Como você enxerga o futuro dos meninos que não conseguirem seguir a carreira de jogador? Eles vão seguir de acordo com a própria escolha. A gente aponta uma direção, e eu sempre falo que a gente deve criar um caminho decente, honesto. A gente vê hoje na TV esses políticos corruptos, essa ladroagem. Os garotos devem saber que, se fizerem algo errado, irão presos, mas os magnatas não. O cara que roubou milhões e o menino que roubou uma carteira cometeram o mesmo crime, mas o que muda é o valor. Quem está lá em cima dificilmente será condenado, já o menino vai pra cadeia. Eu falo com eles: a vida é dura e o caminho é difícil. A gente tem que vencer pela honestidade e ultrapassar essas barreiras de dificuldade. No projeto, se o menino me pede pra guardar R$1, esse dinheiro fica exposto. Nada pode ficar escondido porque aqui é uma comunidade. Se alguém pegar alguma coisa aqui, ele vai ter que

devolver na vista de todo mundo e pedir desculpas. Se você tivesse oportunidade de encontrar o presidente Lula hoje, o que você pediria a ele? Pediria mais projetos com pessoas que além do futebol ensinassem essas lições de vida para os atletas, porque o que vai salvar não é a bola, é a escola. Eu conheço muitos casos de treinadores que soltam os meninos no campo e não têm comprometimento com eles. Tratam os alunos com palavrões, viram as costas e vão bater papo. Usam o emprego apenas pra ganhar dinheiro e falar que participam desse tipo de projeto. Isso não adianta nada, pois não estão sendo formados cidadãos. Quando aparece um repórter ou televisão, aí sim eles se empenham e fingem que estão trabalhando, passando uma imagem que não é a verdadeira. Já visitei várias escolas da prefeitura onde isso é fato. Os professores na maioria das vezes são ex-jogadores e deixam os meninos na ilusão de que no futuro serão jogadores de futebol. A escolinha é importante porque se os meninos não estivessem aqui, estariam soltos na favela.


O xadrez é esporte, ciência e arte

Prestigiada no exterior, atividade traz benefícios para a memória e a concentração Por Fernanda Grossi - 5º Período

No centro de Belo Horizonte mesas são alugadas por R$ 0,60 a hora

Joel Rodrigues é técnico em segurança do trabalho, tem 44 anos e joga xadrez desde os 13. Atualmente joga pela Internet, mas já freqüentou muitos clubes de xadrez. Hoje prefere ir apenas para olhar. Ele diz que, para quem não sabe jogar, o xadrez pode parecer lento e demorado, mas para quem está envolvido nas partidas é emocionante e dinâmico. “Passo horas jogando e nem percebo. Para mim uma final de xadrez é tão emocionante como uma partida de futebol do meu time”, compara. O xadrez é muito tradicional no centro de Belo Horizonte, com expansão na década de 70. Joel conta que um dos precursores da modalidade na região foi Pedro, um entusiasta do esporte que nessa época começou a jogar nas imediações da Praça Sete, onde convidava outras pessoas para disputar partidas. Foi lá que ensinou sua filha Maria Cristina a jogar xadrez. A menina virou jogadora profissional e se tornou a primeira mestre internacional feminina, o que favoreceu a popularização do esporte na região. O responsável pelas cadeiras e mesas com tabuleiros postas sobre a calçada da rua Carijós, também no centro da capital, é João de Souza. Ele cobra R$0,60 por hora para as pessoas utilizarem seus instrumentos. As duplas são formadas pelos próprios jogadores e o tempo de uso do espaço é ilimitado. João lembra que os jogos não são apenas de xadrez, há também quem goste de jogar damas. “Os freqüentadores são idosos, adultos e até crianças. O público feminino também comparece, mesmo que em menor quantidade”, informa. O aposentado Walter de Toledo teve seu primeiro contato com o

Uma final de xadrez é tão emocionante quanto uma partida de futebol

Pouco praticado no Brasil, o xadrez é um esporte muito valorizado no exterior. É o que afirma o presidente do Clube de Xadrez de Minas Gerais, Luiz Leite. Ele conta que, em alguns países da Europa, o xadrez é ensinado nas escolas desde os primeiros anos e cita o exemplo da França, que inclui a prática desde o jardim de infância até a educação na idade adulta. O xadrez já participou das Olimpíadas e atualmente está afastado do Comitê Olímpico Internacional, apesar de ainda ser reconhecido como esporte olímpico. Hoje tem competições próprias e é filiado ao Comitê Olímpico Brasileiro. “É um jogo que não termina como os outros, por isso não é incluído como esporte-exibição nas Olimpíadas”. De acordo com o portal Uol Noticias, o xadrez pode ser incluído no programa dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. O professor de xadrez Sheridan Ribeiro considera a atividade como esporte, ciência e arte. De acordo com ele, o xadrez é esporte pela questão competitiva e pela ginástica mental. É ciência porque tudo se baseia na lógica e é arte porque tem beleza e graciosidade nas jogadas. Luiz Leite explica ainda que a atividade tem a segunda maior federação esportiva do mundo, a Fide (Fédération Internationale des Échecs), com mais de 160 países filiados, ficando atrás somente da Fifa (Federação Internacional de Futebol). A explicação que Luiz tem para a pouca divulgação do xadrez no Brasil é que esse esporte não é de massa e, a princípio, apresentava um caráter elitista. Para Sheridan, a principal diferença entre o xadrez profissional e o amador é a premiação presente na versão profissional. Além disso, o jogador tem um treino diário de seis a sete horas. “Mesmo com as premiações em dinheiro, não se pode comparar o xadrez com o futebol, por exemplo. Na maioria dos casos, o jogador tem que ter outra profissão para sobreviver”, comenta. Atualmente a Copa Itaú é uma das maiores do Brasil, garantindo um prêmio de R$27 mil para o vencedor. Há torneios internacionais que oferecem valores acima de R$300 mil. O professor conta que em Minas houve grande crescimento do xadrez nas escolas, graças à organização de torneios infanto-juvenil.

Foto: Fernanda Grossi

Beagá

Jornal laboratório do curso de Comunicação Social do Centro Universitário UNA

xadrez por recomendação médica. Ele relata que era seminarista e passou 30 anos de sua vida estudando e reescrevendo a bíblia. Ao levar seu livro para editar, foi assaltado e perdeu todos os manuscritos. O fato lhe causou tamanho transtorno que ele tentou suicídio. Após o incidente, o aposentado perdeu a memória, temporariamente e desenvolveu problemas psicológicos graves. Walter iniciou acompanhamento com um psiquiatra, que recomendou a ele a prática do xadrez. Hoje, garante que recuperou 80% da memória e está reescrevendo sua própria bíblia baseada nos jogos de xadrez. “Na minha bíblia, o tabuleiro é o Jardim do Éden, o jogador é Deus e as peças são as pessoas”, descreve, com um sorriso na face e empolgação na fala, mesmo sob as risadas céticas dos colegas. A psicóloga Rosiana Sandreti afirma que o xadrez pode trazer vários benefícios. Segundo ela, estudos comprovam que o xadrez eleva a velocidade de raciocínio, memória e concentração, não havendo contraindicação.


Falta de investimento impede sonho

Beag á

Futsal amador sobrevive graças ao amor dos praticantes

Por João Guilherme Arruda - 4º Período

Além de jogar, o atleta de futsal amador tem que se preocupar com o trabalho, a família e o lazer. O dentista Manoel Henrique Santos diz que o esporte não gera retorno financeiro para o atleta e para a equipe. “Muitos atletas estão desempregados e sem condições de comprar materiais esportivos”, conta. O preparo físico incorreto e a ausência de profissionais capacitados geram um desgaste maior do atleta. Com horários de serviço ou agendas ocupadas, ele não tem tempo para treinar o físico e a tática do jogo. No caso de Manoel, o jogo é utilizado como preparação física. “Assim mantenho a forma e a capacidade técnica para continuar jogando”, afirma. Parcerias como as realizadas no futebol de campo podem melhorar a situação do futsal, afirma o jornalista Leopoldo Siqueira, especializado em esportes. Segundo ele, as taxas de filiação e arbitragem, bem como a

Foto: Ana Paula Alves de Moraes

Diretor, treinador, massagista, preparador físico, roupeiro e patrocinador do time amador de futsal. Esses são os cargos que Airton Silveira exerce para que o Racing, equipe de futsal de Nova Lima, sobreviva. Além das equipes, os atletas amadores passam por dificuldades para seguir com o sonho de jogar futebol. O Racing tem nove títulos de campeão novalimense de futsal e cinco títulos de campeão da Super Copa de Futsal de Nova Lima. Apesar de deter boas vitórias, não consegue patrocínio de uma grande empresa para evoluir no esporte. O Racing é a equipe amadora mais conhecida e competitiva de Nova Lima. Em 1998, para se profissionalizar, tentou filiar-se à Federação Mineira de Futsal. Os altos custos de filiação, taxas de inscrições em campeonatos e a falta de patrocinadores fizeram com que o sonho terminasse.

Falta de patrocínio ou parcerias impede o crescimento de equipes como o Racing

falta de patrocínio fazem com que as equipes deixem de existir. Com as parcerias, novos talentos podem ser descobertos. “Não podemos nos es-

quecer que grandes craques, como Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, começaram no futebol de salão”, lembra Siqueira.

Bandeirantes, onde moram. Desde então, a avó percebeu que o neto melhorava a cada dia o seu comportamento. Suas notas começaram a melhorar e a agressividade diminuiu. O psicólogo Eser Pacheco, especialista em Psicologia Existencial e Mestre em Filosofia, afirma que “as peladas de rua são uma oportunidade para que os garotos possam interagir. “ As peladas ajudam no desenvolvimento emocional das crianças, logo, incentivaos a desenvolver o seu potencial.” Segundo o psicólogo, os meninos passam a lidar com a frustração da derrota e a alegria das vitórias, levando este aprendizado para o resto da vida, tanto no meio esportivo como em outras profissões ou atividades que possa vir a exercer. Já Paula de Paula, psicóloga especialista em esportes e professora de educação física, atualmente à frente do departamento de psicologia do Clube Atlético Mineiro, diz que o encontro social propiciado pelo esporte leva os garotos a conhecerem e respeitarem re-

gras e limites e o respeito mútuo. Vários garotos que praticavam as peladas pelos campinhos em Minas conseguiram sucesso no futebol profissional. De acordo com Hélio Gualberto de Mella, o “Helinho Beleza”, olheiro do América e ex-treinador, alguns destes jogadores foram descobertos por ele. Atletas como Somália, Fabrício, Evanilson, Alex Mineiro, Rui Cabeção e Tucho foram iniciados por Helinho Beleza nas categorias inferiores, e hoje são destaques no futebol profissional. O olheiro relembra que existiam muitos campos de terra distribuídos pela capital e interior. “Minha esposa chegava a me ajudar”, diz Helinho. De acordo com ele, a sorte para os meninos das comunidades carentes é cada vez menor. O olheiro acredita que o risco de envolvimento com as drogas e a criminalidade é proporcional ao crescimento urbano, que ocupa os espaços em que antes eram improvisadas as pedras que delimitam o gol.

Urbanização ocupa espaços de peladas de rua Garotos do bairro Bandeirantes, em Contagem, encontraram com criatividade e imaginação um espaço semelhante aos campos de terra, onde se jogavam as famosas peladas de rua, para diversão, lazer e prática de esporte. No local de terra batida eles colocam pedras para marcação dos gols e determinam as linhas laterais e de fundo, o meio de campo e limitação dos goleiros, para suas saídas de bola com a mão. Vinicius, Christian, André e Rubens, entre outros meninos de 9 a 13 anos, fazem deste pedaço de terra um campo de futebol. Não importa se há grama ou não, o importante é jogar sua pelada e sonhar. Rubens Guerardes da Trindade revela que seu maior sonho é jogar em um campo de verdade, como o Mineirão e o Maracanã. Ele diz que adora quando chegam os fins de semana, pois deixa os estudos de lado e vai jogar suas peladas com os amigos do bairro. Mas, para Christian Luiz Gomes Carvalho, a realidade é outra. Ele vive em uma casa cercada por lojas e prédios. O local é

Para os meninos, o importante é jogar sua pelada e sonhar

Por João Bosco - 5º Período

totalmente sem espaços para criar um campo de futebol. Sem quadras por perto, fica inviável “bater uma bola” com os companheiros. Morador de um bairro vizinho ao dos garotos criativos, a solução que ele encontrou foi se deslocar até o campinho de terra batida e se divertir com os amigos. Vinicius Patrick Pandofo foi abandonado pelos pais logo que nasceu. A avó Terezinha de Jesus Silva, que o criou, acredita que, por este motivo, o garoto sempre foi rebelde e inconformado, vivia brigando em casa e na escola. O diretor da atual escola do menino aconselhou Terezinha a incentivá-lo a praticar algum esporte. Ela seguiu o conselho e o neto começou a participar de uma “pelada” que era realizada todo final de semana no bairro


B eagá

Praticantes dizem que são movidos pelo skate Skatistas fazem do esporte um meio de vida

Por Tatiane Bessa – 5º período

O skate estimula o equilíbrio, a superação e a persistência

conhecimento público quem são os skatistas, como são e quais os caminhos que percorrem na trajetória do skate. O professor diz que o esporte é um dos “fenômenos com maior capacidade de mobilização dos nossos tempos” e pode ser considerado uma religião. Ele afirma que o skate é uma referência de modo de vida e que muitas vezes o skatista nem sabe ao certo porque começou a praticar o

esporte. “Minha hipótese é que algumas atividades que são de tal forma absorventes que passam a ser o principal referencial de um determinado grupo de pessoas. O skate é uma delas”, explica. Os skatistas formam grupos muito comuns nos centros urbanos e acabam criando suas tribos. Quando o esporte surgiu, os skatistas tinham um modo de se vestir diferenciado dos

demais jovens. As roupas eram sempre calças largas com muitos bolsos, vários piercings e cabelo bagunçado características que formam o estilo grunge. Há algum tempo, esse visual deixou de ser regra e abriu caminho para novas formas de expressar o amor pelo skate. Alguns skatistas fazem o gênero punk, com roupas mais coladas ao corpo, outros misturam vários estilos e essa quebra com a regra vale também para a música. “Hoje não tem como saber o que os skatistas curtem, pois são milhões no Brasil e no mundo. Cada um tem seu estilo, sua atitude. Alguns curtem metal outros rap, rock. A paixão em comum é o skate, o resto é de cada um”, afirma o estudante Daniel de Moraes Damião, skatista há nove anos. Frederico Vicente Lima é gerente de captação de investimento e eventos de uma agência especializada em consultoria para empresas ligadas ao skate. Praticante desde 1998, Lima diz que o esporte também tem função educativa. Segundo ele, o skate ajuda a melhorar o relacionamento com outras pessoas e contribui para o desenvolvimento cultural de quem pratica. “O skate estimula a disciplina, equilíbrio, superação, persistência, humildade, conhecimento do corpo e dos limites físicos”, afirma.

Foto: Natália Oliveira

O skate é o segundo esporte mais praticado no país, perdendo apenas para o futebol. Os dados são de uma pesquisa realizada pelo Ibope em janeiro deste ano. Em 2002, o Datafolha já mostrava essa tendência em pesquisa que afirma que há mais de 2,7 milhões de domicílios brasileiros com pelo menos um praticante do esporte. A relação skate/skatista é intensa. Alguns “skatam” para aliviar o stress. Outros pensam apenas em diversão. Hobby, trabalho e xercício físico são outras finalidades da prática. O empresário Maurício Massote Junior é dono de uma loja de artigos para skatistas e desde criança pratica o esporte. “O skate é a minha vida”, define. Quem pratica skate demonstra uma profunda afeição pela atividade e acaba por adotá-la como filosofia de vida. Os skatistas sentem que o esporte funciona como uma válvula de escape, além de despertar a sensação de completa felicidade. Habilidade e muito treino são importantes para quem quer praticar skate. O skatista passa em média quatro horas em uma pista nos finais de semana. A maioria dos skatistas se inicia na atividde entre os oito e os 13 anos. A idade conta apenas no fator resistência corporal. Hoje existem skatistas profissionais com mais de 40 anos, como Sérgio Negão, que participa de competições importantes no Brasil e no mundo. A influência dos amigos, a complexidade e o grau de dificuldade das manobras são os fatores que mais impulsionam a escolha da atividade. Billy Graeff Bastos é professor de educação física e mestre em Ciências do Movimento Humano. Graeff estudou o skate como uma atividade comum aos olhos dos habitantes das grandes cidades e ao mesmo tempo desconhecida. Ele procurou trazer ao

Habilidade e concentração fazem parte das manobras

Relação com o skate influencia modo de vida

Por Nathalia Oliveira – 5º período

Mais que um esporte, o skate é um estilo de vida, segundo o skatista Jemerson Oliveira. Ele é mais conhecido como Jemim e pratica o esporte há sete anos. Quando não está sobre as quatro rodinhas, se diverte com pessoas que também são apaixonadas por elas. Os amigos escutam o mesmo tipo de musica, o Rap e o Hardcore, e se vestem de forma semelhante, o que, além de uni-los, os torna um grupo identificável. “Noventa por cento das pessoas que conheço é por causa do skate”, afirma. Filipe Rocha, 19 anos e skatista há 5, relembra uma festa na casa

de Jemerson. “Reunimos alguns amigos e também skatistas de outras cidades. Todos nós dormirmos na casa dele e no outro dia fomos juntos para um campeonato. Disputamos um contra o outro. A vontade de ganhar existe, mas a amizade está acima de tudo”. Os skatistas praticam a atividade em pistas e nas ruas. Qualquer lugar que seja “skatável”, como corrimão de escadas, bancos e rampas naturais é visto por eles como possibilidade de manobras. Por ser um esporte de rua e praticável em quase todos os lugares, reúne praticantes de várias classes sociais. As pessoas têm uma visão de que existe muito risco de se machu-

car praticando skate e por isso muitos pais não incentivam os filhos no esporte. Mas é preciso lembrar que existem riscos de lesões em qualquer atividade. Jemerson diz que, “com o passar do tempo, ganha-se uma percepção sobre as manobras efetuadas, consegue-se ver quando ela vai ou não ser executada com perfeição, daí os acidentes diminuem muito”. Apesar de o sonho da mairia dos praticantes do esporte ser a profissionalização, Jemerson e Felipe lembram que no Brasil isso é bem complicado pois falta patrocínio. As empresas do ramo raramente acreditam no potencial de um skatista para representar sua marca.


Beag á

Capoeira mineira também é expressão cultural Ginga, música, luta, dança e arte fazem parte da mistura que é a capoeira, um esporte de expressão cultural

Por Ruth Cruz – 5º período

Na capoeira me descobri único

capoeira por ser um esporte que define a musculatura, mas com o tempo descobriu que a luta é muito mais que o lado estético. “Fui gostando muito da capoeira por toda a sua história, foi uma luta de libertação dos escravos e também é uma luta que tem ritmo, musicalidade. Várias outras culturas hoje estão englobadas à capoeira, como a puxada de rede, o maculelê, samba de roda, dança do fogo,” conclui. A capoeira, além de ser um esporte de inclusão social, tem um caráter cultural por ser um retrato histórico do sofrimento dos escravos em busca dos direitos como

Foto: Breno Simão Araújo

Mais do que uma forma de defesa, a capoeira é utilizada como expressão cultural. Exemplo disso são os movimentos sociais que incorporam a capoeira para integrar e resgatar a cultura negra como forma de inclusão social e conhecimento histórico em seus projetos. Segundo a especialista em cultura negra e capoeira, Vanessa Gomes Campos, é “devido à capoeira que várias crianças que estão à margem da sociedade conseguem ter um mínimo de lazer”. O estudante do ensino médio Lucas Oliveira é morador do bairro Taquaril e aprendeu na capoeira autoconfiança e trabalho em equipe. “Nunca tinha sido reconhecido antes, e na capoeira me descobri único, aprendi junto com o pessoal. Na hora de praticar, me expresso e todos dizem que jogo bem”, conta. Para o mestre em capoeira Toninho Calavarieli, o principal fundamento da atual capoeira é a integração entre homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros. Para ele, a capoeira ensina a respeitar os limites próprios e do outro, facilitando o convívio em grupos. “Não existe capoeira que se joga sozinho, ela inclui todos, tanto que saiu da senzala para o computador, da praça da rodoviária para a faculdade”, afirma Toninho. O estudante de educação física Breno Augusto Simão Araújo começou na

O incentivo à prática em locais públicos já foi uma forma de cont role governamental, mas as apresentações se tornaram folclore

cidadãos. É a única luta que envolve passos de dança e música típica, uma mistura que não aceita preconceitos por fundamentar sua origem na luta pela liberdade. De acordo com Vanessa Gomes, “um dos aspectos mais importantes da capoeira é no que diz respeito à historiografia do negro brasileiro, suas conquistas e manifestações”. O professor de capoeira Marcelo Santos afirma que há 18 anos vive da capoeira. “Foi na capoeira que aprendi a respeitar os mais velhos e a me conhecer melhor. A capoeira incentiva olhar quem está ao redor, nos faz lembrar da vida dos escravos. Não é uma luta individual, tem muito de social também.” De acordo com o Estatuto da Confederação Brasileira de Capoeira, o esporte se caracteriza num “sistema de defesa e ataque, que pode ser utilizada como arte, dança, ginástica, luta ou jogo, individualmente, em duplas ou conjuntos, através de movimentos ritmados e constantes, com agilidade, flexibilidade, domínio de corpo, destreza corporal, esquivas, insinuações e quedas, fazendo uso de qualquer parte do corpo, em especial pernas, braços e cabeça, tendo como movimento básico a ginga, sendo praticada com acompanhamento de instrumentos musicais, sendo indispensável o uso do berimbau”. Segundo Eyder Sen-

na, professor de educação física, a capoeira proporciona variados benefícios à saúde, como o emagrecimento, melhoria da postura, recuperação de lesões musculares e crises asmáticas. Como ainda não existem cadastros dos grupos de capoeira em Belo Horizonte, Senna pretende, em agosto deste ano, começar uma pesquisa para registrar dados como quantidade de grupos e capoeiristas existentes na cidade. Por ter sido usada de forma violenta, a capoeira chegou a ser proibida e só foi liberada em 1930, no governo de Getúlio Vargas, para então ganhar popularidade. Vanessa Gomes explica que, “antes da liberação, os capoeiristas se encontravam nas matas, canaviais e quilombos. Após a liberação e através de uma jogada política para conter a população, a capoeira passou a ser encarada também como manifestação folclórica, apresentando-se em praças. “Os policiais da época acreditavam estar ‘vigiando’ toda a negrada. Hoje, virou uma tradição cultural”, esclarece. Quem nunca se deparou com uma roda de capoeira ao som do berimbau enquanto passeava pela Savassi, Praça Sete ou pela Feira de Artesanato? Esta cena não é difícil de ser encontrada em Belo Horizonte desde a década de 60, quando os

primeiros grupos surgiram. Há controvérsias sobre a origem dela na capital mineira. A mais sólida é que teria sido trazida pelo mestre Toninho Calavarieri, que se dedica ao esporte há 60 anos. Mineiro de Juiz de Fora, Toninho hoje é presidente da Federação Mineira de Capoeira. Ao chegar em BH, iniciou um trabalho de propagação da capoeira que rende frutos em todo o país e até mesmo fora do Brasil. A maioria dos aprendizes eram universitários que nem mesmo tinham dinheiro para pagar as aulas. Ao se apresentarem na Feira Hippie, as pessoas confundiram o atabaque com pedido de dinheiro, então as apresentações passaram a ser semanais, ajudando a construir a tradição da feira. Muitos mestres em capoeira foram formados nesta época com ajuda do mestre Dunga, que foi trazido de São João Evangelista por Toninho Calavarieri. A partir daí, a capoeira criou raízes, se espalhou, evoluiu tecnicamente e fez com que surgissem diversos grupos e associações. Chamarizes para o esporte, o caráter popular e a fácil acessibilidade são também algumas de suas marcas. A capoeira dispensa altos recursos financeiros e os prérequisitos para praticá-la são a vontade e dedicação.


Ailton Sena chega em quarto

Trabalhos que exigem preparação física acolhem atletas que correm por seus sonhos Por Eugenio Baldoni - 5º Período Qualquer semelhança é sim uma grande coincidência. Ailton Sena além de carteiro também é vencedor, como o ídolo Ayrton Senna da Fórmula 1. Ailton chegou em quarto lugar na rústica de Porto Alegre. Ele é um dos corredores dos Correios de BH e, no circuito em que trabalha, faz muitos pit stops para deixar as correspondências. As caminhadas longas que faz pela cidade, descendo e subindo ladeiras, pegando chuva, sol quente, trânsito perigoso e até cães bravos, para ele não são motivo de desânimo. “As cartas que entrego têm um lado muito bom porque nelas há saudades, amor e carinho e isto me incentiva a trabalhar”, conta. Na vida de Sena nada foi muito fácil. Quando tinha tempo observava a equipe de corridas dos Correios treinarem para competições. Logo começou a treinar sozinho. “Estava pesando 80 quilos e hoje estou com 62”, comenta. Ele conta que no começo ia correndo de sua casa, em Santa Luzia, até o bairro São Benedito, onde fica o centro de distribuição domiciliar. Eram dez km para ir, dez para voltar e mais oito do circuito de entregas de correspondência - 28 km por dia, pelo menos três vezes por semana. Neste mesmo ano, Ailton Sena já representava os Correios e, na final da corrida dos carteiros em Brasília, chegou em quarto lugar. Depois deste resultado, foi chamado para fazer parte da equipe do Programa de Apoio Permanente ao Empregado. O carteiro começou a receber pares de tênis, suplemento alimentar com aminoácidos para melhorar a musculatura, energéticos e quatro horas para treinar dentro do horário de trabalho. Sena já correu em várias capitais brasileiras e chegou em primeiro lugar em duas delas: Brasília e Porto Alegre. Emocionado, ele conta que chegou a ganhar R$1 mil em uma das competições. “Meu sonho é vencer uma grande corrida”, confessa.

Atrás do caminhão

Assim como Ailton, outro campeão com nome de celebridade é Carlos Roberto da Silva. O coletor de lixo da SLU em Belo Horizonte mora em Sabará e três vezes por semana sai de casa às 4h da manhã e vai cor-

Foto: Eugênio Baldoni

Cidadania

Jornal laboratório do curso de Comunicação Social do Centro Universitário UNA

Sempre correndo, Ailton Sena une profissão e esporte

rendo até o serviço de limpeza urbana da capital. São 23 km. Atrás do caminhão, com sacos de lixo nas mãos, Silva percorre ruas e avenidas, todos os dias, das 7h às 13h. “Não posso demorar, o motorista do caminhão tem prazo de entrega do material recolhido”, conta ele, que não pára com o fim do expediente. No pit stop, aproveita para abastecer. “Pego minha marmita com arroz, feijão, macarrão e, de vez em quando, uma carninha de peixe ou de boi”, diz. Colocado o combustível, Silva calça o tênis, liga o turbo e vai para outra pista - diz que não tem tempo a perder. Vai correr na Avenida dos Andradas. Seu percurso é variado. Ele conta que quarta e sexta vem correndo de Sabará e no resto da semana treina velocidade e resistência. “Corro de 13h até às 16h. A SLU nos libera neste horário para a gente treinar. De-

pois volto e bato meu ponto”, conta. Silva já participou de várias corridas, entre elas a de Blumenau, com quatro mil competidores, na qual chegou em décimo lugar. “Teve uma corrida lá em Sabará, dia 1º de maio, que cheguei em terceiro lugar, ganhei uma graninha e um troféu muito bonito. Meu sonho é vencer uma maratona importante, disto eu não abro mão”, anuncia.

Cuidados

Para a fisioterapeuta e especialista em Reabilitação Cardiovascular, Érika Miranda dos Santos, a atividade exercida por Silva traz grandes benefícios, mas pode trazer problemas. Como ele corre com calçados impróprios, botas que protegem de acidentes como cacos de vidros, pode ter problemas nas articulações.


Cidadani a

Radicalizar sim, destruir o meio ambiente não

Motociclismo em trilhas pode causar sérios impactos ambientais, como erosão e concentração de água da chuva

Por Elizabeth Lima - 5º Período

dos veículos, que atrapalha o ciclo reprodutivo dos animais, e o impacto visual causado pelo prejuízo à vegetação”, afirma Múcio. Segundo o engenheiro e professor do mestrado de Turismo e Meio Ambiente da UNA, Eduardo Bahia, os veículos podem causar grandes impactos em trilhas localizadas em meio à vegetação se não existir um estudo eficaz para a prática do esporte. Podem desencadear a compactação e erosão do solo, perturbação para as plantas e animais, poluição da atmosfera, água e solo em função de gases emitidos, vazamento de óleo e gasolina e alta temperatura do motor. “É possível que haja uma reversão dos impactos com estudos de quais as trilhas e o tempo que esses veículos podem ficar em contato com o solo”. Para o praticante do esporte Henrique de Paiva, o trail envolve liberdade e desafios. “É prazeroso sair nos finais de semana com toda a turma e ficar o dia inteirinho pra andar dois quilômetros, ou tirar uma moto de um amigo que ficou atolada. O esporte é uma terapia”, conclui. Pensando nas questões ambientais, o Trail Clube de Minas Gerais desenvolve campanhas educativas de conscientização. O clube está preocu-

Foto: Elizabeth Lima

A trilha de motociclismo é uma atividade esportiva realizada por aproximadamente quatro mil treieiros na capital mineira. Ao mesmo tempo em que propicia a interação com a natureza, o esporte merece atenção, pois o aumento do número de praticantes resulta em exploração de fatores ambientais. Ronald Santi, praticante do esporte há 35 anos, afirma que trilhar livremente pelas montanhas é uma sensação única. Para Ronald os motociclistas devem ter alguns cuidados para preservar o meio ambiente e conservar as trilhas. O professor de geografia e análise ambiental Múcio Figueiredo afirma que o esporte é vivido por aventureiros que buscam o prazer momentâneo, sem avaliar o processo de degradação a longo prazo. A solução não é deixar de praticar o esporte, mas conscientizar as pessoas que gostam de estar em contato com a natureza e precisam saber quais as trilhas e qual o período em que podem utilizá-las para contribuírem com o meio ambiente. Segundo ele, a erosão forma uma cavidade nas trilhas e concentra as águas das chuvas, arrastando partículas diversas aos córregos e gerando impacto na flora. “Outros problemas são o barulho

É possível praticar o esporte sem degradar o meio ambiente

pado em sinalizar e mapear a área para que novas trilhas não sejam abertas. A preocupação levou a associação a negociar com a Semad (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável). A proposta da secretaria é delimitar uma área específica e preservá-la, com projeto de recuperação periódica sustentável, fechando algumas trilhas enquanto se utilizam outras. Com o apoio da Polí-

cia Florestal, pretende punir os “radicais livres”, que são os treieiros não associados às entidades, e garantir que seus atos não sejam prejudiciais ao meio ambiente. O presidente do clube, Gustavo Jacob, afirma que devido às recuperações periódicas e preventivas que o clube faz ainda é possível praticar o esporte em trilhas com mais de 30 anos de existência.

Esportistas mais preocupados com a preservação

Por Glauco Vargas - 5º Período

O bom convívio com os moradores é fundamental

cientes, mas ainda falta muita coisa a se fazer. “As pessoas que têm freqüentado esses locais estão mais cientes da importância de se preservar a natureza, pois se não fizerem isso, não só o meio ambiente sofrerá, mas também eles próprios, que perderão um espaço para seu lazer e sua prática esportiva”, afirma. Henrique Araújo, ambientalista e organizador de provas em áreas preservadas, afirma que essas práticas têm sido adotadas por muitas empresas do ramo. Segundo Henrique os organizadores estão privilegiando os locais onde já ocorrem essas práticas, evitando a abertura de novas trilhas e a conseqüente erosão. “Também tomamos cuidados para que os participantes sigam as trilhas determinadas pela organização, impondo penalidades para quem sair das áreas demarcadas”, conta. De acordo com o esportista, o bom convívio com os mo-

radores é outro ponto fundamental na realização dos eventos. “Além de manter o meio ambiente, também procuramos respeitar os hábitos e costumes dos moradores da região, bem como avisá-los da realização das provas com antecedência”, diz Henrique. Morador da região da Serra do Cipó, João de Fátima acha que as pessoas têm mais consciência, mas ainda ocorre muito desrespeito com a natureza. “As pessoas que vêm acompanhadas por empresas especializadas no ramo cuidam mais do meio ambiente. Mas o que mais nos preocupa são aqueles visitantes que vêm passar o dia ou o fim de semana, pois muitas vezes largam todo o lixo espalhados por nossas áreas”, analisa. Outra preocupação dos moradores são os motoqueiros, que freqüentemente invadem novas áreas e abrem cada vez mais trilhas.

Radicalmente Consciente A ambientalista Maria Dalce Ricas dá dicas para você se divertir sem prejudicar o meio ambiente. 1- Planeje sua aventura para que ela saia dentro do esperado. 2- Cuide da segurança, pois os locais são de difícil acesso e um resgate pode demorar, além de causar um impacto muito grande. 3- Recolha seu lixo, evitando que seja jogado no meio das matas. 4- Não altere a paisagem local. Tente manter o ecossistema como está, pois ele serve de abrigo e fonte de alimento para os animais. 5- Evite fazer queimadas porque a vegetação pode demorar anos para se recuperar. 6- Mantenha uma boa convivência com os moradores locais, respeitando seus hábitos e costumes.

Infográfico: Áurea Maíra Costa

A ambientalista Maria Dalce Ricas apresenta um manual para a prática consciente das modalidades esportivas junto ao meio ambiente. “Primeiramente é preciso fazer todo o planejamento para que sua aventura saia dentro do esperado”, diz. Outra dica é recolher seu próprio lixo, evitando que seja jogado no meio das matas, e ainda não alterar a paisagem local, para evitar interferências no ecossistema. Pa-ra a ambientalista, é importante manter uma boa convivência com moradores locais, respeitando seus hábitos e costumes. Dalce Ricas acha que os esportistas estão mais cons-


C idadania

Futebol é aliado dos pais na hora de educar

Esporte incentiva a educaçăo e traz bons resultados para as crianças também fora dos campos Por Poliana Leite - 5º Período

Orientamos o comportamento não só dentro do projeto, mas na vida

Infográfico: Poliana Leite

O bom comportamento, o relacionamento com a sociedade, o desempenho na escola e o desenvolvimento do lado social dos garotos são frutos de uma relação permanente com os familiares. “Nós temos os ‘dez mandamentos’ do projeto, que nos ajudam na hora de incentivá-los. Os pais sempre nos procuram para conversar sobre os meninos, porque orient-mos quanto ao comportamento não somente dentro do projeto, mas na vida como um todo”, afirma Maria Célia. Para ela, associar o futebol com o ensino, não somente na escola, mas também na vivência, é muito importante porque deixa as crianças mais O alongamento é comandado por um atleta diferente a cada treino estimuladas a estudar. No Centro Taffarel de Fucom a educação não é muito difetebol, a relação do esporte rente. Apesar de não pedir o boletim escolar, o acompanhamento do desempenho dos alunos é feito no diaa-dia, por meio de contato com os pais. A educação, a disciplina e principalmente o trabalho em equipe são pontos bastante trabalhados com os alunos. “O nosso treinador sempre fala sobre nossas notas na escola, e quando alguém tira nota baixa ele chama pra conversar e vê o que está acontecendo”, afirma Vitor Hugo Souza Silva, que treina no local. Hugo disse ainda que o bom relacionamento entre os membros do time é ele precisa respeitar os outros. “A sempre cobrado, pois um precisa do escola me dá como resposta coisas outro pra jogar. muito boas, ele teve um desenvolvimento muito grande até na hora de Benefícios aprender que nem sempre ele vai vencer”, conclui. As mães e as escolas sentem a Para Marta Helena Amaral, mudança no comportamento das cripedagoga e vice-diretora da Escola anças depois que começam a praMunicipal Prefeito Aminthas de ticar futebol. “Eu coloquei meu filho Barros, estas iniciativas de aprona escolinha por recomendação do ximação do futebol à educação são colégio, pois ele era extremamente muito importantes. “Nestes projetos, agitado, não gostava de normas e o aluno tem ocupação durante o dia regras”, conta Marita Gastin. Para todo. Isso evita que eles fiquem na ela, o esporte fez com que seu filho rua enquanto os pais trabalham. entendesse de uma forma lúdica que Desta forma, tornam-se mais comexistem regras e que, para vencer, promissados com a escola” declara.

Foto: Henrique Carmo

Escolinhas de futebol investem em palestras educativas, cursos profissionalizantes e acompanhamento individual de notas para incentivar o melhor desempenho de crianças e adolescentes na escola. “É importante aproximar o esporte que os meninos gostam, a escola, as boas maneiras e o conhecimento que eles poderão utilizar em suas futuras profissões”, afirma Maria Célia Castilho, coordenadora do projeto De Olho no Futuro, do Centro de Futebol Zico. No projeto os alunos aprendem desde higiene bucal até sobre responsabilidade, drogas e violência. Para que possam acompanhar o desempenho dos garotos, todos apresentam o boletim escolar. Quem não tiver bom desempenho vai para a escolinha de futebol, mas em vez de treinar, fica estudando ou fazendo os deveres de casa. Além disso, antes de todos os treinos, os alunos que participam do projeto visitam por pelo menos 30 minutos a biblioteca, onde podem pegar livros e estudar.


Cidadani a

Esporte na Pedreira Prado Lopes valoriza cidadãos Associações e município se unem para levar o esporte à comunidade da Pedreira Prado Lopes Por Karla Vieira - 5º Período

A Vila Pedreira Prado Lopes, localizada na região Noroeste da capital, conta com vários projetos sociais em que o esporte ocupa um lugar de destaque: o da inclusão social. O Fica Vivo, por exemplo, é um programa que existe há três anos e tem como objetivo o controle de homicídios entre jovens de 12 a 24 anos. É uma ação realizada pela Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (SEDS), através da Superintendência de Prevenção à Criminalidade (SPEC). O programa atende 13.600 jovens em 450 oficinas de esporte, cultura e comunicação, além de cursos profissionalizantes. “A única coisa que a gente recebe é a alegria de não deixar os meninos

entrarem na droga”, enfatiza Silvio Duarte, morador da Pedreira, mais conhecido como Binha. Ele exerce um trabalho voluntário como técnico de handebol e futsal do projeto Arca PPL (Pedreira Prado Lopes), além de ser técnico de handebol e futebol do programa Fica Vivo. O Arca PPL tem seis anos de existência e é liderado pela Associação de Bairro. É um projeto voluntário onde são oferecidas várias atividades esportivas. O handebol feminino que iniciou o projeto ganhou a companhia de um time também masculino, além do futsal e vôlei. Os treinos acontecem quatro vezes por semana na Escola Municipal Belo Horizonte. Binha, quando fala dos meninos da Arca, enche os olhos de emoção “Sou

Campeões são formados a partir de sonhos Por Henrique Carmo - 2º Período

atletas, são formados cidadãos”, diz Fernando Matheus, professor do garoto. O desejo de vestir a camisa do time do coração, entrar em campo com o estádio lotado, escutar a torcida gritar o seu nome e marcar um gol decisivo aos 47 minutos do segundo tempo, mexe com a cabeça da maioria dos amigos de Romarinho. Mas existem aqueles que preferem seguir outros caminhos. É o caso de Washigton Leite de Lima, 14 anos, que pretende formar-se em Educação Física. Para ele, o sonho de ser professor é uma forma de retribuir todos os ensinamentos dados por seu grande ídolo, seu pai. Além disso, poder ensinar a outros garotos tudo aquilo que hoje aprende no projeto, como a importância da coletividade em todos os momentos da vida, aumenta o interesse do menino em seguir nesse rumo.

o apoio da Federação Mineira de Handebol. “Os meninos trabalham o corpo, competem. Quando você tem uma vida esportiva legal, ela abre portas para o emprego e para a escola. Muitos aqui são disciplinados e dedicados. São muito bons no esporte e têem futuro”, conta. O treinador garante que não há nada melhor que o esporte para a autoestima e para aliviar o estresse. Para ele, os campeonatos esportivos favorecem interações entre crianças da PPL e outras de diferentes níveis sociais. Mas as atividades na Pedreira não param por ai. A ONG Grupo Espírita O Consolador atua na área de assistência social e desenvolve ações que visam a inclusão, proteção e promoção social da comunidade. Gladston da Silva Lage é o diretor responsável pela ONG e realizador de dois projetos sociais: o Albergue Noturno Tia Branca e o Hora Bolas. Gladston defende que “o esporte permite o exercício do respeito às regras, trabalho coletivo, aceitação da derrota, desenvolvimento estratégico e competitivo. Prepara as pessoas para a vida”.

Foto: Henrique Carmo

Baixinho, marrento e bom de bola, Romário Santos de Jesus, faz jus ao nome. Bastante comunicativo e desinibido, Romarinho diz que sonha em ser jogador de futebol, e seu maior ídolo no esporte é Ronaldinho Gaúcho. Nascido em 1994, recebeu esse nome porque sua mãe quis homenagear o atacante da seleção que estava em ótima fase e caminhava com o time rumo ao tetra campeonato mundial, nos Estados Unidos. O Centro de Futebol Zico, em parceria com o América Futebol Clube, criou o projeto social De olho no futuro, ondel os alunos, além de aprender futebol, têm acesso a aulas de informática e cursos profissionalizantes. Apresentar o boletim escolar é uma forma de controle que o projeto utiliza para orientar as crianças e ajudá-las fora dos treinamentos. Romarinho é um dos 350 alunos do projeto que fica no bairro Buritis, zona oeste de Belo Horizonte. “O sucesso de um projeto social como o nosso fica evidente quando, além de se formar bons

amigo, irmão, pai, psicólogo, conselheiro. Um pouco de tudo. Sempre digo para eles que sendo honestos e trabalhadores não tem que ter vergonha do lugar onde moram. Ensino que a única diferença que existe entre os meninos daqui e outras crianças é que as outras possuem um maior poder aquisitivo. E só!”, dispara. Cada oficineiro do projeto recebe uma bolsa de R$717 por mês, numa carga horária de 25 horas mensais. Para a Secretaria de Estado de Defesa Social, o projeto faz com que os adolescentes sejam incluídos no mercado de trabalho ao desenvolver suas habilidades artísticas e competitivas. Dados da Secretaria mostram que o índice de homicídios na Pedreira Prado Lopes caiu 77,5% de 2004 a 2006, ou seja, com a implantação do programa. “Os jovens de 13 a 17 anos morriam. Três deles morriam já de manhã e dois à noite. Na guerra do tráfico é assim. Cada menino trabalha para seu traficante. Tanto no Fica Vivo como no Arca os meninos do tráfico participam das atividades. Uns param de traficar, outros não”, resume Binha. Ainda segundo Binha, o comprometimento e a alegria dos alunos é tão grande que já até chegaram a disputar Campeonato Mineiro e Brasileiro com

Apaixonado pela bola, Romarinho aprende não só futebol, mas também informática


Jornal laboratório do curso de Comunicação Social do Centro Universitário UNA

Comportamento

Bloqueadas pela genética

Ao contrário do ditado popular, em alguns casos tamanho é documento sim

Por Fernanda Silva - 1º Período

Facilitador

Segundo o preparador físico do Minas e da seleção feminina de vôlei, Rômell Milagres, é mais fácil pegar uma pessoa alta e ensiná-la a jogar do que uma garota baixa que joga bem e fazê-la crescer. Já Caroline Lana não teve problemas com a genética. Com 14 anos e 1,83cm de altura, a jogadora foi aprovada para treinar no Minas. Ela disse que ainda quer crescer mais 4 cm, pois facilitaria mais sua carreira. “Minha altura facilitou muito meu teste. Quando o preparador físico perguntou a minha idade, ele disse que eu ainda ia crescer e que isso é ótimo”, conta. Caroline, ao contrário de Júlia, sempre foi muito incentivada a jogar vôlei pela sua altura. Apesar de já gos-

tar do esporte, a garota confessa que a altura influenciou bastante para que ela o praticasse. Enquanto para Julia o vôlei é um sonho impossível, para Caroline ele é uma realidade que abriga uma carreira promissora. Tudo graças à genética, que deu rumos diferentes à vida dessas duas atletas.

Foto: Fernanda Silva

Três horas de intensos treinos por dia, um campeonato ganho pela seleção de vôlei de Conselheiro Lafaiete e muita dedicação não foram suficientes para que uma das jogadoras de destaque da cidade pudesse treinar no Minas. Por uma trapaça da genética, Júlia Rezende, 14 anos e 1,57 m de altura, passou em todas as provas do teste de seleção, mas não foi chamada por causa de sua altura. No momento do teste, Júlia não imaginou que pudesse ser barrada por essa característica. Ela pensou que suas qualidades como atleta sobressairiam. No entanto, não foi isso que aconteceu, e o sonho de se tornar uma jogadora de vôlei profissional não se realizou. Júlia voltou para casa desiludida. “Fiquei muito triste e até revoltada. Não acho justo ser desclassificada porque sou baixa, pois jogo bem e sou ágil. Mas não teve jeito. No teste haviam meninas que jogavam pior do que eu e foram selecionadas por serem altas”, diz.


Comportament o

Mulheres sem impedimentos para o esporte Do boxe ao futebol, meninas e mulheres não têm dado bola para o preconceito Por Rebeca Dias - 5º Período

Infográfico: Rebeca Dias

Competição, força e velocidade já foram adjetivos usados apenas para os homens no esporte. Mas a realidade mudou. Muitas mulheres têm driblado a estranheza inicial de alguns e decidido praticar esportes que já foram vistos como masculinos. Mas o preconceito ainda existe? Roseane Lopes de Lima, de 19 anos, é exemplo de uma mulher que deu um nocaute no preconceito. Há três anos, luta Kung Fu, Wu-shu e já ganhou até o campeonato mineiro em sua categoria, o Sanshou, conhecido como boxe chinês. Ela conta que tudo começou num projeto social. “No início meu pai não gostava muito, mas agora já se acostumou”. Roseane confessa que adora o esporte, mas acha que o preconceito pode afastar algumas meninas. “Tem pessoas que chamam a gente de sapatão, mas eu não to nem aí. Acho que tem algumas meninas que não praticam o esporte por medo de serem rotuladas”, diz. Para a professora de educação física Carla Fahel, o preconceito vem muito antes. “Desde pequenos os meninos sempre ganham bola. É um reforço histórico que eles recebem desde criança, portanto é natural que existam bem mais meninos jogando”, lembra. O futebol chegou a ser proibido pelo mesmo presidente que deu direito de voto às mulheres. Em 1932, Getulio Vargas sancionou uma lei que dizia: “às mulheres não se permitirá à prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. O artigo delegava poderes ao Conselho Nacional de Desportos, que nomeava todo tipo de lutas, futebol, pólo, rugby e beisebol proibidos para o sexo feminino. Dizia-se que estes poderiam ter efeito prejudicial à saúde da mulher. Só que as tais “condições da natureza feminina” partiram para o ataque. “A prática esportiva é altamente educativa, tanto para meninos quanto meninas”, diz Hercilene Siqueira, integrante do Centro de Referência de Educação da Saúde da Mulher, o Musa. “Desenvolvemos atividades como futebol e handebol para as meninas. Acreditamos que isso as amadurece emocional e fisicamente”, explica. Hercilene afirma ainda que no Musa a idéia de que mulher não deve jogar futebol é considerada completamente ultrapassada.

Lugar de meninas é na quadra Num domingo pela manhã, numa quadra no bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte, ouve-se do outro lado da rua, entre um sambinha e outro, um zunzunzum de vozes e tênis derrapando. Um domingo comum na quadra do seu Pedro Bacarense, exceto pelo fato do jogo mencionado fazer parte de um campeonato feminino de futebol. Seu Pedro tem motivos pra comemorar - o bar está de cheio de gente cantando, bebendo e tocando. É a torcida, composta primordialmente por homens. Alguns agarrados à cerca gritam, xingam o juiz, assoviam. As mulheres em campo exibem rostos vermelhos e seriedade. Mas Deise Barbosa, que joga futebol há três anos no time da empresa, comenta que a seriedade é só no campo. “Eu sempre joguei pela diversão, me divirto bastante aqui.” Deise conta que já até quebrou o braço jogando, mas isso não a afastou do esporte. Já Ana Angélica Suarez, do time rival da Deise no domingo, leva o esporte mais a sério. Depois de algum tempo jogando, re-solveu juntar as amigas para praticar. “Sempre gostei de futebol e não só de assistir. Começamos a jogar pela em-presa, mas hoje praticamos sempre que dá”, conta. Seu Pedro comenta que “ao menos uma vez por semana as meninas estão aí.” E a torcida? “Ah, os homens gostam de vir para mexer com a mulherada” diz Ana

Angélica, bem humorada. Mas Ricardo Suarez, técnico do time, se de-fende. Ele diz que este é um espaço que as mulheres conquistaram. “Eu acho que esse negócio de que futebol é esporte só para homens já era!”, afirma. Luciana Nogueira é o que se pode chamar de uma apaixonada pelo futebol. Trabalha como árbitra de futsal há dois anos e, além de apitar, joga futebol de quadra e de campo desde os seis anos de idade. Jogou em escolas onde estudou e participou de campeonatos desde cedo. Jogou no time do Cefet e disputa hoje campeonatos universitários. Seu time no campo, o Tupinambás, ficou em segundo lugar no último campeonato mineiro. Em relação ao preconceito, Luciana acredita que os homens têm aceitado mais as mulheres no futebol, embora historicamente para ela, o preconceito permaneça. “Já vi inclusive namorado vir buscar namorada depois do jogo”, comenta. “Na maioria das vezes o preconceito vem da torcida. Sempre ouço coisas do tipo ‘vai apitar o fogão!’”, conta. Luciana acha que uma mulher numa atividade como a dela tem que mostrar ser bem mais competente que o homem, pois a cobrança é muito maior. “É uma questão de competência. O que um homem teria a mais do que uma mulher? Não há resposta pra isso!”, finaliza.


C omportamento

Busca pelo tiro perfeito motiva atletas

Esportes como arco e flecha, apesar de pouco difundidos, contam com adeptos em Minas Por Cristiano Machado - 5º Período

No tiro prático ou urbano, os atletas usam armas de fogo de diferentes calibres e também buscam acertar um alvo. Mas as exigências são maiores. É preciso ter muita atenção, precisão e uma boa respiração. O ponto principal desse esporte é o controle da adrenalina diante de um alvo, conta o instrutor de tiro prático Demetrius Oliveira. Para começar a praticar, o futuro atleta tem que ter idade mínima de 25 anos. Também é preciso se filiar a um clube de tiro prático e à Federação Mineira. O esporte é caro. Uma arma de competição importada custa em torno de R$15 mil. O aluno pode comprar uma pistola 380 por R$2,5 mil - fora a munição para os treinos e competições. Thiago Henrique Salgado é oficial da Polícia Militar e treina tiro urbano há um ano. “O esporte se aproxima da minha realidade. O tiro prático exige muita concentração – eu estava fazendo um circuito e a minha arma travou no segundo disparo, me apavorei e acabei acertando dois alvos que eram de reféns, perdi vinte pontos”, comenta. Para Alessandro Meneghini, também praticante do tiro prático, o

A prática do tiro com arco e flecha é uma modalidade apaixonante

Tiro ao alvo

História do tiro com arco

A descoberta do arco não tem data precisa, mas pinturas em cavernas e achados arqueológicos comprovam sua utilização na caça desde o período Paleolítico, na idade da Pedra Lascada. Para alguns historiadores, o arco e flecha foi uma das mais importantes descobertas culturais da humanindade, comparável ao domínio do fogo, da linguagem e da roda. Seu uso como arma vem do ano de 3000 a 539 a.C., pelos Babilônios. Os vietnamitas usaram o arco e flecha como arma na guerra do Vietnã, contra os Estados Unidos. Em 1990, o tiro com arco tornou-se esporte olímpico. No Brasil, o arco e flecha chegou na década de 50, vindo de Lisboa pelas mãos do comissário de bordo Adolpho Porta.

Encarado como hobby por muitos, tiro com arco exige concentração

controle do tempo dos disparos, aliado à precisão, é o que faz a diferença entre um bom competidor e os demais. “O praticante tem que estar altamente qualificado psicologicamente e fisicamente, pois ele está manuseando uma arma de fogo, precisa ter muita perícia”, analisa. A psicóloga Valéria Faiha diz que a ansiedade é comum nesses dois esportes, pelo nervosismo da disputa.

Valéria afirma que existem estratégias para ajudar atletas a controlarem a ansiedade, uma delas é a confiança. Paula Di Paula, psicóloga do esporte, diz que normalmente a família é quem faz a inserção dos atletas em modalidades pouco difundidas como o tiro. O ambiente não assusta tanto se o possível praticante tem contato com o esporte desde cedo, afirma.

Infográfico: Rebeca Dias

O tiro com arco e flecha e o tiro prático com arma de fogo são tidos como um hobby para os seus praticantes. Seus objetivos são comuns. Atenção e precisão aliadas a uma boa respiração são o ponto forte da prática desses dois esportes. Os preços dos equipamentos não estão entre os mais baixos, mas o que move essa rapaziada é um único objetivo – a busca pelo tiro perfeito. “A prática do tiro com arco e flecha é uma modalidade apaixonante. O arqueiro tem que ter muita concentração, equilíbrio e uma boa harmonia com o seu arco, pois o esporte exige muita destreza”, diz Ronaldo Carvalho, presidente da Federação Mineira do tiro com arco. Atleta amadora há sete anos, Adriana Serra Meninconi diz que descobriu o tiro com arco pela internet e que hoje treina todos os finais de semana no Mineirinho. Segundo Adriana, o atleta tem que ter uma boa preparação física - fazer musculação, um trabalho aeróbico e um bom alongamento antes de praticar o tiro com arco são essenciais. Marcelo Lapertosa conta que começou a praticar o tiro com arco aos quinze anos. Sua dedicação ao esporte se deve ao prazer e tranquilidade que o caracterizam, além da segurança.

Foto: Aron Cody/Divulgação


Comportament o

Esportes ao ar livre unem prazer e economia Manter a forma e a saúde ao ar livre pode trazer benefícios tanto para o corpo quanto para a mente Por Luciane Marazzi - 5º Período

A caminhada proporciona relaxamento, meditação e distração. Faz você pensar, refletir

Foto: Luciane Marazzi

Quem prefere fazer atividades ao ar livre ou não gosta de locais fechados tem a opção de freqüentar mais de trinta pistas de caminhada e corrida que estão espalhadas pela cidade. Assim, muitas pessoas encontram uma maneira prazerosa e econômica para se exercitar. Para praticar qualquer exercício é importante procurar orientação profissional. O professor de Educação Física da Universidade Vale do Rio Verde (Unincor) e especialista em fisiologia do exercício, Marcos Zang, não recomenda a prática de atividade física sem o acompanhamento. Segundo ele, a atividade deve ser prescrita individualmente, de acordo com as características, necessidades e limitações dos praticantes, adequando assim a intensidade, duração e frequência. A ingestão de líquidos e o uso de roupas adequadas e protetores para a pele contra raios ultravioletas também devem ser observados.

Caminhar ao ar livre ajuda a liberar mais endorfina do que atividades feitas em lugares fechados, como academias

Segundo Zang, durante a atividade física ocorre maior produção de endorfinas, hormônios associados ao prazer e ao bem estar. Alguns estudos demonstram que atividades ao ar livre podem gerar níveis ainda mais altos da substância. Este hormônio estaria associado a um maior nível de motivação dos praticantes de atividades ao ar livre, o que pode determinar maior regularidade da prática e melhores resultados em relação aos objetivos propostos. Os adeptos de atividades físicas ao ar livre podem desfrutar da sensação de bem estar físico e mental, além da oportunidade de interação com o ambiente. Para o professor de Educação Física e coordenador do Projeto Caminhar da Prefeitura de Belo Horizonte, Lucas Sampaio, a prática de

atividades físicas em contato com a natureza é bastante prazerosa. A funcionária pública Elisabete Lima frequenta academia e também faz caminhadas duas vezes por semana. Ela acredita que “a caminhada proporciona relaxamento, meditação e distração. Faz você pensar, refletir.” Para quem prefere o contato com a natureza, BH oferece parques, como o Municipal que tem até a marcação de quilometragem para verificar a distância percorrida. Segundo Marcos Zang, o prazer dessa atividade motiva os praticantes, o que pode determinar a prática mais regular. Para a estudante Regina Isabel, caminhar em meio às árvores traz tranquilidade, sensação de liberdade, e deixa o dia mais alegre. Entretanto, Zang ressalta que grande parte da

população urbana não se adapta ao contato direto com a natureza, principalmente nos esportes considerados de aventura. Isso influencia negativamente a motivação, gerando abandono da atividade, e pode se estender às outras práticas, levando a pessoa ao sedentarismo. O professor alerta que o ambiente agitado da cidade pode acarretar a fadiga precoce dos sistemas envolvidos na prática do exercício, diminuindo a intensidade e duração, levando ao déficit no condicionamento. Além disso, as poluições sonora e visual aumentam os níveis de estresse psíquico, reduzindo a motivação e a concentração, o que pode levar a dificuldades durante a prática da atividade e ao aumento do risco de lesões e acidentes.

Hipismo ajuda no desenvolvimento físico e psicológico das crianças Por Márcia Collares - 2º Período

O hipismo pode render bons frutos na educação de crianças. Galopes, manobras e saltos podem promover ganhos físicos, psicológicos e educacionais, segundo a professora de equitação e estudante de pedagogia Marcelle Freire. Ela ressalta que um dos pontos importantes do hipismo é a sensibilidade que se desenvolve na interação com o cavalo. Crianças agressivas e nervosas descobrem que toda ação originada por elas provoca uma reação no animal. Uma pernada pode estimular um trote mais rápido, mas,

dependendo de sua intensidade, pode originar um coice. Como normalmente animais mais dóceis são utilizados para o trato com as crianças, elas retribuem este comportamento com muito carinho. A instrutora também aponta outro benefício do esporte: o ganho de autoestima. As crianças ficam orgulhosas ao perceberem que, mesmo pequenas, conseguem dominar um animal tão grande. Sentem-se capazes de realizar tarefas, vencerem o medo e se superarem. E isso é refletido até no desempenho escolar. Crianças com déficit de atenção ou hiperatividade

são dispersivas e apresentam dificuldades na escola. Segundo Freire, quando estão em cima do cavalo elas têm que estar atentas porque qualquer descuido leva o cavalo a fugir do controle. É um exercício de concentração que reflete positivamente em sala de aula. Crianças com deficiência ou portadoras de necessidades especiais também podem fazer exercícios com cavalos, através de um método terapêutico e educacional conhecido como equoterapia. Essa atividade, segundo a Associação Nacional de Equoterapia, exige a participação do

corpo inteiro, contribuindo assim para o desenvolvimento de força, tônus muscular, flexibilidade, relaxamento, conscientização do próprio corpo e aperfeiçoamento da coordenação motora e do equilíbrio. Freire comenta que crianças cadeirantes experimentam a sensação de liberdade e de autonomia de movimentos ao montarem no cavalo. E afirma que uma criança, em uma sessão de 30 minutos, realiza cerca de 4.800 movimentos. A equoterapia não substitui a fisioterapia, mas pode ser sua forte aliada.


C rônica

Quem corre atrás da bola corre atrás de um sonho Por Henrique Carmo - 2º Período

Lá vem a bola descendo o morro e atrás dela meia dúzia de meninos descalços, que passavam o tempo jogando uma peladinha no campinho de terra e brita improvisado num beco da favela da Boa Esperança. Várias pessoas tentavam interceptá-la, mas com muita habilidade a gorduchinha se livrava da marcação e seguia o seu caminho, e atrás dela seguiam os meninos, desesperados e gritando por ajuda. Ao passar pela porta do boteco copo sujo do velho Barbatana já era possível avistar os carros que passavam em alta velocidade pela avenida principal. Destemida e certa de seu caminho, a pequena rolava por aquela rua como se estivesse deslizando no gramado de um grande estádio de futebol. Joãozinho, o mais preguiçoso da turma, observava lá do alto a trajetória da velha bola de gomos descolados, e atrás dela, seus amigos numa perseguição incansável. A cada metro a avenida se aproximava e a velha bola acostumada a testemunhar o tráfico de drogas, a pobreza e a violência dentro da favela, seguia seu rumo, tentando descobrir um mundo novo. Demonstrando cada vez mais sua habilidade e velocidade, ela finalmente chega à avenida. Dribla um, dois, três carros e em poucos segundos consegue chegar ao outro lado. Ao se chocar com o meio fio a gorduchinha dá seu último pulo e vai perdendo velocidade, até parar em frente a um portão verde bem alto. O barulho da colisão chama a atenção das pessoas e o portão verde se abre. Um senhor de idade, trajando uniforme de futebol, pega-a com todo carinho e leva para dentro de casa. As crianças que perseguiam a velha bola não arriscaram pedi-la de volta. Conformadas com o fracasso da missão, retornam para o alto do morro. A velha bola recebeu novos gomos e, junto com algumas outras, passou a ajudar aquele mesmo senhor a ensinar futebol para centenas de garotos num projeto social que ele desenvolve há 20 anos. Aqueles jovens que resolveram retornar ao morro mesmo sem conseguir alcançá-la, não jogam mais a peladinha diária, e mais do que isso: deixaram de compartilhar o novo mundo desbravado pela velha bola. Talvez outros portões verdes se abram para esses garotos. Talvez não.

Contramão no.2  

Segunda edição do Jornal Contramão

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