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nº 20

ULTIMATE FIGHT CHAMPIONS + DIVERSIDADE + APOCALIPZE + MORADORES EM SITUAÇÃO DE RUA + MERCADO LGBT + TV + UFC + PROGRAMAS SOCIAIS + DIREITOS HUMANOS + WANDERLEY SILVA + TUF BRASIL + WEBSÉRIE + HQ + MINEIRINHO JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA Ano 5 - Abril/Junho 2012 - Distribuição Gratuita


2 contramão Foto: Heberth Zschaber

EDITORIAL

Jorge Rocha Esporte ou demonstração de violência? Esta é uma questão que volta e meia torna a aparecer quando se fala em Ultimate Fight Champions (UFC), tema central desta edição do Contramão. Dividindo opiniões, esta prática esportiva tem sido alvo de um bombardeamento midiático que não deixa nada a dever ao fervor e frenesi percebidos quando os lutadores entram no octógono. A matéria desta edição do jornal aborda a sensação de encantamento despertada pelo UFC, durante a 147º edição do campeonato, realizado em junho, no Mineirinho. A equipe de reportagem desta edição, composta por alunos do 2º ao 5º período,

trabalhou ainda a situação dos moradores de rua na capital mineira e a websérie ApocalipZe, produto 100% belo-horizontino. A primeira matéria é focada no aumento do número de moradores de rua na cidade, os desafios para a reinserção no mercado e os direitos relativos às inscrições em programas sociais. Já a segunda, mostra a visão do apocalipse zumbi no Brasil, por cortesia do cineasta Guto Aeraphe, mostrando que a produção audiovisual mineira também encontrou seu espaço de veiculação na Internet. Na websérie, que pode ser acompanhada no Youtube, temos um cenário típico de ficção científica e filmes de ter-

EXPEDIENTE Jornal-laboratório do curso de Jornalismo Multimídia do Instituto de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA. Vice-reitor: Átila Simões. Diretor do ICA: Lélio Fabiano dos Santos. Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Piedra Magnani da Cunha. Contramão. Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489) e Jorge Rocha. Diagramação: Rodolfo Assis, Diego Gurgel e Juliana Anacleto. Supervisão: Reinaldo Maximiano. Revisor: Roberto Alves Reis. Estagiários: Ana Carolina Nazareno, Diego Gurgel, Heberth Zschaber, Hemerson Morais, João Vitor Fernandes, Marcelo Fraga, Paloma Sena, Perla Ester, Rute de Santa, William Gomes. Tiragem: 2.000 exemplares. Impressão: Sempre Editora.

ror, com uma narrativa que engloba desde ataques terroristas até situações onde a ética humana é colocada à prova. Cabe ressaltar, ainda, que o Jornal Contramão, desde a edição anterior, passou a concentrar-se ainda mais em estratégias de narrativas visuais, dando maior peso e complemento às matérias aqui publicadas. Uma prova dessa atenção pode ser vista na contracapa dessa edição, na HQ-tributo ao UFC, elaborada por Diego Gurgel e Hemerson Morais e na ilustração que acompanha a matéria sobre ApocalipZe. Maiores surpresas estão previstas para o próximo número com um especial sobre o Festival de Gramado. Foto da capa

Foto: Heberth Zschaber Arte: Diego Gurgel

Edição Anterior

Foto: Christian Gaul


contramão 3

MERCADO LGBT

www

Pesquisa levanta perfil de público

Fotógrafo registra o cotidiano afetivo de homens trans

Foto: Tauana Gerken

Foto: Jess T. Dugan

Afeto. casal retrado por Jess Dugan

LGBT. Tauana Gerken (primeira à direita) e o grupo pesquisaram no TCC o mercado de entretenimento e lazer em BH

Um público que gostaria de ver seus locais de lazer comprometidos com a bandeira contra a homofobia. Essa foi uma das conclusões a que chegou o Trabalho de Conclusão de Curso de um grupo de estudantes de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário UNA. Para o trabalho, intitulado “Comportamento de consumo do público gay no setor de entretenimento e lazer: um estudo exploratório na região Centro-Sul de Belo Horizonte (MG)”, foram realizadas 96 entrevistas com clientes gays em dez boates e três bares da região centro-sul da capital mineira. A equipe do Una-se conversou com a estudante Tauana Gerken, uma das autoras da monografia, que recebeu nota máxima na banca de avaliação no final do semestre passado. Una-se: Por que estudar o mercado LGBT em BH? Tauana Gerken: O interesse em estudar essa temática surgiu, no primeiro semestre de 2011, a partir da idealização do projeto de uma empresa especializada no entretenimento e lazer para o público gay em Belo Horizonte, desenvolvido durante a disciplina Tidir (Trabalho Interdisciplinar Dirigido). Notamos que não tínhamos dados para conhecer o perfil do consumidor gay em BH.

cepção quanto ao perfil e forma de consumo do público gay inserido no sistema de consumo de entretenimento e lazer em Belo Horizonte. O público médio dos nossos entrevistados tem idade entre 18 a 35 anos, mora com a família, prefere frequentar bares, restaurantes e boates, declara querer que os locais de lazer também levantem a bandeira do arco-íris e que se comprometam com o público e questionam a qualidade e diversidade dos estabelecimentos e a falta de espaços públicos. Una-se: Dos livros que vocês pesquisaram, quais vocês indicariam para os estudos LGBTs? Tauana Gerken: Não tivemos acesso a muitos livros, mas nos baseamos nos estudos de alguns autores que consideramos mais

relevantes para o tema, como Adriana Nunan, Laura Bacellar Una-se: Quais os principais re- e Franco Reinaudo. Indicamos sultados encontrados? leituras de artigos e livros dessTauana Gerken: Ao final da es autores, que abordam temas análise, concluímos nossa per- mercadológicos e sociais.

O “Una-se contra a Homofobia” nasceu do projeto de Extensão “Una é Saúde sem Homofobia: formando profissionais da saúde para o respeito à diversidade sexual e o combate à homofobia”, que iniciou suas atividades no primeiro semestre de 2011. Desenvolvido por alun@s e professor@s do curso de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Instituto de Comunicação e Artes do Centro Universitário Una, em Belo Horizonte/MG, o principal objetivo do projeto é incentivar uma cultura de respeito aos direitos humanos e à diversidade sexual no ambiente universitário com foco em uma formação cidadã dos futuros profissionais. Coordenação: Prof. Roberto Reis Foto: Roberto Reis

Una-se: E por que estudar o consumidor gay masculino? Tauana Gerken: A escolha em fazer o recorte do consumidor homossexual do gênero masculino se deu em virtude da percepção de um maior acervo de referências disponíveis e detalhadas no que diz respeito aos que, hoje, se identificam como gays. Devido ao tempo curto para o desenvolvimento e aplicação da pesquisa exploratória, optamos pela Centro-Sul.

Una-se: Quantas pessoas foram entrevistadas pelo grupo? Quantos lugares foram visitados? Tauana Gerken: A pesquisa aplicada é do tipo survey com método quantitativo. Utilizamos como fonte e guia o Manual do Sebrae para definir a quantidade de entrevistados de acordo com a nossa realidade. Conforme a tabela apresentada no manual, definiu-se que, para a pesquisa ser validada, eram necessários 96 questionários aplicados. A escolha do campo se deu a partir do recorte retirado do Guia BHG, produzido pela Libertos Comunicação, que possui a classificação dos estabelecimentos do circuito noturno gay de Belo Horizonte. Decidimos visitar 13 locais, sendo dividido em dez boates e três bares na região centro-sul.

O trabalho do fotógrafo trans norteamericano Jess T. Dugan, radicado em Chicago, explora questões de gênero, sexualidade e identidade. Em seu site, o internauta pode apreciar os ensaios que retratam o cotidiano afetivo de homens trans, como é o caso de Transcendence I e II. As fotografias de Dugan são regularmente expostas em todo os EUA e em coleções permanentes no Museu de Arte de Harvard e no Instituto Kinsey de Pesquisa em Sexo, Sexo e Reprodução. Acesse o site do artista em: http://www.jessdugan.com/


4 contramão Ilustração: Diego Gurgel

WEBSÉRIE

O TERROR em cena ApocalipZe, websérie do cineasta mineiro Guto Aeraphe, mostra um Brasil que se ergue como potência mundial, mas é o alvo de um ataque terrorista que deixa poucos sobreviventes. Ação, efeitos especiais e o insólito em cena.


contramão 5 Foto: Divulgação

Ficção científica. Acima, imagem de divulgação da websérie ApocalipZe, ao lado, a ilustração reproduz os personagens que sobrevivem ao ataque terrorista contra o Brasil, que em 2015, emerge na trama como potência na produção de petróleo em um mundo desvastado pela crise econômica

Por Bárbara de Andrade – 5º período Criaturas fantásticas marcam, cada vez mais, presença em livros, séries de TV e filmes. Há tempos, esses seres personificam uma ameaça à sociedade humana. A diferença é que hoje zumbis, extraterrestres e vampiros aparecem com um sofisticado aparato tecnológico fruto do avanço na computação gráfica que garante a esses seres uma inserção mais realística em um mundo em perigo. A websérie ApocalipZe, do cineasta mineiro Guto Aeraphe, é mostra disso. Quem poderia conceber que o Brasil passaria por um ataque terrorista e que poucas pessoas sobreviveriam? Guto Aeraphe não só imaginou, mas colocou em prática a ideia, que deu origem a ApocalipZe. “A questão central da websérie é o inusitado, o inesperado: um ataque terrorista no Brasil”, destaca o diretor. Ainda segundo Aeraphe, as pessoas veem ataques terroristas acontecendo, mas não imaginam isso no Brasil. “Elas veem isso sempre fora, na Europa, nos Estados Unidos, sempre tem um

ataque terrorista e, no Brasil, a gente acha isso distante. Então, a gente resolveu colocar esta cena, a deste ataque para poder ‘criar este pânico’ ”, explica Aeraphe. Para o cineasta, a criação de uma ficção científica é a realização de um sonho. “É algo que me fascina. Se pegarmos ficções científicas antigas, percebemos que muito daquilo que não se imaginava, que era considerada ‘viagem’ do autor, hoje já é realidade”, observa Aeraphe. “Várias coisas que a gente colocou no ApocalipZe podem acontecer. Foi fascinante, foi a realização de um sonho”, conclui. A ideia de fim de mundo, retratada em ApocalipZe, é muito presente nos dias de hoje, tanto na mídia como na cabeça das pessoas. O fim do mundo marcado para 21 de dezembro de 2012 é um assunto polêmico que vem ganhando proporção e novas teorias. “É engraçado, se for pensar bem nisso, desde que a humanidade começou a registrar nossas histórias, seja das formas mais rudimentares

até as mais famosas (bíblicas), que na cultura existe esta ideia de fim do mundo, da catástrofe. Isso chama atenção e, de certa forma, une as pessoas”, avalia Guto Aeraphe. Na web ApocalipZe tem cinco capítulos de, aproximadamente, oito minutos cada. Guto Aeraphe explica que esse formato já é um padrão das webséries. “Os webseriados devem ter um tempo reduzido, porque as pessoas vão assistir de dispositivos móveis. Então, vão fazer isso em horários alternativos, um horário de café, uma fugidinha do trabalho, uma fila de banco”. Segundo o diretor de ApocalipZe os efeitos visuais ou especiais têm certa diferença. “Só podem acontecer no filme se tiver em uma função dramática. A partir do ponto que não tem nenhuma função dramática, que estão lá por uma mera explosão, para só impressionar o público, perdem a função”, opina. “Então, se um personagem recebe um tiro, se uma ponte

explode, ou aparece explodida, se um helicóptero cai, eles têm uma função dramática ali, eles têm uma função de gerar no espectador ao menos uma curiosidade do que vai acontecer”, explica o diretor. A websérie ApocalipZe é a segunda do diretor minei- ro, a estreia foi com Heróis que era baseado baseado em fatos reais. “Narra a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial’, conta Aeraphe. Quanto à ApocalipZe, o cineasta adianta que existe a possibilidade de a a Guerrilha Filmes produzir uma segunda temporada da trama. “Nós já estamos buscando parceiros, e o que é melhor, sem depender da lei de incentivo à cultura, com investimento direto”, revela. “Mas ainda é muito cedo, porque temos de esperar o retorno dos cinco capítulos e avaliar a repercussão. Com esses números, podemos negociar com os futuros investidores”, explica Aeraphe. ApocalipZe pode ser vista no seguinte canal no Youtube: http://www.youtube.com/ user/webseriados


6 contramão Foto: Heberth Zschaber

ESPORTES

O caldeirão ferveu

Os gladiores do UFC se enfrentaram no Mineirinho sob os flashes de milhares de espectadores que não perdiam tempo e “jogavam” tudo nas redes sociais Por Heberth Zschaber - 3º período Colaboração: Rodolfo Rocha (Publicidade e Propaganda) – 7º período Um caldeirão em ebulição alimentado por uma plateia incandescente! Era esta a imagem do Mineirinho, palco da edição 147 do Ultimate Fight Champions (UFC), na noite de 23 de junho. Todas as atenções estavam voltadas para o octógono e seus gladiadores durante as principais lutas da noite: Fabrício Werdun contra Mike Russow, Wanderlei Silva contra Rich Franklim, além das finais do The Ultimate Fighter (TUF Brasil). O público parecia estar em êxtase. A cada golpe desferido, a plateia reagia como

se ela também estivesse dentro da arena. A todo instante, os flashes das máquinas fotográficas e dos celulares pipocavam de um canto a outro do ginásio. Parecia um céu. Quem estava com computador ou tablets aproveitava para atualizar seus perfis nas redes sociais. “Fiquei impressionado com as lutas e com o público, fotografei tudo, e aproveitei para mostrar nas minhas redes sociais”, disse o músico Alexandre Henrique Oliveira, 31. Quando a última e principal luta foi anunciada, o caldeirão ferveu de vez. Em

um vídeo exibido nos telões, Wanderlei Silva, o “Cachorro Louco”, prometeu nocautear seu adversário Rich Franklim. A luta tinha um gosto de revanche, pois Wanderlei já havia perdido em 2009 para Rich por decisão unânime dos juízes. O primeiro a entrar no ringue foi o americano, que mesmo vaiado, reverenciou a torcida mineira. A luta Wanderlei entrou no ringue ovacionado pela torcida, que não parava. No segundo round, Wanderlei encaixou uma boa sequência e levou o

americano para lona. A torcida explodiu enquanto Wanderlei “marretava” seu adversário, mas, com o soar do gongo, o round foi finalizado. Nos rounds seguintes, o domínio foi quase total do americano, que parecia fisicamente melhor que Wanderlei. Após os cinco rounds, o veredito dos juízes apontou Rich Franklim vencedor. “Depois do segundo round, não lembrava de mais nada, só depois do fim percebi que chegamos até o quinto. Esse é o tipo de luta que eu gosto, quando não lembro de nada do que Fotos: Rodolfo Assis


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aconteceu” declarou o norteamericano.

dum não teve piedade. O juiz, então, teve que finalizar a luta,

do muay thai. A luta, que durou três rounds, foi decidida pelo

substituiu Daniel Sarafian, machucado durante os treinos para

“A melhor plateia do planeta”. Assim definiu Dana White, presidente do UFC , ao falar do público presente no Estádio do Mineirinho. A noite começou com as lutas preliminares dos lutadores não classificados para as finais do TUF Brasil e, na sequência, o card principal trouxe para dentro do ringue os lutadores peso pesado Fabrício Werdum e Mike Russow. Ainda no primeiro round, aos 2min28, depois de uma boa sequência de golpes, o americano foi ao chão e Wer-

decretando a vitória de Werdum por nocaute. A torcida eufórica não parava de gritar “Vai, Cavalo” – apelido do lutador. A sequência de lutas esquentou mais o caldeirão em que o Mineirinho se transformou. Na primeira luta das finais do TUF Brasil, valendo o título de campeão dos pesos pena (até 66 kg), os cearenses Godofredo “Pepey” e Rony “Jason” fizeram uma luta intensa do início ao fim, trocando joelhadas e socos oriundos

corpo de juízes que, por unanimidade, definiram Jason como 1º campeão do TUF Brasil. “Essa vitória é para todos que acreditaram em mim e, também, aos que não acreditaram, pois esses também foram importantes para que eu conseguisse chegar aqui”, completou o campeão. A luta seguinte, que valia o troféu de Campeão do TUF Brasil na categoria peso médio, teve um representante mineiro. Cezar “Mutante” paulista, que mora em BH com a família, enfrentou Serginho Moraes, que

a luta. Logo no início, a luta já se mostrava disputada, com os dois lutadores encaixando bons golpes. Ainda no primeiro round, Mutante acertou um bom chute, que balançou o adversário, que mesmo assim se manteve em pé. Ao final da luta o resultado: Cezar Mutante, campeão do TUF Brasil na categoria peso médio. “Estou me sentindo muito feliz. Treinei muito para isso e esse show é para vocês. Meu sonho é representar o Brasil e isso eu consegui hoje”, declarou.

Saiba como é puxada a rotina de um lutador de MMA e como foi a apresentação e a pesagem dos gladiadores e a preparação para a luta em BH.

contramao.una.br

Ilustração: Diego Gurgel

Arte: Rodolfo Assis e Juliana Anacleto

Cerca de 16 mil pessoas compareceram para ver as lutas de Wanderlei Silva, Fabricio Werdum, Rich Franklin e Mike Russow.


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CIDADES

Por João Vitor Fernandes e Raquel Ribas – 3º período Colaboração: Ana Carolina Nazareno, Hemerson de Morais – 2º período A população de moradores em situação de rua de Belo Horizonte vem aumentando nos últimos anos. O levantamento feito pelo IBGE, em 2006, registrou 1164 moradores na capital mineira e os dois abrigos municipais juntos comportam em média 600 pessoas. De acordo com a psicóloga e educadora social do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (CNDDH), Luiza Vitral, a estimativa é a de que, hoje, BH tenha 2000 moradores de rua. “Em 2006, o IBGE fez um levantamento específico, é com esse número de 1164 moradores que nós trabalhamos. Morador de rua não entra no Censo geral. Não há dados atualizados.”, explica.

dores de rua na capital é bem superior ao do levantamento do IBGE, considerado o dado mais atualizado. “Há algum tempo, atendemos além da nossa capacidade. Hoje, o abrigo está numa situação de superlotação”, informa Morena Fialho. Para o ex-morador em situação de rua e agente de assistência social do CNDDH Edson Andrade Campos os abrigos de BH não tem vagas suficientes. “É uma situação que chega a ser desumana colocar 30 ou 40 pessoas no mesmo quarto. Alguns dormem nos corredores por falta de espaço”, alerta. De acordo com a assessora de comunicação da Secretaria Municipal Adjunta de Serviços Sociais (SMAAS) Beatriz Maciel, a regional centro-sul Superlotação abriga a maior concentração de A pedagoga do Abrigo pessoas em situação de rua. “É Municipal Morena Fialho con- difícil especificar quantos são firma que o número de mora- [os moradores de rua] em cada

regional, já que essas pessoas estão em constante circulação pela cidade”, explica. “Como o comércio e os abrigos estão localizados, em sua maioria, nessa regional, a concentração de pessoas em situação de rua é maior do que em outras áreas”. Abrigos Nos abrigos são oferecidos, além da acomodação, banho quente e duas refeições (jantar e café da manhã). Para que o cidadão em situação de rua possa usufruir desses serviços, é feita, por parte do abrigo, uma triagem periódica com assistentes sociais e pedagogos. “Após o cadastro o morador é orientado a procurar órgãos sociais para emissão documentos, inserção no mercado de trabalho”, explica a pedagoga Morena Fialho. Além dos abrigos, a prefeitura tem um serviço de

abordagem para moradores em situações de rua. “Os técnicos de abordagem vão até os locais para identificar as pessoas e tentar promover a inserção delas no ambiente familiar”, explica o técnico de abordagem do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), da regional centro-sul, Rafael Cândido. Além desses serviços, existem, ainda, os encaminhamentos para centros de reabilitação para dependentes químicos. Neste ano, foi aprovado uma verba do Orçamento Participativo (OP), para construção de três centros de referência para moradores de rua. “Conseguimos conscientizar a população e vamos construir um centro no Santo Agostinho, outro na Pampulha e um na região leste”, informa Edson Campos do CNDDH.


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Os serviços de abordagem não têm números atuais, mas estimam o aumento da população em situação de rua em BH. Os abrigos da capital não têm vagas suficientes e o Centro Nacional de Direitos Humanos denuncia a violação dos direitos fundamentais

Foto: Heberth Zschaber

...pelas ruas


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PESQUISA

Reinserção ao mercado de trabalho é desafio para Sedese Por Ana Carolina Vitorino, Cássia André, Larissa Lauar, Marina Scutasu e Thiago Henrique e – 2º período Colaboração: Hemerson de Morais e João Vitor Fernandes – 2º período De acordo com a subsecretária de assistência social da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), Nívia Soares da Silva, um dos desafios do trabalho com a população em situação de rua é a criação de políticas de qualificação profissional e geração de renda. “A finalidade dessas políticas é explorar o potencial do então morador de rua para que ele possa se readaptar ao mundo do trabalho”, explica. A Sedese apresentou os resultados de uma pesquisa com 792 moradores de rua, em 222 municípios mineiros, durante o II Seminário de Políticas Públicas, em maio. De acordo com essa pesquisa, realizada em 2011, 92% dos moradores de rua almejam retornar ao convívio familiar, trabalhar e sair das dependências químicas dentre elas o álcool, o tabaco e as drogas ilícitas (ler gráficos). Ainda de acordo com a pesquisa da Sedese, a maior

Ilustração: Diego Gurgel / Fonte: Sedese

parte dos moradores de rua, em Minas Gerais, possui algum grau de alfabetização, tem família e menos da metade está nas ruas há mais de 10 anos. Rede Quanto à dependência química, segundo a subsecretária, há a necessidade de ampliar a rede de atendimento por meio do Centro de Atenção Psicossocial para Tratamento de Álcool e Drogas. “Não há uma legislação federal que oriente as ações relativas aos moradores de rua, apenas decretos”, esclarece a Nívia Silva. Segundo o agente do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (CNDDH), Edson Campos um dos primeiros laços que os moradores rua rompem é com a família devido à dependência química. “As famílias não os aceitam e, muitas vezes, nos abrigos, eles encontram uma situação de violência semelhante a que ele encontra na rua”, explica Campos.

“As políticas de qualificação visam readaptar o morador em situação de rua ao mundo do trabalho” Nívia Soares, subsecretária de assistência social (Sedese) Foto: João Vitor Fernandes


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PROGRAMAS SOCIAIS

Moradores têm direito à inscrição em programas sociais Por Ana Carolina Vitorino, Cássia André, Larissa Lauar, Marina Scutasu e Thiago Henrique e – 2º período Colaboração: Hemerson de Morais e João Vitor Fernandes – 2º período Segundo o gerente de cadastro de programas de transferência de renda, Josafá Leite de Oliveira, os moradores já acolhidos por programas sociais e residentes em abrigos e albergues, têm direito ao programa Bolsa Família. “Além da referência fixa, é necessário fazer o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, o CadÚnico. Entretanto, o cadastro não implica na entrada imediata no programa Bolsa Família. Para

ser selecionado, o morador de rua deve se encaixar no perfil de extrema pobreza, cuja renda não ultrapassa a R$70,00 mensais”, explica Oliveira. O morador em situação de rua, ao ser inserido no Programa Bolsa Família, passa a receber o benefício básico, no valor de R$70,00. O beneficiado também ganha o direito de almoçar no Restaurante Popular, bastando para isso apresentar o comprovante do CadÚnico. Para se cadastrar, basta procurar um

dos postos que estão localizados estrategicamente em cada regional da cidade. Auxílios Para a psicóloga e educadora social do CNDDH, Luiza Vitral o Programa Bolsa Família tem beneficiado muitos moradores de rua, porém não é um programa pensado, especificamente, para essa população. “O Bolsa Família é um programa amplo, porque não é só para moradores em situação de rua,

engloba, também, pessoas que moram em áreas de risco. É uma contribuição que não tira ninguém das ruas”, avalia a psicóloga. Além dos abrigos municipais, a população conta com o auxílio da Bolsa Moradia que é uma ajuda de custo de R$400,00 para o usuário pagar o Aluguel e o Bolsa Família do governo federal. “É um programa de difícil acesso para o morador de rua, pois exige comprovação de endereço”, esclarece.

“O Bolsa Família é um programa amplo, porque não é só para moradores em situação de rua. É uma contribuição que não tira ninguém das ruas” Luiza Vitral, psicóloga e educadora social do CNDDH Foto: João Vitor Fernandes

O direito de ir, vir e permanecer Por João Vitor Fernandes e Hemerson de Morais e – 3º e 2º períodos

“É fácil julgar uma realidade que não conhecemos” declara a psicóloga e educadora social do CNDDH, Luiza Vitral. “Quando pensamos em pessoas em situação de rua, vemos isso como algo muito complexo. Existem os que estão ali porque tem todos os direitos negados, existem os que estão nas ruas porque querem e têm o direito de ficar ali”, explica. O decreto presidencial nº 7053/2009 que institui a Política Nacional para

a População de Rua garante a qualquer cidadão o direito de usar a rua como moradia e forma de sustento. Direitos A Constituição Federal garante a qualquer cidadão o direito de ir, vir e permanecer, porém esse direito costuma ser violado. “Quando os moradores em situação de rua estão em alguma praça e vem o caminhão pipa jogando água em seus pertences, isto é uma violação de direito, pois

não existe nenhuma lei que proíba os moradores de ficar ali”, esclarece Luiza Vitral. De acordo com o agente do CNDDH Edson Campos, as políticas de assistência aos moradores de rua, em Belo Horizonte, precisam melhorar muito. “Ninguém é doido de querer ficar na rua, à margem de tudo, humilhado, sozinho. A pessoa que fala que quer ficar na rua é porque sabe que o abrigo é pior. Então, ela se acostuma a ficar na rua”, conclui.


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UFC NÃO É SIMPLESMENTE UMA LUTA

contramao.una.br

Jornal-laboratório Contramão  

Edição 20 do Jornal-laboratório Contramão, do curso de Jornalismo Multimídia, do Centro Universitário UNA.

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