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EDIÇÃO ESPECIAL TEAT(R)O OFICINA JORNAL LABORÁTORIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

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OPINIÃO

FOI MAIS DO QUE UMA PEÇA DE TEATRO

Por Ana Paula P. Sandim O conteúdo deste artigo não expressa a opinião do Contramão

Foto da capa EDIÇÃO ESPECIAL TEAT(R)O OFICINA JORNAL LABORÁTORIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

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O horário de verão não deixava o crepúsculo ter cara de noite. Na fila, pessoas cult e os dois extremos sociais, bem representados pela distribuição do espaço ao redor da enorme tenda montada na Barragem Santa Lúcia: a mistura entre o lado rico e o lado pobre daquela barragem começava, de um modo estranho, a fazer sentido. Três dias antes do tão polêmico 25 de outubro, fui convidada para assistir a uma peça do ilustre Zé Celso. Minha primeira pergunta foi: quem é Zé Celso? Pode soar estranho, mas na noite do dia 22 de outubro de 2010, às 19h40, poucos ou quase ninguém daquela sala de aula sabia ao certo quem era esse ilustre cidadão. José Celso Martinez Corrêa é um dos principais nomes das artes brasileiras, da primeira geração encenadores 100% nacionais, e uma das figuras mais importantes ligadas ao teatro no mundo. Sim, esse é o cara, mas não foi assim que me foi apresentado. Zé Celso e suas polêmicas peças teatrais me foram apresentados em O Banquete. Quatro horas de peça, 23 pessoas entre músicos, atores e outros artistas (e um pequeno detalhe: alguns completamente nus): esse era o tal de Zé Celso e seu grupo Uzyna Uzona. Choque para muitos, curiosidade para poucos. 25 de outubro de 2010. Após a entrega dos convites, os rumores e as expectativas rondavam todo o ambiente. Parada naquele terreno próximo à barragem, eu observava as formas do Morro do Papagaio, procurava ali uma explicação para tudo o que lá se manifestava. A tão esperada peça começa ali mesmo, do lado de fora do espaço provisório montado para 1.200 pessoas, num ritual de lava-pés e um espanto ou um choque de realidade. A música, o aroma e as vestes transparentes deixando o corpo à vista traziam para o ambiente um ar de erotismo, que foi quebrado em segundos por um ser demoníaco que surgiu por trás da tenda, com grandes chifres e com seu pênis para fora, deixando o público boquiaberto e a Santa, de olhos fechados. “Convidativo demais” era a frase que brotou no meu pensamento, ironizando minha presença naquele terreno. Desviando dos atores, entro para assistir à continuação da peça, me ajeito na arquibancada e observo o público que senta ao redor do palco com cara de passarela e me pergunto: “O que estou fazendo aqui?” A curiosidade sobre o clássico escrito por Platão no séc. V a.C – O Banquete – , adaptado por Zé Celso, trazia à tona ao meu mundo particular uma realidade “cega”. O amor livre, a religião, as drogas, o sexo e a homossexualidade. A forma retratada pelos atores transformava tudo em algo natural, como se, em um toque de mágica a, inquietação dos espectadores fosse resolvida. Mas nem tudo eram flores... O que eu entendia por arte saiu de cena pouco antes de uma hora de peça. Regados a vinho, frutas e ‘cordeiros’ (jovens sedentos por novas experiências), a encenação ganhava outro tom. O amor era descrito como livre. Orgias eram aceitas. Palavras que consideramos banais eram pronunciadas sem nenhum pudor, como C*. A nudez em si não me espantava mais, as coisas ocorriam de forma que os corpos despidos não eram mais importantes. As vozes contagiavam, mas os atores me confundiam, e o palco literalmente se transformou em passarela, dando espaço às Pomba Gira e outras entidades. Acredito que a intenção da peça era uma das melhores, mas posso dizer, com toda certeza, que eles pecaram em alguns quesitos: abrir um discurso sobre as drogas e dar a palavra para apenas um dos lados; apresentar a religião como instrumento de coerção dos pensamentos; trazer um Deus à mesa sendo o próprio banquete. Parodiar um hino cristão foi além dos limites considerados padrões de um espetáculo. A encenação, ou sexo explícito, foi, na minha opinião, apelativa. Não era necessário ‘um dedo a mais’ na situação.

Quando eu ouvir falar sobre Zé Celso e seus ‘seguidores’, poderei dizer: “Eu conheço! Porém, não gosto, mas indico”. Por quê? Em algum momento na vida, vamos ter ‘que abrir a cabeça’, deixar nosso lado etnocêntrico fora de questão, e tentar, independente da situação, extrair algo construtivo. Nessa ocasião posso criticar e opinar, pois Zé Celso e o elenco das Dionisíacas chegaram para propor a diversidade de idéias e saíram impondo como verdade absoluta os próprios ideais.

Foto| Reinaldo Maximianoo Arte| João Marcelo Siqueira Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

Editorial Nesta edição especial do Contramão, você é o nosso convidado a conhecer o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona que, em sua passagem por Belo Horizonte, nos apresentou uma proposta de experimentar sensorialmente o teatro, de senti-lo, de animálo. Durante a temporada mineira do grupo comandado por José Celso Martinez Corrêa, a equipe do jornal empreendeu uma imersão durante os ensaios e as apresentações do projeto Dionisíacas 2010, no mês de outubro, na barragem Santa Lúcia. A proposta de reportagem era se deparar com o novo, com aquilo que nós não conhecemos, numa tentativa de compreender a sua existência, o seu fundamento e os desdobramentos que registram, não apenas nas palavras, mas no corpo e na memória questões que acostumamos passar ao largo ou a varrer para debaixo do tapete. No Teat(r)o de Extádio de Zé Celso não existem tapetes para encobrir nossos medos, nossos tabus, nossos preconceitos. Eles estão todos lá. “E agora, José?” Nas páginas que seguem, você vai mergulhar no universo dos conceitos que fundamentam o Uzyna Uzona, a partir da visão particular dos nossos repórteres-aprendizes. Você vai tomar o seu assento e conhecer o teatro de arena, o público em cena, a (re)significção do ato de representar que esgarça as fronteiras da mera imitação da realidade e atinge a pulsão teatral que habita no humano desde os tempos de Dionísio – o te-ato. Segundo o diretor, atores e público se entregam numa “pulsão teatral”. Mande o preconceito dormir e conheça o lado vivo e orgânico da antropofagia que é tão nossa e tão necessária!

EXPEDIENTE Jornal laboratório do curso de Jornalismo Multimídia do Instituto de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira Vice-reitor: Átila Simões Diretor do ICA: Prof. Silvério Otávio Marinho Bacelar Dias Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Piedra Magnani da Cunha Contramão - Tel: (31) 3224-2950 - contramao.una.br Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489), Tatiana Carvalho e Cândida Lemos Diagramação: João Marcelo Siqueira Revisor: Roberto Alves Reis Estagiários: Arthur Henrique Costa, Danielle Pinheiro, Daniel Lemos, Débora Gomes, João Marcelo Siqueira, Maria Amélia e Thaline Araújo Tiragem: 2.000 exemplares Impressão: Sempre Editora


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Foto| Hélio Monteiro

SOMOS FILHOS DO CARNAVAL Dionisíacas, em viagem esforço: são mais de 60 pessoas sonagens, fazer a platéia entrar de vida (leia crítica a este espelo Brasil, passou pela capi- na estrada, entre técnicos, pro- no clima e se apaixonar pelo clã petáculo nesta edição). tal mineira no mês passado. dutores e artistas, para fazer o - pode até não ser real, mas fica Os quatro espetáculos que espetáculo final estar nos con- muito próximo das origens do Opera(ção) de Carnaval formam esse tour do Teat(r) formes para as apresentações. real se houver um verdadeiro o Oficina estiveram em cartaz Em cada cidade visitada, o Te- envolvimento do elenco. A zona de conflito escono Teatro de Extádio montado atro de Extádio é erguido para Somos apresentados a um na Barragem Santa Lúcia: Ta- comportar mais de mil pessoas novo conceito de leitura, um lhida para contar e cantar as niko – O Rito do Mar, Estrela por noite. A estrutura de duas conceito que transmite uma Dionisíacas foi logo ao lado de Brazyleira a Vagar – Cacilda!!, toneladas abriga equipamento história: a louca paixão. Bacan- onde todo o teatro acontece de Bacantes e O Banquete. Antes, de som, 150 refletores, dez pro- tes, encenada no dia 24 de outu- forma real e sem mágicas: a ineles passaram por Belém, Ma- jetores de vídeo, 12 tendas de bro, reconstitui o ritual de ori- terseção entre extremos. Apenaus, Recife e Brasília – e ain- camarins e área de convivên- gem do teatro universal em 25 sar de radicais religiosos afirda iriam para o Rio de Janei- cia para comidas e bebidas. cantos e cinco episódios; cantos marem que o “Demo” iria estar ro e São Paulo. O projeto tem Em meio à trama apresentada que podem ser seguidos pelo ali, logo na porta, o protesto patrocínio de R$ 7 Milhões do ao vivo, gravações e projeções hinário distribuído logo na fila não foi o bastante para afastar as pessoas que sabem que arte Ministério da Cultura (manu- fazem o te-ato RADICALIZAR tem a ver tenção do tendência transformação releitura VIAGEM DE SI POVO BRASILEIRO com refegrupo é rência e que as Experiência TENSÃO Milagre PERCEPÇÃO DOS CORPOS Utopia bancada pela historias contadas ali não Tesão Comunicar RELAÇÕES HUMANAS VIAGEM DE SI Petrobras) e envolve a eram do “capetão”. Bacantes, MESMO RITO DE PASSAGEM Erotismo Pulsar realização de oficinas e aprepor exemplo, é “a última tragésentações teatrais gratuitas por p ú teatral ANTROPOFAGIA Utopia p a r a dia grega conhecida – Bakxai onde passam. A companhia é blico se cada um Deslocamento Confrontação (406 a.C.), de Eurípides, que é dirigida pelo aclamado José envolver ainCARNAVAL Messianismo dos 1.200 encenada como ópera de CarCelso Martinez Corrêa, dire- da mais no que integrantes Releitura Música RITUAL naval para contar o nascimentor, ator e autor de quase todas é chamado de do públicoto, morte e renascimento de Reinvenção PERSONAas pérolas do Teatro de Ofici- “te-ato colecúmplice. Dionysios - deus do Teatro, GENS DE SI MESMOS Cinema na. tivo”. Esdo vinho, do Carnaval”. E o PERCEPÇÃO DOS CORPOS Releitura Minas Gerais foi um estaconjunto, uma operação mendo privilegiado: em julho, no tal em todos nós (e nos nossos Festival Internacional de Tea- Outra tecnologia, graças às trela Brazyleira a Vagar - Canós). tro, o FIT, moradores e visitan- evoluções da vida, possibilita cilda!!, que pôde ser vista no Os espetáculos reúnem tes da capital puderam assistir conferir toda a peça online: a dia anterior, nos mostra a força tanta informação ao longo das a O Banquete no Museu de companhia possui um site que das origens do teatro brasileiArte da Pampulha, colocando disponibiliza as apresentações ro por meio de um recorte da longas horas em que são apreem diálogo o Tea(r)o Oficina em tempo real : http://teatro- história daquela que deu início sentados que nem Tarantino e sua herança antropofágica ficina.uol.com.br/ a toda uma linhagem: Cacilda conseguiria costurar tantas e a arquitetura modernista de Teatro é uma dádiva, pois Becker. A viagem pela história referencias num só filme. A Niemeyer. No dia 11 de outu- é uma arte feita ao vivo e a de nossa própria origem co- Grécia estava ali em versos, o bro, antes das apresentações cores, tem cheiro, tem alma e meça em Taniko – O Rito do Brasil estava ali em voz alta, das Dionisíacas na Barragem muita emoção. Se a sincronia Mar, adaptação antropofágica masculina, feminina, em coro, Santa Lúcia, Zé Celso montou do ensaio não foi perfeita, o pú- de um clássico do Teatro Nô sem preconceitos. Somos filhos a Macumba Antropófaga em blico assiste os erros e enxerga Japonês. No material distribuí- do Carnaval, do Futebol, de Inhotim, lugar perfeito para ali mesmo, não existe edição. do, a definição: “um espetácu- todo um mesmo bacanal. energia do teatro e do local Ter controle sobre tais atos lo-culto de meditação espacial atingirem o master da apre- não é serviço pra qualquer ser e atuação teat(r)al”. No último Daniel Sellos - aluno de Cinema/UNA adaptado da reportagem que insentação. humano. Os atores que encar- dia, O Banquete leva às últi- Texto clui entrevista com o ator Fred Steffen Uma empreitada como nam os personagens tem que mas conseqüências uma pro- postada em revistapura.com.br. A pubDionisíacas depende de muito ter sangue azul mesmo, viajar posta avassaladora e polêmica licação no CONTRAMÃO tem a autorizaalém, se sentir na pele dos per- de encontro com nossa pulsão ção do autor.


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Fotos| Reinaldo Maximiano

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Era um dia em que podia se esperar tudo e nada ao mesmo tempo. São artistas e na arte “tudo” vale. Chegamos e fomos informados que dois atores da companhia dariam a entrevista: Letícia Coura e Fred Steffen. Não fazíamos ideia de quem eram, mas tínhamos certeza que já os tínhamos visto no ensaio no dia anterior. Havíamos bolado uma pauta baseada nas informações sobre o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona que achamos na internet e nas conversas com nossos professores. Junto com atores, fomos para fora da estrutura de arena. Chão de terra batida, sol forte e uma

área livre. Era um deserto em meio à favela e aos prédios de luxo da Barragem Santa Lucia. Letícia e Fred chegaram super receptivos e nós, ainda muito receosos, falávamos pouco e nos preocupávamos com as técnicas de uma entrevista. Letícia usava um vestido verde simples e um colar de sementes. Tinha um cheiro de bronzeador e usava óculos escuros. Fred usava uma blusa preta, pois sabia da gravação e ouviu dizer que essa cor é boa para ser filmado. Óculos estilo Beatles, arredondados e vermelhos; latinhas de cerveja ditavam o seu ritmo. Nervosos, começamos a entrevista e com

medo de falar bobagem ou parecer estagiários (a verdade dói). A primeira pergunta sai; a resposta vem sem cerimônia. Eles tinham prazer no que diziam. Então começamos a entrar no clima e o que era para ser uma entrevista de “Jornal Nacional”, tornou-se um batepapo de amigos que pareciam se conhecer há muito tempo. Abandonamos a pauta e as técnicas. Só queríamos conversar, perguntar e ouvir e perguntar... Ao falarem do nu, eles eram insinuantes, envolventes, de uma pureza que a nossa vontade era de levantar e terminar a entrevista sem pudor. O tempo passa-

va e nem percebíamos, pois a cada resposta entravamos em estado de êxtase total - parecia que estávamos em outra realidade. O que era para ser uma entrevista de dez minutos durou quase uma hora e só foi interrompida porque os atores precisavam se preparar para a peça. E assim acabavam nossos 15 minutos de “fama”. A alegria ficava registrada em nossos rostos. Neste bate papo com os atores Letícia Coura e Fred Steffen, você vai ler sobre a vida profissional, a relação do nu, a participação do público nos espetáculos e também como é trabalhar com José Celso Martinez Corrêa.

CONTRAMÃO – Para vocês, qual o significado do teatro? Fred Steffen- Eu diria, talvez equivocadamente, porque falar de teatro hoje daqui a um segundo pode ser totalmente outra coisa. Porque teatro é justamente a metamorfose.

Então eu posso falar que teatro é vida! Uma atriz do grupo, de 96 anos de idade, dançarina maravilhosa, fala assim pra mim: pra subir em um palco, tem que ter vivido. E eu concordo com isso. Porque eu acho que teatro é vida, é amor, é tudo que a gente tem. Seu

corpo vai junto, se transforma. Seu pensamento, raciocínio, ele vai viver aquilo por alguns instantes ou por horas e você vai aprendendo muito com isso. Letícia Coura - Eu acho que teatro é a grande possibilidade que a gente tem de ex-

perimentar o que a gente é e não é. Eu acho que é o lugar da liberdade total, porque realmente ali você pode matar, morrer, você pode ser um rei, você pode ser qualquer coisa e viver essa situação. É meio infinito se você pensar, é um exercício da possibilidade.


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PELO NA LIBERDA

CONTRAMÃO – Como é a interação com o público nas peças? Letícia Coura - O teatro nasceu como ritual com as pessoas amassando as uvas, cantando e louvando e consagrando o seu deus. Isso foi se perdendo e chegou a um momento, principalmente na Europa, que se fixou esse palco italiano que a platéia fez essa quarta parede, ignorando a platéia. E muito do teatro que é feito hoje é assim. O nosso que é um teatro ritualístico propõe exatamente o contrário. Tanto que, por exemplo, tem uma arquibancada de um lado e de outra e as pessoas estão se vendo, além da gente ver bem o público agente sabe quem veio assistir, quem tava como, com quem, gostando de quem, porque as pessoas estão ali conosco. E o que gente propõe e tem várias cenas de “participação” mesmo, nem gosto de falar isso participação, que é atuação. É muito diferente você assistir e outra é você atuar. Você pode não falar nada, não ir pro meio, mas você está atuando, está sentindo. Você está vivo ali! Você está junto e isso pode transformar sua vida. CONTRAMÃO – Qual é a relação do nu nos espetáculos? Letícia Coura - Olha, o nu ele aparece muito, mas por exemplo: tem cenas de nascimento, todo mundo nasce nu. A gente acabou de fazer um

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ENTREVISTA TEAT(R)O

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manifesto antropófico lá em Inhotim que eram os índios e você não vai fazer um índio de roupa. Então, é o nu de novo. Têm muitos momentos e muitas outras coisas, que é a liberdade do nu mesmo, que aí você não tem máscaras, você é aquilo, uma grande liberdade. E o nu iguala todo mundo. Você tira o rei e aí aparecem as reais entidades porque aí você não fala “ele é favelado, eu sou classe média”, você tá ali, você tá nu e você é o que você é, o que você é capaz de

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VONTANDE!

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mitiva que, na verdade, seria uma ordem mais contundente com a vida, digamos assim. E com o passar do tempo, com a sociedade, de igual pressão, com uma família conservadora você acaba perdendo esses costumes, esses bons costumes. E os bons costumes viram outros costumes, então a gente vai perdendo o sentido. Você nu esconde alguma coisa? CONTRAMÃO – Como é trabalhar com Zé Celso?

E os bons costumes viram outros costumes, então a gente vai perdendo o sentido. Você nu, esconde alguma coisa?

Fred Steffen, ator Teat(r)o Oficina

fazer ali e nisso você descobre os deuses de cada um e é isso, é uma liberdade mesmo. Além de ser lindo nê. Uma vez um amigo jornalista falou que a gente ia ganhar o prêmio de melhor figurino, Deus, porque é lindo, é muito bonito você ver um bando de gente nua, cada um tem o corpo de um jeito, tirar essa ditadura do corpo ideal. Se você vê o corpo você, conhece a pessoa. Fred Steffen - É você tirar suas couraças, se redescobrir dentro deste mundo. É você sair de influências pequenas sociais, culturais. É você se aculturar de uma outra forma, numa ordem mais pri-

Fred Steffen - Obviamente tem divergências. Tem uma série de coisas, mas plasticamente, o lado artístico, o lado orgiástico na atuação, na dramaturgia, na comunicação com o outro que está realmente em cena ou com o que ele está desejando em cena é realmente uma experiência fenomenal. Trabalhar com Seu Zé é bom demais. Você enriquece, se redescobre ser humano. Posso falar que a minha personalidade artística começou a ter uma idéia mais forte e uma compreensão maior depois que eu entrei no Teatro Oficina. Isso se deve a ele. Eu não posso falar que se deve a fulana, sicrana,

beltrana, não: é um rito dele! Eu entrei para o rito dele, eu entrei para vida dele. Se eu estou aqui, se eu fiz seis anos e estou passando mais um ano aqui, eu estou aqui para vida, para idéia dele, para concepção dele, pelo que ele acredita e que eu também de alguma forma acredito, eu faço parte dessa vida também. Você respira arte e isso é o mais importante. Letícia Coura - Acho que ele é um artista genial. Ele provoca você sempre a se perguntar, porque nunca nada está pronto? Cada dia inclusive a peça muda, o texto muda, a música muda, no início eu tinha até um problema com isso e depois eu fui vendo que é para ficar cada vez mais vivo. Você nunca faz uma coisa que engessa, então acho que isso foi o grande aprendizado. É um artista genial que cria o tempo inteiro. Eu só não considero que o Oficina seja ele só. Acho que é tudo isso. Trabalhar com ele às vezes é um horror mas é uma delícia porque a gente tá sempre criando, criando, criando e criando uma arte que eu acredito que é transformadora não só pra nós mas para quem vive isso. Para conferir a entrevista completa e a galeria de fotos acesse http://contramao.una. br Por Andressa Silva João Marcelo Siqueira e Débora Gomes


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Eu fui “Muito legal o teatro oficina, de-

pois que o conheci quero fazer teatro. Moro aqui na comunidade e vim aqui todos os dias ver eles ensaiando, conheço todos os atores. Sou considerado o mascote do teatro.” Samuel Jackson

“É a primeira vez que vou ao teatro, estive na peça de sábado Cacilda e voltei hoje no Banquete, gostei muito, é animado tem música. Entrei no clima dancei bastante.” Neusa Corrêia

“Gosto de teatro, vim por curiosidade, porque alguns amigos indicaram. O nu presente na peça não me incomoda, já assisti à peça Mulheres de Hollanda, que também tem a presença do nu e mexe com o erotismo.” Robson Alves


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Fotos| Reinaldo Maximiano e João Marcelo Siqueira

e... Foto| Revista Pura

EU FUI BOI... Olavo Castro, 33 anos, nasceu em Belo Horizonte e é neto do ator mineiro Affonso de Castro, que ficou famoso no rádio das décadas de 1930 a 1950. Estudou teatro na Casa das Artes Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro e já atuou em 15 peças. Em 2006, foi premiado duas vezes: como Melhor Ator no prêmio Usiminas SINPARC e como Reconhecimento em Artes Cênicas SESC/SATED. Atualmente, divide o palco com Rita Clemente na peça Histórias de Chocar. Ele escreveu seu próprio depoimento a pedido dos repórteres do CONTRAMÃO que o viram se transformando em Boi na apresentação de Bacantes, no dia 24 de outubro.

Foi a maior experiência que senti no teatro, o poder de transformação que senti naquele dia 24 de outubro não tem como descrever em palavras, juro.... Seria perda de tempo tentar colocar no papel tal sentimento, tal sensação. Me senti por 30 minutos um deles. Eu com certeza era mais ator naquele palco, vivi intensamente aqueles breves 30 minutos, me joguei, me entreguei... Agradeço a DEUS, tal oportunidade, pois todos atores mereciam sentir na pele a sensação daquele dia. A sensação é que ali tive certeza que o Oficina é muito mais que um grupo de teatro, é uma nação de adoradores desse maravilhoso Zé Celso!!!!! Obrigado a vcs pelo carinho, Olavo de Castro. Por Andressa Silva e João Marcelo Siqueira


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ZÉ CELSO POR JÚLIA E JEFFERSON A desconstrução é o denominador comum que se chega quando o assunto é o objetivo de Zé Celso ao trabalhar com meios tão pouco convencionais em suas peças teatrais. E olhos pouco treinados, embaçados por toda sorte de lentes culturais, não conseguem enxergar toda a plenitude de uma iniciativa que tem como ferramenta o corpo humano e suas mais abjetas representações. A falsa virtude moralista do ser humano define assim o sexo: a cópula e seus despojos. No entanto, não se pode dizer que seja fácil a tarefa de treinar esse olhar a ponto de conseguir enxergar, por exemplo, tendências anticapitalistas em uma peça do Grupo Oficina. Quem conta que existe essa preocupação na peça são especialistas em teatro, que conseguem enxergar por trás das cortinas, do roteiro e do nu em cena. O fato é que, muitos de nós lutamos, com as armas que temos, contra algum tipo de sistema que destoa daquilo que projetamos como ideal, só que cada um a seu modo. Entender que esta tenha sido a forma que Zé Celso escolheu para derrubar “verdades” antigas, anteriores ao meu nascimento e que vigoram ainda hoje, é uma função quase que social. Para isso é preciso conhecer, pesquisar e imergir. Ser fã ou não da peça é uma escolha pessoal, mas saber de que forma ela afronta tudo o que talvez você também deseja afrontar é necessário. Ciente disso ,o CONTRAMÃO procurou dois especialistas em teatro para dizer qual a importância de Zé Celso Martinez para o universo dessa arte que, para alguns, pode falar nada, mas para outros, diz tudo. Fotos| Danielle Pinheiro

“Zé Celso, aos 73 anos, representa o teatro sem concessão. O Teat(r)o Oficina, fundado por ele, desde os anos 1960, faz universal o teatro brasileiro. Impossível ser indiferente à obra do ator, encenador, professor e diretor. Sua irreverência e inquietude vem seduzindo gerações de estudiosos das artes cênicas. Amado e odiado por muitos – há quem o entenda pornográfico apenas-, Zé Celso privilegia a provocação. Entende sexo e arte ferramentas de manifestação. Um mestre da desconstrução e da transformação de valores. Homem-criador de excessos, que consegue, como ninguém, dizer algo até com o que sobra em suas criações. O senhor-teatro, ode à liberdade”.

Julia Guimarães Repórter do Jornal O Tempo / caderno Magazine (cultura)

Difícil descrever a importância do Teatro Oficina em poucas linhas. Além de ser um dos grupos mais antigos ainda em vigor atualmente (ele nasce em 1958), foi responsável por estabelecer uma linguagem altamente singular para o teatro brasileiro, ao aliar uma forte carga de musicalidade à proposta de se apropriar antropofagicamente dos textos que coloca em cena. A ideia do teatro como rito e em diálogo com a estética do Carnaval são motes centrais para o grupo. Em 1967, o Oficina cria um espetáculo divisor de águas no teatro brasileiro que é o Rei da Vela, escrito por Oswald de Andrade. Além de ser a primeira vez que uma peça do escritor modernista é encenada por um grupo, o espetáculo se torna um emblema do movimento Tropicalista, além de

representar uma forte crítica à Ditadura e ao sistema capitalista. Após um exílio entre os anos 70 e 80, Zé Celso volta ao Brasil e retoma as atividades do Teatro Oficina. Nos espetáculos dessa nova fase, a ideia do teatro como te-ato, uma espécie de acontecimento cênico que busca uma participação mais ativa do público, antecede uma das principais características do teatro atual. Sempre em busca de renovações e radicalizações em sua linguagem teatral, o diretor passa a criar espetáculos de longa duração que subvertem a lógica pragmática dos tempos atuais. O ápice dessa experimentação ocorre na série batizada Os Sertões, nos anos 2000, em que o diretor leva a obra de Euclides da Cunha para o teatro em cinco partes de aproximadamente seis horas cada uma delas. A polêmica em torno do Oficina está relacionada também à maneira como o grupo explora o erotismo e a sexualidade como princípios de sua própria linguagem, o que se relaciona tanto aos modos primitivos de contato com o mundo, ligados a dimensão ritualística de sua encenação, como também ao desejo de superar os tabus sociais existentes atualmente - como a nudez e o toque -

...a figura do Zé Celso representa hoje é a afirmação da arte como instância Julia Guimarães da magia.

Jefferson da Fonseca Coutinho Ator, dramaturgo, professor e diretor de teatro

para transformá-los em totens (parafraseando o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade), em arte liberta dos pré-conceitos construídos socialmente e relacionados ao próprio processo de colonização vivenciado no Brasil. Em última instância, o que a figura do Zé Celso representa hoje é a afirmação da arte como instância da magia, da resistência à mediocridade e à burocracia, da crença num horizonte utópico possível, mais coletivo, mais musical, que valorize profundamente os elementos da identidade brasileira e busque ir na contramão dos valores socialmente impostos que limitam a livre expressão. Por Danielle Pinheiro

Jornal Contramão Edição Especial  

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