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Ano 1.º, Edição Nº1 Distribuição gratuita Redação Ana Polo, Cláudia Sequeira, Diogo Azeredo Francisca Matos, Rita Gordo, Sara Gonçalves

www.jornalcontextos.wordpress.com Daniel Rodrigues é o primeiro português a vencer o World Press Photo

Mário Nogueira: “Era óptimo poder arrancar o bigode”

Cultura. pág.32

Entrevista. pág.12

Décimo exame termina com decisão do Tribunal Constitucional Destaque. O Plano B, em caso de chumbo do Constitucional, e o futuro pós-ajustamento devem estar em cima da mesa das negociações. pág. 3

Orçamento de Estado aprovado para 2014 Política. A oposição votou contra mas os partidos da maioria conseguiram aprovar o OE2014. O documento proposto segue agora para a Presidência da República e deve entrar em vigor a partir de 1 de janeiro. pág. 4

Teixeira dos Santos não acredita num “regresso aos mercados à irlandesa”

Eles emigraram para Portugal

Economia. O ex-ministro das Finan-

ças vê como mais provável a negociação de um programa cautelar e avisa que o ajustamento não acaba com o fim do período de assistência financeira. pág.8

Reportagem. Olga Filipova é um dos váríos

casos de sucesso de imigrantes que chegaram ao nosso país e venceram. pág. 20

Mundial 2014: Alemanha, Gana e Estados Unidos no caminho de Portugal DESPORTO. pág.28

Portugueses obrigados a escolher entre alimentação e medicação SOCIEDADE. pág.18

“O nosso querido Mandela deixounos”: quase cem anos de uma vida cheia MUNDO. pág.24


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Editorial Se uma história na boca do povo pode conhecer diferentes versões, na caneta ou no microfone de um jornalista deve conhecer vários contextos. Mas quando as notícias se produzem no mesmo bosque onde o Capuchinho Vermelho segue com a cesta em direção à avó, isto nem sempre acontece. Senão, vejamos. Há dois caminhos para chegar às audiências, um trilho mais curto e mais perigoso e outro mais longo e seguro. Até aqui, nada de novo na história. Para não chegar atrasada e poupar tempo, a menina do capuz encarnado não teve grandes dúvidas na escolha. Preferiu cansar-se menos, mesmo sabendo que corria o risco de não chegar. Um caminho fácil que lhe saiu caro ao encontrar o lobo mau. O preço do imediatismo paga-se com mau jornalismo e desinformação. Em vez de chaves para compreender um mundo em mudança, criam-se cópias que, ao meter no trinco, não abrem porta nenhuma. Notícia atrás de notícia, o que importa é chegar primeiro, mesmo que se tenha muito pouco ou nada para dizer. Quem também chegou primeiro aos mercados foi a Irlanda. A forma como o país se tornou independente da Troika está a dar que falar nas praças europeias. Portugal, que já tem o fim do período de assistência financeira à vista, recebeu uma boa e uma má notícia: passa no décimo exame regular mas não convence Mario Draghi a colocar a hipótese de uma saída “limpa” do resgate. Com ou sem programa cautelar, a diferença está em sair em liberdade ou liberdade condicional. Na verdade, as duas economias continuam a cumprir a pena de austeridade, fora ou dentro das grades europeias. Sem dinheiro para pagar a caução, possível no caso irlandês graças a uma reserva de 22 mil milhões de euros, Portugal deve continuar a partilhar a cela com a Grécia e o Chipre, ainda que de uma forma menos vinculativa a partir de junho. Ao país que muitos apelidam de “bom aluno” já só faltam mais dois exames, com o próximo marcado para fevereiro do próximo ano. Bem antes disso, no dia 18 de dezembro, vão a teste os professores contratados, na primeira prova desde que saíram da faculdade. Nuno Crato abriu uma guerra com os Sindicatos e em Mário Nogueira encontrou um arqui-rival. O secretário-geral da Fenprof fez uma pausa na luta e apresentou-se ao Contextos com o bigode de sempre, mas sem cartazes nem orçamentos queimados na mão. O professor sem turmas quer terminar a carreira na escola. Quando voltar às aulas, o empreendedorismo talvez já seja uma das disciplinas obrigatórias. Pires de Lima apresentou a proposta que deve ser aplicada no segundo trimestre do próximo ano. Empreendedorismo que se aprende dentro e fora da escola. Numa altura em que nos media só se fala em emigração, fomos conhecer as histórias de sucesso de quem vem e vence no nosso país. Porque contextos, há sempre mais do que um.

“Façam o favor de serem felizes” Com troika ou sem troika, parece que ninguém nos tira a vontade de sorrir. Uma sondagem do Expresso concluiu que a maioria dos portugueses diz ser feliz ou sentir-se otimista. De acordo com o inquérito, 74,6% dos portugueses acha que a felicidade é algo que se constrói e grande parte deles considera-se moderadamente optimista. Contudo, o impacto da crise faz com que 65,6% ache que andamos mais infelizes.

Olhando para a sua situação atual, diria que é...

A felicidade é algo que...

Muito Feliz - 11,8%

2,1% É genético

Feliz - 55,3%

É genético - 2,1%

Assim-assim - 25,8%

- 74,6% Se constróiSe constrói 74,6%

Infeliz - 6%

Faz parte do destino - 18,3%

Muito Infeliz - 0,7%

18,3% Faz parte do destino

Não Responde - 11,2%

portugueses 67,1% dos considera-se feliz

a saúde 87,9% considera o mais importante

O que é mais importante para a sua felicidade?

O dinheiro que tem chega para ser feliz? SIM

que a crise nos 65,6% acha deixa mais infelizes

- 54,3%

NÃO

- 43,8%

87,9% Saúde

- 1,9%

Sáude

8,7% Amor

Amor

Seria mais feliz se tivesse mais dinheiro? SIM

Dinheiro

2,9% Dinheiro

- 72,4%

NÃO

- 22,8% - 4,8%

Os portugueses são um povo...

Com a crise e a difícil situação económica, os portugueses estão...

Muito mais felizes - 0,6% Mais Felizes - 0,9%

Feliz - 32,5%

Na mesma - 7,8%

Infeliz - 20,2%

Nem Feliz Nem Infeliz - 38,7%

Mais infelizes - 65,6% Muito mais infelizes - 23,9%

Muito Infeliz - 1,8%

Muito Feliz - 1,8%

Não Responde - 1,2%

Não Responde - 2%

* Fonte: REVISTA (Expresso) | 9 de novembro de 2013

Ficha Técnica Direcção Editorial

Chefia de Editoria

Director Helder Bastos

Política Sara Gonçalves

Coordenador da Redacção Porto Diogo Azeredo

Economia Rita Gordo

Editores Ana B. Polo, Cláudia Sequeira, Diogo Azeredo, Francisca Matos, Rita Gordo e Sara Gonçalves.

Sociedade Francisca Matos Mundo Diogo Azeredo

Desporto Ana B. Polo Cultura Cláudia Sequeira


Destaque

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Destaque Décimo exame termina com decisão do Tribunal Constitucional AVALIAÇÃO DA TROIKA

O Plano B, em caso de chumbo do Constitucional, e o futuro pós-ajustamento devem estar em cima da mesa das negociações. Os representantes da missão externa querem rever a flexibilização do mercado laboral e discutir mais cortes na energia.

Foto: DR - A Troika insiste em não revelar a agenda do exame regular, informando apenas as datas das reuniões com os parceiros sociais e com os deputados. RITA GORDO Não se sabe se ainda vai estar por cá quando o prazo para conhecer o veredicto do palácio Ratton terminar, a 19 de dezembro, mas é mais que certo que vai querer conhecer as alternativas do governo em caso de chumbo do Tribunal Constitucional ao corte das pensões no setor público. Se o Plano B desenhado pelo executivo for insuficiente para compensar os 400 milhões de euros que esta medida iria render, há novo chumbo, desta feita, por parte da delegação externa. A Troika já deixou claro que não vai transferir mais uma tranche do empréstimo enquanto não forem apresentadas medidas de austeridade alternativas. A missão chefiada por Subir Lall (FMI), Rasmus Ruffer (BCE) e Sean Berrigan (Comissão Europeia) chegou a Lisboa a 4 de dezembro, um dia depois do sucesso da operação de troca de dívida. Uma coincidência feliz, visto que o governo conseguiu atrasar para 2017 e 2018 o pagamento de 6642 milhões de euros de dívida pública, aliviando as necessidades de financiamento nos próximos dois anos. Mas há assuntos que o executivo não vai poder adiar, principalmente, quando está a seis meses do fim do pro-

grama de ajustamento. É preciso definir um plano para vigorar a partir de junho de 2014 quando o país já não estiver sob a tutela internacional. A décima e antepenúltima avaliação pode ser o momento chave para decidir entre as duas opções de que muito se fala e especula: ou se avança para um segundo resgate, com novo programa semelhante ao atual, ou se experimenta o modelo de programa cautelar. Nesta segunda opção, Portugal tem acesso a uma linha de crédito que pode utilizar em caso de necessidade e onde as condições impostas são, à partida, menos duras. Para optar pela segunda via, porém, o trabalho de casa de regresso aos mercados tem de estar feito. O governo, apesar de ainda longe deste cenário, já pode dizer que está a estudar a matéria. No caso da Irlanda, que vai dispensar qualquer apoio ou segundo programa no final deste ano, foi precisamente a seis meses que se começou a debater as hipóteses para o país. Reduzir salários no privado? “Não sei onde é que ouviram isso” Mas os técnicos da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional não vieram só

para definir o futuro pós-ajustamento. Nas pastas dos representantes dos credores há propostas de reformas para debater com o governo, os parceiros sociais e os deputados, nomeadamente ao nível da flexibilização laboral. Portugal tem acesso a uma linha de crédito que pode utilizar em caso de necessidade e onde as condições impostas são, à partida, menos duras. Para optar pela segunda via, porém, o trabalho de casa de regresso aos mercados tem de estar feito. Os principais defensores desta política são os responsáveis do FMI, para quem a descida dos salários no setor privado tem relação direta com o aumento de competitividade do país. Uma questão que já constou, aliás, no relatório das oitava e nona avaliações. Já a Comissão Europeia tem sido menos contundente neste ponto, falando antes em “assegurar a moderação salarial”. Bruxelas considera que manter o salário mínimo congelado e a realização de um controlo mais apertado da extensão dos contratos coletivos é o suficiente para cumprir esse objetivo. É neste ponto que se nota uma maior resistência a grandes mexidas, segundo a

delegação externa. De qualquer forma, para quem estava a espera de ouvir Subir Lall explicar como é que se poderia reduzir os salários no privado, o chefe da missão do FMI mostrou-se surpreendido com a questão: “Não sei onde é que ouviram isso”. Esclareceu que tal descida tem de sair da negociação entre trabalhadores e patrões e deixou claro que não está em cima da mesa uma redução do salário mínimo nacional da Troika. Nesta matéria, o Governo também já tinha apresentado nas últimas semanas uma posição diferente. O ministro do Emprego, Pedro Mota Soares, garantiu que “o Governo português considera que o ajustamento, nomeadamente no sector privado, já foi feito e considera que não é modelo de desenvolvimento em Portugal um modelo assente em salários baixos”. Uma vez que o executivo não pode decretar um corte de salários no privado, a alternativa para os técnicos da missão externa pode passar pela flexibilização dos despedimentos. Ir mais longe no corte das rendas excessivas na energia (subtítulo) Estas rendas estão na mira da Troika desde o início do resgate, que não parece

satisfeita com o corte de 3400 milhões de euros já levado a cabo pelo Governo. Para a delegação internacional, é preciso avançar com mais medidas. Quando se fala em rendas excessivas, o que está em causa são as compensações que a EDP recebe desde 2007, ano de inauguração do mercado ibérico de electricidade. Esta alteração obrigou à substituição dos antigos Contratos de Aquisição de Energia (CAE) - através dos quais o país comprava eletricidade à empresa - por outros, os Contratos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC) - que garantem que a EDP não perde receita em relação ao cenário anterior, já que o Estado subsidia a diferença. O problema é que, de acordo com a Autoridade da Concorrência, nos últimos anos essas rendas valeram entre 15% a 35% dos resultados da EDP. Ora isto tem reflexos na fatura paga pelos clientes e em vantagens concorrenciais para a EDP. As recomendações da Troika devem ir no sentido da adoção de critérios mais exigentes na atribuição destas rendas para benefício do mercado de energia e dos consumidores.


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Política

Aprovado Orçamento de Estado para 2014 ORÇAMENTO DE ESTADO

A oposição votou contra mas os partidos da maioria conseguiram aprovar o OE2014. O documento proposto segue agora para a Presidência da República e deve entrar em vigor a partir de 1 de janeiro. SARA GONÇALVES Depois de três dias de discussão sobre a proposta do Governo para o Orçamento de Estado do próximo ano, a maioria aprovou o documento com votos contra dos partidos da oposição e de um deputado do CDS, Rui Barreto, eleito pelo círculo da Madeira. Este Orçamento prevê cortes de 3,9 mil milhões de euros, o equivalente a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). OS salários do sector público também vão sofrer cortes entre 2,5% e 12% para remunerações mensais superiores a 675 euros. A despesa do Estado vai ter um ajustamento de 80%. Para o próximo ano, espera-se um crescimento de 0,8%, que o défice diminua para os 4% e que a dívida pública desça para os 126,6%. As previsões são menos animadoras para o desemprego que deve subir para os 17,7%.

Reações dos partidos Para a esquerda, as opiniões não se

dividem. O Bloco critica a severidade deste Orçamento, referindo que “Este OE é um brutal pacote de austeridade que ataca logo os funcionários públicos que ganham 600 euros por mês”. Em declarações no Parlamento, o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, diz que o Governo segue por um caminho sem saída e que o défice para 2013 “prova que a austeridade não compensa”. O Governo “não aprende com os erros” porque, segundo Pedro Filipe Soares, o défice continua quase igual desde a tomada de posse do Governo em 2011. Críticas também se fizeram ouvir por parte d’Os Verdes. José Luís Ferreira, deputado do partido, reprovou a documento proposto pelo Governo, falando em “mais dor e menos ajustamento” com a aprovação deste diploma. Nos Passos Perdidos do Parlamento, o deputado d’Os Verdes contestou as opções do executivo que com este Orçamento “não só mantém os cortes nos salários e nas pensões, como ainda vem impor novos cortes nas reformas e nos salários”. José Luís Ferreira acrescentou ainda que o

Governo se mostra incapaz de “chamar ou convocar os rendimentos da capital ao sacrifício, nomeadamente no que diz respeito às mais-valias e aos dividendos”. O OE é para o Partido Ecologista “mais um capítulo no drama social em que estamos envolvidos”. O PCP rejeitou duramente a aprovação deste Orçamento, afirmando que é o “pior” desde que Portugal está sob resgaste financeiro da “Troika”. Paulo Sá, deputado comunista, sublinhou que “podemos dizer que este será o pior Orçamento do Estado para a vida dos trabalhadores e das famílias desde que foi assinado o pacto de agressão. Vai agravar a vida dos trabalhadores, dos reformados, dos pensionistas, com um objetivo - poder continuar a garantir os benefícios que são dados à banca e aos grandes grupos económicos”. Denotou também a redução dos salários que vai atingir salários mais baixos, a partir dos 600 euros e que “Todos os cortes atualmente em vigor nos salários e pensões mantêm-se, mas de forma agravada”. As críticas finais foram dirigidas à atitude do Governo que

pretende “poupar 3.200 milhões de euros ao mesmo tempo que o esforço exigido às empresas do setor energético e à banca é de apenas 150 milhões de euros”. Também o Partido Socialista não concorda com as medidas de austeridade impostas no diploma, considerando o Orçamento de Estado para 2014 um pacote “brutal” para os portugueses. Segundo Pedro Marques, vice-presidente da bancada socialista, disse que o partido lamenta que os sacrifícios pedidos aos portugueses em 2013 tenham sido perdidos para a recessão. O deputado do PS sublinhou que os cinco mil milhões de austeridade deste último ano são “todo o enorme aumento de impostos perdido para a recessão”. O défice “é o mesmo do que quando começámos o ano”, diz Pedro Marques, que salienta que “os sacrifícios dos portugueses foram todos perdidos para a austeridade provocada pelas próprias políticas recessivas do Governo”. O Partido do executivo não teceu críticas tão duras ao diploma, referindo que se trata da “melhor alternativa”, apesar da “dureza” da proposta de lei. Miguel

Frasquilho, deputado do PSD, diz ser esta a melhor solução que o Governo tem a tomar para ver se nos livramos da ‘troika’ em junho. Depois de três quartos do programa de ajustamento cumpridos, Miguel Frasquilho referiu que “estamos a pouco mais de seis meses do fim” e enfatizou que “apesar da dureza e exigência deste Orçamento do Estado, esta continua a ser a melhor alternativa para o país”. Quanto à possibilidade de chumbo do constitucional, o PSD desvaloriza suposições e defende que a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional já disseram que isso não teria impacto em futuras avaliações do programa de ajustamento da ‘troika’. “É um risco que se corre. Toda a gente sabe, mas não vale a pena estar a traçar cenários que não sabemos se se vão concretizar ou não”. Frasquilho relembrou ainda que segundo a ‘troika’, Portugal não teria avaliações negativas devido a chumbos do Tribunal Constitucional.


Política

Orçamento de Estado SARA GONÇALVES

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“Aquilo que os parceiros sociais dizem não serve para nada” TROIKA

Num calendário de que pouco se sabe, os primeiros a reunir com a Troika, sem contar com o governo, foram os parceiros sociais. À saída do encontro, os representantes dos sindicatos e das entidades patronais revelaram que não se falou em cortes salariais no privado.

Orçamento “colonial” para a Madeira Alberto João Jardim diz que o Orçamento para 2014 trata a Madeira como se não fosse de Portugal e que a proposta do Estado é “indecente”. Jardim vai reunirse em janeiro com o primeiro-ministro para uma discussão pós-troika Antes do debate sobre o Orçamento do próximo ano na Assembleia Legislativa, o Presidente do Governo Regional da Madeira manifestou-se contra a proposta de orçamento de 2014 para a região. Jardim salientou que não concorda com esta política de austeridade e disse estar preo-

cupado com o estado da economia. O líder do PSD Madeira informou também que tem agendada uma reunião com Passos Coelho para a segunda semana de janeiro em que discutirá o Programa de Ajustamento Económico e Financeiro assinado entre a Região e a República. A Madeira aguarda um orçamento de 1600 milhões de euros para 2014 e prevê uma receita fiscal de 885,5 milhões de euros, a mais optimista dos últimos anos.

Marcelo Rebelo de Sousa pede apreciação rápida do diploma O antigo líder do PSD pede a Cavaco Silva para ser pouco demorado na análise do Orçamento de Estado para 2014 e que não crie uma especulação demasiado grande na opinião pública. A decisão de promulgar o diploma ou de o enviar para o Tribunal Constitucional para fiscalização não deve esperar pelo Na-

tal ou Ano Novo, comentou Marcelo na TVI. Na sua opinião, e caso Cavaco opte por enviar o documento para o Palácio Ratton, deve decidir se prefere uma fiscalização sucessiva ou preventiva – sendo esta última a “pior” das suas opções.

CGTP em luta pelo veto do Orçamento de Estado A CGTP arranca uma semana de luta a nível nacional e já tem marcada uma vigília em Belém para pedir ao Presidente da República o veto do Orçamento para 2014, a demissão do executivo e eleições antecipadas, antecipou Armando Farias, membro da Comissão Executiva da central sindical, à Lusa. O sindicalista sublinhou ainda que o Governo “já não é legítimo” por estar a gov-

ernar “contra a Constituição”, defendendo por isso a sua “urgente” demissão pedida a Cavaco Sila que é “neste momento, o único a sustentar o Governo”. Durante a “Semana de Indignação, Protesto e Luta”, a CGTP contesta o aumento da idade de reforma, o corte das pensões, dos salários e dos subsídios e o aumento dos impostos.

RITA GORDO Os custos com salários em Portugal foram apresentados como um entrave à competitividade da economia. A subida do salário mínimo nacional foi posta em cima da mesa pelos sindicatos, porém a resposta que veio do outro lado da mesa deitou todas as aspirações por terra. “A troika disse que, se o salário mínimo fosse aumentado, haveria mais desemprego”, relatou a presidente da UGT, Lucinda Dâmaso. De acordo com os relatos dos parceiros, Subir Lall reconheceu que a instituição errou quando calculou os efeitos da austeridade no desemprego e no crescimento — subscrevendo as palavras da responsável da instituição, Christine Lagarde — mas deixou claro que o programa é para manter. “Apesar de reconhecerem que a magnitude dos efeitos recessivos foi maior [do que esperado], não deram a ideia de que vão corrigir a trajectória, o que deixa um amargo de boca”, confessou António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP). A posição assumida por Rasmus Ruffer, representante do Banco Central Europeu, deixou sindicatos e patrões apreensivos. Segundo o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), Ruffer reafirmou a tese de que o banco central “não deve emprestar dinheiro aos países, mas aos bancos, porque o risco de emprestar aos países é maior do que emprestar aos bancos”. João Vieira Lopes salientou ainda que o encontro com os membros da Troika “é uma simples audição. Aquilo que os parceiros sociais dizem não serve para nada”. Arménio Carlos adiantou que a

CGTP vai avançar no início do ano com um movimento para o aumento do salário mínimo nacional. “O que conta para eles são os números, não são as pessoas”, salientou. “Isto não é um programa de ajustamento, é um programa que agride e humilha o povo português”, remata o líder da CGTP.

Diz-me o que a Troika disse que eu dir-te-ei de que partido és No dia seguinte, 12 de dezembro, foi a vez de os deputados marcarem encontro com os responsáveis do BCE, FMI e Comissão Europeia. No final da reunião, cada partido contou a sua versão da história. Miguel Frasquilho (PSD) resumiu o encontro dizendo que “o fim do programa não significa o fim do ajustamento”. Quanto aos salários, o deputado da bancada social-democrata disse que a “a Troika está preocupada com a flexibilidade, não só salarial mas da economia como um todo”. Já Cecília Meireles, deputada do CDS, preferiu reiterar que o governo não defende um modelo de salários baixos. Quanto aos temas da reunião, a resposta foi pouco conclusiva: “a décima avaliação e a implementação de reformas estruturais”. A deputada disse ainda ter alertado para a necessidade de abrandar o ritmo de ajustamento. Do lado da oposição, o PS, pelo deputado Pedro Nuno Santos, decidiu revelar o que disse à Troika e não o que ouviu como resposta. Os socialistas exigiram um fim do memorando sem definição de programa cautelar. “Até agora, tivemos

avaliações positivas. Ninguém compreenderá que, no final do programa de ajustamento, Portugal saia com qualquer tipo de apoio e condicionalidades por parte de instituições internacionais”, conclui. Mais à esquerda, Miguel Tiago representou o PCP e, contrariando PSD e CDS, disse como é que a Troika quer reduzir salários. “Flexibilizar os despedimentos com vista a baixar o nível salarial”. É essa a “única solução para a situação” de falta de competitividade da economia portuguesa, lamenta. Por último, Mariana Mortágua do Bloco de Esquerda optou por sublinhar as críticas do FMI ao ajustamento, apresentando uma versão menos otimista do que a dos partidos da maioria “Foi dito pelo representante do FMI que o ajustamento orçamental em Portugal foi muito pequeno”. O ajustamento está a falhar também nos salários. Por isso, a “política da Troika no curto prazo continua a ser a de descer salários”, garante. Sem conhecimento de mais reuniões no calendário da missão externa, a estadia dos responsáveis pelo FMI, BCE e Comissão Europeia deve prolongar-se até à decisão do Tribunal Constitucional, no dia 19 de dezembro. Só aí é que se saberá se Portugal precisa de se socorrer de um Plano B do qual o governo tem preferido não falar, mas que pode passar por um aumento do IVA já no próximo ano. Se passar nesta avaliação, entra nos cofres do Estado mais uma tranche no valor de 2,7 mil milhões de euros. Até ao final do programa de resgate, em junho do próximo ano, ficam a faltar apenas mais duas avaliações.


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“Esquecemo-nos que nós devemos ser o Estado” Foto: Rita Gordo - Ana Venâncio em entrevista

ENTREVISTA

Para Ana Venâncio, Diretora Adjunta do Centro de Segurança Social do Porto, o conceito de cidadania, “guardado na gaveta” durante anos, ocupa hoje as ruas em força. O sistema que todos apontam como falido é mais do que o “guarda-chuva” em que todos esperam ter um lugar reservado. RITA GORDO SARA GONÇALVES É preciso fazer mais, produzir mais, participar mais. E para isso, estão cá os jovens. Mais proativos, mais empreendedores. Com um novo olhar, desta vez, sem ilusões. Enquanto Diretora Adjunta do Centro de Segurança Social e tendo em conta o momento delicado que o país atravessa, sente que se está a lutar por uma causa perdida? As causas nunca são perdidas. Devemos partir para os desafios sempre com o espírito de que vamos conseguir. Se encaramos momentos difíceis com uma atitude já derrotista, será sempre mais difícil conseguirmos atingir objetivos positivos ou ultrapassar obstáculos. Portanto, embora concorde que vivemos uma situação talvez como nunca vivemos na nossa história moderna do nosso país, eu tenho que encarar o desafio que tenho como uma oportunidade de marcar a diferença no contexto de crise e de dificuldade em que nos encontramos. E considera que as pessoas estão prontas para encarar este novo desafio ou “demitem-se” enquanto cidadãs? Eu penso que estamos num momento em que o paradigma da cidadania está a mudar. Durante algumas décadas exercemos pouco a nossa cidadania. E, talvez por isso, estejamos a pagar algumas opções que nos custaram demasiado caro. Eu acho que há aqui duas atitudes na sociedade. Uma é uma atitude de alguma revolta, em que não se compreende como é que chegamos a este ponto. E não é por acaso que as ruas têm estado cheias de gente. Para além de olhar, temos de ver para perceber quem são aquelas pessoas, por que razão ali estão e o que é que querem transmitir, especialmente ao

poder político. Por outro lado, creio que há, uma atitude de alguma compreensão. Se for explicado o que é que aconteceu nestas últimas duas décadas em Portugal, em que tivemos oportunidades que não agarrámos, parece-me que os cidadãos também entendem que todos nós temos uma parte de culpa no processo que atravessamos. Nós deixamos de participar na sociedade, deixamos de ser ativos. Ser cidadão é muito mais do que ir votar quando há eleições. E nós fomo-nos demitindo, pensando “O Estado resolve. Está lá. Trata de tudo”. Esquecemo-nos que nós devemos ser o Estado. Julga, então, que a solução deve passar por uma renovação das mentalidades? Completamente! Nós temos de ter uma atitude diferente. E já ouviram, com certeza, muitas vezes a frase “A maior crise que nós estamos a viver neste momento é uma crise de valores”. Nós é que estamos em crise como pessoas. Agora a nossa atitude tem de ser diferente, mais participativa. Eu penso que os jovens nos estão a dar grandes lições. São muito menos dependentes, são mais empreendedores, mais pró-ativos; não estão à espera o emprego lhes caia em cima das mãos. Portanto, acho que é necessária uma mudança de mentalidade e um olhar sem ilusões. Por os pés na terra e dizer “Nós temos este país. Em que é que o queremos transformar?”. Crê que estes movimentos sociais que têm emergido nas ruas estão a materializar essa forma de participação política? Eu considero que estas manifestações constituem uma nova forma de intervenção social. Principalmente os movimentos que não têm origem em convocatórias políticopartidárias ou sindicais. Agora, ve-

mos que quando as ruas se encheram foi quando se diluiu a esfera da política. Foi quando o apelo foi de cidadania. E as ruas encheram pela divulgação em diversas redes sociais, quase que apartidariamente. Mas isto não quer dizer que cada um de nós, se esteve na rua naquele dia, não tenha a sua opção ideológica. Devemos tê-la. Mas creio que na rua estiveram os cidadãos. E essa é uma força que deve ser utilizada com um objetivo concreto para não perder influência junto de quem está hoje, ou amanhã, a dirigir os destinos do país. Estas manifestações têm reunido gerações diferentes. Os jovens revoltam-se porque não conseguem ter uma primeira oportunidade de emprego, enquanto que os mais velhos assistem a cortes sucessivos às suas reformas. Considera que, hoje em dia, temos uma geração duplamente encurralada? Sem perspectivas de emprego nem de reforma? Eu acho que este momento difícil é transversal a todos. É intergeracional. Começa nos jovens que são uma geração altamente qualificada, com muitas ambições e grandes expectativas. (E bem! Não se devem arrepender disso.) Mas o país não está em condições de corresponder a essas expectativas. Depois, temos uma geração que está ativa e que, infelizmente, está a ver os seus rendimentos a serem diminuídos. E depois, temos os cidadãos que já estão em situação de reforma e que também estão a sofrer com esta adequação do programa financeiro português. Talvez por isso na rua tenham estado os mais jo-vens, os mais velhos, as famílias. Nós vemos pais com filhos em carrinhos de bebé, outros às cavalitas. A situação uniu toda a sociedade, independentemente da geração em que se encontram.

Há estudos que indicam que daqui a 30 anos a Segurança Social vai colapsar. Vivendo num país tão envelhecido, é possível projetar um plano de salvação da Segurança Social para que o sistema se torne sustentável? Eu creio que o mais importante é termos um projeto que consiga inverter a pirâmide etária de envelhecimento. Há vinte anos tínhamos uma média de 2,3 filhos por mulher e neste momento não chega-mos a 1. Mas o envelhecimento não pode ser visto como um problema. O envelhecimento, por si mesmo, é um dos indicadores de qualidade de vida de uma sociedade. O envelhecimento passa a ser um problema quando não há renovação das gerações. Portanto a melhor sugestão que eu posso dar para a sustentabilidade da Segurança Social é ‘Tenham filhos!’. É preciso apostar em políticas de promoção da natalidade porque a melhor forma de a Segurança Social ser sustentável é que haja sempre a renovação de gerações, para que aqueles que para ela comparticipam sejam sempre mais do que aqueles que dela beneficiam. Claro que tudo isto converge no momento difícil em que estamos. Neste momento, conjugado o processo de envelhecimento com a crise económico-financeira que o país atravessa, a Segurança Social está no centro do furacão. Temos cada vez menos contribuições a receber, devido ao desemprego, e cada vez mais prestações a pagar. A balança de Segurança Social está muito desequilibrada. Só se sairá progressivamente desta situação à medida que o país for recuperando em termos das suas políticas sociais e económicas. As ações do Ministério da Solidariedade e Segurança Social passam, entre outras coisas, pelo combate ao desemprego e à exclusão social. De que forma é que o Centro de Segurança Social do Porto aplica as políticas definidas pelo Ministério? A Segurança Social é um pouco mais que isso. Acompanha-nos ao longo da nossa vida: quando nascemos, durante o nosso crescimento, se entrarmos no mercado de trabalho, se tivermos um problema de saúde, se ficarmos desempregados, quando chegamos à idade da reforma e até quando morre-mos. Depois temos a área da ação social que está sempre presente em situações de maior necessidade através de uma rede solidária. Este é todo o universo que a Segurança Social suporta. Nós não somos só a entidade que se vê a financiar os abonos, os subsídios de desemprego, a doença ou as reformas. Se estamos a aplicar bem as medidas para contrariar as situações mais complicadas que, neste momento, é, sem dúvida, o desemprego? Nós estamos a aplicar o que nos é possível fazer. Não me parece que possa dizer que é o desejável. Desejaríamos poder fazer muito mais. A Segurança Social foi sempre vista como um “guarda-chuva” nacional. O problema dos portugueses

é perceber que Portugal não produz riqueza suficiente para conseguir ter na Segurança Social e no Governo uma resposta mais eficaz? Há consciência de que se tem de fazer mais para receber mais? Acho que começa a haver agora. Estivemos durante todos estes anos com a ideia de “alguém há-de resolver”. Nós vivemos um pouco na ilusão dos direitos e esquecemo-nos dos deveres. Só há direitos com deveres e os deveres trazem os direitos. Foi uma atitude completamente errada mas que foi motivada porque se passou a imagem de que tínhamos a Segurança Social que auxiliava em tudo e que até instituiu um rendimento mínimo garantido (RSI). Garantido, reparem! Se não produzimos riqueza, se não desenvolvemos o país, como é que nós podemos garantir o que quer que seja? Hoje vivemos o retrocesso de toda essa situação. Nós achávamos que tínhamos riqueza suficiente para termos milhares de pessoas a viver à custa da Segurança Social. Em 2008, as estatísticas demonstravam que 30% dos beneficiários do RSI recebiam esta prestação desde o início, ou seja, há dez anos. Se isto não é subsídiodependência, expliquem-me o que é que isto é. Há falta de coragem por parte do governo para acabar com esta subsídio-dependência? Não, neste momento há muita coragem. Alterámos, por exemplo, as condições de atribuição do RSI: para se ter direito ao RSI temos que retribuir alguma coisa à sociedade. As pessoas têm de entender que, enquanto estão a ser apoiadas, têm de dar algo em troca. Devemos passar de um Estado ‘social providência’, no qual o Estado está sempre presente, para um Estado ‘social garantia’, que garanta efetivamente auxílio nas piores situações, mas que não precise de estar presente em todos os momentos de dificuldade da nossa vida. Nós também temos que resolver as nossas dificuldades. Não teme que esse Estado interventivo se perca totalmente? Não. Eu considero que é melhor ter um Estado social sustentável do que ter um Estado social em falência.


Economia

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Breves Alteração ao cálculo das pensões Desde Janeiro de 2013 que o cálculo das pensões da Caixa Geral de Aposentações (CGA) para os funcionários públicos admitidos até Agosto de 1993 deixou de ter em conta a revalorização salarial pela via da inflação e passou a ter em conta os aumentos salariais desde 2005. Dados os casos de há vários anos de congelamento salarial e de cortes, a via de calcular as pensões tendo em conta os aumentos salariais desde 2005 é a mais penalizadora. Por isso, o Governo decidiu recuperar a fórmula de 2012 para aplicar no próximo ano – uma via que tem em conta a valorização dos salários de 2005 pela via da inflação que se deve aplicar também na Segurança Social. Assim, pretende atenuar os cortes nos valores das pensões, já que no próximo é esperado um aumento da idade da reforma para os 66 anos.

Passos espera aproximação com o PS para acordo sobre reforma do IRC IRC

Passos Coelho disse que espera uma aproximação “sem equívocos” com o Partido Socialista para que o Governo consiga o apoio do PS no parlamento para a reforma do IRC. O Primeiro-ministro falou numa convergência das duas propostas para um melhor entendimento. SARA GONÇALVES Passos salientou que o acordo “era importante no futuro para dar uma noção de estabilidade”, apesar de considerar que esta reforma seja “para durar para os próximos largos anos e isso será tanto mais credível quanto o principal partido da oposição se vincule aos objetivos desta reforma”. O líder do Governo acrescentou que o executivo não pode obrigar o PS a aceitar os princípios desta reforma. “Julgamos que é boa para o país, para atrair investimento e criar riqueza por via da retoma privada. Julgo que isso é sensível para o PS”, sublinhou.

PS admite acordar com o Governo a reforma do IRC Por outro lado, António José Seguro pondera a proposta da redução da taxa de IRC, defendendo que o Partido Socialista tem uma visão realista e que por isso apoia uma reforma que beneficia o emprego e as pequenas e médias empresas. No jantar de Natal do Grupo Parlamentar do PS, o líder socialista afirmou que o partido não se pode ficar só pelo protesto, devendo apresentar propostas alternativas ao Governo, demarcando-se assim dos restantes partidos da oposição. Seg-

uro chamou-lhe “Responsabilidade alternativa”, enquanto apresentou casos em que o PS defendeu medidas alternativas contra as propostas do executivo de Passos Coelho. Apesar disso, o Secretário-geral do PS salienta que os socialistas “não têm qualquer preconceito em dizer sim quando tal serve o interesse nacional, porque é isso, na sua perspetiva, que faz a diferença de um partido construtivo que ambiciona governar”. “Aqui mora gente que tem os pés assentes na terra, mora gente que tem uma visão realista do país”, acrescentou. Seguro justifica também a decisão

do PS através de alguns valores: “As pequenas e médias empresas ocupam mais de 75% do emprego e ocupam mais de 90% do tecido empresarial. A nossa responsabilidade é defender as pequenas e médias empresas. Por isso, nunca poderíamos aceitar alterações do IRC que privilegiassem as muitas grandes empresas do país”, lembrou. O líder do PS acrescentou ainda que uma baixa generalizada da taxa do IRC sem a alteração de outras taxas beneficiaria as grandes empresas e que as empresas do PSI20,poupariam cem milhões de euros por ano em impostos.

Alteração ao cálculo da idade da reforma é aprovada Partidos da maioria aprovam lei que admite o aumento da idade da reforma para os 66 anos. A alteração estipula que a “lei pode prever que a idade normal de acesso à pensão de velhice seja ajustada de acordo com a evolução dos índices da esperança média de vida” Foi aprovada no Parlamento por PSD e CDS-PP a votação final global para a alteração ao cálculo da idade da reforma para 2014. A esquerda (PS, PCP, PEV e BE) votou contra. O aumento da idade da reforma para os 66 anos, na prática, implica “apenas” um aumento de sies meses da idade estipulada para as aposentações, referiu o ministro do Trabalho, Pedro Mota Soares, no debate parlamentar de 29 de novembro. A alteração à lei de bases da Segurança Social estipula que a “lei pode prever que a idade normal de acesso à pensão de velhice seja ajustada de acordo com a evolução dos índices da esperança média de vida”.


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Economia CARA OU COROA

Programa Cautelar para Portugal?

“Haverá um programa adaptado à situação nesse período de tempo e teremos de ver que forma é que “Um programa cautelar este programa terá"

funcionará, ou funcionaria, como um seguro”

Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu

Maria Luís Albuquerque, Ministra das Finanças

Teixeira dos Santos não acredita num “regresso aos mercados à irlandesa” DEBATE SOBRE ORÇAMENTO DE ESTADO NA FEP

O ex-ministro das Finanças vê como mais provável a negociação de um programa cautelar e avisa que o ajustamento não acaba com o fim do período de assistência financeira. RITA GORDO Em 6 meses muita coisa pode acontecer, mas, para já, os indicadores positivos do lado da economia não são suficientes para convencer o ex-ministro das Finanças. “Não vejo sinais de um volteface significativo no âmbito dos mercados financeiros que nos permita ter um regresso aos mercados à irlandesa. Vejo neste momento como mais provável a necessidade de um programa cautelar como forma de nos auxiliar nesse regresso aos mercados, credibilizando-o. O programa cautelar vai ser como uma carta de conforto aos credores”, explica. Para Teixeira dos Santos, uma coisa é certa: com ou sem programa cautelar, o ajustamento vai ter de continuar para cumprir a meta de 4% do défice no próximo ano, inscrita no Orçamento de Estado para 2014. Um objetivo difícil de concretizar, mas importante para recuperar a confiança dos mercados. Os primeiros meses de execução orçamental vão coincidir com a fase de avaliação final antes do ter-

mo do programa, ou seja, “tudo vai estar em jogo na primeira metade do próximo ano”, assegura. O ex-ministro das Finanças de José Sócrates marcou presença num debate sobre o Orçamento do Estado para 2014 na Faculdade de Economia do Porto, onde é professor. Teixeira dos Santos denunciou a “dureza social” do documento que vai nortear as contas do Estado no próximo ano, justificando que grande parte do esforço de consolidação orçamental vai ser feita a partir da redução das despesas com pessoal e prestações sociais, em particular com as pensões. Apesar das críticas, Teixeira dos Santos não esconde a dificuldade e a importância do Orçamento pelo momento em que o país está. O antigo tutor da pasta das finanças receia que, numa altura em a economia começa a “dar sinais de inversão”, as medidas previstas para o próximo ano possam comprometer esta viragem ao “retirar cerca de 2200 milhões de euros de rendimento disponível à economia”.

Reforma do IRC não resolve falta de investimento Reconhecimento do FMI é “tardio” Teixeira dos Santos considera que as declarações de Christine Lagarde, que admitiu erros na previsão dos efeitos de austeridade nos países europeus em maiores dificuldades, já chegam tarde. “Se tivéssemos tido um ajustamento um pouco mais prolongado no tempo, teria sido mais credível para os mercados e teríamos poupado uma austeridade excessiva que não produziu os efeitos que se pretendia”, justifica. Mais tempo para consolidar as contas públicas poderia ter evitado, de acordo com o ex-ministro das Finanças, a constante revisão das metas, o que “deu um pouco a imagem de dificuldade, não só aqui em Portugal mas também na Grécia, e que não abonou a favor dos países”, conclui.

No quadro fiscal, a grande novidade não vem no Orçamento e está relacionada com a reforma do IRC. A revisão do imposto prevê uma redução da taxa em dois pontos percentuais - de 25% para 23%. Uma descida que Teixeira dos Santos diz ser apenas simbólica. “Tenho grandes dúvidas quanto ao seu impacto efectivo sobre o investimento. A melhoria das condições de financiamento e as expectativas dos investidores vão ser fatores mais relevantes”, defende. O ex-ministro das finanças acusa o governo de excesso de otimismo e, para o ilustrar, recorda o efeito da redução da taxa de IRC em cinco pontos percentuais, entre 2003 e 2004. Tendo como objetivo reverter a queda do investimento na ordem dos 7%, a medida acabou por não gerar o efeito pretendido. Os números atuais aumentam as dúvidas do ex-ministro relativamente ao sucesso da medida. “Ora o governo prevê que

com esta descida de 2%, passemos de uma queda no investimento de 8,5% para um crescimento de 1,2% no próximo ano. Mais, eu recordo que em 2004 tivemos uma coisa chamada Euro 2004”, diz.

20 anos para reduzir o peso da dívida pública A dívida pública deverá atingir este ano um valor na ordem dos 128% do PIB. O tratado europeu, o designado pacto orçamental exige que em 20 anos os países reduzam esta dívida para 60%. Mesmo considerando um cenário de crescimento e contenção da dívida, em 2030 a dívida estará perto dos 90% do PIB. “Não sei como é que vamos cumprir o pacto orçamental que exige que em 2033 estejamos nos 60%. Este ambiente de austeridade e de uma política orçamental bastante restritiva vai manter-se até a Europa rever tudo isto e encontrar soluções que aliviem os países da periferia”, remata.


Economia “Não há nenhuma razão para que programa tenha de ter como exigência o apoio do principal partido da oposição” Pedro Passos Coelho, Primeiro-Ministro.

“Não viria mal ao mundo e seria altamente desejável, que o PS fosse participante, tão activo quando possível, na negociação do programa cautelar” Vera Jardim, antigo ministro socialista.

20 mil milhões de euros é o preço para ficar sem a Troika IRLANDA

Três anos e doze avaliações depois, a Irlanda é o primeiro país europeu a regressar aos mercados. O novo ciclo, sem ajudas, só é possível graças a uma reserva de mais de 22 mil milhões de euros, capaz de garantir mais de um ano de financiamento e juros de 3,5%.

12,3

% Desemprego

RITA GORDO Numa altura em que Portugal começa a discutir a possibilidade de um programa cautelar a partir de junho, a Irlanda deixa para trás o resgate internacional a que foi obrigada a recorrer em novembro de 2010. A partir de agora, o país vai ter de garantir financiamento sem ajuda de terceiros. “Um novo começo é um sinal mais forte para os mercados do que ter uma linha de crédito cautelar”, justificou o secretário de Estado das Finanças irlandês, Brian Hays, confiante na capacidade da Irlanda em regressar aos mer-

7,4

% Défice Público

cados pelo próprio pé. Uma opção que, no entanto, a Irlanda não defende como modelo para Portugal.”Não cabe ao Governo irlandês aconselhar os outros países e ter a arrogância de sugerir que devem seguir o nosso exemplo. Cabe a cada país decidir de acordo com as suas próprias condições se precisam ou não de uma linha de crédito cautelar”, afirmou. Na verdade, a autonomia conquistada pela Irlanda tem um número: 22 mil milhões de euros. É este o valor da reserva da agência que gere a dívida

124,4

% Rácio da Dívida

pública irlandesa, o qual garante a satisfação das necessidades de financiamento até ao segundo trimestre de 2015. Para isto também contribui a forma como os investidores veem a Irlanda, exigindo agora juros considerados sustentáveis (3,5% para a dívida a 10 anos, habitualmente usada como referência), mais de metade dos exigidos a Portugal (6%) e quase um terço dos pedidos à Grécia (8,7%). O período de assistência tinha dois principais objetivos: reestruturar o sistema financeiro e escapar à bancarrota.

O segundo ponto foi alcançado, quanto ao primeiro ainda vai exigir mais esforços ao governo de Enda Kenny, daqui para a frente. Os bancos continuam num terreno difícil, a braços com um elevado nível de incumprimento e o crescimento da economia irlandesa está muito dependente das exportações, nomeadamente para o mercado comunitário. Também a procura interna, ao sofrer diretamente os efeitos da austeridade, não apresenta um melhor cenário. E para quem pensa que com o fim da ingerência externa, as medidas de ajustamento vão abrandar, os dois próximos orçamentos prometem mais cortes. Os credores vão estar atentos até porque ainda persistem muitos indicadores que podem comprometer a saúde da economia irlandesa.

Banco de Portugal prevê menor contração e crescimento para 2014 BANCO DE PORTUGAL

RITA GORDO

De acordo com o Boletim Económico de Inverno, as perspetivas para 2013 voltam a melhorar. A contração vai ser de 1,5% e a economia portuguesa deve crescer 0,8% já no próximo ano.

A análise do Banco de Portugal é mais otimista do que a do governo, que estima uma contração de 1,8%, em vez dos 1,5% previstos pelo banco central. Este resultado em 2013 justifica-se, segundo o banco central, com a diminuição do consumo privado (-2,0%), da procura interna

(-2,7%) e do investimento (-8,4%), mas também com o crescimento de 5,9% das exportações. Para 2014, o Banco de Portugal espera que Portugal regresse a terreno positivo, antecipando um crescimento de 0,8%, uma previsão que coincide com a do Governo e com a da Troika. A influenciar de

forma positiva a economia deverá estar o consumo privado (0,3%), o investimento (1,0%) e as exportações (5,5%). Em relação a 2015, o último ano do horizonte das previsões hoje divulgadas, o Banco de Portugal aponta para um crescimento de 1,3%, abaixo do esperado pelo Governo e pela Troika, que estimam um crescimento de 1,5%.

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10 Perdão fiscal gera receita de mais de 380 milhões de euros PERDÃO FISCAL

O programa de perdão fiscal já conseguiu arrecadar mais de metade do valor previsto pelo governo: 700 milhões de euros. Os contribuintes devedores têm até 20 de dezembro para regularizar a situação fiscal e ajudar o executivo a cumprir a meta do défice de 5,5%.

Foto: Jornal de Negócios - Paulo Núncio confia numa receita extraordinária de 700 milhões de euros RITA GORDO Os resultados são provisórios mas superam as previsões do executivo. De acordo com o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, já aderiram ao Regime Excecional de Regularização de Dívidas (RERD) mais de 150 mil contribuintes. A dez dias do final do programa, o governo acredita que é possível arrecadar mais 320 milhões para chegar aos 700 milhões de euros de receita extraordinária, um encaixe que seria determinante para cumprir a meta do défice de 5,5%. Paulo Núncio justifica este optimismo com o aumento do valor recuperado na primeira semana de dezembro, com os documentos de cobrança a valer ao Estado uma mé-

dia de 30 milhões de euros por dia, um resultado superior à média de 7 milhões, registada no mês de novembro. Também em 2002, na última iniciativa do género, 75% da receita total entrou nos cofres do Estado nos últimos 10 dias do prazo. A diferença é que não estava prevista uma greve dos Trabalhadores dos Impostos (STI) nos últimos dias do programa. Ainda que não seja necessária uma deslocação a uma repartição das Finanças, a paralisação agendada para os dias 19, 20 e 23 de dezembro pode mesmo deixar algumas dívidas em casa. Apesar disto, a extensão do prazo não está em cima da mesa, uma vez que os contribuintes podem regularizar a sua situação fiscal

online através do Portal da Autoridade Tributária.

2 em cada 3 euros vêm de empresas Dos mais de 380 milhões conseguidos até agora, 65% vieram do pagamento de dívidas de empresas. O Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Pedro Mota Soares, considera que esta medida contribui para “o equilíbrio financeiro dos devedores, evitando situações de insolvência de empresas e permitindo a manutenção de postos de trabalho”. Para muitas empresas esta é a derradeira oportunidade para poderem aceder aos fundos comunitários do Novo Quadro

de Referência Estratégico Nacional (QREN) 2014-2020, que obriga a uma situação regular das finanças. Na perspetiva do Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC) algumas empresas não vão resistir ao esforço financeiro adicional que lhes é exigido para reduzirem as coimas e verem os juros perdoados. Para Domingues Azevedo, “uma medida destas só faria sentido se fosse acompanhada de um acordo com os bancos na abertura de linhas de crédito específicas”, com uma taxa de juro mais baixa e durante o tempo adequado para que os devedores pudessem efetuar os pagamentos em falta”, explica.

O que é o Perdão Fiscal? O Regime Excecional de Regularização de Dívidas (RERD) está em vigor desde 1 de novembro e permite aos contribuintes saldarem as suas dívidas ao Fisco e à Segurança Social com perdão de juros e redução das coimas a pagar. A medida é temporária e está destinada a particulares e a empresas que pretendam regularizar a sua situação fiscal até 20 de dezembro. Para aqueles que decidirem não aproveitar o perdão fiscal, o próximo ano traz um agravamento do regime de crimes fiscais e medidas de reforço do combate à fraude e evasão fiscal.

Portugal é o quarto no ajustamento e penúltimo na saúde da Economia AJUSTAMENTO De acordo com o relatório elaborado pelo Lisbon Council, os esforços de ajustamento orçamental e externo não chegam para compensar o fraco crescimento da economia portuguesa. RITA GORDO Atrás da Grécia, Irlanda e Espanha, Portugal é o quarto país com melhor desempenho no “progresso do ajustamento” económico, mas é 19.º e penúltimo na “saúde” da sua economia, apenas à frente de Chipre. São estes os resultados do relatório ‘Euro Plus Monitor 2013‘, um estudo que estabelece classificações para os 17 países da zona euro mais Polónia, Suécia e Reino Unido, analisando indi-

cadores de “progresso do ajustamento” económico e de “saúde fundamental” da economia. O documento sublinha que se, por um lado, Portugal está a fazer grandes esforços ao nível do ajustamento orçamental e externo, o “muito fraco” potencial de crescimento da economia, um dos mais baixos da zona euro, continua a ser a sua maior fraqueza estrutural. O relatório observa que os quatro países que já estavam sob assistência externa no início de 2013 reforçaram os esforços de ajustamento ao longo dos últimos 12 meses – acima da média dos países do euro – e ocupam assim, sem surpresa, as quatro primeiras posições do ranking.

cadores de “progresso do ajustamento” económico e de “saúde fundamental” da economia. O documento sublinha que se, por um lado, Portugal está a fazer grandes esforços ao nível do ajustamento orçamental e externo, o “muito fraco” potencial de crescimento da economia, um dos mais baixos da zona euro, continua a ser a sua maior fraqueza estrutural. O relatório observa que os quatro países que já estavam sob assistência externa no início de 2013 reforçaram os esforços de ajustamento ao longo dos últimos 12 meses – acima da média dos países do euro – e ocupam assim, sem surpresa, as quatro primeiras posições do ranking.


Economia

Um negócio da China?

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Breves

VISTOS GOLD

Dos 388 vistos concedidos até agora, cerca de 80% foram atribuídos a investidores chine- Yuan ultrapassa ses. A estes juntam-se 19 cidadãos russos, onze brasileiros e dez angolanos que também rece- o euro e é nº 2 no beram o visto dourado. Os restantes repartem-se por mais vinte nacionalidades diferentes. comércio internac-

ional

A moeda chinesa deixa o euro para trás e torna-se a segunda moeda mais utilizada no comércio mundial. Os dados divulgados pela Swift indicam que o yuan representava, em outubro, 8, 66% das letras de crédito, um valor acima dos 6,64% correspondentes ao euro. Em janeiro de 2012, a moeda chinesa representava apenas 1,89%, longe do desempenho da moeda única com 7,87%. Boas notícias para a segunda maior economia do mundo, que este ano deverá crescer entre os 7% e os 8%. Segundo a Bloomberg, a divisa chinesa já valorizou este ano 2,3% face ao dólar, moeda que, ainda assim, continua a ser a mais utilizada nos negócios internacionais.

Singapura é o país onde é mais fácil fazer negócios a nível global

Foto: DR - Os Vistos Gold possuiem grande popularidade junto da comunidade chinesa. RITA GORDO Mutu Nesanariman foi primeiro a receber o visto gold. O empresário indiano com investimentos na área da hotelaria pretendia investir na área do turismo na região do Algarve. Um investimento que não era alheio ao “bom ambiente” empresarial, à segurança e ao gosto particular pela cultura portuguesa. A entrega da autorização de residência para atividade de investimento mereceu uma visita a Nova Deli do atual vice-primeiro-ministro, na altura ministro dos Negócios Estrangeiros. Durante o encontro, Portas salientava na altura algumas das condições para ter acesso aos vistos dourados: “Criar uma empresa, uma fábrica, ou fazer uma transferência para o nosso sistema financeiro”, explicava. De acordo com a iniciativa criada no início deste ano, basta criar pelo menos dez postos de trabalho, comprar propriedades em Portugal no valor mínimo de meio milhão de euros ou ainda transferir um milhão

de euros diretamente para os cofres do Estado para garantir o direito a residir em Portugal e a circular pelo espaço Schengen durante um ano. Após o prazo, a residência é renovável por períodos sucessivos de dois anos. Rui Machete, atual ministro dos Negócios Estrangeiros, revelou que foram atribuídos até agora 388 vistos de autorização de residência, o que corresponde a um investimento de 242 milhões de euros. O presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP) adiantou estar um grande número de vistos em análise. A soma destes com os já aprovados pode representar um encaixe de 600 milhões de euros até ao final deste ano. Os vistos são atribuídos a cidadãos de países fora da União Europeia ou que não integram o espaço Schengen. Os números mostram um claro predomínio dos investidores chineses, com um total de 295

autorizações. A Rússia, segundo país com mais autorizações de residência especiais conta apenas com um total de 19 vistos. Entre os 24 países que integram a lista de investidores, a Jordânia foi o último a entrar. Um programa que tem cumprido o seu propósito, mostrando-se “extremamente eficaz” e com “cada vez maior visibilidade”. Rui Machete destacou o “efeito dinamizador no setor imobiliário e noutras áreas de actividade”. No entanto e apesar de ser uma das condições possíveis, nenhum dos 388 cidadãos optou, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, pela criação de postos de trabalho. Sendo que muito do capital entra diretamente nas contas do Estado, o ministro dos Negócios Estrangeiros prefere não deixar margem para especulações. “Há um conjunto de requisitos de segurança e de medidas cautelares na aplicação deste regime, bem como um controlo cuidadoso da origem do capital utilizado e respetiva aplicação”. Para além do período de investi-

mento mínimo de cinco anos, contados a partir da data da concessão do visto, para a renovação da autorização de residência exige-se ao investidor que comprove ter permanecido em Portugal pelo menos sete dias consecutivos ou interpolados no primeiro ano, ou 14 dias consecutivos ou interpolados nos dois anos seguintes.

Vistos gold elogiados lá fora Os vistos dourados foram eleitos pelo site da CNN como os mais eficazes na atração de investimento externo, sobretudo chinês. A cadeia televisiva descreve o processo como uma “troca de passaportes por dinheiro”, levantando as barreiras à livre circulação em território europeu a estes cidadãos. Numa análise que comparou os programas deste género em Espanha, Portugal, Grécia e Chipre, o canal conclui que a oferta portuguesa é mais atrativa.

Pires de Lima quer empreendorismo nas escolas EDUCAÇÃO O ministro da Economia defende que o empreendedorismo deverá ser uma disciplina de ensino obrigatório. RITA GORDO

A Medida tem como objetivo preparar melhor os jovens e dinamizar o setor empresarial e já foi discutida com o Ministério da Educação. Para Pires de Lima é importante que os jovens desenvolvam, desde cedo, uma atitude empreendedora. “Estamos muito apostados em constituir uma forte rede mentores” de em-

preendedorismo para dinamizar o setor empresarial. O ministro recorda que “por cada empresa que morre, duas são criadas”. Esta medida faz, aliás, parte da Estratégia de Fomento Industrial para o Crescimento e Emprego 2014-2020, aprovada em Conselho de Ministros. De acordo com o doc-

Hong Kong e Nova Zelândia juntam-se ao pódio dos países onde é mais fácil fazer negócios em todo o mundo. Segundo o estudo “Doing Business 2014”, elaborado pelo Banco Mundial, Estados Unidos, Dinamarca, Malásia, Coreia do Sul, Geórgia, Noruega e Reino Unido completam o top 10. Portugal surge na 31ª posição, caindo dois lugares face ao ano passado. O resto da lusofonia surge a alguma distância de Portugal, com o Brasil (na 116ª posição), Cabo Verde (124ª), Moçambique (139ª), São Tomé e Príncipe (169ª), Timor-Leste (172ª), Angola (179ª) e Guiné Bissau (180ª).

umento, a inclusão das competências de empreendedorismo pretende dar um “contributo significativo para a qualificação dos empreendedores do futuro” e “fomentar uma cultura de valorização e reconhecimento do empreendedorismo”. A medida deverá ser aplicada no segundo trimestre de 2014.

Camilo Lourenço quer que políticos “saiam da frente” Mário Nogueira é apenas um dos nomes a quem Camilo Lourenço pede para sair de cena. Cavaco Silva, Mário Soares, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Jerónimo de Sousa e José Sócrates devem acompanhá-lo. “Saiam da frente” é o segundo livro do professor, economista e comentador da RTP. A mensagem é clara e os alvos estão identificados. Nem é preciso abrir o livro para conhecer as caras dos culpados pela situação política e económica atual. Entre os crimes apurados estão a destruição de riqueza, a falta de consenso político, a impreparação da classe política, a obsolescência da Constituição e a má qualidade dos media.


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Entrevista “Era óptimo poder arrancar o bigode PERSONALIDADE

Escuteiro e explorador de grutas. Gosta de Led Zeppelin e de Maria Rita. Aluno mediano, queria ser matemático, mas cedo fez outras contas à vida. Hoje, o professor sem turmas não hesita em chumbar Ministros da Educação. Sportinguista, só Mário Nogueira sabe porque não fica em casa. RITA GORDO SARA GONÇALVES

É

conhecido como um homem que luta pelos seus ideais até ao fim. Isto já começou em pequeno ou veio com a idade? Não veio com a idade nem começou em pequeno. Surgiu de forma natural. Começou antes do 25 de abril, quando andava na escola. Por um lado, já tinha alguns hábitos de democracia, porque o meu pai era um homem da oposição e era habitual que as pessoas não se resignassem com o que tinham e que lutassem pelos seus direitos - sempre me habituei a isso. No meu tempo de liceu fiz parte da Associação de Estudantes porque achava que era importante que os estudantes se organizassem. A primeira coisa que fiz quando acabei o meu curso foi sindicalizar-me porque achei que fazia parte da profissão. Foi uma coisa pensada? Ou por influência de amigos? Não posso dizer que foi pensado ou por influência. Eu pertenço a uma geração que apanhou o 25 de abril com 16 anos. Não éramos nem muito pequenos que não percebêssemos o que se estava a passar nem muito adultos que já tivéssemos de ter uma responsabilidade absoluta. Fui de uma geração que soube o que era não se poder contestar antes do 25 de abril e como percebemos isso e vivemos o 25 de abril numa boa idade, também percebemos que a pior coisa que se pode fazer para perdermos os direitos é não os exercer. O Mário é filho único. Isso foi sinónimo de mais tempo para os seus pais lhe darem atenção ou para o apanharem a fazer algumas asneiras? Não, acho que não. Não teve muita influência eu ser filho único porque nós éramos de Tomar que era um sítio onde se podia andar muito na rua. Por isso, com irmãos ou sem irmãos, todos acabávamos por ir para a rua. Os meus amigos eram os vizinhos das portas do lado. Falta de irmãos não senti porque os meus vizinhos compensaram isso. Eu nunca senti muito o “ser filho único” até porque o meu pai passava muito tempo fora de casa. E nós sempre andamos fora também, seja na escola, no liceu, ou depois do 25 de abril até, nas nossas atividades. 4. E a educação era mais rígida ou mais liberal? Nunca tive uma educação que achasse

rígida. A única coisa que o meu pai me disse (e muito bem) foi que quando chegasse a idade de ir para a Mocidade Portuguesa, eu jamais iria para essa coisa!...a única alternativa era ir para escuteiro. O meu pai também não era nada católico mas achava que, mal por mal, mais valia estar com a Igreja do que com os fascistas. Portanto eu acabei por ir para escuteiro entre os 7 e os 15 anos. Que valores transportou dos seus tempos de escuteiro para a vida que tem hoje? Eu penso que entre tudo há uma coisa que foi muito importante: nós fazíamos uma vida coletiva. Tínhamos um grupo em que tínhamos de estar juntos e construir coisas, assumir lideranças ou obedecer a ordens. Deu-me uma experiência de trabalho com outros que era muito importante. Dava-nos um desafio individual. Para além disto também pratiquei alguns desportos: a natação, o atletismo, basquetebol; sempre me envolvi bastante nessas coisas. Portanto, acho que não foram só os escuteiros que contribuíram, foi tudo.

Acho que a única coisa a que eu perdi o medo foi o medo aos morcegos e, por analogia, aos vampiros”

Praticava também exploração das grutas. O prazer que tinha por explorar a escuridão das grutas despertou também o interesse de vasculhar um regime também ele obscuro na altura? Não, acho que a única coisa que eu perdi foi o medo aos morcegos e, por analogia, aos vampiros. Éramos do grupo de espeleologia no liceu. E tínhamos sorte porque o nosso reitor não era um homem que apoiava o regime e por isso até tinha sido afastado de Lisboa e enviado para uma terra pequena. Ele próprio participava nas explorações connosco e tinha uma muito boa relação com os alunos (o que não era normal). Íamos acampar e as grutas sempre nos levaram a ter um espírito de aventura e maluqueira. De vez em quando levávamos com um bando de morcegos. E habituamonos a lidar e a combater os vampiros que sugavam o sangue todo ao povo. Ainda assim, acho que os morcegos eram mais simpáticos. Em casa ouvia os seus pais a falar do regime? Obteve alguma inspiração

para seguir os seus ideais? Não se falava assim tanto, porque o meu pai queria falar mas a minha mãe tinha medo. Mas eu percebia quando era tempo de eleições que o meu pai saía à noite com um saco plástico, com uns papéis lá dentro, e quando voltava vinha com o saco vazio. Percebi que tinha reuniões, que ia meter propaganda contra o regime debaixo das portas. Mas percebia também a minha mãe que tinha medo que ele pudesse ir preso porque ele tinha alguns amigos que tinham ido. Fez tudo parte da minha formação política. Às vezes, quando menos se fala, mais dá para se perceber. E não tinha medo em relação ao seu pai? Não. Eu teria era alguma vergonha se tivesse percebido que ele se tinha rendido àquele regime. O que ele andava a fazer enchia-me de orgulho. Chegou a passar por muitas dificuldades em casa? Eu não posso dizer que tive dificuldades. Nunca tive uma vida de burguês. O meu pai era vendedor, tinha uma vida muito preenchida; depois a minha mãe, por razões de saúde, teve de deixar de trabalhar. Foi uma vida que, presumo para os meus pais, de sacrifício em muitos momentos. Era um aluno cumpridor, com boas notas? Era normal. Fazia os mínimos para ir aos Jogos Olímpicos. Quando cheguei ao meu 5º, havia uma média para dispensar dos exames e foi o que fiz. Quando cheguei o meu 7º ano, a média já era superior, eu lá fiz o esforço e passei nesses exames. Digamos que na altura, para se ter um 14 numa escala de 0 a 20, era já um esforço muito grande. A minha média para concorrer como professor foi de 16. Já o meu filho acha-se muito estudioso, apanhou esta vaga e acha que tem de irar 19’s e 20’s. Há alguma disciplina que lhe tenha dado dores de cabeça e noites mal dormidas? Não. A minha disciplina preferida sempre foi a matemática. Essa é que dá normalmente dores de cabeça, mas essa era a que me dava mais prazer. Aliás, eu queria ir para professor de matemática, mas logo depois do 25 de abril aparece o meu serviço cívico. Mas de disciplinas trabalhosas, posso só falar daquelas das

quais eu não tinha muito interesse, como Físico-Química. Era bom a física e muto mau a química. Não tinha muito tempo na altura também porque já andava metido na vida política. Havia um grande distanciamento entre professor e aluno, mas recorda-se de algum professor que o tenha marcado? Eu não acho que houvesse um distanciamento muito grande, mesmo desde a escola primária. Eu tive um professor, o Professor Couto, que nos dizia sempre “Se algum de vocês vai para professor eu puxo-vos as orelhas!” Era um óptimo professor, também era um tipo que não era do regime. Naquelas atividades que havia da Mocidade Portuguesa, eu via outras turmas a marcar passo e nós a jogar à bola. Portanto, marcou-me e to-

O meu pai saía à noite com um saco plástico, com papéis lá dentro. Quando voltava, vinha com o saco vazio”.

dos os professores acabavam por ter uma relação com os alunos. Iam connosco a visitas de estudo, convívios, viagens de finalistas e essas coisas. Quando o professor Couto soube que tinha ido para professor chegou mesmo a puxar-lhe as orelhas? Não, porque o filho dele também foi. Recuando aos seus tempos de escola, estudou numa escola só de rapazes ou já havia raparigas?


Entrevista

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e passar sem que me conhecessem” MÁRIO NOGUEIRA Secretário-geral da FENPROF (Federação Nacional dos Professores)

A escola primária era só de rapazes. Isso influenciou as suas brincadeiras? Recorda-se quando é que as raparigas entraram na sua vida? Na escola primária nunca entraram, mas as raparigas entraram cedo na minha vida através das minhas vizinhas e das minhas primas. Só a escola é que era estranha porque na rua éramos rapazes e raparigas. A família era feita de rapazes e raparigas, a sociedade de homens e mulheres. A escola é que era estúpida porque só tinha rapazes e as raparigas tinham uma escola que ficava do outro lado da terra. Quando cheguei ao liceu, já havia rapazes e raparigas, embora em turmas separadas. No quarto ano, atualmente oitavo ano de escolaridade, as turmas passaram a ser mistas e foi uma desgraça. As turmas eram feitas por ordem alfabética

Não as convenceu a jogar à bola? Jogávamos de vez em quando. Mesmo com as turmas separadas, como era uma terra pequena toda a gente se conhecia, já éramos amigos e conhecíamo-nos de ir ao cinema e ao café. O que era estranho e estúpido era que, ao entrarmos na escola, deixássemos de ser amigos e de poder conversar ou brincar.

professor. Como é que avalia o Mário aluno em comparação com os miúdos que teve à sua frente? Não tem nada a ver. São coisas diferentes, as realidades e as experiências são outras. Costuma dizer-se que um treinador de futebol é ótimo quando já foi jogador porque já conhece bem o balneário. Nós, professores, já fomos todos estudantes e, por isso, conhecemos todos o “balneário” e sabemos como é que as coisas se fazem. Alguma vez se arrependeu de não ter seguido matemática? Todos nós temos uma coisa da qual gostamos mais. Se não a podemos fazer, fazemos outra e só temos que investir nessa outra. Não me arrependo nada.

Anos mais tarde voltaria a entrar numa sala de aula, desta vez como

Como é que foram os dez anos enquanto professor?

e eu chamava-me Mário, por isso, veja lá a desgraça. Não tinha com quem jogar à bola, só havia Marias e dois rapazes, eu e outro Mário. O que é faziam no intervalo? Não fazíamos nada. Às vezes até nos aborrecíamos porque era menina a mais.

Foram normalíssimos. Eu sou professor embora não exerça. Ainda hoje estive à porta da minha escola a queimar o Orçamento de Estado. Foi bom porque estava frio. Fui lá dentro à sala dos professores e vim com os meus colegas cá para fora. Fizemos um discurso sobre esta vergonha que está acontecer ao país e foi bom. Queimou bem e “fez quentinho”. Pelo menos, viu-se que dá para fazer alguma coisa útil com o Orçamento de Estado. Ao país não faz nada de certeza, mas para aquecer os corpos (os corações já não) este orçamento é óptimo. Não tem saudades da escola e de estar junto dos alunos? Muitas, por isso é que vou muitas vezes à minha escola e procuro estar com os meus colegas. Para mim é muito fácil porque sou efetivo numa escola ao lado

de minha casa, chego lá a pé. Nesta vida não tenho horas nem nada, mas não ganho nada com isso. É uma questão de militância e de sentir uma indignação muito grande em relação ao que se está a passar. Não é possível fazer isto com um pé na escola e outro cá fora porque isto significaria faltar aos alunos. O Ministério marca uma reunião para negociar não sei o quê e nós temos de lá ir. Se tivéssemos turmas teríamos que faltar às aulas. Os professores, como qualquer outro setor da vida nacional, têm direito a quatro dias por mês para actividade sindical. Eu acumulo as faltas que outros colegas não dão, como amanhã poderão eles acumular. O tempo pode nem ser inteiro. Há muitos dirigentes que já estão uma parte na escola e outra no sindicato. Para quem está em Lisboa é fácil. O nosso Sindicato de Professores da Grande Lisboa não tem


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nenhum dirigente a tempo inteiro, por exemplo. Todos trabalham na escola e este é um princípio que nós temos como importante. Eles têm aulas às 8h30 e às 10h30 já estão no trabalho sindical. Lisboa é a capital e o resto é paisagem. Quem está no Porto, em Coimbra, em Braga, no Algarve, não pode fazer isso. Para estar às 10h30 tem de sair às 8h00 da manhã.

uma terra que tem o seu lugarzinho no mapa e eu gosto muito da cidade, apesar de não ter nascido cá. Se quisermos estar mais incógnitos estamos, se quisermos estar com os amigos é fácil ir ter aos sítios. Em Lisboa é tudo mais complicado. Em relação ao Porto não tenho nada contra, mas quando lá vou perco-me e por isso é que eu não gosto muito.

Como é que era o Mário professor? Mais exigente e disciplinador ou mais brincalhão? Chegou a perceber a imagem que os alunos tinham de si? A boa relação com os alunos não implica desleixo e a má relação não é sinónimo de exigência. Sempre tive uma boa relação com os meus alunos, com os pais e com os colegas. Nunca tive nenhum problema e sempre fui exigente. Fui exigente comigo, fui exigente com o meu filho e, portanto, fui exigente com os outros. Lembro-me de uma vez que fui para um júri de exames num colégio privado em que não se chumbava ninguém. Eu cheguei lá e chumbei metade dos miúdos. Eu achava que tinha de ser tão exigente com aqueles como com os meus alunos. Os professores que não esquecemos são aqueles que são exigentes e que sabem ter uma boa relação com a turma. Eu sempre tentei ser assim. No outro dia encontrei um ex-aluno meu à porta do Centro de Emprego. Como os meus exalunos não fogem nem atravessam a rua quando me encontram, presumo que não ficaram com muito má opinião.

Naquela altura Coimbra, cidade de velhas tradições, era um berço de ideias revolucionárias? Tinha de tudo um pouco. Coimbra não era propriamente uma ponta de lança da revolução em curso. Era uma terra normal, tinha alternativas para todos os gostos e nós estávamos onde queríamos.

A vinda para Coimbra transportouo para uma vida mais cosmopolita. Foi determinante para que se envolvesse mais na política? Não, em Tomar isso já acontecia. Naquela fase de 74/75, o apelo para que nos envolvêssemos na vida política, social e académica era muito forte. Vir para Coimbra não foi determinante. Só me complicava mais a vida porque para chegar aos sítios perdíamos muito tempo em transportes e deslocações. Lá [em Tomar] íamos a pé para todo o lado e aqui demorava-se muito. Coimbra é mais central, apesar de Portugal ser Lisboa e Porto. O resto é onde passa o comboio. Muitas vezes é só mesmo Lisboa, até. Coimbra é

Já esteve algumas vezes ligado ao partido comunista, mas nunca tornou esta relação “oficial”. Podemos considerar que o Mário e o partido comunista são quase como um casal que está junto há muitos anos mas que nunca chegou a vias de facto? Não, eu chego a vias de facto. (risos) Quando eu vim para aqui inscrevi-me na UEC (União do Estudantes Comunistas) porque achava que havia ali um grupo de gente combativa e que tinhas as mesmas ideias que eu tinha. Depois filiei-me como militante no PCP porque considero que as ideias defendidas para este país são válidas e que vale a pena lutar por elas. Há solidariedade e há um projeto de futuro. Agora, não é questão de não ter relação ou não, ou de esta não ser efectiva. Nunca quis ser dirigente de nada, nem a nível concelhio. Sou um militante inscrito como há muitos outros, estritamente na base. Nunca fui de nenhum órgão nacional, distrital, concelhio ou de freguesia. Já fui candidato à Assembleia da República, cabeça de lista por Coimbra, já por três vezes, pela CDU. São muito raros os momentos em que nós temos a possibilidade de dizer em pé de igualdade com os outros, que estão no poder, o que eles têm que ouvir. No caso dos sindicatos, claramente a comunicação social não dá o mesmo destaque. Os sindicatos podem ter 10 segundos num telejornal e, no mesmo dia, os governantes e o poder têm o jornal quase todo.

E isso não o incentivou a procurar assumir uma posição de liderança e de maior intervenção? Não é assumir mais nem menos. É mesmo o só querer estar assim, não quero estar mais. Gosto muito da actividade sindical e gosto muito das causas sociais e de me envolver nesse tipo de coisas. A nível partidário não sinto nenhum chamamento, nenhuma motivação para ser mais do que um militante de base.

Não tinha com quem jogar à bola. Só havia Marias e dois rapazes. Eu e outro Mário”

Em 55 anos de vida já passou cerca de metade na função de sindicalista. Depois de 22 anos já atingiu a maioridade. Quando é que está pronto para sair de “casa”? Eu como secretário-geral da Fenprof estou há 6 anos. Acho piada porque apanho aí gente do poder a quem estes 6 devem estar a custar que se farta. Ainda no outro dia um ex-ministro me disse “Porque o senhor disse isto e não sei o quê”. Eu disse: “Desculpe lá, quando o senhor era ministro eu nem sequer era secretário-geral da Fenprof. Era um simples professor que, de vez em quando, dizia mal de si, mas era só isso”. Estou há 6 anos, não é assim há tanto tempo como isso, embora muitas vezes sentindo um desgaste imenso. Ainda ontem fui de manhã para Lisboa e voltei à noite. Hoje estivemos ali [na escola em Coimbra] e daqui a bocado vou para outro sítio. Amanhã vou para Viseu, no dia seguinte vou para Lisboa. No sábado tenho um plenário em Ponta Delgada. Terça tenho uma reunião com a Associação Portuguesa de Deficientes, em Lisboa outra vez. Ando sempre assim, é preciso alguma resistência. Às vezes tenho que andar com um emplastro nas costas porque o carro dá-me cabo da parte lombar. Depois é preciso tempo para poder ler e escrever. Tenho que aproveitar sempre as minhas viagens de carro, se não é um tempo perdido inutilmente. O que é

que eu faço? As pessoas vão-me ligando ao longo do dia e eu não as atendo. Vou guardando, guardando e quando vou de carro faço as chamadas que tenho em atraso. Ontem até tive que fazer mais, vinha-me a lembrar de coisas para uma reunião e tive que conduzir e escrever ao mesmo tempo, que é uma coisa que não se pode dizer. Há um cansaço de grande violência, mas estas coisas ou se fazem porque nos sentimos motivados e nos dá prazer ou é penoso. Há muitos colegas meus que chegaram aqui e ao fim de quatro/ cinco meses, não aguentaram mais e não quiseram continuar. Isto exige o afastamento de algumas coisas de que gostamos. Exigiu-me o afastamento do meu filho, em que o nosso contacto era quase só por telefone, por exemplo. Ser dirigente sindical na Fenprof tem a ver com as escolhas das pessoas. Temos eleições de 3 em 3 anos, aliás vamos ter neste ano lectivo. Eu já disse que não queria continuar e os meus colegas disseram que se vinham todos embora se eu não continuasse. Vai ser um problema que terão de resolver. (risos) Ainda temos de discutir isso. Na Fenprof há um congresso com professores que são eleitos no país inteiro, que depois se juntam e as candidaturas são ou não apresentadas e depois são votadas. Há um processo normal democrático em que as pessoas votam e não há ninguém que diga “eu quero ser”.

os professores conseguiram acabar com a divisão da carreira em duas categorias. Para além disto, entre 2009 e 2010 conseguiram desbloquear as progressões na carreira e impedir os modelos de avaliação mais desgraçados e vergonhosos que os governos apresentaram. Mas eu não considero que haja vitórias nem derrotas na actividade sindical porque são coisas absolutas. Nesta coisa da vida social nada é absoluto, nem a nossa relação com os sindicatos, nem os “casamentos” como falámos há pouco. Acho que há avanços e recuos. Por vezes temos que dar dois passos atrás, para depois dar três à frente ou só um. E quais foram os momentos e situações mais difíceis que teve de gerir? As mais difíceis são aquelas em que sentimos que as pessoas não participam, não ligam a tempo. Esta questão da prova de ingresso é agora uma grande guerra mas isto vem de 2008. As pessoas nunca acharam que isto pudesse vir a ser um problema e desvalorizavam. Às vezes, quando nós fazemos uma reunião dizem: “Lá estão vocês a dizer que isto vai correr mal. Vocês são sempre uns exagerados”. Depois, passado algum tempo, as pessoas levam com o exagero na cabeça. Quando nós dizíamos que esta prova de ingresso era para pôr gente na rua, ninguém prestava muita atenção. Agora é daqui a um mês e estamos todos aflitinhos já com greve marcada. Há colegas que me dizem: “Ó Mário, eu sei que eles vão fazer isso, mas eu nem quero pensar porque fico doente.” Doente ou sem estar doente, as coisas vão acabar por acontecer. Valia mais pensar mais cedo porque depois torna-se tarde. Para os professores que estão hoje desempregados já é tarde, para os professores que vão ficar, em fevereiro de 2015, em mobilidade especial agora é tempo de lutar contra. Luta-se mas não com a mesma intensidade de quando faltar um mês para que milhares vão para a rua.

Quais são as maiores vitórias destes 6 anos e os momentos que recorda como mais marcantes? Os momentos mais marcantes são, sem dúvida, dois. A primeira grande manifestação de cem mil professores, na altura da Lurdes Rodrigues, em 2008, no dia 8 de março; e a greve de 3 semanas às avaliações que teve lugar este ano, em junho, e que culminou com um dia de greve aos exames no dia 17 de junho. Foram os dois grandes momentos de luta fortíssima de professores e com resultados que foram conhecidos. A greve deste ano terminou com um acordo em que o governo, depois de ter encerrado É ingrato ter o rótulo de pessoa que negociações, foi obrigado a voltar atrás está sempre do contra? e a assinar uma série de compromissos Às vezes, é. É natural que se sinta que que estava longe de querer assinar. Em estamos do contra porque se é uma coisa 2008 recordo-me que, apesar de tudo, com a qual estamos a favor não se vai faz-


Entrevista

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Lembro-me de uma vez que fui para um júri de exames num colégio privado em que não se chumbava ninguém. Eu cheguei lá e chumbei metade dos miúdos.

er uma greve. Se nós marcássemos uma reunião para dizer que estamos a favor de algo as pessoas iam pensar: “este tipo passou-se”. Claro que temos que dar mais destaque àquilo com que estamos contra porque é contra isso que temos que lutar. Fica um bocado essa ideia: “Estes gajos estão sempre do contra”. Não é ser sempre do contra. É valorizar o que estamos contra, valorizar as alternativas e lutar por elas com uma coisa que não é fácil. Sabemos que para alcançar um determinado patamar ou criamos uma expectativa acima disso, e as pessoas lutam por essa expectativa para conseguirmos uma coisa intermédia, ou se nós não formos exigentes ou ousados na reivindicação não conseguimos nada. Qual é que acha que é a leitura que os portugueses fazem de si e do seu trabalho? Pouco me interessa. Há uns que acham que é uma desgraça, outros que acham que é muito bom. Há tipos que passam por mim e ficam com aquela cara de quem está a mastigar ódio. Desses fico sempre à espera que mastiguem e engulam para ver se morrem. Mas também há muita gente que vem ter comigo, sobretudo professores, mas não só, para me dar força e incentivar a continuar. Uns dizem que é pena só defender os professores (risos). Em relação aos políticos, quando um partido está no governo, os outros adoram-me. Quando trocam, os que me adoravam, odeiam-me, e os outros gostam muito de mim. É bom sinal. Enquanto tivermos gente que gosta muito e gente que detesta, gente que elogia e gente que chama nomes, é porque estamos bem. Se só tivermos gente de um dos lados há qualquer coisa que está a falhar. Pegando nesse exemplo de alguém que gostava que o Mário não defendesse só os professores, o que é que acha que falta aos outros dirigentes sindicais para não terem o peso mediático e a força que tem? Acho que temos um grupo profissional que, com todos os defeitos, é informado e frequenta muito a internet, onde as mensagens chegam com mais facilidade. Penso que a comunicação social, apesar de tudo, dá muita importância à educação e aos professores. Muitas vezes não é ter um produto melhor ou pior, é saber vendê-lo. Eu hoje podia ter feito trinta discursos perfeitos contra este Orçamento de Estado que não estariam lá as três televisões como estiveram quando nós dissemos que íamos deitar fogo ao Orçamento. Como lhe deitamos fogo e há imagem, o que é importante – dá as labaredas e nós a deitar para lá o documento – bastam apenas meia dúzia de

palavras. A comunicação social é assim, para o bem e para o mal. Devíamos ser mais completos e mais precisos no que dizemos, mas a verdade é que as pessoas, se calhar, não veriam. Não é tanto o conteúdo, mas a forma. Os Sindicatos podiam e deviam encontrar outras formas. A grande manifestação que houve no Porto podia ser uma manifestação a descer a rua como habitualmente, mas, se calhar, não ia tanta gente se não houvesse a novidade de atravessar a ponte. Há coisas que são diferentes, formas mais mediáticas de fazer passar uma mensagem e que nem sempre se explora tanto. Enquanto professores já temos que ser criativos para poder trabalhar com os nossos alunos e acabamos por sê-lo também na atividade sindical. São essas estratégias de comunicação e a aposta na criatividade que explicam que apareça frequentemente nas manchetes e que tenha maior destaque nos media? Não é um trabalho só meu. Não temos criativos a pensar nesse nível. Somos nós nas reuniões a disparatar um bocado que acabamos por encontrar uma coisa que seja diferente. As manchetes são para o bem e para o mal. Muitas vezes era óptimo ir tomar um café sem ver as pessoas das mesas ao lado a olhar. Era bom poder estar sossegadinho a ler o jornal e não apanharmos três ou quatro pessoas a virnos perguntar coisas e a queixar-se. Costumam abordá-lo muito na rua? Muito. Quando estou com pressa demoro o dobro do tempo. Oiço os problemas e converso com as pessoas que não conheço. Falam da vida delas, das dificuldades com que estão. Às vezes, são colegas nossos que aproveitam que me veem para me pedir algo. São quase consultas em que falamos de assuntos da vida profissional e isso também faz parte do nosso papel. Apesar de que, como eu costumo dizer, era óptimo poder arrancar o bigode e passar sem que me conhecessem. Quando uma pessoa está muito cansada, precisa mesmo de desanuviar um bocado e nem sempre é fácil. Eu compreendo as pessoas e nunca rejeito. Acho que o facto de virem ter connosco falar da vida delas é sinal de que têm confiança e que estão à vontade. Há quem me pergunte se tenho medo. Quem tem medo compra um cão. Os tipos do governo devem ter uma matilha deles, mas nós não precisamos de cão nenhum. Nunca se disfarça? Nunca, só quando não me apetece fazer a barba e, mesmo assim, não fico disfarçado (risos). As pessoas conhecemme na mesma e acho que isso é bom. Dizem que dou muito a cara. Há uma

grande diferença entre nós que damos a cara e os governantes que dão a cara. Nós podemos andar na rua e as pessoas até falam connosco, eles se andassem iam ter problemas. Já ouviu alguma coisa mais desagradável contra si? Não, não me lembro. Pode haver um outro caso. Quando estou com paciência até acabamos todos a dizer a mesma coisa. Um ou outro que eu tenha menos paciência, respondo e ele não me volta a dizer mais nada e ficamos assim. Ao longo dos anos já trabalhou com muita gente diferente neste Sindicato. É fácil gerir tantas vontades e organizar um Sindicato desta dimensão? E com muita gente diferente. As pessoas são diferentes na forma de trabalhar, na forma de agir, têm opiniões diferentes sobre as coisas, partidos diferentes e militam movimentos e associações diferentes. Cada um tem a sua opinião e nenhuma vale mais do que as outras. O que eu faço é tentar que tudo aquilo que é dito por todos possa depois contribuir para o consenso. Mas a palavra final é sua? Não. No Secretariado Nacional da Fenprof há gente de vários sindicatos que estão a trabalhar no Luxemburgo, Madeira, Açores, norte e sul de Portugal, e eu não me lembro de alguma vez termos feito uma votação. Conseguimos sempre construir, a partir das opiniões de cada um, um entendimento. Quando não podemos decidir naquele momento, continuamos no dia seguinte num grupo mais restrito a tentar partir pedra e a construir, coser as coisas para ter uma opinião final. Muita gente não sabe que os Sindicatos são pagos pelos “patrões”. No caso do Sindicato dos Professores é o Estado que paga. Não é estranho pensar que está continuamente a dizer mal do seu patrão? Não, sabe porquê? Porque a democracia tem de ter dois lados: o poder e o contraditório. A democracia seria completamente coxa se o Estado pagasse aos deputados, aos governantes, ao Presidente da República, aos Presidentes de Câmara, aos vereadores, isto é, ao poder. Depois o contraditório, se quisessem, pagavam eles. A única coisa que o Estado paga aos professores que são dirigentes sindicais é o seu salário. Se um professor for para deputado não recebe só o seu salário, recebe para aí o dobro. Anda sempre de um lado para o outro e diz que não pára um minuto. Se o seu diário de bordo tivesse um título,

qual é que lhe faria mais justiça? Não faço ideia, o carro com que eu Continua ainda com os mesmos ando, em cinco anos, tem quase 250 mil medos que tinha antes do 25 de abril? quilómetros. Chamava-se Diário de Sempre. É uma voz da consciência Bordo e, mesmo assim, em muitos dos como na altura era para o meu pai. dias não tinha nada escrito. Não porque eu não tivesse feito nada, mas porque não Disse que o seu filho é médico. Ele já tinha tempo para escrever. conseguiu descobrir a cura para o seu inconformismo ou não há remédio? Para quem pensa que só sai à rua de Não, ele é inconformado também. cartaz e megafone na mão, que outros Pelo menos fiz tudo para ele ser e consigo motivos é que levam o Mário Nogueira, que ele seja. cidadão, a sair à rua? Sou capaz de sair à rua para ir ver o Se tivesse que avaliar o seu percurso Sporting (risos), para ir ao café, por ex- até agora que nota é que lhe dava? emplo. Já não tenho saído muito à rua A auto-avaliação deve ter um carácter para ir ao cinema porque tenho medo formativo e não tanto quantitativo. Tede fazer má figura. Depois toda a gente mos sobretudo que reconhecer, mais do sai e eu sou acordado pela senhora da que aquilo que fizemos bem, aquilo que limpeza, portanto, isso já não arrisco. Se fizemos mal para não repetir. Aquilo que tiver bom tempo saio para ir dar uma vol- fizemos menos bem é para melhorar ta, ir até à casa dos meus pais em Tomar. e ainda há o que podemos fazer ainda Com cartaz até nem costumo sair muito melhor para dar uma resposta mais posiporque como tenho de pegar na faixa da tiva. Essa auto-avaliação não tem nota, frente fico sem mãos. é sempre um relatório crítico da nossa atividade. Ainda ouve Led Zeppelin ou a música que o acompanha já mudou? Passava com dispensa de prova oral? Oiço de tudo um bocado. Tem muito Como lhe disse, durante os meus a ver com o estado de espírito. Às vezes tempos de estudante nunca quis ser o faço viagens de horas e não tolero ouvir melhor aluno. Queria não ter de fazer som nenhum, nem os noticiários. Vou exame, ou seja, conseguir ter a nota que com tudo desligado. É curioso porque o dispensasse. Aquilo que é exigível é eshá pessoas que me dizem que quando tar acima da barreira média, mas sem me andam mais cansadas gostam de ouvir mostrar melhor que os outros. Era assim música, mas eu sou o contrário. Quando e penso que continuo-o a sê-lo. Há quem estou melhor e mais à vontade vou a ou- diga que eu devia ir para a CGTP, mas vir música. Tenho o carro cheio de CD’s não. Eu acho que estou muito bem aqui. nas portas. Gosto de ouvir os Led Zeppe- Gosto muito de ser professor, dos meus lin, os Pink Floyd, mas também a Maria colegas e de estar nas escolas. Quando Rita, o Tim e o Sérgio Godinho. vou a qualquer escola, e hoje já estive em duas, sinto que sou muito bem recebido Consegue ter tempo para a sua pelos meus colegas, sejam sindicalizados família? ou não. Mais do que ser eu reconhecer Sim, vai-se repartindo. O meu filho o meu trabalho e a avaliar-me, a recomtem 31 anos, já não é propriamente uma pensa vem do reconhecimento dos outcriancinha. É médico psiquiatra ali em ros. E nesse aspeto não tenho razões de cima e tem uma vida completamente queixa. Eu sou um bocadinho exigente e autonomizada. Aliás, já se casou. Não acho que devia ter feito sempre mais. tem filhos porque não pode, mas tem uma cadelinha muito engraçada que Se decidir não continuar na lideradotou. Quando cá estou aproveito para ança da Fenprof o que é que podemos almoçarmos juntos ao domingo. Em esperar de si nos próximos anos? relação aos meus pais tenho de ir lá de vez Só em 2016 é que há congresso, mas em quando. Têm 83 anos. Acompanho- no dia em que eu sair daqui sou efectivo os mais quando têm consultas médicas numa escola e hei-de ter lá os meus alupara perceber o que se passa com eles nos e os meus colegas à minha espera. É porque eles podem já não entender bem. lá que vou estar porque eu sou professor, não sou outra coisa. A minha mãe fica sempre Acham piada quando o veem na telmuito preocupada: “ai meu evisão? filho se tu dizes coisas Já se habituaram, acho que já não ligam muito. A minha mãe fica sempre que eles não gostam”. E muito preocupada: “ai meu filho se tu eu digo-lhe que isso é que dizes coisas que eles não gostam”. E eu eu gosto de dizer. Coisas digo-lhe que isso é que eu gosto de dizer. de que eles gostam, oxalá Coisas de que eles gostam, oxalá que não que não diga. diga.


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Sociedade

100 DIAS

DE PAPA FRANCISCO Eleito pela revista Time como pessoa do ano de 2013, os primeiros meses de pontificado de Papa Francisco já deixaram marca na igreja católica.

Foto: Público FRANCISCA MATOS Desde que foi eleito, em março de 2013, que o Papa Francisco tem dado que falar. Uma das primeiras histórias que deixaram o mundo de boca aberta é a seguinte. Assim que foi eleito Papa, ao final da tarde do dia 13 de Março de 2013, Jorge Bergoglio quis continuar a partilhar a mesa com os cardeais. E na altura de voltar para casa recusou a limusina oficial. “Vou de autocarro com os cardeais”, disse ao motorista e aos seus seguranças. Para além disso ainda fez questão de ser o próprio a dirigir-se à receção do hotel onde passara a noite, para pagar a conta. Não foi a primeira quebra de protocolo, nem seria, certamente, a última. Antes destes episódios, às 20h10, o novo sumo pontífice aparecia na varanda para a tradicional bênção aos fiéis que enchiam a Praça de São Pedro debaixo de chuva. Francisco está vestido de branco, não traz a murça vermelha orlada de arminho nem a estola sobre os ombros. Nas semanas seguintes, jornais de todo o mundo começam a encher as suas páginas com os pormenores das atuações do mais recente Papa, e os luxos que faz questão de deixar de parte. A cruz que o novo papa usa não é de ouro, mas de ferro, aquela que já possuía antes. A atitude que mais deu que falar terá sido a

ausência dos tradicionais sapatos vermelhos da marca “Prada”, sapatos esses que Bento XVI usava sempre que aparecia em público. Francisco autoproclama-se bispo de Roma e depois de eleito desmarca uma consulta no dentista, recusa carros oficiais, dispensa o papamóvel blindado, desespera a segurança do Vaticano ao andar no meio da multidão, recusa os aposentos luxuosos a que tem direito no apartamento pontifício, abraça crianças, exorciza um doente, segundo alguns, lava os pés a uma rapariga muçulmana, improvisa ao falar ao mundo e cita a avó nas homilias. Mais recentemente chegou mesmo a condenar a Máfia Italiana e a corrupção que existe à volta do Banco do Vaticano, que é usado em esquemas de lavagem de dinheiro. Além disso, o IOR, banco do Vaticano, promete continuar a dar dores de cabeça, numa altura em que muitas organizações internacionais exigem transparência. Francisco já deu sinais de que quer uma mudança e nomeou recentemente um homem da sua confiança para ocupar um lugar que estava vazio desde 2010, o de prelado do IOR. Battista Ricco, amigo do Papa, vai ter acesso a todos os documentos e reuniões. Por outro lado, nas congregações gerais que antecederam o conclave, muitos cardeais deixaram bem claro que esperam do novo sumo pontí-

fice uma reforma da cúria, que não pode continuar a ser uma máquina pesada e suspeita de corrupção. O que se verificou. A revolução começou logo com a escolha do nome Francisco e no facto deste novo Papa ser jesuíta, algo que já não acontecia há várias centenas de anos. Especulou-se se seria uma referência a São Francisco Xavier ou a Francisco de Assis. Mas no dia 16 de Março, um sábado, quando recebeu mais de 6 mil jornalistas na sala Paulo VI, Bergoglio explicou que a inspiração veio de Francisco de Assis, o santo da pobreza. “Como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres”, acrescentou. O jornal suíço “Le Temps” chama-lhe Superstar dos Pobres. O Huffington Post Omnipapa, por conseguir estar nas ruas, nas basílicas e nos ecrãs da televisão ao mesmo tempo. Em apenas três meses, multiplicaram-se as biografias e as reportagens sobre Bergoglio. A conta do papa no Twitter bateu todos os recordes. As celebrações da Páscoa foram seguidas na televisão por mais de 5 milhões de pessoas - duas vezes mais que no tempo de Joseph Ratzinger. “Todos os papas suscitam, no início, entusiasmo e devoção”, admite o vaticanista Andrea Tornielli. Mas este Papa tem tido uma receção como nunca antes visto. Refira-se o caso da sua visita ao Brasil.

Quando Francisco esteve além Atlântico dançou, cantou, apelou ao respeito por todas as religiões e conseguiu juntar, na Praia de Ipanema, milhões de fiéis de todos os cantos do Brasil. A visita do Papa Francisco ao Brasil foi noticiada várias vezes em quase todos os órgãos de comunicação generalistas nacionais, tendo feito capa em muitos dos dias. Nos últimos 100 dias, Francisco ainda não foi submetido a uma verdadeira prova de fogo, apesar de já ter tido a capacidade de apagar uma série de incêndios. O pontificado de Bento XVI foi uma espécie de via sacra - feito de ataques, crises, escândalos como a pedofilia, tensões no governo da cúria, “Vatileaks”, as fugas de informação do Vaticano. Mas com a eleição de Francisco todos esses temas saíram da agenda mediática, que passou a estar totalmente centrada nos gestos e nas palavras do novo papa. A verdade é que Francisco, por um lado rompeu com a tradição, mas por outro regressou à mensagem original do cristianismo, falando de temas como o Demónio, a pobreza e a misericórdia, e sabe comunicar. É espontâneo, imediato nas respostas e natural. Verdadeiramente sul-americano. Não tem medo da intimidade: “Tenho muitos pecados”, confessou várias vezes. Olha nos olhos, anda no meio das pessoas e fala numa linguagem

simples e concreta, recorrendo a expressões como “Deus spray” ou “ONG piedosa”. A língua de Francisco, observa Sandro Magister, antigo vaticanista, “mistura vários estilos, é típica da internet e inédita na boca de um papa”. Mas do ponto de vista doutrinal Francisco continua a ser Bergoglio, o conservador. Em Abril, e apesar de insistir recorrentemente na ideia de misericórdia, disse que “encontrar Jesus fora da Igreja não é possível”. Ninguém o atacou nos dias seguintes. Roberto Cipriani, sociólogo italiano, explica a chave do sucesso: Francisco culpa o pecado e não os pecadores. Por isso o impacto da mensagem na opinião pública é menos explosivo. A doutrina, que é conservadora, está presente nos discursos, mas de forma “astuta e sem levantar ondas”. Francisco continua a ser visto como um papa que está com o povo. “Capaz de ir ao encontro das pessoas”, como referiu D. Manuel Clemente, o novo patriarca de Lisboa. Esta ideia parece manter-se intocável desde o início do pontificado. “Quando ele disse, no princípio, que foram buscar um papa de muito longe, ao fim do mundo, é quase como um convite a dizer que a Igreja deve ir para todos os mundos e estar em todos os mundos”, observou D. Jorge Ortiga depois do conclave.


Desporto

Dromomania: o sintoma do mochileiro à conquista do mundo TURISMO

Numa altura em que a crise insiste em prender os portugueses ao sofá, conheça as histórias de Quirino e Jorge: dois portugueses que decidiram deixar tudo e partir numa viajem à boleia sem destino traçado. Foto: fuidarumavolta.pt - Jorge Vassallo partilha no seu blogue as viajens que vai fazendo.

CRÓNICA FRANCISCA MATOS franciscamatosjcc@gmail.com Editora Sociedade

De agulha e dedal ninguém leva a mal

E

m tempos em que termos como austeridade enchem a boca ao povo, já parece que nada que esteja subordinado a este tema nos faz grandes cócegas.

DIOGO AZEREDO Os portugueses viajam cada vez menos. De acordo com um inquérito feito para a EasyJet, noticiado pelo Público a abril deste ano, mais de metade dos inquiridos admite possuir um orçamento de viagens reduzido face a 2012. O inquérito demonstra ainda que os hábitos de viagem dos portugueses se têm alterado com a crise: 17,4% optam por fazer menos férias, 47,3% dos inquiridos viajam uma vez por ano enquanto 28,7% dizem que viajam duas vezes ou mais por ano. 16% admite mesmo não viajar. Perante este cenário, onde nos 25 países que constituem a União Europeia, Portugal fica apenas à frente da Bulgaria como país com menos pessoas a viajarem, é possível encontrar pelo mundo histórias de sucesso de portugueses que abraçaram um estilo de vida isento ao bolso roto, não fosse nele o dinheiro algo assessório: o mochileiro.

“Sinto que a minha natureza é como o vento” Quirino Tomás é um desses casos. A sua vontade de viajar despoletou aos 14 anos, quando acompanhou a irmão no seu interrail durante duas semanas. “Aí foi plantada em mim uma semente que despontou na altura da faculdade. Durante esse período viajei primeiro em Portugal e depois fiz dois interrails a solo. Tudo correu sempre bem e a experiência foi de tal modo enriquecedora que percebi que era isso que queria fazer na minha vida, viajar pelo Mundo”. Hoje, já passou por mais de 25 países, distribuídos entre Europa e Ásia. A quando desta entrevista, encontrava-se na ilha de Guili, sendo que a maior das suas estadias foi na China e não se prolongou durante mais do que três meses e meio.

“A China foi uma escola de vida. Foi altamente exigente em vários níveis sendo a linguagem a maior das barreiras”, explica, destacando dois momentos,que o marcaram em particular: “Dormir numa montanha com trabalhadores humildes da construção e viajar durante 15 dias no país com um “nativo” em que a única maneira de comunicar era com recurso às traduções do seu smartphone”. Em relação ao atual contexto de crise económica agarrar cada vez mais os portugueses ao sofá, Quirino considera que “aos poucos e poucos, perdemos a capacidade de sonhar, de sermos audazes e aventureiros. Estamos acomodados, tacanhos e amorfos e não conseguimos ver que há mais vida fora do défice, da crise e da nossa pequenez”, acrescentando que “para as pessoas que tem responsabilidades para com uma família, não posso dizer que não é um motivo válido. Porém a minha opinião é que na maioria dos casos as pessoas têm demais, compram demais, desperdiçam demais. Investem em coisas ocas e vazias como bens materiais. A viagem pode ser um investimento de sensações, experiências, aprendizagens, desafios, aventuras e o retorno que traz é algo que nunca um bem material trará”.

“Não consigo resistir ao apelo do ir” Foi o que Jorge Vassallo pensou há dez anos, mais ou menos a idade de Quirino, quando deixou o seu emprego na agência de publicidade. “Deixar o meu trabalho não foi uma decisão repentina. Foi o resultado de um longo processo, que de certa forma, começou com os meus interrails nos anos 90 e culminou numa entrevista do Filipe Palma, que serviu de gatilho para uma série de decisões e planos. Então, decidi largar o emprego, vender o

carro e deixar a casa que tinha alugada. A ideia era viajar durante um ano e depois assentar outra vez mas quando voltei já não era a mesma pessoa”, explica. Confessa-se “absolutamente dromomaníaco”, isto é, alguém com o vício de viajar, e os cerca de 65 países pelos quais já passou são a prova disso mesmo. O preferido? “Sem dúvida a Índia. Fui muitas vezes e por longas temporadas, é a minha segunda casa, tenho grandes amigos e sei que vou sempre voltar. A próxima vez é já em janeiro”. Atualmente, Jorge trabalha como líder de viagens na agência Nomad mas dedica-se igualmente à escrita. O livro “Onde vais com 1000 euros?” foi redigido juntamente com o amigo Carlos Carneiro e fala de um desafio mútuo que consistiu em ver onde iam com mil euros cada um. “Pegámos em duas bicicletas e saímos de Lisboa para o Sul, rumo a África... e fomos até Dakar, no Senegal”. Jorge confessa que não planeia as suas viagens, uma vez que gosta de “deixar espaço à espontaneidade, às peripécias e encontros. O dinheiro, é o que tiver. O tempo, é o que tiver”. Confrontado com os resultados do inquérito recente realizado pela Easyjet, que demonstram a alteração nos hábitos de viagem dos portugueses, Jorge, por dentro do negócio, admite que “a resposta imediata seria que sim, mas o facto é que me cruzo cada vez com mais portugueses por aí. Se calhar a crise afeta mais as agências tradicionais e aqueles que viajam em excursão. Quanto a mochileiros, cada vez encontro mais”, resumindo que existe já uma “comunidade informal” de mochileiros portugueses, “pessoas que se cruzampor aí e que comunicam através de blogues”. “Portugal é um país pequeno... isto é quase uma família.

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Desde 2011, quando o atual Governo subiu ao poder, que a ordem do dia é quase sempre a mesma. Avanços, recuos, avanços e mais recuos. O Governo tenta implementar medidas que agradem à Troika e permitam que a economia siga o rumo que a Europa traçou para nós, enquanto que a oposição, toda ela, tenta provar que as medidas não levam a lado nenhum. E agora há um novo ator em cena que atua sempre como um trunfo na manga, o Tribunal Constitucional, ou TC como é carinhosamente abreviado na comunicação social. A Constituição da República Portuguesa, há muito guardada só lara exposição, é agora citada quase todos os dias, até mais do que quando foi instituída. Esta semana veio à baila, mais uma vez, as pensões. O drama que é para quem trabalhou e fez os seus descontos, pagou impostos devidos, durante toda uma vida, para agora o Senhor Ministro que vem de scooter, perdão de “Vespa”, trazer a boa-nova de que as pessoas têm de esperar mais anos, têm de trabalhar até mais tarde, para no final ganharem menos e muito abaixo do que realmente mereciam. E então não é que para além de tudo isto ainda parecem que fazem de propósito para gozar com as pessoas? Saiu na quarta-feira um ante-projeto de Decreto-Lei que será discutido com os parceiros sociais na próxima segunda. E o que diz esta coisa? Bem, primeiro e mais importante diz que a idade para se obter a chamada “reforma completa” sobe dos 65 anos atuais para os 66 no próximo ano. E a leitura da pessoa fica-se já por aí. É a altura para os comentários, os palavrões, apupos e pontapés na mesa. Mas a pérola vem depois, na altura em que de enumeram as salvaguardas à nova lei.

É que, por exemplo, carregar baldes de massa, como se diz na minha terra, de um lado para o outro, desgasta menos que dar à agulha”

Portanto, fora da abrangência desta medidas ficam as pessoas que completem 65 anos até 31 de dezembro de 2013 ou a profissão que desempenham faça parte das chamadas “procissões de desgaste rápido”, caso dos bailarinos, profissionais da pesca, mineiros, condutores de camiões e... as bordadeiras da ilha da Madeira. É que por exemplo carregar baldes de

massa, como se diz na minha terra, de um lado para o outro, desgasta menos que dar à agulha. O caso dos bailarinos ainda é compreensível porque as suas carreiras terminam ali na meia idade por causa do corpo, pior ainda se for uma bailarina graças à maternidade. Agora, as bordadeiras que passam a agulha pelo pano repetidamente eu sinceramente não entendo. A minha mãe também borda e diz que o que mais gosta no seu hobby é saber que pode e que vai conseguir faze-lo por muitos e bons anos, desde que tenha à mão uma agulha, um pano, linha e o dedal! Porque eu não quero que ela se pique.

Será que algumas bordadeiras são filhas da mãe e outras filhas do pai?

E depois permanece a dúvida. Será que há bordadeiras filhas da mãe e outras filhas da tia? Talvez a questão seja mais correta assim: será que algumas bordadeiras são filhas da mãe e outras filhas do pai? É que o Alberto João Jardim conseguiu esta proeza para as suas senhoras mas o Presidente da Câmara de Viana do Castelo não foi tão astuto. O bordado de Viana, ou dos namorados, é património materia. Dou este exemplo, mas podia dar outros. Eu gostaria que os nossos governantes vissem com atenção o que escrevem nos diplomas que mandam cá para fora porque toda a gente sabe que os corretores automáticos dos iphones e ipads são um problema! E pelo caminho juntem às bordadeiras da Madeira a minha mãe, que é do Norte. Aposto que ela ia ficar toda contente e não vos custa nada.


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Grande Porto FRANCISCA MATOS

O Porto já “Arrebita!” O Projeto Arrebita!Porto iniciou no passado mês de outubro os trabalhos na casa que se comprometeram a requalificar a custo zero. O número 42 da Rua da Reboleira já sofreu as demolições necessárias e está, agora, pronto para a intervenção mais intensiva do grupo de voluntários das áreas de engenharia e arquitetura. José Paixão é o mentor e coordenador desta ideia que ganhou o prémio “Faz… Ideias de Origem Portuguesa”, através do

qual a Fundação Gulbekian distingue jovens portugueses que se encontram a viver no estrangeiro e querem deixar a sua marca em Portugal. Desde o seu início, o projeto contou já com seis equipas de voluntários portugueses e estrangeiros que trabalham e vivem juntos durante três meses. A “Team 7” é constituída por três estrangeiros e dois portugueses, sendo quatro deles arquitetos e uma engenheira, e termina o seu contributo em dezembro.

Foto: DR - Medicamentos mais baratos são os privilegiados entre os idosos.

Portugueses obrigados a escolher entre a alimentação e medicação CRISE Foto: DR - Casa Marta Ortigão

Primeiro hospital de Cuidados Paliativos Pediátricos é no Porto O Porto vai acolher a primeira unidade de cuidados paliativos pediátricos do país. O hospital que vai acolher crianças com doenças crónicas e terminas já tem morada. A Rua Godinho Faria, nº 399, em S.Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, é o local escolhido para acolher esta unidade de saúde e o terreno foi cedido pelo Centro Hospitalar do Porto. O objetivo deste hospital é acolher crianças dos zero aos 18 anos, que sofram de doenças prolongada e que obriguem a muitos cuidados. As crianças portuguesas com este tipo de necessidades não têm sido abrangidas pelos projetos do Serviço Nacional de Saúde, ficando internadas por longos períodos nos Serviços de Pediatria, cujo objetivo não passa só por este tipo de doentes. Esta situação leva ao “comprometimento do vínculo familiar e do próprio desenvolvimento infantil, provocando, por vezes, a desestruturação familiar devido à conjuntura social.” – alerta a associação NOMEIODONADA. Esta associação apoia pais e familiares de crianças

que passem pelos Cuidados Intensivos Neonatais ou Pediátricos, nomeadamente com apoio psicológico, apoio burocrático e apoio ao luto. O espaço, que terá o nome de “Kastelo Marta Ortigão”, pretende dar mais conforto e proteção às crianças e também às famílias, tendo uma casa principal onde ficarão as crianças, um jardim e também um espaço onde poderão ficar os pais, que muitas vezes têm de fazer centenas de quilómetros diários para estar com os seus filhos, que estão internados. Está, neste momento, a decorrer uma campanha de angariação de fundos para levar este projeto avante. Quem estiver interessado por deslocar-se a qualquer hipermercado Lidl do país e arredondar a sua conta para o valor que desejar. A diferença entre o valor que deveria pagar e o que arredondou será entregue à associação NOMEIODONADA, responsável pela requalificação da casa que no futuro será a primeira unidade de cuidados continuados e paliativos pediátricos do país.

A Magia do Natal já chegou à cidade As ruas do Porto têm, desde dia 29, mais encanto. A Avenida dos Aliados foi a primeira zona da cidade a receber as iluminações de Natal, brancas e douradas, bem como os Nove Baloiços/Palavras, Nove Palavras/Baloiços, projeto já levado a cabo no ano passado e que vai encher a avenida de baloiços associados a palavras como Natal, Amor, Festa, Magia ou Porto. As restantes 24 ruas e praças da cidade iluminaram-se a 6 de dezembro. O Porto conta também com uma ár-

vore de 26 metros de altura, a maior da Europa, na Praça do General Humberto Delgado, junto aos Paços do Concelho. Mas a magia do natal não se fica por aqui. A Igreja e Torre dos Clérigos tiveram direito a tratamento especial e está montada, na Praça D.João I, uma pista de Gelo e na Cordoaria uma roda gigante. Também a Ponte D.Luís está iluminada desde dia 18 de novembro. As iluminações apagam-se a 7 de janeiro.

A crise afeta todos, principalmente os mais vulneráveis. Com as reformas a diminuir e a solidão a aumentar os idosos veem-se obrigados a escolher entre comer de forma saudável ou medicarem-se. FRANCISCA MATOS “Os portugueses são os que mais gastam em medicamentos, mais do que os suecos, em termos absolutos”, afirma António Ferreira, presidente do concelho de administração do Centro Hospitalar do S.João. Com a crise atual, que leva à aplicação de duras medidas de austeridade e à consequente e polémica redução das pensões dos idosos, este passa a ser um assunto de alarme. Muitos idosos veem-se obrigados a escolher entre comprar alimentos ou medicação. Um estudo recentemente divulgado pela Direção-Geral da saúde indica que três em cada dez inquiridos assumem ter deixado de consumir um alimento considerado essencial ou a fazer apenas uma refeição por dia. Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas alerta para o facto de que, em média, “cada português dispõe de pouco mais do que 100 euros por mês para se alimentar, um valor tremendamente insuficiente.” Manuel Lopes, um dos coordenadores do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, afirma que os estudos mostram que “os idosos queixam-se de que sentem dificuldades económicas para comprar a totalidade dos medicamentos que lhes são prescritos e para fazer uma alimentação saudável”. Por outro lado a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade e o Programa Nacional de Promoção Alimentação Saudável, são da opinião que a crise pode ajudar os portugueses a mudarem os seus hábitos alimentares e tornarem-se mais saudáveis. Os portugueses podem trocar a carne de vaca, mais cara, pela de frango, mais barata. Porém, para muitos portugueses, a carne e o peixe são considerados luxos, e são deixados apenas para ocasiões ditas especiais, ou quando conseguem amealhar algum dinheiro para

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% dos idosos já deixaram de utilizar alguns serviços de saúde por falta de dinheiro baratas.

irem ao talho ou à peixaria. A associação Médicos do Mundo alerta para o facto de a situação ser pior nas áreas do grande Porto e grande Lisboa. De acordo com a responsável da MdM, Carla Fernandes, não há um padrão detetado e esta situação tanto ocorre entre idosos isolados como entre os que vivem com outros familiares. A coordenadora da associação referiu que detetaram igualmente situações em que os idosos reduzem a toma de medicamentos ou adquirem apenas os medicamentos mais baratos da prescrição médica.

Idosos sofrem mais com a solidão do que com a crise No passado dia 1 de outubro celebrou-se o dia do idoso, efeméride que foi comemorada com várias atividades em todo e país e foi pretexto para alertar a população para os problemas que afetam os mais velhos. Para além dos problemas económicos e do facto de terem, cada vez mais, de ajudar os filhos que ficam desempregados, muitos idosos vivem sozinhos, não tendo qualquer ajuda ou companhia durante horas a fio. A Operação Censos Sénior, levada a cabo entre 15 de janeiro e 28 de fevereiro, mostra que há 28 197 idosos a viver sozinhos ou em situação de isolamento. É um aumento de 22, 6% relativamente a 2012. Este ano, na terceira edição da operação, foram identificados mais 5196 idosos, em relação aos 23.001 casos, em 2012. Desde a primeira edição da oper-

% dos idosos já substituiu os medicamentos por alternativas mais

ação, em 2011, o número de idosos que vivem sozinhos ou em condições de isolamento aumentou em 12.601 casos. Dos 28.197 idosos referenciados, são 19.455 os que vivem sozinhos, 6565 que vivem isolados. Há ainda 2177 que habitam sozinhos em condições de isolamento geográfico. Os distritos do norte do país são aquelas com mais casos referenciados: Viseu (com 3315), Bragança (com 2586) e Guarda (com 2418). Para alertar os idosos que vivem sozinhos ou isolados, a Guarda Nacional Republicana tem feito várias ações de sensibilização acerca dos assaltos e burlas que atingem os mais velhos. “Há situações em que o único contacto que alguns destes idosos têm é com os agentes da GNR que patrulham a área”- afirma Marco Cruz, capitão da GNR. Qualquer pretexto é usado por quem se aproveita dos mais velhos. Ultimamente foi a mudança das notas de cinco euros. Os agentes também procuraram informar os idosos, de forma a evitar situações de burla sob pretexto de que a nota actual vai deixar de ser utilizada. “O mais importante é clarificá-los de que a nota que está em circulação não vai sair”, informa o capitão.


Sociedade

Anestesista do Porto é Médico sem Fronteiras na Síria Gustavo Carona Magalhães é português, médico de profissão. Partiu no último dia 25 de novembro para uma nova aventura. Gustavo integrou pela quinta vez a equipa dos Médicos sem Fronteiras e partiu rumo à Síria.

VOLUNTARIADO

Foto: DR - Gustavo Carona Magalhães em missão humanitária.

FRANCISCA MATOS Já esteve no Afeganistão, Paquistão, Moçambique e na República Democrática do Congo. Agora é a vez do norte da Síria, na cidade de Idlib, onde os Médicos sem Fronteiras recuperaram um antigo hospital numa zona controlada pelas forças de oposição ao regime. Gustavo vai passar um mês e meio

a prestar auxílio às vítimas do conflito, numa zona que está há dois anos e meio debaixo de fogo. “Por mais que me tente preparar para aquilo que vou, a minha experiência diz-me que só chegando lá é que vou realmente perceber o que se está a passar. A minha formação é em anestesia, cuidados intensivos, emergência, e vou tentar realmente fazer aquilo que eu sei onde, neste momento me parece ser bastante preciso.”- refere Gustavo. Já está habituado a situações difíceis mas “apesar de todas as diferenças culturais e de não concordarmos com muitas coisas que são feitas, não julgamos, não tomamos lados, não damos opiniões. Simplesmente tentamos cumprir as regras da sociedade, adaptar-nos a elas.” A equipa que integra é constituída por 6 elementos e Gustavo vai fazer tudo

“o que for preciso, porque em cenários destes toda a ajuda é bem-vinda”. Apesar de o cenário ser duro, Gustavo afirma que “o melhor são as histórias que trazemos, e eu trago imensas.” Assim, “A minha motivação supera os riscos que sei que vou correr”. Natural do Porto, é anestesista e integrava a Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de S.João, bem como a Viatura Médica de Emergência e a Reanimação (VMER) do INEM. Para trás fica tudo isso e também a família e os amigos, mas Gustavo “estava mortinho por ir para a Síria”, porque sabe que a sua ajuda é muito necessária. Gustavo tem um blog onde retrata as suas aventuras. As histórias podem ser em consultadas em http://fotoscomhistorias.blogspot.pt/.

Voluntariado universitário tenta acabar com o abandono a idosos O isolamento de idosos é uma realidade cada vez maior no nosso país. Os 50 voluntários da VO.U Acompanhar tentam diminuir esta tendência.

VOLUNTARIADO SARA GONÇALVES Desde 2008, que a VO.U, uma associação de voluntariado universitário, se dedica ao acompanhamento de idosos abandonados ou com necessidades na cidade do Porto. Inês Barbosa, coordenadora do projeto VO.U Acompanhar, refere que “existem inúmeros projetos (de voluntariado a idosos), no entanto, existem também muitos idosos que nem sequer estão referenciados pelas instituições.” Por isso, surgiu a necessidade de criar uma associação que pudesse dar resposta a esta realidade. Para além do acompanhamento a idosos, existem ainda ações

de sinalização para complementar a vertente: para se poder descobrir onde estão, de porta a porta, a VO.U faz uma espécie de recenseamento. Atualmente, são 30 os idosos que recebem o acompanhamento de 50 voluntários em casa. O projeto, porém, conta com mais vertentes. A VO.U Crescer ajuda crianças com os trabalhos escolares, explicações e em atividades lúdicas. Também para crianças, o projeto Karate Kids ou o Pirueta, de ensino de karaté e dança, respetivamente, passam valores de disciplina, auto-estima e higiene para crianças institucionalizadas ou com necessidades especiais. Ainda o VO.U Socorrer, que ensina manobras de socorrismo, e o VO.U pelos animais, para auxílio a animais abandonados. Ao todo, são 1800 voluntários que também fazem “intercâmbio” com várias instituições com as quais a VO.U faz parceria.

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Breves Banco Alimentar recolhe 2767 toneladas de alimentos A campanha do Banco Alimentar contra a fome nos supermercados recolheu um total de 2767 toneladas de alimentos durante um fim-de-semana, segundo os dados facilitados pela organização. A presidenta da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, Isabel Jonet, disse que este ano “entrou muito azeite” e os alimentos que nomeadamente as pessoas donan mais: leite, arroz e massas. Para ela, embora o momento de crise que vive o país, as quantidades donafas ficou próxima às de ano passado, em que se recolheram 2914 toneladas. Este fim-de-semana, para a recolha, esperavam-se 40 mil voluntários, mas se ultrapassou este número, disse Jonet, para quem isso mais os alimentos recolhidos são “motivo de grande regozijo numa altura em que a conjuntura não é tão favorável”. É, segundo ela, uma manifestação de esperança para a sociedade portuguesa, porque “há pessoas que têm dificuldades mas querem contribuir”. Os alimentos recolhidos juntam-se aos de outras campanhas e aos que são entregados aos bancos alimentares directamente pela distribuição, indústria e agricultura. Além da recolha nos supermercados, nos sacos de plásticos distribuídos à entrada dos estabelecimentos pelos voluntários, é até o 8 de Dezembro a campanha “Ajuda Vale”, que funciona nas caixas dos supermercados, onde pode-se pedir um vale com um código de barras para o produto que se quiser.

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Conteúdos multimédia e atualizados em: www.jornalcontextos.wordpress.com


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Reportagem

Leila Sadeghi //Esteticista Nacionalidade: Iraniana Há 8 anos em Portugal

Giovani Fortese //Proprietário da Mr. Pizza Nacionalidade: Italiana Há 17 anos em Portugal

Eles emigraram para Portugal IMIGRAÇÃO

Os portugueses já foram aconselhados a emigrar, mas há conselhos vindos de fora que os podem fazer continuar por cá. Numa altura em que são mais os que saem do que os que entram,o Contextos foi procurar perceber quem são os que ficam e o que os faz ficar. Imigrantes que mandam a crise dar uma volta e que criam oportunidades em Portugal.

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ue os portugueses dão cartas lá fora todos sabemos. O que, se calhar, nem todos sabem é que há muitos imigrantes a jogar os seus trunfos em Portugal. São quase 420 mil os imigrantes a viver cá mas já foram inclusive mais. Entre os que vão criando uma história de sucesso para contar está a bielorrussa Yuliya Pozdniak, uma entre os mais de 100 mil imigrantes oriundos da Europa de Leste que Portugal acolhe. O destino preferido de Yuliya até era os Estados Unidos mas dificuldades na obtenção de visto empurraram-na para Portugal. Apesar dos primeiros meses numa aldeia perto de Amarante terem sido “muito bons” e “as pessoas muito simpáticas”,os problemas começaram a surgir. “A primeira dificuldade foi a língua porque é muito complicado aprender português. No início até pensei que nunca iria conseguir falar. A seguir foi arranjar trabalho. Não era fácil”. A bielorrussa tirou “todos os cursos possíveis” e a oportunidade acabaria por chegar. “Comecei a trabalhar no estúdio de um fotógrafo que estava ligado à Moda Lisboa, Portugal Fashion. Os conhecimentos que eu ia buscar aos cursos apliquei-os lá”. Hoje, Yuliya é uma designer de interfaces premiada. “Ser um caso de sucesso é sentirmo-nos confortáveis com o nosso trabalho e podermos crescer. Ser feliz é, em primeiro lugar, fazer aquilo que gostamos. Por exemplo, eu não me canso do trabalho que estou a fazer. Muitas vezes trabalho fora de horas e a minha família está-se sempre a queixar”, explica, relembrando as diferenças de quando cá chegou e “não tinha nada. Só 350€ no bolso e consegui. Trabalhei, estudei e

agora tenho uma empresa”. Há 13 anos em Portugal, Yuliya é fruto da “chamada vaga do Leste que aconteceu nos finais dos anos 90 e que durou mais ou menos até 2003”. Quem o descreve é Ricardo Dias Felner, jornalista na revista Sábado e na Time Out Lisboa, e autor de “Vencer Cá Fora”, livro que reúne os perfis e conselhos de dez imigrantes empreendedores que foram candidatos ou vencedores do Prémio Empreendedor Imigrante do Ano, atribuído pela Plataforma Imigração. O conceito do livro partiu da própria Fundação Gulbenkian e, dois anos após o lançamento, o autor considera os conselhos ainda atuais. ”A ideia é que este grupo de imigrantes, de acordo com a sua experiência em Portugal, possa ensinar outras pessoas a ter sucesso. Há pouco tempo estava a reler uns desses conselhos e são coisas em que os portugueses não pensam“. Entre os 100 conselhos que registou, Ricardo Felner relembra o de uma “empresária na área da cultura, ligada à promoção de eventos culturais, da zona de Penafiel” que destacava “a forma ativa como uma pessoa deve estar na sociedade”. Essa empresária era Ana Pérez. Venezuelana, imigrante há 15 anos, costuma dizer que veio por amor e que por amor ficou. “Já me divorciei da pessoa pela qual vim, mas fiquei por amor ao país, ao projeto e aos filhos que já nasceram cá. Tenho uma relação de amor com Portugal”, explica, acrescentando que “os portugueses são muito calorosos” e que “acolhem no seio da família, e isso facilita a integração de qualquer estrangeiro”. Ana nem precisou de procurar emprego. Chegou e foi logo convidada a “desenvolver um projeto de coros grego-

rianos” no concelho de Penafiel. Hoje, é programadora cultural da Câmara Municipal. “Já tive imensos projetos. Tenho uma ideia, procuro os parceiros para poder levá-la para a frente e executo o projeto. Normalmente só trabalho num projeto de cada vez, mas tenho sempre o coro. O coro é quase como o meu projeto transversal. É o meu filho”, explica. Por entre ensaios e reuniões, Ana destaca a relatividade do rótulo de imigrante de sucesso. “Se ter sucesso é ter dinheiro, não tenho sucesso nenhum; mas se ter sucesso é estar bem integrado, é fazer coisas coerentes com as necessidades da população onde a gente está, então acho que sim”. Para a natural de Caracas, o truque é ter respeito pela cultura do país onde estamos: “Não podemos ir para um país com uma postura etnocêntrica. Não abdico do meu capital cultural mas estou aqui e vejo com admiração, com carinho e com amor a cultura portuguesa. Esta é a chave para o sucesso da integração. Para o sucesso económico, acho que não há chave mas sorte”. Para o futuro, a certeza que “tudo se resolve e nada é imutável”, que “hoje estamos bem, amanhã estamos mal, mas possibilidade de fazer coisas há sempre. É preciso é ser criativo”, conclui. Para além da história de Ana e das restantes de “Vencer Cá Fora”, o jornalista Ricardo Felner não tem “qualquer dúvida que haverá muitos imigrantes empreendedores de valor que não participaram no concurso sequer”. Um deles é Giovani Fortese. O italiano de Novara, a 30km de Milão, aventurou-se numas férias à Nazaré há 17 anos e desde então que se fixou no país. A transição acabou por ser fácil: “Uma pessoa, quando viaja

para um país estrangeiro em férias, pensa sempre que quer voltar por ter gostado. Mas, quando se emigra, ficando num país estrangeiro, a adaptação demora, realmente, um pouco mais de tempo. Para mim, não foi muito difícil porque sendo Portugal um país latino, tem hábitos muito semelhantes aos italianos”. Depois de um acidente de carro, Giovani viu-se obrigado a trocar as chuteiras de jogador de futebol por um novo desafio: a massa de cozinha do “Mr. Pizza”, cadeia de restaurantes que fundou em

Leiria e que agora se estende a mais quinze cidades, espalhadas por todo o país. Contudo, e apesar do “Mr. Pizza” ter sido o desafio que o trouxe a Portugal, começou por abrir uma “pizzaria muito mais pequena em que só era possível o cliente levar comida para casa”. Hoje, com 43 anos e já com o Prémio de Melhor Pizza de Portugal, reconhece que “a crise fez-se sentir de uma forma mais profunda em Portugal” e que “a vontade que a classe política transmite não favorece o arriscar, o tentar novos


Reportagem

Olga Filipova //Informática Nacionalidade: Ucraniana Há 12 anos em Portugal

Mahmoud Tavakoli //Investigador de Robótica Nacionalidade: Iraniana Há 8 anos em Portugal

Foto: Público -- Há portugueses pelo mundo e estrangeiros por Portugal negócios, novas soluções de mercado”. Ainda assim, Giovani vê em Portugal “uma oportunidade ainda mais aliciante para fazer apostas” e que “a força de vontade e garra é o mais importante para uma pessoa conseguir alcançar o seu objetivo”.

Qualificações e emprego De acordo com o último Estudo Prospectivo sobre Imigrantes Qualificados em Portugal, aproximadamente 20%

do total de imigrantes que entram no país têm habilitações de nível superior. Enquanto os imigrantes europeus possuem a maior proporção de indivíduos detentores de um diploma universitário, os imigrantes de Cabo Verde apresentam a menor. Ainda assim, é entre os imigrantes originários da Ucrânia que existe a maior discrepância entre a formação superior e o grau de inserção nos grupos profissionais mais qualificados: somente 14,6% se encontra a trabalhar nos referidos grupos,

em contraste com os 70,5% dos cidadãos membros da União Europeia ou com os 59% dos imigrantes provenientes do Brasil. A maioria dos imigrantes da Europa de Leste encontram emprego como operários ou noutros grupos profissionais, onde as qualificações exigidas são muito baixas. Olga Filipova, há doze anos a residir em Portugal, não fugiu a esta regra mas lutou por ser exceção. Antiga estudante de Análise de Sistemas na Ucrânia, Olga começou por ser “obrigada” a tirar o décimo segundo ano

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Manuela Paulo //Diretora Artística e Atriz Nacionalidade: Angolana Há 33 anos em Portugal

de escolaridade e a trabalhar nos correios, em cafés e numa fábrica de costura. Depois de entrar em Engenharia Informática em Coimbra, começou a participar em projetos, a dar aulas e foi “gradualmente largando os outros trabalhos”. O esforço foi grande mas compensou. Conseguiu até o que não está ao alcance da maioria dos jovens portugueses: acabou o mestrado e foi imediatamente convidada para trabalhar numa empresa do ramo onde se formou. “Considero-me um caso de sucesso porque há muitas pessoas que vêm para cá e que, mesmo tendo estudos brutais e sabendo coisas que aqui teriam um grande potencial se fossem trabalhadas, vão trabalhar para coisas estranhas e pensam que não podem ter mais”, explica. Em relação a Portugal, Olga admite que chegou a estudar espanhol quando soube que vinha para cá uma vez que “não sabia mesmo nada” do país. “O autocarro andava por umas ruazitas muito estreitas e eu pensava: “Quando chegarmos ao Porto é que vai ser”. Não mudava nada e entretanto o autocarro parou. “Mas porque é que parou? Quando é que chegamos ao Porto?” Alguém me respondeu que já estávamos no Porto. Fiquei espantada”, partilha. O Porto acolhe desde 2004, juntamente com Lisboa e Faro, um dos três Centros Nacionais de Apoio ao Imigrante. “O projeto dos CNAI foi uma janela de oportunidade bem aproveitada. Havia muitos imigrantes que precisavam de apoio e de um espaço onde pudessem tratar de todos os assuntos, com um atendimento não só em português, mas, principalmente, nas suas línguas maternas”, destaca Helena de Brito Oliveira, mediadora intercultural do centro e também ela imigrante que trocou S. Petersburgo pelo Porto. “O modelo do CNAI é one stop shop. Isto é know how português. Não existe no mundo nenhuma outra experiência desta natureza”, acrescenta. Por entre os vários balcões de atendimento, como o do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) ou do Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo

Intercultural (AICIDI), os problemas económicos têm vindo a aumentar a procura pelo Gabinete de Apoio Social. “Tentamos orientar as pessoas com alguma ajuda alimentar; para as pessoas que estão em situação irregular e querem voltar ao país de origem, damos apoio no programa de retorno voluntário; há imigrantes que ficaram sem abrigo e tentamos colocá-los em casas de abrigo”, esclarece a mediadora. Há dez anos em Portugal, Helena classifica os portugueses como “não tão proativos quando estão cá dentro” como quando saem do país, onde “são muito conhecidos como bons trabalhadores, que dão tudo por tudo e trabalham até à última”. A luta tem que continuar e a ser maior do que por vezes é: “Quando estamos a assistir a um jogo e vemos que a nossa equipa ganha está lá toda a gente a apoiar até ao fim. Quando o jogo não está a favor da equipa, já está perdido, as pessoas saem, não ficam até ao fim. Isto às vezes dá-me uma certa tristeza. Veem que está difícil e vão embora. Percebo que procurem o seu bem-estar e que tentem resolver os seus problemas financeiros, mas não estão cá para lutar no dia-a-dia”. Foi neste contexto de crise económica que foi lançado, há quatro anos, o Projeto de Empreendedorismo Imigrante. O PEI pretende ajudar os imigrantes que “têm uma ideia mas não sabem por onde começar” e consiste num curso dado pelo CNAI com duas partes: uma teórica, dedicada a matérias legais e fiscais, e outra de apoio individual, direcionada à gestão dos projetos/ideias de cada um. Para Helena, mediadora intercultural, é na segunda parte que o curso “ganha a qualquer outro curso na área do empreendedorismo no país”, uma vez que é gratuito e a pessoa não se sente abandonada após a conclusão do mesmo. “Depois do modelo de negócio estar bem estruturado, o CNAI procura dar apoio à sua implementação, fazendo contactos com entidades financeiras. Mesmo depois de ter aberto a empresa, o apoio continua de forma pontual”, explica. Amaral de Sousa, formador do curso de apoio à criação de negócios do Projeto


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Foto: Rita Gordo - Helena Brito de Oliveira, mediadora intercultural do CNAI no Porto.

de Empreendedorismo Imigrante, destaca que “em média, das dez pessoas que entram, duas ou três montam um negócio”, o que já é “muito satisfatório” tendo em conta o atual contexto económico e que a “esmagadora maioria das pessoas nunca tinha tido um negócio seu antes”. Quanto à hospitalidade de Portugal para com quem chega, o formador afirma que a fama dele saber receber não é só mito. “Eu julgo que estamos alinhados com aquilo que se faz pela Europa, pelo que se lê e ouve do que se passa lá fora. Se calhar até fazemos mais, porque eu não conheço este projeto lá fora, não tenho ideia que ele exista. Só o facto do PEI existir é um ponto a favor de Portugal.” Quanto às qualificações de quem se interessa por fazer o curso, “a esmagadora maioria vem sem histórico de trabalho por conta própria”, embora tenham um espírito de empreendedor, “visto que largaram o seu conforto e arriscaram-se a vir para cá” A parte nuclear de formação em sala e apoio individual à construção do plano de negócio dura três meses, mas Amaral de Sousa explica que “quando as pessoas estão mesmo, mesmo quase decididas a avançar têm um apoio suplementar de mais algumas semanas. Damos ajudas burocráticas e formais até quase ao arrancar do negócio”. Entre os mais de 120 imigrantes a residir no norte do país que já frequentaram o PEI está Guilherme Neto. Brasileiro, filho de pai alemão e mãe italiana. Se pudesse escolher nem hesitava: seria português.” Para mim, Portugal é uma segunda pátria e para o próximo ano já vou conseguir nacionalidade portuguesa e estou muito feliz com isso.” Guilherme está no nosso país há seis anos. A sua formação em engenharia civil trouxe-o pela primeira vez a Portugal, obrigando-o a pôr mãos à obra mas sempre com olhos de turista”.Quando vim para cá da primeira vez, eu vim para fazer uma formação. No decorrer dessa formação, recebi o convite de uma empresa local para trabalhar aqui no Porto. Na altura, eu já estava cá há um mês, aproximadamente, e via a forma de vida deste país e acabei por aceitar.” Atualmente gere uma empresa de turismo que divulga o Porto pelo mundo fora. “Eu decidi seguir um sonho que é um gosto pessoal – o turismo. E nada melhor do que fazer isso num local que gostemos tanto como eu gosto do Porto. A concretização do meu sonho aconte-

ceu há mais ou menos um ano e desde então, todos os dias é uma satisfação poder mostrar o Porto para o mundo.” Para Guilherme, o projeto de empreendedorismo imigrante foi uma grande ajuda no que toca a burocracia. Apesar da mesma língua e cultura muito próxima, há sempre diferenças em relação ao país irmão. Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística, a comunidade brasileira é a maior comunidade de imigrantes a residir em Portugal, com cerca de 115 742 cidadãos de um total de 451 742. Ou seja, mais de 25% dos imigrantes em situação regular são brasileiros. A totalidade dos imigrantes perfazia cerca de 5% do Produto Interno Bruto português. Portugal é dos países na OCDE que apresenta uma menor diferença entre a taxa de desemprego da população nativa e a da comunidade imigrante. Com uma taxa de desemprego entre trabalhadores portugueses a rondar os 16% e uma entre estrangeiros a viver no país de 19%, esta diferença de 3% é bem inferior, por exemplo, à diferença de 11% que se verifica em Espanha. Um fenómeno que confirma a tese de que Portugal recebe bem e que tem sucesso na integração. Dados do relatório da OCDE, “Perspectivas das Migrações Internacionais 2013”, revelam ainda que “o desemprego de longa duração entre imigrantes está a tornar-se num problema grave em muitos países” e que “quase um em cada dois imigrantes desempregados procura emprego há mais de um ano”. Para Helena de Brito Oliveira, mediadora intercultural do CNAI no Porto, para se ter sucesso a nível profissional é necessário, antes de tudo, dominar a língua do país. “A comunicação é imprescindível, certo? Se falarmos em áreas como a investigação, a língua portuguesa não é um requisito obrigatório, faz-se tudo em inglês e não há dificuldades; já no caso do ensino primário, ensino básico, por exemplo, um professor que tenha licenciatura e experiência a dar aulas, mas que não saiba falar português, por mais que reconheçam as suas qualificações, muito dificilmente é colocado”. Mahmoud Tavakoli não precisou de dominar a língua para ser bem sucedido. Estava a apresentar um artigo em Madrid quando foi convidado por um professor da Universidade de Coimbra para fazer investigação e o doutoramento na cidade. “No início não era para ficar cá muito

tempo”. Já passaram oito anos desde que Mahmoud chegou a Portugal. As diferenças são óbvias: “Agora não perco muito tempo no trânsito, por exemplo. Em Teerão, uma cidade com 14 milhões de pessoas, todos os dias perdia três horas no trânsito”, explica. As surpresas não ficaram por aqui. “Tinha estado em Espanha e os espanhóis, muitos deles, não falam inglês muito bem. Em Coimbra muita gente fala inglês, mesmo quando eu queria andar de autocarro ou fazer compras havia sempre alguém que falava inglês”. O iraniano, investigador de Robótica na Universidade de Coimbra, confessa que o “primeiro lugar para fazer investigação era os Estados Unidos” mas que acabou por perceber que “há outras coisas mais importantes na vida e que podia fazer aqui quase tudo o que podia fazer lá”. Agora, acaba por admitir que é um caso de imigração bem sucedido. “Talvez não deva ser eu a dizer isso. Talvez outras pessoas possam responder por mim. Mas acho que depois de oito anos cá, gerindo um projeto nacional financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), tendo bons resultados a nível internacional, posso dizer que sim”. Em relação à atual situação financeira do país que o acolhe e aos seus colaboradores portugueses, Mahmoud tem uma opinião própria: “Os emigrantes portugueses sabem que trabalham mais do que os portugueses que estão cá. Os portugueses que emigraram já sabem esses truques. Aqueles que não o fizeram precisam de mais um bocadinho de esforço”. Quando Mahmoud recebeu a proposta para ficar cá a investigar, telefonou à esposa para anunciar as boasnovas e os possíveis planos para o futuro. Um telefonema e uma fotografia bastaram para Leila Sadeghi decidir acompanhar o marido nesta aventura de criar uma família em terras lusas. “Tudo começou quando lhe telefonei lá no Irão e ele me disse que estava cá em Portugal. Eu não conhecia nada de Portugal nem sabia onde ficava. Depois vi algumas imagens e gostei muito. É engraçado, lembro-me perfeitamente de uma fotografia que vi da baixa de Coimbra à noite e gostei mesmo muito. Há 8 anos que estou cá e sempre gostei de viver aqui em Coimbra.” No Irão, Leila licenciou-se em Literatura Inglesa, tendo feito também um curso de caracterização. Foi lá que surgiu o gosto pela estética, que fez com que a

iraniana abrisse o Face Studio em Coimbra. A técnica que usa é inovadora. “É um método oriental, muito antigo. Com um fio de algodão, é possível tirar os pêlos indesejados, aperfeiçoar e definir as sobrancelhas. Não é tão agressivo como outros métodos tradicionais e é também um procedimento que massageia o rosto e ativa a circulação sanguínea, o que as clientes gostam muito.” Leila está a viver em Coimbra há oito anos e tem o seu próprio salão há cinco. Quando chegou trabalhou em cabeleireiros e outros salões. Como não sabia falar português, a convivência com as clientes foi o seu manual de aprendizagem. “ As clientes sempre me ajudaram muito. Eu nunca tirei nenhum curso de português. Quando cheguei, era como um bebé que tinha de aprender do zero. Então tinha uma grande agenda e apontava lá as palavras.” Apesar do seu país ter regras muito apertadas, Leila confessa-nos que uma mulher tem a mesma liberdade de um homem. “ Não é por ser o Irão que lá as mulheres não são livres de fazer as mesmas coisas que os homens. O problema lá não são as diferenças entre homens e mulheres. O problema é que o regime é autoritário e impõe-se sobre todos de igual forma.” Leila recebeu o Prémio de Empreendedor Emigrante do Ano em 2011, mas nunca havia pensado antes em deixar o seu país. Atualmente não pensa em regressar pois sente-se totalmente integrada na comunidade que a acolheu. “Nunca penso que não sou daqui.” Já Manuela Paulo vive numa dualidade, considerando-se de cá e de lá ao mesmo tempo. A “angolana/portuguesa”, como se apresenta, veio para Portugal com os pais aos dois anos de idade.”Na altura o ensino e a educação aqui eram melhores. Apanhámos aquela fase complicada da guerra e, por isso, era melhor virmos para cá. Os meus pais achavam que aqui nós teríamos um ambiente muito mais tranquilo para o nosso crescimento. Os meus pais não tinham dificuldades financeiras nem nada, mas a questão da insegurança que havia no país foi determinante.” Agora com 35 anos, Manuela trabalha diretamente com o Consulado e cria diversos eventos que fazem a ponte entre Portugal e Angola. Entre festas, jantares, conferências ou desfiles de moda, o mais recente projeto chama-se “Redescobrir Angola”. Apesar de admitir que passou por episódios de discriminação pela cor da pele, Manuela fintou todos os problemas através da aposta na formação. “A minha formação é de teatro de interpretação, atriz, mas eu senti que faltava mais qualquer coisa. Senti porque tenho bichos-carpinteiros dentro de mim e porque a sociedade me obrigou. Continuei o meu curso de teatro e terminei com uma das melhores notas da turma.” Tal como Yulia, também Manuela se viu obrigada a fazer um esforço adicional para ter uma formação de fazer inveja. “Depois de várias formações paralelas eu hoje tanto coreografo, como represento, como escrevo uma peça, como faço locução, como dirijo um espetáculo, organizo um evento, crio um jantar ou uma gala. Esta questão de eu ter tido de trabalhar o triplo fez com que eu adquirisse skills que hoje em dia me defendem, de certa forma, porque eu nunca estou sem trabalho.” A personagem que lhe deu mais visibilidade foi a “Dra. Joana” no programa

infantil “A Ilha das Cores”, da RTP2, mas Manuela prefere os palcos. O problema dos portugueses é que são “choramingões”, mas “Portugal precisa de nós, criativos e criados, empreendedores, por isso não desistamos”.

Prémio Empreendedor Imigrante do Ano O Prémio Empreendedor Imigrante do Ano foi uma iniciativa da Plataforma da Imigração que, de 2007 a 2011, distinguiu 7 imigrantes pelo seu empreendedorismo social e económico. Um prémio no valor de 20 000 € para quem provou “gostar de arriscar, aceitar novos desafios, criar algo de novo ou acrescentar valor a algo existente através de muita dedicação e esforço”. O conceito de empreendedor pode ser lido no regulamento do concurso e está também presente nas dez histórias de sucesso descritas em “Vencer Cá Fora”. No livro de Ricardo Dias Felner há percursos, projetos, truques e conselhos de seis vencedores do Prémio Empreendedor Imigrante, a que se juntaram os de mais quatro fortes candidatos à distinção. Para além deste galardão, também as autarquias foram alvo de reconhecimento pelo seu esforço no acolhimento e integração de imigrantes. A região de Lisboa e Vale do Tejo foi assinalada no mapa por ter as “melhores práticas autárquicas” neste tema, apenas deixando assinalada no mapa por ter as “melhores práticas autárquicas” neste tema, apenas deixando escapar uma distinção para o norte do país. Ainda sem consenso em relação ao futuro da Plataforma da Imigração, a Gulbenkian adiantou ao Contextos que este passará pelo investimento na área do reconhecimento e na readaptação das qualificações dos imigrantes.

Migração nos Média “Há um enviesamento que considero que já é anterior à crise portuguesa. O tema da imigração saiu da agenda e o tema da emigração entrou na agenda e ofuscou tudo o resto”, refere o autor do livro “Vencer Cá Fora”. Em tempos de crise fala-se cada vez mais em sair para vencer não cá, mas lá fora. O retrato mediático é o de um país com poucas oportunidades e em que emigrar é visto como uma consequência de um mercado de trabalho sem espaço. Uma cobertura que ainda assim, segundo Ricardo Dias Felner, não leva os portugueses a fazer as malas.” Eu acho que o poder da comunicação social não é assim tão grande até porque emigrar não é uma atitude que se tome de ânimo leve. É uma atitude brusca e por isso não é apenas por se ler uma notícia no jornal que se vai sair do país”, remata o jornalista.


NĂŠlson Mandela

1918-2013


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Mundo

“O nosso querido Nélson Mandela deixou-nos” ÁFRICA DO SUL

Jacob Zuma, presidente da África do Sul anunciou a 5 de dezembro a morte de “um dos mais influentes, mais corajoso e mais profundamente bom ser humano com que dividimos o nosso tempo nesta Terra”. Desde então que o mundo se presta em homenagens. DIOGO AZEREDO Nelson Mandela morreu às 20h50, menos duas horas em Lisboa, do dia 5 de dezembro, na sua casa em Joanesburgo, África doSul. Mandela tinha 95 anos, completados a 18 Julho, na sua casa, para onde foi levado em Setembro, após quase três meses de internamento hospitalar em Pretória devido a uma grave infecção pulmonar. O anúncio da morte de Madiba foi feito pelo presidente sul-africano Jacob Zuma, vestido com uma camisa preta, num depoimento para a televisão estatal: “A nossa nação perdeu o seu filho mais importante”. Zuma dirigiu-se aos sulafricanos referindo que “Mandela uniunos e é unidos que nos devemos despedir dele”. Esta mensagem ficou desde logo bem vincada no Memorial do antigo líder sul-africano, onde quase cem mil pessoas, entre as quais mais de 50 chefes de Estado e de governo, esgotaram o estádio FNB em Joanesburgo, em homenagem a Mandela. As cerimónias fúnebres ficaram logo aí marcadas por um momento histórico, a 10 de dezembro, quando Barack Obama e Raul Castro, Presidentes “inimigos” dos Estados Unidos e de Cuba, deram um aperto de mão . “Se é difícil elogiar um qualquer homem, para falar da sua verdade essencial, quanto mais fazê-lo quando estamos perante um gigante da história, que

liderou uma nação na direção da justiça e fê-lo arrastando consigo milhões de pessoas em todo o mundo”, começou por discursar Barack Obama. Muito aplaudido, prosseguiu salientando estar presente em Joanesburgo para “celebrar uma vida como nenhuma outra”. “Não era um busto de mármore, era um homem de carne e osso”, disse o Presidente dos Estados Unidos a respeito do homem que o inspirou a entrar na política ainda estudante. Quando foi chamado a falar, Raul Castro lembrou que Nelson Mandela considerava que “o povo cubano ocupava um lugar especial no coração do povo africano”. “Cuba, um país nascido da revolução, tem sangue africano nas veias”, vincou o chefe de Estado cubano. Já no passado domingo, dia 15 de dezembro, na última despedida e funeral de Estado, Nelson Mandela foi saudado como um “campeão da causa pela humanidade” e um líder que mostrou ao mundo o que é o “espírito da resistência”. Nandi Mandela, uma das netas de Nelson, chegou-se à frente em nome de todos os netos e filhos do ex-Presidente. Entre discursos sobre a coragem e o “espírito de resistência” de um activista e o percurso exemplar de um combatente, Nandi partilhou a sua visão pessoal, mostrando mais uma vez como Mandela pode ser uma fonte de inspiração, para quem o conheceu, e quando se trata de celebrar o seu legado e a sua vida.

Nelson Mandela, que vivia amargurado com a ideia de ter sido um pai ausente, e pensava não ter estado à altura dos familiares quando estes mais precisaram dele, é descrito pela neta como um maravilhoso contador de histórias. Por instantes, Nandi Mandela falou directamente ao avô, em inglês – “Sentiremos falta da tua voz, e das tuas gargalhadas”

Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir.” 1918-2013

– e no fim em xhosa: “Fica bem, Madiba. Fica bem, Madiba, na terra dos teus antepassados. Correste a tua corrida.”

Cavaco Silva foi o representante português nas cerimónias fúnebres. “Tive o privilégio de contactar com Nelson Mandela. Foi talvez uma das visitas que mais me marcou. Ele veio a Portugal em 1993, recebi-o como primeiroministro”, recordou Cavaco Silva há dois anos, na recepºao de um grupo de jovens da academia Ubuntu, que forma para a liderança filhos de imigrantes e que tem no antigo líder sul-africano uma das inspirações. Na altura, o atual chefe de Estado português descreveu Mandela como “um gigante do nosso tempo” e “um homem que tinha passado 27 anos na prisão e que revelava o mínimo ressentimento, a mínima vontade de vingança, apostava tudo no diálogo, na negociação, para construir uma sociedade sem ‘apartheid’, uma sociedade justa”. Cavaco Silva esteve terça-feira em Joanesburgo, onde assistiu ao memorial a Nelson Mandela. “Em Joanesburgo utilizei precisamente essa expressão: o legado de Mandela. A responsabilidade dos líderes políticos sul-africanos agora - e não só, por todo o mundo - para dar raízes mais fortes ao legado que ele nos deixa”, recordou.

Polémica em torno da resolução da ONU de 1987 Dois dias após o falecimento de Madiba, o Presidente da República explicou no sábado, dia 7 de dezembro, quando confrontado, o porquê de Portugal ter votado, em 1987, contra uma resolução da ONU que visava manifestar solidariedade para com a causa assumida por Nelson Mandela. Cavaco Silva garantiu que apenas queria proteger os portugueses, uma vez que votar contra «era, diplomaticamente, a opção mais correcta» tendo em conta os muitos portugueses que se encontravam na África do Sul durante a Guerra Civil, nos anos 80. A sua decisão pretendia, apenas, evitar «uma luta armada». Cavaco relembrou ainda que sempre foi um apoiante da causa de Mandela, motivo pelo qual apoiou a candidatura de Frederick de Klerk à presidência da África do Sul, e tudo fez para libertar o líder do movimento anti-aparthaid e outros prisioneiros políticos. Durante uma visita a Viana, o Presidente da República, ainda antes de representar o país no funeral de Mandela, revelou que o ex-chefe de Estado da África do Sul chegou a agradecer «a Portugal por ter tido um diálogo coerente e sempre contra a violência».


Mundo

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Quase cem anos de uma “vida cheia” Cerimónia dos Nobel com homenagem a Mandela

ÁFRICA DO SUL

Desde o pequeno Rolihlahla de Qunu até a tornar-se no primeiro presidente negro na história da África do Sul. O mundo assistiu a 95 anos de história escrita por Nélson Mandela.

PRÉMIOS NOBEL Os prémios Nobel foram entregues no passado dia 10, no dia do 177º aniversário da morte de Alfred Nobel, em Estocolmo. Nelson Mandela foi homenageado numa cerimónia que também teve direito a momento para protestos. SARA GONÇALVES

DIOGO AZEREDO Mandela nasce em Mvezo em 1918, no Cabo Oriental, com o nome de Rolihlahla Dalibhunga Mandela. Quando tem dois anos, o pai fica desapossado das terras, por desafiar a administração colonial, e a família muda-se para uma casa na pequena vila rural de Qunu, onde Mandela passa a infância. Quando tem sete anos, um professor da escola primária dá-lhe o nome de Nelson, de acordo com o costume de dar a todas as crianças nomes cristãos. Com 24 anos, e já licenciado em Direito pela UNISA (Universidade da África do Sul) inicia os primeiros contactos com o ANC (Congresso Nacional Africano), movimento de libertação nacional da África do Sul criado em 1923. Dois anos depois, em 1944, Mandela junta-se formalmente ao ANC e torna-se um dos fundadores da Liga Juvenil do partido. Passados quatro anos, era já uma figura central do ANC, partido do qual seria presidente entre 1967 e 1991. O aumento das tensões e o crescente envolvimento na luta anti-apartheid acaba por afastá-lo da advocacia e, juntamente com os seus homens, é obrigado ao exílio . Adopta o nome de David Motsamayi e cria o MK (Umkhonto we Sizwe – A Lança da Nação) e deixa o país para receber treino militar e recolher apoios externos para o ANC. O movimento tinha sido banido dois anos antes quando também foi instaurado o estado de emergência. Quando regressa, é preso por incitamento ao ódio e por sair ilegalmente da África do Sul. Condenado a prisão perpétua, juntamente com sete outros destacados activistas, já depois de em 1962 ter sido preso por deixar o país clandestinamente. Os oito condenados são levados para a cadeia de máxima segurança de Robben Island ao largo da Cidade do Cabo. Na prisão iria permanecer durante 27 anos da sua vida. A sua detenção,

para Armando Malheiro, especialista em história do mundo contemporâneo e professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi “pensada como uma solução de isolar Mandela do seu povo e isso colocou em evidência a sua maturidade psicológica e capacidades que até então não conheceria”. Armando Malheiro considera que “essa é a parte da vida onde ele fez o trabalho de maior significado para a libertação do regimismo na África do Sul”. Nélson Mandela “conduziu a resistência a partir da prisão e lá também teve a oportunidade de ponderar várias estratégias, nomeadamente da luta armada e da via moderada”, sendo impossível de dissasociar o então contexto internacional,

A vida de Mandela é uma vida que tem muito em paralelo com a vida de Ghandi” Armando Malheiro Historiador/Prof. Universidade do Porto

nomeadamente a revolução cubana, que inspirou o próprio Mandela, e a expansão da ideologia marxista pelo continente africano: “Estes movimentos em África acabam por acontecer num contexto de Guerra Fria. Os movimentos indígenas surgiam para combater o poder dominante e exigiam a libertação do povo, a massificação dos bens e o combate ao capitalismo”, contextualiza. Já na prisão de Pollsmoor, rejeita a oferta de libertação de P. W. Botha, Presidente da África do Sul entre 1978 e 1989, uma vez que pretende a liberdade para também todos os outros presos políticos e a legalização do ANC, o que viria a acontecer cinco anos depois. “A vossa liberdade e a minha liberdade são inseparáveis”, dizia Mandela. Não queria

sair da prisão para viver nas mesmas circunstâncias em que vivia quando tinha sido preso, quase 20 anos antes. Com a chegada à presidência de F.W. De Klerk, no fim de 1989, vislumbra-se uma saída política, que se concretiza com o anúncio, a 2 de Fevereiro de 1990, da libertação de Mandela sem condições e marcada para dia 11. No dia em que foi libertado, muitos sul-africanos, mas sobretudo os mais jovens, viram pela primeira vez o herói do ANC. De Klerk, que fica na liderança do Partido Nacional até 1997, deixa a chefia do Estado em 1994, abrindo a via para as primeiras eleições livres. Nélson Mandela vota então pela primeira vez na vida, aos 75 anos, e é eleito o primeiro Presidente negro na história da África do Sul. Para Armando Malheiro, “não se pode falar só da heroicidade de um homem sem se perceber que ele estava certo mas também aqueles que o prendiam e que o estavam a tentar esmagar, tinham fragilidades. O próprio regime acabou por se corromper por dentro”. Segundo o historiador, a libertação de Mandela surge também do funcionamento movido por uma “hipocrisia dos interesses” da comunidade internacional, uma vez que “o próprio regime Apartheid se distanciava da comunidade internacional, nomeadamente da GrãBretanha“. Mandela é distinguido com o Nobel da Paz, juntamente com o Presidente sul-africano Frederik Willem De Klerk, em 1993, cerca de dez anos antes de se afastar publicamente. “Ao conseguir ser líder, no sentido que foi firme na sua orientação, usando o seu prestígio, um capital simbólico muito forte, Mandela foi um pacificador. Mais: tentou concretizar uma sociedade democrática, uma construção ocidental, europeia, numa África negra, com questões e características tribais muito fortes.”, conclui o historiador Armando Malheiro.

Os galardões para Física, Química, Medicina, Literatura e Economia foram entregues pelo Rei da Suécia aos laureados que mais se destacaram nestas áreas ao longo de 2013. Mas destaque teve também Nelson Mandela, homenageado no discurso do Presidente da Fundação Nobel, Carl-Henrik Heldin, e relembrado como Nobel da Paz de 1993, pela sua luta contra o Apartheid juntamente com o então presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk. No funeral de Mandela, na África do Sul, encontrava-se a princesa da Suécia - razão pela qual não pôde estar presente na cerimónia.

O evento também ficou marcado por um incidente que envolveu quatro homens despidos que protestavam a favor do dissidente chinês Liu Xiaobo (Nobel da Paz de 2010 que desde 2009 cumpre uma pena de 11 anos de encarceração). O prémio da Física foi dividido pelo britânico Peter Higgs e pelo belga François Englert. Na Química, três laureados: Karplus, Levitt e Warshel. O mesmo cenário no Nobel de Medicina, entregue a Rothman, Schekman e Suedhof. Na Literatura, destacou-se a canadiana Alice Munro. No prémio de Economia, os laureados foram os académicos Shiller, Fama e Hansen. Já o Nobel da Paz, entregue em Oslo, foi recebido pela Organização para a Proibição das Armas Químicas.

Veja na edição online a infografia do Contextos dos vencedores dos Prémios Nobel 2013 www.jornalcontextos.wordpress.com

A morte depois do filme da sua vida

FILME É um projecto quase desmedido o épico que conta a história de um homem e de um país. Longo Caminho para a Liberdade foi apresentado em Londres horas antes da morte de Madiba. IPSILON O filme Longo Caminho para a Liberdade, que estreou ontem, demorou 16 anos a ser feito. O guião teve 34 versões. O produtor, Anant Singh, foi sempre o

mesmo. Estava ansioso para que Mandela o visse. Não viu. E quando se soube que morrera decorria em Londres a premiére de gala. Há um ano, tinha Nelson Mandela 94 anos, Anant Singh levou-lhe algumas cenas num tablet. Ele gostou, contou agora o realizador, Justin Chadwick, mas já não teve energia para o resto — não esteve na estreia na África do Sul, no mês passado. “Que sorte eu tenho por estar nesta posição”, disse Idris Elba sobre ser Mandela no filme.


26 Eutanásia infantil aprovada na Bélgica

OPINIÃO

BÉLGICA

O Parlamento Belga deu o primeiro passo de uma reforma que, a confirmar-se, permitirá às crianças e adolescentes recorrer ao suicídio medicamente assistido. Em Portugal, o assunto continua por debater.

DIOGO AZEREDO

azeredo.diogo@gmail.com

Editor Mundo

“Pai Natal, este ano dás-me a eutanásia?”

D

esde 27 de novembro que a Bélgica caminha no sentido de permitir a menores de idade evocarem a eutanásia, em casos de doenças em fase terminal que suportam sofrimentos físico. Uma lei consensual por lá mas que que choca e divide por cá. Quando se fala em eutanásia e se é ou não moralmente aceitável, evocamos um sem número de consciências individuais, muito distintas e díspares entre si. Se, por um lado, há quem concorde com o quadro legal em vigor em Portugal, em que qualquer tipo de eutanásia é proibída, há ainda quem considere a prática aceitável desde que crianças e adolescentes não tenham também o poder de tomar a decisão de colocar um ponto final na sua própria vida. A verdade é que, se por um lado a medida do Parlamento Belga gera controvérsia, pensar que uma criança, num país onde a eutanásia é já legal, teria que aguardar pela idade adulta para colocar término à sua vida, é igualmente questionável. Obrigar um adolescente a passar anos de sofrimento até soprar as dezoito velas do seu último bolo de aniversário, ao mesmo tempo que pede como desejo a sua morte, é um cenário sem sentido. Se um país avança com a legalização da eutanásia, não poderá nuncar criar uma divisão etária na mesma. Esta é uma decisão que ultrapassa faixas e inclusive princípios éticos que, uma vez mais, se mostram incapazes de determinar o certo do errado, o moralmente correcto do inaceitável.

Direito à vida não pode, em momento algum, ser confundido com dever à vida”

A reforma belga prevê que qualquer paciente, independentemente da sua idade, tenha a posibilidade de solicitar o suicídio assistido a qualquer momento da sua doença, desde que tenha a aprovação de dois a três médicos, consoante se se trata ou não de uma doença terminal. No caso dos menores de idade, exige-se ainda o consentimento dos pais. Perante esta legislação, não parece existir um desrespeito pelo direito à vida. Aliás, direito à vida não pode, em momento algum, ser confudido com dever à vida. No entanto, uma vez aprovada a lei, têm que ser tomadas algumas precauções que evitem o contornar da mesma, como uma maior fiscalização da gravidade dos diagnósticos dos pacientes e o assegurar da imparcialidade dos médicos envolvidos na aprovação dos pedidos de eutanásia. Na Bélgica, a opinião pública parece estar mentalmente receptiva a este passo

em direção ao progesso. Os ventos mais racionais, característicos do Norte da Europa, parecem ter soprado sobre os belgas. Por cá, as emoções à flor da pele, típicas dos países mediterrânicos, parecem continuar a fazer de pára-vento. Pelo menos é essa a ideia com que se fica pelas poucas conversas de rua sobre o tema. É tempo de essas conversas se converterem num verdadeiro debate a nível nacional a propósito da posição dos portugueses em relação à eutanásia. Passaram já mais de cinco anos desde que a Associação Portuguesa de Bioética apresentou a sua proposta de referendo ao Governo e Presidente da República e nada mais se soube desde então. Este impasse, aliado ao inexistente consenso em Portugal e à sua indefinição legislativa, onde termos como o “Testamento Vital” se encontram ainda num estado demasiado embrionário, coloca a opinião pública numa bomba relógio silenciosa. É uma questão de tempo até um primeiro caso de suicídio medicamente assistido se tornar mediático, ao contrário dos vários com portugueses que por enquanto são obrigados a dirigiremse à Suíça ou a outras organizações próeutanásias europeias. Um procedimento que, concluído, ultrapassa os dois mil euros, e levanta novas questões sobre o preço da morte e quem tem posses para a comprar. Apesar da decisão da legalização ou não da eutanásia pertencer sempre em última instância aos cidadãos, não é de salientar que um referendo a nível nacional será, provavelmente, respondido por aqueles que não se encontram na posição de poderem necessitar da aprovação da mesma. E este é um ponto importante: um debate, a ser feito, dificilmente será com as vozes de quem mais se quer fazer ouvir. Nada nos garante que tudo aquilo que sempre pensamos achar, a nossa dita consciência individual, seja o mesmo quando formos nós presos a uma cama para o resto da vida. Tanto será o conservador que amanhã, timidamente, pedirá por ajuda para acabar com o seu sofrimento, como o liberal que, contra tudo aquilo que sempre defendeu, irá agarrarse à vida com todas as suas restantes forças.

Um debate, a ser feito, dificilmente será com as vozes de quem mais se quer fazer ouvir”

DR - A Bélgica aprovou a proposta de ampliar a lei da eutanásia aos menores.

ANA B. PÓLO DIOGO AZEREDO A controversa proposta legislativa que permitirá a eutanásia infantil na Bélgica recebeu 13 votos a favor e 4 contra na comissão de Assuntos Sociais e de Justiça do Senado Belga, reunida a 27 de novembro. A medida será ainda objecto de nova votação numa sessão plenária das duas câmaras que formam o Parlamento Federal. Os pacientes têm a posibilidade de solicitar o suicídio assistido a qualquer momento da doença, mas só se contarem com a opinião favorável de um médico que ateste a gravidade da situação. O pedido só é acedido após a consulta de um segundo médico, exigindo-se ainda uma terceira opinião no caso dos pacientes que não padeçam duma doença terminal. Os menores poderão pedir a eutanásia no caso de sofrimento físico. A lei não contempla casos de doenças psíquicas. Para lá da opinião médica favorável, será necessário a autorização dos pais, um dos pontos mais debatidos. O texto da reforma provocou uma divisão na câmara belga já que este é um assunto ético e livre de ideologias políticas: a maioria dos senadores votou em função da sua liberdade de consciência e não atendendo a alianças partidárias. Os cristão-demócratas francófonos CDH e os flamengos CD&V opuseram-se à nova lei, enquanto a maioria dos liberais, socialistas, nacionalistas flamengos e verdes votaram a favor. A nova norma suscitou recusa unânime das comunidades religiosas maioritárias na Bélgica, cujos líderes assinaram uma declaração conjunta: “Propor que menores possam decidir sobre a sua própria eutanásia é uma maneira de falsear a sua faculdade de julgamento e, a partir daí, a sua liberdade”, lê-se no comunicado. Por outro lado, as associações de médicos profissionais e organizações cívicas laicas e ateias manifestaram-se a favor da proposta, tal como a União Budista Belga, evocando argumentos como a defesa

Desde 1987 que a Associação Médica Mundial, através da declaração de Madrid, considera a eutanásia como um “procedimento eticamente inadequado”. da liberdade individual e o direito a uma morte digna. A eutanásia é permitida na Bélgica desde 2002. O número de casos alcançou um recorde histórico em 2012, ano em se registaram 1432 casos, 25% mais que em 2011, segundo dados da Comissão Federal de Controlo e Avaliação da Eutanásia. Para além da Bélgica, o suicidio com assistência médica é permitido na Europa na Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Eutanásia em Portugal Em Portugal, a lei não prevê nenhuma das formas de eutanásia e o código penal considera a morte induzida ou o suicídio assistido como homicídio qualificado. A Ordem dos Médicos (OM) destaca, através do 57º artigo do capítulo III do seu código deontológico, que “ao médico é vedada a ajuda ao suicídio, a eutanásia e a distanásia.” Contudo, em contra partida, é afirmado no ponto 4 do 59.º artigo que “o uso de meios extraordinários de manutenção da vida não deve ser iniciado ou continuado contra a vontade do doente”. Perante este quadro, “é natural que médicos e enfermeiros se sintam inseguros”, segundo diagnóstico de Paulo Rangel. “Não há opções claras e tem de haver uma discussão ética, técnica e depois política”, afirmou o eurodeputado em 2010, numa conferência sobre o tema no Porto, noticiada pelo DN. Desde então, foi aprovada e entrou em vigor a agosto de 2012 a lei que permite o “testamento vital”, onde o autor pode manifestar “antecipadamente a sua vontade consciente, livre e esclarecida, no que concerne aos cuidados de saúde que deseja ou não receber, no caso de, por qualquer razão, se encontrar incapaz

de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente”, lê-se no Portal da Saúde. A directiva pode ainda ser revogada a qualquer momento pelo doente e pode ser feita por qualquer maior de idade e capaz, que não se encontre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica. Por outro lado, na medicina portuguesa tem vindo a crescer a área dos cuidados paliativos, existindo de momento 18 unidades deste tipo de cuidados. Número que é considerável insuficiente face às necessidades. Apesar de contribuírem para melhorar a qualidade de vida dos doentes, os cuidados paliativos não impedem que estes peçam para morrer a médicos e enfermeiros dessas unidades de saúde, revela o último estudo da Deco sobre o caso, a junho de 2011. No estudo lê-se, de resto, que “é nestas unidades que os doentes se sentem mais à vontade para formular tais desejos”. Entretanto, vai aumentando o número de portugueses inscritos em organizações estrangeiras que defendam o suicídio assistido ou a eutanásia voluntária. Uma das mais requisitadas é a associação suíça Digitas, cujo obetivo é “defender o direito a acabar a vida sem dor e com dignidade”. Quem o diz é Ludwig Minelli, secretário-geral da instituição, que avançou ao DN que “as inscrições de portugueses começaram em 2003 e têm vindo a aumentar todos os anos”.

A Digitas é a única associação na Suíça que responde a pedidos de estrangeiros, mediante o pagamento de uma inscrição de 130 euros e de uma quota anual de 53 euros. O procedimento custa dois mil euros, incluindo gastos com medicamentos, cremação e o envio do corpo para o país desejado.


Mundo

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Breves Cinco anos para recuperar do furacão Hayan

DR: Washington Post - Estátua de Lenine derrubada em Kiev.

Manifestantes exigem integração da Ucrânia na União Europeia UCRÂNIA

O Presidente Ucraniano Viktor Yanukovich lançou a polémica na Ucrânia a 21 de novembro ao recusar um acordo comercial com a União Europeia, receando uma reação negativa de Moscovo, principais parceiros comerciais desde que a Ucrânia conseguiu a independência da ex-URSS. FRANCISCA MATOS A Ucrânia e a UE tinham encontro marcado para 29 de Novembro, em Vilnius na Lituânia, onde seria assinado um acordo de cooperação comercial. Com a recusa, Kiev pretende agora “renovar o diálogo activo” com a Rússia e possivelmente até integrar a união aduaneira formada por alguns países da antiga URSS. O acordo com a UE foi suspenso “com o objectivo de adoptar medidas para assegurar a segurança nacional”, de acordo com o comunicado assinado pelo primeiro-ministro ucraniano, Mikola Azarov, citado pela Reuters. O anúncio é encarado como uma reviravolta, dado que ainda recentemente, Azarov havia reiterado a intenção da Ucrânia em assinar o acordo. A delegação da UE confirmou a decisão através do emissário responsável, o ex-Presidente polaco, Aleksander Kwas-

niewski. “Foi feito um pedido de pausa nas negociações para que a Ucrânia organize as suas questões económicas”, explicou Kwasniewski, que sublinhou tratar-se de “uma decisão da Ucrânia e não da Europa”. Por outro lado, Moscovo não tem visto com bons olhos a aproximação da Ucrânia à UE, ameaçando com retaliações de âmbito económico caso o acordo avançasse. A Ucrânia tem uma grande dependência do fornecimento de gás natural russo, situação que tem conduzido a vários episódios de tensão entre os dois países. Em 2009, a “guerra do gás” entre a Ucrânia e a Rússia provocou o corte do fornecimento de gás a 18 países europeus. O Presidente russo, Vladimir Putin, tem pressionado Kiev para que se junte à união aduaneira da qual a Bielorrússia e o Cazaquistão também fazem parte, a Comunidade de Estados Independentes, o

Foto: DR - Rio de Janeiro

Rio de Janeiro: Cidade maravilhosa é também a mais inteligente BRASIL O congresso realizou-se em Barcelona, mas o prémio foi parar ao Brasil. A cidade brasileira é a World Smart City 2013. RITA GORDO O Rio de Janeiro é a primeira cidade latino-americana a conquistar o prémio, que vai na terceira edição. O projeto levado a concurso “Gestão de Alto Desempenho” surpreendeu o júri pela capacidade de integrar vários organismos públicos através de plataformas de atendimento com tecnologia de ponta, promovendo a interatividade com os cidadãos. De acordo com Pedro Paulo Carvalho, secretário-chefe da Casa Civil,

que seria incompatível com a integração da Ucrânia na zona de comércio livre da UE. “Saudamos o desejo de melhorar e desenvolver as relações comerciais e a cooperação económica” da Ucrânia, referiu Dmitri Peskov.

População sai à rua Revoltados com a decisão do seu Presidente de recusar o acordo com a União Europeia e manter-se aliado a Rússia, milhares de manifestantes saíram às ruas em representação dos 49%de Ucranianos que são a favor da aliança com Bruxelas. As praças mais importantes de Kiev, a capital ucraniana, têm-se enchido de pessoas. Todos os dias existem manifestações. Têm-se assistido a algumas das maiores mobilizações de pessoas desde a Revolução Laranja de 2004. Porém os números são muito divergentes. Segundo o partido da oposição, o número de man-

a cidade do Rio poderá ser palco da próxima edição do congresso. “Está quase tudo certo para a aprovação. Estamos felizes, pois este é um reconhecimento de como a cidade está antenada com o que há de mais novo.” No lote das finalistas estavam cidades como Buenos Aires, Berlim, Taiwan, Copenhaga e Sabadell, em Espanha. A decisão foi unânime e baseou-se em três critérios objetivos: inovação, impacto e viabilidade. Segundo a organização do evento, o World Smart City procura estimular a qualidade de vida, a sustentabilidade, a inovação, a criatividade, a competitividade e a eficiência administrativa nas cidades do futuro. Desta forma, o Rio de Janeiro sucede a Amsterdão, detentora do título de 2012 graças a um projeto de abertura de dados de mobilidade para a

ifestantes terá chegado a um milhão; os meios de comunicação falam em alguns centenas de milhares: 100 mil ou 200 mil. Os primeiros dias ficaram pautados pelo clima de violência, em que a polícia recebeu os protestantes com gás lacrimogénio e violência física.Iulia Timoshenko, ex-Primeira-Ministra e principal opositora do Presidente, também aderiu aos protestos, tendo feito greve de fome.Os protestos prolongam-se até então e os manifestantes pedem já a demissão do Governo. O ponto alto das manifestações foi o derrube da estátua de Lenine, a oito de dezembro, porém também os dias 30 de novembro e 1 de dezembro ficam marcados por causa dos confrontos entre polícia e manifestantes, tanto na Praça da Independência, como no Parlamento, e que terminaram com mais de uma centena de feridos a ter de receber assistência hospitalar.

população. Tempos de não reconhecer só os louros, mas também de discutir os atuais desafios da cidade para ampliar a participação da população na tomada de decisões políticas por meio das tecnologias digitais, o que na visão do secretário, Pedro Carvalho, é justamente a segunda etapa do processo de construção de uma cidade inteligente. “Cidade do Mundial” O Rio de Janeiro vai ser também a “cidade do mundial”. Não vai ser fácil arranjar alojamento durante o Mundial de Futebol e os jogos olímpicos de 2016, mas já estão a surgir alternativas. As favelas pacificadas e reabilitadas podem ser uma boa opção.

Ascende a 5500 o número de mortos causados pelo Haiyan, o tufão que arrasou as Filipinas. O furacão é o mais forte alguma vez registado e originou o segundo desastre natural mais mortífero da história recente do país asiático. O governo das Filipinas calcula que demorarão por volta de cinco anos para reabilitar as zonas destruídas. “Estamos a falar de um projeto de reabilitação de longo prazo, que durará entre dois e cinco anos”, explica o diretor executivo do Conselho Nacional de Redução de Risco e Gestão de Desastre (NDRRMC), Eduardo del Rosario. Três semanas passaram desde o desastre e os Médicos Sem Fronteiras (MSF) asseguram que ainda há localidades nas Filipinas afetadas pelo tufão que não têm recebido qualquer ajuda humanitária, uma vez que esta concentra-se na cidade de Tacloban. Por isso, a MSF mandou equipas às ilhas de Samar, Panay e Leyte para identificar as necessidades básicas e prover de assistência médica a população.

Israel quer “potenciar” relações com Portugal Quem o diz é Tzipora Rimon, embaixadora de Israel em Portugal, após a conferência “Atual Stiuação Política no Médio Oriente” que decorreu a 29 de outubro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Para Tzipora, “Portugal, hoje, está muito atento para ouvir todas as oportunidades para aumentar as suas relações com outros países” e ““há muita abertura da parte para fazer contactos com Israel”. Por outro lado, para além da abertura israelita para fazer investimentos, Tzipora salienta a possibilidade de Portugal funcionar como impulsionador das relações israelitas com os países de língua portuguesa, de modo a que “Israel também possa entrar em África e Brasil”. Em relação à crise económica portuguesa, a embaixadora, há três meses em Portugal vê esforços para enfrentar todos os problemas e estabelece uma comparação com israel: “Lembro-me também de Israel eer tido várias vezes crises económicas, com inflação, austeridade e reformas que foram muito difíceis. Hoje temos todos os frutos dessas reformas do passado”.


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Desporto Alemanha, Gana e Estados Unidos no caminho de Portugal MUNDIAL 2014 BRASIL

A Costa do Sauípe acolheu a 6 de dezembro o sorteio dos grupos do Mundial 2014 no Brasil. Portugal disputará o acesso à fase a eliminar com Alemanha, Gana e Estados Unidos. Suspeitas de arranjo do sorteio têm a Argentina como figura central.

UMA OPINIÃO VINDA DE FORA

BORJA REFOJOS Jornalista na Vavel.es, 4.º jornal desportivo mais lido em Espanha

Complicações desde o princípio

Foto: Público - A selecção portuguesa inicia a competição a 16 de junho. ANA B. PÓLO O sorteio para a fase de grupos aconteceu no passado dia 6 de Dezembro, na Costa do Sauípe. Portugal ficou selecionado para o grupo G e terá de enfrentar a Alemanha, o Gana e os Estados Unidos. Mas o que levantou suspeitas nesta cerimónia deveu-se ao facto de as bolas que diziam Bósnia, Irão e Nigéria estarem no mesmo grupo. Uma conta do Twitter tinha revelado esse mesmo resultado e também a letra do grupo: F. Assim, a FIFA voltou a estar sob suspeita. As teorias de conspiração que envolvem o sorteio têm como figura central a Argentina. Também horas antes do da polémica do grupo F, uma conta no Twitter chamada “Brasil 2014 Fraude” disse que os argentinos seriam selecionados para esse mesmo grupo. Assim foi. Para os mais incrédulos, houve ainda outra conta que “adivinhou” o que se veio a confirmar: uma seleção europeia que passou do pote 4 para o pote 2 no pré-sorteio - a Itália.

As reações ao grupo G Há uns dias atrás, Cristiano Ronaldo disse que não queria encontrar-se dentro do mesmo grupo que Espanha, Brasil e... Alemanha. As preces de Cristiano não foram ouvidas pois o português terá que enfrentar a seleção alemã, onde se encontrará com o seu antigo colega de equipa, Mesut Özil. Paulo Bento acha que a Alemanha é naturalmente a favorita do grupo, mas acha, no entanto, que Portugal se encontra num grupo equilibrado: “Parece-me um grupo equilibrado. Posso dizer que

há uma equipa mais favorita, a Alemanha, pelo seu potencial e história, mas as outras duas, quer os Estados Unidos, que o Gana, têm boa organização e alguns valores individuais com experiência em grandes equipas do futebol europeu”. Por outro lado, Asamoah Gyan, jogador do Gana, acha que está no grupo mais difícil e que não há que temer a Alemanha: “Calhou-nos o grupo mais difícil, o grupo da morte, mas temos uma boa seleção capaz de rivalizar com qualquer equipa. Não há que temer Alemanha, Portugal ou até mesmo os Estados Unidos”. Apesar de Gyan se ter referido ao nosso grupo como “grupo da morte”, há quem diga que o “grupo da morte” é mesmo o grupo D que conta com três antigos campeões do Mundo: Uruguai, Inglaterra e Itália. Já os selecionadores das seleçãos alemã e norte-americana concentram-se na figura do Cristiano Ronaldo, qualificando CR7 de “extraordinário” e Portugal como “forte”. J ames Jwesi Appiah, selecionador do Gana disse que acreditava “que Alemanha e Portugal sejam de facto os favoritos do grupo, mas teremos tempo para nos organizarmos. Cristiano Ronaldo é um dos melhores do mundo e Portugal uma seleção muito forte”, Assim, a Alemanha parte como favorita do grupo G, já que é a seleção com mais títulos mundiais (3), e a eles junta outros três títulos europeus.

Sorteio Fase de Grupos

No passado sábado celebrou-se na Costa do Sauípe (Bahia) o sorteio da fase de grupos do Mundial do Brasil 2014. A sorte, caprichosa, resultou em vários grupos muito fortes, alternados com outros mais fracos. O azar não foi benévolo com Portugal, ao deixá-lo no Grupo G, juntamente com a Alemanha, Gana e Estados Unidos. Juntamente com o B (Espanha, Holanda, Chile e Austrália) e o D (Uruguai, Costa Rica, Inglaterra e Itália), a Selecção das Quinas está no grupo mais forte do mundial. Ninguém disse que seria fácil. Num mundial estão os melhores, No entanto, o sorteio da fase de grupos colocou a Portugal difíceis obstáculos desde o princípio. Para além da dureza dos rivais, os lusos terão que enfrentar o calor e humidade das sedes dos seus encontros. A sua estreia será com a Alemanha, no próximo dia 16 de junho, às 13h00 locais, em Salvador da Bahia, cidade do norte do país que tem temperaturas a rondar os 30.º C todo o ano.

Difícil mas não impossível. Assim se pode resumir o horizonte de Portugal no Mundial.”

A bola do Mundial 2014 será o “Brazuca”

A bola do Mundial 2014 de Brasil chamará-se “Brazuca”, nome escolhido pelos aficionados. “Brazuca” é uma gentilício coloquial em Brasil, com o que referem-se aos brasileiros de forma carinhosa. Os aficionados podiam escolher também outras duas opções: “Bossa Nova” e “Carnavalesco”, mas o 77,8 por cento elegeram “Brazuca”, segundo os dados anunciados pela televisão Globo.

A poderosa máquina da Mannschaft será o primeiro e mais duro dos obstáculos que terão de defrontar os homems de Paulo Bento. Uma potência. Um firme candidato a alcançar o título para começar. A intensidade e força habituais, unidas a grandes doses de talento e a uma concepção nova de jogo, mais baseada em tabelas e posse de bola. Uma autêntica constelação de estrelas, com futebolista de renome mundial como Ozil, Goetze, Schweinsteiger, Lahm, Neuer, Reus, Muller... Espetacular. Um primeiro encontro que obrigará os lusos a dar o melhor de si mesmos se não quiserem ser barridos pela máquina branca. A seguinte paragem no caminho de Portugal no campeonato do mundo será os Estados Unidos. A 22 de junho, apartir das 18h00 locais, em Manaos, a sede mais temida de todas as equipas. Situada no meio do Amazonas (é a capital desse estado), tem um clime tropical com um calor e humidade muito altos. Sufocante. Dificuldades que não se deve perder de vista para essa partida. A seleção americana dirigida por Jurgen Klinsmann não é de não ter em conta. Para trás ficam os tempos em que o “soccer” era visto como algo exótico no país norte-americano.

Os Estados Unidos estão no melhor momento a nível futebolístico da sua história. Ganharam com muita facilidade a fase final de classificação da CONCACAF e ainda deu-se ao luxo de fazer um favor ao seu eterno rival, México, na última jornada, ao vencer o Panamá e abrindo as portas do mundial aos aztecas, ao ponto de não ficarem de fora da competição. O último encontro da primeirsa fase terá lugar em Brasília, dia 26 de junho, pelas 13h00 locais. Se tudo correr como previsto, o adversário contra o qual Portugal jugará a classificação será o Gana. As Estrelas Negras são uma equipa muito forte fisicamente e de ritmo elevado. Afastaram uma das potências africanas como o Egito (6-1) pelo caminho para o mundial e, no último campeonato, na África do Sul, chegaram até aos quartosde-final onde caíram nos penaltys frente ao Uruguai. Perigosos. É seguro dizer que este será o partido decisivo para a Seleção das Quinas. Difícil mas não impossível. Assim se pode resumir o horizonte de Portugal no Mundial. Os lusos têm qualidades suficientes para serem capazes de superar, pelo menos, os Estados Unidos e Gana e colocarem-se nos oitavos-de-final, passando em 2.º lugar no grupo. Encontrariam depois, seguramente, a Bélgica ou talvez a Rússia, duas selecções que Portugal pode e deve ganhar para alcançar os quartos-de-final, provavelmente, frente à Argentina. A partir daqui, sonhar é permitido: nas semi-finais poderia rebetir-se o duelo ibérico contra Espanha e na final enfrentar o Brasil. Nada é impossível.


Desporto

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“Draft” de Inverno na Liga Portuguesa de Futebol FUTEBOL José Eduardo Simões, presidente do Académica, foi o porta-voz dos 14 clubes que se reuniram em Matosinhos, a 3 de dezembro, com vista à destituição do presidente da Liga dos Clubes, Mário Figueiredo. DIOGO AZEREDO O presidente da Académica, José Eduardo Simões, anunciou a realização de um encontro aberto a todos os clubes, a 8 de dezembro, para que, “à mesma mesa”, possam trocar, emprestar ou contratar jogadores entre si. A iniciativa é inédita, já tem o título de “draft” do futebol por-

A “americanização” do futebol

tuguês e surge na sequência do encontro dos 14 clubes que hoje se reuniram em Matosinhos para reiterar o requerimento de uma Assembleia Geral extraordinária da Liga, com vista à destituição do presidente da direção, Mário Figueiredo. “Porque estamos preocupados com a sustentabilidade do futebol, vamos promover uma escolha conjunta na abertura do mercado, aberta a todos os clubes, para empréstimos, cedências e transferências”, afirmou José Eduardo Simões. Segundo o presidente da Académica, esta iniciativa resulta da evidência de que “a resolução dos problemas do futebol português passa pelos clubes e não pela falência que está a promover o presidente da Liga”., esclareceu.

Contudo, esta não é a única proposta que tem surgido nos últimos tempo a relembrar os desportos-rei americanos. Michel Platini propôs a eliminação dos cartões amarelos como punição disciplinar no futebol, considerando que devem ser substituídos pelo afastamento do jogador infractor do jogo por um período de 10 ou 15 minutos. “Eu mudaria o sistema de advertências, os cartões”, disse o responsável máximo pela UEFA, a entidade que gere o futebol europeu e a mais poderosa confederação de futebol da FIFA, que regula o futebol a nível mundial. Numa entrevista ao desportivo espanhol AS, Platini explicou que o “seu” sistema de punições no futebol seria mais

Maia eleita Capital Europeia do Desporto para 2014

Porto dribla na Europa, mas escorrega em casa ANDEBOL

MAIA

Depois dos bons resultados conseguidos na Liga dos Campeões, o FCP perdeu em casa com o Benfica, algo que já não acontecia há 23 anos.

A cidade do Norte do país, foi escolhida para ser Cidade Europeia do Desporto em 2014 e o resultado foi anunciado numa cerimónia que contou com a presença, entre outros, do secretário de Estado do Desporto e Juventude.

FRANCISCA MATOS O andebol portista tem surpreendido pelas boas exibições da equipa orientada por Ljubomir Obradovic. Mais do que jogar bem, o FC Porto tem visto o reflexo dessa atitude na soma de vitórias. Tanto dentro como fora de portas, os dragões somam e seguem pontos na Liga dos Campeões do Andebol, a EHF Champions League. A última vitória foi frente ao vice-campeão dinamarquês, o Kolding, por 27-24. Já a contar para o campeonato, a equipa do FC Porto Vitalis tem-se ressentido, como aconteceu no Dragão Caixa frente ao Benfica, jogo perdido por 23-25. Apesar da boa exibição foi notório o cansaço da equipa no jogo de quarta-feira, na 14ª jornada do Andebol 1, após ter jogado no sábado para a Europa. Um clássico entre estas duas equipas sempre foi favorável para o FC Porto Vitalis desde há 23 anos até agora. O Benfica não vencia na casa do FC Porto desde Junho de 1990 (então no Pavilhão Américo de Sá) e já jogou desde aí por 28 vezes nos recintos azuis e brancos. A última visita dos lisboetas foi a 17 de Maio de 2013, com os Dragões a triunfarem por 26-23 e a garantirem o quinto título consecutivo de campeões nacionais. Após estes resultados, o FC Porto Vitalis encontra-se no quinto posto da classificação.

como no râguebi, em que um jogador admoestado fica “10 ou 15 minutos fora do jogo”. Para além desta sugestão, a proposta de descontos de tempos durante os jogos do Campeonato do Mundo do Brasil irá mesmo passar do papel à prática. Esta foi uma das considerações extraída do seminário entre os selecionadores que decorreu esta quinta-feira e que permitirá uma paragem de dois minutos em cada parte de 45 minutos. Nem todos os encontros estarão abrangidos por tal medida. Os treinadores poderão fazer o pedido de paragem de jogo junto do delegado para a partida quando a temperatura e a humidade registadas dentro das quatro linhas ultrapassarem o “aceitável”. A sugestão de “time out” foi avançada por Cesare Prandelli, técnico italiano.

CLÁUDIA SEQUEIRA

Foto: DR - Frederico Morais (direita) após vitória frente a Kelly Slater (esquerda)

Frederico Morais continua época de sonho com quarto lugar na Vans World Cup. SURF

A vitória do torneio de surf havaiano foi para Ezekiel Lau mas o português ficou com o título “rookie” da Vans Triple Crown. ANA B. PÓLO O surfista português Frederico Morais, também conhecido por Kikas, terminou no quarto lugar na última etapa do circuito mundial de qualificação do ano e no segundo lugar do Triple Crown havaiano, o Vans World Cup of Surfing, (apenas vencido por Ezekiel Lau). Frederico lutou para se manter na prova durante a quarta ronda, disputando o segundo lugar com o brasileiro Wiggolly Dantas, que não lhe tornou a tarefa fácil. A poucos minutos do fim, o português conseguiu dar a volta ao resultado, apurando-se para os quartos-de-final da prova. Já nos quartos, Kikas voltou a encontrar-se com John Florence, surfista havaiano, que mais uma vez saiu vencedor. O

havaiano conseguiu também apurar-se para as meias-finais, eliminando Ian Gentil e Carlos Muñoz. Numa final a quatro, o campeão nacional português ficou em último lugar, atrás do havaiano Ezekiel Lau, do norte-americano Damien Hobgood e do brasileiro Raoni Monteiro. Frederico, que começou a prova no 93º lugar do ranking mundial, subiu para a 58ª posição. Com 21 anos, Frederico Morais, conquista o título de “rookie” - título atribuído ao melhor principiante nas duas primeiras provas da competição - da Triple Crown, depois de ter eliminado, em outubro, o norte-americano Kelly Slater que já foi 11 vezes campeão do mundo. Kikas quase repetiu o percurso de Tiago Pires, que em 2000 também chegou à final desta prova, embora tenha termi-

nado no segundo lugar.

Promessa portuguesa Frederico Morais, chamado Kikas pelos amigos, nasceu em Cascais, e é uma das esperanças do surf português. Em 2012, no seu último ano na categoria Junior, alcançou resultados excecionais, ficando no quinto lugar na ASP World Junior Titles em Bali (ganha pelo australiano Jack Freestone). Com a sua determinação, um estilo maduro e o apoio da família, Kikas é a melhor oportunidade de Portugal se somar à elite nos rankings do World Tour.

Após o título ter sido atribuído pela Associação das Capitais Europeias do Desporto (ACES Europe) em 2013 a Guimarães, a Maia prepara-se para organizar e difundir “uma verdadeira festa desportiva”, segundo intitulou Bragança Fernandes, presidente da Câmara das Maia. O autarca declarou que este título é “um sinal de reconhecimento pelo trabalho que tem sido feito na área do desporto, mas também um ato de responsabilidade”. Rematou ainda que “o facto de termos sido escolhidos para Cidade Europeia do Desporto representa que nós vivemos o desporto de uma forma intensa e é essa intensidade que queremos demonstrar e partilhar”. Emídio Guerreiro, secretário do Desporto e Juventude mandou todo o apoio do Estado para a Câmara da Maia no sentido de auxiliar neste projeto e admitiu que “em 2014 um dos principais objetivos, a nível das infraestruturas, ficará concluído e que é a renovação da pista de atletismo”. O secretário do Desporto e Juventude deixou ainda claro que os três pontos importantes por onde se rege passam pela requalificação dos equipamentos exigentes, a internacionalização da economia do desporto e o apoio aos grandes eventos”.


30 Quem é Frederico Silva? Alcunha: Kiko Data nascimento: 18 março 1995 Naturalidade: Caldas da Rainha Residência: Foz do Arelho Clubes: CT Caldas da Rainha Treinador: Pedro Felner Habilitações literárias: 12.º ano Ídolos de infância: André Agassi e Roger Federer Melhor ranking ATP: 620.º (9 dezembro 2013) Melhor ranking ITF (sub18): 6.º (2 janeiro 2012) Foto: Sapo - Frederico é o primeiro português a conquistar um título de Grand Slam.

Frederico Silva: “Ter sido o primeiro português faz as pessoas pensar que possa vir a ser melhor que os outros” TÉNIS

Breves Nova goleada para Portugal no Europeu feminino Depois de bater a Itália por 7-3, Portugal voltou a golear no Europeu feminino de hóquei em patins. Desta feita a “vítima” foi a França, atual campeã do Mundo que perdeu por 3-8. Apesar de ter entrado a perder, a equipa das Quinas reagiu e ao intervalo já vencia por 3-2, gerindo depois o resultado até ao apito final. «Conseguimos mais uma vitória justa, num jogo em que esperávamos encontrar mais dificuldades devido ao sistema defensivo da seleção francesa. Mas trabalhámos muito e bem para alcançar a vitória», afirmou o selecionador Carlos Pires, que vai agora preparar o embate com a anfitriã Espanha, o último da fase de grupos.

Frederico Silva fez história em 2012 ao tornar-se no primeiro português a conquistar um título de Grand Slam, num dos quatro torneios mais importantes do mundo. Em entrevista ao Contextos, o rapaz que já trocou bolas com Nadal, Federer e Wawrinka faz o balanço do ano de 2013, o seu primeiro como profissional. DIOGO AZEREDO Frederico Silva pegou pela primeira vez numa raquete aos sete anos, começou a dedicar-se só ao ténis aos dez e por volta dos catorze começou a empenhar-se a sério para ter bons resultados. Agora, com 18 anos, deu o salto a profissional. Uma transição sempre complicada. “Nem sempre são as mesmas coisas que decidem os jogos como era nos juniores: aqui é mais a experiência. A diferença de idades também é muito grande e torna as coisas mais difíceis”, explica. Concluído o ano de 2013, olha para trás e faz um balanço positivo: “Não foi um ano propriamente fácil. Comecei bastante mal com dois meses em que tive parado com uma operação ao joelho. A partir daí, o ano não correu da melhor forma mas, no geral, acho que depois consegui dar bem a volta. O meu objetivo era acabar no top 750 e agora, com mais quatro torneios pela frente, estou a 680.º (a 21 de novembro), por isso, posso dizer que foi bom”, confessa o tenista.

Todas as minhas vitórias em singulares têm mais significado do que as minhas vitórias em pares”

Depois de ter obtido a melhor classificação júnior de sempre de um português na época passada - 6.º na hierarquia mundial - Frederico admite que ouviu muitas críticas por ter deixado os juniores para trás e ter apostado mais nos torneios seniores. Ainda assim, considera que o seu percurso, conduzido pelo seu treinador, Pedro Felner, “tem tido os timings certos”. Não deixa no entanto de admitir que isso o prejudicou nos últimos torneios juniores de Grand Slams em que participou, os mais importantes torneios do mundo tenísticos: “Confesso que estava à espera de ter tido melhores resultados nos Grand Slams em singulares mas também não é coisa que me tenha deitado muito abaixo ou me tenha preocupado

muito. Os torneios de seniores são completamente diferentes dos juniores e, visto que não estava a jogar muitos torneios juniores, já não estava habituado àquele ambiente.”, explica. Em 2012, Frederico tornou-se no primeiro português a conquistar um título de Grand Slam, no Open dos Estados Unidos, na categoria de pares juniores. O tenista esclarece que tenta “não pensar muito nisso” mas admite que “ter sido o primeiro português de certa forma faz as pessoas pensar que possa vir a ser melhor que os outros”. Kiko, como é apelidado no mundo do ténis, tenta não pensar na pressão e desvaloriza a conquista: “Foi a pares e não tem assim tanto significado como se tivesse sido em singulares, embora não tenha sido nada fácil”, acrescentando que “todas as minhas vitórias em singulares têm mais significado do que as minhas vitórias em pares”. Contudo, é em equipa que tem obtido melhores resultados nos últimos anos. Na altura desta entrevista, tinha-se sagrado, juntamente com o belga Romain Barbosa, pela segunda semana consecutiva, campeão de pares de um torneio Future disputado em Sharm El Sheikh, no Egipto. A diferente abordagem de Frederico é que lhe tem permitido ter sucesso nesta variante: “Quando somos eliminados em singulares, os pares, por vezes, já não nos dizem nada. Então quem tiver mais força de vontade de ganhar, acaba por ganhar. Por isso é que eu tenho tido bons resultados: tenho visto os pares como uma forma de continuar a treinar e evoluir porque são mais horas que continuo dentro do campo”. Por sempre ambicionar fazer carreira em singulares, Frederico considera como a maior conquista da carreira o título de vice-campeão da Europa de juniores em 2012. Mesmo este ano, contando no currículo com um segundo título de pares de Grand Slam, agora em Roland Garros, e uma outra final, desta vez perdida, no Open dos Estados Unidos, o tenista considera a maior conquista da época a

vitória no torneio de Monfortinho, em torneios Future e a ter bons resultados”. A lamentar apenas o ano de Frederico Gil e maio. Rui Machado: “O Frederico teve os seus percalços, alguns problemas que não lhe permitiram estar ao melhor nível e que só Vou tentar ultrapassar lhe permitiram voltar agora a treinar. O isto o mais rápido possível Rui Machado também teve lesionado no para poder estar perto dos início do ano e no final do ano passado melhores” e está a voltar agora ao circuito Futures Dados os primeiros passos no cir- e aos Challengers mas creio que brevecuito sénior e rumo à profissionalização, mente estará novamente no top 150, top Kiko admite ser “difícil prever o futuro”, 100”. Destacando João Sousa, que considespecialmente na sua idade “onde tudo o que vem é novo e tudo o que vem é era “uma pessoa espectacular”, Frederico difícil”. Contudo, em 2014, “o objetivo afirma que “os resultados que ele tem tido passa um bocado por continuar a jogar são completamente merecidos” graças ao muitos torneios Futures e continuar a seu esforço que muitas vezes passa ao lado das pessoas: “Ele esteve em Espanha evoluir no ranking”. O sonho de Frederico é alcançar um muitos anos sozinhos e não tem tido cerdia o Top 10 do ténis mundial, um feito tamente uma vida muito fácil, longe da que seria inédito para qualquer tenista família e dos amigos de Portugal. Acho português. Para já, vai destacando a im- que agora que o João está no top 50, ainda portância de experiências como as que tem capacidade de ter um melhor rankteve ao poder aquecer com Roger Feder- ing, por isso, espero que para o ano ele er ou Stanislas Wawrinka, e, nomeada- consiga fazer melhores resultados”. Em relação à histórica vitória de João mente, realizar uma pré-temporada com Rafael Nadal: Ter tido a oportunidade de Sousa em Kuala Lumpur, Kiko confessa treinar com o Nadal aqueles dias todos que estava em Espanha, num Future em em Mallorca foram bons para isso: para Barcelona, a acompanhar os resultados ter noção do quão difícil vai ser chegar do torneio pela internet. “A final consegui até ao nível deles”, explica, dando uma ver em directo, encontrei um live streamgarantia: “Vou tentar ultrapassar isto o ing. Parecia que estava mais nervoso no mais rápido possível para poder estar jogo dele do que quando sou eu a jogar. Claro, quando ele ganhou fiquei muito perto dos melhores”. contente. Lembro-me bem, estava eu e o Pedro Felner”, partilha. “O João é uma pessoa Questionado se algum dia conseguirá espetacular” igualar este feito ou até mesmo superáEm relação ao ténis português, Fred- lo, o tenista das Caldas admite que tem erico Silva considera que este “foi um a noção não será fácil: “É um caminho ano espectacular dos melhores anos já longo e bastante duro por percorrer mas há algum tempo: subimos de divisão é para isso que treino todos os dias. Os na Taça Davids, tivemos o João Sousa a meus objetivos eram também os mesganhar um torneio ATP 250 e a entrar mos dele (João Sousa): entrar no top 100, no Top 50, a Maria João (Koehler) tem depois no top 50 e ir sempre evoluindo. feito bons resultados, o Gastão (Elias) Não digo que vou conseguir mas digo também tem feito grandes resultados que vou fazer o máximo para garantir em torneios Challengers, eu também fazer o mesmo”. tive alguns bons resultados e há outros juniores que começaram agora a jogar

Waboba chega ao Complexo Desportivo da U.P. A modalidade que veio da Suécia é jogada numa piscina de 50x25m, com duas equipas de cinco jogadores cada e a sua particularidade é o facto de a bola ressaltar na água. O objetivo é marcar golo na baliza adversária, respeitando regras apertadas. Algumas delas passam pela ausência de contacto físico entre os jogadores, a bola sempre que é passada ou rematada tem de ressaltar na água e o jogador não pode progredir com a bola na mão. O Waboba chegou agora a Portugal mas já tem dez anos. Está a ser implementado nas escolas através do desporto escolar e agora também chega às universidades. O objetivo é criar uma federação portuguesa de waboba. Para já, enquanto isso é ainda um sonho, é a Internacional Waboba Federation que tem a última palavra a dizer no futuro do desporto em Portugal.


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Cultura World Press Photo de visita à Maia pela 11ª vez FOTOJORNALISMO

Entre 15 de novembro e 5 de dezembro, o Fórum Maia recebeu a exposição do World Press Photo 2013, concurso anual de fotojornalismo. Daniel Rodrigues é o primeiro português a figurar entre os vencedores. Na edição deste ano, estão em exposição as fotografias que retraram acontecimentos marcantes de 2012. O World Press Photo de 2013 contou com a participação de 5.666 fotógrafos de 124 países diferentes que ao todo levaram a concurso 103.481 fotografias. A exposição do World Press Photo distribui-se pelo mundo inteiro por cerca de 100 locais e inclui mais de 150 fotografias. Para cada categoria há fotografias vencedoras. Este ano, o vencedor na categoria “Vida Quotidiana” foi português. Daniel Rodrigues venceu o primeiro prémio por uma fotografia tirada na Guiné Bissau que retrata um jogo de futebol num campo de terra batida entre jovens guineenses, como conta ao Contextos Daniel Rodrigues: “A fotografia foi tirada no âmbito de uma missão humanitária que eu acompanhei em 2012”. Quando chegou à aldeia no primeiro dia, tinha apenas a máquina ao ombro e viu “uns miúdos a jogar à bola”. Não tinha o intuito inicial de os fotografar, mas após uma participação cansativa no jogo, começou a tirar algumas fotografias. “Pouquíssimas” refere Daniel, para quem ganhar um prémio do World Press Photo “sempre foi um sonho”. De

início, não queria participar, teve de ser a namorada a convencê-lo. Porém, esta resistência começou mais cedo por não ter sido cedo que Daniel se apercebeu da paixão pela fotografia: “Em casa havia uma máquina, eu pegava nela e tirava fotografias. Nunca pensei que queria ser fotógrafo só quando cheguei aos 17 ou 18 anos é que decidi que ser fotógrafo era o que queria fazer da vida”. O nome agora reconhecido a nível internacional é motivo de felicidade para este fotojornalista português, que, para além disso, ganhou também mais visibilidade no panorama nacional: “Já tenho nome no estrangeiro que era uma coisa que eu sempre quis”. Na opinião de Daniel, não é fácil serse fotógrafo já que hoje em dia “toda a gente tira fotografias” e “não se dá valor ao verdadeiro profissional – o fotógrafo ou o fotojornalista – o que é uma pena”. Não considera, no entanto, que a sua profissão está em risco, mas tem a certeza que a situação se irá agravar apesar de ver isso como “um desafio”. O segredo pelo sucesso parece ser o “lutar para demonstrarmos o nosso trabalho”. Para quem trabalha como freelancer, o que é o caso de Daniel Rod-

Foto: Diogo Azeredo - 4.º Festival Porta-Jazz

Foto: Daniel Rodrigues - A foto que deu a vitória no World Press Photo a Daniel Rodrigues foi tirada na Guiné-Bissau.

rigues, “é preciso trabalhar porque os trabalhos não aparecem todos os dias”. “Faz bem porque uma pessoa não pode desistir”. O World Press Photo, à semelhança do ano passado, está presente em Portugal em apenas duas cidades – Lisboa e Maia. Para os maiatos, a vinda desta exposição tem sempre resultados positivos. Paulo Ramalho, Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Maia, disse ao Contextos que a Câmara faz um balanço muito positivo e que a exposição teve muitos visitantes. “Este ano a visita tinha um pormenor que fez alguma diferença que foi o facto de ter em exposição também o trabalho de um fotojornalista português o Daniel Rodrigues que pela

primeira vez venceu o grande prémio da World Press Photo”. Paulo Ramalho afirma que esta exposição é única no mundo, “é a maior exposição de fotojornalismo que existe a nível internacional, uma referência do mundo da fotografia e do fotojornalismo em particular”. E que o segredo das exposições do World Press Photo são de que “A exposição visa retratar um conjunto de factos de acontecimentos situações da vida quotidiana. Existem fotografias até particularmente violentas de conflitos ou catástrofes também. São sempre imagens que todos nós nos lembramos de algures ter visto inclusive na televisão, e quando somos confrontados com as fotografias por vezes somos obrigados a fazer uma

reflexão muito mais profunda do que aquilo que faríamos se não tivéssemos aquela fotografia na nossa frente”. Esta exposição tem, segundo Paulo Ramalho, um público muito fiel e também isso pode explicar a razão da constante adesão que tem tido ao longo destes anos. Anualmente, são entre 5.000 e 6.000 as pessoas que visitam a exposição na Maia que acaba por se conseguir que este evento se torne “uma marca da própria Maia porque é uma referência da cultura e até da política internacional”. Veja na edição online galeria fotográfica e entrevista de Daniel Rodrigues www.jornalcontextos.wordpress.com

José Duarte: “O que mais me cativa no jazz é a luta que tive por ele” MÚSICA De visita à 4.ª Edição do festival Porta-Jazz, que se relizou no Passos Manuel, a 7 e 8 de dezembro, o “pai do Jazz português” explica o que o encantou neste género que começa a ganhar adeptos e praticantes no Porto. DIOGO AZEREDO José Duarte nasceu no Bairro Alto, próximo do Conservatória, a 23 de junho de 1938. “Trabalho em jazz há 55 anos em Portugal e no estrangeiro, portanto, dediquei mais de metade da minha vida ao jazz”, afirma. Hoje, entre as várias distinções e ações que conduziu pelo movimento, entre as quais a Medalha de Mérito do Ministério da Cultura, José Duarte é Professor Auxiliar Convidado para disciplinas Jazz de opção livre na Universidade de Aveiro e membro da International Association for Jazz Education e da Veja na edição online a galeria fotográfica do Contextos da 4.ª edição do Festival Porta-Jazz. www.jornalcontextos.wordpress.com

É esta irrequietude e não definição permanente de discurso que entusiasma qualquer pessoa”.

Jazz Journalists Association. Desafiado a tentar explicar o que apaixonou no género, o músico é directo: “O que mais me cativa no jazz é a luta que tive por ele”. Segundo o mesmo, a maioria das pessoas não sabe o que era gostar de jazz nos anos 50 e dos perigos inerentes ao trabalho do então jovem de vinte anos que se estreava na Rádio Universidade com “O jazz, esse desconhecido”. “Arriscava a liberdade em fazer propaganda da música negra norteamericana quando estávamos em guerra ultrajante com o chamado Ultramar”,

confessa. Ainda assim, não é só uma “razão política “ que faz José Duarte considerar o jazz como a “música da liberdade” uma vez que aqui a improvisação é a regra número um: “O jazz não se lê, improvisase. Cada um pode improvisar o que quer e tem os meios à sua disposição para provar se é o melhor ou não é, ou se está a crescer, ou se ontem gravou melhor que hoje ou se hoje tocou pior que ontem. Essa é a liberdade que está na responsabilidade de um música que improvisa”. Para José Duarte, o jazz não é tocado de papel escrito à frente. Ao contrário doutros estilos, “onde se der um dó e fôr um ré, Mozart salta na campa”, aqui a liberdade é apenas “controlada pelo público e pelo próprio músico” que pode sair zangado consigo mesmo duma atuação. “Nunca se pode dizer que um concerto vai ser bom. É o problema que o jazz se põe: posso estar a improvisar mal, amanhã vou improvisar melhor. O próprio músico pode sair zangado com ele próprio quando toca: “Ah, o solo não me saiu bem! Ah, o solo saiu-me bem e o público gostou!” Esta unidade ou diversidade é que é o grande entusiasmo permanente do jazz”, conclui.


Desporto

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Bollywood já chegou a Portugal

Uma empresa indiana poderá vir a realizar mais do que um filme em Portugal.

Passados dois meses ainda se discute o despejo da Seiva Trupe TEATRO

A companhia de teatro Seiva Trupe que tinha sede nas instalações do Teatro do Campo Alegre no Porto, há 15 anos, foi alvo de uma ação de despejo durante a madrugada de 17 de outubro por parte da Câmara Municipal do Porto CLÁUDIA SEQUEIRA Passados dois meses da ação de despejo, a polémica ainda dá que falar. A ordem foi dada por Rui Rio, o ainda presidente da autarquia na altura da problemática. Baseou a sua decisão na “falta do pagamento das prestações devidas, no âmbito do contrato de cedência das instalações do Teatro Campo Alegre”. O despacho acentua que, “nos termos contratuais, a falta de pagamento de uma prestação implicava o vencimento de todas as prestações vincendas e a imediata resolução do contrato”, ao mesmo tempo que refere que a direção da Seiva Trupe “foi regularmente notificada da resolução do contrato e da obrigação de desocupação e entrega de todos os espaços cedidos até 15 de outubro”. Responsáveis da Companhia de

Teatro classificaram este ato de “ilegal” e “arbitrário”. Júlio Cardoso, um dos fundadores da companhia, disse que, com o processo Especial de Revitalização - PER (este que foi aceite pelo Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia), “a companhia ficou sob administração judicial, o que inviabilizaria qualquer ação de despejo”. Ainda assim, e apenas por precaução, referiu Cardoso, o advogado da Seiva Trupe solicitou uma providência cautelar para impedir o despejo, que terá sido aceite pelo tribunal, com a indicação expressa de que não teria sido necessária dada a existência do PER.

Uma das últimas medidas de Rui Rio

12 anos de Rui Rio à frente da Câmara Municipal do Porto. A justificação foi a falta de pagamento de algumas prestações devidas pela ocupação do espaço que a companhia utilizava há anos. Segundo um despacho assinado pelo próprio antigo presidente da Câmara da Invicta, considera-se que o contrato foi resolvido por incumprimento, daí explicar-se a desocupação forçada das instalações do referido teatro. Entretanto, através do seu Gabinete de Comunicação e Promoção, a CMP esclarece que, após várias reuniões destinadas a encontrar uma solução para a dívida acumulada, e face ao não pagamento até 18 de setembro, foi formalizada oito dias.

Dois meses depois

A direção da companhia destaca que “o teatro [do Campo Alegre] existe porque existe a Seiva Trupe”, adiantando que nunca lhe passou pela cabeça “aceitar o estatuto de companhia municipal, que a Câmara agora afirma ser uma das suas propostas. A Câmara do Porto comunicou estes dias que decidiu encerrar o processo de negociações com a Seiva Trupe, argumentando que a companhia de teatro pelo anterior executivo da autarquia recusou todas as alternativas propostas pela autarquia. A companhia adiantou “Perante as novas e impensáveis condições que a Câmara nos coloca, não tivemos outra solução que não acabar com as conversações encetadas. É triste, mas é a realidade”.

Foi um dos últimos atos da gestão de

CRÍTICA CULTURAL

Mandela - O Rebelde Exemplar DIOGO AZEREDO “Mandela - O Rebelde Exemplar” é o terceiro livro de António Mateus dedicado às suas experiências na África do Sul enquanto correspondente. Depois do sucesso que conquistou em 2012 com “Mandela - A Construção de um Homem”, o livro de maior sucesso em Portugal sobre Nélson Mandela, questionava-se o que teria motivado o jornalista português a escrever uma nova biografia sobre o antigo líder sul-africano, num tão curto intervalo de tempo, e sem novos acontecimentos. Desta vez, António Mateus procurou, tal como se pode ler na contracapa da obra, escrever “a primeira biografia completa de Nélson Mandela especialmente pensada para jovens”. O resultado final? A primeira biografia completa de Nélson Mandela especialmente pensada para jovens. Começando pelo livro enquanto objecto, a primeira coisa que nos chama à atenção quando se pega no mesmo, é a qualidade da textura da sua capa. Ficamos logo impingidos a ter cuidado com o manuseamento da obra, não vá um dedo mais gorduroso deixar uma daquelas feias dedadas. O mesmo se sente quando se esfolheia o livro: a sua óptima impressão, da qual é responsável a Edi-

tora Planeta, é feita sobre um bom papel, que cheira a papel, e que já não se vê com a desejável frequência nos exemplares de hoje. O tamanho da letra está relativamente grande, adequado ao público mais novo, tal como as ilustrações, bastante apelativas mas ao mesmo tempo sóbrias, capazes de o prender à leitura. Um belo trabalho de Nuno Maldonado Tuna mas que, ainda assim, nos faz por vezes suspirar por algumas legendas que nos contextualizem a ação e os protagonistas da mesma. Em relação à linguagem, António Mateus faz juz à sua profissão de jornalista: é clara, precisa e concisa. A evolução da vida de Nélson Mandela é retrata de uma forma muito simples, directa e assertiva, sem palavras de significado mais dúbio para o corrente dos leitores. Ainda assim, nota-se o rigor esperado de um bom repórter e do maior especialista português em Madiba. As datas, locais e nomes surgem bem detalhadas apesar de, por vezes, a abundância de nomes que o autor lança fica confusa de acompanhar, uma vez que não estamos familiarizados com o idioma em questão. Por fim, o livro, não só não é longo, como é também de leitura rápida para até o mais lento dos leitores. Se o consegui ler bem lido em dois dias, certamente que o

ANA B. PÓLO Em março, a Picture Portugal fez um acordo para trazer Bollywood para o nosso país e agora chega Bollywood para o primeiro filme. O produtor indiano Arvind Ranganathan já tinha escolhido Portugal há algum tempo como destino para a gravação de um filme. Em março, depois de algumas negociações, assinaram um protocolo com a empresa audiovisual Picture Portugal. A Real Image, líder mundial no cinema digital, assinou o acordo produzido durante uma visita à India pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Segundo o presidente da Picture Portugal, Artur Curado, as rodagens do filme irão começar em maio de 2014 e o país receberá cerca de 5,5 milhões de euros da maior empresa mundial digital. Curado revelou que têm feito visitas a vários locais e anunciou que em 2014, a Picture Portugal estará presente em várias feiras e festivais internacionais de cinema onde apresentará este novo filme como “uma das produções a fazer em Portugal”. No entanto, a Picture Portugal não quer que este seja um projeto isolado e até o produtor indiano já abordou outros produtores para que escolham Portugal como o seu destino de rodagem.

O cinema indiano conseguirá numa tarde. Percebemos que não é perdido tempo com informações secundárias, nem com pormenores paralelos para a mensagem que o autor pretende transmitir. Somos conduzidos de forma directa àquele que é o objetivo de cada capítulo. E aí chegamos à estrutura: passo a passo, história a história, António Mateus guia-nos na evolução do jovem rebelde que se transforma no maduro rebelde, que passa a ter autoridade e ganha estatuto. Aqui dá-se uma alteração do ponto de vista discursivo: enquanto nos episódios da subentendida primeira parte do livro, o autor tem um discurso muito mais descritivo, na segunda, muda de registo para um tom mais interpretativo e analista. Ainda assim, não espere encontrar uma reflexão ideológica, política, económica ou social. Encontrará pequenas histórias que não estamos habituados a ver nas biografias mais séries mas que nos ajudam a compreender a personalidade de Nélson Mandela. Por fim, o último capítulo é dedicado ao legado de Mandela e à responsabilidade que o mundo ganhou com a sua perda. Uma analogia com o propósito de António Mateus para a realização do livro e que o remata particularmente bem.

5/5 “Mandela - O Rebelde Exemplar”, não só é um fiel e criativo retracto da aturbulada e fascinante vida de Nélson Mandela, como também um espelho da enorme vontade de um jornalista empenhado em conservar o legado do homem ao qual dedicou a sua vida.

Bollywood é o nome dado à indústria indianaque produz filmes em indiano e que está sediada em Bombay, na Índia. Bollywood foi a escolha do nome por ser o resultado de uma mistura entre Bombay e Hollywood, o centro da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. O que mais representa os filmes de Bollywood são as produções e cenas musicais. É comum incluíremse cantos e danças típicas do país, misturadas com coreografias da cultura pop ocidental. Já as canções dos filmes são produzidas, muitas vezes, por conhecidos artistas que costumam lançar a música do filme no mercado meses antes da difusão do próprio filme. Outras indústrias cinematográficas são Nollywood (Nigeria), que é a segunda maior do mundo; Kollywood, vinda de Kodambakkam, na Índia; e Trollywood (Trollhättan, Suécia).


34 Foto: Francisca Matos - Pedro Laginha, um senhor do rock português

Rock With Benefits: música com causas A cidade de Fafe, acolheu nos dias 13 e 14 de dezembro o festival Rock With Benefits. O festival solidário organizado em como lema “Música com causas” e o objetivo é aliar entretenimento e beneficência. A edição deste ano do Rock With Benefits contou com nomes como Let the Jam Roll, The Shine, The Girl in the Black Bikini, Fast Eddie Nelson, Nuno Calado e Mundo Cão, entre outros, e a reação do público foi muito positiva, segundo a organização. O festival criado em 2011 foi nomeado para os prémios Portugal Festival Awards 2013, na categoria de Contribuição para a Inovação em Produção, categoria criada este ano. Concorreu com festivais de grande nome, entre eles Vodafone Mexefest, Vodafone Paredes de Coura ou Optimus Primavera Sound. Quem ganhou o galo (estatueta do concurso) foi o Optimus Primavera Sound.

Pedro Laginha: ““O público português está cada vez mais ansioso por bandas nacionais” MÚSICA

Ele é ator, músico, líder de uma banda, ele é artista. Habituado a qualquer tipo de palco, às câmaras e à fama, Pedro Laginha aceitou falar ao Contextos do novo trabalho dos Mundo Cão, “O jogo do Mundo”, do estado da música em Portugal e da presença no Rock With Benefits, um festival solidário. FRANCISCA MATOS Os Mundo Cão costumam aliar-se a iniciativas de solidariedade? Sim, a algumas causas sim. Nós gostamos sempre de nos aliar a causas que achamos que fazem sentido. A causa animal é outra delas. Ainda há mercado para as bandas em ascensão? Penso que sim. Eu penso que o público português está cada vez mais ansioso por bandas nacionais com bom som, que consigam comover as pessoas. Eu penso que sim. Qual o conselho que deixa para as bandas em ascensão? É não desistir, é acreditar que aquilo que nós fazemos faz a diferença de alguma forma e é não desistir, é lutar, lutar, lutar! Acha que as bandas nacionais têm de trabalhar mais para concorrer com as bandas internacionais por estas últimas terem mais popularidade? Eu acho que isso é extremamente injusto porque as bandas internacionais beneficiam de uma promoção que nós aqui não temos e não conseguimos chegar lá. E muitas vezes nós lutamos contra a própria indústria musical nacional porque as editoras muitas vezes preferem apostar, aliás, são obrigadas a publicar artistas internacionais e a deixar as bandas nacionais para segundo, terceiro, quarto, quinto plano. Portanto acho que é não desistir e é tentar ir furando, fazer coisas diferentes, arriscar, trazer ideias novas, não ter medo. Nesta altura compensa fazer música para nichos, ou o mercado obriga a que se opte por ser mais comercial? Eu acho que isso depende daquilo que as pessoas quiserem, qual é o seu objetivo.

Se querem ser uma banda mais generalista, pronto, então vão tentar agarrar o máximo de pessoas possível, só que nunca se vai agradar a toda a gente, portanto eu acho que é preferível dedicar-nos a um nicho de mercado. Nos Mundo Cão nós dedicamo-nos mais a um rock com palavra. Apostamos principalmente em bons escritores para escrever as letras, e é por aí. O nosso nicho é esse. Se conseguirmos ir buscar pessoas a outros nichos, isso é um bónus, mas o nosso nicho é mais o nicho rockeiro. É essa a imagem de marca dos Mundo Cão, a vossa identidade? Sim, eu penso que sim. Rock com palavra.

e trocámos números de telefone. Passado uns tempos, quando começámos a trabalhar neste novo álbum, eu ligueilhe e perguntei se ele estava interessado em fazer músicas e letras para nós. Ele aceitou logo de bom grado o convite e começo a escrever de empreitada letras atrás de letras. Tivemos de chegar a um ponto e dizer “calma, já está, está ótimo, já não é preciso mais”. Também não queríamos perder letras do Valter Hugo Mãe e do próprio Adolfo, que são elementos muito importantes para nós.

Nos Mundo Cão dedicamonos mais a um rock com palavra. Apostamos principalmente em bons escritores para escrever as letras.

Acha que há uma grande diferença entre o rock de antigamente e o de agora? É diferente. O rock de agora acaba muitas vezes por repetir fórmulas que já existiam antes e corremos muitas vezes o risco de termos 100 bandas com sons muito parecidos e que podiam perfeitamente ser uma banda só com aquele reportório todo. Eu acho que é mais difícil inventar alguma coisa hoje em dia. Acho que podemos reinventar. Inventar originalmente acho muito difícil.

O Adolfo foi também um grande impulsionar, segundo sei… O Adolfo foi quem deu nome à banda, para começar, o primeiro álbum é tudo letras dele. O segundo álbum já tem algumas letras do Válter Hugo Mãe mas principalmente letras do Adolfo. Neste por acaso ele foi o que escreveu menos, ele e o Válter escreveram duas cada e o Zé Luís é que escreveu o resto.

Falando agora do novo trabalho, “O Jogo do Mundo”, José Luís Peixoto vem juntar-se a Aníbal Luxúria Canibal e Valter Hugo Mãe como letrista das vossas músicas. Como surgiu essa pareceria? O José Luís eu conheci-o num festival em Leiria, o “Entre Muralhas”, fomos convidados os dois para fazer uma palestra sobre aquilo que a obra tem do artista, aquilo que nós como artistas damos à obra, e a confusão que se faz às vezes entre o artista e a própria obra… andámos à volta disso. Foi aí que eu o conheci

E vocês conversam antes do processo de escrita? Portanto, neste álbum havia um mote, há sempre um mote. No primeiro disco não, era um disco mais de afirmação, a nível de temáticas. Era o esboço do que poderia vir a ser Mundo Cão. No segundo álbum já quisemos falar de amor e ódio, andava tudo à volta daquilo. Daí vem-nos a ideia da geração da matilha, a geração dos inadaptados, a geração dos que não seguem os padrões. E este álbum o mote era uma fotografia de classe de 1970, com pessoal de 15, 16 anos, de

sorriso no rosto, os sonhos de aquilo que achavam que iam ser. E depois agarrar nesse pessoal e coloca-lo com 40, trinta e muitos, 40, e aquilo que eles pensavam que iam ser e aquilo que eles são, e é esse confronto o mote deste disco. Acha que há variações no processo de escrita? Por exemplo, o Adolfo já está habituado à escrita para canção, para ser musicada, já o José Luís Peixoto e o Válter Hugo Mãe não. Nota-se essa diferença? Não se nota. Eles são três escritores diferentes, não é… nota-se no tipo de vocabulário usado, na maneira como eles desenvolvem a letra. O Adolfo tem uma maneira de escrever muito mais intrincada, muito mais complexa a nível de vocabulário, e inusitada mesmo. Ele vai buscar palavras que não lembram ao diabo. Eu dei por mim a cantar palavras como louva deus, mausoléu, palavras diferentes que não são usuais serem cantadas. E isso também dá um gozo extremo. O Válter tem um lado mais… eu gosto muito da maneira como o Válter escreve, ele tem uma maneira de escrever muito… é extremamente poético, bonito. Mas depois é uma coisa quase freudiana, ele vai buscar os temas da dominação, do amor e do ódio, da submissão, é um lado mais por aí. O José Luís Peixoto é “chunape”, portanto logo aqui temos três universos diferentes mas cada se pode perfeitamente encaixar nas letras para Mundo Cão. E como é que mantêm a linha direcional sendo que têm escritores tão diferentes? Porque nós damos-lhes o mote. O mote é dado por nós. “Olha este álbum fala sobre isto e queremos que ande tudo à volta disto, deste mote”. E pronto, este é conceptual por isso também. A própria fotografia (capa) do álbum deriva dessa ideia original da fotografia e pronto, da-

mos o mote e eles escrevem à volta disso. Há algum escritor português com quem gostasse de colaborar? Neste momento ias ter de me fazer pensar, eu gosto muito destes três. Eu já conhecia e gostava do José Luís e do Válter. Oh pah não sei, não te sei dizer… Se calhar uma coisa mais espontânea que surgir… Sim, eu acho que é isso. E às vezes acontece, imagina, estar a ler um livro de um autor português e pensar “oh pah, este gajo, isto assentava que nem uma luva para nós.” E foi assim que aconteceu tanto com o Válter como com o Zé Luís. O que mudou desde o início dos Mundo Cão para agora? Acho que é o clichê mas eu acho que estamos mais maduros, talvez. Acho que sabemos melhor aquilo que não queremos. Qual o futuro que espera para os Mundo Cão? Vamos ver mas tocar, agora é tocar e provavelmente vamos começar a pensar no novo álbum lá mais para o final do ano. Começar a ter mais ideias, já estamos com vontade de compor mais. Tivemos um grande interregno entre o segundo e o terceiro mas foi por questões pessoais, todos nós tivemos filhos e isso atrasa tudo um bocado. Mas não sei, vamos ver, vamos ver.

O rock de agora acaba muitas vezes por repetir fórmulas. É mais difícul inventar algo hoje em dia. Podemos reinventar. Inventar originalmente acho muito difíicil.


36 CARTOON Cortes no Serviço Nacional de Saúde

IMAGEM DO DIA

Vistos Gold: Dromomania: Bélgica aprova Um negócio da a doença dos eutanásia China? mochileiros infantil

“Mundo Cão é rock com palavra”

ECONOMIA Dos 388 vistos concedidos até agora, cerca de 80% foram atribuídos a investidores chineses. pág. 9

CULTURA. Em entrevista, Pedro Laginha fala-nos sobre os próximos projectos e o concerto no Rock With Benefits. pág. 34

Últimas Portugal já teve de pagar 17 milhões de euros por atrasos na Justiça ECONOMIA. Advogados querem mais verbas no OE para a reforma da Tribunal Europeu dos Direitos do Homem obrigou o Estado português a desembolsar, só nos últimos cinco anos, 17 milhões de euros por atra-

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MUNDO. A Bélgica deu o primeiro passo para ampliar a lei da eutanásia aos menores. Com comentário de Diogo Azeredo. pág. 26

Prova de avaliação de professores em dia de greve com adesão total, diz Fenprof Mais de 13 mil professores deverão fazer hoje uma contestada prova de avaliação de conhecimentos, no mesmo dia em que os sindicatos da Fenprof marcaram uma greve que, espera a organização, terá uma adesão total.

sos nas decisões da Justiça.

Estado do mar impede buscas de jovens desaparecidos no Meco nos próximos dias SOCIEDADE. Operações estão a ser feitas só em terra e mesmo assim interrompidas pela chuva intensa e falta de visibilidade. Quatro raparigas e um rapaz continuam desaparecidos.

Benfica é o 15.º clube mais valioso do mundoPor Paulo Alves DESPORTO. O Benfica foi quem mais posições subiu, quatro, no top 20 dos clubes mais valiosos do Mundo e Jorge Jesus continua a ser o treinador mais bem pago da Liga portuguesa, e o segundo treinador português melhor remunerado.

LUSA “Aquilo que sentimos nas escolas é a vontade imensa dos professores de inviabilizar a realização” da prova, disse hoje à Lusa o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira. O sindicalista espera uma adesão de cem por cento, e explica porquê: ”Temos encontrado escolas inteiras em que colegas já disseram que vão fazer greve”, assim como agrupamentos escolares nos quais não vai haver vigilantes [à prova]. “Do ponto de vista político esta prova está derrotada e o Ministério da Educação também”, disse Mário Nogueira à Lusa, acrescentando: “es-

tamos conscientes de que não sendo inviabilizada na totalidade das escolas será seguramente em muitas delas”. Mário Nogueira salienta que “a não realização da prova pelos professores sem vínculo, em função da realização da greve, é a única possibilidade de não se penalizar nenhum professor”. De resto, diz o sindicalista, as ações de contestação à prova irão prosseguir, sempre dentro da legalidade, sendo que hoje os professores estão conscientes de que a prova de avaliação é “um atentado à profissão, é injusta e humilhante”. A prova de avaliação dos professores foi anunciada no verão pas-

sado e desde logo contestada. Em novembro, na sequência de uma reunião com sindicatos da Educação, afetos à central sindical UGT, nomeadamente a Federação Nacional da Educação, o Ministério estabeleceu que apenas os professores com menos de cinco anos de carreira fariam a prova. Os sindicatos que estiveram na reunião aceitaram a decisão e anularam as ações de contestação, mas a Fenprof manteve todas as ações de luta, incluindo a greve de hoje. A prova realiza-se em mais de uma centena de escolas e começa às 10:30, devendo durar duas horas.

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