Issuu on Google+

6

São José, maio de 2011

7

São José, maio de 2011

Superação

calha é determinada pelo jogador, no caso de Fernando ele usa a língua para determinar o grau de inclinação da calha. Às vezes mais para direita, e em outros casos, mais para a esquerda. Se o juiz perceber que houve qualquer inclinação da calha sem autorização do jogador, este estará desclassificado. ESTÍMULO DA MÃE Desde pequeno Fernando é estimulado por sua mãe, Marlete Wolfran a participar regularmente das sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Agora complementa essas ações com treinamentos de bocha, que são realizados três vezes por semana com sua técnica e “calheira”, Aline Rita de Barros, no ginásio de esportes Gabriel Collares, em Itajaí. Segundo sua mãe Fernando tem comprometimento motor, porém seu cognitivo é preservado e bastante aguçado. “Ele é bastante esforçado no que faz e sabe tudo que acontece ao seu redor”, admite ela. Segundo Karla Alcântara, Fernando fica muito nervoso durante os jogos e ao comemorar se contorce na cadeira, solta grunhidos. “É a forma dele de gritar”. Fico muito feliz com o trabalho dele e as medalhas de ouro. Isso são prêmios para nós”. Para Laion Rocha, morador de Itajaí, e que conhece Fernando, o atleta é um talento inquestionável. “O que esse rapaz faz com as limitações físicas que têm e com sua força de vontade em superar limites é algo fantástico. Serve de exemplo para muitas pessoas que vivem a reclamar da vida devido a pequenos obstáculos”. De fato, Fernando, é o orgulho da Fundação Municipal de Esportes de Itajaí, um campeão que merece aplausos.

A

Atleta de Criciúma: braço amputado por erro médico

o andar pelos corredores da Escola Estadual Arruda Ramos, em Criciúma, Bruna Costa Cavalcante, 15 anos, estudante da 8ª série, não passa despercebida. Bruninha, como é conhecida pelos amigos, foi vítima de erro médico. Aos três meses de idade uma vacina BCG mal aplicada no braço direito provocou uma trombose tão severa que tiveram que amputar o braço a 15 centímetros da articulação do ombro. Quando um interlocutor olha para Bruna sem o braço pode logo imaginar que ela seja mais uma entre centenas de deficientes físicos do Brasil. Mas, se essa pessoa lhe oferecer uma raquete, uma mesa de tênis e pedir para ela trocar algumas bolas, verá que diante de seus olhos há uma atleta especial. E se esse interlocutor resolver ir a um torneio em que Bruninha estiver participando verá que ela é super especial. E se a análise for mais minuciosa, uma olhada no currículo, por exemplo, aí descobre-se que a pequena garota de Criciúma é um fenômeno raro de acontecer, pois se a fatalidade deixou sequelas físicas, o mesmo não se pode dizer do aspecto psicológico ou da autoestima. “Nunca me senti inferior, discriminada ou uma pessoa incapaz”, admite ela. De fato, a palavra ‘incapacidade” não faz parte do seu vocabulário e não traduz sua condição de esportista quando o assunto é tênis de mesa. Apesar da pouca idade e da deficiência física, Bruninha já alcançou a seleção brasileira em duas vertentes: é titular da principal e também da seleção paraolímpica. E foi representando o Brasil que conquistou algumas das medalhas mais expressivas de sua carreira. A última uma de ouro no campeonato mundial paraolímpico na França, em julho, quando venceu na final a francesa Aldrey Morve, de 23 anos, segunda do ranking mundial. O feito soma-se a outro: uma medalha de prata no mundial da China, em Taipei, também em julho, além do ouro conquistado há três em junho no sul-americano, realizado no Peru. No total Bruna já conquistou 122 medalhas, oitenta das quais de ouro, como as três que ganhou no Para-Pan em outubro do ano passado ou na de Bogotá, na Colômbia no campeonato sulamericano, também em julho deste ano. “São tantas que nem sei se são 122”, espanta-se a jovem, que começou a jogar tênis em 2004 10 anos de idade por influência do irmão Bruno.

Eduardo: o ciclista sem braço

om paralisia cerebral e sem poder andar ou falar, atleta de Itajaí é exemplo de superação dos limites e de amor ao esporte Fernando Bittencourt Wolfram tem 28 anos e nasceu com paralisia cerebral. Por isso não anda, não fala e vive em uma cadeira de rodas. Mas quem pensa que esse itajaiense vive de forma vegetativa se engana. O rapaz, com o auxílio de uma “ponteira”, adaptada à cabeça, liga o computador, lê jornais on-line, passeia por sites e já escreveu vários poemas, além de fazer pinturas em telas. Se nas artes ele faz bonito é no esporte que seu talento sobressai. Fernando foi medalha de ouro em todas as edições dos Jogos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc) na modalidade Bocha Paraolímpica BC3, esporte destinado a atletas que reúnem o grau mais alto de paralisia cerebral. Ganhou na final das cinco edições do evento Paulo Perão, de São José. Em junho de 2009, Fernando foi vicecampeão brasileiro em Maringá. Mas, para ser campeão de bocha tendo paralisia cerebral não é fácil. Como os atletas da bocha BC 3 não têm mobilidade nas mãos e nos pés, precisam, para arremessar a bola, de auxilio de uma outra pessoa. Por isso cada um deles usa um auxiliar conhecido como calheiro. A partida é realizada numa quadra de esportes e não numa cancha comum de bocha. A calheira de Fernando é sua fisioterapeuta da Apae de Itajaí, Karla Alcântara. Ela, obedecendo as regras da modalidade, se põe em frente ao atleta, de costas para o jogo, prende a bola com a mão no topo da calha inclinada e aguarda Fernando empurrar a bola com a ponteira amarrada a testa do jogador. A posição da

Bruna: a deficiente eficiente

Fernando: o Paraplégico da bocha

C

Itajaiense com paralisia cerebral tem moblidade apenas na cabeça: força de votade

Ciclista de Rio Negrinho perdeu o braço em atropelamento

N

a prova do cross-country dos Joguinhos Abertos de Santa Catarina realizada dia 24 de agosto do ano passado em Criciúma, dos 55 ciclistas inscritos um chamava atenção do público: Eduardo Franco Sanches, de 16 anos, que competia por São Bento do Sul. O motivo? Eduardo não tinha o braço esquerdo. Criava-se assim uma expectativa para ver o desempenho do garoto franzino. Terminada a prova, a 13ª posição na classificação geral era o que menos importava. O abraço do seu técnico Herberth Sprotte e os aplausos dos que estavam presentes eram tão significativos quanto uma medalha. Poucos dos presentes sabiam o que o garoto havia passado até chegar àquela prova. Sanches conta que aos 11 anos, em 2005, num parque de pesque-pague, em Rio Negrinho, onde mora, foi atropelado por um carro dirigido por um tio. O carro precisava de um empurrão para pegar no tranco. “Eu estava brincando em um parquinho e como veículo não tinha freios ele me atropelou. O carro passou por cima do meu braço esquerdo”, lembra o ciclista. O acidente lesionou os nervos acima do cotovelo obrigando os médicos amputar o braço do jovem. Na época, não praticava esporte e nem imaginava que um dia iria ser ciclista. Em 2009, ainda em Rio Negrinho, gostava de observar os garotos de sua idade praticando esportes principalmente as provas de estrada e resistência. Como tinha uma bicicleta tracionada resolveu experimentar. Sua força de vontade foi tão intensa e o desempenho tão bom, que foi convidado pelos amigos a participar da equipe Rino, de ciclismo. A partir de então passou a treinar seis horas por dia. Em setembro do ano passado ficou em oitavo lugar na prova do contra-relógio individual no torneio Paraolímpico, em Brasília. Recentemente Eduardo participou da Volta de Brusque, em que foi terceiro lugar, e do 1º Tour de Itajaí, quando obteve a quinta colocação. Filho de pais separados, Eduardo mora com a mãe, que é auxiliar de produção. É natural de Pontes e Lacerda (MT), cidade distante 442 km da capital Cuiabá e veio morar em Rio Negrinho em 2000. É o mais novo dos cinco irmãos e tem um sonho: participar da Paraolimpíada de 2016. O técnico Herberth tem uma definição de seu pupilo: “Eduardo é um garoto muito bom. É um exemplo de dedicação de como superar os obstáculos da vida através do esporte.

ANTÔNIO PRADO

Imagine você tendo apenas um braço e ter que jogar tênis de mesa de alto nível. Na hora do saque, como o faria? Agora imagine você, também sem um braço, e ter que participar de uma prova cross-country no ciclismo. Como faria para subir um morro íngreme usando apenas uma das mãos justamente no momento em que o atleta precisa de mais força? Pois bem, agora imagine você tendo paralisia cerebral, numa cadeira de rodas, sem mobilidade nas pernas e nos braços, sendo a sua cabeça a única parte do corpo com mobilidade, e jogar bocha. Como faria para arremessar a bolinha? Para quem ler esta reportagem a hipótese de uma solução para estes desafios pode estar associada a algo impossível. Mas para Bruna, sem o braço direito; Eduardo, sem o esquerdo e Fernando, paralítico dos braços e das pernas, o impossível é algo inverossímil. Bruna é mesatenista da Seleção Brasileira. Eduardo representou Rio do Sul no ciclismo dos Joguinhos Abertos de Santa Catarina em Agosto, em Criciúma, Fernando é vice-campeão brasileiro, titulo conquistado ano passado. Três atletas deficientes. Três histórias “com pé e com cabeça”, ou melhor, três exemplos de superação por meio do esporte que mostram que três catarinenses podem até não ter pé ou braço, mas têm cabeça e principalmente talento de campeão.

ANTÔNIO MALVADA

Antonio Prado

LUCAS COLOMBO

Sem pé, sem braço, mas cabeça de campeão


6_e_7