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São José, maio de 2011

Esportes

Basquete em cadeira de r das

Com o projeto OMDA deficientes mostram que podem dar a volta por cima contra o preconceito da sociedade Fabiano Peres

Equipe da OMDA

B

asquete é um jogo de bola disputado com a mão por duas equipes de cinco jogadores que procuram passá-la por cestas fixadas nos extremos do campo. Agora, imagine este esporte sendo praticado por deficientes físicos. Não pense você que jogo é calmo e parado. Dentro da quadra os choques entre os jogadores são maiores no que basquete tradicional. O barulho das cadeiras batendo umas nas outras é constante, e não se espante se alguém capotar dentro da quadra. A velocidade é tanta que até um jogo de tênis. É um contra-ataque atrás do outro. Em 2006, o técnico Tiago Costa Baptista teve a iniciativa de montar uma equipe de jogadores de basquete em cadeiras de rodas. No dia 2 de maio do mesmo ano começaram os treinamentos. O basquete sobre rodas foi o primeiro esporte do Núcleo Paradesportivo da Organização para o Movimento e o Desporto Adaptado (OMDA), hoje o basquete é considerada a principal modalidade esportiva desenvolvida pela instituição. A OMDA tem como finalidade facilitar o processo de inclusão das pessoas com deficiência física, mental, visual ou auditiva através da prática de atividades físico-esportivas agregadas a programas de saúde integral, educação, capacitação e conscientização ambiental. O técnico, Baptista, relata que “ao longo de todos estes anos muitas dificuldades foram enfrentadas, mas mantivemos a paciência e a persistência”. Hoje, a equipe conta com 12 atletas, dos quais nove aprenderam a modalidade dentro do ginásio do núcleo da OMDA. – O mais difícil foi achar as pessoas para montar o time. Eu perguntava: onde estão estas pessoas? Teve caso que tive que tirar o cadeirante da cama e mostrar a ele que tinha saída – comenta o técnico. Atualmente, o projeto OMDA conta com 45 patrocinadores que ajudam com pequenas verbas. Com quatro anos de existência, o grupo é Campeão Cata-

rinense de Basquete de Cadeira de Rodas, Campeão do Torneio Início duas vezes e Campeão da Copa Leme, realizada no Rio Grande do Sul. - A nossa meta este ano é estar no Campeonato Brasileiro, estamos treinando para isso – diz Baptista. A OMDA conta com o apoio da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). A universidade cede o espaço e profissionais para a qualificação dos atletas. Além do basquete, no campus é possível realizar bocha, natação e rúgbi. As inscrições são gratuitas. Além dos treinos físicos, técnicos e táticos, os esportistas do basquete sobre rodas realizam avaliações físicas periódicas; têm reforço com musculação; acompanhamento de fisioterapia, massoterapia, nutrição e psicologia; recebem transporte para todas as atividades e auxílio financeiro para se dedicar aos treinamentos. No dia 10 setembro, o atleta Aldo Giacomo Berardinelli Neto, 28 anos, natural de Florianópolis, desde 2006 no projeto OMDA, foi pré-convocado pela Confederação Brasileira de Basquetebol em Cadeira de rodas (CBBC), para compor a Seleção Brasileira no Campeonato Sul Americano na Venezuela. – Quando recebi o telefonema nem acreditei, era meu so-

As pessoas olhavam com pena e me taxavam de coitadinho Marcos Antônio da Silva Jogador Cadeirante da OMDA

nho ser chamado pela seleção – disse Aldo. A CBBC convocou 15 atletas de todo o país para duas etapas de treinamento da Seleção Brasileira, 12 irão compor a delegação que viajará para o campeonato Sul Americano em novembro. Dos 15 atletas, 11 são de São Paulo, dois de Pernambuco, um do Pará e um de Santa Catarina. Giacomo foi o único atleta de toda a região sul convocado para o treinamento da seleção. Além de Giacomo, o projeto OMDA tem dois jogadores na seleção brasileira de rúgbi em cadeira de rodas. Rafael Hoffmann e José Raul. Pensando nas pessoas que não poderiam praticar o basquete em cadeira de rodas, rúgbi ou natação, a OMDA criou em agosto de 2006 a modalidade de bocha paraolímpica. O núcleo tem como maior

objetivo atender as pessoas com deficiências mais severas. Hoje são quatro pessoas com paralisia cerebral praticando o esporte. Em 2007, um novo sonho foi realizado com a conclusão das obras do complexo aquático da Unisul. UMA NOVA CHANCE Aos seis anos de idade a vida trouxe uma surpresa para Marcos Antônio da Silva. O menino gordinho, com dentes tortos e sapeca teve paralisia infantil, conhecida como poliomielite. Junto com a nova chance de viver, Antônio trouxe um objeto que levaria para o resto da sua vida: a cadeira de rodas. Ele ficou paraplégico e seus sonhos foram enterrados no hospital. Aquele menino que entrou na unidade de saúde cheio de sonhos e fantasias, agora saía em cima de duas rodas, empurrado pela mãe Marilda da Silva e sem sonhos. No começo, Antonio brincava com a cadeira de rodas dentro e fora de casa. Seus amigos de infância não o abandonaram, pelo contrário, ficaram ainda mais juntos. Eles levavam Antônio para todos os lugares. Esse companheirismo fez com que o menino, agora magrinho, voltasse a sonhar. O período mais difícil para Antônio foi durante a escola.

– As pessoas olhavam com pena e me taxavam de coitadinho. Isso me dava mais força para vencer as barreiras e os desafios – afirma o paraplégico. A cada ano, Antônio superava seus obstáculos. O “coitadinho” virou pai de família e exemplo de superação. Casado há três anos com Silvana da Silva, o cadeirante realizou o sonho de ser pai. Hoje, o filho, com um ano, é a joia preciosa de Antônio. – Meu filho é uma benção de Deus. Posso dizer que foi um presente por tudo que passei na vida – relata o pai coruja. Hoje, com 35 anos, Antônio trabalha na empresa de Telecomunicação, que presta serviços à empresa da OI, e é jogador de basquete de cadeira de rodas da OMDA. Cinco vezes por semana ele treina no ginásio da UNISUL. São quatro anos no basquete em cadeira de rodas. – Não tem moleza, os treinos são puxados mesmo. Estamos aqui para vencer, prova disso foi a convocação do nosso amigo Aldo – disse o ala do time. Quando a OMDA encerrou com vitória a fase de classificação do estadual de basquete, Antônio estava lá, suando a camisa, pelo seu time em quadra. A equipe segue com fome de vitória. Rumo ao título do Estadual de Basquete.

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UMA NOVA CHANCE Equipe da OMDA Marcos Antônio da Silva objetivo atender as pessoas com deficiências mais severas. Hoje são quatro pessoas co...

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