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São José, maio de 2011

FOTOS ALEXANDRE SOUZA

Na vigia, Heitor Ponciano, pescador há mais de 45 anos, é o responsável por avistar o cardume

Fellipe Rocha Sampaio e Luiz Philipp

Cultura açoriana

Pescadores de olho na mancha avermelhada A tradicional pesca da tainha ocorre todos os invernos de forma artesanal e dura apenas algumas semanas Alexandre Souza

C

om a chegada do frio inicia a temporada da tainha 2011 no Estado. Em Florianópolis, esta data é geralmente de 15 de maio a 15 de julho. Os cardumes migram da Lagoa dos Patos (no Rio Grande do Sul) procurando águas mais quentes para desovar. Por se tratar de um peixe de época não é comum a captura durante o ano todo, isso faz com que a pesca se torne muito esperada pelos pescadores e consumidores. Esta atividade é cultural, os pescadores capturam o peixe de forma artesanal em várias praias da Capital. No bairro Ingleses, Norte da Ilha, existem mais de 150 pescadores espalhados em vários pontos da praia. Eles ficam de prontidão, aguardando qualquer movimento dentro do mar para colocar o barco na água e jogar as redes. Os pescadores são um show a parte

A polêmica tradição da Farra do Boi

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Pescadores deixam as canoas sempre preparadas para a captura quando o cardume aparece. Ficam agitados e falam sem parar. Na hora da divisão dos peixes, a alegria e o estresse tomam conta de muitos. Em algumas praias é proibida a prática do surf ou qualquer outro tipo de esporte aquático durante a pesca. “Na verdade, a rapaziada busca outros picos para

surfar, nós entendemos que esse é o ganha pão deles”, conclui o surfista Renato Lourenço, 23 anos. VIGILÂNCIA E CAPTURA Na praia, os pescadores advertem aqueles que tentam burlar essa norma. “Esperamos

durante o ano todo por este momento e não aceitamos que nos atrapalhem”, relatam alguns pescadores. Enquanto isso, Heitor Ponciano, 62 anos, pescador há mais de 45, afirma: “Alguns ficam nos ranchos esperando as tainhas pularem na água, aí apitamos e gritamos para que cerquem o cardume que aparece como uma mancha avermelhada na água”. Responsável por subir no costão da praia para observar a chegada do cardume e informar aos demais pescadores, Ponciano é conhecido dentre os demais como “vigia”. As redes que são utilizadas tem em média 400 braças, aproximadamente 600 metros. De acordo com os pescadores, com este tamanho é possível retirar em um só lance mais de 125 mil tainhas. Depois de fisgados os peixes seguem frescos para bares da orla e mercados como o Mercado Público.

A Farra do Boi é considerada por muitos uma herança cultural. Vinda dos Açores, ocorre principalmente durante a Quaresma. Apesar da prática ser considerada crime, cuja pena pode variar de três meses a um ano de reclusão, continua sendo uma “festa” constante na região da Grande Florianópolis. Nas localidades de Palmas, Fazenda da Armação e Ganchos, no município de Governador Celso Ramos, a Farra do Boi é motivo de celebração. Reunindo crianças, jovens e adultos, o evento vira um motivo para vizinhos e amigos da região se encontrarem Mas, o que era para ser diversão acaba se tornando algo perigoso para o animal, para os farristas e para os que estão acompanhando. Muitas vezes os moradores acabam tendo suas casas invadidas pelos animais e participantes, o que pode causar danos ao imóvel e acidentes graves. VIZINHOS DIVIDIDOS O excesso de violência contra os bichos diverge opiniões entre os moradores. Alguns defendem a ideia de que a Farra do Boi deve continuar, mas de forma ordenada, dentro de mangueirões e com tempo pré-determinado para que o animal não se canse ou seja maltratado. Já outros, após terem suas residências invadidas durante a farra, optaram por colocar seus imóveis a venda, posicionando-se totalmente contra esta manifestação. A estudante Alanna Kern é contra a farra e acha que os farristas poderiam arrumar outra maneira de se divertir. “Acho isso um horror e a lei deveria ser mais rigorosa, todos os envolvidos deveriam ser presos”. Por outro lado, Jucinei Ocker, morador da região de Governador Celso Ramos, local de encontro tradicional dos farristas, é favorável à manifestação. “É uma tradição que já vem desde os nossos antepassados. O povo daqui vê com muita alegria, porque a gente foi criado com isso, desde pequeno. se alguém agredir o boi com uma pedrada ou um pedaço de pau, vai ser linchado pela comunidade”, declara Jucinei.


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