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Co:::unicação jornal laboratório do curso de jornalismo da ufpr edição 01 | abril de 2009

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Curitiba: cidade viciada

UFPR

POLÍTICA

Projeto de lei em trâmite no Senado pode tornar acúmulo de vagas em universidades públicas ilegal

Câmara Municipal renova 47% dos seus quadros, mas oposição se vê reduzida a apenas cinco vereadores

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opinião

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teatro

Em meio à recessão econômica, o Brasil prepara o terreno para as próximas eleições na Câmara, no Senado e na Presidência, em 2010. No âmbito municipal, neste ano houve a posse de novos prefeitos e vereadores. Em Curitiba, a situação caracterizou-se mais como continuísta que inovadora, visto que o prefeito Beto Richa foi reeleito com 77% dos votos válidos e apenas 47% da Câmara foi renovada. Mesmo assim, são 18 os novos legisladores que se deparam com uma Curitiba em movimento, em crescimento e repleta de problemas. A ideia recorrente que perpassa as conversas dos curitibanos é que a cidade nunca foi tão violenta. Os dados não as desmentem: o número de mortes por armas e agressão em Curitiba e região metropolitana cresceu 30% nos dois primeiros meses de 2009, em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo dados do Instituto Médico Legal, foram 336 mortes violentas de 1º de janeiro a 28 de fevereiro, o que computa, em média, 5,6 mortes por dia. Uma pesquisa da Delegacia de Homicídios mostra que 80% dos assassinatos da cidade estão diretamente ligados ao crime organizado e ao tráfico de drogas. As estatísticas apenas demonstram em números o que os moradores sentem diariamente. Parece cada vez mais difícil retroceder na escalada da violência. Curitiba está definitivamente inserida na rota internacional do tráfico, seja como corredor de passagem ou mercado consumidor potencial. Enquanto o crescimento do uso de drogas como crack e cocaína torna-se perceptível aos olhos dos moradores, os dados sobre números de usuários e traficantes na cidade são imprecisos e ninguém sabe (ou quer) informar à população sobre a quantidade de droga que circula e é apreendida no município. As informações sobre o assunto são escassas e as notícias e matérias jornalísticas que esclarecem a população sobre essas questões são raras. ‘Sociedade’, a nova editoria do Comunicação, foi criada com um objetivo principal: suprir a necessidade, pelo menos neste veículo, por informação sobre questões sociais e problemas importantes para a população como a desigualdade social, a violência e a segurança pública, o preconceito, a corrupção e a falta de voz da sociedade. E ela começa o ano forte, abordando justamente o problema das drogas em Curitiba. Além disso, a proposta do jornal para este ano é um maior aprofundamento de temas. A ideia é aproveitar mais o espaço ao buscar desmembramentos e esclarecimentos dos fatos. Por esse motivo, a editoria ‘Comportamento’ voltará sua atenção para temas mais socialmente relevantes. Nessa edição, uma matéria sobre tratamento de usuários de drogas faz um contraponto com ‘Sociedade’ mostrando que, seja por meio da religião, da família ou da terapia, o caminho das drogas pode ter sim diversas saídas. No âmbito da política, será possível que nossos representantes da Câmara dos Vereadores, sejam eles novos ou reeleitos, da situação ou da oposição, possam juntar esforços e fazer com que as instâncias superiores também encontrem possíveis saídas para diminuir o tráfico de drogas na cidade? Para nós do Comunicação, 2009 é mais um ano de mudanças. O novo formato do jornal, denominado Berliner, é uma grande tendência no jornalismo mundial. A nossa diagramação também mudou para facilitar a leitura, sem mexer no tamanho de nossos textos. Neste ano, nosso projeto editorial, que aborda assuntos relevantes para a comunidade acadêmica da UFPR, completa dois anos de sucesso. E esperamos continuar crescendo, formando jornalistas, em conjunto com nosso website e nossos canais de TV e rádio, mostrando que o jornalismo universitário pode ser feito com profissionalismo e responsabilidade.

expediente O Comunicação é uma publicação do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná, com a participação de alunos das disciplinas de Laboratório de Jornalismo Impresso e Laboratório Avançado de Jornalismo Impresso. Professor Orientador: Toni Andre Scharlau Vieira. (jornalista responsável – RP/MT 6680 - RS). Editor Chefe: Fábio Pupo. Secretaria de Redação (impresso): Chico Marés e Manuela Salazar. Secretária de Redação (on-line): Iasa Monique. Subsecretárias: Juliane Massaoka, Lina Hamdar e Luciana Galastri. Webmaster: Tiago Capdeville. Chefe de Reportagem: Mário Messagi Jr. Editores: Ciência e Tecnologia: Guilherme de Souza. Comportamento: Rodrigo Batista. Cultura: Rafael Rodrigues e Ilana Stivel-

berg. Esportes: Gabriela Bastos. Política: Cícero Bittencourt e Luciane Belin. Sociedade: Juliana Vitulski e Henrique Kugler. ufpr: Lilian Wiczneski, Nayara Brante e Sharon Abdalla. Fotografia: Julia Guedes. Arte: Renata Bossle. Capa: Renata Bossle. Foto: Marcello Casal Jr./ABr. Charge: Yuri Alhanati. Infograficos: Tiago Pizzolo Projeto Gráfico: Juliana Karpinski. Diagramação:Juliana Karpinski. Endereço: Rua Bom Jesus, 650 – Juvevê – Curitiba-PR. Telefone: (41) 3313-2017. E- m a i l :jornalcomunicacao@ ufpr.br S ite :www.jornalcomunicacao. ufpr.br Tiragem: 4 mil exemplares. Impressão: Gráfica O Estado do Paraná.

Crítica teatral de província Para Joanita Ramos, despreparo de jornalistas impede crítica de qualidade Durante o Festival de Curitiba, que ocorreu de 17 a 29 de março, o aumento do número de críticas de teatro nos jornais da cidade foi evidente. Com a responsabilidade pontual de fazer a cobertura da maior mostra cênica do Brasil, as seções culturais precisaram recorrer a colaboradores de fora das redações, como foi o caso do diretor e ator Fernando Klug no Jornal do Estado. A demanda do festival, entretanto, sinalizou uma estrutura frágil de crítica teatral que permanece durante todo o ano na imprensa curitibana, como afirma a educadora, atriz, jornalista e escritora Joanita Ramos. “Até onde sei, nem podemos falar — a não ser com muita boa vontade — em ‘jornalista especializado’ em teatro nos veículos de comunicação locais”, diz. Joanita considera que formar e manter um profissional qualificado pode custar caro para os donos de jornais. “A relação custo versus lucro não compensa”, opina, ao apontar as condições precárias de trabalho nas editorias de cultura. Em entrevista ao Comunicação, Joanita discute a produtividade na relação entre artistas e jornalistas e critica o que chama de “complexo de província” do jornalismo local. Quem são os jornalistas responsáveis pela cobertura cultural em Curitiba? Joanita: Frequentemente a responsabilidade da cobertura de Cultura é dada a profissionais recém-formados, sob a alegação de que têm ‘mais gás’. Mas sabemos que só ‘gás’ não é suficiente para analisar criticamente uma obra de arte. Eu já ouvi desabafos de jovens jornalistas assustadíssimos com a tarefa de comentar criticamente um espetáculo — e com razão, porque fazer crítica de teatro, ou de qualquer arte, é tarefa complexa. É preciso uma trajetória de vivência e estudos na área, um tempo de preparação. Para pagar por isso, pela lógica empresarial local, os suplementos culturais precisariam estar entupidos de anúncios, o que eu nunca vi. Como os artistas se relacionam com essa crítica? Joanita: A verdade é que não temos — e isso inclui o tempo em que eu escrevia sobre teatro — um espaço na imprensa local, digno de ser chamado de ‘crítica de teatro’, com constância e consistência. Falamos em crítica porque somos generosos conosco, mas com rigor não podemos falar da relação entre artistas de teatro e ‘críticos’. Apenas entre artistas e jornalistas a quem eventualmente se atribui o papel de opinar sobre teatro. O conflito entre teatro e jornalismo locais deveria começar por aí: pela ausência da figura do crítico. Na ausência do crítico, os conflitos aumentam ou diminuem? Joanita: Os conflitos existentes

na relação entre jornalistas e artistas parecem estar marcados por uma ingenuidade que acaba tornando essa ‘briga’ improdutiva. Vou ilustrar: um editor coloca um repórter novato, que está ‘cheio de gás’, custa relativamente pouco para a empresa e não questiona as ordens para cobrir teatro. Mas esse jovem não tem vivência de teatro, nem formação na área. E o editor acha ingenuamente, sobretudo por não entender de teatro, que o leitor não vai notar isso. É um equívoco terrível. Nesses casos, geralmente, o repórter e a editoria viram chacota dos artistas pelas bobagens publicadas. Ou o repórter vira alvo de reações malcriadas de alguns artistas e o editor fica achando o máximo porque gerou ‘polêmica’. Mas de que adianta julgar alguém que não teve a oportunidade de aprender o que está fazendo? Qual seria o exemplo de um conflito produtivo? Joanita: Numa ocasião, critiquei o trabalho de uma nova diretora e formou-se uma ‘corrente’ na Internet com pessoas da Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Esse foi um conflito bem saudável que acabou resultando em um papo meu com os alunos da FAP e uma aproximação com alguns professores daquela instituição. O conflito acabou assim: a criticada admitindo que não tinha ‘chegado lá’ na dramaturgia do espetáculo, mas expressando sua mágoa por eu ter dito que não houve ‘preocupação’ com dramaturgia. E ela tinha toda razão: não é correto que, ao criticarmos um espetáculo, julguemos as intenções, mas sim o resultado. Estou contando tudo isso para mostrar como a discussão crítica de um espetáculo pode ajudar a construir aprendizados ao invés de ficar apenas no plano da polêmica e do exibicionismo, da guerra de egos — uma armadilha em que caem facilmente críticos, editores e artistas.

Fora dos períodos de festival, a imprensa se interessa pela produção teatral da cidade? Joanita: Eu diria que fora do Festival de Curitiba, as chances das produções locais conseguirem atenção da imprensa são maiores, porque embora o espaço seja menor, a concorrência também é imensamente menor. É claro que, dentro ou fora do Festival, há uma tendência de destaque para as produções que têm atores das emissoras às quais os veículos de comunicação estão vinculados, sejam ou não bons espetáculos. Aí vai lá o repórter de cultura, às vezes chamado de ‘crítico’, entrevistar, quase sempre a contragosto, ou então encantado, dependendo do seu grau de experiência e senso crítico, um ator fraco e famoso, a pedido do editor, para ‘encher a bola’ de uma montagem péssima das celebridades nacionais. A produção de cultura local acaba ficando em segundo plano? Joanita: No jornalismo cultural local é assim. Para se ter uma idéia, a primeira matéria com o Cristóvão Tezza foi publicada — pasme — para o Jornal dos Bancários. Sei, porque eu fui a autora. A ‘grande imprensa’ só deu bola pra ele depois que o rapaz virou destaque na imprensa nacional. O mesmo aconteceu com Valêncio Xavier. No teatro, não é muito diferente. Acho que é o tal do ‘complexo de província’. O mais feio disso é quando um editor pauta o repórter da província para perguntar aos jornalistas da Folha de S. Paulo ou do Estado de S. Paulo opiniões sobre o espetáculo. Na minha opinião, ao fazer isso o editor local está radicalizando o complexo de província e dizendo ao repórter do veículo concorrente: “nosso jornalzinho não tem condições de avaliar os espetáculos do Festival, então pedimos que você, que é pago por um ‘grande jornal’, nos diga o que é bom ou ruim, nos dê uma mãozinha”. Não fosse assim, os editores da Folha e do Estadão também entrevistariam os jornalistas locais, colhendo opiniões sobre os espetáculos. Rafael Antunes Yuri Alhanati

Mudanças


ufpr

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Vagas

Restrição ao acúmulo de vagas é provável A medida tomada pela UFPR para evitar o acúmulo de vagas em universidades públicas, no início do ano, pode ser estendido a todo Brasil. O projeto de lei nº. 6630/2006, que impede que uma mesma pessoa ocupe duas vagas em instituições públicas de ensino superior, teve sua redação final e emenda de redação aprovadas por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. De autoria do deputado Maurício Rands (PT-PE), o projeto aguarda aprovação do Senado e, posteriormente, sanção presidencial. A expectativa, no entanto, é de que a medida entre em vigor já nos vestibulares do final do ano. Dentro da UFPR, o debate começou em dezembro do ano passado, com a aprovação da resolução interna nº. 73/08, que proíbe a duplicidade de registro acadêmico. A princípio, a medida deveria entrar em vigor em 2009, o que pegou de surpresa os candidatos do Vestibular 2008/2009, já que a decisão não estava prevista no edital do processo seletivo, publicado em junho. Dessa forma, o reitor Zaki Akel Sobrinho alterou um artigo da resolução, adiando a vigência da medida para 2010. No entanto, mesmo com a alteração, diversos alunos desistiram de tentar o vestibular na UFPR ou em outras instituições públicas por medo de ter seu registro cassado.

O ideal seria investir dinheiro em educação com qualidade, aumentar o número de professores e disponibilizar mais vagas em universidades públicas” Alana Albinatti aluna de artes cênicas da fap

A aluna de artes cênicas da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) Alana Albinatti desistiu de tentar biologia na UFPR por causa da resolução. “Eu queria muito fazer os dois cursos, mas agora eu vou tentar uma bolsa em uma faculdade particular”, diz. Para ela, a medida é uma forma errada de ampliar o acesso ao ensino superior. “O ideal seria investir dinheiro em educação com qualidade, aumentar o número de professores e disponibilizar mais vagas em universidades públicas”, afirma. “Usar de uma proibição é muito fácil”.

Samantha Costa

Já está no Senado o projeto de lei que impede que aluno ocupe duas vagas no ensino público

UFPR tentou implantar a medida em 2009, mas voltou atrás devido a pressões externas

Data incerta Segundo a pró-reitora de Graduação da UFPR, Maria Amélia Sabbag Zainko, não é certo que a resolução comece a valer em 2010, devido ao estacionamento do Projeto de Lei no Senado. “Essa questão deve voltar a ser discutida dentro do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFPR (Cepe) e a decisão será divulgada antes do edital do vestibular”, afirma. Enquanto isso não ocorre, o que vale legalmente é a aplicação da resolução no próximo ano – de acordo com a Secretaria dos Órgãos Colegiados, não há nenhum documento que suspenda a resolução. A posição defendida pelo Cepe foi de que não parecia justo, perante a sociedade, que um aluno ocupasse duas vagas mantidas pelo dinheiro público. Para o professor Nelson Luís da Costa Dias, representante do Setor de Tecnologia no Cepe, a resolução é legítima. “Apesar de saber que o candidato foi aprovado em duas faculdades públicas por merecimento, não deixa de ser um privilégio ocupar os dois lugares”, comenta. No Brasil, somente 12% dos jovens de 18 a 24 anos estão nas universidades . “Existe uma oferta muito pequena de vagas públicas e é preciso trabalhar para que elas atendam uma demanda maior de alunos”, declara o professor. A resolução, portanto, é uma tentativa de aproveitar melhor o dinheiro público. “O recurso sendo mais bem distribuído permite que mais pessoas tenham direito a uma formação superior”, argumenta Lígia Negri, professora representante do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes no Cepe. Para ela, tanto o Projeto de Lei quanto a resolução interna da UFPR são

um esforço para manter a universidade pública, gratuita e de qualidade, evitando as privatizações. Segundo o professor Dias, essa decisão é um grande passo na educação do Estado, mas deve vir acompanhada de outras medidas. “Mesmo que mais alunos entrem na universidade, se eles não tiveram uma educação básica de qualidade, não irão aproveitar o curso da melhor forma e, futuramente, serão prejudicados no mercado de trabalho”, diz. Daniel Ikenaga, representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) no Cepe, acredita que a resolução em si oferece algumas falhas, mas é um dos caminhos para a universalização da educação. Para ele, garantir que mais pessoas tenham acesso ao ensino públi-

co coloca a UFPR à frente das universidades que ainda não utilizam esse sistema. “É preciso que outras universidades federais e estaduais tomem a mesma posição”, declara. Os alunos que já fazem dois cursos em universidades públicas não serão prejudicados. Segundo a professora Lígia, aqueles que entrarem numa universidade com o regimento em vigor também não devem se sentir em desvantagem. “A medida não impede que o aluno seja formado em dois cursos superiores, ele só não pode fazê-los simultaneamente”, informa. Ela afirma que a sociedade deverá se adaptar à nova disposição da Universidade e que os alunos devem pensar que estão contribuindo para que outras pessoas tenham acesso à educação gratuita.

Estudantes insatisfeitos Apesar disso, muitos alunos estão se mostrando insatisfeitos com a nova resolução. Apesar de não ser prejudicado pela medida, o estudante Bruno Lemos, que faz engenharia química na UFPR e processos ambientais na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), não concorda com a resolução. “Para mim, se o aluno teve capacidade de passar em dois vestibulares, ele tem o direito de fazer dois cursos”, opina. “Eu faço a minha vaga valer a pena. O meu rendimento não cai por eu fazer dois cursos e mais tarde vou ser um profissional mais completo”. Roberta Gregório, que cursa nutrição na UFPR, quase desistiu de sua vaga em processos ambietais na UTFPR quando foi divulgado que a resolução entraria em vigor em 2009. Ela conta que ficou desesperada na época. “Eu tinha passado o ano inteiro estudando para ingressar nos dois cursos”, lembra. “Enquanto aguardava o resultado, descobri que não poderia me matricular nas duas universidades”. No entanto, nem todos os estudantes que fazem dois cursos simultaneamente discordam da resolução. Fernanda Vogler, aluna de terapia ocupacional na UFPR e de artes visuais na FAP, acredita que as pessoas que fazem dois cursos não conseguem se dedicar inteiramente a nenhum deles e acabam tendo uma formação superficial. “Fiquei indecisa na época das matrículas, mas agora penso em desistir de artes visuais”, conta. “É hipocrisia de minha parte ocupar duas vagas, sendo que outra pessoa poderia estar aproveitando muito melhor do que eu”. Dalane Santos

UTFPR aguarda posicionamento nacional Enquanto o Projeto de Lei do deputado Maurício Rands (PT-PE), que proíbe um mesmo aluno de ocupar duas vagas em instituições públicas simultaneamente, tramita em caráter conclusivo, algumas instituições preferem não se manifestar. A pró-reitora adjunta de Graduação e Educação Profissional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Simone Massolini Acosta, explica que o aluno que for aprovado e encontrar algum problema deverá ser amparado pela procuradoria jurídica da UTFPR. “Nós respeitamos a decisão de outras universidades

mas, por enquanto, não temos uma resolução que impeça o aluno de fazer dois cursos ao mesmo tempo”, informa. A UTFPR aguarda um posicionamento nacional para iniciar a discussão. “O nosso regimento não mudou, mas a ideia de ampliar o direito a vaga pública é interessante e deve ser levada em frente”, afirma. A Universidade de São Paulo (USP) é um exemplo de instituição que já prevê a proibição ao registro acadêmico em mais de uma universidade pública. Para que uma checagem possa ser feita, a USP pede uma listagem de alunos às outras universidades,

por meio de correspondência. No Paraná, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) também proíbe a matrícula em outras instituições públicas. Segundo a pró-reitora Maria Amélia Sabbag Zainko, a UFPR já possui ferramentas para detectar a duplicidade acadêmica. A tendência é que seja criado um banco de dados nacional, mas existe também a possibilidade do aluno, no dia do registro acadêmico, assinar um termo declarando não estar matriculado em outra universidade pública. Dalane Santos


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comportamento

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DROGAS

Apoio da família e fé: autênticas heroínas Adaptar-se à ausência de drogas não é tarefa fácil para aqueles que costumavam usá-las diariamente. Casos de fuga são frequentes e as desculpas para sair do local de internamento são várias. Dentre elas estão a saudade da família e a necessidade de contato com algum amigo. Por esses motivos, os locais que servem de abrigo a dependentes químicos investem cada vez mais em programas que envolvam participação familiar. Isso evita a quebra de vínculos sociais e diminui a lista de motivos possíveis para a renúncia ao tratamento. O psicólogo Alceu Schultz Júnior, especialista no tratamento de usuários de drogas, acredita que o amparo familiar é o fator que mais garante a continuidade e eficácia do processo de desintoxicação. “Aqueles que são beneficiados pelo apoio da família têm maior tendência a levar o tratamento adiante, sobretudo porque eles sabem para onde ir quando saírem daqui”, explica. Segundo o sociólogo Lindomar Boneti, o ser humano é, em sua natureza, um ser social, e a ausência de vínculos interpessoais provoca graves consequências afetivas, de trabalho e produtivas. “Não é à toa, portanto, que dependentes químicos que possuem apoio da família tendem a se recuperar mais rápido em relação àqueles desprovidos deste benefício”, diz. Um caso que ilustra a opinião do psicólogo é o de Anderson Godoi Teresio. Ex-interno da casa de recuperação Copiosa Redenção, em Ponta Grossa, ele conta que sempre obteve apoio familiar e que isso foi imprescindível à sua recuperação. Porém, o ex-dependente afirma que a mesma família que pode auxiliar no tratamento também pode ser culpada pela iniciação às drogas. “A desestruturação familiar é a base da drogadição”.

Apego à fé Entretanto, segundo Boneti, a manutenção do envolvimento familiar não é a única maneira de o indivíduo constituir identidade social para que, dessa forma, se sinta inserido no círculo das relações humanas. A religião é considerada por muitos ex-usuários de drogas a grande responsável pelo sucesso do tratamento, pois, com ela, não se sentem sozinhos. Isso pode explicar o porquê de grande parte dos dependentes químicos em recuperação possuírem maior afinco às atividades religiosas. “O apego à religião também é uma estratégia para se inserir, criar vínculos e identidade perante os outros”, afirma Boneti. Além de incentivar a presença da família durante o processo de desintoxicação do dependente químico, os tratamentos em sua maioria abrangem atividades que priorizam o

Bárbara Antunes

Tratamento de dependentes químicos busca alternativas no cotidiano dos pacientes

Incentivo e participação da família podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso em um tratamento de reabilitação

apego à fé e à religião. A junção destes dois fatores é considerada como a maior responsável pelos casos bem sucedidos. Os especialistas no assunto creem que a ligação dos ex-usuários às diversas religiões é uma forma de suprir o vazio que antes era preenchido pelo uso das

Considero importante a fé, mas sozinha ela não é nada. Tem que tratar o psicológico, o emocional e o espiritual. É um tripé” Anderson Godoi Teresio ex-usuário de drogas

substâncias químicas – o que seria, para muitos, uma maneira de substituir a dependência química pela religiosa. Renato Cunha, residente da Casa de Recuperação Nova Vida, atribui sua recaída em janeiro deste ano à ausência em um culto. “Uma semana deixei de comparecer ao culto e na semana seguinte recaí. Foi o Espírito Santo que saiu de dentro de mim”, afirma. Afastado do objeto de seu vício, Renato declara se sentir muito melhor na comunidade em que hoje se encontra. “Na rua eu recaía devido a mulheres e orgias. A droga estava

interligada a tudo isso”. Cunha está internado pela quarta vez nos últimos dois anos. “A primeira vez foram meus pais que incentivaram. Mas hoje estou aqui por mim mesmo”, afirma, dando relevância à presença da família no tratamento. Apesar de ser usuário, não sofria preconceito de familiares e amigos, e tampouco sua vida foi dificultosa em relação à carreira profissional. Cunha é microempresário há 11 anos e hoje está prestes a terminar a faculdade de educação física. Anderson Godoi também apostou na fé para sua recuperação. Dizendo-se bastante reprimido durante a infância, o rapaz assume que procurou, através de entorpecentes, a conquista de maior liberdade. Essa busca, entretanto, resultou no abandono dos estudos aos 13 anos e na perda de uma namorada, aos 16. A fim de reconquistá-la, buscou o internamento pela primeira vez em uma comunidade católica onde teve contato religioso. “A fé é o agente animador, que estimula a minha vontade de estar livre das drogas”. Apesar de salientar a importância da fé em seu tratamento, ele afirma que é necessário um conjunto de fatores para a eficiência do tratamento. “Considero importante a fé, mas sozinha ela não é nada. Tem que tratar o psicológico, o emocional e o espiritual. É um tripé”, afirma. Anderson atribui à ausência de tratamento emocional o motivo de sua primeira recaída. Para ele, existe a tendência de se priorizar o trabalho psicoterapêutico nas clínicas de reabilitação.

Recuperado há dois anos e meio, Anderson voltou a estudar, concluiu o ensino médio e agora planeja fazer uma faculdade. Entre as alternativas, cogita jornalismo. “Quem sabe não nos encontramos em uma redação de jornal futuramente?”

Aqueles que são beneficiados pelo apoio da família têm maior tendência a levar o tratamento adiante, sobretudo porque eles sabem para onde ir quando saírem daqui” Alceu Schultz Júnior psicólogo

Isolamento? Que nada! Com a diminuição do preconceito e a decorrente diversidade de atividades e tratamentos das clínicas atuais, a imagem de um local afastado e parecido com um presídio para abrigar dependentes químicos é cada vez mais coisa do passado. Ao apostar na interatividade entre os internos e no frequente contato com família e amigos, as comunidades terapêuticas pouco a pouco ofe- recem alternativas mais amplas

para a re-inclusão social. Segundo a assistente social Silvia Regina Libonati, é necessário abandonar a falsa ideia de que os usuários de drogas, após submissão a um tratamento mais intenso, se tornam isolados sociais. “Eles não estão isolados, e sim, fora do problema”, explica. O internamento, conforme Libonati, é importante porque junto da família eles não percebem que são dependentes químicos. É por isso que clínicas de reabilitação para dependentes químicos são hoje locais de entretenimento e lazer aos internos, que, em vez de ficarem segregados da esfera social, são unificados a ela através de programas que proporcionam contato com familiares e amigos. “É preciso se retirar do antigo meio para resolver a situação, mas os vínculos continuam. O acesso à televisão permanece, e o envolvimento social não é interrompido”, diz Libonati. Caso que testemunha essa procura das comunidades terapêuticas pela otimização dos resultados é o do jovem Pedro*, de 17 anos. Movido pela curiosidade, aos 10 anos teve contato com o crack, principal motivo que o levou ao internamento. Ele afirma ter fugido duas vezes do tratamento a que hoje é submetido há cinco meses. Hoje residente da Casa de Recuperação Nova Vida, ele tem permissão de visitar os parentes nos fins de semana, além de conviver com outros residentes e auxiliar em atividades dentro do próprio local de internação. “Não me sinto excluído. Prefiro minha vida agora”, alegra-se o adolescente. * Nome fictício. Marcela Varasquin


sociedade

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NARCOTRÁFICO

Tráfico e consumo de drogas cresce na capital Curitiba (CIC), a Vila das Torres e o Bairro Alto.

Mudança de perfil Segundo Aracelis Codepê, diretora geral da clínica de recuperação Nova Esperança, o perfil médio dos pacientes, há vinte anos, era do sexo masculino, idade entre 20 e 45 anos, classe social média e alta, e monodependente - viciado em uma única droga, geralmente álcool, maconha ou cocaína. “A partir de 1993 já era possível identificar que o consumo de drogas em Curitiba estava aumentando, e a quantidade de dependentes químicos tornou-se equivalente [em proporção] à de São Paulo”, relata. Foi a partir de 1993 que o crack chegou às periferias de Curitiba, atingindo as classes sociais mais baixas. Desde então, o perfil do dependente químico mudou: passa a ser polidependente (viciado em mais de uma droga), entre 12 a 70 anos, e de ambos os sexos. A clínica Nova Esperança atendeu 439 dependentes de crack em 2007, o dobro do que havia recebido em 2006.

“O crack destrói a pessoa” Apesar de ser mais consumido por jovens de classe baixa, atualmente o crack atinge todas as classes sociais e faixas etárias. “O problema é que o crack destrói a pessoa. Nenhuma outra droga vicia tanto”, declara Luiz*, jovem de classe média, 20 anos, exusuário e ex-traficante de drogas. A psicóloga e coordenadora do Centro Antitóxico de Prevenção e Educação (Cape), Maria Cristina Venâncio, confirma: os casos mais graves de dependência química são os que envolvem o consumo da droga. “O crack hoje atinge todas as classes sociais. Te-

mos casos de chefes de empresas que são viciados”, relata. Luiz conta que usava drogas e, com o tempo passou a traficar para manter o próprio consumo. “Comprava e revendia no meu bairro pelo dobro do preço, ou até mais. A venda do crack é a que mais dá lucro. Cheguei a ganhar R$ 500 num dia, e a gastar tudo num dia também”. A situação vivida por ele é comum em Curitiba. Esses jovens, denominados ‘vapores’, vão buscar as drogas na favela e revendem nos seus bairros. “Não faz diferença a classe social do ‘vapor’, mas para os traficantes é mais seguro negociar com jovens de classe média ou alta, porque em caso de dívidas, eles têm mais possibilidades de arranjar dinheiro”, explica Marcos. Luiz relata que comprava as drogas nas favelas, normalmente no Parolin, CIC e Capanema. “Na verdade, dá para comprar em qualquer lugar em Curitiba, só que na favela é mais barato. Mas é mais perigoso. Tive um amigo que não conseguiu pagar a dívida que fez com o traficante e foi morto com cinco tiros”.

Segurança Pública frágil Marcos considera o tráfico em Curitiba proporcional ao do Rio de Janeiro e São Paulo. “Porém, é mais dissimulado. Há muita conivência do sistema de segurança pública aqui”, afirma. Segundo ele, muitos policiais, tanto civis quanto militares, participam do ‘esquema’ dos traficantes. “Eles cobram uma parte do lucro do traficante para não realizarem as apreensões”, diz. Ele acredita que a falta de instrução, equipamentos, treinamentos, além da baixa remuneração dos policiais favorece o envolvimento deles com o tráfico. “O governo tem que investir na educação e

O crack é responsável por boa parte do trabalho da polícia no Paraná

qualificação desses policiais, se não eles vão continuar na ignorância. A segurança pública, sem um policiamento ostensivo e preventivo, não funciona”, conclui. Para Maria Cristina, a questão vai além do policiamento. “70% da lei 11.343/06, que fala sobre o uso de drogas, está voltada para a prevenção e não para a repressão”, afirma. “Entretanto,

o governo disponibiliza pouco recurso para apoiar ou criar projetos com essa finalidade”. Aracelis complementa: “Não adianta implantarmos medidas de prevenção se a população não for educada. Se não tentarmos desmistificar essa situação, o consumo de drogas só irá aumentar”, finaliza. Letícia França

Curitiba na rota internacional O Paraná vem sendo usado como rota do narcotráfico internacional. O estado faz divisa com o Paraguai, Mato Grosso do Sul, rotas de entrada de drogas, e São Paulo, um grande pólo consumidor. Além disso, possui acesso às principais rodovias federais e tem atividade portuária, o que facilita o tráfico. “O Paraná atualmente funciona como um corredor de drogas. Isso faz dele o estado que mais faz apreensões no país”, destaca o delegado do Denarc Tiago Pizzolo

O tráfico e consumo de drogas estão por trás de um crescimento preocupante da violência em Curitiba. Em 2008, foi computado um aumento de 13% no número de assassinatos na cidade. De acordo com o Instituto Médico Legal, são registrados, em média, quatro homicídios por dia na capital e Região Metropolitana (RMC). Uma pesquisa da Delegacia de Homicídios afirma que cerca de 80% desses casos estão ligados diretamente ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Outros crimes, como furtos e roubos, também têm relação direta com o tráfico, de acordo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná. Portanto, o aumento da violência sinaliza que há também aumento no tráfico e no consumo de drogas ilícitas na cidade. A droga mais apreendida pela polícia no Paraná é o crack. Em 2008 foram apreendidos um milhão e meio de pedras, e até fevereiro deste ano a polícia já interceptou 220 mil. A droga é derivada da cocaína, tem baixo custo, causa forte grau de dependência química. Ela está diretamente relacionada a problemas sociais como prostituição, furtos, roubos e homicídios. “O crack é o lixo, a sobra da cocaína. Ele é negociado não só por dinheiro, mas por qualquer outro bem – pode ser trocado por um tênis, por roupas, ou som de carro, o que faz com que o usuário acabe furtando esses objetos para suprir o vício”, explica o policial militar, atualmente afastado do cargo, Marcos*. Em Curitiba, segundo a Secretaria Antidrogas, o bairro com mais incidências envolvendo o consumo do crack é o Centro. Já as apreensões, segundo dados da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), ocorrem em bairros de classe baixa, como o Parolin, o Cajuru, a Cidade Industrial de

Samantha Costa

Crescimento no consumo reflete diretamente no crescimento da violência

Adriano Chohfi. Para o superintendente da Secretaria Antidrogas de Curitiba Amilton Klain, Curitiba não está, ainda, no ranking de cidades com alto índice de usuários de drogas. “Porém, quase toda droga que é consumida no país entra pelo Paraná”, revela. Grande parte do crack é produzido no Paraguai, e entra pelas cidades de Foz do Iguaçu e Guaíra. O transporte é feito, na maioria das vezes, em veículos pequenos, por via terrestre. A maconha e a cocaína costumam entrar pela divisa com a região Centro-Oeste. Normalmente vêm do próprio Brasil, ou de outros países da América Latina. Segundo Marcos, as drogas vêm também de Santa Catarina, apesar disso ser pouco divulgado. “O policiamento é bem fraco lá”, afirma. Ele explica que a maconha normalmente é distribuída no interior do estado, e chega à capital em carregamentos pequenos. Já com a cocaína e o crack, os traficantes se arriscam mais. “É mais fácil de transportar, porque tem volume menor, e a distribuição é muito rápida”, explica o policial afastado. Em fevereiro desse ano, quase quatro toneladas de cocaína foram apreendidas no porto de Paranaguá. Foi a maior apreensão já realizada no sul do País e a segunda maior da história do Brasil, segundo a Polícia Federal (PF). “Mas isso ainda é pouco perto do que passa pelo estado”, afirma Marcos. * Nomes fictícios Letícia França


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ciência e tecnologia

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ORGÂNICOS

Alimentos orgânicos nas mesas brasileiras Inauguração do Mercado de Orgânicos de Curitiba mostra que a produção só tem para onde crescer

Conversão Antes de se iniciar o plantio de produtos orgânicos, é preciso ‘converter’ a parte da propriedade que será usada. Segundo o coordenador de orgânicos do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-PR), Iniberto Hamerschmidt, a primeira etapa é uma avaliação dos níveis de contaminação do solo por produtos tóxicos, e da qualidade da água. É feita então uma desintoxicação com o uso massivo de elementos como adubos verdes (plantas capazes de ‘reciclar’ componentes do solo), fosfatos de origem natural, e calcário. “Dependendo das condições do solo, o processo pode levar de 1 a 3 anos. Enquanto isso, o produtor não vai ter um produto orgânico, mas algo intermediário”, explica. Passada a transição, os produtores devem procurar órgãos

Pesquisa e produção Além da preparação da terra, as técnicas de plantio também são alvos de pesquisa, como, por exemplo, em um estudo da UFPR feito em parceria com o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). “Criamos uma horta orgânica experimental, onde podemos testar novas técnicas”, explica Hamerschmidt. “Os agricultores que quiserem podem conhecer nosso trabalho visitando a horta”. Além disso, o Iapar e a Emater realizam estudos sobre as interações entre culturas dentro das fazendas, como a rotação e o consórcio, em que o revezamento de espécies evita o esgotamento do solo. É estudado também o cultivo de variedades adaptadas ao sistema orgânico sem produtos químicos, especialmente em lavouras perenes como as de frutas e café. Outros estudos envolvem o desenvolvimento de adubos verdes, biofertilizantes e pesquisas de caldas e macerados de ervas com propriedades pesticidas e iscas para o controle das pragas. A busca de soluções técnicas específicas converge para a garantia da sustentabilidade das lavouras, que reaproveitam os próprios resíduos, e para a preservação ambiental pelo uso de alternativas naturais no lugar dos insumos agrícolas comuns. Outras iniciativas também trabalham na capacitação dos produtores visando à profissionalização. Para tanto, promovem cursos e excursões para conhecer propriedades de referência no cultivo de orgânicos. Os projetos

incluem alimentação e transporte e são executados com verbas subsidiadas pelo governo estadual.

Mudanças sociais A mudança no plantio reflete numa diferente concepção social da agricultura. Como a lavoura requer um cuidado mais próximo, a produção de orgânicos é feita em áreas de agricultura familiar. Neste meio de produção, o agricultor tem contato com todas as etapas do plantil e com o gerenciamento econômico e ambiental envolvido no processo. Como resultado da melhora dos padrões de vida e trabalho, o agronegócio orgânico contribui para a fixação das famílias no meio rural. “Mais complexa que a convencional, a agricultura orgânica gera o dobro de empregos e, devidamente acompanhada, ajuda a fixar famílias no campo”, explica Hamerschmidt. Atualmente, existem 5,3 mil produtores orgânicos no Paraná, e a safra de 2007/2008 chegou a 107 mil toneladas. O estado é o que apresenta a maior diversidade de produtos: hortaliças, frutas, grãos, café, mandioca, plantas medicinais e erva-mate. O cultivo se concentra na Região Metropolitana de Curitiba. Apesar das perspectivas de duplicar a safra nos próximos cinco anos, o cenário ainda é vulnerável. Segundo Vasconcelos, entre os desafios do cultivo de orgânicos estão a falta de articulação das pequenas propriedades e a dificuldade em encontrar áreas que correspondam às normas sócioambientais previstas por lei. Além disso, as pesquisas ainda estão apenas se estruturando. “É necessário consciência da importância do sistema orgânico. Ele exige mudança do processo produtivo e uma mudança cultural”.

Mercado Municipal de Orgânicos Rua da Paz 608 – anexo ao Mercado Municipal de Curitiba, Centro. Horário de funcionamento: terça-feira a sábado, das 7h às 18h. Segunda-feira, das 7h às 14h. Domingo, das 7h às 13h. Luciane Cordeiro

certificadores, como o Instituto Biodinâmico (IBD) e o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), que por meio de auditorias e inspeções concedem o selo indicativo. Esse selo é necessário para que o produto possa ser vendido como orgânico.

Fotos: Julia Guedes

Apesar de promover uma volta à agricultura tradicional, o cultivo de orgânicos pode ser muito mais complexo do que o plantio moderno. Ao eliminar técnicas mais novas de controle de pragas e fertilização, que envolvem a utilização de produtos químicos nocivos ao meio-ambiente e à saúde, a agricultura orgânica exige pesquisa em tecnologia, da preparação da terra – que muitas vezes já vem impregnada de agrotóxicos, devido ao plantio anterior – até o aumento da produtividade da safra, além de um cuidado muito maior com a plantação. De acordo com o engenheiro agrônomo e administrador do Mercado Municipal de Orgânicos Nivaldo Guimarães Vasconcelos, o sistema de produção de alimentos orgânicos difere muito do convencional. “A produção exige um contato maior com a propriedade e conhecimento mais aprofundado do ambiente, das pragas e do solo”, explica.

Nicholle Murmel

A ascenção dos orgânicos A busca por alimentos orgânicos, cultivados em regime de responsabilidade sócio-ambiental e sustentabilidade, tem crescido nos últimos anos. Exemplo disso é a inauguração do Mercado Municipal de Orgânicos, em Curitiba, em março deste ano. Primeiro espaço público no Brasil exclusivo para esse tipo de produto, o mercado tem 22 lojas, incluindo açougue, loja de cosméticos e lanchonete. Há também um Centro de Educação Alimentar e Nutricional, que oferece informação a empresários e interessados sobre a produção e o consumo de orgânicos. O preço, no entanto, é bastante alto se comparado aos de produtos convencionais:

os vegetais orgânicos são entre 30% e 50% mais caros que os produtos tradicionais. Já as carnes orgânicas – vindas de animais alimentados com pasto orgânico, sem uso de anabolizantes, hormônios e outras substâncias artificiais – custam cerca de 25% a mais do que uma carne ‘normal’. O administrador do Mercado Municipal de Orgânicos Nivaldo Guimarães Vasconcelos explica que essa disparidade se deve à produção relativamente baixa quando comparada à demanda, e não aos custos de produção propriamente ditos. Apesar disso, quem tem interesse normalmente se dispõe a pagar um preço mais elevado. “Os produtos orgânicos atra-

em muito por serem comprovadamente mais saudáveis”, avalia Flávia Maria Gosch, funcionária do primeiro açougue orgânico do Brasil, o Taurino’s Organic.

Para além do prato Um produto até então pouco conhecido do grande público e que tem sido bem aceito são as roupas em algodão orgânico, cultivado sem agrotóxicos e tingido com corantes de origem natural. Leda Kayoko Sato Kai, proprietária da Capulho, loja de roupas do mercado, explica que as peças vêm de fábricas que confeccionam com matériaprima credenciada produzida

no Nordeste. “Alguns consumidores, geralmente mais idosos, são atraídos pelos valores de responsabilidade humana e ambiental agregados aos produtos”, ressalta Kai. Os cosméticos orgânicos também são uma variedade recente no Brasil, e que têm potencial para se expandir. A primeira loja do gênero no país se encontra no mercado. Rose Bezecry, dona da Cativa Natureza, que revende cinco marcas nacionais de cosméticos orgânicos, comenta que a conscientização para os benefícios desses produtos à saúde e à qualidade de vida já é forte em outras partes do mundo. “Inclusive, antes os fabricantes daqui exportavam toda a produção”, afirma. “Agora que

o mercado interno está se expandindo, é possível comercializar também no Brasil”. As perspectivas para o mercado de orgânicos são de consolidação e expansão da produção, aproximando mais os preços aos dos produtos comuns, e do consumo, como reflexo da mudança de comportamento do público, cada vez mais sensível aos valores de desenvolvimento sustentável e responsabilidade ambiental e social. Confira mais informações sobre a mudança social causada pelo processo produtivo orgânico em www.jornalcomunicacao.ufpr.br Nicholle Murmel


política

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VEREADORES

Mesmo com novas caras, Câmara muda pouco Nova legislatura apresenta 47% de renovação, mais que em eleições anteriores

A Câmara de Curitiba é um receptáculo das políticas do governo, um apêndice do prefeito” Roseli Isidoro Ex-vereadora

Já o vereador Tito Zeglin (PDT, também da base governista), que está em sua sexta legislatura, considera a oposição, por menor que seja numericamente, um problema para a situação. “Mesmo sendo mínima e não tendo seus projetos aprovados, a bancada de oposição atrapalha por colocar temas polêmicos na mídia”, afirma. Zeglin acha desnecessário discutir temas como, por exemplo, o “problema com as empreiteiras”. Para o cientista político Márcio Kieller, o funcionamento da casa se define por interesses da maioria. Ele garante ainda que a posição assumida por cada membro da câmara pode ser usada como moeda de troca. “Tanto os prefeitos, como os governadores e até mesmo o presidente precisam da maioria para governar”, afirma. “Se não a têm, negociam”.

De acordo com Kieller, dentro de qualquer sistema de governo as alianças e os acordos políticos são de extrema importância. “Tanto na ditadura militar quanto na democracia, a lógica interna [das câmaras e assembleias] é a mesma”, garante. Ele afirma ainda que a oposição brasileira é limitada pelo próprio modelo de democracia estabelecido no país. “A eleição troca uma elite por outra”.

Samantha Costa

políticas do governo, um apêndice do prefeito”, denuncia. No entanto, o vereador novato Caíque Ferrante (PRP, da base de apoio do prefeito) acredita que os oposicionistas não são impedidos de realizar suas atividades. “Dentro da base de apoio há pessoas conscientes, que pensam no bem da cidade e não apenas em disputas políticas”, afirma.

Recepção dos novatos De acordo com Roseli, os novatos costumam chegar com grandes expectativas e se frustram logo nas primeiras semanas. “São votados apenas nomes de ruas”, diz. Além disso, ela afirma também que há uma certa desconfiança por parte dos vereadores mais antigos. “Os novatos são vistos como uma ameaça, não se sabe bem as ambições de cada um”, conta. Ela afirma que nem todos os vereadores auxiliam os novos eleitos nas rotinas da Câmara. “Lá dentro são poucos os que pensam assim”. No entanto, alguns recémeleitos garantem que são bem recebidos. “Não há diferença de tratamento, eles (os veteranos do Legislativo) tentam dividir bem as competências”, ressalta Ferrante. Para o vereador João Cláudio Derosso (PSDB), presidente da casa desde 1997, os novatos são bem recebidos por aqueles que já estavam no cargo. “A camaradagem é necessária”, explica. “Quando auxiliamos os novos, facilitamos o trabalho”. Já Zeglin vê o auxílio como uma forma de criar aliados. “É a arte de conversar”, completa Para facilitar a adaptação dos novos vereadores, a cada nova legislatura a CMC oferece cursos para que os novatos conheçam melhor seu funcionamento. “Eles chegam querendo resolver os

Bancada governista tem 84% das cadeiras da Câmara

problemas catalogados na campanha”, explica Derosso. “Os cursos são necessários para que a casa discuta apenas temas viáveis”. Dirceu Moreira (PSL), que iniciou agora o primeiro mandato, diz que os recém-eleitos têm mais vontade de trabalhar. “Quem está Tiago Pizzolo

Desde o começo do ano, 38 parlamentares cumprem novo mandato na Câmara Municipal de Curitiba (CMC). Desses, 18 não cumpriam mandato na legislatura passada – o que representa 47% de renovação. O partido do prefeito Beto Richa, o PSDB, tem a maior bancada: 13 vereadores. Já o PT, o mais representativo dos partidos de oposição, conta com apenas três – dois a menos que em 2008. Apesar da taxa relativamente alta de renovação— 47%, contra 39% nas eleições de 2004 —, as eleições apenas confirmaram uma tendência situacionista já verificada na legislatura anterior. A bancada de Richa subiu de 29 vereadores para 32, incluindo o vereador Julião Sobota, que, mesmo eleito pelo PSC (que participou da base de apoio da candidata do PT à Prefeitura, Gleisi Hoffmann), se coloca como parte da base de apoio do prefeito. Os vereadores do PV Roberto Accioli e Aladim também se declaram parte da base aliada, apesar do partido se declarar neutro. Enquanto isso, a bancada oposicionista caiu de sete para apenas cinco vereadores (três do PT e dois do PMDB). Apenas o vereador Professor Galdino, do PV, se declara neutro. Na prática, isso significa que 84% da bancada da Câmara é da base de apoio do prefeito. Para a ex-vereadora Roseli Isidoro (PT), essa maioria esmagadora pode impedir o trabalho dos vereadores da oposição. Em dois mandatos, Roseli nunca teve um projeto aprovado, e acredita que isso só não aconteceu porque manteve resistência à bancada de situação. Ela afirma que o funcionamento da Câmara se dá pela negociação entre o prefeito e seu líder na casa. “A Câmara de Curitiba é um receptáculo das

há mais tempo não tem tanta energia”, afirma.. Para Zeglin a renovação é “salutar e importante”. “Os vereadores novos trazem propostas e os velhos estão dispostos a discutir”, garante. Luiza Vaz

Comissões definem a pauta da casa Antes de um projeto ir à votação no plenário, ele deve passar por uma das comissões da casa, que têm por objetivo analisar e viabilizar projetos de lei e requerimentos em suas devidas áreas (ver box). Seus membros são definidos por indicação dos partidos e pela representação política da legenda. De acordo com o presidente da câmara João Cláudio Derosso (PSDB), a formação do vereador é um dos fatores que implica na definição de qual comissão ele participará. “Se temos um engenheiro, por exemplo, é melhor que ele fique na Comissão de Urbanismo e Obras Públicas”, exemplifica. Cada vereador deve participar de, no mínimo, uma comissão.

O cientista político Márcio Kieller explica que, em tese, a distribuição de cargos dentro de uma comissão é feita por eleição aberta, mas, na prática, o que vale são acordos internos. “O cargo de relator é o mais desejado, pois é quem dá o parecer final do que vai para a plenária ou não”, explica. “Ele fica com os vereadores mais antigos e com os partidos mais fortes”. Kieller considera as comissões a “parte invisível” do processo legislativo, pois raramente a população tem conhecimento do que é discutido. Para ele, isso é uma perda na democracia. “É nas comissões que o vereador cumpre o papel para o qual é designado: o de representar a sociedade”. Luiza Vaz


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esportes

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SEGURANÇA

Projeto de lei aumenta segurança nos estádios Mudanças no Estatuto do Torcedor são novas armas no combate à violência torcedores violentos não pode ser plenamente exercida, devido à falta de apoio legislativo. “Os delitos cometidos por essas pessoas são hoje, na maioria das vezes, caracterizados somente como crime contra o patrimônio”, diz.

Torcidas organizadas O projeto de lei também pretende tratar as torcidas organizadas como pessoas jurídicas de direito privado. Na prática, a idéia é fazer com que elas respondam civilmente pelos danos causados por qualquer um de seus associados no local da competição, nas imediações ou no trajeto de ida ao jogo e de volta da partida. O presidente da torcida organizada Os Fanáticos, do Atlético Paranaense, Julio César Sobota, diz já se responsabilizar em parte por seus associados. “Investimos cerca de R$ 20 mil no monitoramento da sede e das imediações”, declara. “Mas é claro que sem a ajuda da população nas denúncias, nenhuma mudança será possível”. Luis Fernando Correa, presi-

dente da torcida Império Alviverde, do Coritiba, acredita que tornar a torcida responsável pelos vândalos não resolverá o problema. “Querem nos impor uma responsabilidade que não é só nossa”, argumenta. Para Correa, a questão da violência só será solucionada se discutida em parceria com o Poder Público. Os representantes dos clubes acreditam nos benefícios do Estatuto, mas ressaltam que mais ações precisam ser tomadas. Segundo Alessandro Kishino, do Departamento Jurídico do Paraná Clube, as medidas são interessantes, mas sua eficácia depende de um Poder Judiciário bem estruturado. “Atualmente, já existe a possibilidade legal de se penalizar um torcedor baderneiro, mas na prática não vemos a aplicação de nenhuma sanção para essas pessoas”, afirma Kishino. Ainda segundo o representante do clube, os atos de vandalismo ocorridos dentro do estádio ou nas imediações são coibidos imediatamente, tanto pelos seguranças particulares do Paraná Clube como pela au-

Transporte público de Curitiba é um dos maiores prejudicados pelo vandalismo das torcidas. 64% dos ônibus já sofreram algum tipo de depredação

Torcida aprova, com ressalvas, modificações na lei Ainda que punições mais enérgicas contra quem desrespeita o patrimônio público fossem há muito tempo aguardadas, o projeto divide opiniões entre os torcedores. A torcedora do Paraná Clube Giovana Gaska apóia as novas medidas, pois acha que as pessoas costumam confundir a verdadeira torcida com vândalos que mancham a imagem do grupo. “A torcida foi feita para empurrar o time dentro de campo”, afirma. Pensamento semelhante tem a torcedora do Atlético e membro da Fanáticos Roselene Sonda. Ela acredita que as novas punições demoraram a entrar em vigor, mas pensa que

impedir torcedores de entrar nos estádios não minimizaria a violência. “Normalmente, os baderneiros não entram no estádio. Eles usam o jogo como desculpa para extravasar, e o emblema do clube para justificar a violência”, diz. Já o torcedor do Coritiba Luiz Betenheuser Junior concorda com as medidas, mas vê com desconfiança o cumprimento da lei. “Para resolver o problema é preciso uma fiscalização eficiente”, afirma. “Sem a especialização da polícia para eventos de grande público, a legislação servirá para termos ares de ‘bons moços e politicamente corretos’ às vésperas de uma Copa do Mundo”, critica.

Conscientização como arma

Um dos maiores alvos do vandalismo das torcidas são os ônibus, estações tubo e terminais, que também servem de palco para brigas entre torcidas rivais em dias de clássicos. Um exemplo foi uma briga que resultou na prisão de 22 torcedores atleticanos no terminal de Pinhais, no dia primeiro de fevereiro deste ano, data do primeiro Atletiba do Campeonato Paranaense. Dentre os 1.906 ônibus que estão em circulação, 1.217 sofreram algum tipo de depredação. A Urbanização de Curitiba (Urbs), em parceria com o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano

de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp), lançou recentemente uma campanha para tentar minimizar essas estatísticas. Ela traz personagens “Los 3 Inimigos”, do cartunista Thiago Recchia. “A intenção é mostrar que o dinheiro gasto para reparar os estragos poderia ser utilizado em mais equipamentos para a população”, afirma Roberta Storelli, assessora da Prefeitura de Curitiba. “Como Los 3 Inimigos são bastante populares na cidade e ligados ao futebol, o caminho mais curto para atingir o público alvo seria usá-los como mensageiros da campanha”, explicou Recchia. Helen Anacleto

toridade policial, que encaminha os torcedores infratores para a delegacia. Uma outra medida anunciada pelo governo, não inclusa no projeto que altera o Estatuto, é o cadastramento de torcedores e o uso de uma carteirinha de identificação para freqüentar estádios. Com isso, será possível fazer um controle de acesso aos eventos. O cadastro deverá ser feito por qualquer pessoa que queira ir a uma partida de futebol. Helen Anacleto

Angélica Rodrigues

nos estádios, estabelecendo penas para torcedores. O Estatuto passaria a determinar de um a dois anos de prisão e multa para a pessoa que praticar atos violento antes, durante e depois de eventos esportivos. Se o réu for primário, essa pena seria convertida em proibição de ir aos estádios pelo prazo de três meses a três anos. Caberá ao Ministério Público Estadual realizar uma listagem de nomes de torcedores impedidos de frequentar estádios até que a Justiça julgue a pena impeditiva. Para a Polícia Militar, a alteração no Estatuto pode ser uma aliada no combate à violência. Segundo o major Douglas Dabul, existe um treinamento especial para os responsáveis pelo policiamento de eventos, em que eles aprendem técnicas de repressão a tumultos, bem como as diferenças de comportamento do indivíduo dentro e fora de um aglomerado. “Em grupo, a coragem tende a aumentar, e a busca pela adrenalina também. O policial deve ter percepção disso e ser tolerante”, afirma. No entanto, para o major Arildo Luiz Dias, a repressão a

Fotos: Luciane Cordeiro

Diante de números alarmantes de violência e vandalismo causados por torcedores de futebol (só em 2008, o vandalismo custou R$ 250 mil para os cofres públicos de Curitiba), o governo federal criou um projeto de lei que busca garantir mais segurança nos estádios. A proposta é adicionar novas medidas ao Estatuto do Torcedor. Entre as alterações, o texto trata das torcidas organizadas, que passarão a responder civilmente por atos de seus associados nas imediações da competição. O projeto segue para aprovação no Congresso. O Estatuto do Torcedor (lei 10.671) foi criado em 2003. Na sua versão atual, ele está mais voltado para a regulamentação da organização dos eventos esportivos por parte da entidade detentora do mando de jogo. Na parte que trata da segurança nos jogos, estabelece normas como a proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios e arredores durante a partida e o monitoramento por câmeras quando a capacidade do local for superior a 20 mil pessoas. Com o projeto, o texto passa a tratar diretamente da violência

Confira algumas propostas Torcidas Organizadas Pelo projeto de lei, as torcidas organizadas passam a ser consideradas pessoas jurídicas de direito privado e podem responder civilmente pelos danos causados por qualquer um de seus associados no local da competição, nas imediações ou no trajeto de ida ao jogo e de volta da partida. Punições - Um torcedor que praticar atos de violência poderá pegar de um a dois anos de reclusão e multa. Caso o réu seja primário, a proposta é converter as penas de prisão em banimento dos estádios por um prazo de três meses a três anos. Pelo projeto de lei, caberá ao Ministério Público Estadual remeter às torcidas a lista dos nomes de torcedores impedidos de frequentar estádios até que a Justiça julgue a pena impeditiva. Cambistas - Outro crime tipificado pelo projeto de lei é o ato de revender ingressos por preço superior ao estampado no bilhete. Os cambistas poderão pegar de um a dois anos de prisão e ainda pagar multa. Laudos Técnicos - Decreto torna obrigatória a apresentação de laudos para autorizar a realização de jogos nos estádios com capacidade acima de 10 mil pessoas. Será obrigatória a apresentação de quatro laudos: de segurança, de engenharia, de proteção contra incêndios e de condições sanitárias.


Jornal Comunicação  

Jornal laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) - edição de abril de 2009

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