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O Lar da Criança Henrique Liebich (Sociedade Batista de Beneficência TABEA) é um Serviço de Proteção Social Especial de Alta Complexidade – Abrigo, de caráter filantrópico, sem fins lucrativos, que se destina ao acolhimento de crianças e adolescentes de ambos os sexos, com idade entre zero e 18 anos, advindos de situação de risco social e pessoal; em caráter provisório e excepcional, funcionando em forma de aldeia e tendo como perspectiva de trabalho o cunho familiar. O Lar é administrado pela Sociedade Batista de Beneficência TABEA, tendo como objetivo proporcionar às crianças e adolescentes acolhidos a efetivação dos direitos referentes à vida, saúde, alimentação, educação, esporte, lazer, profissionalização, cultura, dignidade, respeito, àliberdade e convivência familiar e comunitária. A instituição atende, atualmente, 55 crianças e adolescentes.

Ijuí, fevereiro de 2011.

“É importante salientar que o nosso Lar não é um presídio de jovens infratores, como muitos pensam. As crianças e jovens que vivem aqui são, na verdade, frutos da violência da sociedade. Tiveram pais problemáticos, que chegaram a agredi-los moralmente e fisicamente. Muitos jovens, inclusive, foram violentados sexualmente. São pessoas que necessitam de um olhar diferenciado da população. Não de compaixão, mas de esperança. Faltam pessoas com boa vontade, capazes de ver o potencial que está adormecido em cada uma dessas vítimas. Se não é possível colaborar com doações, ajude o Lar com uma visita. Aproximadamente 95% das crianças não recebe um visitante sequer. E isso dói. Basta olhar nos olhos desses jovens para perceber como faz falta uma conversa, uma brincadeira. O carinho dos pais é insubstituível, mas pode ser compensado. Com esse relato, eu faço um pedido à comunidade: visite a instituição e mude a visão de que o Lar abriga marginais. As nossas crianças e jovens apenas tiveram experiências ruins, mas merecem uma segunda chance para ser feliz”. Pastor Reinaldo Silva Pinheiro, diretor do Lar da Criança

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Transformando vidas há cinco décadas

Início da construção do orfanato

Uma história que começa com um gesto de bondade e desprendimento. Frida Liebich era parteira em Monte Alvão, no início dos anos 50. Ao atender o parto de uma jovem que há pouco chegara à região e fora acolhida por vizinhos, ouve o pedido para que cuidasse do recém nascido, já que a mãe não tinha condições. O casal Liebich, então com nove filhos, acolhe o pequeno. Foi o primeiro de muitos que se seguiram nestes 50 anos do Lar da Criança Henrique Liebich. Uma história que se renova a cada dia. A oficialização da instituição aconteceu no dia 11 de fevereiro de 1961, sob o nome de “Orfanato Batista Henrique Liebich”, quando já contava com 27 crianças. Esse número acabou crescendo rapidamente, assim como as dificuldades, exigindo do casal e seus filhos muito esforço e abnegação. Zidrone Liebich, a filha mais velha, ainda residindo na casa dos pais, passou a assumir integralmente a responsabilidade como conselheira e professora das crianças. Como secretária do Lar, fez parte da primeira diretoria. Seu pai, Henrique Liebich, assumiu a presidência.

Henrique e Frieda

Expediente

Edição: Jornal Classificadão Ltda Impressão: Gráfica Fênix. Fone: (55) 3332-4990. Coordenação: Ana Cláudia Ribas Scarton Jornalista Responsável: Drica Morais Diagramação: Márcio Fraga da Silva

Estrutura física e de atendimento

Nos anos 70 , com Henrique Liebich gravemente enfermo, o então Orfanato recebe a visita do pastor Horst Borkowski, da Alemanha, que, tocado pela obra daquele homem simples, prometeu-lhe dar continuidade ao valioso trabalho iniciado com tanto amor, carinho e dedicação. Em seu retorno à Alemanha, o pastor Horst fundou a MASA – Ações Missionárias para a América do Sul, que imediatamente passou a ajudar na sustentabilidade do Orfanato, sendo até hoje parceira da instituição. Também neste período, retorna ao Brasil a filha dos Liebich, Sibila, que, juntamente com o esposo Pr. Werner Geiger, abraça este trabalho. Pr. Werner trabalhou no Lar de 1974 a 1979, O Lar da Criança possui estrutura para atender na função de administrador. cerca de 60 crianças e adolescentes, dos zero aos 18 anos. Cumpre todas as exigências da legislação brasileira e, graças à participação da sociedade, consegue manter o acolhimento e promoção do desenvolvimento sócio-afetivo dos abrigados, preparando-os para o futuro. Atualmente, a instituição possui seis casas lares, que acolhem até 10 crianças e adolescentes, sob os cuidados de uma mãe social. A estrutura física abrange, ainda, áreas destinadas à administração, cozinha industrial, lavanderia industrial, brinquedoteca, horta, marcenaria, quadra poliesportiva, campo de futebol e pracinha para lazer. Nas dependências do Lar também funciona o Núcleo Social Ijuí, que atende crianças de comunidades próximas, em horário inverso à escola. O atendimento a todos esses jovens é feito por uma equipe multidisciplinar, especializada nas áreas de Nutrição, Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, Fonoaudiologia e Fisioterapia. Ainda há Casa da Família Liebich em Monte Alvão muitos voluntários cadastrados pela ONG ParceiEm 1973, morre Henrique Liebich. Neste mes- ros Voluntários e pelo projeto Padrinho Amigo, da mo ano, a Sociedade Batista de Beneficência TA- própria Instituição. Através deles, o Lar conta com BEA assume a responsabilidade do Orfanato dando atendimento nas áreas de odontologia, reforço escontinuidade ao sonho que nasceu no coração da- colar, hora do conto, marcenaria, costura, cuidaquela simples família, passando a denominá-lo “Lar dores hospitalares, marketing e relações públicas; da Criança Henrique Liebich”. Nessa época, foi ad- projetos nas áreas de pedagogia, fisioterapia, serquirida uma propriedade de 40 mil m2 em Ijuí para viço social e psicologia. A instituição também desenvolve as oficinas a construção do novo abrigo. A Prefeitura Municipal 2 Banco da Tarefa, na área pedagógica, e Musicalidestinou mais uma área, de 6 mil m , às ruas do reszação, onde as crianças e adolescentes desenvolpectivo loteamento. No ano de 1976, foi inaugurado o vem atividades lúdicas, aprendem flauta e canto primeiro bloco residencial: as casas um e dois. Em 19 de novembro de 1978, ocorre a inaugura- coral. A partir dos 16 anos, os adolescentes são ção oficial das novas instalações do Lar da Criança, encaminhados para cursos profissionalizantes, viorganizada na forma de casas lares, no bairro Storch. sando sua inclusão no mercado de trabalho.

Nestes 50 anos, foram diretores da instituição: 1961 a 1973 - Henrique Liebich 1974 a 1978 - Zidrone Liebich 1979 - Sieclinde Porath 1980 a 1986 - Pr. Helmut Matchulat Agosto de 1986 a junho 1990 - Sieclinde Porath Agosto de 1990 a novembro de 1993 - Pr. Anselmo Osório

1993 a 1996 - Pr. Bruno Stilner 1997 a 2004 - Marisa Jung Fevereiro a maio de 2004 - Ditmar Hepfner Junho de 2004 a julho de 2010 - Pr. Odemar Egon Rehfeld Desde agosto de 2010 - Pr. José Reinaldo Silva Pinheiro

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Escola Bíblica de Férias abre as comemorações do cinquentenário do Lar Entre os dias 16 e 18 de fevereiro, o Lar da Criança Henrique Liebich realizou, através do Núcleo Social de Ijuí, a terceira edição da Escola Bíblica de Férias, em parceria com a Igreja Batista Esperança. “Com este evento, o Lar inicia as comemorações do seu cinquentenário. Outras atividades estão sendo elaboradas e serão realizadas ao longo do ano”, informou o diretor do Lar, pastor José Reinaldo Silva Pinheiro. A Escola de Férias serviu como base para o desenvolvimento do projeto Transformando Vidas, que também é um marco para o cinquentenário. O projeto, com duração de oito meses, está sendo desenvolvido em parceria com o Centro de Promoção da Criança e do Adolescente de Porto Alegre (CPCA). A temática explorada durante as atividades foi o combate a todo tipo de violên-

Núcleo Social atende mais de 40 crianças, no turno inverso às aulas

Desde 2008, o Lar passou a trabalhar com dois programas: o primeiro, desenvolvido com as crianças que moram na instituição por determinação judicial. O segundo é destinado aos jovens de baixa renda da comunidade. “Trata-se de um programa socioeducativo, na verdade, que acontece no turno inverso às aulas. Uma criança que estuda no turno da tarde, por exemplo, frequenta o Lar pela manhã. Toma café, vai para a aula de reforço e, depois, para as oficinas”, explica o diretor da instituição, pastor José Reinaldo Pinheiro. O programa, chamado de Núcleo Social, atende mais de 40 crianças, com idades entre 6 e 13 anos. À elas são oferecidas aulas de música, arte, esporte e informática.

cia, praticada em qualquer lugar e circunstância. Durante os três dias, foram desenvolvidas atividades que promoviam a paz nas relações humanas, como a contação de histórias bíblicas, oficinas de esportes, musicalização, artes visuais e muita brincadeira. O projeto Transformando Vidas prevê, ainda, a realização de ações que visem o fortalecimento dos laços familiares através de encontros quinzenais. A partir de agora, campanhas e palestras sobre violência serão realizadas, com o intuito de buscar o envolvimento da comunidade. Durante todo o evento, cerca de 200 crianças e adolescentes, de 4 a 14 anos de idade, se reuniram nas dependências do Lar e na Igreja. Entre elas estavam os visitantes e as acolhidas do Lar, participantes do Núcleo Social.

Sonhos e necessidades

O maior sonho da equipe do Lar da Criança, segundo o pastor Reinaldo, é ver os jovens com as feridas físicas e emocionais curadas. Que todos tenham, portanto, condições de se transformar em cidadãos dignos. “Mas, para isso, precisamos de recursos. A instituição não existiria sem o apoio de pessoas e entidades de outros países e estados. Se temos uma grande estrutura física hoje é graças à ajuda da Federação Batista Européia”, conta. O ideal seria que o Lar fosse mantido, apenas, pelo muncípio, com participação expressiva da sociedade. No entanto, apenas 40% das despesas são custeadas pelo Executivo. “Neste ano, nós queremos trabalhar para reformar as casas lares. Algumas foram construídas na década de 70 e precisam de reparos urgentes”, explicou Reinaldo.


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Durante 15 anos, ele viveu no Lar da Criança Meu nome é Gilmar de Jesus Gonçalves de Paula, um ijuiense de 37 anos. Sou casado e tenho um casal de filhos: Taciara, de 16 anos, e Gabriel, de 12. Neste esppaço, gostaria de relatar a minha história de amor com o Lar da Criança Henrique Liebich, iniciada em setembro de 1977. Foi nessa época que a diretora Zidrone Liebich, uma das filhas do casal fundador da instituição, veio me buscar. Eu morava com minha mãe biológica e meus dois irmãos. Como o meu pai biológico havia falecido, nós estávamos com dificuldade de sobrevivência. Assim, com 4 anos de idade, fui encaminhado ao Lar. Comecei morando com mais nove “irmãos” na casa lar número 1 e com a mãe social da época, Nídia Húbner. Aos 13 anos, fui para casa sete, chamada de casa dos adolescentes e, por final, na casa 10, dos 16 até os 19 anos. Estudava à noite e trabalhava durante o dia. No Lar, acabei permanecendo 15 anos. Mas meus pais biológicos, infelizmente, não participaram dessa trajetória. Eu tive pais, mães e irmãos do coração que substituíram, na medida do possível, esta lacuna em minha vida, com ensinamentos de valores éticos e disciplinares que não há preço que pague. Vivi e convivi com as coisas mais simples da vida que hoje estão caindo no esquecimento, como, por exemplo, tomar banho de chuva, brincar de esconde-esconde, o famoso “léts”, subir em árvores, gargalhar, se sujar no barro... Se sujar mesmo, vocês conseguem entender isso? Um tempo com excelência e muita sabedoria foram as horas investidas em devocionais ministrados pelos meus pais do coração. Ensinamentos que ninguém jamais poderá me roubar, muito menos o tempo. O que para muitos poderia ser uma desgraça estar num “orfanato”, hoje conhecido como casa de acolhimento, posso afirmar com toda a certeza: foram 15 anos de minha vida inesquecíveis e fundamentais para a minha formação como pessoa, homem, cidadão, pai de família, marido, líder, cristão.

Nestes últimos cinquenta anos, uma linda história foi escrita. E não são poucos os fatos que marcaram a história deste lugar, que tem único objetivo, desde a suaq fundação: transformar vidas. Sempre agradeço a Deus por isso, pois antes de ser um propósito do homem foi um projeto que nasceu no coração de Deus. Quero concluir que eu, minha esposa e nossos dois filhos estamos dando continuidade neste trabalho. Somos pais sociais da casa lar número 6, deste mesmo Lar da Criança Henrique Liebich, que um dia me acolheu. Também estou me graduando em bacharel em Teologia. Quero agradecer, de todo coração, primeiramente a Deus, por tudo que tem feito, e depois ao Lar da Criança. Parabenizo toda a equipe pelos 50 anos de amor e dedicação.

O Lar da Criança aceita doações de roupas, móveis e alimentos. Contribuições em dinheiro podem ser feitas através do Banco do Brasil: agência 0371-9, conta 4000-2.

A instituição está localizada na rua José Bonifácio, n° 1623, bairro Storch. Outras informações podem ser obtidas através do telefone, 3332-1095, ou do e-mail lartabea.iju@terra.com.br.

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Caderno especial Lar Henrique Liebich  

Fevereiro 2011

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