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Ano VIII - 429

Desemprego no DF cai em junho e julho

Filme conta a história de Divaldo Franco

Paulo Miranda - Páginas 8 e 9

José Matos - Página 11

Pensar Nagô, novo livro de Muniz Sodré

Frango com batata doce sustenta alguém?

Mario Pontes - Página 12

Caroline Romeiro - Página 11

Brasília, 7 a 13 de setembro de 2019

Velhos tempos, tristes dias Trinta e quatro anos após a redemocratização, o Brasil volta a ter um presidente que não gosta de ouvir o povo. “Tem que impor” (sic), disse Bolsonaro sobre a militarização das escolas públicas do DF. Seu conselho ao governador Ibaneis remete ao período da ditadura, de militares como Figueiredo e Newton Cruz Páginas 2, 6 e 7 GUINALDO NICOLAEVSKY

Em 1979, a menina Rachel se recusou a cumprimentar o então presidente Figueiredo

CARLOS NAMBA/EDITORA ABRIL

DARYAN DORNELLES

Em 1984, o general Newton Cruz desfilou na Esplanada dos Ministérios montado num cavalo Eleito presidente em 2018, o capitão Bolsonaro branco. No dia seguinte, reagiu a um buzinaço em Brasília chutando e chicoteando automóveis quer governar sem dar voz à população


Brasília Capital n Opinião n 2 n Brasília, 7 a 13 de setembro de 2019 - bsbcapital.com.br

E

Velhos tempos, tristes dias!

x p e d i e n t e

Orlando Pontes

Diretor de Redação Orlando Pontes ojpontes@gmail.com Diretor Comercial Júlio Pontes comercial.bsbcapital@gmail.com Pedro Fernandes (61) 98406-7869 Diagramação / Arte final Thiago Oliveira artefinal.mapadamidia@gmail.com (61) 9 9117-4707 Diretor de Arte Gabriel Pontes redação.bsbcapital@gmail.com

Tiragem 10.000 exemplares. Distribuição: Plano Piloto (sede dos poderes Legislativo e Executivo, empresas estatais e privadas), Cruzeiro, Sudoeste, Octogonal, Taguatinga, Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo, Vicente Pires, Águas Claras, Sobradinho, SIA, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Lago Oeste, Colorado/Taquari, Gama, Santa Maria, Alexânia / Olhos D’Água (GO), Abadiânia (GO), Águas lindas (GO), Valparaíso (GO), Jardim Ingá (GO), Luziânia (GO), Itajubá (MG), Piranguinho (MG), Piranguçu (MG), Wenceslau Braz (MG), Delfim Moreira (MG), Marmelópolis (MG), Pedralva (MG), São José do Alegre, Brazópolis (MG), Maria da Fé (MG) e Pouso Alegre (MG).

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Durante 21 anos o Brasil viveu sob a ditadura implantada pelo golpe de 1964. Último general a governar o País naquele período, João Figueiredo é autor de frases como “prefiro cheiro de cavalo ao cheiro de povo”, e “quem for contra a abertura, eu prendo e arrebento”. A “sutileza” de Figueiredo superava a do então comandante militar do Planalto, Newton Cruz. Terrível torturador reconhecido por várias de suas vítimas, Nini, certa feita, partiu pra cima da multidão montado em seu cavalo branco, pisoteando as pessoas em plena Esplanada dos Ministérios. Noutra oportunidade, atacou o radialista Honório Dantas, aplicando-lhe chave de braço e obrigando-o a pedir-lhe desculpas por ter-lhe feito pergun-

tas que considerou inconvenientes. Desde a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985, o País passou a ser governador por civis, bem mais cuidadosos com as palavras e respeitosos com os direitos das pessoas. Mas, em 2018, movida pelo sentimento de revanche contra o PT e inebriada pelo discurso de combate à corrupção, a maioria da população elegeu o capitão Jair Bolsonaro (PSL) presidente da República. Deputado do baixo clero por 28 anos, Bolsonaro nunca reconheceu que o regime que apoiou era uma ditadura. E mesmo sucessivamente eleito pelo voto popular para a Câmara dos Deputados e, agora, para o Planalto, parece não dar nenhum valor à opinião pública, e se envolve, diariamente, em encrencas, até mesmo internacionais, por sua verborragia virulenta.

Nesta semana, ele resolveu ensinar ao governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), como proceder sem dar voz aos governados. “Tem que impor”, repetiu várias vezes, para dizer como o chefe do Executivo da capital deve agir para implantar a militarização nas escolas públicas. Que Ibaneis tenha o discernimento de compreender que vivemos uma quadra democrática na História do Brasil. E faça ouvidos moucos aos conselhos do mandatário da Nação. Afinal, ao contrário do que disse o ex-técnico da Seleção, Mario Zagallo, numa democracia, ninguém é obrigado a engolir nada de que discorde. Nos dias de hoje, ninguém sente saudade dos velhos tempos e tristes dias da ditadura e de pessoas como o torturador-mor, coronel Brilhante Ustra, o ídolo de Bolsonaro

Presidente Capitão-Capiroto não manda no GDF Chico Vigilante (*) Fiquei muito preocupado e estarrecido com o presidente Jair Bolsonaro, o qual costumo chamar de Capitão-Capiroto, aconselhando o governador Ibaneis Rocha a ignorar as consultas públicas e impor a militarização nas escolas públicas do Distrito Federal. É um absurdo esse aconselhamento, que somente poderia ter vindo dessa pessoa despreparada que ocupa a Presidência da República por um erro do destino. Mas é preciso dizer ao governador e ao Capitão-Capiroto que o DF é uma unidade da Federação dotada de autonomia política, administrativa e financeira, com legislações próprias, uma Casa Legislativa atuante e, até mesmo, com uma lei específica que determina a gestão democrática e participativa nas escolas públicas. Ou seja, ente externo algum tem o poder de impor o modo como o Distrito Federal deve proceder com a gestão de suas escolas públicas, passando por cima da Lei. Em vez desta imposição de se tornarem militarizadas, as escolas públicas do Distrito Federal necessitam,

com urgência, de recursos financeiros públicos para a compra de equipamentos, melhoria da merenda e contratação, por concurso, de mais professores. E essas são apenas uma parte das reais necessidades da rede de ensino público da nossa cidade. Também cabe, aqui, uma reflexão sobre a ação policial. A Polícia Militar do DF, já há alguns anos, não tem um efetivo suficiente para realizar a segurança das ruas. Infelizmente, a todo momento, o brasiliense é vítima de assaltos, arrombamentos e violência dos mais diferentes tipos. Nesta semana, alcançamos a infeliz marca de vinte e dois crimes de feminicídio somente em 2019. À PM cabe fazer a segurança pública e, no que tange ao ensino pú-

blico, no âmbito externo das escolas. Até, porque, não há nem efetivo e nem recursos suficientes nos cofres públicos para bancar essa militarização. A disciplina no interior das unidades escolares deve ser realizada pelos professores e profissionais pedagógicos da Secretaria de Educação. É lamentável que o governador Ibaneis não tenha reagido com firmeza e rapidez a esse disparate. Esperávamos que o nosso governante tivesse dado um recado claro ao presidente de quem comanda o Distrito Federal, e não ter aceitado calado. Essa é uma situação absurda à qual estou me insurgindo contra. Espero que a sociedade brasiliense reflita e reaja enquanto é tempo. Espero que o governador Ibaneis, eleito com os votos da população do Distrito Federal, assuma o papel de defensor dos interesses da comunidade brasiliense e se posicione de forma contrária a essa imposição de um presidente protótipo de ditador que, a cada dia, vem se notabilizando por ataques à democracia do País.

Deputado distrital pelo PT-DF


Brasília Capital n Política n 3 n Brasília, 7 a 13 de setembro de 2019 - bsbcapital.com.br

NOVA MISSÃO - Novato na Câmara Legislativa, o deputado Jorge Vianna (Podemos), eleito pelos servidores da Saúde, terá uma nova missão na Casa. Na terça-feira (3), ele foi escolhido como líder do bloco da maioria. Vianna assume o lugar que era de Rodrigo Delmasso (PRB). Entre outras prerrogativas, Vianna passa a ter voto no Colégio de Líderes, local em que se definem os projetos que vão entrar na ordem do dia para votação. É bom que seus colegas da Saúde saibam disso...

Empresários de olho no espólio da CEB

Brasil será denunciado na ONU JÚLIO PONTES/BSB CAPITAL

Dois grandes terrenos da Companhia Energética de Brasília (CEB) no SIA e no Noroeste são cobiçados pelo mercado imobiliário. Os imóveis pertencem à CEB Distribuição, que o GDF quer privatizar. Uma das interessadas na aquisição da estatal é a Energisa. Executivos da empresa têm mantido contatos com a cúpula do Buriti para tratar do negócio. Especialistas dizem, no entanto, que os dois lotes valem mais do que a própria concessionária.

GDF empossa 83 peritos Em cerimônia no Palácio do Buriti, terça-feira (3), o governador Ibaneis Rocha empossou 83 peritos criminais e anunciou a autorização para concurso de 1.800 agentes de polícia, sendo 600 vagas de preenchimento imediato e 1.200 de cadastro reserva. O concurso para 300 escrivães da Polícia Civil está em processo de escolha de banca. Em janeiro de 2020, seráo convocados 100 oficiais e 750 praças da PMDF para o curso de formação. CODESE - Também na terça, Ibaneis participou da posse da diretoria do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico (Codese-DF). O governador recebeu a outorga de presidente de honra do Conselho, que é composto por mais de 50 entidades e é dividido em câmaras setoriais formadas por técnicos voluntários que debatem questões sociais e urbanas e sugerem ações em parceria com a administração pública.

Érika Kokay: Brasil retrocedeu nas políticas de meio ambiente e povos indígenas

O retrocesso nas políticas de meio ambiente e povos indígenas foi objeto de debate de audiência pública conjunta das Comissões de Direitos Humanos e Minorias e Legislação Participativa, quinta-feira (5), na Câmara. A iniciativa dos deputados Erika Kokay (PT-DF) e Túlio Gadelha (PDT-PE) teve o objetivo de fazer um diagnóstico da violação de direitos. RETROCESSOS - “Estamos construindo um diagnóstico dos retrocessos das violações de direitos no governo Bolsonaro, que será apresentado à Revisão Periódica Universal, do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra”, explicou Kokay, que integrará a comitiva da CDHM na entrega do do-

cumento na Suíça de 18 a 20 deste mês. CNPq – A Comissão de Legislação Participativa da Câmara aprovou, quarta-feira (4), moção em defesa da Ciência, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da comunidade científica. CORTES - O documento exige que a Comissão tome medidas para assegurar o repasse de R$ 330 milhões para manutenção das 84 mil bolsas de pesquisa do CNPq. Os cortes orçamentários, promovidos pelo governo Bolsonaro desde janeiro, podem inviabilizar o funcionamento do Conselho. Ao todo, R$ 29,5 bilhões do orçamento da instituição foram congelados.

Japão na mira de parcerias com o GDF A parceria entre os governos do Japão e do Distrito Federal foi discutida na quarta-feira (4), no Buriti. Em visita ao governador Ibaneis Rocha, o embaixador nipônico no Brasil, Akira Yamada, falou do interesse do país em participar das comemorações de

aniversário dos 60 anos de Brasília, em 2020. Ibaneis mostrou interesse em atrair investimentos daquele país para a capital. O Japão teve um PIB de 4,8 trilhões de dólares, em 2018, e renda per capta de 39,3 mil dólares e é a terceira maior economia do mundo.

Feira Legal vai modernizar espaços O governador Ibaneis Rocha lançou terça-feira (3), o programa Feira Legal, que vai fortalecer esses ambientes com tecnologia, segurança jurídica e desenvolvimento econômico. Ao todo, 20 mil comerciantes serão amparados em 38 feiras permanentes e três shoppings populares. REGULARIZAÇÃO - O Feira Legal reduzirá tributos e encaminhará projetos de lei à Câmara Legislativa, permitindo a regularização desses espaços. Inicialmente, será destinado às feiras da Torre de TV, de Sobradinho, Gama, Núcleo Bandeirante, Planaltina, Guariroba, Ceilândia, Guará, Cruzeiro e São Sebastião. Em um segundo momento ele será ampliado para outras localidades.

Carga horária ampliada A Secretaria de Saúde ampliou a carga horária de 328 servidores da Pasta de 20 para 40 horas semanais de trabalho. O objetivo é reforçar o atendimento à população, com a oferta de mais 6.560 horas de atendimento por profissionais de diversas especialidades.

Licenciamentos A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) zerou o passivo de emissão de termos de referência e a análise de processos em andamento referentes aos Estudos de Impacto de Vizinhança (EIV). Ficou mais ágil licenciar empreendimentos de grande porte no DF.


Brasília Capital n Cidades n 4 n Brasília, 7 a 13 de setembro de 2019 - bsbcapital.com.br

Revalidação de diplomas médicos expõe incoerência do ministro da Educação No dia em que O Ministério da Educação divulgou suas proposições para a realização do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeiras (Revalida), a Polícia Federal e o Ministério Público cumpriam 22 mandados de busca e apreensão na operação Vagatomia, que investiga esquemas de vendas de vagas em curso de medicina, além de fraudes no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), no Programa Universidade para Todos (Prouni) e no Revalida, por meio de empresas e instituições de ensino superior legalmente constituídas no Brasil. A operação Vagatomia envolveu integrantes do Ministério Público Federal e cerca de 250 policiais federais no cumprimento de 77 mandados judiciais expedidos pela Justiça Federal de Jales (SP) nas cidades paulistas de Fernandópolis, São Paulo, Rio Preto, Santos, Presidente Prudente, São Bernardo do Campo, Porto Feliz, Meridiano, Murutinga do Sul, São João das Duas Pontes e Água Boa no Mato Grosso. O MPF se queixou de falta de colaboração do Ministério da Educa-

ção na fase de investigação. Enquanto as prisões ocorriam em São Paulo, aqui em Brasília o ministro da Educação, Abraham Weintraub, falava em permitir que instituições privadas realizassem o Revalida, que, atualmente, é restrito a universidades públicas. O esquema de fraude investigado na Vagotomia foi viabilizado por meio de uma parceria envolvendo a empresa Ammed Revalida e a Universidade Brasil (privada) com a Universidade Federal de Mato Grosso (pública). O ministro ainda teria comemorado pelas redes sociais: “... a festa acabou e tigrada vai para a cadeia, enjaulada.” O Ministério Público Federal destacou, no entanto, que foi a omissão do Ministério da Educação que permitiu à “tigrada” armar o esquema que movimentou mais de R$ 500 milhões do Fies e outros tantos milhões em “taxas” pagas por quem contratou os serviços da organização criminosa. Antes da operação, a Associação Médica Brasileira (AMB), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Nacional dos Médicos (Fenam) já haviam pedido ao Palácio do Planalto e a Weintraub a demissão do secretário

de Educação Superior do MEC, Arnaldo Barbosa de Lima Júnior, por crime de prevaricação, ao ignorar denúncias apresentadas pela AMB sobre irregularidades em processos de revalidação de diplomas médicos envolvendo universidades públicas e instituições privadas. Seria o caso de se pedir também a responsabilização do ministro? Em plena vigência da moratória (suspensão por tempo determinado) na abertura de novos cursos de medicina no Brasil, o descontrole do MEC não se restringiu ao Revalida ao Prouni e ao Fies. Autorizada a abrir até 205 vagas de graduação em medicina, a Universidade Brasil tem, de acordo com dados do MP, 403 alunos de medicina matriculados no segundo ano – praticamente o dobro de vagas – e sem autorização ou controle do MEC. Em que hospitais seria oferecida a parte prática do curso? Qual seria a qualidade dos profissionais que viessem a ser formados por essa instituição? Cadê a fiscalização do MEC? De volta ao tema do Revalida, no Congresso Nacional, vinculada à Medida Provisória do Médicos pelo Brasil, tramita proposta do deputado

Dr. Gutemberg, presidente do Sindicato dos Médicos do DF e advogado

Hiran Gonçalves com um modelo de revalidação, sob o comando do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao MEC, com foco em regularidade, controle e moralização. O ministro, com foco em cortes e uma suposta redução de custos, se preocupa que os interessados em revalidar seus diplomas paguem pelo processo. Enquanto isso, o MEC deixa o dinheiro (contingenciado ao extremo) voar pelos ares em esquemas de desvio por falta de controle. Melhor e mais barato para o Brasil seria que não se abrisse oportunidade nem para que a “tigrada” visse o caminho perfeito para armar seus esquemas de corrupção.


Respeite a faixa. Respeito à vida.

Anos atrás, a população do DF tomou uma atitude e decidiu que o respeito à faixa de pedestres seria uma prioridade. Juntos, pedestres, motoristas, ciclistas e motociclistas transformaram o respeito pela faixa em orgulho; e esse orgulho, em exemplo para todo o país. De lá para cá, muita coisa mudou, é claro: a população aumentou, o número de carros nas ruas é muito maior, e temos muito mais faixas espalhadas pelas cidades. Mas em todo esse tempo teve algo que nunca mudou: o respeito pela VIDA. A educação é a melhor direção.


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Bolsonaro aconselha Ibaneis a impo Presidente diz que governador não deve fazer consultas perante a comunidade para adoção da gestão compartilhada

A

desistência do Governo do Distrito Federal (GDF) de impor a militarização no Centro Educacional (CED) Gisno, na Asa Norte, anunciada quarta-feira (4), foi atacada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), no dia seguinte. “Tem que impor”, repetiu diversas vezes o mandatário da República, durante o lançamento do projeto de escolas militarizadas do governo federal, na manhã de quinta-feira (5), no Palácio do Planalto. Na avaliação do presidente, o projeto do DF é necessário para a segurança e a formação educacional dos estudantes, especialmente os mais carentes. E aconselhou o governador Ibaneis Rocha (MDB) a impor o modelo de gestão com-

partilhada com a Polícia Militar nas escolas públicas do DF. Segundo o chefe do Executivo nacional, o emedebista não deve fazer consultas junto à comunidade escolar para a adoção da administração militarizada. A disputa entre o querer da comunidade escolar e o do governo Ibaneis levou à queda do ex-secretário de Educação, Rafael Parente (foto). No dia 17 de agosto, quando o Gisno realizou uma votação, pais, estudantes e professores optaram por não aderir à militarização. Na ocasião, Ibaneis afirmou que faria a gestão compartilhada de qualquer jeito e que começaria, justamente, pelas duas escolas que se recusaram a ter esse modelo de gestão: o Gisno e o CEF 407, da Samambaia.

Comunidade do Gisno reage A reação no Gisno foi intensa. A comunidade escolar recorreu ao sindicato da categoria – Sinpro-DF – e à Justiça para impedir o gesto. Em nota divulgada na quarta-feira (4), a Secretaria de Educação disse que vai manter os resultados da eleição sobre a implementação do programa no Gisno. “No futuro, a secretaria poderá também rever sua decisão sobre o Gisno e fazer uma nova consulta”, diz o texto. A condição para um novo pleito, segundo a nota, é a análise dos índices

de violência no colégio. Quanto ao CEF 407, de Samambaia, o governo desistiu. Irá fazer uma nova consulta na unidade. A decisão de repetir a votação foi tomada depois de um estudante de 15 anos ser esfaqueado em frente à escola, em 19 de agosto. O governo diz que, depois da facada em frente à escola na semana seguinte à votação, houve solicitações para a adoção da militarização. “A secretaria considerou os fatos graves e decidiu fazer outra a votação”.

GDF quer expandir mode A escolha do modelo de gestão foi feita por votação entre membros da comunidade escolar nas seis escolas que o GDF escolheu para trabalhar com a gestão compartilhada. Quatro delas adotaram o modelo em fevereiro deste ano. O atual secretário de Educação, João Pedro Ferraz, disse que fará visitas ao Gisno e ao CEF 407 de Samambaia nos próximos dias para conversar, diretamente,- com as duas comunidades escolares. O governo Ibaneis decidiu expandir a gestão compartilhada neste segundo semestre e pretende adotar esse tipo de gestão em 40 escolas até o fim do seu mandato. Do total de instituições, três tiveram resultados favoráveis à mudança: CEF 1 do Núcleo Bandeirante, CED 1 do Itapoã e CEF 19 de Taguatinga. Dois co-


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or militarização ANTONIO CRUZ /AGÊNCIA BRASIL

Após solenidade em que recebeu o “conselho”, Ibaneis desce a rampa interna do Planalto ao lado de Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão

elo no segundo semestre légios rejeitaram a militarização: CEF 407 de Samambaia e Gisno, na Asa Norte. Pelas projeções do GDF, as próximas unidades a serem militarizadas são o Centro de Ensino Fundamental 19 (Taguatinga); o CEF 407 (Samambaia); Centro Educacional Gisno (Asa Norte); o CEF 5 (Paranoá) e o CEF 1 (Núcleo Bandeirante). “TEM DE IMPOR” – Mas, ao participar do evento no Planalto, Ibaneis foi aconselhado por Bolsonaro a desconsiderar a opinião da comunidade. “Temos aqui a presença física do nosso governador do DF, Ibaneis. Parabéns, governador, com essa proposta. Vi que alguns bairros tiveram votação e não aceitaram. Não tem que escutar. Tem de impor”, disse o presidente.

GDF recua no Gisno, mas impõe intervenção em escolas que rejeitaram a militarização O Governo do Distrito Federal (GDF) só respeitou a decisão do Centro Educacional Gisno, da Asa Norte, de não ter militarização em sua gestão porque a questão foi judicializada e, mais do que isso, houve forte pressão da comunidade escolar. A situação ficou tão ruim que até Rafael Parente pediu exoneração do cargo de secretário da Educação. Essa desistência deveria valer para todas as escolas que rejeitaram a intervenção da Polícia Militar (PM). Se no Gisno a vitória é da democracia, no Centro Educacional (CEF) 407, da Samambaia, o governador insiste em atropelar a decisão da comunidade escolar. Para justificar isso, usa o crime que ocorreu perto do CEF 407 de Samambaia, no dia 19/8, como desculpa. E ainda vai à imprensa dizer que, “após a facada ocorrida do lado de fora do CEF 407, ‘pessoas’ da comunidade pediram a militarização”. Vale lembrar, que dois dias depois da facada no 407, no dia 21 de agosto, um estudante foi esfaqueado na porta do CED 07 de Ceilândia, uma escola militarizada desde fevereiro deste ano. Os mais de 20 PM que estavam dentro da escola interferindo na gestão democrática não foram capazes de cumprir seu dever de evitar o crime. Essa é a prova de que a militarização de escolas não resolve o problema da violência social e que isso é desculpa para os governos Ibaneis e Bolsonaro darem prosseguimento à privatização da educação. O governador deveria se desvencilhar disso e respeitar as decisões do 407 da Samambaia, do Condomínio

Estância III, de Planaltina, e do CEF 1 do Núcleo Bandeirante. O problema é que a falta de respeito começa a 6,5 km do Palácio do Buriti: no Palácio do Planalto. No lançamento do programa do Ministério da Educação (MEC) de militarização de escolas públicas do país, no dia 5, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) mandou Ibaneis impor a militarização. “O conselho foi dado depois de o GDF ter desistido de adotar a gestão militarizada do Gisno da Asa Norte”, diz a imprensa. Importante destacar que essas atitudes autoritárias, a má gestão, a entrega do patrimônio e riquezas do país e outros comportamentos antiprofissionais, antidemocráticos, não condizentes com os de um Presidente da República, levou Bolsonaro a chegar no 8º mês de governo com uma rejeição assustadora. Hoje as pesquisas de opinião mostram que o índice de rejeição a Bolsonaro é gigantesco e que se as eleições fossem hoje ele não seria eleito nem no primeiro. Informações do site 247 dão conta de que “a reprovação pessoal de Bolsonaro subiu de 33% para 38% no Datafolha, enquanto na pesquisa CNT/MDA ela foi de 28,2% para 57%. Já a Vox Poppuli mostrou uma oscilação de 28% para 44% de pessoas dizendo “não gostar” do presidente. Na XP/Ipespe, a opinião negativa sobre Bolsonaro subiu de 26% para 33%”.


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Brasília Por Chico Sant’Anna

Paulo Miranda (interino) Presidente da TV Comunitária de Brasília

Desemprego cai no DF em junho e julho PED mostra redução de 19,5% para 18%, mas faltam oportunidades para jovens da periferia e do Entorno

O

Distrito Federal tem, atualmente, 308 mil desempregados. É o que mostra a última Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e divulgada pela Secretaria de Trabalho e pela Companhia de Planejamento do DF/Codeplan). A PED mostrou que a taxa de desemprego no DF caiu de 19,5% para 18% nos meses de junho e julho de 2019. É o menor índice de desempregados desde outubro de 2018, quando havia 336 mil pessoas fora do mercado formal de trabalho na capital da República. Este grande contingente de desempregados, porém, diz respeito apenas ao DF. A pesquisa não abrange os municípios na Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno (Ride), que inclui Abadiânia, Água Fria de Goiás, Águas Lindas, Alexânia, Cabeceiras, Cidade Ocidental, Cocalzinho, Corumbá, Cristalina, Formosa, Luziânia, Mimoso, Novo Gama, Padre Bernardo, Pirenópolis, Planaltina, Santo Antônio do Descoberto, Valparaíso, Vila Boa, Alto Paraíso, Alvorada do Norte, Barro Alto, Cavalcante, Flores de Goiás, Goianésia, Niquelândia, São João d’Aliança, Simolândia e Vila Propício, todos em Goiás, e Arinos, Unaí, Buritis e Cabeceira Grande, em Minas Gerais.

REPRODUÇÃO INTERNET

Uma das atividades econômicas que mais sofreram retração no DF nos últimos anos foi a construção civil, que lentamente começa a reagir

Disparidade entre a capital e a periferia Brasília vai completar 60 anos em abril de 2020. Há uma disparidade econômica entre a capital e sua periferia metropolitana: segregação socioespacial e periferias paupérrimas. Em minhas idas e vindas pelo DF, vi poucas oportunidades. Algumas igrejas evangélicas oferecem cursinhos de inglês ou aula de violão. Em Samambaia, por exemplo, existem

somente quatro escolas de Ensino Médio que funcionam à noite. E não há vagas para todos. Os serviços públicos de educação, saúde, segurança e seguridade social são precários no DF e nos municípios da Ride. E tendem a piorar com as medidas de governo federal de retirar do mercado mais de R$ 1 trilhão com a reforma da Previdência Social.

O cenário fica ainda pior ao analisar o valor do salário mínimo do ano que vem: R$ 1.039,00, ou seja 4,11 vezes menor do que o calculado pelo Dieese (R$ 4.277,04). A Constituição diz que o mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas deve atender aos gastos com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social.


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GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ SECRETARIA EXTRAORDINÁRIA DE REPRESENTAÇÃO DO GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ EM BRASÍLIA - SEAB

JOSÉ ALDINAN

A faixa dos 14 aos 26 anos tem dificuldade de conseguir o primeiro emprego

Situação é pior entre os jovens Os dados da PED-DF não são nada animadores para os jovens. Segundo a pesquisa, a taxa de desempregados na faixa de 14 a 26 anos atinge 40,4% das pessoa. Para piorar a situação, os dados apontam que as regiões administrativas com o maior número de jovens, proporcionalmente ao de moradores, são as que têm menor renda, tais como estabelece o Grupo 4 da pesquisa (baixa renda): Varjão, Fercal, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas, SCIA, Estrutural. A taxa de desemprego nas cidades desse grupo é a mais alta no DF, chegando a 24,6%,

de acordo com a PED. No Grupo 1, de alta renda (Brasília, Jardim Botânico, Lago Norte, Lago Sul, Park Way e Sudoeste), a taxa de desempregados é de um dígito: 8,6%. No Grupo 2, de média-alta renda (Águas Claras, Candangolândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Núcleo Bandeirante, Sobradinho, Sobradinho II, Taguatinga e Vicente Pires), o desemprego sobe para 17,7%. E Grupo 3, de média-baixa renda (Brazlândia, Ceilândia, Planaltina, Riacho Fundo, Riacho Fundo II, SIA, Samambaia, Santa Maria e São Sebastião, a taxa vai a 22,2%.

Integração só existe no papel A integração só existe no papel. As ações em conjunto entre o DF e os municípios do Entorno são raras. E quando ocorrem se mostram ineficazes para resolver problemas urbanos, sociais e econômicos. Com isso, as dificuldades se acumulam em velocidade maior do que a operação estatal. Sem solução em curto prazo, a questão vira jogo de empurra ou promessa de campanha de candidatos aos cargos de prefeito e vereador, tendo em vista as eleições de 2020. Um em cada quatro moradores de Brasília tem de 15 a 29 anos, faixa etária classificada como jovem. São cerca de 700 mil brasilienses (24,1%), segundo a pesquisa “O Perfil da Juventude do DF, feita pela Codeplan. Imagine este número na Ride, que, juntamente com o DF, forma hoje a terceira maior região metropolitana do País, com cerca de 4,5 milhões de pessoas.

ERRATA 1

ERRATA 2

Na publicação do Jornal BRASÍLIA CAPITAL, edição 428, Pág. 9.

Na publicação do Jornal BRASÍLIA CAPITAL, edição 428, Pág. 9.

Onde se lê: PREGÃO ELETRÔNICO 01/2019-CPL/SEAB Abertura de Proposta dia 06/09/2019 ás 09h. Sessão de Lances dia 06/09/2019 às 10h.

Onde se lê: PREGÃO ELETRÔNICO 02/2019-CPL/SEAB Abertura de Proposta dia 06/09/2019 às 14h. Sessão de Lances dia 06/09/2019 ás 15h.

Leia-se: PREGÃO ELETRÔNICO 01/2019CPL/SEAB Abertura de Proposta dia 18/09/2019 ás 09h. Sessão de Lances dia 06/09/2019 às 10h.

Leia-se: PREGÃO ELETRÔNICO 02/2019CPL/SEAB Abertura de Proposta dia 18/09/2019 às 14h. Sessão de Lances dia 06/09/2019 às 15h.


GARANTIR

À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE Com atribuições previstas no artigo 136 do ECA, o conselheiro tutelar atende crianças e adolescentes diante de situações de violação de direitos. Também é dever do conselheiro atender e aconselhar os pais ou responsáveis dessas crianças e adolescentes. A partir do atendimento, o profissional aplica medidas de proteção.

Votação: 6 de outubro.

Escolha os conselheiros tutelares de sua cidade. Acesse: conselhotutelar.sejus.df.gov.br e confira o seu local de votação.

o d l e lar. p a p Tute o é iro e s Es selhe n Co


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ESPÍRITO

José Matos Divaldo, o mensageiro da paz Filme sobre a história do maior médium brasileiro da atualidade estreia quinta-feira, dia 2 Com estreia marcada para quinta-feira (12), o filme “Divaldo, o mensageiro da paz”, mostra a vida do maior médium e orador espírita brasileiro da atualidade. Aos 92 anos de idade, e desde os 18 exercendo a mediunidade, principalmente na tribuna espírita e psicografia, Divaldo Franco é hoje um andarilho pelo Brasil e pelo

mundo divulgando a Doutrina Espírita fundada por Allan Kardec. Em 1952, juntamente com seu primo Nilson, fundou, em Salvador, um orfanato no qual criou e educou cerca de 800 crianças. Esse orfanato hoje é uma escola profissionalizante para cerca de 3 mil crianças e jovens pobres em Pau da Lima, um dos bair-

NUTRIÇÃO

Caroline Romeiro Frango com batata doce Somente essa combinação dá certo para o ganho de massa muscular? Certamente, em algum momento da vida você já viu alguém servindo no prato, frango com batata doce e justificando que estava de dieta. Também já deve ter flagrado uma marmitinha com esses mesmos alimentos.

Isto pode ter lhe criado a imagem de que frango com batata doce faz parte do mundo fitness. Afirmo isso porque nós, nutricionistas, que atendemos em consultório e estamos antenados às redes sociais escutamos isso

ros mais pobres de Salvador. Divaldo é um fenômeno editorial com mais de 200 livros publicados em português e em outros idiomas. Com somente o segundo grau, encanta pelo conhecimento e memória, discorrendo sobre fatos históricos com detalhes de nomes e datas. No início da mediunidade, Divaldo, oriundo de lar católico, teve muita resistência e problemas para aceitar e vivenciar suas faculdades. Certa vez teve de escapar de um psiquiatra que, a pedido do seu chefe, que o considerava louco, queria lhe aplicar choques elétricos. Uma das qualidades de Divaldo, desde o início, além do gosto pelo conhecimento, com várias horas de estudo por dia, foi ter procurado e se aconselhado com grandes vultos do Espiritismo, tais como Chico Xavier, Carlos Pastorino, Viana de Carvalho,

entre outros. A graça não é de graça, e como dizia Einstein, é 99% de transpiração e 1% de inspiração. Todos os grandes médiuns do Espiritismo se destacaram pelo gosto do conhecimento e a prática da caridade. Divaldo gasta várias horas por dia dedicadas ao estudo, assim como fizeram Chico Xavier, Ivone Pereira, Carlos Pastorino, dentre outros. Eles obedeceram a máxima espírita: “Espíritas, amai-vos e instrui-vos!” Divaldo tem cumprido sua missão divinamente bem. Talvez, esteja indo além do programado. Portanto, o filme é uma justa homenagem ao mensageiro da paz, neste momento de graves turbulências em nosso país.

a todo momento. Inclusive, recebi um pedido de leitor para escrever sobre o assunto. Então vamos lá... Por que essa combinação ficou tão popular? Quem faz exercícios e almeja aumentar a massa muscular precisa de uma proporção que gira em torno de 3 por 1 de carboidratos e proteínas. Considerando que a batata doce cozida apareceu na lista de alimentos com baixo índice glicêmico, ela naturalmente se tornou a queridinha de muitos nutricionistas, por ofertar uma quantidade significativa de carboidratos complexos, o que é fundamental para o estímulo de insulina e para o ganho muscular. Porém, sem ter grandes picos, ou seja, não faz com que a gente tenha um acúmulo exagerado de gordura (claro, que tudo depende da quanti-

dade e do estímulo do treino). Além disso, o frango é um alimento proteico de alto valor biológico, saboroso e prático, o que fez com que caísse no gosto do pessoal do mundo fitness. A pergunta é: somente essa combinação dá certo para o ganho de massa muscular? Claro que não! Aliás, ter uma alimentação variada faz toda a diferença não só para os resultados estéticos, mas também para a saúde. Outras combinações têm o mesmo efeito do “frango com batata doce”. Quer saber mais? Procure um nutricionista!

José Matos Professor e palestrante

Caroline Romeiro Nutriocionista e professora na Universidade Católica de Brasília (UCB)


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O homem pensa FOTOS: DIVULGAÇÃO

Novo livro de Muniz Sodré leva o leitor a conhecer a secular submissão das comunidades nagô aos interesses de impérios colonialistas europeus Mario Pontes

E

m seu novo livro, Muniz Sodré – professor da UFRJ e autor de expressivo número de obras de reflexão – indica já no verbo do título, Pensar nagô, o que nas páginas seguintes serão as sementes da conclusão: o mais adequado e frutífero quando de algum modo e medida lidamos com o ser humano, na dimensão pessoal e mais ainda na coletiva, consiste em nos esforçarmos por descobrir o que ele pensa, e por quê. Sem permitir que preconceitos nos desviem do foco, nos impeçam, por exemplo, de perceber, como o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), “que o mundo é a totalidade dos fatos e não das coisas”. Realmente, não é tão difícil perceber que a compreensão de visões menos rígidas, mais abertas, próximas da existência, como a do filósofo austríaco, ainda se acham longe de universalizar-se. E não só pelo fato de que, no decorrer dos séculos, integrantes de muitos grupos humanos tenham forçosamente descido à condição de subordinados, reduzidos ao silêncio, não aceitos como seres capazes de pensar o universo na sua extraordinária largueza e em particular no tocante às construções simbólicas. Mas quem são esses nagôs tratados no livro de Mu-

niz Sodré? Nagô identifica um grupo racial africano – ou uma nação, como ainda se costuma dizer, com certa frequência, de aglomerados semelhantes. Grupo que se espalhou pelos territórios de vários países da África Ocidental, particularmente a Nigéria e o Benin. E que após os Descobrimentos – à semelhança do que ocorreu com vários outros ramos raciais –, teve muitos dos seus integrantes escravizados, trazidos para o lado de cá, forçados à rudeza de tarefas agrícolas, particularmente em território baiano.

Muniz Sodré: quando lidamos com o ser humano, na dimensão pessoal ou coletiva, o mais adequado é descobrir o que ele pensa

COMPLEXIDADE DOS MUNDOS Apesar da dura submissão aos senhores da nova terra, os nagôs acabariam distinguidos pela amplitude de seus conhecimentos, complexidade de suas criações culturais, incluídas aí as que motivam as manifestações religiosas. Percebeu-se que nas suas formas de dirigir-se aos deuses também havia espaço para a manifestação artística e, mais importante, para a conscientização da grandeza e complexidade do mundo, dos mundos, portanto do Universo. Dadas tais qualidades, passaram os nagôs a interessar pelo menos a parte mais atenta da intelectualidade contemporânea, o que resultou na abertura de caminhos para o processo de reavaliação e pleno reconhecimento de suas possibilidades humanas. Mas o estudo de Muniz

Sodré vai além do episódio baiano, cuja importância cada vez mais se torna visível. Insatisfeito com o que resulta do conhecimento das relações entre nagôs e brasileiros, amplia os horizontes da pesquisa. Leva o leitor a conhecer as raízes do caso: a secular submissão das comunidades nagô aos interesses de vários impérios colonialistas europeus. Multiplos são os efeitos negativos da supremacia desse poder estranho e duramente interesseiro. Domínio e exploração completam-se com atentados culturais, como a negação da qualidade intelectual do oprimido. Para fortalecer o domínio, muitos pensadores coniventes com a supremacia colonial tentaram convencer os leitores que a inteligência dos africanos – dos nagô em particular – seria inferior à dos europeus.

HOMENS-BICHO - De fato, impressionante quanto os horrores do colonialismo é o número de celebrados pensadores europeus que, desde o início da venda de escravos africanos aos fazendeiros das Américas, usaram seus instrumentais filosóficos para convencer as gerações de que os povos do chamado continente negro eram tão precariamente humanos, que sobre eles seria adequado dizer que não tinham alma e, portanto, não podiam pensar. Eram bichos: e como tal nada impedia que fossem explorados, torturados, eliminados. Em tempos recentes, porém, intelectuais de espírito aberto assumiram a tarefa de iluminar, criar novas premissas para o conhecimento filosófico; de pensar questões tão elevadas quan-

to a capacidade humana de intervir no próprio destino. O livro de Muniz mostra ao leitor brasileiro – e este é um dos seus méritos – a dupla face de boa parte da intelectualidade internacional diante do problema. Primeiro, o que em favor da complexidade cultural já foi alcançado com as obras de vários inovadores da filosofia europeia na segunda metade do século XIX e primeiros decênios do século atual. E, como nada é perfeito, chama a atenção, igualmente, para as reações de muitos pensadores, também europeus na maioria, que nesse mesmo período se obstinaram em negar a capacidade dos nagô de conceber o universo com um grau surpreendente de realidade. Vale a pena apreciar o confronto.

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