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MUNDO DAS IDEIAS - EDIÇÃO 6 - OSÓRIO, 29 DE AGOSTO DE 2019

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S OLANO REIS O medo da

Diferentemente do que ocorre na arte, no caso da arte da vida humana não é olhar o outro, como se acredita neste momento histórico, que vai completar a obra. O julgamento do outro é detalhe. Significativo, às vezes. De somenos importância, na maioria dos casos. O olhar revelador, na verdade, é o do próprio indivíduo sobre si mesmo. E,

Entre nuvens e rochas: A vida se configura em um arcabouço de crenças e razão

Fabiano de Souza Marques Página 2

Versos úmidos

Julia Darol Dall Alba Página 3

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esse olhar, em muitos casos é despido da naturalidade necessária para que o ser tenha uma ideia mais exata sobre o seu próprio caminho e sobre suas potencialidades. Não faz muito, o que fugia ao padrão do aceitável era mantido escondido. Um ser que não fosse “normal” era afastado do olhar dos outros. Era uma vergonha para a família manter alguém que

Poesia Tragilouca

Marcelo Alacarini Página 3

“não deu certo”, que não preencheu todos os requisitos do padrão vigente. Uma limitação física qualquer era uma humilhação. Muitos viam nisso uma manifestação do criador. Uma ira da divindade. A família que recebia um ser “incompleto”, “defeituoso” carregava uma maldição, uma dor que não necessariamente precisava ser compartilhada. Havia algum demérito nisso. E o orgulho e a vaidade reinantes então não permitiam que a família validasse a existência do individuo. Temia-se o julgamento. Temia-se o olhar do outro. Temia-se a reprovação. É certo que em alguns locais, ainda desprovidos dos ventos que limpam as mentes e de alguma energia luminosa que torne a realidade mais clara, ainda impere o medo e a ignorância. Porém, nosso mundo caminha para a aceitação das diferenças. Chegará o dia em que o homem reconhecerá em si a própria obra de arte. Deixará de olhar para o outro com a sisudez do julgamento. Usará sua experiência para caminhar com mais segurança. Talvez demore algum tempo. Bem mais que anos. Bem mais que décadas. Talvez séculos. Chegará o dia. Isso é certo.

Amazônia em chamas

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m filme, uma música, uma pintura, uma obra de arte qualquer vai além da câmera, das luzes, dos enquadramentos, da edição, da partitura, do arranjo, do ritmo, ou da tela, dos pincéis e da moldura. O expectador assiste a um filme não como se residisse ali alguma falsidade, alguma interpretação. A história existe por si só. Ela é viva. Ficção científica, comédia, drama. Não importa: há verdade, dor, riso, sofrimento e tudo o quanto os personagens revelam nos diálogos, nos atos e nos gestos. Uma pintura bucólica deixa de ser uma simples pintura quando recepcionada por um olhar acolhedor e sincero. A tinta deixa ser tinta. Ganha vida. Envolve e convence. Emociona se o sujeito assim permitir. Envolvido, tocado pela história que o filme contém, pela fluidez da música ou pela penetrante visão diante da paisagem, a pessoa deixa de ser um expectador. Em regra, a emoção cria condições para que o coadjuvante vire protagonista. Isto porque, na arte, é a percepção do outro que valida a obra. Claro que a escultura não vista ainda é escultura. Não perde sua essência. Mas, ela só se completa diante do olhar atento e cúmplice do outro.

Andrea Borghetti Página 4


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FABIANO DE SOUZA MARQUES Professor, Escritor e Pesquisador fabiano_desouzamarques@yahoo.com.br

Entre nuvens e rochas: A vida se configura em um arcabouço de crenças e razão Ano de 1983. Noite iluminada pela lua cheia. Boa para caminhar na estrada que se alongava entre matos e árvores distantes. Colocavam os pés na estrada de chão batido algumas pessoas. Caminhavam por essa estrada um menino com mais ou menos dez anos de idade e três amigos que eram moradores fixos daquele lugar. Para o menino, aquele era um lugar encantado. Caminhavam rápido, pois já se passava das 10 horas. Era noite e lugar de criança é em casa aquelas horas: os mais velhos diziam para as crianças naquela época. A estrada de chão batido levava até a casa lá em cima do monte, onde moravam seus avós. Era uma estrada única que fazia volta em um morro, onde o “Galo cantava cedo’. Caracterizavase por ter nela algumas pedras de rolagem (pedras de rio). Naquela noite quase não tinha vento. A Oeste do lugarejo fica um morro oponente. Em seu cume uma rocha branca (conhecida como pedra branca). Parecia que era o testemunho dos moradores que lá habitavam. A estrada costeava a lagoa com sua ilha e casas humildes que abrigavam moradores do vale. Poucos moradores residiam ali, descendentes, na sua maioria, de africanos, açorianos, guaranis, local de influência da religião católica cristã. Perto da casa dos avós havia uma Igreja, pequena, que era o centro social muito frequentado pelos moradores. Naquela

relâmpagos atrás das nuvens. E lá onde está acontecendo isso, fica a praia. Sempre chove forte nessa época! Pois, o menino era morador de Capão da Canoa. - Fica quieto! Retrucou o mais velho. Tu não sabes o que fala.

noite os meninos saíram correndo da missa para casa dos avós. E um dos meninos, o mais velho, beirando catorze anos disse: - João, chega aqui ligeiro! Olha lá para o céu, atrás daqueles clarões! - Oh meu Deus! Respondeu o outro menino um pouco franzino e apavorado pela imagem que todos viam. - Só pode ser um milagre de Fátima! Retrucou com a voz áspera o João (o mais velho dos amigos).

- Corre, busca a Bíblia para lermos sobre o milagre de Fátima! Sei que lá na Bíblia fala sobre as três crianças que observavam uma nuvem e logo após um clarão apareceu, refletindo a imagem e nossa senhora de Fátima que revelou três segredos a elas. E aqui está ocorrendo igual! Continuou a falar o mais experiente deles. E o menino que não era morador dali e que estava visitando seus avós, disse espontaneamente: - Gente, calma! Aqueles clarões lá no céu são

Trago essa narrativa, pois eu morava na praia de Capão da Canoa. Aos finais de semana visitava os parentes (tios e avós) na encosta da Serra, no distrito de Prainha, em Maquiné. Essa cena orbita a minha mente até hoje. É um exemplo da minha inclinação e interesse pelas coisas que ocorrem na natureza. É importante dizer que o lugar se faz de pessoas. No meu caso, as pessoas que pude conhecer, hoje estão em minha memória e são frutos da minha experiência. Essas lembranças trago até hoje. Um local pequeno, mas que ainda está configurandose para quem ficou e para quem só passou por lá. Não somente por um determinismo geográfico. Acredito que a vida se configura em um arcabouço de vários eventos que nos formam, como os sociais, econômicos e ambientais. Entre a razão do evento natural e das crenças que envolvem uma coletividade em determinado momento da existência. Não existe uma receita binária e pronta, são os mais variados conjuntos de vivências que nos formam enquanto sujeitos e, consequentemente, como sociedade.

EXPEDIENTE

Mundo das Ideias Caderno encartado no Jornal Bons Ventos

Atendimento: Estética Sublime Essência Rua Getúlio Vargas - 240 - Osório Agendamentos: 99631-5940 (WhatsApp)

Jornalista responsável: Antão Sampaio RMT 5514 Edição: Solano Reis Diagramação: Gregory Santos Contato: solreis@terra.com.br Impressão: Soller Indústria Gráfica


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Professora e Doutoranda

Versos úmidos Há tempos tenho engasgadas comigo estas palavras sobre a poesia extemporânea de Delalves Costa. Tem sido difícil regurgitá-las, não que faltem epifanias, devaneios, inspirações, mas de fato vivemos em épocas de versos secos. Nossa poesia vem pouco a pouco secando, padecendo frente às trevas do obscurantismo, a arte, elemento essencial da transpirAção social, subloca-se cada vez mais, naqueles cantos de difícil acesso, entre as rachaduras do asfalto. Em suas atemporalidades, Delalves, anuncia em tom de efemérides o efêmero daqueles cujos olhos morrem ao ver o mundo sem poesia. E o tempo da poesia mordaz/ audaz/voraz/vivaz/tenaz/sagaz, refaz a vida, nos seus descaminhos, circuitos, bifurcações, algoritmos. Umedece as palavras, germina sonhos, afetos, vibrações, luta e resistência à secura. Por vezes, sucumbe ao trágico exaurido de Os, sem memória, sem cor, sem sabor, sem cheiro, sem versos, secando. Quando, pequenas baratas, metaforizadas na Metamorfose, gestam suspiros úmidos, como pequenas gotas de orvalho a invadir os lábios secos, os olhos secos, a alma seca, serenas e potentes. O caminho fora de tempo é úmido, dentro dele, seco. Delineia-se um trajeto temPoesia, correndo ao mar, banhando-se na chuva, jorrando nas gotas de Oxum, afastando as temporalidades desumanas. Aventurandose em preâmbulos de Iansã ungindo as palavras como gotas, mergulhando até o amanhã de Quixote, trazendo os versos daquelas quimeras que ressoam frente às mordaças viscerais, atrevendo-se às trevas, pelo poder da arte, que transforma sempre e tanto, tantos a todo tempo. Coisas de vida que extrapolam, para além das extemporalidades, das desumanidades, coisas que restituem o que teimam em florescer, rechaçando os tempos de seca, trazendo primavera a qualquer tempo, para além das fronteiras desérticas destes planos. O poeta é um metamorfo insético poliniza a dor/ polinizador. Na linha de frente, avant garde, pioneiro, combativo, munido de versos duchas umidificadoras de ambiente. A seca traz fome, miséria, seca a alma, vidas secas que murcham. É preciso afastar o eterno sopro da seca, varrer a poeira da fonte, o vazio dos corpos. O poeta com sua pá, extrai arte e reparte, circunscreve-se nos ponteiros que giram o tempo, no tempo, regozija-se à carne putrefata daqueles que não veem a poesia pá. Ecoam palavras nas correntezas, inundando almas, vidas, sonhos, desejos, transformando paisagens. Desenhando percursos, antes áridos, estéreis, ásperos, sorvendo a terra nutrição profunda, inundando palavras, transbordando poesia. Trazendo chuva no sertão das boçalidades, exPulsando temores de tempos taciturnos. Sendo a reconstituição da chaga aberta, d´alma inquieta, da tela em branco, permaneSendo amor o tempo todo. Sorvendo a umidade que germina versos em lágrimas de tempo. Kairós é o tempo que Delalves imprime aos versos fora do tempo, Kairós é o tempo da contemplação, do afeto, daquilo que ultrapassa a seca, os ponteiros do relógio, vencendo a aridez de pensamentos, preconceitos e tiranias, inundando com poesia as mentes secas de ódio. Poema barragem, enxurrada de versos, inundação da alma, umedecendo a vida. Assistindo ao futuro repetir o passado. Delalves transPõe água, é Oasis no deserto. Pequenas gotas de poesia inundam aos corações secos, mas ainda crédulos em presentes melhores. Extemporâneo é o poeta, extemporânea é a arte, extemporânea é a obra, açude, nascente, riacho, cascata, lágrima, suor, gota, onde, líquido em verso, umidificando as paredes secas destes tempos. Delalves encontra tempos, rompe contratempos, da arte que é e não é ao mesmo tempo. Que estes tempos acolham a poesia, os poetas, a arte com pêndulos a embalar o tempo e vento, que possamos dissipar as vidas secas com versos úmidos.

MOARCELO AI LACARINI BSERVADOR DO MPONDERÁVEL

Poesia Tragilouca Um dia vestido, de saudade viva, lembrei do irmão que sofria, moço, forte, com gosto da estiva, mas que lá pelas tantas, sumia. O coração apertava, no pavor da ausência, na procura do saber, sem rumo a seguir, aumentando o desolar, na perda da paciência, na revolta do esperar, na esperança do pedir. Tantas vezes o pranto, regando o desespero, foi estancado de pronto, eis que surge, o faceiro. Algumas vezes estropiado, sem lembrar do que passou, outras vezes humorado, feliz porque voltou. Por fim tive que fazer, o que muito me custou, pedir ajuda a um doutor, que uma solução ditou. Foi lá ele temeroso, morar onde, mal sabia, entre muitas paredes, remédios e terapia. Um dia, em conversa no jardim, ele me disse calmo, como muito não via: “Aqui me sinto sozinho, as vezes tenho medo. Aqui só tem louco, e uns até bem velhacos, que tiram o meu sono, e alimentam meus sonhos”. “Às vezes, mano, sei que não sou muito certo, mas isso nem sempre acontece, só quando apago. Me perdendo nas viagens, nos dramas que trago. E nessa hora preciso, de algo prá me agarrar”. “Nessas horas, às vezes uma conversa me acalma, nem precisa de remédio, só um ouvido e um sorriso, alguém que possa estar calmo, e que seja meu amigo”. “Sei que é difícil para ti, dedicar todo o tempo para mim, mas pensa um pouco no muito amor, que podes me dar com pouco tempo que tens”. “Me leva daqui um pouquinho, prá ser feliz para sempre”.

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JULIA DAROL DALL ALBA


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ANDREA B ORGHETTI

MUNDO DAS IDEIAS - EDIÇÃO 6 - OSÓRIO, 29 DE AGOSTO

DE

2019

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Amazônia em chamas Um dano irreparável à saúde do planeta

Os acontecimentos na Amazônia assustam. Um dano irreparável à saúde do Planeta. Os políticos, instituições governamentais (ou não), os movimentos sociais se posicionam. E começa o velho jogo de “empurra empurra”, um querendo culpabilizar o outro. Essa tática de autopromoção (ou denegrir a imagem do outro) às custas de grandes catástrofes é muito antiga. Já devia estar defasada. Invés de olharem para o desastre com os olhos espirituais, continuam apenas na superfície rasa do mundo da ignorância. Acontecimentos como estes deveriam ser vistos como uma oportunidade de nos voltarmos para dentro e discutir valores. Quanto vale uma árvore, quanto vale uma vida, quanto vale uma floresta inteira, quanto vale todo nosso ecossistema? O valor de uma catástrofe está em transcender a visão do problema para uma solução. É como no conceito do direito romano arcaico de “homo sacer” (homem sagrado). A partir de um episodio negativo, que seria como um delito contra a própria divindade; transformamos o mal em algo positivo. Que possamos com esse episódio crescer, amadurecer e estabelecer políticas publicas, ambientais, governamentais, fiscais, leis e redes adequadas e eficazes para a proteção e cuidado com a floresta. Deus deu ao homem a Terra Em Gênesis fala que e tudo que há nela para

Rua Machado de Assis - 282 - Osório/RS

governar, para lhe servir de sustento e zelar por ela. A Amazônia é de responsabilidade de todos. Cuidá-la vai desde atitudes simples como não joga papel no chão, separar e descartar corretamente o lixo, diminuir o consumo de industrializados, carne, plástico, não desperdiçar água, etc. E não só ficar levantando bandeira disso ou daquilo, contra este ou aquele enquanto a floresta queima, e o caos se instaura. Para o Guarani, o mundo que vivemos está fadado a acabar. Em sua mitologia falam sobre o Grande Dilúvio que acabou com a primeira Terra. Deus, Nhanderú, Nosso-Pai criou a Terra e o Homem para nela habitar. Mas o Homem foi ganancioso, não cuidou do que era seu de direito e perdeu tudo que tinha. O segundo mundo, a Terra Nova (este que vivemos hoje), está prestes a acabar. Dessa vez pelo poder de uma simples caneta. Enquanto o juruá (não-índio), homem branco continua perdido num mundo de papel, leis e dinheiro; os Guarani cantam e dançam dentro da Opy, Casa de Reza para que o mundo continue no lugar. Nos aproximamos da época do Nhemongaraí. Época de selecionar, benzer e plantar as sementes para a próxima colheita. É durante as festividades do Nhemongaraí que ocorre o batismo e nominação das crianças. O Karaí (ou Cunhã-Karaí), ancião

liderança espiritual de uma aldeia recebe em oração por inspiração divina as direções dos nomes que as crianças terão. A escolha dos nomes é um momento crucial da vida de um Mbyá pois junto com o nome (que são num total de nove nomes, cinco para homens e quatro para mulheres) a criança guarani herda todo um conjunto de características, humores e determinações envolvidas associadas à este nome e carregará este fardo por toda vida. Cada vez que o nome da criança é chamado, são reforçadas todas estas características do seu nome. Tal é a responsabilidade do Karaí que se um nome não está de acordo com a direção da qual o espírito dessa criança provém no mapa celeste, ela será uma criança inquieta, chorona e doente. Também a época do Nhemongaraí é para os adultos uma oportunidade de rever sua conduta e através dessa análise, aperfeiçoar sua “adultidade”. Essa busca do Guarani por se tornar uma pessoa melhor é a senda de uma vida inteira. Que possamos diante dessa imensurável catástrofe olhar para dentro de nós mesmos, nos questionarmos sobre nossos valores e os valores que estamos passando para nossas crianças, e com isso, aperfeiçoar nossa “adultidade” e nos tornarmos pessoas melhores.

Rua 7 de Setembro, 385 - Sala 602 - 6º Andar - Ed. Manhatan - Centro - Osório Fone: 3663.3736

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Mundo das Ideias  

Caderno Especial do Jornal Bons Ventos

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