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Ano 14 - Nº 118 - Setembro 2015

Distribuição Gratuita

Rio de Janeiro www.bafafa.com.br

“Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis”

Entrevista

a c i j u M e p José Pe Ex-presidente do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano, conhecido apenas como Pepe Mujica, foi recebido como “pop star” no Rio de Janeiro. Além de agraciado como Personalidade do Ano pela Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul, Mujica palestrou para milhares de estudantes na concha acústica da UERJ, onde foi ovacionado. A história de Pepe Mujica se parece à de um filme. Nascido em 1935, o ex-guerrilheiro e líder do movimento Tupamaro participou de assaltos e sequestros até ser preso e passar 14 anos atrás das grades, sendo libertado em 1985 com a queda da ditadura militar. Posteriormente, foi deputado, ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca e presidente da República em 2010. Seu mandato foi marcado pela simplicidade e austeridade. Chegou a abrir mão de 90% do salário, que doava para instituições de caridade e circulava por Montevidéu em um Fusca. Sua residência é um sítio nos arredores da capital, onde cria galinhas e cultiva produtos agrários orgânicos.

NESTA : O EDIÇÃ

Em sua visita ao Rio, o agora senador Pepe Mujica dirigiu várias mensagens aos brasileiros, em entrevistas e discursos. Entre elas, a de que o Brasil tem de aprofundar sua integração com a América Latina. “Vocês não precisam deixar de ser brasileiros, mas precisam também ser latino-americanos”. Sobre a crise política, defendeu a presidente Dilma: “Ela é uma grande mulher. Tenho um grande carinho pelo povo brasileiro. O Brasil tem força suficiente para superar as dificuldades pelas quais está passando”, assinalou. Sobre utopias, foi enfático: “Só a multidão pode mudar a realidade. Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis.” E criticou também a tentativa de desestabilização das democracias no continente. “A nossa democracia não é perfeita porque não somos perfeitos. Mas, temos que defendê-la para melhorá-la, não para sepultá-la”.

Páginas 08 e 09

Leonardo Boff Emir Sader José Maria Rabelo Fatima Lacerda Ricardo Rabelo Angela Carrato Mauro Santayana Roberto Amaral


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Editorial

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A crise da imprensa

A imprensa brasileira tem um prazer compulsivo, quase mórbido, de falar da crise nacional, como se ela própria não vivesse uma crise pior ainda. E mais grave, provocada em grande parte pelos pecados que vem cometendo ao longo dos anos. É comum alegarem que as dificuldades atuais resultam da concorrência da internet, as chamadas mídias eletrônicas. Realmente, esse problema existe, mas não basta para explicar a situação de extremas dificuldades vividas por nossos principais órgãos jornalísticos. Trata-se de uma meia verdade. Há o fator internet, mas o fator principal da crise é outro. Nossos órgãos informativos foram gradativamente perdendo sua credibilidade, tornando-se balcões de negócios, a serviço de interesses quase sempre inconfessáveis. Títulos que surgiram com a proposta de renovação e modernidade se transformaram em instrumentos de extorsão e achaque. É isso mesmo que o leitor já terá percebido: estamos particularizando o exemplo da revista Veja, hoje a expressão-mor do baixo meretrício da imprensa nacional. A imprensa vive sua pior crise, a crise moral causada por ela própria, em anos de desrespeito ao leitor e de aviltamento de sua linha editorial. De um modo geral, a grande mídia renunciou a seu papel de informar com honestidade, de pensar e opinar com um mínimo de independência. Daí a crise moral que a atinge, cada dia mais grave. Como é possível, por exemplo, um jornal como a Folha de

São Paulo, que se diz o nosso mais importante diário, dedicar quase a metade de sua primeira página, no alto, a uma foto de dois bonecos infláveis nas comemorações do dia 7 de setembro, em Brasília, com caricaturas altamente injuriosas da presidente da República e do principal líder popular do País? A divulgação das peças nada teria de criticável, não fosse o destaque desmesurado que lhes foi dado, como se o jornal estivesse endossando a agressão. E assim fazem O Globo, O Estado de São Paulo e seus congêneres menores pelo resto do País, cavando seu próprio descrédito perante o leitor, sendo cada vez menos levados a sério. Nos dias de hoje, quando o leitor se depara com uma notícia estranha num desses jornalões, sua primeira reação é essa: vou conferir na internet. Porque a palavra daqueles jornais passou a valer muito pouco. Quanto à concorrência da internet, a imprensa poderia ter agido com maior competência, como estão fazendo alguns jornais e revistas em outros países. Mas aí voltamos ao mesmo ponto: se uma publicação não tem crédito na edição comum, não terá também na edição eletrônica. A mídia vive seu calvário, com a demissão em massa de funcionários, a venda de parte significativa de seus bens, a eliminação de edições e cadernos inteiros, a drástica redução do número de páginas. A crise terá solução? Sim, desde que surja uma nova imprensa, comprometida com a informação correta dos fatos e com os interesses da maioria de seus leitores. Utopia? Pode ser, mas não há outro caminho.

Onde encontrar: Associação Brasileira de Imprensa, Sindicato dos Jornalistas do Rio, São Paulo e BH, Ordem dos Advogados do Brasil, Câmara dos Deputados, Sindicato dos Petroleiros, Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal, Escola de Comunicação, Instituto de Economia, Instituto de Filosofia, Escola de Serviço Social, Escola de Música, Instituto de Psicologia, Fórum de Ciência e Cultura, Faculdade de Direito (UFRJ), UERJ, Café Lamas, Fundição Progresso, Cordão da Bola Preta, Botequim Vaca Atolada, Bar do Gomez, Bar do Serginho, Bar do Mineiro, Casarão Ameno Resedá, Faculdade Hélio Alonso, Arquivo Nacional, Livraria Ouvidor (BH), Livraria Quixote (BH), Livraria Scriptum (BH), Livraria Cultural Ouro Preto (Ouro Preto), Sindicato dos Engenheiros, Faculdade de Engenharia da UFRJ e Bar Bip Bip, Café do Museu da República, CUT, Sindicato dos Bancários, Diretórios Acadêmicos das Faculdades de Arquitetura e Geografia da UFF, Escola de Cinema Darcy Ribeiro.

Diretor e Editor: Ricardo Rabelo - Mtb 21.204 (21) 3547-3699 bafafa@bafafa.com.br

Direção de arte: PC Bastos bastos.pc@gmail.com

Diretora de marketing: Rogeria Paiva (21) 3546-3164 mercomidia@gmail.com

Circulação: Distribuição gratuita e direcionada (universidades, bares, centros culturais, cinemas, sindicatos)

Praça: Rio de Janeiro São Paulo Belo Horizonte Publicidade: (21) 3547-3699 | 3546-3164 mercomidia@gmail.com Tiragem: 10.000 exemplares

Agradecimentos: Aos colaboradores desta edição. Realização: Mercomidia Comunicação

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Lula e o medo das elites José Maria Rabêlo*

As baterias estão armadas. Lula passa a ser o alvo. Como acontece com Dilma, não pelos erros que possa ter cometido, mas pelos seus inúmeros acertos em favor do Brasil e seu povo. As elites tradicionais, que governaram no País desde a independência, não aceitam nenhuma liderança que possa ameaçar seus privilégios seculares. Foi assim com Getúlio Vargas, foi assim com João Goulart, foi assim com Leonel Brizola, está sendo assim com Dilma e foi sempre assim com Lula. O Brasil para eles é o imenso latifúndio, de que nos fala a canção, em que sua voz deve ser a única a ser ouvida. Por detrás da atual crise política, e é preciso ter os olhos e os ouvidos bem abertos para entendê-la, estão as valiosíssimas jazidas do pré-sal e do êxito de seu aproveitamento pelo governo brasileiro. Não é à toa que a Petrobras se encontre no epicentro da agitação golpista. Nos últimos nove anos, a produção do pré-sal subiu de 40 mil barris por dia para mais de 800 mil no último mês de junho; a expectativa é de que até o fim do ano alcance mais de um milhão. Estudos técnicos apontam a existência na área de uma reserva de mais de 200 bilhões de barris. Esses dados não só alentam os que acreditam no Brasil, mas excitam a cobiça da pirataria internacional. Todas as

crises mundiais, neste e no século passado, têm ou tiveram cheiro de petróleo. Por ele, os EUA destruíram o Iraque de Saddam Hussein; por ele a OTAN destruiu a Líbia de Muammar Gaddafi. Não porque fossem ditadores, mas porque seus países detêm grandes reservas petrolíferas, das maiores do mundo, que depois da guerra voltaram a ser exploradas pelas multinacionais holandesas, inglesas e norte-americanas. É o que pretendem fazer com nosso petróleo, como já vimos com algumas iniciativas, a exemplo do projeto do senador tucano José Serra, abrindo o pré-sal às empresas estrangeiras.

marginalizados e que agora podem influir nos destinos do País. Os filhos de negros e pobres frequentam as universidades, pois a educação deixou de ser apenas um direito dos ricos. Milhares de famílias têm agora onde morar, graças ao Minha Casa Minha Vida. Tudo isso é intolerável para os velhos e anacrônicos interesses, que não podem admitir que o Brasil se torne uma nação realmente livre e poderosa e que o povo assuma um papel decisivo na vida nacional. Daí, o ódio, a violência, o destempero verbal dos incansáveis provocadores que andam por aí com seus xingatórios e atitudes agressivas. Mais Médicos

Lula sempre se bateu por uma política nacionalista para nossas riquezas minerais. Sempre se bateu por uma orientação independente em nossa política externa, procurando fortalecer instituições, como o Mercosul e os BRICS, que oferecem ao mundo uma alternativa às pretensões imperiais dos EUA e de seus aliados. Internamente, seus projetos de distribuição de renda incorporam à sociedade milhões de homens e mulheres que sempre estiveram

A grande imprensa não noticia, mas os fatos estão aí. Pesquisa da conceituada Universidade Federal de Viçosa comprova a alta aceitação do Mais Médicos pelos usuários. Em uma escala de zero a dez, eles deram a nota média de nove, com a metade dos entrevistados atribuindo a cotação máxima. A pesquisa ouviu mais de 14 mil pessoas, em 700 municípios. Que dizem a respeito os nossos ilustres doutores e suas alienadas associações médicas, que continuam até hoje combatendo o programa? *Jornalista


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Quem vai chorar a morte de Semião Vilhalva? Fatima Lacerda* Quase ao mesmo tempo em que o corpinho de Ayslan era encontrado nas areias de uma praia da Turquia, Semião Vilhalva, de 24 anos de idade, líder dos guarani kaiowá em Mato Grosso do Sul, aqui no Brasil, levava uma bala na cabeça, quando tentava retirar de uma zona de conflito seu filho de cinco anos. Mas essa foto não saiu nos jornais. A onda de solidariedade internacional provocada pela foto do menino Ayslan Kurdi, um garotinho de três anos afogado no Mar Mediterrâneo, bem poderia se estender aos nossos guaranis kaiowá. O drama vivido pelos curdos e pelos guarani se assemelha em muitos aspectos. Em 2012, alcançou a assustadora marca de 863 o número de meninos e rapazes guarani kaiowá, a maioria entre 12 e 24 anos de idade, que optaram pelo suicídio, por não suportar viver confinados, expulsos de suas terras, perseguidos, explorados e mortos por pistoleiros e fazendeiros grileiros de suas terras. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados era de 145 habitantes para cada 100 mil. No Iraque, esse índice era de 93 pessoas em cada 100 mil (dados de 2012, tendo como fonte original a ONU). Os guaranis kaiowá, na época, deixaram uma carta testamento, explicando as razões dos suicídios em série. Um drama omitido pelos jornais, minimizado e desprezado pelos governos, até hoje sem solução. Dizia a carta: - Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje. Comemos uma vez por dia. (..) Mais adiante, concluía a carta, diante da sentença descabida de um juiz que expulsava 170 índios da própria terra, favorecendo grileiros:

- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. O conflito que a cada dia se agrava no Mato Grosso do Sul, com um número crescente de índios assassinados por fazendeiros e milicianos armados, em grande parte se deve à morosidade à brandura das autoridades municipais, estaduais e federais com os criminosos. No caso da morte de Semião Vilhalva aponte-se o dedo para uma decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em dezembro de 2009, acreditava-se que o sofrimento do povo guarani estava perto de acabar e a tão sonhada “terra sem males” parecia estar perto de ser alcançada. Naquela data, o presidente Lula assinou um decreto, homologando, finalmente, a demarcação das terras. Menos de um mês depois o decreto presidencial foi revogado pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O processo continua em andamento, alguns ministros do STF ainda não se pronunciaram, mas caminha com extrema morosidade. O que levou os guaranis kaiowá à decisão de retornar às suas terras. Mesmo depois da morte trágico de Semião Vilhalva e do destino incerto de seu filhinho de cinco anos, agora órfão – alguém lembra do seu nome? – a violência contra os guarani não arrefeceu. Pelo contrário. Da página eletrônica da Comissão Pastoral da Terra, foi extraído o seguinte depoimento, denunciando a inoperância das forças de segurança que, em tese, teriam sido enviadas para garantir a vida de suas famílias: Em mensagens enviadas por telefone uma liderança indígena desabafa, inconformada: “Eles não estavam aqui para impedir o conflito? Para impedir o massacre? Como, então, caminhonetes se juntam em bandos, e eles entram, atiram, matam e eles não fazem nada como se nem enxergassem isso? Esta Força Nacional está deixando os fazendeiros invadirem

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nosso território e se apossarem das sedes, aí eles vêm e fazem cordão contra nossa comunidade. Estão garantindo a devolução de nosso território para os fazendeiros e a DOF (Departamento de Operações de Fronteira), além de acompanhar os jagunços, mesmo quando estão armados, agora ajuda a levar comida para eles e abastecer os bandidos que mataram o Semião”. Hoje reduzido a cerca de 50 mil pessoas, distribuídos em sete estados brasileiros, os guaranis dividem-se em três principais grupos: Kaiowá, Nandeva e M’byá. A maior parte é formada pelos Kaiowá e vive no Estado do Mato Grosso do Sul onde vêm ocorrendo os conflitos mais acirrados. Também há índios guarani no Paraguai, Bolívia e Argentina. Kaiowá significa “povo da floresta”. Eles são donos de uma cultura rica, bastante espiritualizada, amam e respeitam a terra que consideram uma força viva. Como os curdos, são vítimas da ganância, da intolerância, do preconceito e da violência. No Brasil atual, a bancada “BBB” - bíblia, bala e boi - infelizmente majoritária no Congresso Brasileiro, é um embrião do Estado Islâmico, por seu radicalismo cego e desumanidade. Os milicianos a serviço dos ruralistas no Brasil atiram balas de borracha em bebês indígenas, acobertados pelo estado brasileiro. Paradoxalmente, a maioria do povo elegeu um governo acreditando que representava uma réstia de esperança para os oprimidos. Mas o genocídio indígena prossegue diante da omissão e da passividade das autoridades. Os mesmos que abriram o coração e as fronteiras para as vítimas da guerra na Síria, quem sabe conseguirão olhar para os lados e enxergar o sofrimento das nossas criançinhas indígenas, que continuam na condição de vítimas do maior genocídio de todos os tempos. *Fatima Lacerda é jornalista da Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br)

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Nosso futuro não será terceirizado Terceirização flexibiliza leis trabalhistas e enfraquece a luta dos trabalhadores Projeto de Lei da Câmara 30/2015, em trâmite no Senado: retrocesso que aumentará os índices de acidentes, mortes e trabalho escravo no Brasil. Das 79 mortes ocorridas no setor elétrico apenas em 2011, 61 foram de trabalhadores terceirizados. Hoje, os terceirizados representam 20% dos trabalhadores brasileiros com carteira assinada. Isso corresponde a cerca de 12 milhões de pessoas, que estão submetidas a um regime de trabalho com alto índice de exploração, pouca segurança e flexibilização máxima dos direitos trabalhistas. Os dados estão presentes no dossiê “Terceirização e Desenvolvimento - Uma conta que não fecha”, elaborado pela Secretaria Nacional de Relações de Trabalho da CUT em parceria com o Dieese. Para Gunter de Moura Angelkorte, diretor de negociações coletivas no Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio, o número de mortes e acidentes de trabalho tende a aumentar significativamente caso o PL 30/2015, que amplia esse modelo de contratação, seja aprovado. O engenheiro acredita que ampliar a terceirização significa precarizar ainda mais o trabalho. “É uma involução de todos os direitos do trabalhador, inclusive do direito a saúde, educação e lazer”. O Projeto de Lei da Câmara (PLC) 30/2015 deriva do

Projeto de Lei 4330/2004, de autoria do ex-deputado federal Sandro Mabel (PR-GO), empresário e dono da indústria de biscoitos MABEL, que foi aprovado em abril na Câmara por 324 votos a favor, 137 contrários e duas abstenções. Atualmente, a súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) autoriza a contratação de trabalhadores terceirizados, mas apenas para atividades-meio, isto é, atividades que não tenham relação com a atividade principal da empresa contratante. Mas caso o PLC seja aprovado no Senado Federal, a terceirização será possível também para atividades-fim. Assim, todo profissional poderá ser terceirizado, mesmo no setor público. Escravidão contemporânea Gunter avalia que permitir a terceirização de atividades-fim terá consequencias nefastas para a classe trabalhadora. “O Brasil vai se transformar em um país de trabalho escravo”, conclui. De fato, a relação entre a terceirização e o trabalho análogo ao escravo já pode ser comprovada. Segundo Vitor Araújo Filgueiras, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (CESIT) da UNICAMP e auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego, “dos 10 maiores resgates de trabalhadores em condições análogas à de escravos no Brasil entre 2010 e 2013, em 90% dos flagrantes,

os trabalhadores vitimados eram terceirizados, conforme dados obtidos a partir do total de ações do Departamento de Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae) do Ministério do Trabalho e Emprego”. A superexploração do trabalhador teceirizado ocorre principalmente porque a empresa contratante não é legalmente obrigada a se responsabilizar pelo pagamento e segurança desses funcionários, cabendo às empresas que administram a mão-de-obra terceirizada fiscalizar as condições do trabalho. Na prática, o modelo dificulta a fiscalização e, consequentemente, a garantia dos direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como o décimo-terceiro salário, férias remuneradas, o respeito à jornada de trabalho e à organização sindical. Trabalho que mata Gunter Angelkorte relata que os trabalhadores não recebem o retreinamento adequado, falta até equipamento de proteção individual. “No setor elétrico, acidente de trabalho costuma ter três consequências: queimadura grave, mutilação ou morte.” Apenas na Petrobrás, o número de trabalhadores terceirizados cresceu 2,3 vezes de 2005 para 2012. No mesmo período, o número de acidentes de trabalho apresentou aumento de 12,9 vezes, e 85 trabalhadores terceirizados morreram em serviço.


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Ricardo Rabelo Golpistas de plantão

Mais uma vez, os derrotados na eleição manipulam para tentar afastar a presidente Dilma do cargo. Os partidos PSDB, DEM, PPS e Solidariedade acabam de lançar um manifesto pedindo a sua saída e manobram para levar a questão ao plenário da Câmara. Alegam “crise de governabilidade” no país. Os argumentos não têm sustentação alguma. Não há nenhuma prova de ela estar envolvida em irregularidades ou de ter sido beneficiada de qualquer ato escuso. A verdade é nua e crua: isso não passa de choro de derrotados, que não aceitam a voz das urnas. Um conselho a eles: esperem as eleições de 2018 para tentar de novo.

Castelo de areia

A verdade é implacável com os defensores do golpe contra a presidente Dilma. Como um castelo de areia que desmorona, vários deles estão sendo indiciados por

diferentes crimes. A começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, indiciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Outro expoente do movimento golpista, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, se tornou réu em ação penal por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e crime contra o sistema financeiro nacional. Já o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), outro artífice da campanha contra Dilma, vai responder pela suposta prática do crime de concussão – artigo 316 do Código Penal. De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Distrito Federal, entre julho e agosto de 2008, na época como secretário de Transportes do Distrito Federal, ele teria exigido e recebido R$ 350 mil pela assinatura de contratos de adesão entre o governo e uma cooperativa de transportes. Nem mesmo integrantes de tribunais escapam. O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, teve o nome envolvido no esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Detalhe: Nardes é relator das contas de Dilma ainda em análise no tribunal.

Opinião

Lamento imensamente os empregos perdidos com as demissões no jornal O Globo. Mas, acho desonesto atribuí-las à crise econô-

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financiamento empresarial de campanhas? Inclusive, o líder deles, um político que devia dar o exemplo. Nestas horas a gente vê claramente quem é quem na política brasileira!

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cia do PT dar demonstração de independência e apoiar um candidato a prefeito de união dos partidos progressistas

Nota Zero

Valentões frouxos

mica. O problema é mais de aposta errada que a grande imprensa fez acreditando na eleição do candidato tucano. A grande verdade é que com a reeleição de Dilma a torneira secou. Por isso, derrubá-la é uma questão de vida ou morte para os donos da mídia. Parece que a capa de O Globo com o título “Recessão” foi um preparativo para justificar as demissões dias depois. Um golpe sujo que não engana ninguém!

Opinião externa

Recebi uma opinião bem interessante da amiga francesa Catherine Chevalier sobre a crise na França fazendo analogia com o Brasil: “Na França, apesar da baixa aprovação (12% em novembro de 2014, 28% em julho de 2015), ninguém pede o impeachment de Hollande! Em redes sociais, há alguns “Fora Hollande”, mas nenhum jornalista e ninguém da política se atreveriam a exigir a renúncia do presidente eleito pelo sufrágio universal. Hollande teria que ter feito um erro muito sério para isso”.

Moral

Que moral têm os tucanos, já que NENHUM senador do PSDB votou contra o

Diante de queixa-crime por injúria, calúnia e difamação, retrataram-se os dois empresários que xingaram, em junho, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, em um restaurante de São Paulo. Marcelo Melsohn disse que está arrependido e ofendeu Mantega “irrefletidamente”, reconhecendo que ele é “probo, honesto e digno”. Já João Locoselli declarou que nada sabe sobre o economista que “possa desaboná-lo em sua vida pública”. Diante disso, Mantega concedeu a eles seu “perdão”, exigência da lei para que a ação judicial seja suspensa.

Sepultura

O PT do Rio de Janeiro acaba de cavar a sua sepultura ao sinalizar o apoio à prefeitura do candidato do PMDB Pedro Paulo, indicado pelo prefeito Eduardo Paes. O partido escreve a história sem tinta desde os tempos que teve que apoiar Garotinho a governador. Não sou petista, mas é nítido que a base nunca é ouvida e sempre prevalece a orientação da direção. Acho que está na hora de a militân-

A agência Standart and Poor’s rebaixou a nota de classificação de risco do Brasil, provocando mais uma reação de destempero da imprensa e da oposição. Essa agência é conhecida em todo o mundo: é a mesma que foi condenada a uma multa de U$ 1,37 bilhão por ações fraudulentas na Bolsa de Nova Iorque. Foi também quem deu a nota dez à economia americana às vésperas da crise de 2008, a maior dos últimos 80 anos. Que autoridade tem para julgar a situação brasileira?

15 mil no Facebook

O Bafafá On Line chegou a 15 mil seguidores no Facebook. E você, já curtiu? Vai lá e confere as melhores dicas do Rio de Janeiro: www.facebook.com/bafafa. online

Frase

“O que está em jogo é a felicidade humana” José Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, em pronunciamento na UERJ.


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O Pato e a galinha Mauro Santayana* Embora não o admita - principalmente os países que participaram diretamente dessa sangrenta imbecilidade - a Europa de hoje, nunca antes sitiada por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras, não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África. Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte, nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial. Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber - e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de “guerra ao terror”, de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo “pequeno” Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas. Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem - ao menos parte deles - integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma. Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para

chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo. É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido. Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças. Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que encara agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico. Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN e nos foros multilaterais, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora. As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram. Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada. É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA. Fonte: Jornal do Brasil *Jornalista

Lei Antiterrorismo: Não precisamos de mais repressão e opressão Marcelo Chalréo* A aprovação em primeira votação pela Câmara dos Deputados da chamada lei antiterrorismo chocou e deixou perplexos os democratas desse país. Na verdade, a perplexidade e o choque já se demonstravam com o encaminhamento desse projeto no Parlamento e a urgência que foi solicitada para sua discussão e aprovação. Um retrocesso inimaginável ante o que as ruas manifestaram em 2013 e 2014, ou seja, ante o maior reclamo e maior anseio de participação direta nos processos decisórios pelos cidadãos e movimentos populares, o que se lhes apresenta como “ troco “ é a perspectiva de uma lei duríssima que poderá levar à detenção e ao encarceramento quem ousar se manifestar, protestar, se antepor ao sistema e regime vigentes em nosso país. Afora os malabarismos de praxe de certos parlamentares, justificando que votaram nessa proposição

pois a outra ou anterior era ainda pior, o fato inexorável é que se está colocando nas mãos das autoridades, particularmente das nossas polícias, o primeiro dos julgamentos sobre quem é ou não terrorista e por conta disso deverá ser detido e aprisionado. Pura barbárie em pleno século XXI, algo que se assemelha ao crescente punitivismo que graça em determinados estados latino-americanos, tudo a fazer escola na senda de um governo que se diz progressista e que tem olhos para o seu povo. O projeto de lei em referência, condenado por sérias instituições como o Instituto dos Advogados Brasileiros, representa uma ofensa ao princípio da liberdade de expressão e manifestação. Tipos penas vagos e abertos permitirão juízo certamente ainda mais arbitrário por parte dos agentes de polícia e do próprio Judiciário. Não é demais imaginar

que essa que essa norma, se aprovada, aprofundará o estado de exceção em que já vive parcela significativa da sociedade brasileira, isto é, dará aos agentes da lei e da ordem ainda mais poder (e que poder !) sobre quem se “rebela” ou sobre quem faz parte das chamadas “ classes perigosas “. Não duvidemos de que essa regra, com seus traços fascistas e totalitários, é uma ameaça à sociedade civil brasileira e aos movimentos sociais e populares, devendo ser rechaçada por todos os liberais e democratas, por todos aqueles que com muito suor, lágrimas e sangue conseguiram superar recente período tão nefasto e excludente pelo qual passou nossa sociedade. Não precisamos de mais repressão e opressão, mas sim de liberdade e de ar fresco para a expressão dos anseios do nosso povo. *Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ


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O pequenino afogado Ayslan Kurdi nos faz chorar e pensar Leonardo Boff* O pequenino sírio de 3 a 4 anos jaz afogado na praia, pálido e ainda com suas roupinhas de criança. De bruços e com o rosto voltado ao lado, como quem quisesse ainda respirar. As ondas tiveram piedade dele e o levaram à praia. Os peixes, sempre famintos, o pouparam porque também eles se compadeceram de sua inocência. Ayslan Kurdi é seu nome. Sua mãe e seu irmãozinho também morreram. O pai não pôde segurá-los e lhes escaparam das maõs, tragados pelas águas. Querido Ayslan: você fugia dos horrores da guerra na Síria, onde tropas do presidente Assad, apoiado pelos ricos Emirados árabes, lutam contra soldados do cruel Estado Islâmico, esse que degola a quem não se converte à sua religião, tristemente apoiado pelas forças ocidentais da Europa e dos Estados Unidos. Imagino que você tremia ao som dos aviões supersônicos que lançam bombas assassinas. Não dormia de medo de que sua casa voasse pelos ares em chamas. Quantas vezes você não deve ter escutado de seus pais e vizinhos quão temíveis são os aviões não pilotados (drones). Eles caçam as pessoas pelas colinas desérticas e as matam. Festas de casamento, celebradas com alegria, apesar de todo o horror, também são bombardeadas, pois se supõe que no meio dos convidados deverá haver algum terrorista. Talvez você nem imagina que quem pratica essa barbaridade e está por trás disso tudo, é um soldado jovem, vivendo no Texas num quartel militar. Ele está sentado tranquilo em sua sala diante de imensa tela como de televisão. Através de um satélite mostra os campos de batalha da sua terra, a Síria, ou do Iraque. Conforme a sua suspeita, com um pequeno toque num botão dispara uma arma presa no drone. Nada sente, nada escuta, nem chega a ter pena. Lá no outro lado, a milhares de kms, são mortas subitamente 30-40 pessoas, crianças como você, pais e mães como os seus e pessoas que nada têm a ver com a guerra. São friamente assassinadas. Lá do outro lado, ele sorri por ter acertado o alvo. Por causa do terror que vem pelo céu e pela terra, pelo pavor de serem mortos ou degolados, teus pais resolveram fugir. Levaram toda a família. Nem pensam em arranjar trabalho. Apenas não querem morrer ou serem mortos. Sonham em viver num país onde não precisam ter medo, onde possam dormir sem pesadelos. E você, querido Ayslan, podia brincar alegremente na rua com coleguinhas cuja lingua você não entende mas nem precisa, porque vocês, crianças, têm uma linguagem que todos, os meninos e meninas, entendem.

Você não pôde chegar a um lugar de paz. Mas agora, apesar de toda a tristeza que sentimos, sabemos que você, tão inocente, chegou a um paraíso onde pode enfim brincar, pular e correr por todos os lados na companhia de um Deus que um dia foi também menino, de nome Jesus, e que, para não deixá-lo só, voltou a ser de novo menino. E vai jogar futebol com você; você vai poder pegar no colo um gatinho e correr atrás de um cachorrinho; vocês vão se entender tão bem como se fossem amigos desde de sempre; juntos vão fazer desenhos coloridos, vão rir dos bonecos que fizerem e vão contar histórias bonitas, um ao outro. E se sentirão muito felizes. E veja que surpresa: lá estará também seu irmãozinho que morreu. E sua mãe vai poder abraçá-lo e beijá-lo como fazia tantas vezes. Você não morreu, meu querido Ayslan. Foi viver e brincar num outro lugar, muito melhor. O mundo não era digno de sua inocência. E agora deixe que eu pense com meus botões. Que mundo é esse que assusta e mata as crianças? Por que a maioria dos países não querem receber os refugiados do terror e da guerra? Não são eles, nossos irmãos e irmãs, habitando a mesma Casa Comum, a Terra? Esses refugiados não cobram nada. Apenas querem viver. Poder ter um pouco de paz e não ver os filhos chorando de medo e saltando da cama pelos estrondos das bombas. Gente que quer ser recebida como gente, sem ameaçar ninguém. Apenas quer viver o seu jeito de venerar Deus e de se vestir como sempre se vestiu. Não foram suficientes dois mil anos de cristianismo para fazer os europeus minimamente humanos, solidários e hospitaleiros? Ayslan, o pequeno sírio, morto na praia é uma metáfora do que é a Europa de hoje: prostrada, sem vida, incapaz de chorar e de acolher vidas ameaçadas. Não ouviram eles tantas vezes que quem acolhe o forasteiro e o perseguido está anonimamente hospedando Deus? Querido Ayslan, que a sua imagem estirada na praia nos suscite o pouco de humanidade que sempre resta em nós, uma réstea de solidariedade, uma lágrima de compaixão que não conseguimos reter em nossos olhos cansados de ver tanto sofrimento inútil, especialmente, de crianças como você. Ajude-nos, por favor, senão a chama divina que tremula dentro de nós, pode se apagar. E se ela se apagar, então afundaremos todos, pois sem amor e compaixão nada mais terá sentido neste mundo. De Leonardo Boff, um vovô de um país distante que já acolheu muitos de seu país, a Síria, e que se compadeceu com sua imagem na praia e lhe fizeram escapar doloridas lágrimas de compaixão. *Teólogo e escritor, publicado em seu blog: www.leonardoboff.wordpress.com

O enigma chamado Lula Emir Sader* Lula é um enigma, que não é fácil de ser decifrado. Os que não conseguem fazê-lo, são devorados por ele. Foi o que aconteceu com a direita e com a ultra esquerda brasileiras. Mais além das sua extraordinária biografia – com que nos acostumamos, mas que associa um caráter épico de sobrevivência das famílias pobres do Brasil, com a combatividade do Lula para se projetar como líder politico incomparável -, ele soube, como ninguém, intuitivamente, decifrar as condições contraditórias que ele herdava da era neoliberal e construir um modelo econômico e político que tornou possível a maior transformação social do pais que era o mais desigual do continente mais desigual. Mas que enigma é esse? É o da capacidade de construir alternativa ao neoliberalismo em tempos de absoluta hegemonia neoliberal, em escala mundial, regional e local. Lula soube traduzir a posição histórica do PT – a prioridade do social -, em políticas concretas, para o que teve que construir o esquema político que viabilizasse um governo com essa prioridade, em condições em que não tinha maioria no Congresso e a esquerda não era maioria no país. Soube construir uma aliança com setores do empresariado, para possibilitar a superação da longa e profunda recessão herdada do governo de FHC. Lula soube localizar, antes de tudo, as dificuldades deixadas pelo neoliberalismo. Não apenas a recessão econômica,

a desarticulação do Estado, a abertura da economia, a desindustrialização, o peso do agronegócio, a precarização das relações de trabalho, uma política externa de subordinação absoluta aos EUA. Mas também que haveriam de ser mantidos, como o controle da inflação. Por isso Lula combinou um ajuste das contas publicas com a promoção das políticas sociais como a centralidade da ação do seu governo. Os que só olharam para o primeiro aspecto, ficaram na denúncia da “traição” de Lula – a ultra esquerda – ou de seu fracasso – a direita. Lula articulou um ajuste com a promoção das politicas sociais – de combate à fome na sua primeira fase. Quando a direita e a ultra esquerda se uniram numa campanha de denuncias na mídia com acusações no Congresso, acreditavam que tinham derrotado o Lula – não se atreveram a tentar o impeachment com medo da reação popular -, mas tentaram sangrar seu governo até derrota-lo nas eleições de 2006 – os efeitos das políticas sociais começavam a se fazer sentir. Lula os derrotou e conseguiu sua reeleição, apoiado na prioridade das políticas sociais. Combinando a centralidade das politicas sociais, o papel ativo do Estado como indutor do crescimento econômico e a prioridade dos processos de integracso regional e dos

intercâmbios Sul-Sul, Lula conseguiu reverter o essencial da herança maldita que ele tinha recebido de 10 anos de neoliberalismo no Brasil: superar a recessão economica e articular o crescimento economico com a distribuição de renda. Essa é a chave do enigma Lula – a construção de alternativas de saída do modelo neoliberal, mesmo com a herança recebida, mesmo em um marco internacional com hegemonia neoliberal. Lula agiu pela ação nos elos de menos resistência da hegemonia neoliberal. Por isso a direita foi derrotada sucessivamente em quatro eleições, por isso a ultra esquerda fracassou sem construir uma alternativa própria, a opção contra os governos iniciados por Lula seguem – no Brasil, como nos outros países com governos progressistas – na direita. Por isso também Lula mencionou recentemente sua disposição de lutar por um novo mandato presidencial em 2018. Mas esta vez não bastará a menção dos inquestionáveis sucessos das políticas dos governos desde 2003, será necessário propor um novo programa ao país, com o Brasil que queremos, em todos os planos, e construir as alianças políticas, sociais e econômicas que viabilizem esse novo projeto. *Sociólogo, publicado no site Carta Maior (www.cartamaior.com.br)


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José Pepe Mujica

Entrevista

Por Ricardo Rabelo

“Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis” Ex-presidente do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano, conhecido apenas como Pepe Mujica, foi recebido como “pop star” no Rio de Janeiro. Além de agraciado como Personalidade do Ano pela Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul, Mujica palestrou para milhares de estudantes na concha acústica da UERJ, onde foi ovacionado. A história de Pepe Mujica se parece à de um filme. Nascido em 1935, o ex-guerrilheiro e líder do movimento Tupamaro participou de assaltos e sequestros até ser preso e passar 14 anos atrás das grades, sendo libertado em 1985 com a queda da ditadura militar. Posteriormente, foi deputado, ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca e presidente da República em 2010. Seu mandato foi marcado pela simplicidade e austeridade. Chegou a abrir mão de 90% do salário, que doava para instituições de caridade e circulava por Montevidéu em um Fusca. Sua residência é um sítio nos arredores da capital, onde cria galinhas e cultiva produtos agrários orgânicos. Em sua visita ao Rio, o agora senador Pepe Mujica dirigiu várias mensagens aos brasileiros, em entrevistas e discursos. Entre elas, a de que o Brasil tem de aprofundar sua integração com a América Latina. “Vocês não precisam deixar de ser brasileiros, mas precisam também ser latinoamericanos”. Sobre a crise política, defendeu a presidente Dilma: “Ela é uma grande mulher. Tenho um grande carinho pelo povo brasileiro. O Brasil tem força suficiente para superar as dificuldades pelas quais está passando”, assinalou. Sobre utopias, foi enfático: “Só a multidão pode mudar a realidade. Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis.” E criticou também a tentativa de desestabilização das democracias no continente. “A nossa democracia não é perfeita porque não somos perfeitos. Mas, temos que defendê-la para melhorá-la, não para sepultá-la”.

Qual seria o modelo ideal de so- a forma de produção e de distribuição nos dá vontade de viver são os seres de fera. Temos que aprender que a ciedade para você? teríamos um homem novo. Hoje nós que amamos e nos relacionamos. mesa deles é uma e a nossa outra. Viver é aprender para saber se podemos continuar sonhando. Por enquanto vivemos na periferia do mundo central, ninguém nos presenteou a posteridade. Não adianta sermos desenvolvidos se não somos felizes. Por quê? Porque a única vida que temos é esta. E ela é rápida. Não se pode comprar o tempo dela. Temos que ter tempo para aproveitá-la. Tempo para os nossos filhos, para os nossos amigos, para o amor. E isso não pode ser hipotecado porque isso se chama liberdade. Só somos livres se gastamos o tempo de nossa vida em coisas que gostamos e não em obrigações. A vida não é só trabalhar. Hoje a tragédia e a felicidade estão juntas. Minha geração achava que mudando

sabemos que se não mudarmos continuaremos mamando a mamadeira do capitalismo, reproduzindo valores capitalistas. Para que esta realidade mude temos também de mudar nós mesmos. Isso é uma batalha cultural. Os jovens têm de lutar para que não lhes roubem a liberdade. E não devem esperar que ela seja um presente. A liberdade está dentro de nós. Temos que ter a sobriedade de dominar nossas vidas mesmo que tenhamos que cair e começar de novo. Os pássaros cantam todos os dias quando sai o sol. Cantam porque agradecem a vida. O que está em jogo é a felicidade humana. O que importa é ser rico de tempo livre. É outro tipo de riqueza. Tempo para relações humanas. O que

Vivemos num mundo que só quer riqueza, ganhar dinheiro e envenenando a única ferramenta que temos que é a política. Se um partido não serve tem que fundar outro e assim sucessivamente. E tem que repudiar os ricos na política. Os políticos têm de viver como a maioria, não como a minoria privilegiada. Não precisamos de luxo, temos que viver com os valores da maioria. Não se trata de odiar os ricos. Se ele gosta de dinheiro dedique-se à indústria, ao comércio e não à política, onde precisamos de gente que pense no coletivo. Senão damos oportunidade ao golpismo de direita. As pessoas deixam de acreditar nos partidos e perdem a confiança. Quando isso acontece é um mundo

Eles precisam muita coisa e nos não. Podemos andar em fusca, não temos preço, por isso somos coerentes com os interesses de nosso povo. É um problema moral, de ética. A cultura capitalista nos impõe que sejamos um comprador escravizado, que para ser feliz temos que comprar um telefone novo a cada quatro meses, trocar de carro a cada dois anos. Ou deixas que te dirijam ou aprendes a dirigir. Nunca teremos um mundo melhor se não lutarmos para isso.

O Sr acha que está havendo algo semelhante à Operação Condor para desestabilizar governos democráticos na América Latina? “Yo no creo en brujas, pero


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que las hay, hay” (Não acredito em bruxas, mas que existem, existem). Temos que ter cuidado. Claro que a direita trabalha para isso, o problema é a oportunidade que damos a ela. Golpes de estado nem pensar. Esse filme nós vimos muitas vezes na América Latina. A nossa democracia não é perfeita porque não somos perfeitos. Mas, temos que defendê-la para melhorá-la, não para sepultá-la.

Como está vendo a “crise política” no Brasil? Sou senador de outro país. Não

vim ao Brasil para opinar sobre a presidente Dilma ou sobre ministro tal. Tenho um grande carinho pelo povo brasileiro. O Brasil tem força suficiente para superar as dificuldades pelas quais está passando. O problema é que vocês só veem o derrotismo e acham que nada serve para nada. Muita gente que melhorou não se dá conta de que a melhora é resultado de medidas que foram tomadas ao longo dos anos. Muita gente crê que melhorou apenas pelo seu esforço individual e não vê que lhe deram a oportunidade. Isso se passa não apenas no Brasil, mas em todos os lugares, em outras sociedades modernas.

Mercosul e o Unasud são estratégicos para uma América Latina mais igualitária?

O problema mais grave que tem a América Latina é a desigualdade. As economias crescem, mas cresce também a pobreza. Mas os ricos não pagam quase nada de impostos. O mundo está se agrupando em unidades. Os latino-americanos sem uma voz comum não terão representação. É preciso do suporte de todos. Não vou estar vivo, mas a maioria de vocês sim. Não há outro caminho senão nos juntarmos. Até quando vão levar os nossos melhores cérebros para o exterior? Temos que ser proprietários de nosso próprio conhecimento. As multinacionais tentam levar os nossos cérebros

mais brilhantes, com isso levam a nata do mundo. Acho que o Mercosul tem um montão de defeitos, mas sem ele seria pior. Temos que lutar para que ele seja ainda melhor. Não é dividindo. Nosso grande mercado são os pobres da América Latina que precisam ser incorporados à civilização. Esta é a briga, para dentro, por todos. Vocês não precisam deixar de ser brasileiros, mas precisam também ser latino-americanos.

Mujica ao ser preso na década de 70

Está vendo o mundo dividido em blocos?

Acho que é possível construirmos um continente de paz. Não ser mais livre por ter um grande exército. Somos ricos, temos causas e valores. Estamos a frente de uma nova civilização. Daqui a 20 anos todo o mundo falará dois idiomas, uma língua nativa e provavelmente o inglês. A forma de comunicação vai mudar toda a forma de cultura humana que conhecemos. Temos que começar a pensar como espécie não como país. A ideia nacional não se sustenta. Os latino-americanos têm de estar juntos num mundo que está se agrupando em grandes continentes. Nações, inclusive como o Brasil, não são nada sem uma integração. Os pobres da África não são da África, são nossos! A generosidade é o melhor negócio

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para a humanidade.

Como é a experiência da legalização da maconha no Uruguai?

Começamos fazendo um experimento no Uruguai com a legalização. Não sabemos o resultado que vai dar. O que sabemos é que o que fazíamos não estava dando resultado. Se você quer uma mudança, não siga fazendo sempre o mesmo. O que queremos é o fim do tráfico de drogas, porque ele é pior que a droga. Por isso queremos a regulamentação do consumo. Quando digo regulamentar, quero dizer nos assegurarmos que o consumidor tenha uma opção para comprar sem que precise recorrer ao narcotráfico. Porque se ele precisa fazer isso, aí sim é um inferno. Se temos um mundo clandestino, quando identificamos a pessoa que está com um problema de vício já é tarde. Já não podemos tratá-lo apenas como um doente. Se queremos mudar, não podemos continuar fazendo a mesma coisa. Já que não podemos derrotar o tráfico decidimos lhe arrebatar o mercado, expropriar seu negócio. Isso não é liberação, é regulação. O mercado existe, o consumidor não tem outra alternativa do que comprar do traficante. Se eu lhe forneço uma cota e vejo que ele quer mais, aí posso saber que ele precisa de tratamento. Principalmente entre os jovens, o proibido atrai. Se eu vendo a maconha num café eu retiro a poesia de comprar proibido.

Alguma profissão de fé?

O avanço tecnológico nos presenteou mais 40 anos de vida do que há 100 anos. Essa é a grande riqueza que temos. Eu não estou procurando aplausos, quero acender a chama das causas nobres na militância.

O que acha da maioridade penal?

Tive muitos anos preso, consegui escapar duas vezes da cadeia. Mas, dentro dela também tem valores, mesmo no meio da delinquência. As prisões deveriam reabilitar,

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mas a realidade é outra. Não ajuda a superar as deformações, mas tendem a multiplicar o problema. O que temos para oferecer é muito pior. As cadeias foram transformadas em universidades do delito. E queremos prolongar essa penúria? O homem da rua existe, quando é preso está revoltado. Ele tem o sentimento de repulsa, mas ele é um problema nosso também.

Tem alguma utopia?

Tem utopia maior que uma religião? Pensar em ter uma vida pós-terrena? O homem insiste em manter esse lindo sonho porque precisa. Se somos animais utópicos, temos que acreditar na política, a única ferramenta que pode levar a um mundo e a uma sociedade melhor. Só a multidão pode mudar a realidade. Não há homens imprescindíveis, há causas imprescindíveis. Precisamos da força coletiva, sem ela não somos nada. Não mudamos a realidade num bar. Por isso, lutem pelo melhor, mas entendam a realidade. Os únicos derrotados são os que deixam de lutar.

Qual recado daria para as futuras gerações?

Estão em crise os valores de nossa civilização. Estão caindo formas ancestrais, feudais. O mundo inteiro tem uma crise de representatividade de partidos e figuras políticas. Não deixemos que roubem a nossa liberdade. Ela não se vende, se ganha. E se ganha fazendo algo pelos demais. Isso se chama solidariedade, a luta contra o egoísmo que a sociedade nos impõe.


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A mediocridade faz a festa Roberto Amaral* As consequências do processo batizado de Lava Jato não resolverão os problemas fundamentais do Brasil, nem nos livrarão dos gargalos que dificultam o desenvolvimento e acirram injustiças sociais. Mas oferecerão, aos que vierem depois, melhores condições de defesa do erário e de combate à corrupção. E contribuirão mesmo para o processo democrático ao acenar com o fim (redução, sejamos mais precisos) da impunidade daqueles que sempre se julgaram acima das leis. Esse processo não pode, porém, perder-se em exibicionismos de força, na cretinice de prender quem já está preso, na coação aos detidos e seus defensores, na indução e no uso político da delação premiada. Não pode se perder também no vazamento seletivo de depoimentos, na escolha de veículos de imprensa para a divulgação de suspeitas e transformar junto ao povo essas meras suspeitas à espera de apuração em fatos reais, condenando o acusado antes do julgamento. E, acima de tudo, não pode, em nome de uma boa causa, contribuir para insegurança jurídica, turbulência institucional e desorganização da economia, que precisa voltar ao normal e retomar a produção. Mantenham-se na cadeia os “capi” que forem julgados culpados, mas sem destruir empresas nacionais, desempregar trabalhadores e reduzir a nada o conteúdo local de nossa indústria. Cabe ao governo promover sem medo a reestruturação das empresas investigadas, a recapitalização da Petrobras e o reforço do papel desenvolvimentista do BNDES, sem o qual não retomaremos o investimento privado. As apurações devem ser um episódio, e não um processo sem fim, ameaçando a sobrevivência de setores fundamentais de nossa engenharia, sem os quais não teremos

desenvolvimento. Poderemos até ficar livres da inflação e dos deficits públicos, mas não passaremos de um grande Porto Rico. O fato objetivo é que vivemos crise política sem precedentes desde a queda do regime militar. Se não está à vista uma ameaça insurrecional, está presente o impasse político trazendo consigo a insegurança governativa, que atinge o país. Para essa promessa de caos age de forma diligente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), valendo-se da crise representativa do Poder Legislativo, crise da qual, aliás, sua própria ascensão é o maior indicador, para um confronto de ordem pessoal com a presidência da República e a essa insanidade assistem, passivos, os partidos. Partidos do campo da esquerda e até os da base do governo fogem de seu dever político de defesa da presidente Dilma e de seu mandato, enquanto o PSDB, e seu derrotado candidato, pregam, irresponsavelmente, a ruptura constitucional ao apelarem para a esdrúxula convocação de novas eleições. A pregação desse golpismo não contribui para a saída da crise, apenas a aprofunda. Esse quadro expõe a mediocridade de nossas lideranças políticas, pequeninas, presas no entorno de seus projetos pessoais, mesquinhos, sem qualquer visão de Brasil, sem qualquer consciência de destino, carentes de perspectiva histórica. Alimentam um impasse ao cabo do qual não haverá vencedores. Sairemos vencidos, mortos nossos sonhos, distantes nossas utopias como a linha do horizonte. A mediocridade faz sua festa. A nação, cansada, reclama por uma saída, nos marcos da democracia e consoante a soberania do voto popular, mas sempre comprometida com a retomada do desenvolvimento, com distribuição de renda, com os avanços sociais e a preservação dos direitos dos trabalhadores. *Ex-presidente do Partido Socialista Brasileiro, foi ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (governo Lula). Publicado na FSP.

Lições da Argentina para o Brasil *Ângela Carrato No dia 25 de outubro, os argentinos irão às urnas. A julgar pelo resultado das eleições primárias, que aconteceram há pouco mais de um mês, a Frente Para a Vitória (FPV), da presidente Cristina Kirchner tem tudo para eleger a maioria no Congresso, vencer nas principais províncias e fazer o seu sucessor. Cristina Kirchner, a exemplo de Dilma Rousseff, começou seu segundo mandato em meio a um turbilhão de críticas e foi conseguindo, com firmeza, reverter a situação. Some-se a isso que a aprovação a seu governo aproxima-se dos 80%. Fato que tem tirado o sono de boa parte dos barões da mídia no Brasil, temerosos que o mesmo venha a acontecer com Dilma Rousseff. Daí o silêncio absoluto que têm feito sobre o que se passa no país vizinho. Tanto a ditadura brasileira (1964-1985) quanto a argentina (1978-1983) contaram com a participação de militares e de civis na derrubada de governos democraticamente eleitos e na manutenção dos novos regimes. Nos dois casos, a mídia foi fundamental para desgastar estes governos e criminalizar os setores mais críticos destas sociedades, apontando-os como “corruptos” e/ou comprometidos com o “comunismo ateu”. Brasil e Argentina retornam à democracia praticamente na mesma época - meados dos anos 1980 -, mas este retorno apresenta peculiaridades que vão se refletir na maneira como estes governos, enfrentam, na atualidade, novos embates com as forças conservadoras internas e externas. Enquanto na Argentina, após uma campanha que mobilizou milhares de pessoas nas mais diversas cidades, o governo conseguiu, em 2009, aprovar a Ley de Medios, a regulação democrática da mídia de lá, aqui, não se avançou nada neste sentido. A partir de 2005, com a cobertura espetacularizada das denúncias envolvendo o Mensalão Petista, a mídia brasileira abriu mão de informar e passou a combater o PT e o governo. Não conseguiu derrotar Lula, que se reelegeu, e nem foi capaz de impedi-lo de fazer sua sucessora. Mas é inegável que, de lá para cá, a mídia é a principal responsável pela tensão política, pelo ódio e pelo pessimismo que passaram a ter lugar no país. A forma com que a mídia brasileira tem “coberto” a Operação Lava Jato, jogando apenas nas costas de políticos do PT e da chamada “base aliada” a responsabilidade por corrupção na Petrobras, deixa visível que informar não é o interesse maior. É sabido que a corrupção na Petrobras não começou agora e muito menos é “privilégio” dos governos petistas. Também na Argentina, quando as investigações sobre a morte

do fiscal Alberto Nisman ainda estavam no começo, a mídia comercial “antecipou-se” e jogou no colo de Cristina Kirchner este cadáver, sob o tosco argumento que tal morte interessaria apenas ao governo. No caso específico do Brasil, é inegável que os governos petistas têm sido os que mais criaram mecanismos e combateram, em toda a história republicana, a corrupção. Mesmo assim, devido à atuação contrária da mídia, são os que, nos últimos anos, passaram a ser identificados como corruptos. Some-se a isso que as denúncias envolvendo corrupção na Petrobras acontecem exatamente no momento em que a empresa se tornou uma das principais petroleiras do mundo e deu início à exploração das internacionalmente cobiçadas reservas do pré-sal brasileiro. Quanto ao Caso Nisman, rapidamente ficou visível que vários setores (nacionais e internacionais) tinham interesse em transformar uma investigação policial em uma crise política capaz de atingir profundamente o governo de Cristina Kirchner. Não por acaso, enquanto a mídia argentina falava abertamente em antecipar as eleições presidenciais, a brasileira, antes mesmo de o governo de Dilma Rousseff completar 100 dias, já mencionava a hipótese de impeachment da presidente tomando como referência denúncias descabidas, a exemplo de que a presidente teria conhecimento de corrupção na Petrobras e não tomou as devidas providências. Ao contrário do Brasil, a Argentina deu, nos últimos anos, passos significativos em direção a uma efetiva democratização da mídia. O país possui um diário de circulação nacional, Página 12, de esquerda, que tem cumprido o papel de desafinar o coro da oposição midiática. A Argentina conta também com uma televisão pública de qualidade que cobre todo o seu território e, o mais importante, já aprovou e está implementando a Ley de Medios. Só agora, e mesmo assim a duras penas, a esquerda brasileira começa a perceber a importância e o papel estratégico da comunicação e da mídia em uma sociedade democrática. A militância e as “ruas” são fundamentais, mas militância e “rua” assistem televisão e ouvem rádio e se a versão que recebem é apenas a de um setor, isto acabará tendo consequências graves para a própria democracia. Por tudo isso, quem acredita que momentos de crise não são adequados para se enfrentar a mídia, por mais atitudes golpistas que ela apresente, vale a pena acompanhar o que se passa na Argentina. Se não fosse o enfrentamento em relação à mídia, o governo de Cristina Kirchner não estaria completando seu segundo mandato com enorme aprovação popular e em vias de fazer seu sucessor. *Jornalista


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O drama dos refugiados O mundo assiste horrorizado às cenas de desespero e morte dos refugiados que tentam entrar nos países ricos da Europa. Eles fogem principalmente do Oriente Médio, como da Síria e do Iraque, países castigados pela guerra movida pelas potências ocidentais. É urgente uma ação das Nações Unidas e de outros organismos internacionais, bem como de diferentes países, para pôr fim a este drama que envergonha a humanidade. O governo brasileiro já deveria ter se manifestado sobre o assunto, bem como o Vaticano e organizações de caráter humanitário. A cada hora perdida são centenas de seres humanos entregues a sua própria sorte, procurando um abrigo que a Europa egoísta não lhes quer conceder. Redação do Bafafá

Sindicato repudia demissões Nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro: Repudiamos o processo de demissões ocorrido na Infoglobo, dos jornais O Globo e Extra. Sem informar ao Sindicato, a empresa demitiu sumariamente mais de 30 jornalistas todos experientes e com muitos anos de casa - e criou um ambiente de pânico nas redações entre os que ficaram. Tudo indica que a crise do modelo de negócio dos jornais impressos aliado à má gestão da Infoglobo fizeram com que os trabalhadores, mais uma vez, pagassem a conta. Em janeiro, a empresa - cuja família possui hoje a segunda maior fortuna do Brasil - já havia dispensado outros 30 jornalistas. Essa situação se repete em outras empresas. Para ficar nos exemplos mais recentes, a Ejesa, responsável pelo jornal O Dia e o Meia Hora, demitiu mais de 80 profissionais e encerrou o diário Brasil Econômico em julho. Apesar do parcelamento das verbas rescisórias, os trabalhadores do jornal se mobilizaram, com ajuda do Sindicato, para garantir compensação com a extensão de benefícios como vale-refeição e plano de saúde por alguns meses. A editora Impala encerrou as atividades sem nem ao menos comunicar previamente os funcionários, que ainda brigam para receber o que têm direito. Não podemos pagar a conta da crise econômica e do modelo de negócios dos nossos empregadores. Mesmo antes da crise, ao longo das últimas décadas, as empresas têm promovido de modo sazonal as demissões como meio de precarização dos jornalistas. Com o tempo, as vagas são substituídas por trabalhadores com salários 30% mais baixos e contratos via Pessoa Jurídica, em relações altamente precarizadas. Além disso, avançam as fraudes nas relações trabalhistas e a terceirização em condições rebaixadas de direitos e benefícios. No cada um por si estamos ficando cada vez mais vulneráveis a essas práticas patronais. Precisamos nos organizar coletivamente para defender a nossa força de trabalho, a nossa profissão e o nosso papel na sociedade. Além de fiscalizar as condições em que ocorrem as demissões, o Sindicato

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tem assessoria jurídica para assistir aos colegas. Muito importante, neste momento, é garantir a nossa unidade na categoria, para a necessária resistência às investidas das empresas contra os nossos empregos, salários e condições de trabalho, além de apontar saídas criativas para o livre exercício do jornalismo, tão necessário à democracia. Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro

Manifesto Pró-Dilma Mais de 200 jornalistas, escritores, artistas, intelectuais, dirigentes sindicais mineiros acabam de lançar um manifesto de apoio à presidente Dilma Rousseff, figurando entre eles o escritor e crítico Fábio Lucas, o escritor Benito Barreto, os jornalistas José Maria Rabêlo, Guy de Almeida, João Paulo Cunha, Kerisson Lopes, este último presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, os bispos Dom Serafim Fernandes e José Maria Pires, os professores João Antônio de Paula, Letícia Malard, Eli Iola Gurgel, os advogados Antônio Romanelli, Cézar Cardoso. Eis o documento: Escritores, artistas, jornalistas, professores, profissionais liberais, lideranças religiosas, militantes sindicais, estudantis e culturais de diversa formação ideológica, vimos externar a nossa preocupação com manifestações de natureza antidemocrática, francamente golpistas, vistas no Congresso, na mídia e em movimentos de rua. Consideramos lesiva ao povo e à Pátria a não aceitação dos resultados eleitorais com a intenção de tumultuar o processo político e favorecer os candidatos derrotados nas últimas eleições. Recusamos e condenamos o “culto da crise”, a prática de tentativas de acirramento das dificuldades na economia e na política, com o objetivo de intranquilizar a população e torpedear a marcha dos projetos do governo federal. Condenamos o velho e rancoroso golpismo, que levou Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954; tentou impedir em 1955 a candidatura e a posse de Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília e incentivador do desenvolvimento nacional; depôs o presidente João Goulart, conduzindo o País à ditadura militar que se estendeu por 21 anos, com um legado de milhares de vítimas de torturas, mortes e exílios, de que é exemplo a merecer o respeito da Nação, a atitude corajosa da presidente Dilma Rousseff, símbolo dos melhores predicados da mulher brasileira. Por tudo isso, apelamos para o fim do ódio e da oposição sistemática, da dialética do quanto pior, melhor, que só prejudicam os verdadeiros interesses populares. E fazemos este apelo, que está no coração de milhões de brasileiros. Belo Horizonte – Setembro de 2015

A Istoé de sempre Useira e vezeira em publicar matérias insultuosas e inverídicas contra personalidades que não comungam com suas ideias conservadoras, a revista Isto É acaba de sofrer uma nova derrota. Foi condenada pelo Tribunal de Justiça de Minas a pagar uma indenização de R$ 50 mil reais ao governador Fernando Pimentel, por danos morais. Terá também de divulgar na

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íntegra da edição impressa e no site na internet o desmentido do governador à notícia injuriosa publicada contra ele. Só mesmo assim essa gente aprende! José Maria Rabelo, jornalista

Nota da Anistia Internacional A Anistia Internacional recebeu informações sobre a morte de um menino de 13 anos no dia 08 de setembro durante operação policial conjunta realizada pelas Polícias Civil e Militar na favela de Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Ele jogava bola com outras crianças quando começaram os disparos, próximo da hora do almoço. Todos correram, mas ele acabou atingido e morreu na hora. “Mais uma vez uma criança é morta, resultado dessa lógica de guerra que marca a política de segurança pública no Brasil e vitima majoritariamente jovens negros das periferias das cidades”, destaca Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil. Há relatos de que policiais tentaram alterar a cena do crime, levando o corpo para o caveirão, mas foram impedidos por moradores. A Divisão de Homicídios está responsável pela investigação e já fez a perícia do local do crime. A Anistia Internacional pede que o caso seja investigado de forma célere e os responsáveis sejam levados à justiça. A organização condena o uso da força e de armas de fogo de forma desnecessária e irresponsável por parte das polícias, que continuam resultando em mortes, e defende a incorporação dos princípios básicos para uso da força e arma de fogo da ONU na legislação nacional e estadual. Esta recomendação está no relatório “Você matou meu filho: Homicídios cometidos pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro”, lançado em agosto. Fonte: Anistia Internacional

Seminário internacional O reconhecimento da Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais comemora 10 anos. A celebração do acordo, que contou com a participação do Brasil, vai acontecer no Seminário Internacional Cultura e Desenvolvimento, entre os dias 21 e 23 de setembro de 2015, no espaço Cine Odeon, na cidade do Rio de Janeiro. O evento é uma parceria entre o Ministério da Cultura (MinC) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que completa 70 anos. O encontro também vai discutir as conexões entre a diversidade cultural e temas que englobem educação, economia e audiovisual. Além de incentivar a participação social e a troca de sabedorias. Serão oito mesas com temas sobre, Cultura e Ambiente Digital; Diversidade Cultural e Economia da Cultura; Conhecimentos tradicionais e Desenvolvimento; Diversidade Cultural Audiovisual; Diversidade Cultural, Comunicação e Participação Social; Diversidade Cultural e Educação; Diversidade Cultural, Patrimônio e Memória; e Cultura e Cidades. Fonte: Ministério da Cultura


www.bafafa.com.br

PROGRAMA de INVESTIMENTO em LOGÍSTICA.

Rio de Janeiro - Setembro / 2015

198,4 BILHÕES

O Brasil vai seguir avançando.

R$

66,1

bilhões

R$

para 7 mil km de estradas RODOVIAS

DE REAIS EM INVESTIMENTOS PROJETADOS.

86,4

R$

bilhões para 7,5 mil km de ferrovias

FERROVIAS

12

PORTOS

37,4

R$

bilhões para portos e terminais privativos

8,5

bilhões para 4 aeroportos

AEROPORTOS

Uma infraestrutura de transportes integrada e moderna vai trazer mais agilidade na distribuição da produção brasileira, mais competitividade nas exportações e mais qualidade nos serviços prestados à população. Além de gerar emprego e renda para os brasileiros e impulsionar o crescimento do país. É assim que o Brasil vai seguir avançando.

Butecão: agora também na Rua Bento Lisboa O restaurante de grelhados Butecão acaba de abrir uma filial na Rua Bento Lisboa. Além do cardápio tradicional, a novidade é que o público encontra também espetinhos de filé, coração, frango e queijo coalho. A casa também trabalha com cervejas em garrafa, entre elas, original, boêmia, estela e serramalte. É possível saborear ainda caldos de canja com hortelã, verde, feijão, além de sopas de cebola, legumes e ervilhas. Entre as cachaças, salinas, germana, seleta. O Butecão serve refeições variadas, carnes e

frangos, tira-gostos, peixes e frutos do mar, pizzas, massas, saladas, pratos executivos, sanduíches. E também feijoada diariamente. O local é bem cuidado, limpo e com decoração típica de botequim. É uma excelente pedida para comemorar aniversários e outros eventos. Butecão Rua Bento Lisboa, 95 Catete Informações: 2225-5741 Funcionamento: de 12h às 23h Faz delivery na região.

Nº 118  
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