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5 anos EDIÇÃO ESPECIAL | PARA NÃO ESQUECER Ano 5 - Edição nº 58 - Fevereiro de 2021 | Distribuição gratuita


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A SIRENE PARA NÃO ESQUECER

Fevereiro de 2021 Mariana - MG

Aconteceu na reunião ADMINISTRAÇÃO EM AÇÃO Por Geisa Angela Batista e Willian Geraldo Amaral de Oliveira (Equipe Administração em Ação)

Já pensou em criar o seu próprio negócio, cuidar bem do seu dinheiro ou ter mais chances de conseguir um bom emprego? Se a sua resposta for “sim”, o programa “Administração em Ação” da UFOP pode te ajudar. Esse programa é desenvolvido por professores e alunos da UFOP que têm muita vontade de fazer a diferença! Ao todo, o programa abrange três projetos, com os seguintes temas: (1) Como se tornar um empreendedor; (2) Como cuidar do seu dinheiro; e (3) Como melhorar sua empregabilidade. O projeto “Como se tornar um empreendedor” tem como objetivo auxiliar o interessado a desenvolver o seu próprio negócio, e ensina desde como registrar a sua empresa, a fazer uma boa gestão e aumentar as chances de sucesso. Já o projeto “Como cuidar do seu dinheiro” busca ajudar as pessoas a fazerem um bom planejamento financeiro, fornecer dicas e construir conhecimentos sobre “como e quanto gastar”, sobre a “importância de poupar” e sobre quando, onde e por que investir. Por fim, o projeto “Como melhorar sua empregabilidade” se propõe a ajudar as pessoas a aumentarem as chances de arrumarem um emprego, os

temas vão desde como fazer o seu currículo a dicas de como se especializar para conseguir entrar no mercado de trabalho. Devido à pandemia provocada pelo novo coronavírus, as ações do programa estão funcionando apenas de forma online mas, mesmo à distância, está preparado para ficar bem perto de vocês. Faça parte do grupo do WhatsApp para receber materiais didáticos, videoaulas e podcasts especialmente preparados para os interessados nos cursos. E mais, temos outra novidade: a partir desta edição, vocês vão sempre ter notícias e receberão informações do programa “Administração em Ação” aqui no jornal. A cada dois meses, o Jornal A SIRENE vai trazer o espaço “Conta pra Gente”, em que serão comentadas as suas dúvidas, sugestões ou ideias sobre qualquer assunto relacionado aos projetos do programa, que também contará com uma versão em áudio de podcast. Não perca tempo, mande uma mensagem para o nosso WhatsApp no número (31) 984824166. “Conta pra gente” o que você quer saber sobre como cuidar de seu dinheiro, melhorar seu negócio ou aumentar as chances de arrumar um emprego!

ATENÇÃO!

Escreva para: jornalasirene@gmail.com

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www.facebook.com/JornalSirene Para reproduzir qualquer conteúdo deste jornal, entre em contato e faça uma solicitação.

O programa Administração em Ação, está com inscrições abertas este mês, para o curso de Gestão Financeira. Para fazer sua inscrição e para demais informações entre em contato com o número (31)9 8482 4166.

LIVE JORNAL A SIRENE 16 de fevereiro

No dia 16 de fevereiro de 2021, às 18h, o Jornal A SIRENE realiza uma live de lançamento da campanha de financiamento coletivo. A ação visa arrecadar fundos para continuarmos fazendo o nosso trabalho com qualidade e distribuição gratuita. Participe da live! A transmissão será feita pelo nosso canal no YouTube (Jornal A Sirene) e pela página do Facebook (facebook.com/JornalSirene).

NOTA DE PESAR

Nós, do Jornal A SIRENE e membros das comunidades atingidas, com muito pesar, lamentamos, neste mês, o falecimento de Manoel Paulino Mendes, morador de Bento Rodrigues, de Maria Benigna e de senhor Deusdete, moradora e morador de Paracatu de Baixo. Respeitosamente, prestamos nossos sentimentos aos(às) familiares e amigos(as). Que Deus conforte o coração de cada um(a) e dê forças nesse momento de luto e dor.

EXPEDIENTE Realização: Atingidos(as) pela Barragem de Fundão, Arquidiocese de Mariana | Conselho Editorial: Expedito Lucas da Silva (Kaé), Genival Pascoal, Letícia Oliveira, Pe. Geraldo Martins, Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Simone Maria da Silva | Editores-chefe: Genival Pascoal e Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio) | Jornalista Responsável: Wigde Arcangelo | Diagramação: Júlia Militão | Reportagem e Fotografia: Genival Pascoal, Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho, Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Simone Maria da Silva | Apoio: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) | Agradecimentos: Emmanuel Duarte Almada, Isis Medeiros e Monica Nicolas/ Comunicação Renser | Revisão: Elodia Lebourg | Impressão: Sempre Editora | Foto de capa: Larissa Helena | Tiragem: 3.000 exemplares | Fonte de recurso: Termo de Ajustamento de Conduta entre Arquidiocesse de Mariana e Ministério Público de Minas Gerais (1ª Promotoria de Justiça de Mariana).


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Foto: Lucas de Godoy

Papo de Cumadres: Opinião:

cinco anos do Jornal A SIRENE Consebida e Clemilda estão agradecidas nesta data onde o jornal A SIRENE completa cinco anos de informação, emoção e comunicação, muitas vezes sendo a única voz do atingido, neste mundo de embromação. Por Sérgio Papagaio

- Cumadre Clemilda há cincu anu nós tem vistu o jorná A Sirene levanu nossu gritu pra tudu enquantu é cantu. - É Consebida minha cumadi e amiga se num fosse u jorná A Sirene, nois tava muda sem nossus pobrema com a renova podê denunciá. - Issu é uma grande veudade, escuta u que eu vô te falá, pra nois a renova trás ispim e as rosas ela publica nas grande mídia pru zotu achá assim, que nossas vida é um jaudim. - É cumadi a renova brinca até com a decisão judiciá. - U que oçê ta querenu falá? - U juiz disse que tudu enquantu é atingidu tinha di cê ouvidu antes de tê pela metade u seu cartão reduzidu, e era pra corta só de pescadô de subisistência e di agricultura família. - Mas istu num faz sintidu, ês cortaru de quase todus os atingidu, sem respeitá u que u juiz havia dicididu. - Uai, estu põe a fundação acima da lei desta nação e nu tiatru da justiça ela é a protagonista e a majistratura apenas figura. - Cumadre repara esta justiça trabaiá, há 5 anos, nois vil a barrage da samarcu istorá, que horrô há 2 dois anos foi a barrage da vale que istorô, hoje nois ta venu u povo da Amazonas onde tem mais ar sem consequi respirá. - Cumadi a mais morta de todas as barrage é a de Brasilia, e ta fazenu força pra num istorá, continua lá com toda lama dentru fazenu a gente pená.


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Direito de entender:

“Prescrição”

Por Guilherme de Sá Meneghin, Promotor de Justiça

No dia 5 de novembro de 2021, o crime da Samarco, Vale e BHP completará seis anos e, ao que tudo indica, a reparação integral dos direitos dos atingidos ainda estará longe de se completar. Certamente, os procedimentos de reparação – auxílios financeiros, moradias temporárias, indenizações, reassentamentos coletivos e familiares, e outras medidas – estão em andamento e são acompanhados diariamente pelos atingidos. Apesar disso, é preciso ficar atento a fenômenos que podem escapar ao controle dos atingidos e das autoridades, e que podem beneficiar a má-fé das empresas e da Renova. Trata-se do instituto da prescrição. De acordo com o art. 189 do Código Civil (CC), “violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206”. Em outras palavras, toda vez que uma pessoa sofre prejuízo por ações ou omissões de outrem – como a perda da moradia, a mortandade de animais, a destruição de automóveis, a eliminação da fonte de renda – surge, para ela, o direito de cobrar a reparação desses danos, mediante indenizações e outras obrigações a serem impostas ao causador da lesão. No entanto, esse direito se extingue se não for exigido nos prazos estabelecidos em lei. Eis a prescrição, de forma sucinta: é a perda da pretensão, isto é, a perda do direito de cobrar a reparação de um direito, se esta não for demandada no prazo previsto em lei. No caso de indenizações devidas pelas empresas aos atingidos, existe um prazo para que estes possam cobrar daquelas. Teoricamente, esse prazo é de três anos, contados do evento danoso, nos termos do art. 206, §3º, V, do CC. Acontece que o acordo homologado pela Justiça no dia 2 de outubro de 2018, nos autos da Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), interrompeu esse prazo. Isso significa que o prazo zerou, foi reiniciado e voltou a ser contado a partir dessa data emblemática. Logo, em tese, o prazo para que os atingidos possam cobrar os direitos lesados vai até 2 de outubro de 2021, já que, em tal data, se findarão os três anos desde o dia do referido acordo. Diz-se “em tese”, porque diversas situações pessoais e interpretações jurídicas podem ampliar o prazo, cujas minúcias seriam descabidas nesse espaço exíguo. Com isso, queremos alertar todos os atingidos de que, na hipótese mais prejudicial para a comunidade, o prazo assinalado deverá ser respeitado: 2 de outubro de 2021. Se as empresas e a Fundação Renova não pagarem até a proximidade dessa data, será necessário entrar com uma ação judicial denominada Cumprimento de Sentença, por intermédio da Defensoria Pública ou de advogado particular, para visar evitar a implementação do prazo prescricional. Quando a pessoa entra com a ação na Justiça, o prazo prescricional é suspenso e, até a finalização do processo, não corre a prescrição. Por isso, a parte estará com os direitos protegidos contra a prescrição. Daí a importância de se ter em mente que a enrolação da Renova não pode ser admitida passivamente: é necessário ser precavido. Aos atingidos, o MPMG ressalta que NÃO CONCORDA COM ESSA DATA (02/10/2021), visto que o prazo prescricional deve ser o mais favorável para os atingidos, aplicando-se, então, as disposições do Código de Defesa do Consumidor (CDC), que prevê cinco anos, conforme art. 27 do citado diploma legal. Além disso, as empresas e a Renova, continuamente, por via de seus representantes, praticam atos inequívocos de reconhecimento do direito dos atingidos, o que configura, também, causa de interrupção da prescrição (art. 202, VI, do CC). Por isso, o MPMG atuará em duas frentes, ao avisar os atingidos de que tenham em mente um contexto desfavorável e possam ser prevenidos, ao mesmo tempo que pleiteará o reconhecimento de prazo mais dilatado. De tudo que fora escrito, o mais importante é que os atingidos saibam que: (1º) o MPMG buscará o reconhecimento da ampliação do prazo prescricional; (2º) a despeito dos esforços do MPMG, é impossível fazer um prognóstico de qual será a interpretação dos tribunais, isto é, se favorável ou desfavorável aos atingidos; (3º) por via das dúvidas, para resguardar seus direitos, o atingido deve estar ciente de que antes do dia 2 de outubro de 2021 deverá ter recebido sua indenização ou, caso não tenha aceitado a proposta da Renova, ingressar com ação judicial denominada Cumprimento de Sentença; e (4º) consultem os assessores jurídicos disponibilizados pela Cáritas, que foram instruídos para auxiliar os atingidos em todos esses aspectos e poderão lhes orientar juridicamente como deverão proceder da melhor forma possível.


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Nota do MAB sobre violações de direito em Naque Atingidos(as) de Naque são conduzidos à delegacia após se manifestarem por seus direitos. Em nota, o Movimento dos Atingidos por Barragens se posiciona sobre o caso. Por Movimento dos Atingidos por Barragens - MG

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) denuncia que, na noite do dia 18 de janeiro de 2021, cinco atingidos integrantes da Comissão dos Atingidos e Atingidas da cidade de Naque, no Vale do Aço, em Minas Gerais, foram presos após participarem de uma manifestação em defesa dos direitos da comunidade. Segundo relatos dos próprios atingidos, depois de uma manifestação pacífica na linha férrea Vitória-Minas, a mineradora Vale comprometeu-se a realizar uma reunião com a presença da Fundação Renova, entidade controlada pelas mineradoras Samarco, Vale, BHP Billiton e responsável pelo processo de reparação na bacia do rio Doce. No dia e na hora marcada, ninguém apareceu. Os atingidos, então, decidiram voltar para a manifestação. Após serem abordados pela Polícia Militar (PM) - que apresentou uma liminar que não valia para o município de Naque -, decidiram sair da linha de maneira organizada para reavaliar o ato. Naquela noite, viaturas da PM com sirenes ligadas buscaram cinco lideranças em suas residências e as conduziram para a delegacia. Todos voltaram para suas casas apenas no início da manhã do dia 19 de janeiro. O MAB solidariza-se com os atingidos que sofrem perseguição ou que vivem amedrontados no exercício do direito constitucional de livre manifestação. Essa situação não é pontual e evidencia a escalada de repressão contra defensores de Direitos Humanos, não apenas na bacia do rio Doce, mas em todo o Brasil. A escalada de repressão também se dá em um contexto de alinhamento do poder judiciário com os interesses empresariais. No caso do rio Doce, surpreende que a 12ª Vara Federal, em Belo Horizonte, após as manifestações dos atingidos em Naque e em outras localidades, tenha se posicionado informalmente, criticado os atingidos e paralisado o chamado “Sistema Simplificado de Indenização”, ao alegar “não estar satisfeito com a postura dos atingidos”, que não reconhecem “o esforço que está sendo feito”. Essa informação circula amplamente nas comunidades por meio de áudios e comunicados “oficiais” de diferentes escritórios de advocacia. Portanto, além da repressão policial, as empresas também controlam o andamento de decisões judiciais que abriram procedimentos que, independentemente das formalidades, agora são paralisados como forma, não apenas de amedrontar, mas de gerar um clima de chantagem e conflito interno entre os atingidos e as comunidades em um contexto de pandemia, em que não é possível promover espaços presenciais coletivos para diálogo e mediação. Repudiamos essa manobra das empresas com a participação do poder judiciário e reafirmamos que o direito à manifestação é fundamental. No atual contexto brasileiro, é a única forma de ser ouvido ou, ao menos, incomodar aqueles que detêm o poder político e econômico e que impõem sistematicamente crimes e violações de direito de toda a ordem. Para enfrentar esse contexto, é preciso, cada vez mais, pensar a longo prazo, fortalecer a unidade e a organização coletiva. Vamos à luta!

*Texto de autoria do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) que não necessariamente apresenta as opiniões do Jornal.

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Foto: Larissa Helena

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Cinco anos do Jornal A SIRENE O Jornal A SIRENE e sua história de comunicação com os(as) atingidos(as) pela barragem de Fundão. Por Sérgio Papagaio

Cinco aniversários fazem d’A SIRENE um jornal maduro pela sua convivência com um crime sem precedentes. Cinco de fevereiro de 2016 é a data de nascimento desse veículo de comunicação que se consolidaria como o principal meio de denúncia dos crimes decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco e de suas controladoras, Vale e BHP Billiton do Brasil. O jornal nasceu da iniciativa do Coletivo Um Minuto de Sirene, e contou com a colaboração de vários(as) integrantes da sociedade civil, da Arquidiocese de Mariana, do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) e de atingidos(as) da cidades de Barra Longa e de Mariana, traçando, assim, uma trajetória de sucesso e de responsabilidade na condução da comunicação consciente e colaborativa sobre a reparação do maior crime ambiental do Brasil. Crime que submeteu alguns(mas) atingidos(as) à morte física e outros(as) à morte psicológica, tão presente entre os povos da bacia do rio Doce, desde o rompimento da barragem até os dias atuais e, sabe-se lá Deus, por quanto tempo mais. Toda essa tragédia é mantida viva pela Renova, fundação criada para reparar o crime de Fundão, mas que parece ter esquecido o propósito pelo qual foi criada e, fazendo jus ao seu nome, renova o crime todos os dias, porque, sempre que precisa e com a ajuda da justiça que, hoje, no Brasil, assim como a Renova, parece ter esquecido seu papel -, passa a praticar crimes dentro da lei.


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Foto: Tainara Torres

O futebol feminino do Unidos de Bento Rodrigues O time feminino de futebol Unidos de Bento Rodrigues (U.B.R.) segue resistindo aos desafios impostos e busca mais investimentos para manter a prática do esporte. Na edição 39, o Jornal A SIRENE trouxe, em um ensaio, algumas das medalhas e alguns dos troféus conquistados pela equipe e ressaltou o quanto o futebol é importante para a história e a união da comunidade. Em “O que me faz bem”, título do ensaio, Larissa expressou a força do futebol em sua vida, um sinônimo de conforto e de resistência. Ela, como responsável pelo time, nos apresenta agora um novo cenário. O projeto de investir na melhora da organização da equipe, na estrutura de treinamento, em equipamentos e em transporte foi interrompido pela pandemia e, agora, as jogadoras estão há quase um ano sem treinar. É no esporte que as atletas do U.B.R. resgatam os momentos de encontro e de convivência em comunidade.

Foto: Joice Valverde

Por Larissa Sena Com apoio de Joice Valverde Dificuldade a gente tem em questão de equipamento e até de um lugar específico mesmo pra treinar. O treino da gente era jogo que marcávamos todos os finais de semana. Só que aí veio a pandemia e parou tudo. No ano passado, a gente nem jogou, depois de março, saíram decretos de não funcionar quadra ou campo esportivo. O pessoal também já não liberava transporte pra gente. Aí dificultou mais ainda e a gente super entendia, porque não iam liberar transporte sabendo que estava colocando a vida da gente em risco. Já tem um ano que a gente está parada, contando pra ver se essa fase ruim passa. Antes da pandemia, eu tinha até um projeto com o Bento, sabe? Eu falei que, em 2020, ano passado, queria fazer uma coisa mais reforçada. Do jeito que estava não estava ruim. A gente jogava, participava de torneios,

ganhamos bastante títulos pelo Bento. Só que algumas coisas eu não concordava, por exemplo, a gente entrava em torneio e não tinha como treinar. Pra mim, era muito difícil, porque, além de ser responsável geral do time, eu ainda jogava. E eu gosto de jogar bola, só que estava achando muito pesado pra mim. Então, estava com esse projeto de conseguir uma pessoa responsável pelo time e eu conseguir jogar melhor. Mas aí não deu pra fazer isso, porque veio a pandemia. Tá sendo bem difícil, pra todas nós, convivermos com essa situação, ainda mais a gente que era acostumada a, em todo final de semana, sair para outras cidades pra jogar futebol. Agora, vamos esperar a pandemia passar pra fazer um trabalho melhor com as meninas da equipe do Bento. Larissa Sena, jogadora do Unidos de Bento Rodrigues


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As igrejas são o nosso ponto de apoio

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Foto: Larissa Helena

As igrejas são parte importante das construções dos territórios atingidos que permaneceram de pé após o crime. A conservação e o cuidado desses espaços significa a manutenção da história, dos afetos e do cotidiano que eram partilhados. As igrejas estão envolvidas nas celebrações religiosas, nas festas, nos atendimentos às comunidades e nos velórios. Representam o lugar de encontro, de onde muitos atingidos(as) tiram forças para seguir na luta. Desde as primeiras edições do Jornal A SIRENE abordamos essa relação de proximidade das comunidades com as igrejas e as denúncias a respeito das dificuldades de acesso a elas. Na edição 9, por exemplo, trouxemos as queixas dos(as) atingidos(as) sobre as barreiras impostas à entrada nas igrejas e nos territórios, assim como a falta de cuidados das empresas responsáveis pelo crime em relação à manutenção desses locais. Foto: Larissa Helena

Por Luzia Queiroz, Maria Geralda, Mônica dos Santos e Pe. Rodrigo Marcos Ferreira Com o apoio de Joice Valverde e Júlia Militão

A manutenção das igrejas é importante pra não acabar com o pouco que restou da nossa história, sendo que, antes do crime, éramos nós, moradores, que cuidávamos com muito zelo e carinho. Essa falta de cuidados tem nos causado um incômodo muito grande, pois é muito triste ver o pouco que nos sobrou se acabando, enquanto os culpados não fazem nada pra amenizar esse sofrimento e recuperar a destruição que nos causaram. Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues Além de ser nossa igreja, a única que temos, a utilizamos em várias ocasiões, como velórios, festas, entre outras coisas. Para tudo o que acontece em nossa comunidade, a igreja serve como ponto de apoio. É o lugar que nós usamos para tudo. Todo esse zelo e cuidado é por amor ao nosso patrimônio. Maria Geralda, moradora de Paracatu de Baixo Foto: Sérgio Papagaio

Este ainda é o espaço em que podemos rever os amigos, parentes e a vizinhança do território e fazer a última despedida de pessoas que não veremos no reassentamento, que, a cada dia, se torna mais distante. Isso tem deixado a “melhor idade” vulnerável e, com eles, a história de Paracatu de Baixo, que vem sofrendo e sendo destruída, pela segunda vez, com o descaso de não manterem em bom estado o Paracatu de origem. Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo Há mais de cinco anos do crime, as mesmas questões são trazidas pelas comunidades. A manutenção das igrejas é importante, além de tudo, para a realização dos velórios. A limpeza tem sido feita pelos(as) próprios(as) atingidos(as), às pressas, pois os pedidos enviados à Renova não são atendidos. Recentemente, os(as) moradores(as) de Paracatu de Baixo vivenciaram a triste despedida de mais uma pessoa da comunidade e denunciaram a falta de cuidados no local, a dificuldade de acesso e o descaso da empresa. Além de viver o luto, os(as) atingidos(as) precisam lidar com a grama alta, a falta de limpezas e, até mesmo, a falta de luz.


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Hoje, não liberam para a comunidade continuar cuidando de um território que é nosso e, sempre que precisamos do espaço, dependemos da logística da Renova, o que não é nada confortável. Com a pandemia, as coisas complicaram mais, não podemos fazer nada, até que chegou a este ponto lastimável de não ter lugar nem para fazer o velório, são inúmeros os relatos de violação dos direitos humanos que nos entristecem ainda mais. Luzia Queiroz, moradora de Paracatu de Baixo O descaso da Fundação Renova com nossa comunidade é impressionante. Acredito que todos da comunidade têm, de uma certa forma, um carinho pela nossa igreja, já que foi uma das poucas coisas que restaram. Ver nossa comunidade abandonada dói, é humilhante. Ter que limpar a igreja em uma manhã antes de um sepultamento é revoltante. Além da dor das pessoas de ter que se despedir de um ente querido, ter que preocupar onde levar, se pode levar… Recentemente tivemos um velório em nossa comunidade e, mais uma vez, tivemos que juntar uma turma lá antes do sepultamento e limpar a igreja, pois estava tomada de mato, sendo que a Fundação Renova já tinha sido avisada há semanas atrás que a igreja estava suja. Não foi a primeira vez que tivemos que limpar a igreja às pressas, já teve caso de ter que colocar luz na igreja, pois o corpo chegou e a igreja estava sem energia. Maria Geralda, moradora de Paracatu de Baixo Esses locais, além de serem um lugar onde nos encontramos para realizar as nossas festas, são onde enterramos os nossos entes queridos. É muito revoltante, na hora de usar o cemitério, num momento que já é tão difícil, não ter uma estrutura digna como tínhamos antes do crime, sendo que a causadora de tudo é a responsável por manter o local de fácil acesso para o uso da comunidade. Eles não fazem nem o básico, que é uma simples capina constante do cemitério. Temos realizado nossos velórios à luz de bateria de carro, isso porque nos negam o direito de religar a energia da igreja. Alegam ser área de risco, mas como lá pode ser área de risco se a empresa assassina voltou às operações? Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues

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Não são só as igrejas que foram diretamente invadidas pela lama de rejeito que sofrem com as interferências da Renova. Mesmo que sua estrutura não tenha sido comprometida como as demais, a Matriz de São José, em Barra Longa, um patrimônio histórico de mais de 300 anos de fundação, está, desde outubro de 2019, fechada para obras de restauração. Desde então, os fiéis se reúnem no Salão Paroquial, enquanto aguardam sua reabertura. A igreja representa um marco muito importante da história do povo barralonguense e, principalmente, um espaço íntimo de comunhão há gerações. A Matriz de São José não foi atingida diretamente pela avalanche de lama, mas, como toda a cidade e muitas residências próximas ao percurso, ela trouxe, após esse crime, marcas que resultaram em uma ofensa ao monumento mais precioso da história, da cultura e da fé do povo barralonguense. Tenho lutado muito, como responsável por esse monumento, em nome da Arquidiocese de Mariana, para que as obras de reparo aos danos diretamente causados sejam mais rápidas e, assim, esse lugar santo seja entregue à população. Temos ciência de que era necessário o fechamento da Matriz para a realização das obras, visto que não são somente reparos, mas uma restauração de um patrimônio de mais de 300 anos que precisa de sérios cuidados e etapas nesse processo. A convivência da comunidade permanece. Nós não paramos de nos encontrar e celebrar. O Salão Paroquial, tornou-se a nossa “Matriz Provisória” e, nele, a gente se encontra como família de Deus para realizar nossas celebrações e momentos de intimidade com Deus. Mas não é a mesma coisa. Embora tenha ficado um espaço acolhedor, ele não é a Matriz de São José. Não é o lugar que marca sentimentos de gerações que passaram na história da Paróquia. Os irresponsáveis e incompetentes, causadores de um dano irreparável, têm que entender que nós precisamos da nossa Matriz reaberta. Nós não somos pacíficos diante dessa realidade e vamos lutar até as últimas consequências para que o descaso não supere a história de um povo que guarda, no coração da cidade, o seu bem mais precioso. Pe. Rodrigo Marcos Ferreira, administrador paroquial da Matriz de São José em Barra Longa

Pedras e a demora na reparação Nestes cinco anos, já abordamos diversas vezes as questões que afligem os(as) moradores(as) de Pedras e de outras localidades que foram atingidos(as) pela barragem de Fundão. Já nas primeiras edições, os(as) atingidos(as) contavam sobre as saudades da vida na roça - as árvores, as plantações, o contato com a natureza e a criação de animais. Depois da lama de rejeito, tudo mudou. Os animais começaram a morrer, a silagem não é suficiente, as árvores não existem mais, as rachaduras nas casas começaram a aparecer e a forçar as populações a se mudarem para a cidade e a morarem em casas alugadas. Por Graciete Martins dos Santos, Maria Cornélia de Souza, Marlene Agostinha Martins e Sônia Nazaré dos Santos Com o apoio de Juliana Carvalho Na edição nº. 1, do Jornal A SIRENE, publicada em março de 2016, Maria já sentia os efeitos da perda de seu quintal: ter de comprar verduras no mercado. Ainda hoje, ela sofre com a rotina que antes não lhe pertencia e que se tornou ainda pior com a pandemia do novo coronavírus. Quando eu morava lá na roça, eu tinha de um tudo, não precisava de comprar, e a verdura está muita cara. A verdura era sadia, a gente apanhava na hora que queria e aqui a gente tem que comprar. Costuma comprar a verdura murcha, ela não dura nem de um dia para o

outro. A gente tá passando muita necessidade e muita raiva, porque a Renova não lembra da gente de jeito nenhum, tá enrolando demais, até hoje não comprou minha casa. Acho que vou morrer sem entrar no que é meu. Os meus filhos ficam me cobrando quase todas as vezes que me vêem. “Mãe, quando a senhora morava na roça, nós trazíamos verdura para a semana inteira. Agora não temos mais, temos que comprar.” Aí a gente fica com o coração doendo, porque a barragem chegou e, com menos de minutos, levou tudo o que tinha no meu quintal. Maria Cornélia de Souza, moradora de Pedras


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A SIRENE PARA NÃO ESQUECER

O caso de Marlene e sua família apareceu na edição nº. 2, publicada em abril de 2016. Ela e os irmãos, na época, não foram reconhecidos(as) como atingidos(as), pois não moravam na região atingida. Mesmo assim, iam frequentemente visitar e prestar auxílio à mãe, que nasceu e teve seus sete filhos na mesma casa, em Pedras. Hoje, apesar de Marlene ser reconhecida como atingida, não recebe nenhum tipo de auxílio da Renova e sua mãe aguarda a mudança para uma nova casa. Nessa época, eu não era reconhecida como atingida. Eu fui muito recriminada nas reuniões, porque o funcionário da Samarco me perguntava o que eu estava fazendo na reunião, já que eu não era atingida. Minha mãe é atingida, perdeu a casa dela em Pedras pelo rompimento da barragem de Fundão. Hoje, eles até me reconhecem como atingida, né? Mas a gente não recebe nada, não. Meus irmãos... Ninguém recebe nada, porque eles falam que a gente não perdeu casa, que a gente mora em Mariana. Mas a gente não saía da casa da mãe, a mãe depende de nós, então nós não tínhamos hora de ir na casa de mãe. Hoje tá assim, né? Pra gente correr atrás de direito, a gente teve que arrumar advogada, porque ficou difícil. Sobre a casa da mãe, já tá comprada, né? Mas muita luta e batalha, muito choro. Não foi fácil, não. Não está sendo fácil, quer dizer... O meu caso e dos meus irmãos tá na mão de advogado, porque a Renova não quer, não aceita nosso direito, entendeu? Não tem como, ela não quer reconhecer os atingidos que foram atingidos indiretamente. Ela não reconhece, então quase todo mundo já tá no advogado mesmo. Marlene Agostinha Martins, moradora de Mariana Seu Nonô e sua companheira, Dona Graciete, foram os últimos a serem resgatados da região onde moravam, em Pedras, após o rompimento da barragem. O casal temia sair do local por conta da segurança de seus animais, que estavam, como os dois, ilhados e sem água. A mula tão querida por Seu Nonô acabou atolada na lama tóxica de rejeitos e Seu Nonô não desistiu de tentar salvá-la até o último minuto. Ele contou essa história na edição no. 2 do Jornal A SIRENE. O animal acabou morrendo e, após cinco dias em condições precárias, Dona Graciete, com seu companheiro e seu filho, foi retirada do local com o apoio de um helicóptero. Até hoje, o casal não foi reassentado e seus filhos lutam por melhores condições. Graciete e sua filha, Sônia, nos contam como tem sido passar por tantos sofrimentos. Por enquanto nada, viu? A gente já olhou vários terrenos, até hoje, não compraram nada pra nós, não, viu? Também não indenizou familiar nenhum até hoje. Nada foi feito. Nada de terreno, nada de indenização. Nem meus filhos, nem ninguém.

Fevereiro de 2021 Mariana - MG

Foto: Larissa Helena

Estamos esperando, né? Deus ajuda se consegue arrumar alguma coisa, algum lugar pra poder morar, porque pra lá não tem condições de voltar, porque pra lá ficou uma tristeza, misericórdia. A casa não presta, não tem vizinho mais, o lugar ficou feio demais. Não tem condições, tem que arrumar um outro lugar pra gente morar. Lá não tem condições de morar duas pessoas

idosas sozinhas, não, naquele lugar isolado. Graciete Martins dos Santos, moradora de Pedras No dia do rompimento da barragem, meus pais sofreram muito por ver que tudo o que eles tinham havia se perdido. Um trauma que, até hoje, causa sofrimentos psicológicos. Depois do rompimento da barragem, eles tiveram que ficar no local por cinco dias por estarem ilhados. E não podiam sair de lá pelo fato de que os animais também estavam correndo riscos, tanto que sumiram alguns animais e também ocorreu a morte de uma mula muito especial, que acabou se atolando na lama. Meu pai e meu irmão tentaram retirar a mula de lá, mas não conseguiram, porque a lama era muito tóxica e já estava causando ferimentos em suas peles. Até que os responsáveis pela tragédia tomassem providência para cuidar dos animais, ele não queria sair de lá. Depois, eles ficaram por um tempo no hotel até que arrumassem uma casa de aluguel provisória. Na primeira casa em que colocaram eles, eles não conseguiram se adaptar, porque ela tinha uma estrutura muito ruim, pois, quando chovia, alagava toda a casa e dava muitos ratos. Entramos em contato com a Renova para que pudessem retirar meus pais de lá. Com muito esforço, choro e humilhação, eles deram a resposta que iriam olhar outra casa para que eles se mudassem. E, hoje, completando quase cinco anos do rompimento da barragem, eles continuam morando de aluguel em uma casa pequena, que não consegue abrigar toda a família com conforto. Meus pais são idosos e, a cada dia que passa, estão sofrendo e ficando doentes por saber que não estão conseguindo nada, que a Renova sempre fala a mesma coisa. Onde eles moram não tem como plantar nada, sendo que, antes, eles podiam plantar de tudo e criavam seus animais tranquilamente. Hoje eles ficam tristes por ver que tudo o que tinham e gostavam de fazer acabou. E sofrem também por ver que tudo o que eles produziam para o sustento da família acabou. Estamos cada vez mais cansados, tristes, angustiados por sempre recebermos respostas negativas. Só queremos ter os nossos direitos para que possamos seguir com a vida. Nós ficamos muito tristes, pois meus pais sofreram muito para criar a gente, podiam estar com a vida tranquila agora, mas a barragem tirou esse sossego deles. Só queremos um lugarzinho para que nossa vida possa voltar, pelo menos um pouco, ao que era antes, pois sei que ela nunca mais vai ser completamente igual ao que era. Sônia Nazaré dos Santos, moradora de Pedras


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Entre tradições e violências: o garimpo tradicional do rio Doce e o garimpo de fronteira da Amazônia Por Emmanuel Duarte Almada (Biólogo e doutor em Ambiente e Sociedade Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais Kaipora – Laboratório de Estudos Bioculturais) e Sérgio Papagaio Quando se ouve falar em garimpo de ouro, logo vem à mente as imagens de Serra Pelada, as invasões de terras indígenas e de unidades de conservação, especialmente na região amazônica. No entanto, o garimpo tradicional no Alto Rio Doce possui uma outra história, baseada em formas próprias de relações sociais e com o território. Enquanto o garimpo de fronteira da Amazônia teve início nos anos 1960 e 1970 do século XX, o garimpo tradicional do Alto Rio Doce tem suas raízes no final do século XVII, com o início do Ciclo do Ouro. Os garimpeiros e as garimpeiras tradicionais do rio Doce são descendentes dos negros e dos indígenas escravizados que trabalharam nas minas a serviço do Estado, das empresas e também da Igreja. Foram esses mesmos homens e essas mulheres que formaram as comunidades ao longo dos rios e córregos da região, construindo diversos saberes sobre a pesca, as matas e as roças. O garimpo, a agricultura familiar e a pesca compõem os modos de vida que produzem o território tradicional habitado pelas comunidades do Alto Rio Doce. Foto: Emmanuel Duarte Almada


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Foto: Emmanuel Duarte Almada

Foto: Emmanuel Duarte Almada

Foto: Sérgio Papagaio

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O garimpo de fronteira da Amazônia é, em grande medida, marcado pela violência, tanto entre os próprios garimpeiros, quanto em relação aos povos indígenas e às comunidades locais dos territórios por onde ele se expande. Por trás do garimpeiro de fronteira da Amazônia, frequentemente, há extensas redes de grandes empresários que exploram esses trabalhadores, uma vez que, para alcançar locais tão isolados, é preciso elevado aporte de capital e uma infraestrutura quase bélica. O garimpo tradicional do Alto Rio Doce, por outro lado, constitui o modo de vida das comunidades da região. Embora também seja herdeiro de uma história violenta de escravidão e dor, a exploração do ouro pelo garimpo tradicional conforma uma extensa rede de relações e saberes entre humanos, águas, solos, rochas, matas, peixes e o próprio ouro. Seja o garimpo de banca, canal, baixão ou balsa, todas essas formas estão voltadas para a subsistência e compunham, antes do crime da Samarco/Vale/BHP, uma parcela importante da economia local. Nas décadas de 1970 e 1980, o garimpo de fronteira da Amazônia, de alguma maneira, se interliga temporariamente ao garimpo tradicional do rio Doce. Foi da região amazônica que chegaram garimpeiros que trouxeram os saberes e as técnicas envolvidos no garimpo de balsa e baixão. O uso de motores, no entanto, não significou uma redução da mão de obra para extração de ouro. Ao permitir a sucção e a lavagem de um volume de material muito maior que as técnicas então existentes (banca e canal), o uso de motores teve como consequência um emprego ainda maior de esforço físico por parte dos garimpeiros. Essas novas tecnologias, trazidas pelas fofocas, há 40 anos, passaram a compor o modo de vida garimpeiro, que não deixou de ser tradicional. As relações de amizade, solidariedade e partilha continuaram a ser um dos elementos principais do garimpo tradicional. Outro aspecto muito importante que diferencia o garimpo tradicional do Alto Rio Doce daquele praticado nas fronteiras amazônicas refere-se a uma dimensão arqueológica da prática. Os garimpeiros do rio Doce, muitas vezes, trabalham em áreas anteriormente garimpadas, há décadas ou centenas de anos. Eles reconhecem vários sinais nos rios, córregos e especialmente nos solos, que são indicativos de garimpos do passado, tais como a forma de disposição dos cascalhos, tipos de vegetação, ferramentas e objetos antigos encontrados (cachimbos, bateias de madeira, carumbés). Os garimpeiros tradicionais guardam, em sua memória, as mudanças nos caminhos dos rios, dão nome e sentido a cada rebojo, pedra, ilha e barra. A maior parte dos garimpos na Amazônia, ao contrário, se constitui a partir de uma expansão sem volta, que deixa apenas rastros de destruição e violência. Dessa forma, os garimpeiros e as garimpeiras do Alto Rio Doce, ao se reconhecerem como comunidade tradicional, o fazem em busca da garantia de seus direitos e da justa e urgente reparação. Além disso, ao reafirmarem sua tradicionalidade, garimpeiros e garimpeiras atualizam e cultivam uma memória secular, forjada na dor e no sangue dos antepassados, mas também na diversidade e nas belezas das formas de vida e relações que criaram ao longo destes três séculos de história e resistência.


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Brumadinho dois anos depois O mês de janeiro traz mais um marco dos inúmeros crimes cometidos pelas empresas mineradoras: o rompimento da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, ocorrido no dia 25 de janeiro de 2019. Há dois anos do crime que matou 272 pessoas, as consequências do rompimento e os rastros de destruição deixados permanecem levando vidas, sonhos e a saúde da população atingida. Rejane Fernandes Reis, moradora da comunidade de Pires, em Brumadinho, relata que a vida dos(as) atingidos(as) mudou completamente, em todos os aspectos e, ainda assim, ao longo desses dois anos, a Vale segue cometendo novas violações contra essas pessoas que se sentem, hoje, desamparadas. Por Rejane Fernandes Reis

Foto: Marcela Nicolas / Comunicação RENSER

Com o apoio de Júlia Militão O que eu tenho a dizer sobre a Vale e sobre esses dois anos que se passaram é a indignação de nada ter sido feito. As nossas vidas viraram de pernas para o ar, não temos mais estruturas e eu não vejo mais nenhuma luz no fim do túnel, não consigo ver nenhuma saída. São dois anos de muita angústia, de muita luta. A Vale é que provocou tudo isso e nós, atingidos, temos que implorar pela reparação, pela indenização e pelo auxílio emergencial. O que eu vejo é que nada está sendo feito. Ela faz uma coisa aqui, uma coisa ali, uma reparação aqui e outra ali, mas nada suficiente para que venha, pelo menos, amenizar a dor que estamos sentindo. A minha vida, nesses últimos dois anos, mudou de uma forma que eu mesma não estou reconhecendo. A minha comunidade, Pires, está devastada. Eles entram na comunidade e fazem o que querem e nós não temos apoio das instituições de justiça pra nos amparar. Então, o que está acontecendo é que cabe a nós, atingidos, lutar, gritar e pedir socorro, porque estamos totalmente desamparados. Acho que estamos abandonados, pois nada foi feito e estamos totalmente nas mãos da Vale, sem saber o que fazer. Deixo, aqui, a minha profunda tristeza de ver tanta coisa acontecendo, tanta coisa nos magoando… Porque a Vale matou, ela levou junto com ela nossos sonhos, nossas perspectivas de vida. A lama levou junto a nossa vida e nos deixou vivos, mas mortos pra vida, sem saber o que fazer, sem sonhos, sem planos, porque não sabemos o que vai acontecer, o que vai ser da nossa vida. A gente ficou sem destino. O que estão sendo esses dois anos? Estão sendo anos de tristeza, de angústia, de mágoa… Está sendo muito difícil pra gente. Tirou nosso emprego, tirou a nossa saúde, tirou a nossa alegria de viver. Nossas comunidades, Pires, Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira, entre outras, pedem socorro, pedem que as instituições de justiça nos ouçam, estejam a nosso favor, assim como foi no começo, porque estamos abandonados por tudo e por todos. Aqui é só nós, atingidos, um pelos outros. Essa é a minha indignação contra a Vale, que matou nossos sonhos, a nossa gente e os nossos amigos. Rejane Fernandes Reis, moradora de Pires, em Brumadinho

Foto: ísis Medeiros


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Fundação Renova impõe fome aos animais atingidos Por Ellen Barros Com o apoio de Geruza Luiza

A Assessoria Técnica denunciou a Fundação Renova ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) por problemas relacionados aos cuidados com animais atingidos. A denúncia construída com as comunidades atingidas diz respeito, principalmente, ao fornecimento de alimentação insuficiente e/ou inadequada, que causa fome e morte de animais, entre outros problemas que configuram graves situações de maus tratos. Atingidos relatam que alimentos precisam ser buscados em grandes distâncias ou não são entregues no prazo. A situação se agrava quando se trata de criações de cavalos que precisam comer feno, alimento que a Renova deixa faltar para muitos deles. No desespero, criadores submetem seus cavalos à substituição do feno por silagem, que não é recomendada, pois pode gerar problemas nas articulações e causar prejuízo na locomoção dos animais. Mesmo com essa substituição, os animais ficam gravemente desnutridos e isso tem provocado abortos. Em novembro de 2020, os atingidos foram surpreendidos com a informação de que a política de fornecimento do auxílio emergencial da alimentação animal sofreu alterações. A Fundação Renova comunicou que não forneceria o alimento, mas que iria depositar o valor do auxílio em conta do atingido beneficiário. Sob forte crítica das famílias atingidas, em acordo firmado junto ao MPMG, a Fundação recuou, disse que a nova medida se aplicaria apenas para quem assim preferisse e se comprometeu a não deixar faltar alimento para os animais. Promessa não cumprida. Em 10 de dezembro de 2020, a Fundação Renova não entregou o trato aos atingidos, alegou que não tinha contratos de fornecimento vigentes e que seria necessário cotação e contratação de fornecedor, entre outras ações que não foram feitas em tempo hábil. Outros casos de desabastecimento foram relatados por atingidos. Ora a desculpa da Renova é caminhão quebrado sem previsão de conserto, ora é a suspensão da entrega do alimento em função da pandemia. Com isso, animais sofrem com a fome, e seus donos com o descaso e a aflição de não terem condições de garantir a nutrição adequada. A vulnerabilidade imposta aos animais vem também da infraestrutura dos terrenos em que muitas famílias foram alocadas “provisoriamente”, que apresentam erosões, pastos subdimensionados, problemas com cercas e currais. Além disso, algumas famílias agora vivem à longa distância do local onde foi colocada a criação. A segurança também não é garantida, pois há relatos de roubos de animais e de instrumentos de trabalho.

A Renova ignora a relação entre as pessoas e seus animais. Um exemplo é o caso da família Lins, que se mudou de Paracatu de Baixo em 2019. No suporte para o transporte dos animais, a Fundação abandonou cinco galinhas, uma pata chocando e alguns pintinhos para trás, animais nunca mais recuperados. Essa mesma família relata que não tem recebido a ração para seus animais, mesmo tendo solicitado à Renova. Em consequência disso, os animais estão desnutridos e com baixa produção de leite. Animais que foram levados para uma fazenda em Barra Longa, sob responsabilidade da Fundação Renova, também estão em risco. A distância dificulta a convivência dos proprietários com as criações. A promessa da Fundação é a de que os bichos estariam bem cuidados, no entanto, há relatos de atingidos que viram seus animais magros; sem aparo da crina; com casco desgastado; sem doma, o que os torna mais agressivos com o tempo. Durante a pandemia de Covid-19, a impossibilidade de realizar visitas é também um fator de sofrimento. Claudiano dos Santos, atingido de Bento Rodrigues, recebeu foto de um dos seus cavalos que teve ferimentos no olho e ficou cego. Sem explicação adequada, o atingido suspeita que isso tenha ocorrido por esse equino estar no mesmo piquete com outro garanhão, o que não é recomendado, pois os bichos podem se machucar com coices. Atingidos que enfrentam problemas como esses podem denunciar. Em caso de dúvida, entre em contato com a Central de Informações da Cáritas em Mariana: 31 99218-0264. Foto: Fundação Renova

Cavalo sob responsabilidade da Renova na Fazenda do Crasto ficou cego após ferimento no olho.


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A luta dos atingidos da bacia do rio Doce que tiveram o Auxílio Financeiro Emergencial cancelado/diminuído pela Renova Por Verônica Viana (advogada) e Juliana Cobuci (assistente social)

Após cinco anos do desastre/crime da Samarco, os atingidos ainda vivem uma série de desafios decorrentes do rompimento da barragem de Fundão e do seu processo reparatório. Mesmo com os territórios não reabilitados e com muita incerteza diante das condições ambientais da bacia do rio Doce, diversos atingidos seguem sem acessar ao direito do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE), bem como têm se intensificado as ações da Renova com vistas a restringir ainda mais a aplicação da medida. Em 2019, a Renova cancelou o auxílio de 141 atingidos e suas famílias. Na ocasião, os cancelamentos se deram sem oportunidade de defesa dos beneficiários ou análise dos casos em específico, sob a argumentação genérica de não preenchimento dos critérios. Já em 2020, a Renova comunicou o cancelamento do auxílio financeiro para os casos concedidos na fase emergencial que, segundo ela, não preenchiam os requisitos do Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC), bem como daqueles que, segundo a Fundação, tiveram restabelecidas as condições para a retomada de atividade econômica ou produtiva. Os dados concedidos pela Renova indicam o cancelamento de 7.681 auxílios. A gravidade e o risco criados pela ação executada pela Renova fez com que a Advocacia-Geral da União levasse a situação ao juízo responsável pelo caso, que determinou o imediato restabelecimento do pagamento do AFE devido à ausência de oportunidade de defesas das vítimas. Apesar da decisão trazer essa grande vitória dos atingidos, criou um regime de transição para o encerramento do benefício para os “pescadores de subsistência” e os “agricultores de subsistência”. Esse regime estabeleceu a redução em 50% do valor mensal do auxílio financeiro emergencial pago de janeiro a junho de 2021. A partir de julho de 2021, pescadores e agricultores passariam a receber, respectivamente, valores correspondentes ao Kit Proteína e ao Kit Alimentação, determinados pela cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Diante disso, diversos órgãos e advogados apresentaram recurso à decisão. Em resposta, por meio de nova decisão, o juiz determinou a aplicação do regime de transição (redução pela metade) até 2022, em data a ser definida oportunamente. Considerou ainda que, em relação a todo e qualquer corte de AFE, a Fundação Renova deve seguir, obrigatoriamente, um processo legal que envolva a notificação prévia dos atingidos e o direito a contraditório e à ampla defesa. Assim, o juiz proíbe comportamento unilateral (e arbitrário) da Renova em relação ao corte (ou à suspensão) do AFE para todas as categorias de atingidos, indistintamente.

É fato notório que, em reiterados momentos, a Renova negou aos atingidos informações básicas sobre a concessão do direito. A instituição reconheceu a não observância de procedimento adequado de comunicação e informou que a decisão judicial é pública e, portanto, que não caberia à Renova informar previamente às pessoas acerca da implementação do regime de transição derivado do cumprimento da decisão judicial. Assim, não houve comunicação prévia da Fundação às pessoas que, para a instituição, estariam abrangidas pela decisão, o que dificultou o acompanhamento da regularidade das reduções de AFE. A ausência de oportunidade das vítimas debaterem o direito ameaçado se coloca na consideração, exclusiva pela Fundação Renova, das informações constantes no cadastro das famílias. Outra questão é que os cadastros, em sua maioria, foram aplicados logo após o rompimento da barragem, momento em que as diversas instituições de justiça reconheciam a imprevisibilidade do dano. Como sabemos, o desastre/crime gerou consequências que excederam a capacidade dos atingidos de responder à situação com seus próprios recursos, o que provocou danos severos à saúde, à dignidade humana, aos modos e projetos de vida de toda a bacia hidrográfica. Nesse quadro, a ausência de escuta, contraditório e ampla defesa evidenciam a deficiência para a concretização da paridade entre atingidos e as empresas responsáveis pelo crime, visto que a Fundação Renova representa a forma, por excelência, da palavra autorizada, oficial, instituidora do direito e do portador. O resultado disso é perceptível quando diversos atingidos que não se enquadram nas atividades econômicas de subsistência (pesca e agricultura) estariam sofrendo redução indevida do AFE. Nos atendimentos realizados pela assessoria AEDAS, foi possível identificar a hierarquização de informações descontextualizadas para classificação dos atingidos do município nas categorias de subsistência consideradas, pesca e agricultura. Vale frisar que a população de Barra Longa possui perfil predominantemente rural. Ocorre que a presença dessas características não abarca a integralidade/complexidade da renda das famílias. O resultado prático de tudo isso foi a diminuição do auxílio de várias pessoas que, aparentemente, não se identificam com as categorias consideradas na decisão judicial. Diante da invalidade da ação irregular da Fundação Renova, os diversos atingidos que sofreram a nova violação de direito com o cancelamento/ redução do auxílio seguem solicitando a imediata devolução retroativa dos valores não pagos às suas famílias, por meio do cumprimento das decisões judiciais e da deliberação do CIF sobre o tema.


EDITORIAL O Jornal A SIRENE completa cinco anos neste mês de fevereiro. Nos questionamos se é possível comemorar essa data, já que o motivo da nossa existência nasce da ganância das mineradoras que esmagam vidas e direitos. Desde fevereiro de 2016, somos uma voz contrária às propagandas das mineradoras e da Renova. São cinco anos trazendo denúncias e preservando memórias das comunidades atingidas. Revisitamos as nossas primeiras edições no intuito de perceber as transformações ocorridas ao longo do tempo. Pautas levantadas por atingidos(as) naquela época ainda são repetidas hoje. É o caso dos(as) moradores(as) das comunidades rurais, como a de Pedras, que ainda têm problemas com suas plantações e seus animais, além de não terem sido reassentados(as) e/ou indenizados(as). No aspecto cultural, alguns problemas também se repetem. As igrejas, para além de símbolos religiosos, são espaços de convivência social, a vida das comunidades atingidas se organiza em torno delas. O cuidado com esses lugares é uma demanda antiga dos(as) atingidos(as), mas, ainda hoje, enfrentam problemas até mesmo para velar seus entes queridos. Além disso, alguns problemas antigos ganham novas caras com a pandemia de Covid-19. Os times de futebol das comunidades atingidas enfrentam desafios desde o rompimento da barragem. A adaptação dos(as) atletas na cidade, a questão dos espaços de treino e do suporte financeiro foram uma constante preocupação das equipes nos últimos anos. Agora, o novo coronavírus traz outros desafios para o esporte. Também trouxemos, nesta edição, o relato de Rejane Fernandes Reis, moradora da comunidade de Pires, em Brumadinho. Ela nos conta sobre como têm sido esses últimos dois anos após o rompimento da barragem de Córrego do Feijão. É preciso manter a memória viva para que esses crimes não sejam banalizados. O slogan do Jornal A SIRENE é “para não esquecer”. É esse o lema que orienta o nosso trabalho. Se há algo do qual possamos nos orgulhar nesse aniversário de cinco anos é o nosso compromisso com a comunicação popular. Acreditamos que a história precisa ouvir o lado das vítimas dos crimes cometidos pelas mineradoras. O nosso jornalismo busca isso.

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A Sirene - Ed. 58 (Fevereiro/2021)  

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