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Coluna

As cores da vida aos quarenta

S

ai do consultório da oftalmologista entendendo que agora era oficial: sou uma quarentona e não escapo do fato de não enxergar mais como antes. Enxergo melhor agora, pode ser de perto ou de longe. É isso mesmo, não me enganei. Mesmo tendo em mãos uma receita médica que indicava a necessidade de usar óculos de grau para facilitar a leitura, percebi que ironicamente era agora, nesta fase da minha vida, quando o acessório passou a compor meu visual, que eu via tudo com maior nitidez. Segundo a tradição hinduísta, temos situado em um ponto entre as

Agora entendo que sentar-me à sombra e sentir o seu frescor traz uma sensação de paz que dura muito mais do que o bronzeado da pele que tostou ao sol sobrancelhas um terceiro olho que está ligado à percepção sutil e à capacidade intuitiva. Pois penso que isso explica muito. Se por um lado os meus lindos olhos castanhos já não são mais tão independentes, por outro, o meu sexto chakra está com tudo. Não tenho poder de clarividência, no entanto, meu radar para identificar as cores da vida, traços de caráter, sociopatas, amigos verdadei-

ros e gente chata está muito bom! O mesmo posso dizer da minha capacidade de ver e avaliar pelo que realmente derramarei lágrimas e quais os melhores caminhos para percorrer em cada situação. Agora entendo que sentar-me à sombra e sentir o seu frescor traz uma sensação de paz que dura muito mais do que o bronzeado da pele que tostou ao sol (confesso que ainda

estou me desapegando do bronze). Já enxergo que mantenho a forma comendo maçãs e, por vezes, saio dela me deleitando com as massas, porque agora compreendo que, apesar dos corpos malhados atraírem os olhares de admiração, as mulheres de carnes macias também os atraem e com a imensa possibilidade de virem acompanhados de sinceros e calorosos abraços. Vejo os acontecimentos utilizando, além dos olhos, meus ouvidos, meu tato, olfato e paladar. Os 40 anos desembarcaram em minha vida mostrando a que vieram. Trazem consigo um ar requintado, perfumado, uma intuição apurada. Trazem um novo gosto musical e agora bebo valsas e degusto de clássicos interpretados pela Alcione e outros tantos nomes sensacionais. Estou fascinada com tudo o que ainda poderei descobrir (e agora escrever!) aos 50, 60 e lá vão anos de minha vida. Se antes eu olhava, agora eu enxergo.

Raquel Winter cronicasraquel@gmail.com

FIM DE SEMANA, 14 E 15 DE JANEIRO DE 2017

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AH - Você | 14 e 15 de janeiro de 2017  
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