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Testemunhos de Ana Estrada - a leiriense que estรก no Haiti


Dia 13 Janeiro – Um dia após o sismo Olá! Estou bem! Estou na base logística, as réplicas mantêm-se...temos ração de combate. Dormi hoje 3 horas. Estive em primeiros socorros às vítimas desde ontem...nunca via tanta desgraça…Estou exausta...! Ainda não fui a casa mas um amigo meu passou lá, disse que estava intacta mas toda numa bagunça...trouxe-me o meu computador, o passaporte e alguma roupa! A ajuda está a chegar...não tenho indicação de ter de evacuar, não sabemos nada! Mas se a ideia for evacuar não será nos próximos dias! Perdi muitos amigos e só de pensar...se soubessem as imagens q tenho na mente... e os sons. Tive sorte, muita sorte! A sorte de se abrir um buraco na parede, apesar de longe lá fui afastando destroços...enquanto ouvia meu nome lá fora! Não fico aqui mais tempo. Fiquem tranquilos, o pior já passou! O luto agora e meu...:(


Dia 14 Janeiro – Dois dias depois do sismo Depois de sentir os primeiros tremores, percebi imediatamente que não tinha outra saída senão colocar-me debaixo da minha secretaria. De areia passou a pedra, ficámos sem electricidade e uma nuvem de pó instalava-se. Quando o solo deixou de serpentear, o pânico estava instalado na maioria das pessoas. Tentei manter a calma e chamar pelos meus colegas que estavam no escritório comigo, ao mesmo tempo ouvia pessoas a gritar, outras que batiam desesperadamente nas paredes e portas. Eu não tinha ideia de como sair dali. Debaixo dos escombros e a luz de uma lanterna que um colega tinha, tentei manter a calma e disse-lhe “estás com um penteado espectacular”. Saíram todos primeiro que eu por um buraco que tal tremor criara, a minha posição estava mais complicada. Assim que tentava perceber como podia sair dali, mais uma réplica que me obrigava a colocar novamente a cabeça debaixo da mesa. Finalmente e depois de pensar “eu não vou morrer aqui” comecei a tirar tudo o que me impedia a passagem em direcção à luz…aquela luz ao fundo do túnel! Ouvia os meus colegas lá fora a chamarem –me! Sem chinelos mas também muito bem penteadinha, com escoriações e equimoses espalhados pelo corpo, banhada de pó, esse que já dificultava a respiração, sai, estou viva! A partir daí, fui procurar malas de primeiros socorros e começar a ajudar os feridos, um cenário catastrófico, amputado, fracturas expostas, cérebros à vista. Tudo entre os gritos e com réplicas do tremor ainda patentes… parecia estar num filme… as pessoas tornavam-se violentas no sentido de serem ajudadas umas primeiro que as outras, fiz o que pude ate a exaustão. Aí parei e apercebi-me da realidade… Ambos os edifícios das Nações Unidas tinham caído, desapareceram…percebi que tinha perdido ali imensos amigos… consegui falar com uma amiga que partilha casa comigo, estava


debaixo dos escombros e que só pensava na morte, tentei ficar junto dela durante as 9horas que esteve ali debaixo…saiu com esmagamento, em choque, mas esta viva! Pela madrugada dentro fomos todos evacuados para a base logística, onde tudo estava mais tranquilo, todas as pessoas procuravam informações e confirmar a sobrevivência dos mais queridos…até ao dia de hoje não sei de alguns…as buscas continuam mas como obvio as hipóteses de sobrevivência são reduzidas. As réplicas continuam e temos sempre a sensação que o chão estar a tremer. A Mariana Palavra e o João (polícia canadiano) ambos de origem portuguesa estão bem! À noite dormimos como podemos, dentro de carros, no jardim ou nos escritórios…os tremores não nos conseguem embalar… Mantemo-nos por aqui, onde as condições mínimas estão asseguradas. Não vamos ser evacuados, quem quiser e tiver passaporte pode ir para Miami, quem não tem pode sair para a Rep. Dominicana. Eu fico cá, sem dúvida! Já consegui ir a casa e recuperar o básico, tanto para mim como para a minha amiga! Estava intacta mas muito, muito desarrumada… Nas ruas encontramos o caos, a confusão, quem pode está a dirigir-se para a Rep. Dominicana, pois a maioria da população não tem acesso a água potável/alimentos. Prevê-se um aumento da criminalidade caso a ajuda humanitária seja escassa, o instinto de sobrevivência e conducente a violência. No entanto, o céu de Port au Prince vê já muitos aviões e helicópteros. Foi montado um hospital, onde estive a colaborar, no entanto, reuni já com o staff e com todos os que estão formados para a intervenção na emergência psicológica. Neste momento estamos organizados e a intervir. Tendo eu também sido vítima desta situação, procurei fazer o meu luto e restabelecer o equilíbrio emocional, com sucesso! Agora sim, mudo os objectivos de trabalho que me trouxeram ate aqui, mas garantidamente que não deixarei de trabalhar!


Dia 18 Janeiro – seis dias depois do sismo Olá a todos! Dou conta de que os dias chegam ao fim porque escurece e o fimde-semana apenas porque existe no calendário! As ajudas internacionais começaram a chegar, mas o ambiente que se vive em PAP está ainda muito marcado pela catástrofe. Evito a descrição pela dificuldade de adjectivação e pela alternativa da imagem. No entanto, emociona ainda ver na rua quem ao longe grita pelo nome e corre ao encontro de um abraço de quem temia ter perdido. Contrasta o desespero de quem chora e grita sofridamente a constatação da perda. Dois dos meus melhores amigos apareceram já sem vida, esmagados e quase irreconhecíveis…alem dos grandiosos momentos que partilhamos em condições tão especiais, resta-me a satisfação de que pelo menos não agonizaram até à morte, pois tudo indica morte imediata. Na base logística, onde me encontro, as cafetarias já abriram! Hoje para o pequeno-almoço havia apenas café e leite, ainda há dificuldade na gestão das refeições e as 17.30h de ontem já não fui a tempo de jantar. Faço conta com a ração de combate. Assim, a alimentação está limitada, mas como, não há o conforto do lar, mas tenho abrigo. Ria-me ontem com uma colega (Sim! Porque SEMPRE tem de haver espaço para o RISO!) que ao olhar para a minha cama de acampamento militar e ao perceber que dormia entre uma parede e uma secretária dizia-me: “Vês, estás muito bem, tens privacidade aqui no cantinho e tal” e eu concordei! Mas logo me dei conta de que esta apreciação não fazia qualquer sentido há uma semana atrás, mas de facto considerando o tempo e o espaço, estou óptima! A equipa de intervenção de emergência psicológica está organizada e o trabalho está a ser implementado. No posto fixo dos primeiros socorros psicológicos (onde pernoito) as vítimas chegam a qualquer hora, o luto, a perda de um ou mais filhos, irmão, marido ou mulher, a negação, o pânico, a


despersonalização, alucinação, etc. são condições pelo qual nos procuram. Ontem estive também na sede das Nações Unidas, onde ainda permanecem familiares e amigos dos desaparecidos nos escombros, descobre-se mais um corpo…mais uma esperança! Procuram-se sinais de vida, na maioria dos casos em vão, o sofrimento e o desamparo são marcados especialmente neste momento, os cadáveres são regados e há a tentativa de reconhecimento, de identificação…e é assim neste sentimento de impotência, frustração mas também de alguma esperança que alguns dos familiares e amigos insistem manter-se no local. No hospital, onde estive hoje, o caos é uma constante. Ouvi uma mulher a gritar, sentada de braços levantados ao céu, ao seu lado uma outra cantava em esganiço enquanto dava pulos descontrolados, aproximei-me e percebi que ali mesmo alguém tinha acabado de falecer… Bebés e crianças fisicamente debilitadas, choram já sem lágrimas marcadas pela tristeza, medo e sentimento de abandono ao não reconhecerem nada nem ninguém. Tiro mais uma foto na esperança que na sua divulgação haja família, que reconheça e de colo a estes pequenos. E assim reconstruo o meu trabalho, redefino objectivos que me trouxeram até aqui e readapto as minhas funções. Considerando a importância de que a intervenção na emergência psicológica, visa atenuar o stress (nesta fase agudo) reduzindo sintomatologias inerentes. A eficácia deste trabalho assume também a prevenção do stress pós traumático, promovendo por fim, uma comunidade mais sã, equilibrada, produtiva e harmoniosa. Haiti cherie!☺


Dia 20 Janeiro – Depois de um novo abalo de 6.1 na escala de Richter Estou bem. Está tudo bem. Estou no aeroporto e vou entretanto para a República Dominicana ajudar nos hospitais e campos de desalojados.


Testemunho de Ana Estrada, a leiriense que está no Haiti  

Ana Estrada, psicóloga leiriense em missão da ONU no Haiti, conta como tem vivido os últimos dias, após a catástrofe natural que atingiu o p...

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