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Pedro Rodrigues 26 anos. Natural de Mira de Aire. Guitarrista clássico profissional em Zagreb, na Croácia.

Comecei a minha carreira musical com nove anos, a tocar baixo eléctrico num grupo de rock e guitarra em bandas típicas de Mira de Aire e em grupos musicais de igreja. Com 10 anos entrei na escola de música Jaime Chavinha em Minde, onde, por acaso, chegou como professor, cinco anos mais tarde, Dejan Ivanovi . Ele foi o meu


primeiro elo com a Croácia. Com a sua sabedoria, talento e entusiasmo tudo se tornou óbvio para mim: eu tinha de ser um guitarrista clássico. As coisas tornaram-se fáceis. Matriculei-me no regime articulado, o que me deu o tempo e disponibilidade necessários para me dedicar à música. Depois de um pequeno período no curso de música na Universidade de Aveiro, percebi que queria continuar a 'escola' que tinha começado, a escola de Dejan Ivanovi . Por isso a decisão lógica para mim foi, depois de ter estudado cinco anos com o Dejan, ir buscar as informações à fonte, ao seu professor, Darko Petrinjak, que vivia em Zagreb. Os guitarristas da Academia de Música de Zagreb são dos mais premiados a nível mundial e isso é uma prova prática de que ir estudar para lá não era só um capricho meu. Mas tive de provar a mim mesmo e por isso fui a um pequeno concurso de guitarra em S. João da Madeira, que ganhei. O prémio era o suficiente para pagar a viagem e estadia em Zagreb, na Croácia, e fazer os exames de admissão. Entrei em primeiro lugar.

Cheguei à Croácia em Setembro de 2003. A vida nao é

assim tão diferente da de Portugal, porque eu sou músico e a nossa vida é muito aborrecida quando vista de fora, porque temos de praticar oito horas por dia, lemos muito, ouvimos muita música e vamos a concertos. É como se vivessemos num outro mundo e tivessemos uma vida de sonho, porque o nosso hobbie e trabalho são o mesmo.As pessoas que encontrei na Croácia é que fazem a diferença. Aceitaram-me muito bem e integrei-me sem problemas. O meu melhor amigo vem do Kosovo e é um dos músicos que mais admiro. No ano passado chegou a Zagreb uma enérgica cantora Amália Baraona e ela é a única pessoa com quem falo português. Os croatas são pessoas vivas e alegres com bastante confiança. A língua croata é um mundo à parte, mas passados três anos já conseguia compreender tudo e agora, passados sete anos, falo fluentemente.

Não faço muitos planos futuros. Nunca me senti tão feliz

como agora. Tenho cada vez mais concertos aqui, tenho amigos e encontrei a minha cara-metade. Só sei da situação portuguesa através dos relatórios dos meus amigos. Como o portugues é pessimista por excelência acabo por não saber se as coisas estão realmente piores em Portugal. Gostava de viver em Portugal uma metade do ano, na Croácia uma segunda metade e se houvesse uma terceira metade gostava de viajar. Com a minha profissão isso é possível, porque a estabilidade só nos destabiliza. Gostava de ver mais os meus pais, o meu irmão, as minhas sobrinhas e o oceano.


O custo de vida em Zagreb é um pouco mais caro do que em

Portugal, os ordenados são mais baixos (eu tenho a sorte de estar num ramo que é muito procurado e apreciado), mas as pessoas em geral parecem-me ser mais descontraidas e felizes do que em Portugal. A decisão de ir viver para o estrangeiro é difícil. Para mim foi mais fácil porque não se tratou de uma razão financeira, mas sim de amor (pela música), desejo de mudança interior e sentido de desafio. Uma pessoa tem de pesar bem o que quer e saber que provavelmente quando voltar está tudo na mesma, só nós é que mudámos.


Pedro Rodrigues