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Literatura do nosso Milênio - Uma sopa de ques* Encontrei um Laptop tões contemporâneas DELL na FEA. Deixei na pg. 14 secretaria. * Perdi uma Tampa de Encontrei uma caneca do * Caneta - Modelo BIC Kit Bixo - Trincada, mas O IRI a chorar - pg. 8 2006 - preta, mordida. utilizável * Victor Carla Tirinha - pg. 8

* Perdi uma vaga no BIFE AAAGR * Depoimento de um recém-chegado: impressões e expectativas - pg.4 * Encontrei a dignidade que alguém perdeu em uma festa. Está em más condições de uso. Walter * Crítica da razão uspiana - pg. 5 * Movimento Estudantil: entre a euforia e a inércia - pg. 7

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Perdi minha identidade, não consigo encontrá-la em lugar nenhum! Homem Homossexual, caucasiano, cerca de 20 anos, vegano, estatura mediana, cabelos lisos e cas-

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Pensando sobre as cotas, Pulp - pg. 16 * a educação, o ser humano, a política e alguns ou- Felícia - pg. 17 tros assuntos interessan* tes - pg. 9 Encontrei o Amor. Parece estar perdido há décadas, * Perdi minha cadela cha- está meio desbotado. mada Esperança. Tadi- Emannuel nha, ela é meio cega, não * vai enxergar a luz no fim Yellow Brick Road - pg. do túnel. 18 Kevin * * Perdi as chaves de casa. El Moro Judio - pg. 10 Estavam em um chaveiro-abridor de garrafas * Encontrei uma calcula- vermelho. dora científica - CASIO Leonardo azul marinho * Fabio O brilhante presente - pg. 20 * Hey, Mr. Tambourine * Man, play a song for me Encontrei um pen drive (ou: Bob Dylan em São com fotos de uma atriz Paulo) - pg. 12 global. Aceito recompensa. * We don’t care about the Anônimo young folks - pg.13 * Perdi um caderninho *

MOLESKINE preto pautado. Favor não ler o conteúdo. Daniel

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As mãos de um homem pg. 23

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Perdi um par de sapatos - marca RUMO, bege, nº 41. Douglas

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Perdi um Relógio que ganhei do meu ex-namorado - marca TEMPO. Não faço questão de tê-lo de volta. Achado não é roubado! Anônima

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Vida e Breja Severina pg. 23

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Qual é a do “ pg. 24

”? -

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Encontrei uma máquina fotográfica - Canon, modelo rebel t1i. Não tinha foto nenhuma no cartão de memória. Letícia

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Agenda Cultural - pg. 25

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Construiri - pg. 28

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UNIVERSIDADE Depoimento de um recém-chegado: impressões e expectativas

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uvest 2012, fodeu! Era assim, que nós, os bixos, pensávamos – pelo menos acho que era. É engraçado pensar que até o início deste ano lutávamos por preciosas vagas num pequeno curso de graduação concorrido nessa universidade, não tínhamos nem mesmo a garantia de que sobreviveríamos ao famigerado fim do mundo, premeditado pelos maias. E agora, cá estamos vivenciando o outro lado da moeda, iniciando, da melhor forma, o resto de nossas vidas. Querendo ou não, confessando ou não, tinha o vestibular como um grande impasse, era comum de se pensar: “AH! Quando eu passar no vestibular.... hm aí sim hein!” e como fica tudo bem, quando termina bem, ou melhor SE terminasse bem, para minha ansiedade e para a de outros o grande dia chegou e em uma injeção de adrenalina encontramos nossos lindos nomes perdidos no meio daquela enorme lista, o que nos levou a momentos de euforia e comemoração precedentes de algo novo e, ainda, desconhecido. A matrícula veio, o trote também, foi tranquilo até, nem foi preciso utilizar o disk trote, a semana de recepção foi intensa, foram apresentados aos bixos perdidos as diversas faces do mundo universitário, tanto o acadêmico, como aquele outro, festivo, socializador, divertido e também militante, questionador. Não posso deixar de ressaltar aqui os momentos impactantes da aula trote, onde foi impossível não pensar: “Será mesmo que fiz a escolha certa?! Ainda dá tempo de trocar de curso? Sou um nada na vida... não sei falar mandarim!”, exagerando um pouco, diria que foi traumatizante, mas felizmente tal episódio foi seguido pela espetacular e tradicional Festa dos Bixos, regada a muitas doses de disco-voador, o que serviu para amenizar o susto. Mas logo vimos que nem tudo é festa - só uma boa parte, pois “se a vaga eu já tenho, o que eu quero é chapar” – tivemos a má sorte, ou quem sabe o privilégio de entrar na USP em meio a uma grande turbulência; digo privilégio, pois esse momento de grande efervescência estimulou vários debates, importantes para a formação de uma consciência mais crítica das polêmicas estreladas pelo ilustre senhor reitor João Grandino, o Rodas,

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por Victor (Rola)nd que recentemente atraiu, de forma errônea, o holofote sensacionalista da mídia e de sua grande massa de manobra, tendo como estopim invasão da reitoria no final de 2011, mas que na verdade é uma questão conflituosa com profundas raízes históricas, desconhecidas para a grande maioria dos cidadãos. Nós, alunos da T11, pudemos analisar o contexto de duas formas: primeiramente como pessoas extraterritoriais, de fora dos muros da cidade universitária, que recebiam informações do que ocorria aqui, mas não antes de serem passadas por um filtro que nem sempre mostrava a sua complexidade, implantando não apenas uma visão errada, mas também revogando à população o direito de discernir a cerca do que aqui é vivenciado e problematizado; e agora, como estudantes dessa universidade, que vemos não ser tão pública assim, vivenciamos de forma direta tais confrontos entre o corpo docente e discente com seu suserano. Se passaram pouco mais de 2 meses de aulas e já posso me dizer RIano convicto, seguidor do Mestre Severino, o Jegue, e feliz, mesmo morando de favor, estudante de um curso novo e, ainda sim, em transição. Alguém que está apenas iniciando o caminho por parte ainda desconhecido, que só de ouvir os relatos de seus veteranos ficou muito animado, assim como meus colegas, meus antigos concorrentes, com que inicio essa trajetória. A pouco tempo atrás erámos completamente estranhos e agora nos identificamos e formamos laços que serão muito positivos, que têm muito a nos acrescentar e prometem muito. Nessa, ainda pequena, história em comum, já podemos dizer que compartilhamos episódios engraçados, marcantes e infames, apenas uma amostra do que ainda está por vir e que já viraram tradição, como a famosa “Quarta RIca”, na qual vivemos breves momentos de elegância degustando vinhos das melhores safras, mesmo que em canecas de plástico. Bom esse é um simples relato de um dos bixos, me desculpem a má escrita, acho que vou mesmo precisar de umas aulas de redação, pois como dizem as más línguas: fuvest não seleciona.


Crítica da razão uspiana por Arthur Hussne Bernardo e Alex Mazzanti Júnior

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despeito das diferentes análises propostas, há um sentimento generalizado de mal-estar. Mesmo com diagnósticos e prognósticos completamente distintos – às vezes diametralmente opostos –, a percepção inicial é a mesma: algo não está de acordo com o que deveria estar. Em outras palavras, a universidade está em crise. Exceto por alguns grupos localizados que tentam preservar a imagem da universidade a todo custo, a crise é manifesta e largamente admitida; ela é composta não só de raízes materiais, mas também culturais. Contudo, enquanto as primeiras já foram extensamente consideradas, listadas e criticadas (a saber, presença extensiva e imprópria da polícia militar, falta de moradia estudantil etc.), as últimas são um tanto mais difíceis de captar, ficam no ar. Essas razões ditas culturais, entretanto, são as que trazem um espectro que ronda a universidade. O espectro da mediocridade intelectual. Em larga medida, essa mediocridade tem origem em uma maneira de pensar que chamaremos de razão uspiana; grosso modo, a razão uspiana é, atualmente, uma razão de classe média. Uma razão mesquinha, tacanha e provinciana, que, como uma pedra filosofal ao revés, tende a apequenar tudo aquilo que toca. Para fins de simplificação (e ironia), digamos que essa razão é operada por um sujeito automático – esse sujeito pode corresponder, dependendo do ponto de vista, à reitoria, aos próprios alunos, aos partidos que lá se instalam ou a quem quer que seja. No entanto, por estar pairando sobre todos, pode ser operada por qualquer um. A crítica dessa razão, não no sentido kantiano, mas no sentido do senso-comum, é essencial para compreender esse espectro de mediocridade. E a crítica não é feita ao ideal de universidade, mas à universidade histórico-concreta real. Para tanto, ficam alguns apontamentos críticos preliminares, e igualmente passíveis de críticas e reprovações. 1. Primeiramente, parece que a palavra universidade já não faz mais sentido na nomeação dessa coleção de faculdades e especialidades que se transformou a instituição. Ao contrário do que o nome sugere – ou seja, certo conhecimento, certa formação universal – o que vemos hoje são faculdades completamente desintegradas umas das outras. Certamente isso faria corar os praticantes do trivium e do quatrivium, tanto quanto o faz aos defensores da multidisciplinaridade. 2. O saber é restrito e restritivo. A universidade,

murada, uma fortaleza, não está aberta para a experiência que vem de fora, para a experiência não-universitária. Qualquer texto sem notas de rodapé, ou que não pertença a um laureado autor é considerado herético. Desse modo, não é possível desvelar a função social da universidade, que, no Brasil, está amplamente ancorada em uma sociedade civil miserável. Em larga medida, não se vê a contribuição social desse órgão. Isso ocorre não só porque a universidade, apesar de pública, não está aberta a todos, mas também porque ela não vai aos outros; ela se pensa autossuficiente, um feudo. 3. A intensa repetição de autores consagrados. As bibliografias que se alastram têm os mesmos autores absorvidos impensadamente e proferidos à exaustão às bancas examinadoras. Dessa forma, são propostas velhas soluções para velhos problemas. 4. Não há lugar para o debate público. Quando muito, os debates que existem são organizados pelos próprios alunos em iniciativas heroicas de trazer algum tipo de visão crítica, de um resquício de universidade medieval, as famosas disputationes. E como pode alguém desenvolver suas opiniões sem o contato com outras opiniões? Em um mundo em que o xingamento tornou-se um argumento, em que não é necessário argumentar, mas tão simplesmente violentar a opinião alheia, o fenômeno decorre em grande medida da morte da sociabilidade intelectual, ou seja, de lugares próprios à discussão que incentiva a reflexão, e não promete a obtenção de certificados ou diplomas ou qualquer outro documento que enriqueça um Lattes. 5. O número de professores estrangeiros é desprezível – a universidade ainda é muito provinciana. Mais, a mentalidade USPiana ainda é extremamente provinciana. A falta de professores estrangeiros só reforça a falta de contato com a tão aclamada globalização. Entre parênteses, a USP dos anos 60 e 70 era muito mais globalizada nesse sentido do que a de hoje. E como pode alguém desenvolver suas opiniões sem o contato com outras opiniões? 6. Não há incentivo à vida cultural. Na realidade, há pobreza da vida cultural. O ensino de línguas é restrito – e não raro é preciso pagar cursos caros para aprender algo que a universidade deveria providenciar com urgência como gratuito. Além disso, apresentações de teatro, música, não só são escassas e pouco incentivadas, mas, quando existem, não são bem divulgadas. 7. Instrumentalização do saber. Diz-se que, todo saber, para ser razoável, deve ser útil. Mas útil significa, no limite, que tenha alguma função material nas questões diárias, ou seja, as humanidades, em geral, ficam de

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fora. Só assim, poderíamos eliminar o estudo de todas as línguas mortas da universidade. Esse pensamento torna o saber necessariamente interessado: não é um saber sobre, mas sempre um saber para, um saber que deve gerar um know-how, sem o qual ele não é digno de valor. Deve ser útil. Útil para quem? Para quê? 8. Perda da autonomia – a entrada do capital parece não ser desinteressada. Por que uma empresa privada, que visa o lucro, ofereceria recursos a algo que não trouxesse algum tipo de retorno a si própria? O investimento privado em si não é ruim, mas, quando ele determina o que a universidade deve pesquisar, isso se torna problemático. 9. Por trás de tudo isso, insere-se uma modernização conservadora que não agrega nada à própria universidade. Ou seja, enquanto o bandejão central parece mais uma praça de alimentação de um Shopping Center, não há professores dentro das salas de aula. (A curso de História, por exemplo, tem somente dois professores de História Antiga, sendo que um deles logo se aposenta; na Letras, existem disciplinas obrigatórias nas quais os estudantes devem se inscrever, mas que apresentam no lugar do nome do professor a descrição: “docente a ser contratado”) 10. Falta de infraestrutura básica. Como pode a atividade intelectual desenvolver-se com bibliotecas insuficientes e que não conservam seus livros de maneira satisfatória? Salas hiperlotadas já são uma característica marcante de algumas faculdades. Falta de professores (como assinalado anteriormente) é igualmente algo com que se aprende a conviver. 11. Constante embate entre as múltiplas instâncias da universidade. Ora se dizem dialogando, ora fecham ouvidos, gritam, não aparecem. Professores, funcionários e estudantes são separados uns dos outros, não se reconhecem como parte de um mesmo todo – a universidade. Por isso, não conseguem ações integradas e satisfatórias. 12. Unidades isoladas. Socialmente, geograficamente. Cada uma dessas células autoviventes é regida por leis de comportamentos: estilo de vida, ideologia, orientação sexual, vestimenta. Estereótipos repetidos com veneno, ódio, desprezo, zombaria, desconhecimento. 13. Apadrinhamento intelectual. Um resquício de uma figura desprezível da história brasileira – o agregado. Hoje são agregados intelectuais, que não têm competência e sobem na carreira através de favores para seus orientadores. No entanto, quando esses apadrinhados finalmente galgam o posto de professores, não fazem mais do que continuar propagando a mediocridade. 14. O já conhecido e reconhecido Sistema Júpiter, carinhosamente apelidado pelos próprios alunos de

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“Sistema Lúcifer” que não consegue dar conta das demandas, é extremamente burocrático e, inúmeras vezes, retarda a formação daqueles que deveria ajudar. 15. A hiperprodutividade imposta pelo ritmo frenético que consome a universidade demanda dos alunos que estejam frequentemente lendo e pesquisando e escrevendo e discutindo e criticando e defendendo – ou seja, só não permite que eles reflitam. É o aluno da graduação que quer ser mestrando e o mestrando quer ser doutorando e o doutorando que quer ser pós-doutorando e o pós-doutorando que quer tornar-se professor universitário para iniciar outros nesse ciclo insano. E a discussão sempre sai empobrecida, mas o Lattes sai enriquecido. Enfim, a que serve uma universidade? A quem serve uma universidade? O mundo contemporâneo, carente de Ágora, carente de escolhas produtivas, carente de produções férteis no âmbito humanista, é reproduzido na universidade, no mundo USPiano. A universidade medieval tinha objetivos muito claros: o desvendar e explicar do universo teológico, por meio do embate constante, do conhecimento das verdades de um mundo regido pelas leis de Deus. A universidade do século XIX, iluminada pela razão, pela ciência, buscava o progresso, a evolução da sociedade humana, o universal saber racional. Então, o que quer, o que busca a Universidade de São Paulo? Mais ainda, o aluno USPiano? A tendência geral, mostrada principalmente pela experiência diária de alunos, é a de que não há um pensamento de pertencimento a uma universidade, a certa comunidade, tornando quase impossível responder a essas perguntas. A razão uspiana pede somente o mínimo de conforto material para que possa desenvolver caminhos, na maior parte, individuais. E isso ocorre mesmo com o sentimento de mal-estar, de modo que o que era e o que vai ser a USP parece não interessar aos muitos transeuntes diários da cidade universitária. Falamos desta, pois é tal a fragmentação que pouco sabemos do que acontece nos campi do interior. E a razão uspiana nos diz que é indiferente saber o que se passa por lá, ou muitas vezes mesmo o que se passa na própria cidade universitária. Como já falado, todos esses pontos são passíveis de crítica. O mais a ser temido não é a crítica, mas que a força desse espectro da mediocridade seja tanta que se prefira ficar isento a pensar sobre o que quer que seja, com quem quer que seja. Assim, temos aqui um convite à reflexão da condição atual da Universidade de São Paulo. Arthur Hussne Bernardo (História - FFLCH USP) e Alex Mazzanti Júnior (Letras - FFLCH USP)


Movimento Estudantil: entre a euforia e a inércia

O

por Beatriz Rodrigues Sanchez

convênio da USP com a Polícia Militar, os processos contra a diretoria do SINTUSP e da ADUSP, a substituição do circular pelo BUSP, o projeto de “reurbanização” da São Remo, a proposta de alteração do regimento da pós-graduação e os processos administrativos contra estudantes são apenas alguns dos exemplos das transformações que estão ocorrendo na Universidade de São Paulo. Entre outros fatores, elas revelam a quase ausência de diálogo da reitoria com setores importantes da comunidade universitária e, principalmente, são apenas as partes visíveis de um iceberg: o projeto de educação superior do Governo do Estado de São Paulo, representado na USP pelo reitor João Grandino Rodas. Esses últimos acontecimentos têm gerado cada vez mais indignação entre os estudantes. Entretanto, o que se pode perceber é que essa indignação se expressa com euforia em alguns momentos, mas não está se convertendo em uma mobilização profunda e permanente. O movimento estudantil parece estar inerte diante de tudo isso. As últimas assembleias e atos têm sido extremamente esvaziados e o Comando de Mobilização, órgão que tem a função de promover a participação dos estudantes, conta com a adesão cada vez menor de delegados. Depois da grande mobilização dos estudantes no ano passado, com assembleias históricas e com presença de setores que não costumam participar das discussões do movimento, parece que perdemos a nossa força. Diante disso, surge a questão: o que levou à desmobilização dos estudantes? Um dos motivos para essa retração do movimento pode estar no fato de que poucas conquistas concretas foram alcançadas nos últimos tempos. Pelo contrário, o que podemos perceber é o aumento da adoção, por parte da administração da universidade, de várias medidas discutíveis, cuja imposição sem um debate aberto com as diferentes partes interessadas infringe qualquer noção de gestão democrática que um dia a USP possa ter tido. A apatia gerada pela falta de conquistas, porém, pode ser a raiz de uma visão imediatista dos estudantes. Na política como um todo e, especialmente, na política universitária, o processo muitas vezes é mais importante que o produto, pois gera uma transformação de longo prazo que não seria conseguida sem a permanência do debate. Outra possível explicação menos pessimista e de mais fácil reversão, é temporal. O encerramento das aulas leva a uma natural desmobilização e o seu início está focado na entrada dos calouros. É possível que muitos deles tenham chegado à universidade com informações distorcidas pela grande mídia a respeito de recentes acontecimentos, como a prisão de estudantes pela

polícia. Soma-se a isso o fato de que eles não puderam usufruir de espaços adequados para a formação de suas próprias opiniões. A Calourada Unificada, que deveria cumprir esse papel fundamental, esse ano deixou a desejar. Como é de costume, interesses de grupos políticos foram colocados acima dos interesses dos estudantes. Vários dos milhares de novos alunos que poderiam ter se juntado à luta pela democratização da universidade, portanto, ficaram e continuam alheios a todo o processo. Uma terceira explicação plausível para a atual paralisia do movimento estudantil pode estar na percepção das pessoas de que elas não foram atingidas diretamente. Ou seja, caberia apenas aos diretamente atingidos o dever da manifestação. Trata-se de uma percepção certamente equivocada. Cabe ao movimento estudantil desvendar o equívoco, a fim de que haja uma maior conscientização dos estudantes de que, de uma maneira ou de outra, as transformações impostas pela reitoria afetam não só todos os setores da comunidade universitária, como também toda a sociedade. Como dito inicialmente, são apenas a parte visível de um problema mais profundo que, a médio e longo prazo, pode trazer grandes prejuízos ao ensino de nível superior no país. As alterações no regimento da pós-graduação, por exemplo, dão margem para a privatização do ensino que deveria ser público, o que faz com que a produção do conhecimento deixe de ser voltada para o benefício da população e do desenvolvimento brasileiro e passe a ser comandada por interesses privados. A luta pela democratização da USP, portanto, é a luta contra o projeto de universidade da reitoria e, mais do que isso, contra o projeto de educação e de sociedade que vem sendo defendido pelo governo do PSDB em nosso Estado há mais de 15 anos. É a luta a favor do crescimento educacional e social equânime do nosso país. É claro que tudo isso gera um sentimento de desânimo geral. Contudo, não podemos deixar que o movimento perca sua força. A mobilização de 2011 mostrou o potencial dos estudantes e revelou que, se nos organizarmos e nos unirmos, podemos obter muitas vitórias. Nosso grande desafio é conseguir transmitir o que estamos pensando e debatendo aqui dentro da universidade para além dos muros. Para isso, devemos fortalecer os nossos canais de comunicação, fornecer o mesmo nível de informação a todos os interlocutores e viabilizar fóruns de discussão nos quais haja espaço para reflexão e para aceitação de opiniões divergentes. Dessa maneira, poderemos ganhar o apoio da opinião pública e somarmos forças. Outro elemento fundamental para a reorganização da

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Humor é rir para não chorar

O IRI a chorar por Leonardo Calderoni Paródia da canção infantil “A Velha a Fiar”, do Rá-Tim-Bum

Estava o IRI em seu lugar Veio a ECA lhe fazer mal A ECA no IRI e o IRI a chorar... Estava a ECA em seu lugar Veio o Rodas lhe fazer mal O Rodas na ECA, a ECA no IRI e o IRI a chorar... Agora está o Rodas em seu lugar Só falta alguém lhe fazer mal... Senão somente poderemos realmente continuar a chorar...

Tirinha por Carla Schmitd

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mobilização do movimento estudantil é a articulação entre os Centros Acadêmicos e o seu trabalho com a base. As ações isoladas que estão sendo realizadas são importantes, mas não suficientes para gerar uma efetiva pressão sobre a reitoria. É por isso que espaços como o Conselho de Centros Acadêmicos (CCA’s) são de extrema importância. O diálogo entre os vários setores do movimento estudantil e a participação da maior quantidade possível de estudantes é fundamental para uma mobilização que gere resultados positivos. A democratização da USP, para que seja efetiva, deve ocorrer em duas dimensões: uma interna, com a alteração da atual estrutura de poder, e outra externa, com o maior acesso da sociedade à USP. Para conquistar a primeira dimensão, faz-se necessária a constituição de uma estatuinte. Para a realização da segunda, uma série de medidas como a adoção de cotas raciais, a alteração do Inclusp e a construção de ações em conjunto com a comunidade são essenciais. Nesse sentido, a atividade que o Fórum de Extensão da USP realizou ano passado grafitando os muros da São Remo, por exemplo, é uma prova de que essa democratização é sim possível, a partir da aproximação da universidade com a população que a cerca. São ações como essa, caracterizadas pelo diálogo com o restante da sociedade, que fazem a diferença e que, por isso, devem ser ampliadas. Por fim, outro fato que merece destaque na análise da atual conjuntura do movimento estudantil e de suas perspectivas são as últimas eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE). Elas revelaram que existe uma enorme quantidade de estudantes que é a favor das bandeiras do movimento estudantil e, mais do que isso, que a maioria dos estudantes da USP é contra o projeto de universidade que nos está sendo imposto ? reitor. Isso revela que, apesar das picuinhas entre pelo os diferentes grupos políticos, as bandeiras que unem a esquerda dentro da USP e fora dela são muito maiores e mais importantes do que as nossas divergências internas. Isso deve servir de estímulo para que nos organizemos e realizemos durante o ano de 2012 uma grande mobilização pela democratização da USP.


Pensando sobre as cotas, a educação, o ser humano, a política e alguns outros assuntos interessantes Se eu fosse contra as cotas eu realmente pararia pra pensar o porquê de senhores e senhoras que passaram a vida inteira estudando e que foram criteriosamente selecionados por sua competência e conduta ilibada terem se manifestado, UNANIMEMENTE, a favor das cotas raciais. Talvez quando eu realmente estivesse querendo entender a situação percebesse que ainda existe sim racismo no Brasil; ainda existe preconceito e inúmeras portas fechadas pelo simples fato de ser negro. Eu perceberia que as cotas raciais devem estar juntas com as cotas sociais, pois separadas elas são bem menos efetivas. Eu perceberia (se realmente estivesse querendo entender a situação) que o problema de fato é muito mais fundo, mas que para se chegar no fim do poço é preciso começar a cavar, e as cotas seriam a primeira pá do processo. Eu perceberia por fim que cotas NÃO são inconstitucionais, pois o próprio “guardião da constituição” (vulgo STF) assim se manifestou, por consenso! Mas se ainda assim eu estivesse na dúvida ou um pouco indeciso, eu daria uma volta pela idade. Pegaria trens e metrôs (não da linha Verde, mas talvez da Vermelha ou da CPTM Itapevi-Júlio Prestes), passaria pelo centro de SP (Praça da Sé, Praça da República, Luz) e visitaria os bairros mais afastados e mais empobrecidos. Aí então eu constataria, com meus próprios olhos, a segregação social. Eu ficaria espantado com o fato de encontrar mais negros entre os mais pobres. Que mistério seria esse?! É... Talvez aqueles colegas malucos da USP estivessem certos...Porém, se ainda assim eu duvidasse deles e achasse que existem sim oportunidades iguais eu olharia o questionário socioeconômico da FUVEST. Ou da Unicamp, UNESP, tanto faz. Aí então eu infelizmente constataria: as cotas são sim necessárias. Mais que isso: são fundamentais! A única saída no curto prazo que muda radicalmente o cenário social. Em 4 anos seria possível ver médicos negros consultando, professores negros lecionando, engenheiros negros planejando. Aí então eu poderia entrar em um tribunal e ver que o negro não ocupa mais tão somente o banco dos réus, mas que agora ele se senta ao lado da juíza (é promotor!), advoga, e talvez quem sabe até julgue! Daqui 4 anos enfim, o negro não estaria apenas nas prisões, nos bancos das praças ou na fila do SUS. O negro estaria mudado, seria enfim respeitado, seria

por Alexandre Capelo humano na integridade! Pois ser humano não é apenas possuir 46 cromossomos, ter dois olhos, uma boca. SER humano é ser pleno, livre, integral. Ser humano é fazer parte de uma espécie, uma espécie que em si _para ser espécie_ deva ser igual! Igual nas oportunidades, igual nas possibilidades, igual nas potencialidades. É preciso ser olhado face a face, visto com dignidade, ser enfim aceito e respeitado. Tudo aquilo que o negro não é hoje. Mas em 4 anos será diferente! Problemas ainda existirão (quiçá algum dia desaparecerão?!) mas esse, enfim, estaria um pouco menor. É claro que não me contentaria (acaso algum dia nos contentaremos?!); Iria às ruas, protestaria, exigiria a educação plena. Uma educação pública, gratuita, de qualidade, democrática, para todos e todas! Cobraria os 10%, e cobraria para já! Mas poderia ter certeza de que algo já estava sendo feito. O negro não esperaria mais 20 anos até que o ensino como um todo estivesse melhor para que ele pudesse ter uma oportunidade decente: ele já estaria tendo essa oportunidade. E o filho dele teria mais chance ainda, pois além da medida reparatória e de curto prazo, ele receberia uma educação mais digna, menos superficial, mercadológica, alienante. E o neto do negro estaria ainda melhor, pois agora sua educação seria a mesma do menino branco, do rico e do pobre. Agora sim uma prova de seleção talvez (atente-se ao talvez!) fizesse sentido: partiríamos das mesmas posições. A corrida seria justa, 100m para todos. O bisavô do negro nem na pista entrara; o avô nela chegava, mas não conseguia partir; o pai chegou mas partiu 30m atrás. Mas agora, apenas 4 anos depois, o negro podia entrar na pista, se preparar, e enfim olhar os outros corredores, não mais de trás como por gerações fizera, mas lado a lado, igual, no mesmo ponto, na mesma linha, com a mesma oportunidade. E talvez então nesse dia eu olhasse para trás e reconhece humildemente minha postura equivocada, mais fruto da minha ignorância do que de minha maldade. Eu olharia ainda mais pra trás e sentiria vergonha, asco, nojo, do tempo no qual um homem mandava em outro, era dono do outro. Um tempo no qual a espécie já não era espécie, um tempo no qual ter 46 cromossomos, dois olhos e uma boca não significava nada. Um tempo horrível, do qual apenas nos devemos lembrar para nunca mais fazer igual.

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mús El Moro Judío por Leonardo Calderoni e Lia Logarezzi “Yo soy un moro judío Que vive con los cristianos, No sé que dios es el mío Ni cuales son mis hermanos.” (Milonga del Moro Judío)

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ilho de um pai judeu e de uma mãe cristã. Ascendência árabe. Uruguaio que mora na Espanha. Médico otorrinolaringologista que se transformou em um grande nome da música. Quem é essa pessoa multifacetada? Ela existe? Sim: ela existe. Chama-se Jorge Abner Drexler Prada, mais conhecido simplesmente por Jorge Drexler. Em 2005, o médico-músico uruguaio tornou-se conhecido mundialmente ao compôr a primeira canção em espanhol a levar um Oscar. Trata-se de Al Otro Lado Del Río, trilha sonora do filme Diários de Motocicleta, película que conta as peripécias de Che Guevera na América do Sul antes de suas atividades revolucionárias (ou subversivas, conforme o ponto de vista). Como nem tudo são flores, Drexler teve de enfrentar uma situação desagradável na noite que deveria ser somente de reconhecimento. A execução de Al Otro Lado Del Río seria uma das atrações da entrega do Oscar. Como era de se esperar, Drexler compareceu à cerimônia pronto para tocá-la, mas foi impedido em cima da hora. Por não ser conhecido do público estadounidense, os produtores preferiram delegar a tarefa a Antonio Banderas e Santana. A decisão foi duplamente equivocada. Além de ser de uma deselegância ímpar com o uruguaio, a “dupla dinâmica” designada para tomar o seu lugar literalmente “operou” a canção do médico. Desfiguraram-na fatalmente. Contudo, tudo deu certo ao final. Drexler conseguiu dar a melhor resposta possível à desfeita. Quando o anunciaram vencedor do Oscar e ele subiu ao palco para recebê-lo, o uruguaio simplesmente trocou o seu discurso pelo canto bem cantado do primeiro verso de sua premiada canção, deu um “tchau” e foi embora com um sorriso satisfeito.

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sica Curiosidades à parte, certamente Diários de Motocicleta é um filme que vale a pena ser visto e Al Outro Lado Del Río uma canção que vale a pena ser escutada. Mas Jorge Drexler é muito mais do que o autor de uma música premiada no Oscar. Drexler tem uma obra rica pela qual vale “perder um tempinho” para conhecer. Um de seus discos, em especial, merece a sua atenção: Eco. Ao abrir o disco, você poderá ler a seguinte epígrafe: “... Futuros amantes, quiçá/ se amarão sem saber/ com o amor que eu um dia/ deixei pra você” (Chico Buarque - Futuros Amantes) É isso mesmo: o uruguaio não é bobo nem nada. Conhece e se inspira em música brasileira de qualidade para fazer suas canções em castelhano. A faixa-título do disco parte de uma ideia parecida, mas sem deixar de ser original, à que está em Futuros Amantes de Chico Buarque. É muito difícil determinar se uma música é boa ou não, afinal o prazer de escutá-la é também construído pelo ouvinte, pelos gostos e preferências que ele construiu ao longo da vida. Podemos, no entanto, dizer que a música de Drexler, ainda que talvez não agrade os ouvidos de todos, permite diferentes níveis de apreciação. Não apenas o arranjo e a melodia são muito elegantes (a nossos ouvidos, ao menos), como as letras são muito bem construídas. Aliás, ouvir as obras de Drexler é uma ótima forma de começar a ter contato com o castelhano. Não cometa o erro de tentar entender um rock argentino cantado a 500 quilômetros por hora. Comece com a boa dicção do uruguaio que você ganha mais. Do ponto de vista musical, Drexler provavelmente agradará aqueles que apreciam um violão bem tocado, com belos dedilhados .A percussão é original e presente, mas não obstrui o lirismo das músicas. Essa combinação musical tão bem equilibrada que vemos em suas canções, acompanhada de letras tão inspiradoras, é algo muito difícil de se encontrar. Para quem quer aproveitar a dica, deixamos aqui alguns vídeos. Vale também lembrar que o cantor costuma fazer shows no Brasil, então não custa ficar atento!

Album Eco, 2004: Eco Milonga del Moro Judío Todo se transforma Se va, se va, se fue Don de fluir Al Otro Lado Del Río Album Amar la Trama, 2010: La trama y el desenlace Las transeuntes Una canción me trago hasta aqui Album Frontera, 1999: Frontera La Edad del Cielo Album Sea, 2001: Causa y Efecto Me Haces Bien “Sampa”, no Sesc Pinheiros

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Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me (ou: Bob Dylan em São Paulo)

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e repente, uma revoada de som enche o palco, o salão e nossos ouvidos. Atrasados correm para dentro do espaço, perdidos tateiam no escuro em busca de seus lugares, acomodados confundem-se com a possibilidade de ser um show introdutório ou um teste sonoro. Não: Bob Dylan irrompeu no Credicard Hall atordoante como foi e como deveria ser, nos dando a honra de ter a mesma sensação incomparável de quando sua música surgiu no meio-oeste estadunidense: um choque nos sentidos e na razão de todo o público, que aos poucos ia se tornando mais confortável, mas não menos curioso, envolvido pela estridência de sua guitarra, sua gaita e sua palavra. A anonimidade do artista permaneceu por mais algum tempo, uma vez que resolveu aparecer no palco na posição secundária e inusitada de um tecladista, recusando de cara qualquer papel que lhe fosse dado. A voz rascante da lenda nos fez questionar seus aspectos mais legendários: onde estavam aqueles gritos esganiçados que irrompiam sem parar, acariciando quilômetros de letras infindavelmente inspiradas? Em vez disso, nos eram jogados versos quase independentes, numa rouquidão tão intensa quanto perturbadora, que nos permitia encontrar lá no fundo, nos fins de frase, ecos daquele agudo pelo qual o folk indie se proliferou (e popularizou). Desde o primeiro acorde de “LeopardSkin Pill-Box Hat”, percebia-se que não seria um show para se cantar junto (não que alguém o esperasse de um cantor de músicas quase sem refrão), mas para sentar, escutar e aprender. E entender que a transformação da voz de Dylan era marca de um artista que não se permite estagnar, não se contenta com status nenhum, como continuamente estabelecia: “the times they are achanging”. Como se nos desafiando, alterava os ritmos e estilos de suas canções mais conhecidas, vociferando as palavras, indiferente a nossa compreensão e fazendo-nos sofrer para reconhecer músicas que amávamos. Aos poucos, o novo/velho/novo Dylan nos conquistava como novos fãs, provando que a solidez de sua obra não era rígida: funcionava de mil maneiras, e num xeque-mate delicioso, nos víamos vencidos pela transformação de todas suas canções em blues e rock tão autênticos que mal tivemos tempo para sentir falta das versões que as fizeram famosas.

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por Walter Porto Quando veio “Ballad of a Thin Man”, as dúvidas que ainda restavam depois de um show de musicalidade maravilhosa se dissiparam – tamanha a autoridade com que o cantor e sua banda extremamente competente atiravam o enredo da balada. Talvez seja seu conteúdo: o refrão, “but something is happening here, but you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?” era uma flechada no peito do público confuso com aquela faceta do ídolo, e o tom de acusação que se impunha nos deixava, ao mesmo tempo, arrasados e extasiados. Em seguida, “Like a Rolling Stone” trouxe o momento da angústia; o ambiente não permitia assistir ao espetáculo de pé. Então quando todos na casa bradavam “how does it feel?”, representando uma geração inteira (e diversas gerações seguintes) simbolizadas por essa música icônica, o máximo que minha perna podia fazer era dar espasmos e ensaiar movimentos para cima, meu corpo contagiado pelo uníssono da multidão. E no momento inédito até então, quando todos os presentes conseguiram cantar o hino do começo ao fim, a voz grave de Dylan parecia se divertir, sublinhando cada verso como um eco orgulhoso. A empolgação prosseguiu ao longo de “All Along the Watchtower”, depois da qual houve uma pausa para a surpresa que viria depois: “Blowing in the Wind”, provavelmente sua música mais célebre, era entoada por Dylan na alteração mais radical até então – como se pôde perceber pelo fato de a plateia só ter começado a cantar em “the answer my friend...”. O poema reflexivo e introspectivo tornou-se um rock estilizado com suas palavras jogadas em tom mais áspero e veloz que o normal. Mas ninguém pareceu se importar: finalmente de pé, depois de minutos insuficientes de glória ensurdecedora ao ícone, entoávamos emocionados a letra tão sublime, agradecidos pela oportunidade de fazê-lo junto àquele que a pensou. Ao se fazer o silêncio, a chuva de aplausos encontrava a parede impenetrável do cool genuíno do mestre. Uma silhueta negra recortada no fundo azul colocava a mão no bolso e não fazia sinal, num gesto que, contraditoriamente, inflamava ainda mais as reações apaixonadas. O apagar das luzes e o adeus impronunciado de Bob Dylan nos arremessou de volta a uma realidade totalmente diferente de antes de sua aparição - e, por um momento vil, o rolling stone nos deixou como ele: completamente sem direção para casa.


We don’t care about the young folks

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u gosto muito de andar pelos sebos que ficam ali no centro da cidade, principalmente entre as estações Liberdade e Sé do metrô. Todo o parco dinheiro que cai nas minhas mãos costuma ser gasto ali ou na Livraria Cultura. Dia desses estava fazendo meu percurso por lá (porque sim, existe um roteiro e ordem na qual os sebos de lá devem ser visitados) e entrei numa loja de música que tem ali pertinho do metrô Liberdade. Uma daquelas lojas com CDs, DVDs musicais e até alguns instrumentos. Tenho mania de, vez ou outra, entrar nessas lojas só para olhar o que eles tem, e ver se algumas das bandas que eu gosto aparecem por lá. E, de vez em quando, encontro alguma coisa que não esperaria encontrar. Nesse caso o que encontrei foi o “You Cross My Path”, do The Charlatans, que são conhecidos também como The Charlatans UK (mas provavelmente só nos Estados Unidos). Pelo estado em que se encontrava, o CD deveria estar ali desde que fora lançado em 2008, o plástico de proteção estava todo rasgado e empoeirado. Mas, em compensação, o preço estava baixo: só R$10. E eu não fazia questão de comer naquele dia nem nada parecido, então comprei com o meu dinheiro do almoço. “You Cross My Path” é um dos meus discos preferidos. Provavelmente é um dos únicos discos que me dá vontade de dançar com quase todas as músicas. Antes de ouvi-lo pela primeira vez conhecia bem pouco dos Charlatans, e o que conhecia não me agradava muito. Só depois desse disco fui procurar mais sobre a banda e descobrir que ela tem umas belas preciosidades da música dos anos 90 e dos noughties. O auge da (pouca) fama experimentada pela banda foi a era do britpop, quando não conseguiu concorrer com os gigantes como Blur, Oasis e Suede, embora tenha recebido um certo reconhecimento. Começaram a carreira com um álbum em 1991 ainda com muitas influências shoegazers e depois indo na linha das suas irmãs maiores. O fato é que todas as bandas do britpop caíram ou ao menos diminuíram sua capacidade (e qualidade, na maioria dos casos), no entanto com o The Charlatans o processo foi um tanto diferente: a banda claramente manteve suas raízes, mas sem se desconectar das novas tendências da música. É aí que chegamos ao “You Cross My Path”, disco que não seria surpreendente como disco de estreia de alguma dessas bandas moderninhas cheias de sintetizadores. E uma banda moderninha de qualidade, uma vez que não apenas estão presentes alguns elementos de música eletrônica (coisa que em geral desgosto, embora tenha ficado bem balaceado), de rock independente, mas também as letras e a musicalidade experiente de uma banda que está na estrada há bastante tempo e já viu

por Emannuel K. muita coisa. Acho que uma coisa completamente extraordinária presente nesse disco é a combinação de raiva, lirismo e um pouco de sensualidade. O disco em si é, em grande parte, sobre pessoas de quem não gostamos. Em alguns casos existe um sentimento dúbio, um conflito entre amor e ódio, e até mesmo alguns momentos em que podemos achar que é tudo bastante romântico ou sensual, mas a verdade é que o disco é, sim, sobre pessoas de quem não gostamos. Os momentos mais bonitinhos do disco ficam com a música de abertura “Oh! Vanity”, que mostra um certo desgosto, combinado a um romantismo inveterado, e “Bird” uma baladinha super suave com letra completamente ignorável. Contudo, é nos momentos de raiva ou amargura que o álbum se sobressai. “Bad Days”, minha favorita inconteste no disco, pela sua linha de baixo simples mas fantástica e a catchphrase “You know that you’re no friend of mine”, dentro de um refrão cheio de pérolas ácidas. O clima continua parecido na música seguinte, “Mis-stakes”, trocando o baixo pela guitarra e já começando com um “I don’t like you, and I know that you don’t like me”. Ou na faixa que dá título ao disco, um claro aviso de “não se meta comigo”. O álbum também possui um lado mais amargurado com a vida, desiludido muito mais do que raivoso, começando na bonita “A Day For Letting Go”, música que me fez começar a gostar do disco, e que meio que resume tudo que tem nele: a parte triste, a parte enraivecida e até a parte fofinha. Mas daí em diante, é uma ladeira abaixo sentimental. “Missing Beats Of A Generation” é desiludida e crítica quanto ao futuro (e a nova geração da música), e “My Name Is Despair” e This Is The End” deixam claro a que vieram já nos títulos, a parte mais fraquinha do disco. Deixei de citar apenas “The Misbegotten”, que tem uma pegada mais sensual, com gemidos e frases como “You touch me in a way, like no one in this world, I don’t even know if you’re a boy or you’re a girl”. Curiosidade sobre o disco é a participação de membros das bandas Klaxons e The Horrors – não como músicos ou compositores, mas na concepção do álbum -, sendo que o baixista dessa última banda contribuiu inclusive com a imagem de capa do disco. Resumindo, “You Cross My Path” é um disco moderno feito por uma banda não tão nova assim, porém, que tem muito a ensinar para essas bandinhas novas sobre como usar seus instrumentos e sintetizadores. Na próxima edição venho com alguma coisa mais clássica, provavelmente direto da década mais bipolar que a música produziu no século passado.

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LITERATURA

Literatura do nosso Milênio

que representam dias, semanas ou até meses (a história inteira se passa em pouco mais de um ano). Cada capítulo é subdividido em partes que duram poucas páginas, e em cada uma dessas partes é apresentado geralmente um foco diferente da narraçã: em pequenos intervalos de páginas troca-se o foco, que a maioria das vezes vai de Mikael para Lisbeth e vice-versa .

Tal divisão dá um ritmo rápido e agradável à leitura. Ritmo este que estimula o leitor a prosseguir com sua atividade sem desconcentrar-se outras leituras, afazeres, ou até Uma sopa de questões contemporâneas com mesmo enjoar-se da história para por Lucas Pascholatti largá-la na estante e prosseguir com outras atividades, algo comum para a vida contemporânea, onde obtemos um grande número de informações de forma rápida durante o dia. uécia, Estocolmo, primeira alheias é uma atividade mais que Dificilmente um leitor atual adaptadécada dos anos 2000. É corriqueira. Isso tudo quando se (até o fim) a uma leitura como após sofrer um processo por o Facebook ainda não era algo “Crime e Castigo” de Dostoiévski durante um cotidiano paulistano, difamação que o jornalista Mikael extremamente popularizado. fica aqui um desabafo pessoal. Blomkvist, editor chefe da revista O primeiro título da série é “Man Millennium e seu cofundador, No que condiz à sopa de questões é obrigado a pagar uma grande som hatar kvinnor”, traduzido quantia de coroas em multas, além para o português brasileiro (da contemporâneas, podemos dizer de ser sentenciado a três meses de edição francesa – Les hommes qui que Stieg Larsson nomeia o primeiro prisão. Tal processo ocorre, pois o n’aimaient pas les femmes) como título da Millennium como uma mesmo publicou uma denuncia, em “Os homens que não amavam as referência clara à violência contra sua revista, contra o grande industrial mulheres” e teve sua primeira edição as mulheres, algo que acompanha Hans-Erik Wennerström de massiva publicada no Brasil pela Companhia a história como um fantasma do corrupção (um Ricardo Sérgio sueco). das Letras em 2008. A sensação que começo ao fim. Diz-se que tal E é após tal processo que sua vida temos ao ler, aproximadamente referência é consequência do fato muda completamente, vida esta que se 500 páginas, é que estamos nos de Stieg Larsson ter testemunhado cruza com a de Lisbeth Salander, uma deparando com uma história o estupro coletivo de uma garota jovem hacker tatuada, investigadora verídica (em vários momentos é chamada Lisbeth e nada fez com da empresa de segurança Milton fácil esquecer que estamos lendo relação a isso, o que causou-lhe Security, dotada de um visual gótico- romance fictício), envolvente, que culpa por toda sua vida. Além prende qualquer um facilmente. disso, Stieg Larsson também encheu punk. Stieg Larsson soube escrever o livro de referências contra o Assim começa uma história. uma história adaptável aos olhos nazismo, extrema direita sueca, Dividida em três volumes, a contemporâneos, que dificilmente farra do mercado financeiro (antes trilogia Millennium, escrita por conseguem se acostumar com da crise de 2008!), problemas Stieg Larsson, cujo lançamento uma leitura muito comprida, cheia inerentes ao capitalismo e ao ofício do primeiro livro deu-se em 2005 de fluxos de pensamentos, forte dos jornalistas pelo mundo. Uma na Suécia, representa uma sopa detalhamento, complexidade e questão extremamente interessante e também abordada ao longo de questões contemporâneas. De contendo poucas divisões. da história é a internet, seu uso forma impecável, também retrata “Os Homens que Não Amavam as cotidiano e os hackers. O autor cita o estilo de vida atual, permeado pela tecnologia e pela internet, Mulheres” é dividido em 4 partes o Google, Hotmail, Apple, Mac e em que acessar o Google e obter (sem contar prólogo e epílogo). outras tecnologias sem medo de ser Cada parte é subdivida em capítulos, feliz. Ao longo da história podemos informações virtuais sobre vidas

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ler os e-mails que são trocados entre Mikael e sua colega Erika Berger, da mesma forma que cartas eram trocadas em “Amor de Perdição”. A globalização também está presente na história, em alguns capítulos é possível ver Mikael viajando a Londres e à Austrália em poucos dias, afim de cumprir seu ofício jornalístico-investigativo. Uma menção à tatuagem de Lisbeth, o título em inglês é The Girl with the Dragon Tatoo, que no ano passado virou uma produção hollywoodiana da história, dirigida por David Fischer, diretor de Fight Club (Clube da Luta – PT Br) e The Social Network (A Rede Social – PT Br). Em 2009 já havia sido produzida uma versão cinematográfica sueca que, infelizmente, a fim de adaptar o romance ao cinema, alterou pequenos detalhes da história. Contudo, é ainda uma excelente

reprodução para o cinema, já que pode-se ver Lisbeth Salender exatamente como descrita/ imaginada caminhando pelas ruas de Estocolmo e utilizando seu Macbook em investigações hackers pessoais. Stieg Larsson faleceu em 2004, em Estocolmo, logo após completar 50 anos e finalizar sua trilogia. O mesmo teve sua vida interrompida por uma parada cardíaca depois de subir sete lances de escadas após um mal funcionamento do elevador do prédio onde trabalhava. Assim como Mikael Blomkvist, Stieg Larsson era um jornalista investigativo e com uma extensa bibliografia publicada sobre direitos humanos e a extrema direita sueca, já havia sido largamente ameaçado de morte e alguns especulam algo sobre sua morte ter sido forjada. “Os Homens que Não Amavam

as Mulheres” é uma história altamente recomendável para aqueles que querem imergir em uma literatura contemporânea de qualidade, crítica, de fácil leitura e cativante do início ao fim. Um meio interessantíssimo de conhecer melhor a cultura sueca/nórdica, que até a nós, proto-internacionalistas, é uma parte da Europa um tanto quanto nebulosa e distante. Estou certo de que Stieg Larsson, mesmo tendo falecido prematuramente, deixou-nos de herança à eternidade humana uma trilogia espetacular e artisticamente inquestionável, gostem ou não.

*Escrito sem pretensões de conter spoilers (escuse o autor caso haja algum).

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Pulp

por Emannuel K.

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esde pequeno ele conseguia ouvir quando ela estava se aproximando. Assim como qualquer outra pessoa, ele não a conseguia vê-la, a não ser talvez quando chega nosso momento de encará-la olho a olho -, mas ao contrário delas, conseguia ouvi-la. Era um ruído angustiante, como que uma sinfonia de gralhas cantando ao anoitecer, o ruído se aproximava, como um trem chegando à estação onde pararia. E ele descobriu com o tempo que o ruído podia se aproximar das mais diferentes formas, algumas numa velocidade impressionante, exatamente como o trem na estação, e outras vezes podia se prolongar por dias, mesmo meses. A primeira vez que ouviu era ainda uma criança, devia ter talvez seis ou sete anos de idade. Estava brincando com seu cachorro, inocentemente. Foi uma daquelas vezes que o ruído se aproxima rapidamente. Ele ficou tão atordoado com aquele som tão estranho e tão triste – e nunca antes tinha ouvido nada parecido – que deixou o cachorro com o qual brincava totalmente de lado. Sem que ele percebesse até que fosse tarde demais o cachorro saiu em disparada em direção à rua. Quando o menino percebeu, não pode fazer nada, um carro atingira o cachorro e a sinfonia em sua cabeça parara. Alguns anos depois, ele vivenciaria a experiência mais angustiante que essa capacidade de ouvir poderia lhe proporcionar. Já se acostumava a viver com uma habilidade assim

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tão estranha, já tinha ouvido aquele ruído algumas vezes, e aprendera que não era bom falar disso para as outras pessoas. O Ruído era irrevogável e incurável. Naquele caso, quando começou a ouvi-lo ainda estava ele muito distante, e nada em sua vida parecia errado, ninguém parecia em risco. Porém os meses que se seguiram foram uma verdadeira tortura: ver seu pai deitado numa cama, lutando contra uma doença que ele sabia que não poderia ser vencida, ouvindo a sinfonia crescer e se aproximar. Chorou por dias e dias, amaldiçoou a si mesmo, não quis acreditar que nada poderia ser feito, insistiu que o pai fosse tratado, e com isso prolongou a sinfonia, que, nos estágios finais, tocava tão alto em sua cabeça que não conseguia dormir, não conseguia se concentrar em nada do que fazia, só conseguia pensar naquilo, viver para aquilo. No entanto, sabia que ele mesmo aguentaria, que aquela música ainda não era para ele.

de nossa finitude para que possamos tirar algum proveito do tempo que temos? Não é exatamente o fato de sermos limitados nesse aspecto que dá alguma profundidade, algum significado a tudo que fazemos?

O desespero é o de que possamos deixar incompleto algo que para nós era essencial, que deixemos de fazer algo que tanto queríamos ter feito. E é impossível que façamos tudo que queremos, até porque sempre vamos querer mais. Mas com essa estranha capacidade, com essas experiências que foram indubitavelmente tristes, a vida do menino adquiriu proporções que muitos, não importando quão longas sejam suas vidas, não conseguem obter; talvez uma sabedoria muito específica, e muito escrupulosamente detestada. Na idade que todos ainda pensam serem imortais, ele já estava completamente consciente de que, mais cedo ou mais tarde, ouviria a sinfonia ser tocada para ele, e por mais que soubesse que quando essa situação chegasse não Essa experiência, apesar de teria dúvidas de para quem o trem traumática, foi também a que chegava, não podia saber se seria possibilitou que aprendesse sobre uma canção longa ou curta. do que realmente se tratava a morte. Depois que o réquiem de seu pai fora Não posso dizer que ele nunca se terminado, foi que ele começou a arrependeu de não ter feito algo. Não perceber que aquela música não era posso dizer que ele concluiu tudo de fato tão triste, não era algo que que poderia desejar fazer. Ele não é devia ser uma fonte de sofrimento e o herói de uma estória fantástica e de medo. Todas as coisas precisam imaginária, é uma pessoa real, como ter um fim, todos os sofrimentos eu e você. Ele não declarou todas as que vivemos exigem que mais cedo paixões que tinha, não disse para ou mais tarde sejamos postos para todas as pessoas o que achava de cada descansar. Não já é chavão dizer que uma delas, deixou até mesmo seu é preciso que tenhamos consciência último disco – pois era músico


– incompleto. Não posso dizer que foi feliz. E, no entanto, algumas coisas podem ser ditas. Ele soube que não deveria negar seus impulsos, sua passionalidade, que devia aproveitar as coisas de que gostava, ao invés de tentar se adaptar. Nunca mudar, se a mudança não partisse de si mesmo. E, mais que isso, soube que era humano, soube que era exatamente igual a todas as pessoas. Todos morrem, todos têm suas vidas, objetivos, seus prazeres, todos vão deixar marcas e trabalhos incompletos. Qual poderia ser a desculpa para que as marcas deixadas fossem artificiais, ao invés de refletir a vida que tivemos e a alma que nos governa?

Quando ouviu a sinfonia começar a tocar para si mesmo já estava tão acostumado a ela que pode até mesmo prever aproximadamente quanto tempo duraria. Não mais do que um dia. E não se desesperou com isso. Estava no metro. Lotado naquelas horas da manhã quando todos estão indo para o trabalho, e ele estava voltando. Nunca deixara de usar o transporte público, sem saber exatamente o porquê. Quando a ouviu começar, não se angustiou; sorriu. Seus ouvidos de músico reconheceram a beleza da música, até mesmo dançou um pouquinho, ali mesmo onde estava. As pessoas ao redor deveriam estar pensando que esta va bêbado, e talvez fosse verdade. Dizem que a vida passa na frente a nossos olhos quando estamos prestes a morrer.

À menina da cabana, minha garrafa de outros mares

Talvez seja verdade, com ele isso aconteceu; mas também foi diferente, pois foi ele que lembrou todos os momentos marcantes, fossem eles bons ou ruins, todas as pessoas que fizeram diferença para ele. Em seu íntimo, pediu que alguém sentisse sua falta quando se fosse, quando o dia acabasse, mas se isso não acontecesse... Bem, cada um lida com a morte da forma que melhor consegue. As últimas palavra que disse foram “eu te amo”. Ninguém ouviu. Talvez estivesse dizendo aquelas palavras para alguma pessoa a quem nunca conseguira dizer em outro momento. Mas talvez estivesse dizendo aquelas palavras para a vida. Ou para a morte.

Felícia

por Katia Fenyves

Conheço-te máscara: a peruca lisa e fina, corda forte que teus pensamentos suspende Conheço-te ostra: os brincos perolinos flutuando notas sambistas em orelha-fêmea, fêmea branca, fome negra Conheço-te cebola: as frágeis piruetas bailarinas, camadas de mãos calejadas pelo timão que conduzes Conheço-te veronika: assim mesmo, de minúscula, porque mais de identidade que de nome Veronika. Boneca russa. Matrioshka. És raiz czarista e bolchevique das bétulas da tropicália Conheço-te nada e toda, antes nunca e agora sempre A Bergman as faces do caleidoscópio do futuro

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Yellow Brick Road

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sário, conversas tão esporádicas? Não saberia dizer quando foi a última vez que os vi. Cinco anos atrás, talvez dez, talvez mais.

Não, não esperanças, que essas perdi, não há muito tempo, mas irremediavelmente. Sempre soube que todos morrem sozinhos, simplesmente aprendi que, na maioria das vezes, também é assim que elas vivem. E não sei dizer se é bom ou não. Não sou avesso à solidão, até porque ela não existe, sempre vamos ter ao menos lembranças de alguém, ou vamos criar memórias ou pessoas. Mas também sou uma pessoa comum, não muito resistente, não muito forte, não muito esforçada, não muito independente, sei que no fundo preciso de pessoas. De várias formas.

Os amigos da faculdade são terrivelmente similares. Durante anos convivemos, durante anos nos acostumamos às suas presenças, até que percebemos que não estão mais lá. Que não pensamos em determinada pessoa já há meses, ou mais. A verdade é que mesmo na faculdade eu já contava nos dedos as pessoas com as quais gostaria de ter uma amizade para além daquilo. E, aparentemente, não estava eu entre os dedos dessas pessoas. Esse tipo de coisa acontece. Depois dos amigos de infância – dos quais você não aceita romper definitivamente com medo da dor que isso pode causar – se distanciar de outras pessoas não parece algo tão anormal, nem tão mau.

E é por isso que o futuro é tão obscuro. Os amigos de infância são também os primeiros a nos deixar, sem nunca nos abandonar de fato. Continuam amigos, mas moram do outro lado da cidade, e trabalham, nunca têm tempo, e têm os próprios amigos já para ocupar o pouco tempo que sobra. A amizade não acaba, continua lá, ao menos no nome continuam se gostando, continuam sendo importantes uns para os outros. Mas que tipo de importância é essa que não passa de telefonemas no dia do aniver-

E os amigos da vida. Bem, esses são efêmeros, de certa forma, não é mesmo? A maior parte deles são como que descartáveis, os mais novos substituindo os mais antigos. E alguns poucos assumem um cargo honorário de amigos de infância, nunca completamente fora de contato, mas E a resposta é incerta, mesmo nunca exatamente próximos. para mim. Talvez seja a ilusão, o lampejo de algo tão irrealmente Amigos de trabalho e família bom, mesmo que com um final não existem. Pelo menos não no ruim; algo estranho, impossível meu caso, não como amigos. Estórias de amizade são bonitas, mas não têm isso. A simples ideia E é isso. Depois de passado tudo de duas pessoas que se entregam

screver estórias de amor é uma forma de escapismo. É uma forma de ser romântico sem necessariamente o ser na vida real. Quando faço isso, estou simplesmente tentando alimentar as minhas esperanças.

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por Emannuel K.

isso, a vida se resume a montes de livros e músicas de gente morta, e a espera para se juntar a eles. E as distrações que inventamos para não pensar nisso o tempo todo. Para mim é difícil não pensar. Dentro de um quarto sem janelas e cheirando a mofo e sem alguém para se ter uma relação de mútua compreensão, a vida se parece muito mais com o que ela de fato é. O ar é como um veneno que vamos ingerindo em doses pequenas, mas que cedo ou tarde vai fazer efeito. E, para os que não tem sorte, restam as estórias de amor. Não pelos finais bonitos, pelo contrário; quando o fim é triste é fácil se sentir um pouco mais reconfortado. É a simples companhia. Você deve estar rindo agora. Uma pessoa como eu, que tem tanta dificuldade em gostar dos outros, praticamente uma aversão a muitas das pessoas que me rodeiam, que não faz a menor questão de ter muito contato com elas, e essa pessoa está agora falando que escreve estórias de amor pela companhia. Que tipo de companhia poderia ser obtida por coisas mais insólitas do que folhas de papel?


uma à outra de corpo e alma é tão insustentavelmente impossível – beirando o agônico, por vezes – que o monstro criado é uma forma de companhia. Talvez seja transformar desejo e solidão em palavras e pessoas, e talvez isso acalme os demônios dentro de nós. Estórias de amor são feitas para serem bonitas como o era toda a arte antiga - e a beleza é a coisa mais parecida com analgésicos emocionais que podemos criar. A não ser dos analgésicos emocionais per se, mas esses são como a morte, e menos sinceros. O que move esse falso romantismo é algo que escapa ao controle. Quando se percebe, as palavras se organizaram de uma forma ou outra, falando de amor, empurrando a verdadeira intenção para o segundo plano, para o plano que hoje em dia ninguém se importa em observar. E existe nisso um prazer, que te impede de destruir aquilo, por mais que se queira, por mais que a intenção inicial tenha sido desviada. É tudo tão perfeito, é delirantemente bom. E quem escreve é, por definição um ser insatisfeito, e daí para a inveja, o passo é pequeno. E daí para a sensação de impossibilidade, a realização de que aquilo está restrito ao papel, sobra apenas angústia, e talvez algumas lágrimas. Esperamos ao menos que choremos pérolas

“Faça uma lista de grandes amigos Quem você mais via há dez anos [atrás Quantos você ainda vê todo dia Quantos você já não encontra mais... Faça uma lista dos sonhos que tinha Quantos você desistiu de sonhar! Quantos amores jurados pra sempre Quantos você conseguiu preservar... Onde você ainda se reconhece Na foto passada ou no espelho de [agora? Hoje é do jeito que achou que seria Quantos amigos você jogou fora? Quantos mistérios que você sondava Quantos você conseguiu entender? Quantos segredos que você guardava Hoje são bobos ninguém quer saber? Quantas mentiras você condenava? Quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o [tempo Eram o melhor que havia em você? Quantas canções que você não cantava Hoje assobia pra sobreviver? Quantas pessoas que você amava Hoje acredita que amam você?” - A Lista, Oswaldo Montenegro.

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O brilhante prese Adaptação, modificação, adição para nossa realidade e traduzido para o português de um conto escrito por Lou Reed em seus anos de colégio e recitado por John Cale na canção The Gift do álbum White Light/White Heat do Velvet Underground, de 1968.

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tingira o seu limite. Já era para lá de agosto e isto significava que já se passavam mais de dois meses que ele se via separado dela. Dois longos meses e tudo o que havia para nos mostrar era nada mais, nada menos, que três cartas, já com orelhas, e duas longas e custosas contas telefônicas a serem ainda pagas. A verdade era que após o fim do Ensino Médio ela voltara para sua cidade, enquanto ele permanecera por lá, na cidade onde estudaram, conheceram-se e se apaixonaram. Sim, eles continuariam juntos, apesar de toda a distância, o sentimento era deveras rígido para se acabar por uns poucos quilômetros de distância. Ela prometera manter uma certa fidelidade, saia às vezes, mas apenas por diversão. Manter-se-ia fiel. Mas recentemente ele começava a se preocupar. Durante as noites não conseguia dormir, e quando conseguia, tinha sonhos horríveis! Mantinha-se deitado por horas e horas, virando-se e debatendo-se debaixo de seus edredons que se pareciam mais como uma cápsula protetora. Lágrimas escorriam de seus olhos quando imaginava o semblante de sua amada e todos os seus votos de fidelidade serem derrotados por um pouco de álcool e pela calma e suave voz de um neandertal. Finalmente sucumbindo às definitivas carícias sexuais do completo esquecimento. Era muito mais do que um ser humano qualquer poderia suportar.

realmente era. E já ele, por si só, entendia e a amava assim como seu primeiro e único amor, não obstante ela o era. Intuitivamente ele tocara todos os núcleos e cavidades de seu psíquico. Ele a fazia sorrir e ela precisava dele, mas ele não estava lá para ela. (Awwwwww) A ideia veio a ele numa quinta. Ele fizera todos os seus bicos usuais por alguma forma de sustento a mais e logo correra para checar se qualquer palavra era possível ser lida em alguma mensagem virtual (o meio mais barato de se comunicar) que fora por ela enviada à sua sempre vazia caixa de mensagens, ele se desvencilhara de todas as suas amizades quando seu namoro com ela ficou mais sério, e após sua separação, seu único e melhor amigo era seu computador e não obstante as redes sociais. Não havia nada em sua caixa além de spams e correspondências de um curso preparatório para vestibulares, pelo menos eles se importavam em escrever oferecendo uma bolsa de descontos, a única coisa que ele queria além de estar com ela era passar na faculdade, já que há pouco tempo retirara sua carteira de motorista.

Por correspondência poderia enviar qualquer objeto físico a qualquer lugar do país ou do mundo, concluía, diferentemente dos seus correios eletrônicos. Até que lhe veio a cabeça, já que ele não havia como ir até a cidade de sua amada pelas maneiras mais convencionais, leia-se também, convenientes, por que não enviar a si mesmo por correio a ela? As visões sobre sua possível infidelidade o caça- Era extremamente simples! Postar-se-ia pelo corvam diariamente. Sentimentos de abandono sexual reio, aqueles que em uma noite você poderia ir do circulavam-no durante o dia, por todos os seus pen- Haiti até a China. No dia seguinte foi correndo até samentos, com mínimas exceções. uma papelaria comprar todos os itens necessários para sua viagem instantânea. Ele comprou: fitas E de fato, nunca entenderiam de verdade como ela adesivas extremamente aderentes, grandes e rígidos

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ente

por Lucas Pascholatti

grampos, um grampeador de alta potência (seria necessário para se grampear lá dentro de uma forma que nem a pior das pancadas o tirasse de lá) e uma caixa de papelão das mais rígidas feita exatamente para uma pessoa de sua estatura e porte físico, isso tudo foi o que ele julgou ser o necessário para uma viagem confortável. Bastavam uns buraquinhos para respirar, água, umas barrinhas de cereal e pronto, ele já poderia viajar tão bem quanto um turista! Sexta-feira a tarde estava pronto. Ele se empacotara inteiramente e os correios já havia combinado com ele de buscar uma caixa em sua casa às quinze horas, a caixa seria marcada com a palavra “frágil”. Sentado de cócoras lá dentro, sobre plástico bolha, que ele inteligentemente lembrara de revestir toda a parte interna da caixa, fantasiava a expressão alegre de sua amada ao abrir a porta, assinar o recebimento para finalmente abrir e ver o seu amado ali pessoalmente. Ela provavelmente o beijaria e depois dum tempo, até poderiam ver um filme juntos. Ai se ele tivesse pensado nisso antes... Finalmente ele ouviu um veículo parar sobre sua porta, passos se aproximarem e algumas mãos erguerem seu pacote e o jogarem no canto de um caminhão para finalmente ser entregue à destinatária final. …................................................... Ela a pouco escovara seus longos cabelos. Havia sido um fim de semana muito difícil. Ela devia se lembrar de não beber como aquilo em festas. Guilherme, seu mais novo caso, havia sido bacana enquanto a isso, pouco bebia. Após a noite toda ter terminado ele disse que ainda a respeitava e apesar de tudo, eram certamente as leis da natureza e mesmo assim, não é que ele não a amava, ele sim sentia muito afeto por ela, e afinal, eles já eram adultos. Ah, o que Guilherme poderia ensinar a seu ex... Mas isso já se parecia coisa de anos e anos atrás... Seu ex? Nossa, coisa de séculos... Ela mal pensava

nele e quando pensava era como se tivesse um problema mal resolvido. Sua melhor, melhor, melhor amiga andou pela porta da cozinha dizendo, sem ao menos desejar bom dia – Vixe, está absolutamente triste lá fora - Ah eu sei o que você está passando, eu estou me sentindo toda nojenta - ele terminava de colocar sua jaqueta enquanto sua amiga passava seus dedos sobre um pouco de sal que descansava sobre a mesa da cozinha e os lambia expressivamente - Eu deveria tomar aqueles remédios, mas eles me dão enjoo – sua amiga contraia seu nariz enquanto ela se alongava abaixo da linha dos joelhos como aprendera em seus livros de Ioga - Nossa, nem me fala - respondia enquanto sua amiga se levantava e ia até a pia da cozinha pegar uma caixa cheia de pílulas azuis e vermelhas de vitaminas - Quer uma? Elas te farão se sentir melhor – também tentou tocar seus joelhos - Eu acho que nunca mais na vida encostarei numa vodka de novo. Ela desistiu dos alongamentos e sentou-se, agora se encontrava mais próxima da mesa onde ficava o telefone - Talvez Guilherme ligará - disse mirando os olhos de sua amiga que agora tentava arrancar suas cutículas - Depois da noite passada, eu estava pensando, talvez você poderia levar as coisas um pouco mais a sério com ele - Eu sei o que você quer dizer. Meu Deus, ele passava as mãos em todos os lugares - Ela levantava os braços para o alto como se tentasse defender-se de algo - O fato é que, depois de um tempo, você se cansará de lutar com ele, sabe, e mesmo assim eu não fiz nada de importante sexta e sábado a noite e só dele nos chamar para sair... então eu meio que devo uma a ele, você sabe muito bem - Ela começou a se coçar de nervoso enquanto sua amiga dava gargalhadas com as mãos na boca - Eu te digo - completava - Eu me senti assim, depois de um tempo - ela decidiu ir adiante depois de bufar forte – E sabe? Eu até que queria mesmo... - Agora sua amiga dava gargalhadas ainda mais altas. E foi nesta hora que o carteiro tocou a campainha

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de uma casa colorida com muros texturizados. Logo correra para atender a porta, ao abrir ele a ajudou carregar a caixa para dentro. Ele teve a sua pequena notinha de papel amassado assinada e se despediu com um pequeno e sincero sorriso - O que você acha que é? - Perguntou sua amiga. Ela permanecia com os braços apoiados atrás das costas de sua amiga vidando o uma grande caixa marrom de papelão sobre sua sala de estar - Eu não faço a menor ideia. Dentro da caixa, ele se remexia de felicidade ao escutar as vozes abafadas. Ela meteu as unhas impulsivamente sobre as fitas adesiva que cobriam a parte superior da caixa - Por que você não olha para o endereço do remetente e vê de quem é? - Sentia seu coração batendo forte sobre o peito, ele até podia sentir os passos vibrantes das duas, seria em pouco tempo. Ela andou até o desenho e leu a etiqueta - Nossa é do... - Aquele imbecil, completou sua amiga - Ele tremia de ansiedade - Você pode abrir mesmo assim - disse sua amiga concluindo seu comentário anterior. As duas tentaram, sem sucesso, puxar todos os grampos que lacravam a dura caixa - Ai merda - disse ela, resmungando - Ele só pode ter grampeado a caixa com ela fechada - Elas puxaram os grampos novamente – Nossa, você precisa de uma furadeira para abrir isto! - Elas puxaram novamente - Não dá para descansar um pouco? - As duas permaneceram imóveis respirando fortemente - Por que você não pega uma tesoura? - Disse sua amiga. Ela correu até a cozinha e a única coisa que conseguiu achar foi uma tesoura de cozinha, até que se lembrou que seu pai tinha uma caixa de ferramentas no quintal, correu para fora e quando voltou ela tinha um canivete de metal enorme, grosso e muito bem afiado sobre as mãos - Isto é o melhor que eu consegui - Ela estava totalmente cansada e sem nenhum ar sobrando em seus pulmões - T-oma a-aqui, vo-cêe que abre. E-eu vou morr-er... (afinal, a ressaca era muito forte) - E se jogou sobre um estofado fofinho que tinha em sua sala, respirando profundamente. Sua amiga tentou fazer um furo entre as resistentes fitas adesivas e alguns grampos, porém a lâmina era muito

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grande e não houve espaço o suficiente para puxá-los - Mas que droga isso! - ela disse se sentindo totalmente desesperada, depois sorriu - Já sei, eu tive um ideia - Disse sua amiga com um dedo sobre sua cabeça - O quê? - Ela perguntou - Só olha - Respondeu sua amiga entusiasmada. Dentro da caixa ele se sentia transfigurado de felicidade, que mal podia respirar, sentia sua pele sendo cortada de excitação, sentia até seu coração batendo pela garganta - Só mais um pouquinho pensava consigo. Ao mesmo tempo também tentava prever a felicidade que sentiriam os dois ao poder se verem juntos mais uma vez, e então as coisas ficavam ainda mais tensas, previa também o sorriso dela. Lembrando, inclusive, todo percurso que fizera desde sua partida até chegar em sua cidade, por fim também pressentia que esta história seria ainda muito mais lembrada por todos os seus amigos... Sua amiga parou em pé e um tanto quanto quieta, andou envolta da caixa até o outro lado, depois ajoelhou-se de frente a ela, apertou o canivete com as duas mãos o mais forte possível, inspirou todo o ar possível de ser inspirado profundamente e introduziu de um só vez a longa lâmina pelo meio da caixa, pela fita adesiva, pelo papelão, pelo plástico bolha e (baque) certamente por dentro do centro de sua cabeça, que delicadamente espirrou muito sangue, causando o aparecimento de pequenos e rítmicos arcos avermelhados a pulsar gentilmente nessa ensolarada manhã. ...que delicadamente espirrou muito sangue, causando o aparecimento de pequenos e rítmicos arcos avermelhados a pulsar gentilmente nessa ensolarada manhã.


As mãos de um homem Ninguém saberia mais o que podia ser feito. Eu não sabia o que poderia fazer. Seu sangue estava em minhas mãos e minhas mãos estavam em seu sangue. O escarlate miscigenava-se, diluía-se em lágrimas cuja origem já não conhecia. Poderiam ser minhas se ainda fosse o menino que era minutos atrás, o homem desconhecido tomava a minha imagem.

por Kevin Lopes

Pai, uma ida pacífica à escola, esta com sua própria progressão monótona de eventos com seu ápice no iminente retorno a moradia. Eis que a cena se concretizou. Ao adentrar a casa, ouvi o desesperado clamar de ajuda de uma donzela. Clamar rapidamente atendido pelo Menino que avista o Pai em situação não tão inovadora, porém mais frenética do que o costume, com o sangue da jovem senhora espalhando-se pelos azulejos. O Menino deixou de existir e logo mais o Pai também não existia.

Lâmina, arma de fogo, veneno? Nenhuma das alternativas. Apenas a obra das mãos da ira nas faces de uma bela mulher que podia ser chamada de Mãe. Obra realizada não pelo homem ajoelhado no sangue de sua Mãe, ou pelo menino que fora, mas sim pelo Homem que jazia sem pulso no canto Porém indiferente ao que tinha acontecido, ninguém da cozinha ainda segurando uma garrafa de cerveja. acreditaria em minha história, seja eu o herói ou o vilão, era apenas um Homem agora órfão e desproAté aquele momento, o dia havia sido o mais co- vido de qualquer sonho. Tornando inimportante o mum possível. Um lento despertar, um conturbado meu ato conseguinte de simplesmente acabar com a desjejum na presença de um sempre bêbado, vulgo minha vida. Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria da Monarquia lá do outro lado da rua limites da Sociologia Mas isso ainda diz pouco: se um monte deles havia com nome de Severino autor de tanta pornografia que estudou outros tantos quando queria diplomacia mas no final fez qualquer porra que pagasse as contas do dia

Vida e Breja

Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma piroca grande que a custo é que se equilibra vivendo de favor com os lesados da Economia parte 2 e iguais também porque no sangue por Severino, o Jegue levamos a breja e a putaria

Severina

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Metajornalismo Qual é a do “

”?

por Fábio Andó Filho e Daniel Avelar ara quem achou que um órgão de imprensa li- a nenhum tipo de instituição ou ideologia. vre, sem patrocínio, sem pressões editoriais, sem prazos fixos e rigores mais não iria sobre- Das manchetes: viver a esse mundo cão, cá está a segunda edição do . A primeira edição pode ser considerada plnamente O nosso projeto gráfico dispensa o uso de manchetes. satisfatória, pois aproximou muitas pessoas ao debate, Acreditamos que em um espaço destinado ao debate e tendo cumprido a função dialógica do jornal. Muitas ao diálogo contínuo, sintetizar argumentos em um típessoas se propuseram a discutir, refletir e contribuir, tulo com pretensões publicitárias e alguns parágrafos sendo nada mais que isso o objetivo do jornal, um espa- muitas vezes carregados de preconceito, podem ser prejudiciais à recepção crítica da produção de opinião. ço para a interlocução de ideias e pessoas. Como entendemos não ser possível uma cobertura jorNesta segunda edição, muito felizmente tivemos contri- nalística imparcial, pois cada autor deixa registrado em buições de pessoas alhures, expandindo o diálogo para seu texto ou imagem uma série de estruturas de pensafora do círculo dos estudantes de Relações Internacio- mento de acordo com seu repertório, é necessário o ennais da USP, além de novos autores, novos tipos textuais tendimento completo do desenrolar de uma ideia e não e novas ideias. Esperamos que a experiência seja enri- uma síntese dela. Não por isso estamos preconizando quecedora e deixamos o convite a todos para que parti- a prolixidade a despeito de formas mais dinâmicas de cipem do nosso querido jornalzinho. comunicação, somente problematizando uma forma de Para dar continuidade à proposta de se debater o fazer interlocução recorrente. jornalístico, ficam algumas reflexões acerca de alguns Do termo “jornal” itens do nosso jornal que foram levantadas entre a puDa mesma premissa da crítica às manchetes, pode-se blicação da edição anterior e esta: pensar também a produção de conteúdo. Embora seja Do subtítulo: chamado jornal, o tem uma cara de revista e O subtitulo do jornal - Experiência Metajornalística In- é composto em sua maior parte de textos de opinião ou dependente - se propõe a ser objetivo e descritivo. Ini- de produções literárias, a despeito de uma fórmula mais cialmente, o se propõe a ser um espaço corriqueira de jornal com reportagens, “furos”, matérias que possibilite experiências aos(às) envolvidos(as) com e manchetes. Sabendo que não podemos contar com a sua produção - sejam eles(as) autores(as), editores(as), uma cobertura jornalística isenta de opiniões, parecetradutores(as)... Enquanto produtores de um veículo -nos muito justo atribuir esse termo ao nosso compênmidiático alternativo, acreditamos que temos a oportu- dio de opiniões. nidade de desenvolver novas potencialidades, além de Da sessão de cartas: tomar parte de debates importantes. Ademais, o jornal pretende ser metejornalístico ao estimular reflexões so- Entre alguns dos envolvidos, surgiu a ideia de se abrir bre o papel dos veículos de comunicação. Vale destacar uma sessão de cartas caso houvesse interesse de algum que o simples fato de nosso projeto assumir o formato leitor comentar diretamente sobre algum texto. Essa de um jornal já tem em si um fim de discutir o próprio ideia, porém, foi descartada, uma vez que acreditamos fazer jornalístico (caso buscássemos apenas criar um es- que o jornal é um espaço aberto de debate, no qual topaço para discussão de ideias e publicação de textos po- dos são participantes (seja autor ou leitor). Dessa forma, deríamos optar por organizar um blog ou um fórum). se alguém sentir a necessidade de responder a alguma Por fim, somos independentes pois não nos associamos questão levantada, terá seu espaço junto a todos os outros textos.

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AGENDA CULTURAL por Marília Ramos e Lívia Prado

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ideia de fazer uma agenda cultural para São Paulo sempre me agradou. Embora excludente de diversas maneiras, a cidade - por seu tamanho, por sua diversidade - exibe uma programação cultural para todos os gostos digna de fazer inveja. Proponho apenas algumas sugestões dentre as centenas de programas que estão acontecendo, por isso “possibilidade”. Não pretendo achar que consigo listar aqui tudo o que a cidade tem a oferecer. E, claro, a seleção abaixo passa por um crivo: meu gosto pessoal.

Em abril de 2012, Peter Greenaway completou 70 anos de vida e 45 como cineasta. Em comemoração ao seu aniversário, o Cinusp Paulo Emílio está apresentando essa mostra. Não conhece o britânico? Então chegou o momento. O Cinusp separou os 10 longas mais conhecidos, que serão exibidos em duas sessões diárias (às 16h e às 19h). Recomendo que assistam ao mais recente, “Ronda da Noite”, e “A Última Tempestade”. A entrada é gratuita, com os ingressos retirados antes da exibição do filme. A programação completa está na página do facebook do Cinusp.

05/05 a 24/06 - Andy Warhol: Polaroids and Photos no MIS Você sabia que Warhol usou câmeras Polaroid para retratar pessoas famosas? Muitas dessas fotos foram usadas como base para suas famosas serigrafias coloridas (essas são impossíveis não conhecer). Uma seleção dessas fotografias está exposta 02/05 a 18/05 - Mostra O Cinema de no Museu da Imagem e Som e os inPeter Greenaway no Cinusp gressos custam até 4 reais. De Pelé a Ah, não vou colocar o Maio Cultural aqui porque acredito que meus elogios ao evento e minha empolgação levariam páginas e páginas. Deixo à Gestão do Centro Acadêmico sua devida divulgação (mas se você ainda não está informado,procura, porque vai ser bom!).

Mick Jagger, o culto às celebridades, que tanto marca nosso tempo, está ali, e retratado por um grande artista dessa mesma era. Gostando ou não de Warhol, a exposição é muito boa, vale a pena conferir.

08/05 a 22/06 - “Viver sem tempos mortos” com Fernanda Montenegro Uma das maiores atrizes brasileiras se apresenta em 21 Centros Educacionais Unificados (CEUs) de São Paulo para o monólogo, que reúne

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fragmentos de pensamento da escritora e filósofa Simone de Beauvoir. A direção é de Felipe Hirsch. As informações sobre os dias, locais, horários e ingressos podem ser consultados no site do projeto “CEU é Show”. É Fernanda Montenegro, não precisa justificar mais, precisa?

Condutores de Cadáver (21h30) Dia 19 - Olho Seco, Agrotóxico e Lixomania (21h30) As informações sobre as bandas estão disponíveis no site do SESC. A meia entrada custa R$ 8,00.

The Horrors, We Have Band, Garotas Suecas e Banda Uó. Mesmo não sendo muito fã de Franz, recomendo pelo menos uma passadinha no festival pelas duas últimas bandas (Banda Uó é divertidíssima!). A programação completa está no site 19/05 - Peça “Amante” no Centro do festival e tem exposições, bateCultural Banco do Brasil -papos, dança, filmes... Só faltou a “Amante” é um texto do diretor Ro- parte gastronômica, mas há de se berto Alvim, livremente inspirado concordar que a Inglaterra não é um na obra “A Amante Inglesa”, de Mar- polo culinárilo. guerite Duras. A peça conta com os atores Caco Ciocler, Juliana Galdino e Bruno Ribeiro, da premiada companhia paulista Club Noir e fica em cartaz até 1° de julho. A meia entrada custa R$3,00. Horários: Sexta às 20h, sábado às 18h e às 20h e domingo às 19h.

10 a 20/05 - 11ª edição do Grafite Fine Art no MuBE Dentro do projeto Momento Itália Brasil (MIB), o Museu Brasileiro de Escultura reúne grafiteiros italianos e brasileiros sob o tema “Murales”. Com curadoria de Binho Ribeiro, a exposição pretende mostrar as diferenças de estilos e conceitos do grafite, além de proporcionar troca de ténica, vivência e cultura com esses profissionais. O MuBE fica aberto de terça a domingo, das 10h às 19h. 26/05 - Orquestra Brasileira de MúA exposição é gratuita. sica Jamaicana no SESC Belenzinho (dica do Caio Návia) 12/05 a 06/06 - Maio especial para ci- Idealizada pelo músico e produtor néfilos Sérgio Soffiatti e pelo trompetista Ainda lembrando do cinema, neste Felippe Pipeta, a Orquestra Brasimês, o SESC Vila Mariana oferece leira de Música Jamaicana apresenta sessões de filmes, oficinas e pales- grandes clássicos da música brasileitras com o tema educação. Destaque ra, como “Águas de março”, “Garota para as sessões de “Pro dia nascer de Ipanema”, “Carinhoso”, “Aquarela feliz” (lindo documentário sobre a do Brasil” e “O Guarani”, em ritmos educação em diferentes cantos do jamaicanos criados nas décadas de Brasil) e “A Onda” (que vai bem 50 e 60. Ska, Rocksteady e o Early além de educação e é igualmente in- Reggae são alguns dos dançantes crível). ritmos que permeiam a Orquestra. 18 e 19/05 - O Fim do Mundo, En- Ingressos à venda a partir de 1º/05, fim no SEC Pompéia (dica do Fabio nos SESCs. A meia-entrada cusAndo) ta R$12,00. Se você não conhece a Em 1982, foi realizado o festival “O OBMJ, recomendo que entre no site Começo do Fim do Mundo”, quan- (http://www.obmj.net/) e escute todo os punks paulistas reuniram sua das as músicas. Vale muito a pena! nata e colocaram a boca no trombone. Trinta anos mais tarde, o mundo mudou mas o punk continua - seu 27/05 - Show do Franz Ferdinand no antigo discurso nunca esteve tão Parque da Independência atual. Assim, nace um novo festival, O show faz parte do 16º Cultura Inunindo gerações, o SESC Pompéia glesa Festival, que vai do dia 25 de realiza o “O Fim do Mundo, Enfim”. maio a 28 de junho. Além de Franz Dia 18 - Cólera, Restos de Nada e Ferdinand, o festival traz as bandas

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Terças feiras - Quinteto em Preto e Branco na Galeria Olido Todas as terças deste mês o Quinteto em Preto e Branco se apresenta a partir das 19h, com entrada livre. Acho imperdoável alguém ser fã de samba e não conhecer o Quinteto. Eles se apresentam praticamente todo ano na Virada Cultural, esse ano encerrando a Roda de Samba na São Francisco. Além de excelentes músicos, são muito despojados e brincalhões. Se tem uma coisa que eu adoro é músico conversando com o público e o Quinteto sempe faz isso. O objetivo é apresentar trabalhos do novo disco, “Quinteto”, e de discos anteriores. Interpretam Adoniran e Noel como ninguém. Imprescindível ir e relaxar no começo da semana. Terças feiras - Música erudita no CCSP Também às terças-feiras deste mês, na Praça da Biblioteca do


Centro Cultural São Paulo, ocorrem apresentações de música erudita, a partir das 20h30, com entrada livre. Dia 15 - Eduardo Santagelo executa obras para piano solo de autores brasileiros contemporâneos Dia 22 - Daniel Umbelino, tenor, e Dana Radu, pianista, apresenta o ciclo de canções “Die Schöne Müllerin” de Franz Schubert.

Dia 29 - Bruch Trio interpreta a música romântica, com obras de Bruch, Brahms e Schumann. Lembrando que a exposição “Guerra e Paz” fica no Memorial da América Latina só até o dia 20 de maio! E se o texto da Carla Schmitd e do José Roberto Baldivia não convenceram as pessoas a irem, não sei o que pode convencer.

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Construiri por Fábio Andó Filho

Construção do IRI-USP. Setembro de 2010. Papel fotográfico: Kentmere VC Glossy. Filme: Ilford Delta 400.

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“ “____________” - Experiência metajornalística independente

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Colaboradores:

Contatos dos autores desta edição: Alex Mazzanti Júnior Alexandre Capelo Arthur Hussne Bernardo Beatriz Rodrigues Sanchez Carla Schmitd Daniel Avelar Douglas Mauricio Emannuel K. Fábio Andó Filho Katia Fenyves Kevin Lopes Leonardo Calderoni Lia Logarezzi Lívia Prado Lucas Pascholatti Marília Ramos Victor Roland Walter Porto

Adriana Avelar, Katia Fenyves, Leticia Monteiro, Andre Bafti, Heloísa Fimiani, Pedro “Plínio” Henrique Freitas, Rafaela Henriques, José Roberto Baldívia Jr., Nícolas Neves, Emannuel K., Nina Faria, Fábio Andó Filho, Lia Logarezzi, Rebeca Sousa, Pedro “Bidru” Charbel, Walter Porto, Daniel Avelar “Pirófago”, Lucas Rossi, Maria Siqueira, Roger Lai, Leonardo Borges Calderoni, Clarice Tambelli, “Guimi”, Augusto “Mala”, “Fer” Perrin, Carla Schmitd, Livia Prado, “B.O.”, Barbara Fernandes, Afonso Cavalcante, Allan Greicon, Leticia Miléo, Raquel Soto, Luiz Alberto Perin, Bárbara Paes, Tércio Rodrigues, Rita de Cássia, Júlia Rocha, Isadora Tavares, Beatriz Sanchez, Douglas Maurício, “Gaga” Siracusa, Kevin Lopes, Gabriela Fiore Bonicio, Alex Mazzanti Júnior, Beatriz Martins Carreta, Cinthia Migliaccio.


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