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Editorial Diretor Responsável Fernando Salerno

Uma só Taubaté

Editor-chefe Hélcio Costa Editora Janaína Coelho

“Por isso que eu canto, eu visto esse manto, orgulho de ser Taubaté”. O grito, de uma das torcidas mais apaixonadas do interior de São Paulo, exprime o sentimento comum a todo morador de Taubaté. Uma honra imensa de pertencer a uma cidade que respira história e transpira tradição. Hoje, ao completar 368 anos de uma história muito peculiar, nossa cidade e você, cidadão taubateano, de sangue ou de coração, ganham um presente: a revista + Taubaté, publicação especial de O VALE e da Gazeta de Taubaté. Entre tantas curiosidades, filhos famosos, grandes indústrias, cenário de filmes e inspiração de livros, garimpar boas histórias foi tarefa fácil e prazerosa para a equipe da + Taubaté. Difícil foi escolher sobre o que falar, o que contar, onde fotografar, tantas foram as histórias descobertas no meio do caminho. Apesar dos desafios impostos ao poder público, do trânsito carregado na região central, de algumas administrações inglórias no passado e dos problemas com violência, Taubaté ainda é, para a maioria da população, o melhor lugar no mundo para se viver. Mas o que a cidade tem de tão especial que enche nossos cidadãos de orgulho? Nós vamos contar nas páginas da + Taubaté. É gente como Seu Dito, figurinha querida no Mercadão, seu lugar preferido na cidade. Ou ainda os jovens estudantes que dão vida aos personagens de Monteiro Lobato e todos os dias divertem crianças e adultos no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Sem falar na Dona Elisa, dona da receita mais tradicional da cidade, o verdadeiro gostinho de Taubaté. E que delícia! Nem a repórter Kelma Jucá resistiu: provou (e aprovou) a quirerinha de milho com costela de porco. E como esquecer do relógio da CTI, que ainda hoje rege os horários de quem mora ou trabalhaw perto. Curiosa, a repórter Daniela Borges foi até lá conhecer quem é o responsável pela sirene que dispara quatro vezes ao dia: Celso Luís Ribeiro, 54 anos, um taubateano autêntico, nascido e criado na cidade. Estas e outras histórias de uma Taubaté que enche de orgulho seus moradores, que respira tradição e guarda seu passado sem parar no tempo. Se desenvolveu, cresceu e hoje se destaca. Tudo isso e muito mais nesta edição especial. Uma edição com orgulho de ser Taubaté. Boa Leitura! Janaína Coelho Editora 4 + taubaté | dezembro de 2013

Divisão de Revistas

A revista + Taubaté é um produto editorial desenvolvido pela Divisão de Revistas de O VALE

+ TAUBATÉ Redação Reportagem: Daniela Borges e Kelma Jucá Fotos internas: Rogério Marques Foto de capa: Flávio Pereira Design e Tratamento de Imagens: Paulo Donizetti Publicidade Regional Diretora: Marcella Cotes Gerente Comercial: Priscilla Xavier Assistentes Comerciais: Adriane Oliveira e Keli Rosemere Executivos de Negócios: Marcia Candido, Maria Aparecida da Silva, Zilma Cardoso, Adriane Castro, Wolfgango Brandão, Maristela Cardozo e Paula Medeiros Vendas Internas Supervisão: Paula Lunardi Vendedores: Caroline Melo, Jerusa Avanzini, Jediel Pereira, Debby Baldi, Natalia Espanhol, Yuri Santos e Barbara Frigi Rua Santa Clara, 417 – Vila Adyanna Cep: 12243-630 - São José dos Campos - SP Tel: (12) 3909-3958 – 3909-3959 São Paulo Diretor Nacional: José Tadeu Gobbi Assistente Comercial: Eliana Nogueira Executivos de Negócios: Silvia Paixão, Alberto Fernandes e Clebe Alucci Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 2373 Jardim América - CEP: 01441-001 - São Paulo - SP Tel: (11) 3546-0300 Fax: (11) 3546-0322 Taubaté Sucursal Executivos de Negócios: Flávio Silva e Viviani Chiquetto Rua Uruguai, 94 - Jardim das Nações CEP: 12030-220 - Taubaté - SP Tel: (12) 9642.1389 Administração e Redação da Revista + Taubaté Rua Santa Clara, 417 – Vila Adyanna Cep: 12243-630 - São José dos Campos - SP Tel: (12) 3909-3909 Fax: 3959-3910 www.ovale.com.br Circulação: A revista + Taubaté circula encartada em O VALE e na Gazeta de Taubaté na edição de 5/12/2013 nos exemplares de assinantes e venda avulsa nas bancas de 32 cidades das regiões do Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira, Litoral Norte e Sul de Minas Gerais Cidades: Aparecida, Caçapava, Cachoeira Paulista, Campos do Jordão, Canas, Caraguatatuba, Guaratinguetá, Igaratá,Ilhabela, Jacareí, Jambeiro, Lorena, Monteiro Lobato, Natividade da Serra, Paraibuna, Paraisópolis, Pindamonhangaba, Piquete, Potim, Queluz,Redenção da Serra, Roseira, Santa Branca, Santo Antônio do Pinhal, São Bento do Sapucaí, São José dos Campos, São Luís do Paraitinga, São Sebastião, Taubaté, Tremembé, Ubatuba e Cunha.


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Sumário 368 anos: um orgulho imenso de ser taubateano

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Fotos: Rogério Marques

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8 a 14 u

Só por aqui: esse povo tem cada mania

16 a 20 u

Cheirinho bom: conheça o prato típico de Taubaté

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Fato ou le Vá à Bica do Bugre

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Transporte: entre passado e futuro, solução está no presente

Minha cidade: meu cantinho preferido na cidade

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48 a 50

36 a 40

Economia: aqui é diferente. Saiba o porquê

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enda?

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TCC: uma história que se confunde

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Filhos ilustres: a história de um jeitinho diferente

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Nossa Cidade

Nos 368 anos,

cidade e cidadão: todos numa só

Taubaté

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* Por Daniela Borges

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or isso que eu canto, eu visto esse manto, orgulho de ser Taubaté. O grito entoado por uma das torcidas mais apaixonadas do interior de São Paulo exprime o sentimento comum a todo bom morador de Taubaté. A honra e a glória de pertencer a uma cidade que respira história e transpira tradição. Aliás, toda a paixão devotada ao time de futebol sintetiza, metaforicamente, o mesmo amor que seus moradores sentem pela cidade. Um amor sem divisão, que transforma as ruas em arquibancadas do Joaquinzão. Sempre com a esperança de que as coisas vão melhorar, principalmente agora, às vésperas do centenário. Fenômeno parecido pode ser observado na admiração dos taubateanos em relação à cidade. Apesar do descaso do poder público, do trânsito carregado na região central, de sucessivas administrações inglórias e dos problemas com a violência, Taubaté ainda é, para a maioria de sua população, o melhor lugar no mundo para se viver. Mas o que a cidade, que comemora 368 anos, tem de tão especial que enche seus cidadãos de orgulho? Longe da alienação e da utopia que cegam, o que motiva o morador da cidade é a sua cultura pulsante e efervescente. O orgulho de ter a mesma origem do barro de onde saem as obras de arte das mãos das figureiras, e que ganham o mundo. De usufruir da qualidade de vida que resiste ao caos da cidade grande. De contar com uma localização estratégica, no coração do Vale do Paraíba. De ter a sua história e a de seus filhos ilustres reconhecidas pelo resto do Brasil. De ser querida e amada por todos que pisam em seu solo fértil. Muitas cidades tentam, mas só Taubaté consegue despertar no povo tamanha devoção. Para entender os caminhos da cidade que se apoderou do sentimento de amor-próprio, foi à luta e construiu sua trajetória desenvolvimentista e triunfante, a +Taubaté foi atrás de alguns de seus ‘filhos’ prodígios, por nascimento ou opção, que conhecem a cidade como a palma de sua mão. Personagens que contribuíram, e seguem fazendo à sua parte, cada um à sua maneira, para elevar o nome de Taubaté a patamares cada vez mais altos. Os ‘bandeirantes’ dos dias atuais contam de onde vem esse orgulho de ‘ser Taubaté’. 9 + taubaté | dezembro de 2013

Foto: Flávio Pereira

É um orgulho que rompe os limites geográficos. Quem sabe dizer por que o taubateano é tão apaixonado por sua terra natal? É o que a revista +Taubaté vai responder nesta edição especial de aniversário


Foto: Rogério Marques

Nossa Cidade

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orgulho de sua cidade está no DNA do taubateano. Esse forte sentimento tem relação direta com o protagonismo de Taubaté na história do Brasil ao longo dos últimos três séculos. “É através da história de um povo que se firmam certos sentimentos como, por exemplo, o orgulho de pertencimento a um grupo que celebra e considera os mesmos valores: morais, sociais e religiosos”, explica a historiadora Lia Carolina. De acordo com ela, cabe à história, registrar os procedimentos de senso comum que são passados por gerações e acabam cristalizados como a maneira de ser de um povo. E foi isso que aconteceu em Taubaté. “Estudando a história da cidade percebe-se nitidamente a perpetuação de um modus vivendi inerente ao povo.” São valores que, passados de pais para filhos, ao longo dos séculos, ainda vivem no meio das famílias taubateanas. São maneiras de ser e comportamentos que o tempo não apagou. “Não podemos negar a presença das influências externas que dão novas perspectivas às novas gerações, mas a essência continua a sobreviver no povo taubateano”, completa. Para Lia, ao despertar e estimular esse sentimento de amor à cidade, de orgulho de fazer parte, se fortalece a história e se perpetua seu povo. Lia cita uma frase do escritor Milan Kundera que exprime esse valor. “Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra história”. Para ela, o povo que não tem do que se orgulhar praticamente não tem razão de ser. “É um aglomerado de pessoas de fácil desagregação”, exclama.

Lia Carolina entre livros que guardam um pouco da história da cidade

Lia Carolina, historiadora

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»»Respeito Os motivos de admiração da cidade são muitos e remotos, vem desde a sua fundação. Segundo a historiadora, a presença do homem branco no Vale teve início com a criação da Vila de Taubaté. Logicamente não era uma região desabitada, já que aqui viviam os índios Guaianazes, mas foi com a criação da Vila de Taubaté, por Jacques Félix, que teve início a nova povoação em 5 de dezembro de 1645. A primeira vila do Vale do Paraíba. Daí para frente a história de Taubaté caminha lado a lado à do Brasil. “Como bem nos ensinou a saudosa historiadora Maria Morgado de Abreu, Taubaté transformou-se, de núcleo irradiador de bandeirismo, a centro industrial e universitário.” »»Obstáculos Os entraves existem. Não só de flores vive a cidade. Pontos negativos in-

sistem em prejudicar e abalar a relação com os moradores. No bojo do civismo, segundo ela, entram todos os direitos e deveres que transformam um grupo de pessoas em munícipes. E, claro, uma cidade não muda sozinha, é preciso a ação das pessoas. A população tem papel fundamental de transformação do destino da cidade. “Com esclarecimento e participação ativa na vida política, financeira e social da cidade. E não deixar que os interesses particulares tomem o lugar do interesse público”, ressalta. Mas, o que esperar para o futuro? Para Lia, uma cidade mais justa e consciente de sua história. “Gostaria de viver numa Taubaté moderna, sim! Onde os anseios da população fossem respeitados, mas sem perder sua identidade, sem perder suas raízes, sua “feição” tradicional e única.”


Nossa Cidade

Hodges Danelli Filho, O

taubateano tem uma característica muito própria e peculiar, uma certa predileção por ser sempre o primeiro. Talvez seja uma herança antiga, já que a cidade tornou-se ponto de partida para o povoamento do Vale do Paraíba. O pioneirismo que corre no sangue do taubateano levou a família Danelli, que imigrou para o Brasil em 1893, a fundar uma das mais antigas imobiliárias do interior de São Paulo. Desde 1951, a imobiliária Danelli deu início à comercialização dos primeiros edifícios com mais de 20 andares da cidade. Por ela passou o seu desenvolvimento. O empresário Hodges Danelli Fillho, que está à frente dos negócios, pertence à terceira geração da família de taubatenanos. “Aqui nasci, cresci, estudei, casei e criei meus filhos”, relata Danelli. “Agora vem vindo meu primeiro neto o que me faz ter um grande amor por esta terra e me motivou a lançar um livro sobre a nossa trajetória empresarial”, conta. A cidade conquista cada vez mais o coração deste empresário. “Falar do orgulho de ser taubateano é fácil, em uma cidade que tão bem nos acolheu e acolhe todos que aqui chegam”, declama Danelli. E em Taubaté é assim. Sempre tem alguém que conhece ou é amigo de uma pessoa famosa. O próprio Danelli conta que foi amigo de juventude do cantor Renato Teixeira. “São amizades de mais de 40 anos que nasceram nos bancos escolares”, relembra. No hall de ‘coisas’ de Taubaté que o

Para Danelli, a cidade oferece bons cinemas e ótimos restaurantes

empresário mais gosta, há lugar para o Esporte Clube Taubaté e o Convento de Santa Clara. “Que participo como ministro da Eucaristia”, afirma. Dos restaurantes de Quiririm. “E do respeito pelas tradições da rua Imaculada.” Ocupante da 40ª posição no ranking que mede o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a cidade que beira os 300 mil habitantes oferece, segundo Danelli, oportunidade de negócios em todos os ramos de atividade empresarial. Outro motivo de honra para Danelli está no respeito às tradições. “Sem dúvida é uma das marcas registradas de Taubaté”, completa. Divulgar o que a cidade tem de bom, segundo o empresário, é render uma homenagem justa a tudo o que ela representa. “Ver em livros, artigos de jornais, rádio e TV os sucessos e as conquistas nos mais diversos campos é o que nos estimula e mostra que lugar maravilhoso escolhemos para viver.”

Foto: Rogério Marques

empresário

»»Melhorias Por outro lado, segundo Danelli, quando há atos e gestos negativos, seja na política, na gestão pública, nas questões mal resolvidas, na criminalidade, nas obras não realizadas, a população se sente enfraquecida. “E isso traz um sentimento de que precisamos participar mais da vida da cidade.” Para Danelli, o futuro está nas mãos dos taubateanos. “Haja o que houver ninguém segura o crescimento de nossa cidade pois acreditamos no amor dos que aqui nasceram e dos que aqui vieram viver”, conclui o empresário. 11 + taubaté | dezembro de 2013


Nossa Cidade

Eliane Nikoluk,

tenente-coronel

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Foto: Rogério Marques

xaltar o lado positivo das coisas e difundir o que a cidade tem de melhor. Para a tenente-coronel Eliane Nikoluk essas são algumas das tônicas que ajudam a transformar a realidade de um povo. “As pessoas veem muito o lado negativo, o que é bonito as pessoas não enxergam, falta resgatar um pouco esses valores positivos”, afirma. Apontar somente as coisas ruins, segundo ela, mina a autoestima do povo. “Claro, é fundamental trabalhar o que é negativo, encarar os problemas de frente.” A tenente-coronel foi a primeira mulher a assumir o comando de um dos mais tradicionais batalhões da PM de São Paulo, com 115 anos de história. À frente de uma tropa com mais de 800 homens e a abrangência de 10 cidades, essa paulistana que cresceu em Campos do Jordão, mais uma vez

A tenente-coronel em seu escritório no batalhão da PM

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atesta o pioneirismo que impulsiona todo taubateano, até mesmo aquele por adoção. Apaixonada pela história e pelas características da cidade, Nikoluk hoje se sente à vontade o bastante para se considerar local. Da carreira de 25 anos na polícia, quase 10 deles foi atuando na região. Sua filosofia de trabalho está pautada na união de forças. Para isso, a comandante tem trabalhado com a prefeitura, parceiros, terceiro setor e ONGs. O aumento nos índices de criminalidade em Taubaté é uma questão que abala a autoestima da cidade. Para a tenente-coronel, boa parte da violência tem origem

social. Outro fator apontado por ela é o ordenamento urbano. Segundo ela, esse é o maior desafio de Taubaté hoje. Medidas para melhorar o planejamento urbano, aliadas à ação das polícias e, principalmente, ao combate à impunidade e à corrupção são fatores primordiais para resgatar a autoestima. A tendência, segundo a comandante, é que a polícia se torne cada vez mais comunitária. “Sentimos na pele, choramos junto as mazelas, somos os primeiros a chegar e a nos deparar com o que tem de pior na sociedade. A carga emocional é muito grande e a vontade de fazer a diferença também”, desabafa. »»Pessoas Quando uma comunidade não acredita mais em si mesma, é como uma população sem fé, de acordo com a tenente. Talvez por isso Taubaté tenha resistido às intempéries com tamanha firmeza. E é aí que entra o papel do orgulho em pertencer e fazer parte da cidade e de sua história. Faz parte do taubateano a consciência de integrar um povo com tradição rica e poderosa, que ajudou a construir outros. Se for preciso buscar estímulo e motivação, basta olhar para o passado, presente e futuro, mas, sobretudo, para as pessoas. “Temos aqui problemas sim, mas temos algo de valor inestimável: as pessoas de Taubaté.”


Nossa Cidade

José Maciel Alves, fundador da Camisa 14 Foto: Rogério Marques

O torcedor José Maciel Alves é um apaixonado por sua cidade

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esmo quem não se interessa muito por futebol, sabe quando é dia do Esporte Clube Taubaté entrar em campo para mais uma ‘peleja’. Os tradicionais fogos de artifício se encarregam, há décadas, de anunciar à cidade quando o time está prestes a encarar mais um desafio no Joaquinzão. O grande responsável por essa tradição é o torcedor José Maciel Alves, 79 anos, o eterno dono da camisa 14, que ainda hoje, de posse de sua prancheta, angaria doações entre os comerciantes para ‘financiar’ a tradição. Como o mais famoso torcedor do Burro da Central, Seu Maciel não nasceu em Taubaté, mas dedicou e continua dedicando os últimos 60 anos da sua vida ao clube que ele aprendeu a amar e respeitar. Nascido em Baependi (MG), aos 19 anos mudou-se para Taubaté para trabalhar no laticínio do primo que ficava perto da Bica do Bugre. “Já de cara me lembro de ter gostado muito do que vi”, completa. Apaixonado por futebol desde sempre, seu Maciel recebeu o convite do amigo sapateiro para assistir a um jogo do Taubaté no antigo estádio da praça Monsenhor Silva Barros, o Campo do Bosque, demolido em 1967. “Quando passei pelos arcos que davam acesso ao estádio senti algo dife-

rente. A beleza daquele campo era tão grande que mexeu comigo. Foi uma das coisas mais lindas que já vi.” A partir desse dia, em que Alves assistiu extasiado à partida entre o Taubaté e o Comercial, seu coração deixou de lado o Botafogo de Baependi para se tornar exclusivo do Burro da Central. As viagens foram muitas, as encrencas também. Graças a uma delas, inclusive, que seu Maciel fundou a torcida Camisa 14, a primeira da cidade e, segundo ele, uma das primeiras do Brasil. “Foi em um jogo do Taubaté pelo torneio Integração do Vale, em 1976. Fui sozinho a Paraibuna assistir à partida contra o time da casa. Um fazendeiro havia feito uma festa antes do jogo e a turma que foi ao estádio estava bem alcoolizada”, lembra. O Taubaté venceu a partida por 2 a 0 e seu Maciel acabou encurralado pelos torcedores bêbados e revoltados. “A torcida partiu pra cima de mim, apanhei muito”, conta. No dia seguinte em Taubaté, a rádio Difusora procurava o torcedor herói, que havia apanhado da torcida adversária. Sem saber o nome, a única referência era a camisa 14 que seu Maciel usava na ocasião. Nasceu em 13 de julho de 1976 a torcida organizada Camisa 14, fundada por seu Maciel e seus amigos. “A gente dava show”, conta. Hoje, a torcida não existe mais. Com o pequeno museu montado em sua casa, ele revive as glórias e as aventuras do passado. Para ele, Taubaté é o melhor lugar do mundo. “Aqui fiz minha vida, formei uma família linda, tudo o que eu consegui foi aqui.” Mas entre os momentos mais emocionantes vividos por esse mineiro de alma taubateana foi ter recebido o título de cidadão, em 1991. No ponto mais nobre da sua sala, está o certificado. “Foi uma grande homenagem que não esqueço.” Não é para menos, seu Maciel tem sua vida tão conectada a Taubaté que faz aniversário junto com a cidade, em 5 de dezembro. Parabéns seu Maciel! 13 + taubaté | dezembro de 2013


Nossa Cidade

Antônio Julio Taino, ex-jogador do Taubaté

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ouve um tempo, em que o dinheiro e a fama perdiam de goleada para um sentimento que hoje parece extinto nos campos de futebol: o amor à camisa. Era a Taubaté dos anos 50. Dos tempos de Antônio Taino, craque da época de ouro do Burro da Central e pai da família que melhor traduz o amor da cidade pelo seu clube. Em campo, foi campeão. Nas arquibancadas, duas décadas depois de se aposentar, Taino teve o privilégio de acompanhar dois de seus filhos envergando a camisa do Taubaté e conquistando sucesso em nível nacional. Uma história dividida em dois tempos. De um só amor. »»Primeiro Tempo A lenda começa com o garoto franzino, nascido em Quiririm, que com apenas 10 anos, já demonstrava talento excepcional com a bola durante as peladas de rua. No campo de chão batido, não tinha para ninguém. Julinho era o rei dos campinhos. Antes de jogar no Taubaté, Taino foi para São Paulo, onde jogou em alguns times do futebol amador, conhecido ainda como Julinho. O bigode que sustenta até hoje, aos 84 anos, sempre foi sua marca pessoal. Em 1951, Taino voltou para a sua terra natal, convidado para jogar no Caçapavense. O time, comandado por Satirio de Oliveira, que hoje dá nome ao estádio municipal de Caçapava, sagrou-se campeão do torneio regional. O desempenho de Taino chamou a atenção do Esporte Clube Taubaté que tratou de contratá-lo em 1952. O lendário meio-campista foi um dos

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protagonistas do Burro da Central na conquista do campeonato Paulista da Segunda Divisão de 1954. Taino se despediu do Taubaté em 1962, mas entre as suas lembranças de quando jogou no time alvi-azul está a partida contra o Santos de Pelé. Hoje, Taino mora com conforto e tranquilidade, mas, segundo ele, nunca ganhou dinheiro com o futebol. Para ele, a maior homenagem que existe é ser celebrado onde quer que ele vá na cidade. “Sou festejado quando vou ao supermercado, por exemplo, e isso não tem preço”, orgulha-se. »»Segundo Tempo Não bastou fazer parte da época mais incrível história do clube, que no ano que vem completa 100 anos, An-

tonio Taino deu muito mais ao time do coração. Inspirou dois dos seus cinco filhos a seguir o mesmo caminho. Antonio Julio Taino Junior, hoje com 54 anos, jogou no Taubaté de 74 a 82. Éder Canavezi Taino, de 53 anos, atuou no Taubaté nos anos 81, 83 e 84. Os três ex-jogadores concordam que o que falta ao time da cidade para voltar a ser competitivo é investir mais no futebol amador. “Taubaté tem condições de formar uma equipe de gente daqui, está faltando isso”, afirma Éder. Hoje, todos os heróis da família Taino moram na cidade. “Meu amor pelo clube veio do amor que tenho por Taubaté. Não existe melhor lugar no mundo do que a nossa cidade, principalmente, Quiririm, que é um lugar maravilhoso”, conclui o patriarca. Foto: Rogério Marques

O patriarca, ao centro, com os filhos Taino Júnior (esq.) e Éder Taino


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Foto: Rogério Marques

Minha Cidade

Entre manias e tradições: muita história para contar Uma passadinha no carrinho de lanche da Santa Terezinha, ajustar o relógio pelo toque da sirene da CTI ou ainda ‘bater cartão’ na Feira da Barganha de domingo: tudo coisa de taubateano

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* Por Daniela Borges

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em coisas que só acontecem em Taubaté. São hábitos e costumes enraizados na cultura popular, muitas vezes passados de pai para filho, que perpetuam maneirismos e peculiaridades típicas de sua população. Tradições responsáveis por dar à cidade uma cara, um jeito próprio. Algumas vezes, cobiçado e até invejado por seus vizinhos. Muitas das manias do taubateano acontecem em meio aos principais cartões postais da cidade. Cenários que estão inseridos no cotidiano das pessoas. Episódios pitorescos que ajudam a contar sua história, seu passado glorioso, seu presente de conquistas e a projetar o futuro de realizações. Situações que fazem parte do DNA do morador de Taubaté, como se orientar pelo sinal do relógio da CTI ou dar um passeio pela Feira da Barganha (ou Breganha, em ‘taubatês’) em um domingo qualquer, só para olhar as curiosidades que são oferecidas ali mesmo, na rua. Ou ainda,

A Feira da Barganha de domingo tem grande potemcial para se tornar um ponto turístico de Taubaté Ismael Leite Ambulante

assistir à missa do padre Fred na igreja Santa Terezinha e, na saída, saborear um delicioso lanche em uma das muitas opções de barraquinhas da praça. Como quem não quer nada, levar aquela pessoa querida, mas que mora em outro lugar, para conhecer o Mercado Municipal, só para oferecer a água da Bica do Bugre na expectativa de que ela não deixe mais a cidade. A verdade é que só quem mora em Taubaté reconhece o aviso dado pelos fogos de artifício do seu Maciel de que mais um jogo do Burrão está prestes a começar. E que, em dia de jogo, quando o trem passa atrás estádio e apita, significa que lá vem gol do time da casa, para delírio de sua fanática torcida. Morar em Taubaté é reconhecer na televisão mais um taubateano ilustre e torcer por ele. É manter a visão no futuro, sem se esquecer das tradições e, jamais, perder de vista a referência e a deferência do lugar de onde veio.


Q

uem mora ou trabalha em um raio de seis ou sete quilômetros ao redor do prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), já se habituou a programar o seu dia de acordo com o som emitido pelo relógio alojado no topo do edifico, no melhor estilo Big Ben, de Londres. Na realidade, são dois sistemas distintos: a sirene e o relógio. Mas que se complementam em suas funções. O relógio avisa o horário de tocar a sirene. Ambos estão instalados em um edifício épico, fundado em 1891 para abrigar a primeira grande indústria de Taubaté, e que ainda ostenta uma arquitetura moderna, muito além de seu tempo. Acima de seus nove andares, no ponto mais alto da construção de 40 metros, o mastro exibe a imponente bandeira da cidade, logo abaixo, as quatro faces do relógio, original dos tempos de Félix Guisard, embora seu maquinário tenha se atualizado ao longo dos anos. O último, inclusive, substituído no ano passado. O responsável por soar a sirene quatro vezes ao dia – às 8h, 12h, 14h e 18h – é o supervisor técnico Celso Luís Ribeiro, 54 anos, taubateano autêntico, nascido e criado na cidade. Há 18 anos, esse homem organizado e meticuloso, está incumbido desse compromisso diário. É interessante pensar que, em tempos de internet e celulares modernos, o mesmo som, que no século 19 ecoava por grandes distâncias para avisar os turnos de entrada e saída dos funcionários da antiga tecelagem, hoje dita os horários dos moradores. Segundo Ribeiro, em virtude do surgimento de muitos prédios em volta da CTI, o som tem ficado cada vez mais abafado e concentrado às ruas próximas. “Tenho conhecimento de que o som chega na Estiva, Independência até no Mercado Municipal”, comenta. Para se ter uma ideia da influência da sirene do relógio no cotidiano das

da CTI Foto: Rogério Marques

Relógio

Celso Ribeiro não se atrasa para acionar o relógio da CTI

Tenho conhecimento que o som chega, na Estiva, no Mercado e na Independencia Celso Ribeiro Operador da CTI

pessoas, no dia que não toca --é raro, mas acontece-- dá para entender o valor que a população dá a esse símbolo da cidade. Como aconteceu durante alguns dias de novembro. O relógio calou e o silêncio incomodou. “Há quem ligue nas rádios da cidade para saber o que houve”, conta Ribeiro. Segundo ele, o responsável por ‘calar’ o mito foi um fusível queimado. “Infelizmente, para trocar leva tempo, já que precisa de um eletricista para fazer o serviço. Temos procedimentos e não dá para arrumar da noite para o dia, existe os trâmites da prefeitura”, conta Ribeiro. A sirene já voltou a funcionar normalmente para a alegria do povo. Não bastasse o burburinho causado pelo silêncio temporário, para mostrar que o som emitido pela sirene é realmente notado pelas pessoas, Ribeiro acionou o botão às 11h05, apenas para mostrar como funciona à equipe de reportagem. Ao sair do prédio, os comerciantes locais e as pessoas que passavam na rua estranharam o toque fora de hora. “Antecipou a hora do almoço”, brincou o vendedor de rua. Não teve quem não provocou Ribeiro pelo toque demonstrativo. Para não cometer erros, ele mantém o horário de seu relógio de pulso sincronizado com o do relógio da CTI. Por mais que Ribeiro esteja habituado a acionar a sirene, é de se espantar que ele nunca tenha se esquecido ou se atrasado para apertar o botão. Com os compromissos diários, que Ribeiro tem muitos já que ele também é responsável pela manutenção dos sistemas de telefonia fixa da prefeitura, passar um pouco do horário pode ocorrer. Para evitar, ele programou seu relógio com um alarme três minutos antes dos horários da sirene. O sonho de Ribeiro é que um dia o acionamento seja automático. “Existe um temporizador que pode fazer o trabalho, sem erros e nem esquecimentos.” 17 + taubaté | dezembro de 2013


Foto: Rogério Marques

Feira da Barganha (Breganha em ‘taubatês’)

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á tem de tudo. Porta-retrato, chave velha, livro antigo, medalhão de um santo amigo ou um pinho feito à mão, revistas vistas, quadros de um vulgar artista. Na feira de trocas, coisas velhas pelo chão, onde o que já foi usado tem alguma servidão. O trecho da música de Renato Teixeira exprime com precisão o espírito que rege a tradicional Feira da Breganha. O cantor, que já morou em Taubaté e conhece muito bem seus costumes, disse certa vez que a feira é o que a cidade tem de mais autêntico a respeito de seu perfil. De fato, a feira da barganha extasia quem a visita pela primeira vez. Passear por ela é como entrar em um túnel do tempo. São histórias como a do breganheiro por vocação José Benedito Mazzei, 51 anos, que vende tudo quanto é antiguidade, de candelabros de bronze até sinos, cinzeiros e estátuas. A paixão começou com seu pai, José Benedito da Silva, que, segundo ele, trabalhou mais de 40 anos na feira e hoje é lembrado como uma das figuras mais célebres e reconhecidas do

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lugar. “Meu pai foi lembrado até em livros sobre a Breganha”, conta orgulhoso Germano Mazzei, outro filho de seu Silva. Resgatar o valor histórico da barganha é uma missão que tem sido levada a sério. Invadida por produtos novos e piratas, ela perdeu muito do seu brilho nos últimos anos. “É uma tradição da cidade que merece ser preservada”, desabafa Ismael Silva Leite, 47 anos, que há dois anos vende artigos antigos, como telefones, rádios, revistas, livros, discos de vinil e todo tipo de mercadoria arcaica. A feira é tratada pela prefeitura como evento informal. Logo, não há registros oficiais e nem levantamentos sobre o número de pessoas que passam por ela. Os primeiros registros da barganha datam do período colonial, no século 17. Inicialmente realizada na Praça Dom Epaminondas, a feira foi aumentando de tamanho e de representatividade até não caber mais ali e mudar-se, na década de 50, para o local onde hoje é realizada, ao lado do Mercado. Inicialmente, seu foco na per-

muta era restrito aos relógios, mas com a mudança de local também veio a diversificação de produtos. A saudosa prática do escambo também não resistiu ao tempo e ao dinheiro, segundo registros do Almanaque Urupês. Depois da mudança de lugar, as mercadorias ali oferecidas passaram a ser vendidas, logo o comércio prevaleceu à função original, e de barganha ficou mesmo só o nome, que, aliás, virou breganha, na língua do povo taubateano. Mas seu jeito interiorano, imortalizado pelos filmes de Mazzaropi, ainda prevalece firme, mesmo que seja na memória coletiva. “A Breganha tem grande potencial para ser tornar um ponto turístico de Taubaté. Já tem muitas pessoas que vem de outras cidades para visitar a feira”, conta o ambulante Ismael Leite. Para ele, resgatar a característica original será um ganho para a cidade e os ambulantes. Para o breganheiro, estar junto do povo é uma das maiores vantagens da feira. “Conhecer novas pessoas, fazer amizade, isso não tem dinheiro que pague”, conclui.


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Fotos: Rogério Marques

Carrinho de Lanche

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utro bom exemplo dessa mania de taubateano é comer nas barracas de lanche. Somente na praça da igreja Santa Terezinha, são oito opções à escolha do freguês. O lugar por si só já é convidativo. Ter a chance de degustar um saboroso sanduíche tendo como cenário o principal cartão-postal da cidade é privilégio para poucos. Em uma das barracas mais antigas do lugar, o movimento à noite é frenético. No Alex Lanches e Pastéis, existente há 21 anos no mesmo ponto, o carro-chefe é o x-bacon, segundo Gustavo Marques de Vasconcelos, 26 anos, filho do fundador da barraca, cujo nome batiza o estabelecimento. “Ao lado do hamburger mais simples, esse é o lanche mais pedido por aqui. Os pastéis também saem muito bem”, confirma o herdeiro, que largou a carreira de webdesigner para se dedicar integralmente ao negócio da família. O criador da barraca, Alex Vasconcelos, de 51 anos, não quer saber de se aposentar. Embora a administração esteja a cargo do filho, seu Alex ainda costuma dar uma força no atendimento. “Meu pai tirou o sustento da família, criou eu e meus dois irmãos, com o dinheiro da barraca e nunca nos faltou nada”, conta o filho, que se formou pela Unitau (Universidade de Taubaté). Segundo Vasconcelos, em uma semana boa de vendas, geralmente no dia de pagamento, são vendidos até 400 lanches. “As vendas estão muito ligadas ao clima e ao período do mês”, explica. Em dias de chuva, normalmente a barraca não abre, em virtude do risco de se trabalhar com óleo quente. “É perigoso, se cair um pingo de água no óleo fervente há o risco de pegar fogo”, explica. Nos dias frios e longe das datas do contra-cheque, as vendas também caem um pouco. 20 + taubaté | dezembro de 2013

“Cada cidade tem o seu costume. Aqui, o taubateano gosta de lanches. Já em São José, a preferência é o hot dog, que em Taubaté não tem muita força. É uma questão de gosto. Mas comer nas barraquinhas de lanche é um hábito típico daqui”, comenta. O fato da praça da igreja ter se tornado ponto de referência das barracas de lanche é positivo, segundo Vasconcelos. “É como a praça de alimentação de um shopping, por exemplo, são várias opções e o cliente escolhe a que mais lhe agrada”, conta. Aliás, o ponto já é tão tradicional e conhecido que até o McDonald’s resolver entrar na disputa por clientes. Abriu uma unidade quase em frente à barraca da família Vasconcelos. De um lado a tradição, do outro a modernidade. Quem vence? A população, que tem a sua disposição várias opções.

Meu pai tirou o sustemto da família com o dinheiro da barraca e nunca nos faltou nada Gustavo Vasconcelos Dono da barraca

Dos flanelinhas que ‘guardam’ os carros da praça aos executivos de empresas com carros importados, o público que consome na barraca do Alex é bem variado. “Tem gente que vem de bicicleta, outros de Porsche”, conta. O lanche é um alimento muito democrático, tanto no sabor, quanto no preço. Custam em média R$ 7 e o pastel R$ 4,50. A barraca funciona das 20h à 1h, fecha uma vez por semana, que pode ser na quarta ou na quinta-feira. “Gosto do que faço. E a parte que mais me agrada é lidar com o público. Tenho a chance de conhecer tipos diferentes de pessoas e tem gente de tudo que é jeito, das mais mal educadas a àquelas que se tornam bons amigos.” Vasconcelos já trabalhou com outras coisas, paralelas, mas nenhuma profissão foi capaz de lhe dar tamanha satisfação e retorno financeiro do que o carrinho de lanches. “É cansativo, as pessoas pensam que só trabalhamos no horário da barraca, mas temos que comprar os produtos, preparar tudo.” A inspetora de qualidade Paola Vanessa Ramos, 26 anos, mora no Jardim Morumbi, mas come pelo menos uma vez por semana na barraca. “Com certeza, é difícil resistir porque você está passando e sente aquele cheiro gostoso”, disse ela, que confirma a fama do taubateano ter mania de lanches.


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Marco da Cidade

Na Bica do Bugre, mito e histórias do povo Fotos: Rogério Marques

* Por Kelma Jucá

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Morador para na bica para se refrescar, uma tradição em Taubaté 22 + taubaté | dezembro de 2013

uem nunca ouviu falar sobre a Bica do Bugre, em Taubaté, cedo ou tarde, ainda ouvirá. Reza a lenda que aquele que beber da sua água sempre voltará à cidade. Crendices à parte, a bica tem um valor histórico que ajuda a entender o mito que foi criado em torno dela. Famosa, a Bica do Bugre é apenas mais um dos muitos pontos de água da cidade. E está bem longe de ser a única. A rua Barão da Pedra Negra, a avenida do Povo e a rua 4 de Março, por exemplo, são regiões de manancial de água, com fontes ou pequenos riachos canalizados. O nome Bica do Bugre se explica porque naquelas imediações se concentrava um acampamento indígena --bugre está relacionado com a figura do índio. “A partir de 1580, houve uma varredura de índios no Vale. Foi realmente uma limpeza étnica, que acabou por dizimá-los. Aqueles que restaram vieram posteriormente com os portugueses e se estabeleceram nessa região”, conta a diretora do Museu de Arte Sacra, a historiadora Olga de Souza. O grupo indígena que passa a se fixar no lugar começa, então, a fazer uso da bica, que pode ser considerada o sistema de água mais antigo da cidade. E essa bica propicia o surgimento de um tanque, que abastece Taubaté enquanto ainda era apenas vila. “Daí, em algum momento se cria a lenda ‘Quem bebe dessa água volta’. Na verdade, essa é a fonte de água que ajudou a prover o primeiro povoado. Surgiram outras fontes em outros povoados que deixaram de existir, mas a Bica do Bu-

‘Quem beber da sua água sempre voltará à cidade' é o

que diz a lenda: mito ou não, o lugar é parada obrigatória de quem passa por ali gre continua”, completa. Outra característica importante que ajuda a iluminar a questão da fama da bica é a sua própria localização. “Por ser zona de mercado, aquela área sempre contou com um volume populacional grande. Ali, também servia para matar a sede de cavalos e animais de tração que transportam materiais para o mercado”, explica a historiadora. »»Revitalização Recentemente, em 2010, a fonte passou por uma revitalização. O espaço ganhou trabalhos de marcenaria, de paisagismo, de serralheria e de artes plásticas. Por conta da ação de vândalos, o canto histórico estava se descaracterizando. Uma das soluções foi colocar um portão de ferro que é fechado durante a noite. “Foram quatro meses de estudo para fazermos uma leitura próxima do que a bica foi um dia e definirmos o melhor projeto”, conta o arquiteto e professor da Ametra (Atendimento Múltiplo na Educação e no Trabalho), José Augusto Gomes Junior, um dos responsáveis pela obra. Além do portão, entre as mudanças efetuadas está o reposicionamento da réplica da bica, que passou para a lateral do painel. O painel artístico, um conjunto de azulejos da década de 1940, também foi recuperado. As pessoas que circulam ao redor do Mercado Municipal durante a semana aproveitam para uma parada obrigatória na bica. “A primeira vez que vim aqui devia ter uns 6 anos. Estava com minha mãe num dia de feira”, conta Claudemir Rodrigues, 26 anos. A Bica do Bugre está instalada na Avenida Juca Esteves, próxima ao Mercado.


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História da Cidade

Daqui para o mundo, o Fotos: Rogério Marques

Hebe, Monteiro Lobato, Mazzaropi, Celly Campello e Cid Moreira sob a ótica de quem conviveu, conheceu ou sabe um pouquinho sobre esses ilustres filhos de Taubaté

* Por Kelma Jucá

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genuína história de uma cidade é construída essencialmente por seu povo. São as pessoas que transformam fatos do passado em memórias saudosistas. E o que faz a gente de uma cidade pode ser revelado em livros, registrado em documentos e descoberto em jornais antigos – e inspirar futuros filhos da terra. Taubaté é um celeiro de personagens ilustres. Nascidos ou criados na cidade, são homens e mulheres cujo talento atravessou os limites do Vale do Paraíba e alcançou a admiração bem longe daqui. Cid Moreira, Hebe Camargo, Celly Campello, Monteiro Lobato e Amácio Mazzaropi são alguns dos nomes mais conhecidos que nasceram ou se criaram em Taubaté e fazem parte da história da cidade.

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Jorge Monteiro, 59 anos, lembra dos tempos em que trabalhou com Mazzaropi


os famosos de Taubaté Cid Moreira, o ‘boa noite’ mais famoso do Brasil Cid Moreira morava na Rua Barão da Pedra Negra, no centro de Taubaté, quando pediu um estágio para o herdeiro da rádio Difusora e amigo Emílio Amadei Beringhs Filho. E ele conseguiu, só não esperava que um mal entendido fosse mudar o rumo de sua trajetória profissional. “Como estudava contabilidade, ele acreditava que o estágio fosse na área. Mas acabou se tornando locutor”, explica a jornalista Fernanda Guerra, que escreveu um perfil sobre Cid Moreira, em 2009. Publicado no livro “Jornalistas do Vale do Paraíba: experiência e memória”, do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Comunicação da Universidade de Taubaté, o capítulo “Cid Moreira: a voz de ouro da notícia” traça o início da carreira do jornalista até o seu projeto pessoal daquele momento e que lhe absorvia por inteiro: a gravação da Bíblia. “Ele falava que esse trabalho [gravar a Bíblia na íntegra] era o projeto da vida dele”. Fernanda conta que o taubateano sempre se referia com muito carinho e respeito à cidade. “A primeira coisa que me surpreendeu nele foi realmente a voz. Ouvir do outro lado da linha do telefone um ‘bom dia’ de quem você cresceu ouvindo ‘boa noite’ no Jornal Nacional é, no mínimo, estranho e diferente. Ele é um ícone da TV”, admite.

Celly Campello, a bonequinha que canta Trazida com apenas 5 dias de vida de São Paulo, Célia Benelli Campello (1942-2003) não imaginaria, mais tarde, que a fama e o sucesso lhe fariam adotar o nome Celly Campello. E tudo começou na inocente intenção de ajudar o irmão Sergio, mais conhecido como Tony, a completar um disco de 78 rotações. “Em São Paulo, ele disse para o pessoal da gravadora que tinha uma irmã que morava em Taubaté e gostava de cantar”, lembra o outro irmão da dupla, o empresário Nelson Campello, 76 anos. Para preencher a faixa que faltava no LP, a jovem de apenas 15 anos de idade gravou a música “Handsome Boy”. E foi com surpresa que a família recebeu a visita de toda a di-

reção da gravadora Odeon na casa de número 30, da Praça Santa Terezinha. “Ouvimos a música, pela primeira vez, na nossa vitrola. E, naquele dia, Celly teve seu contrato assinado”, conta. O sucesso veio rápido. E o país conheceu Tony e Celly. A dupla encantou multidões de 1958 a 1962. O carro da família, na época um Ford Taunus branco, ganhou o apelido de Cupido em referência ao hit “Estúpido Cupido”. Na dupla, Celly acabou se destacando. Segundo o irmão mais velho, Celly nunca se empolgou com a fama. Sua verdadeira vocação era a vida doméstica e cuidar da família. Quando casou, em maio de 1962, deixou por conta própria a carreira de artista.

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Lobato e Mazzaropi: entre livros e filmes, o imaginário popular

Hebe Camargo, a dama da TV brasileira

Além da ligação com Taubaté, um elemento importante une as obras de Monteiro Lobato (1882-1948) e de Amácio Mazzaropi (1912-1981): a figura do caipira. E foi embasado na relação deles com essa figura do matuto da roça que Luzimar Goulart Gouvêa escreveu o livro “Monteiro Lobato e Mazzaropi e o Imaginário Caipira”, publicado neste ano pela editora Casa Cultura. Resultado de sua pesquisa de mestrado pela Unicamp (Universidade de Campinas), Luzimar Gôuvea analisa o papel tanto do escritor como do cineasta na construção da imagem do caipira e revela diferenças na abordagem de seus criadores. O pesquisador conta que ambos possuem vínculos diferentes com a cidade e isso acaba por se refletir no trabalho e na obra de cada um. “Monteiro Lobato ficou pouco tempo em Taubaté e teve formação em São Paulo e até fora do país. Daí, a obra dele não dialoga com a cidade, mas com o Brasil. Ele discutia questões nacionais, não locais. Mazzaropi veio para Taubaté criança e depois de deixar a cidade, volta e monta um polo de cinema mo-

Hebe Camargo (1929-2012) morou pouco tempo em Taubaté. Viveu com a família numa casa na região central, na Rua Barão da Pedra Negra, mas ainda adolescente foi para São Paulo. Filha de um músico, que dá nome ao conservatório da cidade – a Escola de Música, Artes Plásticas e Cênicas Maestro Fêgo Camargo –, gostava de dizer que era acordada ao som do violino do pai, na porta de seu quarto. Talentoso, Fêgo Camargo dava aulas de violino na cidade. “Foi o pai de Hebe que fundou o coral da nossa catedral. E sabemos que, no início, ela também participava junto com Fêgo”, conta o padre Marco Jacob, da catedral São Francisco das Chagas, instalada na Praça Dom Epaminondas. “Desde pequena, Hebe acompanhava o pai em apresentações na rádio Difusora. Mais tarde, também passou a acompanhá-lo em bares à noite”, disse o radialista Renato Feres Junior, 58 anos. Para a fama de que não gostava de Taubaté, Renato tem uma explicação: “Depois que foi para São Paulo, as rádios locais convidaram muito a

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derno que se relaciona com Taubaté. O caipira de Mazzaropi é, sim, inspirado no Vale do Paraíba”, define. Jorge Lucio Monteiro, 59 anos, lembra com carinho dos tempos em que trabalhou com Mazzaropi. Durante as gravações do filme “Um caipira em Bariloche”, de 1973, Jorge Figureiro, como é mais conhecido, tinha apenas 19 anos. Mas ele se recorda, entre risos, da casa de barro cenográfica que ajudou a construir. Para espanto de Seu Jorge Figureiro, a casa foi usada como um paiol que explode no fim do filme. “Mazza era um gênio. Fazia bons filmes com pouco dinheiro. A maioria dos atores era gente da fazenda dele e das redondezas.” Quando soube da morte de Mazzaropi, ficou emocionado e chorou. “Ele era divertido e talentoso.”

Hebe para entrevistas. Como devia ter uma vida corrida com muitos compromissos, ele nunca veio. Aliado a isso, quando dava entrevistas para outras rádios ela não tinha o hábito de falar que era de Taubaté. Daí, criou-se esse mito de que Hebe não gostava da cidade, o que não é verdade.” Um filme que pretende contar a vida da famosa taubateana, inclusive com possíveis gravações locais, terá a direção do cineasta Cacá Diegues. Em nota, a produtora carioca Luz Mágica informou que a película ainda não tem roteiro e que deve ser rodada em 2015. Atualmente, um jovem de 27 anos ajuda a preservar parte da história de Hebe na internet. Com o nome da artista, ele mantém uma página no facebook com uma média de 12 mil seguidores.


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Eles dão vida à imaginação Um lugar em que boneca de pano fala e sabugo de milho é gente. Popularmente conhecido como Sítio do Pica-Pau Amarelo, o Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato recebe em média 178 mil visitantes por ano em Taubaté. No acervo, constam objetos pessoais do escritor, peças antigas que retratam a história da cidade, aquarelas pintadas pelo próprio Lobato, além de uma biblioteca com livros infanto-juvenis. Instalado na chácara que pertencia à família Lobato, o museu conta com um vasto espaço ao ar livre e uma famosa jaqueira de 200 anos. Entre os destaques da casa estão os personagens infantis de Monteiro Lobato, interpretados por jovens atores da região. O elenco é composto por duas equipes que se revezam nos períodos da manhã e da tarde e, também, nos finais de semana. »»Emília Tímida, Amanda Pereira, 23 anos, faz a Emília. “Existe uma Amanda antes e uma depois da Emília. Eu sou muito quieta e, como atriz, o meu trabalho é muito grande nesse sentido, mas a personagem me fez enxergar que eu sou maior do que pensava e que existe muito mais dentro de mim”, conta. Amanda fala que de tanto que passa o dia como Emília (seis horas diárias no museu), às vezes, sai do lugar com a voz da personagem e, quase sempre, percebe-se com algum vestígio de maquiagem no rosto. Aliás, toda a montagem da boneca de pano acontece em 10 minutos, do figurino à maquiagem até a peruca. “A Emília é como se fosse uma válvula de escape. É muito bom dar voz à ela.” »»Visconde “A nossa atuação não é apenas no palco. Se ando até uma estátua da casa, ando como se fosse Visconde”, revela Murilo Paparelli, de 18 anos, responsável por dar vida ao Visconde de Sabugosa. Estudante de Publicidade, Murilo se divide entre a faculdade, o 30 + taubaté | dezembro de 2013

Fotos: Rogério Marques

Os personagens do Sítio caracterizados --abaixo, os jovens estudantes que os interpretam; à direira, Luzimar Gouvêa, autor que compara Lobato e Mazzaropi

curso de teatro e o estágio no museu. “Quando estou aqui vivo a vida do personagem.” »»Narizinho O cabelo é dela mesmo e o rosto aparece quase que ao natural. Mas quando está ali na casa que pertenceu à família de Lobato, Bárbara Maria Rezende, 19 anos, passa a se chamar Narizinho. “É uma responsabilidade que você carrega. Um dia, saímos juntos daqui e fomos fazer um lanche e no lugar havia algumas pessoas que tinham acabado de passar no museu. Daí, uma menina de uns 6 anos me viu e espantada me disse: Narizinho, é você?” Entre os momentos marcantes, a atriz recorda de quando um grupo de adolescentes, em excursão, foi visitar a casa. “Uma das meninas começou a

chorar quando abraçou a Emília e os outros personagens.” »»Anastácia Maelly Sammay, 22 anos, não é negra, mas já sentiu na pele o preconceito da cor. “Teve uma família que cumprimentou todos os personagens, menos a mim. Mas a bebê de um ano no carrinho só queria saber de mim, estendo os bracinhos. Daí, eu a peguei e a mãe e a avó ficaram pasmas olhando a cena. Ficou claro: uma criança pequena deu uma lição para as duas mulheres”, conta a atriz que faz Tia Anastácia. Da união do grupo, formou-se uma família dentro e fora da grande chácara. “Somos uma família que briga e que se entende. Quando saímos daqui, nós nos chamamos carinhosamente pelos nomes dos personagens.”


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Foto: Rogério Marques

Gosto da Cidade

Qual o gostinho que te faz lembrar Taubaté?

Na culinária, um pouco de história e tradição: desde os bandeirantes, quirerinha com costela de porco é o prato mais tradicional

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* Por Kelma Jucá

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uando teve sua primeira experiência na cozinha, aos 13 anos, Elisa Surnin Saes não imaginaria que se tornaria referência na culinária de Taubaté. Descendente de italianos, orgulha-se em contar que a bisavó materna foi a primeira professora de italiano dos filhos de imigrantes, nos idos de 1889. Hoje, aos 64 anos, o seu nome virou sinônimo de boa comida. Ela é proprietária do Restaurante Cultural Casa da Elisa, localizado em Quiririm, distrito da cidade. Apaixonada pela arte gastronômica, fez por conta própria uma pesquisa, em 2006, sobre as comidas tradicionais de Taubaté. “O objetivo era preservar a nossa cultura.” Em quatro meses, Elisa fez um verdadeiro estudo de campo e foi ao encontro das pessoas mais antigas da cidade e que viveram na roça. “Conversei com muita gente com mais de 90 anos. A minha preocupação era resgatar junto a essas pessoas parte de nossa riqueza gastronômica”, relata.

E o resultado é uma coleção de histórias gostosas ao sabor da memória dos mais de 100 entrevistados de Elisa. Durante a pesquisa, uma surpresa: todos citaram a quirerinha de milho com costelinha de porco. E ele foi eleito o prato mais lembrado pelas pessoas mais velhas da cidade, ou seja, o prato tradicional de Taubaté. “A pesquisa comprovou que os pratos típicos da cidade são aqueles dos tropeiros, dos bandeirantes. Quando eles passavam por aqui com suas mulas, eles carregavam apenas uma panela para cozinhar a comida. Então, eles aproveitavam o milho – porque em cada parada que faziam já tinham o milho que haviam plantando da parada anterior, um costume deles – e o porco, que era do mato mesmo. Cozinhavam tudo de uma vez e estava pronta a comida”, esclarece Elisa. Naturalmente, a receita ganhou elementos de sofisticação e foi se aprimorando com o tempo. Mas os ingredientes principais se mantêm como patrimônio de Taubaté.

A pesquisa comprovou que os pratos típicos da cidade são aqueles dos tropeiros, dos bandeirantes Elisa Saes Dona do restaurante

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Fotos: Rogério Marques

Onde Fica Restaurante Cultural Casa da Elisa Rua Virgílio Valério, 57, Quiririm, Taubaté Telefone: (12) 997720294 Horário de funcionamento: Sexta, sábado, domingo e segunda, das 11h30min às 15h Outros dias da semana podem ser reservados

A costelinha é acrescentada à quirerinha depois de bem frita no óleo quente

No restaurante, bem mais que comida: também muita história para contar

Sabor e história num só lugar O Restaurante Cultural Casa da Elisa abriga um pequeno museu. São artigos de família que ajudam a contar a história de uma época, como: livros históricos, diário de um agricultor fugido da guerra na Rússia, cartas manuscritas da década de 1920 e de 1930, 1.500 LPs originais que podem ser ouvidos no espaço, livros de receitas do final do século 19 e início do século 20, fita de casamento da década de 1940. Uma curiosidade da casa é a possibilidade que o visitante/cliente 34 + taubaté | dezembro de 2013

tem de enviar uma carta para si mesmo. Elisa envia para o destinatário no período que ele indicar, geralmente, uma média de 6 meses a um ano, com o objetivo de uma autoavaliação. A ideia é que a pessoa escreva os planos e os projetos que pretende realizar até receber a sua própria carta. As receitas, as cartas e os livros antigos podem ser utilizados como fonte de pesquisa para estudos. Para isso, é necessário fazer um agendamento por telefone.

A Receita Quirerinha de milho com costelinha de porco Ingredientes: 200 gramas de quirerinha de milho 1 quilo de costelinha de porco com osso, temperada com sal, alho e limão ½ concha de banha de porco derretida ou óleo de soja 5 dentes de alho amassados 1 cebola picadinha 1 tomate picadinho 2 folhas de louro 1 pitada de pimenta do reino Salsinha e cebolinha picadas   Modo de preparo: Lave a quirera e dê uma fervida para começar a amolecer. Desligue o fogo. Pegue uma panela e coloque a banha. Acrescente a costelinha e frite até corar. Acrescente o alho e deixe dourar. Adicione a cebola e frite até ficar transparente. Adicione o tomate, o louro, a pimenta do reino e o sal. Acrescente a quirerinha pré-cozida e mexa. Vá adicionando água quente, até ficar cozida a gosto. Prove o sal e os temperos. Acerte, se necessário. Sirva em um prato onde se colocou previamente uma boa concha de feijão bem quente. Rendimento: 5 porções Tempo de preparo: 40 minutos


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Foto: Rogério Marques

Minha Cidade

Cada cantinho, uma história! Qual é o seu preferido? 36 + taubaté | dezembro de 2013


Taubateanos, de sangue e de coração, revelam quais são os seus lugares preferidos na cidade nestes 368 anos de história Foto: Rogério Marques

O Mirante do Quiririm, um dos lugares mais bonitos da cidade

* Por Kelma Jucá

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ada cantinho, uma história. Verde, asfalto e rua de paralelepípedos. Praças, parques e vista para a serra. A cor e o cheiro de frutas e verduras da estação. Gente que ainda compra arroz e feijão a granel. Pessoas com sotaque próprio. Plantas que dão sombra e frutos para os transeuntes. Amizades que se constroem ao ar livre. Taubaté tem tudo isso e muito mais. Para tentar descobrir lugares diferentes e com significado afetivo para os moradores, a revista +Taubaté conversou com quatro moradores. Nesse passeio, eles nos apresentam seus lugares preferidos na cidade: o mirante do Quiririm e sua visão panorâmica, o eterno Mercadão, quase um personagem com vida própria, uma pista de skate que reúne gente de toda idade e aquilo que podemos chamar de um minireflorestamento, do ladinho da Dutra.

Se eu não tiver nada para fazer aqui, venho nem que seja para prosear. Isso aqui é uma beleza Benedito dos Santos Sobre o Mercadão

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Foto: Rogério Marques

O cantinho do Seu Dito

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nome dele é Benedito Moreira dos Santos, mas atende pelo nome de Seu Dito. O aposentado de 69 anos é nascido em Natividade da Serra, mas mora em Taubaté desde 1974. “Já sou mais daqui”, conta. Gosta do Mercado Municipal, o Mercadão, porque diz encontrar de tudo. “Não venho todo dia, mas sempre que posso. Pelo menos, uma vez por semana é sagrado”, revela. E ele passa pelos comerciantes das bancas e dos boxes e cumprimenta a todos. Fica a impressão de que não se recorda do nome de todos, mas os feirantes, por sua vez, já vão logo falando de forma amistosa: “Seu Dito! Como está? Vai virar deputado, conversando com o jornal?”, brinca um deles. “Seu Dito vai ser candidato a vereador!”, retruca outro. Com sua simpatia e animação, Seu Dito entra na brincadeira: “Opa! Virei importante!” Casado há 49 anos, é pai de 5 filhos, avô de 11 netos e de 2 bisnetos. Quando conclui a conta dos entes queridos, fala: “Acho que é isso.” Enquanto os dedos da mão lhe ajudam na esta-

O Mercadão Saiba mais: foi fundado em 1860. Possui 701 feirantes. Durante a semana, tem um fluxo médio de 8.000 a 10 mil pessoas. No final de semana, 30 mil pessoas chegam a passar pelo lugar Endereço: Praça Dr. Paula de Toledo, 50, centro Horário de funcionamento: De segunda a sexta, das 7h às 17h Aos sábados, das 6h às 14h Nos domingos e feriados, das 6h às 13h u 38 + taubaté | dezembro de 2013

tística familiar, passa uma moça por trás que, apressada, esbarra nele. “Opa! Mas nem buzina?”, fala gargalhando. Enquanto caminha, carrega duas sacolas, uma com frango a passarinho e outra com pés de frango. “Não tem nada meu. É tudo encomenda do pessoal do bairro”, conta. Como mora no bairro Belém, afastado da região central da cidade, os vizinhos aproveitam a “viagem” de Seu Dito que sempre marca ponto no Mercadão e lhe pedem a gentileza de comprar o que precisam. No passeio pelo mercado, gasta em média uma hora até cumprimentar todos os conhecidos. Nunca deixa de passar na banca de um amigo querido, o Geraldo Quirino dos Santos, de 73 anos. Lá, faz uma rápida pausa para seguir novamente seu caminho pelos corredores coloridos de frutas e de verduras do Mercadão. “Se eu não tiver nada pra fazer aqui eu venho nem que seja só pra prosear. Isso aqui é uma beleza!”, fala enquanto acena para mais um conhecido qualquer na banca ao lado.


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irante do Quiririm. É para lá que o músico e jornalista Marcelo Theo, 44 anos, se refugia quando quer um pouco de sossego. “Eu curto esse lugar por causa da visão panorâmica para a Serra da Mantiqueira. Daqui também dá para ver a várzea de arroz e o rio Paraíba.” Um dos hobbys de Theo é a fotografia. Como frequenta o mirante há 20 anos, tem imagens desde a época da foto analógica. Quando usa uma lente objetiva, garante que consegue fazer fotos de cavalos e de aves distantes. Aproveita a luz nos diferentes horários: manhã, tarde e noite. “A cada dia, a Serra da Mantiqueira está com uma cor diferente e quando a várzea está cheia de água para plantação dá para ver o reflexo do céu nela. Tenho mais de 1.000 fotos tiradas daqui”, revela. Em meio ao caos urbano, o espaço é para Theo um canto para meditação. “Além de ter uma paisagem bucólica que me ajuda a desligar da cidade, o mirante do Quiririm tem um valor histórico, pois marca o início da colonização italiana em Taubaté. Como morei um tempo na Itália, adoro vir aqui e puxar na memória o que vivi lá”, explica. Sempre que retorna do mirante, Theo sente que volta renovado para casa. Como músico, a beleza deslumbrante do lugar já lhe deu inspiração para compor uma canção.

O Mirante

Foto: Rogério Marques

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A paisagem de Theo

Saiba mais: possui o nome oficial de Belvedere Dona Valentina e Seu Joanin em homenagem aos imigrantes italianos Onde: é aberto ao público e está localizado na Praça Antônio Naldi, 50, Quiririm u

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A pista de Danilo

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le começou a andar de skate aos 25 anos. Num primeiro momento, a intenção era apenas acompanhar um amigo, de 40 anos, e fazer fotos. Depois, não teve jeito. De tanto registrar as manobras radicais quis também experimentar a sensação de estar nas alturas. Passados dois anos, o publicitário Danilo Monteiro elege a pista de skate do Parque Jardim das Nações como seu lugar preferido. “É o único momento em que consigo me libertar de tudo. As pessoas reclamam porque ninguém consegue me achar quando estou aqui. Mas não trago nenhum eletrônico ou aparelho celular. Eu me desligo”, conta. Em julho deste ano, teve a ideia de reformar a pista e colocar um pouco de arte no reduto. Conversou com uns

Fotos: Rogério Marques

amigos talentosos e, num sábado de sol, oito pessoas se revezaram e pintaram a imagem de um enorme dragão no mar. “Ele ficou meio psicodélico. Como a pista é num formato de piscina californiana, parece mesmo que o dragão está surfando. A turma gostou bastante”, entusiasma-se. Os gastos com a obra de arte saíram dos bolsos dos próprios skatistas, que se mostram organizados. Anualmente, eles montam um campeonato em que pessoas de todo o Vale e até de fora vêm participar. “Demos o nome de Garden in tha house [com tha mesmo]. No dia, o campeonato deve fazer circular umas 1.000 pessoas entre participantes, curiosos e gente que vem só para assistir e apoiar a causa”, explica. Quando Danilo e os amigos combi-

O ‘floresta’ do Seu Gouvêa

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om 62 anos, o aposentado José Epaminondas Gouvêa, o Seu Gouvêa, aproveita bem o tempo livre. Ele cuida das mais de 100 árvores que plantou nos últimos 10 anos ao lado da Dutra, mais precisamente na Avenida Bandeirantes, no Jardim Maria Augusta. “Ao todo, são 160 plantas. Destas, eu plantei 140 e sei dizer exatamente quais são. As outras foram conhecidos.” Seu Gouvêa desenha num papel exatamente o que e onde vai plantar para só depois abrir a terra para receber uma nova muda. Organizadas em duas fileiras, que gosta de chamar de pistas, as árvores foram plantadas a sete passos uma da outra. São espécies de médio e grande portes, nativas e frutíferas, como: amora, graviola, acerola, bananeira, jambo e ipê, entre outras. Num trecho, localizado em frente ao bar de um amigo, o bar do Zé da Bica, ele fez o que chama de bosque, fugindo do seu padrão de mu-

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nam um ‘rolê’ na pista, costumam falar que vão se encontrar no Garden, como é chamado o lugar pelos frequentadores. E eles têm várias idades. “A maioria tem uns 25 anos, mas tem gente de 40 e de 50 anos também. A molecada usa a pista o dia inteiro, com sol e tudo.” Danilo gosta de usar a pista quase que diariamente. Aí, aproveita para relaxar depois de um dia de trabalho e esquecer dos problemas. “A adrenalina sobe. Você sente medo porque é um esporte de risco, mas ao mesmo tempo você quer enfrentá-lo e dominá-lo.”

das enfileiradas. “Nos anos de 1960, quando conheci, isso aqui era tudo mato. Lembro que tinha uma bica d´água que hoje está desativada. Onde temos um campo de futebol, por exemplo, era uma região de brejo. Foi para resgatar o que guardo na minha memória desse tempo e para dar mais qualidade ao nosso meio ambiente que resolvi plantar a primeira muda”, explica. O carinho com que se dedica às plantas acaba por contagiar as pessoas ao redor, que lhe doam sementes, mudas e adubo. Seu Gouvêa vai, quase que diariamente, ao lugar que fica a menos de cinco minutos de caminhada da sua casa. Criado na roça, Seu Gouvêa tem o sonho de ver mais verde na cidade. “Imagine se cada morador tivesse o compromisso de plantar uma árvore de porte pequeno na frente de sua casa. Seria maravilhoso.”


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TCC: muita história nas paredes de um clube Ponto de encontro da elite taubateana no passado, clube hoje mantém glória e tenta se adequar às modernidades * Por Kelma Jucá

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s paredes do Taubaté Country Club, ou simplesmente TCC, guardam lembranças de um tempo em que a cidade era considerada a capital do Vale. Símbolo de tradição, o clube foi o cenário dos principais eventos da elite taubateana a partir da primeira metade do século 20. Inaugurado em 1938, o TCC se tor-

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Foto: Rogério Marques

Minha Cidade

nou dali em diante na nova sede da sociedade taubateana. O endereço nobre, rua Conselheiro Moreira de Barros, era contornado por imensas palmeiras imperiais, daí o antigo nome rua das Palmeiras. “Muitos chamavam o TCC como o fidalgo clube da rua das Palmeiras”, rememora um dos conselheiros do clube, Horton Cunha, 70 anos. “O clube foi fundado em 1936, e o objetivo era que fosse construído às margens da Estrada de Rodagem. Mas pela dificuldade de transporte na época, optou-se pelo atual endereço”, diz o presidente Pedro Luiz de Abreu, 59 anos. Os esportes marcaram os primeiros anos do TCC. “O nosso futsal se transformou numa das maiores forças

do Estado”, relembra Mario Celso Castilho, 74 anos, jogador da época. »»Shows Em 1965, o clube trouxe num único show Roberto Carlos, Wanderléia e Erasmo Carlos. “A entrada triunfal dos três se deu na porta dos fundos. Lembro deles passarem por um corredor e de ver Roberto Carlos com um cachimbo na boca. Essa foi a primeira vez que eles estiveram em Taubaté”, conta Horton Cunha. Muitos casais também namoraram nos bailes do TCC, como o governador Geraldo Alckmin e sua mulher Lu Alckmin, quando ele frequentava a cidade por conta da faculdade de medicina na Unitau.


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Fotos: Rogério Marques

Futuro da Cidade

Indústria e comércio mantêm economia forte Especialista prevê próxima década de franco crescimento, mas alerta: qualidade de vida precisa melhorar * Por Kelma Jucá

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esde os tempos dos bandeirantes, Taubaté soube usar como moeda de valor a sua localização privilegiada no eixo Rio-São Paulo. Ainda conserva hábitos e costumes de cidade interiorana, mas sabe bem como manter-se em desenvolvimento. “Na última década, Taubaté teve significativo crescimento na sua atividade econômica acompanhando uma tendência que é nacional. Para a cidade, esse bom momento pode ser atribuído principalmente a dois setores, à indústria automobilística e à construção civil”, analisa o professor e economista da Universidade de Taubaté, Edson Trajano. Hoje, Taubaté é um expoente da indústria automobilística no país, abrigando, além de duas montadoras, Ford

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e Volkswagen, empresas vinculadas à sua cadeia produtiva. “A renda gerada pelo setor industrial criou novas demandas de crescimento para a construção civil. Nos últimos dez anos, percebemos os vários prédios que foram construídos em diferentes lugares da cidade”, observa o economista. »»Riqueza Atualmente, Taubaté conta com 25 mil empresas, segundo o Empresômetro do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. E a expectativa segue positiva para o setor. “Eu acredito que Taubaté seja a cidade no Vale que mais irá crescer nos próximos 10 anos”, afirma a presidente da Acit (Associação Comercial e Industrial de Taubaté), Sandra Teixeira. Com empresas como LG, Daruma,

Edson Trajano, da Unitau, fala sobre a economia de Taubaté

Alstom, Usiminas e Embraer, entre outras, Taubaté é o segundo maior polo comercial e industrial de uma região classificada entre as mais ricas do país. »»Qualidade de vida Uma cidade universitária atrai pessoas de fora, que movimentam o setor imobiliário e aquecem o comércio local. Uma cidade industrial gera empregos, que fazem com que o dinheiro circule e também aqueça o comércio. No entanto, o crescimento econômico isolado não basta --precisa impactar positivamente na vida da população. “É importante que a alta na atividade econômica resulte em qualidade de vida. Isso está acontecendo, porém de forma lenta, até porque quando a cidade cresce também aumentam as suas demandas sociais”, alerta o economista Edson Trajano. “Precisamos resgatar Taubaté como grande cidade do Vale e isso passa, inevitavelmente, pela discussão da Região Metropolitana, que está parada. Cabe a cidades como Taubaté e São José liberarem esse projeto”, conclui.


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Vida na Cidade

Arquitetos e estudantes dão suas sugestões para melhorar o planejamento urbano e solucionar um dos maiores gargalos de Taubaté

Fotos: Rogério Marques

: o t i s Trân

como planejar o do s o rc a m re t n e ro u t fu ades passado e necessid do presente

* Por Kelma Jucá

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s motoristas que utilizam a avenida 9 de Julho, no centro de Taubaté, no horário do almoço, precisam levar na bagagem uma boa dose de paciência. No rush, vê-se de uma ponta a outra um mar de carros enfileirados – cada um aguardando a sua vez de seguir adiante. A situação não é muito diferente para quem passa no entorno da tradicional Praça Santa Terezinha a partir das 18h. E vice-versa. Com quase quatro séculos, Taubaté é uma cidade como tantas outras. Convive com os impasses entre o desenvolvimento urbano e a preservação de seu centro histórico. Caracterizada por ruas e calçadas estreitas, a cidade mantém o seu desenho original, traçado para o tráfego de carroças e de cavalos. Algumas calçadas que hoje mal permitem que caminhe uma pessoa não foram planejadas para pedestres. Elas cumpriam o objetivo de proteger os antigos casarões das chuvas. Esse contexto foi lentamente alterado pelo progresso e pela industrialização. Ano após ano, carros, motos e ônibus começaram a ser inseridos neste espaço. Enquanto a cidade tinha

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O professor Edésio Santos, 49 anos, só sai de casa em sua bicicleta elétrica

um número reduzido de automóveis, os taubateanos foram aos poucos se adaptando à nova realidade. Hoje, a cidade conta com uma frota de 182.757 veículos, segundo o Denatran, para uma população estimada de 296.431 habitantes –média de 1,6 carro por pessoa –, mas as vias da região central continuam as mesmas. “A solução para o centro seria priorizar o pedestre e o trânsito local. Os carros não podem mais usar aquela região como passagem. O ideal seria transformar algumas ruas em calçadões de modo a privilegiar o pedestre”, explica o professor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Taubaté, Flávio Mourão. Para desafogar o trânsito da área do centro, uma medida importante seria não privilegiar mais o carro. Em paralelo, outra providência para desinchar o fluxo local seria adotar aquilo que o arquiteto chama de visão sistê-

Flávio Mourão com grupo de alunos debate soluções para o trânsito


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mica. “Resolver o problema do trânsito envolve pensarmos nas diferentes formas de transporte, como o automóvel, o ônibus e o trem. Mesmo quando eu retiro o carro do centro, é preciso oferecer alternativas para que as pessoas cheguem rapidamente sem depender do carro”, afirma o especialista. Se planejada, uma saída inteligente também seria usar a estrutura ferroviária que já existe. “A solução do problema é multimodal, precisamos ter vários meios de transporte e todos funcionando bem. Um carro transporta em média duas pessoas, um ônibus 80 e um trem 1.800.” Com atuação de mais de três décadas na área, o arquiteto Manoel Carlos de Carvalho chama a atenção para as intervenções porque a cidade está passando e antecipa que o objetivo é a criação de um anel viário. “Nos últimos dez anos, a cidade se desenvolveu mais no sentido físico, não no sentido organizacional. E é preciso que se trabalhe sempre à frente do problema”, disse.

»»Alternativas Se a solução para o trânsito na região central precisa de planejamento de governo, o cidadão comum pode fazer a sua parte no dia a dia. Edésio Santos, 49 anos, é professor universitário e há quatro anos circula pela cidade com sua bicicleta elétrica. “Eu tenho mobilidade porque ando muito mais rápido na hora do rush quando os carros ficam parados e ajudo o meio ambiente porque minha bike não polui, além de ser silenciosa”, diz. Já quem costuma usar a Dutra também pode dar sua parcela de contribuição. No Facebook, o grupo “Caronas Taubaté” conta com quase 1.200 membros que divulgam caronas entre si para São Paulo, Campinas e até cidades de Minas Gerais e Rio de Janeiro. “Não existe uma cobrança pela carona. Cada um usa o seu bom senso e, em geral, as pessoas dão uma ajuda de custo para o motorista da vez”, explica o designer Artur Montenegro, 27 anos, um dos colaboradores e co-fundadores do grupo. Foto: Rogério Marques

No centro, está o maior ‘gargalo’ do trânsito, com ruas estreitas

Trabalho propõe melhorias Em 2009, a então graduanda em arquitetura e urbanismo pela Unitau Pollyanne de Fátima Brunelli Ribeiro realizou como trabalho de conclusão de curso um estudo sobre o centro de Taubaté sob a orientação do professor Flávio Mourão. O estudo ‘Conjunto Ideal: Requalificação da área central da cidade de Taubaté’ propõe soluções como as seguintes alterações entre as ruas Voluntário Penna Ramos e Jacques Félix, extremos do centro com valores histórico e cultural para a cidade: l Criação de um novo desenho para as quadras e interligação das mesmas por meio dos miolos de quadra, buscando um eixo de passagem que possibilite várias atividades comerciais, como lotes de duas fachadas, criação de bulevares e ruas cobertas l Transformação das 16 quadras iniciais da cidade em 6 novas quadras, totalmente pensadas para o pedestre. A mudança deveria ser trabalhada juntamente com uma nova proposta viária l Para evitar o desperdício de espaço gerado pela ocupação de estacionamentos, uma solução seria realocá-los de forma subterrânea, com entradas em locais estratégicos dos quarteirões l Criação de um sistema viário onde o motorista não se veja obrigado a atravessar o centro para chegar a seu destino. Para isso, criar-se-ia uma espécie de anel viário ao redor das super-quadras, com eventuais bifurcações l Nesse anel seria permitida apenas a circulação de carros e vans. Assim, mudar-se-ia as direções das seguintes vias: Jacques Félix, Rua Chiquinha de Matos e Rua Carneiro de Souza l As ruas seriam diminuídas para a largura de 3,5m, para dar segurança ao pedestre com mais espaços nas calçadas, além de acarretar na diminuição da velocidade do veículo

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l As quadras quanto ao uso, seriam direcionadas a terem atividades que mais condissessem com seu entorno. Assim, surgiriam “quadras temáticas”, onde os usos dos lotes seriam reorganizados, restabelecendo uma lógica e possibilitando uma vida noturna ao local


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