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como a avaliação económica, qualidade, segurança, informação, por exemplo, além de consolidarem, através da prática, os conhecimentos adquiridos durante o Mestrado Integrado. Apenas, deste modo, se poderá garantir a renovação do quadro de farmacêuticos no SNS e uma melhor organização e planeamento dos recursos farmacêuticos nas diferentes unidades hospitalares, mas também a nível nacional.

“Todos estes fatores contribuíram para um crescimento notório do número de farmacêuticos que saíram do País para exercer a profissão. É uma realidade com que atualmente somos confrontados.” OP: Olhando para a perspetiva internacional verificamos que existem países onde o farmacêutico clínico tem uma importância preponderante. Do seu ponto de vista, quais os motivos para o mesmo não se verificar tanto em Portugal? AM: O modelo de farmácia em Portugal é uma referência em termos internacionais, quer pela própria infraestrutura da farmácia (espaço, informatização, robótica), quer pelo elevado leque de serviços que já são prestados. Temos no nosso País alguns bons exemplos de programas de cuidados farmacêuticos que são extremamente valorizados pela população. No entanto, reconheço que em determinados países, como a Austrália ou o Canadá, por exemplo, a componente clínica da intervenção farmacêutica assume outra dimensão, muito por causa de um maior aproveitamento dos serviços assistenciais disponibilizados nas farmácias e da sua integração nos respetivos sistemas de saúde. Admito também que ao nível da formação graduada, durante o Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, a componente clínica do exercício profissional farmacêutico não corresponde ao que hoje a sociedade espera da profissão. Este desfasamento está perfeitamente identificado e é reconhecido pelos responsáveis das faculdades que lecionam o curso. A OF vai impulsionar este trabalho através da Plataforma Ensino-Profissão, cujos

trabalhos serão coordenados pela professora Margarida Caramona, e que tem como objetivo iniciar um conjunto de alterações no ensino de Ciências Farmacêuticas em que sejam valorizadas matérias eminentemente clínicas.

OP: Há estudantes que no final do curso ponderam emigrar. De que forma se poderá reverter a situação? AM: Nos últimos anos, a profissão foi confrontada com fenómenos até então desconhecidos. Falo de despedimentos, desemprego, insolvências, penhoras, fornecimentos suspensos, etc. Tem sido, de facto, um período difícil, mas cuja pior fase, acredito, já terá sido ultrapassada. Enquanto docente universitária, fui confrontada com alguns casos de alunos finalistas, recém-diplomados e até profissionais já com alguns anos de prática, com dificuldades de inserção no mercado de trabalho, sem perspetivas profissionais no nosso País ou com contratos laborais precários. Todos estes fatores contribuíram para um crescimento notório do número de farmacêuticos que saíram do País para exercer a profissão. É uma realidade com que atualmente somos confrontados. Ora, se por um lado isso constitui um desperdício de um recurso de saúde, depois de anos de investimento público na sua formação e qualificação, quero também acreditar, por outro lado, que estas experiências ajudam ao enriquecimento profissional e que um dia mais tarde, quem sabe, também o nosso País e os portugueses possam beneficiar com o seu regresso à terra natal.

OP: Considerando a presente situação do país, como estimular um espírito empreendedor capaz de criar empresas bem-sucedidas no ramo farmacêutico? AM: As dificuldades económicas e financeiras que os operadores do circuito do medicamento têm vindo a sentir ao longo dos últimos anos tiveram o condão de abrir novos horizontes aos farmacêuticos portugueses. Tal situação levou a um desvio destes profissionais das áreas tradicionais, com escassa oferta de oportunidades de trabalho, para novas áreas de intervenção, cada vez mais

Núcleo de Estudantes de Farmácia da Associação Académica de Coimbra

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17ª Edição  
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