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DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA E MEDICINA LEGAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALLEGRE - ANO 24 • JULHO 2013 • Nº 72

anos

2011

2012

2013

FAZENDO HISTÓRIA Páginas 8 e 9

Despedida: Relatos da Diretoria do CELG Gestão 2011/ 2013 Páginas 3, 5, 6, 7 e 10

Livro “O Ciclo da Vida Humana”:

“Uma Jornada Instigante Por Todas as Fases Pelas Quais o Ser Humano Atravessa Desde a sua Gênese” Página 12

O DSM-5 em Perspectiva Página 11

Psiquiatria & Cultura: “Literatura e Culinária, Entrevista com Betina Cardoso” Página 16


2 ano 24 • julho 2013 • nº 72

Editorial Esta edição do Jornal do CELG nos traz uma alegria e uma tristeza. A alegria vem da sensação de dever cumprido, por ter ao menos iniciado um processo de renovação da maneira que entendemos – e lemos – o nosso querido jornal. Os nossos atentos leitores certamente perceberão as mudanças gráficas e de layout que estamos introduzindo já no exemplar que têm em mãos. Se é que o tem nas mãos, visto que o acesso digital é uma realidade, podendo ser acessado de qualquer computador ou tablet. E isso é só o começo, as mudanças não vão parar por aí. A tristeza é em relação ao final da atual gestão do CELG. O clima é de despedida. Mas uma despedida feliz, há muito o que comemorar, como podemos ler nas colunas das diferentes diretorias do CELG. Na palavra do nosso presidente, que traz na página 3 um resumo da gestão, é salientado que as atividades visaram a formação de gerações de psicoterapeutas de orientação analítica, bem como tornar o centro “um veículo de divulgação da vida plural, diversificada e rica que nosso Departamento possui, que é reconhecida nacional e internacionalmente”. O diretor de Publicações, Claudio Moojen Abuchaim, ressalta na página 10 a obtenção de novos indexadores para a Revista Brasileira de Psicoterapia. O diretor científico, Pedro Magalhães, destaca a concepção do curso de psicofarmacologia, atualização até então muito solicitada pela carência de nosso Estado, na página 7. A diretora de ensino, Carmem Emilia Keidann, explica na página 11 a importância das atividades de educação continuada para a preparação da Jornada do Celg, em 2012, e dos cursos em andamento na casa: o Curso de Especialização em Psicotera-

“Os nossos atentos leitores certamente perceberão as mudanças gráficas e de layout que estamos introduzindo já no exemplar que têm em mãos. Se é que o tem nas mãos, visto que o acesso digital é uma realidade, podendo ser acessado de qualquer computador ou tablet. E isso é só o começo, as mudanças não vão parar por aí”. pia de Orientação Analítica (CEPOA), o Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência (CEPIA) e o curso de extensão em psicoterapia de orientação analítica. Na página 6, o diretor financeiro, Sérgio Louzada, comenta que além de deixar um saldo positivo no balancete, uma das realizações desta diretoria foi a de conseguir remodelar e aperfeiçoar o CELG através da manutenção e melhoria das instalações. O mesmo quadro apresenta a diretora administrativa, Letícia Kipper, que ressalta a qualificação e valorização de funcionários visando estimular o ingresso e permanência de mais associados. Em meio a tantos saldos positivos apresentados pelas diretorias, buscamos inovar nas páginas 8 e 9, através da apresentação de diversos dados desta

gestão no formato de infográfico, um recurso utilizado no jornalismo e na internet para tornar as informações mais claras. O resumo da gestão neste formato evidencia o trabalho realizado por toda a diretoria e funcionários, facilitando o acesso à informação. Ainda nesta edição, apresentamos as tradicionais resenhas de livros e filmes: Cláudia Hilgert nos conta sobre a nova edição do Ciclo da Vida Humana, que dispensa apresentações; e a Gabriela Nuernberg nos recomenda o filme “Aqui é o Meu Lugar”, de Paolo Sorrentino. A entrevista, na seção “Psiquiatria & Cultura” apresenta a culinária como hobby da médica psiquiatra Betina e a união com a literatura e a ciência. Além disso, tivemos a contribuição de Paulo Seixas com um artigo interessantíssimo sobre a relação entre Freud e Maquiavel. Imperdível. Assim como o artigo escrito por Luiz Augusto Paim Rohde sobre as novidades do DSM-5, que foi lançado neste mês. O Jornal do CELG aproveita para dar as boas-vindas à nova gestão da diretoria do CELG, que assumiu no início do mês, presidida pelo Paulo Soares. Desejamos a eles e ao CELG como instituição grandes realizações nos próximos dois anos! Uma boa leitura a todos!

Débora Vigevani Schaf e Thiago Gatti Pianca

Expediente Jornal Centro de Estudos Luis Guedes – Centro de Estudos Luis Guedes Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Cursos de Extensão e Especialização em Psiquiatria e Psicoterapia da UFRGS. Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Rua Ramiro Barcelos, 2.350 - 2º andar - sala 2.218. CEP: 90.035-903. Porto Alegre RS. Telefones: 3330.5655 / 3359.8416 / 3388.8165 Fax: 3388.8165. E-mail: plazambuja@hcpa.ufrgs.br; Site: www.celg.org.br; Rua Ramiro Barcelos, 2350 - 2º andar - sala 2218. CEP: 90.035-903. Porto Alegre - RS. Telefone/Fax: 3388.8165 • DIRETORIA Presidente: Marcelo Pio de Almeida Fleck; Diretor Financeiro: Sérgio Noll Louzada; Diretora Administrativa: Letícia da Cunha Kipper; Diretor Científico: Pedro Vieira da Silva Magalhães; Diretor de Divulgação e Relações com a Comunidade: Thiago Gatti Pianca; Diretor de Publicações: Claudio Moojen Abuchaim (cmabuchaim@terra.com.br); Diretora de Ensino: Carmem Emilia Keidann • ADMINISTRAÇÃO Assistente de Coordenação Administrativa: Patricia Lopes Azambuja (plazambuja@hcpa.ufrgs.br) e secretária da Revista Brasileira de Psicoterapia (rbpsicoterapia@gmail.com); Bibliotecária: Maria Luiza Farias de Campos (mcampos@hcpa.ufrgs.br); Auxiliar Administrativo: Bernardo Beltrame (bbeltrame@hcpa.ufrgs.br); Estagiário: Matheus Grinchpum • Jornal: e-mail: jornal@celg.org.br. Editores do Jornal: Débora Vigevani Schaf e Thiago Gatti Pianca. Projeto Editorial e Jornalistas Responsáveis: Luciele Copetti MTB/RS 15.420 e Thaís Cunha Martini MTB/RS 12.511. Projeto Gráfico e Diagramação: Robson Macedo. jornal centro de estudos luis guedes


ano 24 • julho 2013 • nº 72 3

Palavra do Presidente Caros associados: Estamos concluindo nossa gestão do CELG iniciada em julho de 2011. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a confiança depositada em mim na condição de presidente e meus colegas de diretoria: Pedro Magalhães, Carmem Keidann, Cláudio Abuchaim, Thiago Pianca, Letícia Kipper e Sérgio Louzada. Foram dois anos de trabalho intenso, mas recompensadores. Utilizamos como princípio em nossa administração manter a tradição da missão essencial do CELG. Na carta de fundação do Celg, redigida pelo professor Paulo Vianna Guedes ao então diretor da Faculdade de Medicina UFRGS professor José Carlos Milano, dizia o que segue: “O centro, tal como idealizamos e tal como está efetivamente funcionando, é uma instituição cientifica, destinado ao estudo e à pesquisa dos problemas psiquiátricos e tem, ainda, a finalidade de colaborar com a Cadeira na orientação dos alunos que aspiram estudar ou exercer a Psiquiatria… Desta maneira, a vida funcional do Centro, estará subordinadas às normas e regulamento que regem a vida universitária da nossa Faculdade - que poderá contar, assim, com mais um elemento dinamizador de suas atividades no setor da Psiquiatria”. Assim, procuramos manter o que tradicionalmente o Departamento de Psiquiatria se notabilizou, que foi a formação de gerações de psicoterapeutas de orientação analítica. Mas também ser um veículo de divulgação da vida plural, diversificada e rica que nosso Departamento possui, que é reconhecida nacional e internacionalmente. Dentro desta perspectiva destacaria os seguintes aspectos: 1) Manutenção e estímulo para o funcionamento adequado de todos os cursos tradicionalmente oferecidos pelo CELG; 2) Reformulação da Revista Brasileira de Psicoterapia, atualizando todos os seus números, modernizando seu processo de submissão dos artigos através de um sistema eletrônico de submissão e editoração. Mantivemos como revista eletrônica já que o custo de uma versão impressa é incompatível com a saúde financeira do CELG. Além disso, mantivemos total independência Editorial mudando apenas sua missão: deixar de ser uma revista regional e buscar um escopo nacional, modificando o corpo editorial, buscando a pluralidade e a qualidade. A Revista passou a ter uma edição bilingue. Desta forma, preparamos o terreno para a indexação em bases de dados internacionais, criando as condições básicas para a internacionalização da revista; 3) Reforma administrativa, reduzindo número de funcionários, mantendo um número compatível com as funções, mas de pessoas qualificadas,

Mas também ser um veículo de divulgação da vida plural, diversificada e rica que nosso Departamento possui, que é reconhecida nacional e internacionalmente motivadas e identificadas com o CELG; 4) Aproximação do CELG das novas gerações de psiquiatras, com aumento do número de sócios e criação de atrativos para o associado. A rede wireless no CELG está funcionando. Firmamos convênios para a compra de livros com descontos, e estamos em negociação para termos um acervo de e-books para os associados, seguindo uma tendência natural das bibliotecas. Além disso, colocamos no site os passos para o associado ter acesso ao Portal Capes e outros banco de dados baseado em tutorial do Ministério da Saúde; 5) Estimulação do iCELG, forma do associado jovem desenvolver iniciativas específicas para as suas necessidades científicas; 6) Realização da Jornada de Psiquiatria com base em excelência científica. Para isto, convidamos vários pesquisadores de renome internacional ligados às diferentes linhas de pesquisa da PósGraduação em Psiquiatria, realizando a segunda edição do Simpósio de Inovação em Psiquiatria. Com isto, obtivemos verbas do CNPq e da CAPES que nos ajudaram a fazer um evento de qualidade e auto-sustentável; 7) Realização de mais uma edição do Simpósio de Psicoterapia; 8) Criação do “Curso de Atualização em Psicofarmacologia”, aproveitando a experiência e a excelência de vários grupos de pesquisa e atividade clínica dos diferentes serviços do Hospital de Clínicas de Porto Alegre; 9) Realização nos dois anos de gestão de aulas inaugurais. No primeiro ano contamos com as aulas dos professores Flávio Kapczinsky e Luis Augusto Rohde, proferidas por ocasião do concurso para Professor Titular realizado em 2012. E, neste ano de 2013, com o Professor Rubem Oliven; Gostaríamos de registrar o nosso agradecimento a todos os associados por terem prestigiado nossas diferentes atividades, o apoio de todos os colegas do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS, bem como do nosso grupo de funcionários. Desejamos que o professor Paulo Soares e sua equipe possam dar sequência aos projetos realizados e que possam manter o CELG caminhando em direção ao futuro. Um grande abraço a todos.

Marcelo Pio de Almeida Fleck Presidente do CELG

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Curso de Especialização em Psicoterapia de Orientação Analítica (CEPOA) Com o objetivo de promover a atualização na área, o Curso de Especialização em Psicoterapia de Orientação Analítica (CEPOA) do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal (UFRGS) promovido pelo CELG, foi criado em 1984 como curso de extensão. Adquirindo, no ano de 1998, o formato de especialização. Desta forma, aumentando a carga horária, e recebendo em 2001, o reconhecimento do Ministério de Educação e Cultura (MEC). A especialização tem duração de 396 horas aulas, abordando conceitos fundamentais e desenvolvimentos em psicoterapia. Assim como a realização de colóquios, em 2012 os temas abordados foram: “A prática Psicoterápica

Hoje: Contrato e Suas Controvérsias”, com os professores Matias Strassburger, Cláudio Laks Eizirik, Clarice Kowacs e Neusa Knijnik Lucion; e “Novos Modelos de Mente em Psiquiatria” com a participação dos professores Jussara Shestastsky Dal Zot, Flávio Kapczinski, Sofia Stein e Eneida Iankilevich. Ao longo das edições do CEPOA foram 240 alunos formados e 18 turmas. Na sua 12ª edição (2012/2013) a especialização conta com 31 alunos matriculados. A atual gestão (2011 – 2013) já conta com 37 formados, e mantém a preocupação permanente de atualizar o programa através de sugestões, bem como, discutir a metodologia do curso com os professores.

XI Jornada de Psiquiatria da APRS discute os “Caminhos da Psicopatologia” A XI Jornada de Psiquiatria da APRS acontece nos dias 5 a 7 de setembro na cidade de Gramado – RS. Com o intuito de discutir e ampliar os conhecimentos o tema desta edição tem como foco os “Caminhos da Psicopatologia”, trazendo para o debate renomados palestrantes da área. A programação reúne workshop, entrevista, mesa redondas e conferências. O workshop “Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtornos Mentais Graves” será ministrado pelo Dr. Jesse H. Wright, especialista em TCC e diretor do Depression Center da Columbia University of Louisvil-

le (EUA). No dia 7, será realizada uma entrevista com a Drª Nora Volkow, diretora do National Institute on Drug Abuse (NIDA) no National Institutes of Health (NIH), com mediação do Dr. Félix Kessler e coordenação do Dr. Flávio Pechansky. O evento é organizado pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, com realização da Tribeca Eventos. As inscrições podem ser realizadas via e-mail: secretaria@ tribecaeventos.com.br. Para mais informações acesse o site: www.jornadaaprs.org.br ou contate a secretaria executiva do evento pelo telefone: (51) 3076.7002.

Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência (CAPIA) Realizado desde março de 1990, o Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência (CAPIA) do Centro de Estudos Luis Guedes (CELG) tem como objetivo promover a atualização em psicoterapia na infância e adolescência. A primeira edição foi realizada em dois anos, com quatro módulos teórico-clínicos e supervisões individuais. No ano de 1994, com duração de três semestres o curso desenvolveu-se com os seguintes módulos: 1º Bebês; 2º Pré-Escolares e Escolares e 3º Adolescentes. Nos anos de 1995 a 2002, com a criação da Residência e do Curso de Especialização em Psiquiatria da Infância e Adolescência (CEPIA) do HCPA/UFRGS, o Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência (CAPIA) foi incluído no programa teórico da Residência. A partir de 2004, além de ser oferecido a médicos psiquiatras, o CAPIA incluiu psicólogos com formação comprovada em psicoterapia de adultos. Nas suas edições já são 88 alunos formados.

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Atualmente está acontecendo a 12ª edição do CAPIA (2013/2014) com duração de dois anos e seis alunos matriculados (quatro psiquiatras e duas psicólogas). Desenvolvido em quatro disciplinas em módulos semestrais: Desenvolvimento, Teoria, Técnica e Supervisão Coletiva; os seminários são realizados às terças-feiras, das 19h30min às 22h30min, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Cada aluno deve realizar supervisão de dois casos de psicoterapia de criança e/ou adolescente, totalizando um mínimo de 60 horas (30 horas anuais). Os horários e pagamento da supervisão individual são combinados diretamente com os professores do curso, dentro dos critérios do CELG. Ao final do curso, cada aluno deve entregar uma monografia ou estudo clínico, sob forma de artigo com vistas à publicação. Os alunos que cumprirem todos os requisitos recebem certificado de conclusão de curso de extensão universitária (UFRGS).

Curso de Extensão Teoria e Técnica da Supervisão de Psicoterapia de Orientação Analítica A VIII edição do Curso de Extensão Teoria e Técnica da Supervisão de Psicoterapia de Orientação Anal��tica será realizada no segundo semestre de 2013, no Centro de Estudos Luis Guedes (CELG). Os seminários teóricoclínicos em pequeno grupo iniciarão em agosto, com aulas nas quartasfeiras à noite e término em dezembro. O curso oportuniza o acesso a uma formação estruturada, propiciando que a supervisão possa ser realizada de forma teoricamente embasada e tecnicamente consistente. Ao longo dos quatro meses os alunos – psiquiatras e psicólogos com experiência em psicoterapia e interesse no ensino desta técnica – discutirão textos e material clínico de supervisão com os professores do curso, todos com larga experiência e destacado conhecimento do tema: Antônio Carlos Jardim Pires; Cláudio Laks Eizirik; Germano Vollmer Filho; Isaac Pechansky; Luiz Carlos Mabilde; Rogério Wolf de Aguiar; Romualdo Romanowski e Sidnei Schestatsky. O curso é promovido pelo Centro de Estudos Luiz Guedes e Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFRGS. Mais informações diretamente com a Coordenação Executiva através do email patlago@terra.com.br ou na secretaria do CELG através do telefone (51) 3330-5655.

CAP

Com a coordenação dos psiquiatras Cláudia Fam e Camila Selbach, segue em funcionamento o Centro de Atendimento Psicoterápico (CAP). O CAP tem a função de encaminhar pacientes de baixa renda para os alunos do Curso de Psicoterapia de Orientação Analítica – infância, adolescentes e adultos – e residentes do último ano de Psiquiatria. O objetivo é propiciar, aos alunos, pacientes para supervisão e também oportunizar atendimento psicoterápico a uma camada da população sem acesso a esse benefício. Para encaminhamentos, ligar: (51) 3359.8416 ou 3333.1396.


ano 24 • julho 2013 • nº 72 5

Ensino - Carmem Emilia Keidann

Relatório da Diretoria de Ensino O CELG desde os seus primórdios tem se mantido como uma instituição voltada ao ensino, pesquisa e assistência na área da saúde mental. Nesta meta segue aprofundando e expandindo os conhecimentos num clima amistoso e de integração. A Diretoria de Ensino é uma inserção recente nos Estatutos. Foi criada na gestão da Lucrécia, em virtude do crescimento da instituição, e iniciada por Paulo Soares, com a escolha da Simone Hauck para assumir esta posição. No espírito do funcionamento da nossa Gestão, participamos sob a coordenação do Marcelo, de todas os planos e tomadas de decisões referentes as atividades do CELG. Compartilhamos ativamente da preparação da Jornada do CELG, quando incluímos uma atividade de Educação Continuada com discussão de casos clínicos e atualização teórico-clínicas, tentando contemplar a diversidade do campo psiquiátrico. Os cursos, atualmente em andamento, são: CEPOA (Curso de Especialização em Psicoterapia de Orientação Analítica); CEPIA (Curso de Especialização em Psicoterapia da Infância e da Adolescência); CAPIA (Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência). Cada um com eficientes coordenações que mantiveram a qualidade com autonomia de iniciativas. Nosso CAP (Centro de Atendimento de Psicoterapia) segue em pleno vigor. Destaco, como uma característica marcante

Alunos utilizam a estrutura do CELG para realizar pesquisas

Curso na Jornada do CELG de 2012

de nossa gestão, a de renovar e inovar, mas com cuidado de manter o que foi construído até aqui. Encerrando nossa gestão, registro o agradecimento do convite de nosso Presidente, e a satisfação pelo período de convivência produtiva com todos os colegas.

CEPOA

curso de especialização em Psicoterapia de orientação analítica 1984: Criação do curso como extensão 1998: Aumento da carga horária, adquirindo formato de especialização 2001: Aprovado como Especialização e reconhecido pelo Ministério de Educação e Cultura (MEC) Ao longo das edições: 18 turmas • 240 alunos formados

Gestão (2011 – 2013): 37 alunos formados 2013 – curso em andamento: 31 alunos matriculados

CEPIA

Destaco como uma característica marcante de nossa gestão a de renovar e inovar, mas com cuidado de manter o que foi construído até aqui.

curso de extensão em psicoterapia da infância e da adolescência

1ª edição: 2 anos 4 módulos teórico-clínicos e supervisões individuais 1994: 3 semestres, 3 módulos (bebês, pré-escolares e escolares e adolescentes) 1995 – 2002: Criação da Residência e do Curso de Especialização em Psiquiatria da Infância e Adolescência (CEPIA); Curso de Extensão em Psicoterapia da Infância e da Adolescência (CAPIA) incluído no programa teórico da Residência. 2004: ampliam-se o público de alunos incluíndo psicólogos com formação em psicoterapia de adultos; 88 alunos formados. Curso em andamento - 12ª edição (2013-2014): Duração: 2 anos; Alunos: 6 jornal centro de estudos luis guedes


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Financeiro - Sérgio Louzada

Relatório da Diretoria Financeira Ao ser convidado pelo Marcelo Fleck para compor a Diretoria do CELG, além da satisfação de retornar ao HCPA depois de tantos anos da Residência, senti-me desafiado a atuar numa área aparentemente complexa. Diretoria Financeira muitas vezes acaba sendo o foco de dificuldades ou de entraves. Não foi o que aconteceu. Em função de toda a Diretoria participar de todos os assuntos (numa gestão participativa), sempre num clima de descontração e seriedade, e contando com o apoio fundamental do Serviço de Contabilidade e da eficiência da Patrícia, o que poderia ser difícil tornou-se algo tranquilo e natural. Conseguimos realizar a XXVI Jornada Sul-Rio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica sem o apoio da indústria farmacêutica, não deixando

de investir na qualidade dos palestrantes e não medindo esforços para que todos desfrutassem de um evento diferenciado. Procuramos remodelar e aperfeiçoar o CELG. Desde a manutenção e melhoria das instalações, passando pela valorização dos funcionários, até buscando incentivos no sentido de estimular o ingresso e a permanência de mais associados. Procuramos, e acredito que conseguimos, desenvolver uma gestão que, se por um lado não esqueceu da tradição, tentou trazer inovações importantes para o CELG. Assim, além de deixarmos um saldo positivo no “balancete”, mais do que tudo, foram 2 anos de confraternização e espírito de grupo, sempre liderados pela coordenação responsável, criativa e afetiva do Presidente. Muito obrigado!

Administrativo - Letícia Kipper

Procuramos, e acredito que conseguimos, desenvolver uma gestão que, se por um lado não esqueceu da tradição, tentou trazer inovações importantes para o CELG

Relatório da Diretoria Administrativa Falar aos sócios do CELG sobre meu imenso prazer de ter feito parte dessa diretoria do CELG que agora se despede, é primeiro falar da satisfação de ter recebido o convite do Marcelo Fleck, pessoa e professor a quem muito admiro e respeito. É falar também do quanto foi bom o convívio com os colegas de diretoria, convívio este sempre tranquilo e harmonioso, mesmo nos momentos de “correria”, como no planejamento da Jornada e nos de decisões por vezes um tanto delicadas. Essa diretoria pautou-se sempre pela ideia e diretriz principal de seu presidente, de buscar a inovação em todos os níveis do CELG (administrativo, científico, etc.), mantendo, ao mesmo tempo, as tradicionais características de nosso Centro de Estudos. O intuito principal foi o de aproximar sempre e cada vez mais os associados, seja proporcionando mais atividades das quais possam participar, seja tornando o CELG local cada vez mais acolhedor e ágil para suas necessidades, os funcionários engajados e receptivos e também levando aos sócios todos os recursos que forem possíveis em nossa “era digital”. Para tanto, também melhorias na estrutura e aquisições

de equipamentos novos foram feitos durante o período. No âmbito administrativo, procuramos fazer uma reestruturação e redução da equipe de funcionários contratados, no sentido de privilegiarmos a qualificação da equipe, o bom andamento dos trabalhos e atendimento aos sócios, porém sem onerar as despesas do Centro de Estudos. Foram revisados durante o período da gestão as funções atribuídas a cada funcionário, bem como suas remunerações. Alinhado a essa diretriz, o CELG possui agora um estagiário que se ocupa dos serviços de cópias, bem como serviços gerais de auxílio à equipe. Creio que podemos considerar que a equipe atual está bastante engajada no bom funcionamento do CELG, bem como na sua modernização. Agradeço à equipe de funcionários pela receptividade e seriedade na implementação de mudanças: Patrícia, Maria Luiza, Bernardo e Matheus.

Funcionários do CELG: Patrícia, Bernardo e Maria Luiza

Agenda Conheça os nossos sócios que defenderam mestrado ou doutorado, no primeiro semestre de 2013: Lisia Von Diemen Doutorado - PPG Psiquiatria “Avaliação de soroprevalência HCV/HIV e marcadores bioquímicos de toxicidade sistêmica em usuários de crack”

jornal centro de estudos luis guedes

Anderson Ravy Stolf Mestrado - PPG Psiquiatria “Estudos de Associação do Gene do Transportador de Dopamina com Abuso e Dependência de Crack”

Stefania Pigatto Teche Mestrado - PPG Psiquiatria “Fatores ambientais e neurobiológicos associados ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático e à Resiliência”


ano 24 • julho 2013 • nº 72 7

Científico - Pedro Magalhães

Relatório da Diretoria Científica: Psicofarmacologia no CELG

Abertura da Jornada do CELG

Público compareceu em grande número

Um pedido especialmente repetido por vários associados durante a última Jornada Sul-Rio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica foi ouvido pela diretoria. Estes falavam da carência em nosso Estado de boas atualizações em psicofarmacologia. Com base nesta necessidade, concebemos o Curso de Psicofarmacologia como um ciclo com módulos básicos e avançados, com a possibilidade de ser repetido periodicamente. A escolha lógica dos responsáveis recaiu sobre os grupos de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas: Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os professores responsáveis pelos grupos organizaram o curso em sete módulos, que iriam de março a julho. As respostas dos mesmos foram incondicionalmente positivas. A diretoria científica faz questão de agradecer aos

Palestrante internacional

professores Marcelo Fleck, Gisele Manfro, Flávio Pechansky, Paulo Abreu, Márcia Sant’Anna, Lúcia Ceitlin e Marcelo Schmitz pelo apoio e excelência das aulas. A expectativa inicial era a formação de um grupo relativamente pequeno de discussões, e providências foram tomadas para tal. Talvez ingenuamente, dado o renome dos convidados. A resposta do público foi avassaladora, o que deixou a diretoria extremamente satisfeita com o evento. Ao final, para cada um dos módulos houve quase cem inscritos. Com o sucesso tanto desta nova iniciativa quanto da Jornada Sul-RioGrandense de Psiquiatria Dinâmica, a diretoria científica encerra a gestão com grande contentamento. A Jornada SulRio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica é o principal evento no calendário do diretor científico. A sua vigésima sexta edi-

A expectativa inicial era a formação de um grupo relativamente pequeno de discussões. A resposta do público foi avassaladora, o que deixou a diretoria extremamente satisfeita com o evento. Ao final, para cada um dos módulos houve quase cem inscritos.

ção foi realizada em 2012, e o objetivo da atual diretoria era trazer a inovação como elemento integral da jornada. Os eventos do II Encontro Ciência e Inovação em Psiquiatria foram incorporados, trazendo nomes de relevância internacional nas diversas áreas de interesse para a psiquiatria. Tivemos o imenso privilégio de ouvir os professores Mark Solms, Helen Herrman, Donald Patrick, George Woody e Darrel Regier nas salas do Plaza São Rafael. Esta qualificação da jornada também se deveu ao financiamento da CAPES e CNPq, e deixamos nossos agradecimentos a estas instituições públicas. Para finalizar, é preciso lembrar que este perfil de eventos, de diretoria e de gestão foi traçado pelo professor Marcelo Fleck. À sua liderança serena devemos atribuir as águas tranquilas por que passamos nestes dois anos.

Despedida da gestão 2011/ 2013, boas-vindas aos líderes de 2013/ 2015 A diretoria do CELG gestão 2013/2015 foi eleita por unanimidade em Assembleia Geral no dia 3 de julho. A nova gestão é presidida pelo professor

Paulo Soares, que também assumiu a liderança do centro em outras ocasiões (1993-95, 2007-09, 2009-11). O evento também marcou a despedida da diretoria gestão 2011/2013 (foto), presidida pelo Prof. Marcelo Fleck. Para ele, a nova diretoria poderá dar sequência aos projetos realizados, viabilizando o crescimento do CELG para o futuro. Também foram eleitos o diretor financeiro, Lucas Lovato; o diretor administrativo Rudyard Emerson Sordi; a diretora científica Patrícia Fabrício Lago; a diretora de divulgação e relações com a comunidade, Débora Schaff; o diretor de publicações Claudio Eizirik e o diretor de ensino Manuel José Pires dos Santos. No conselho foram eleitos como titulares os professores Fernando Grilo Gomes, Paulo Abreu e Sidnei Schestatsky. Como suplentes estão os professores Flavio Kapczinski, Lucia Helena Ceitlin e Maria Lucrécia Scherer Zavaschi.

Diretoria do CELG gestão 2011/ 2013 despede-se das atividades no centro

jornal centro de estudos luis guedes


Capa

Fizemos história Pluralidade. Engajamento. Pesquisa e ciência. Estas são algumas das características que acompanharam a diretoria do CELG durante a gestão 2011/2013. Foram dezenas de projetos e planejamentos, alinhados às necessidades dos grupos de pesquisa e associados. Destacaram-se diversas ações administrativas e financeiras focadas em um bom atendimento e funcionamento adequado do centro. Houve a reformulação da Revista Brasileira de Psicoterapia. A variedade de ideias, debates e tecnologia proporcionada pelo iCelg. O envolvimento da equipe que assumiu e realizou a Jornada. Todos os dias recebemos mentes alinhadas com os cursos do centro, com o desenvolvimento de pesquisas e ao fazer ciência. Resumir tudo isso não é tarefa simples. Gera uma porção de conteúdo e a quantidade de números que traduzem o significado deste trabalho é vasta. É por isso que a última edição do Jornal do CELG desta gestão tornou-se especial para celebrar resultados. Nós procuramos fazer com que este conteúdo se tornasse o mais visual possível para que você possa acompanhar o que também ajudou a construir.

2011

anos

Revista Brasileira de Psicoterapia

07 09 42

números

resenhas

artigos

(13 de fora do RS e 5 internacionais)

A Revista Brasileira de Psicoterapia também tem buscado manter a periodicidade de publicações e ampliar suas indexações. A revista adotou uma plataforma online para submissão e revisão de artigos, que estão disponibilizadas online no site em português e inglês.

Perfil do CELG

352 SÓCIOS

86% de 30 a 40 anos. Psiquiatras

Faixa etária predominante

XXVI Jornada Sul-Rio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica – Recordar, Repetir e Inovar

A vigésima sexta edição da Jornada Sul-Rio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica foi realizada em agosto de 2012 e é um dos eventos mais tradicionais do calendário científico brasileiro em psiquiatria. Ao longo de 52 anos este evento se realiza de forma ininterrupta, tendo recebido diversos expoentes da psiquiatria internacional e nacional.

inscritos

2012

460 54 149 253 04 Alunos de graduação

Faturamento:

Alunos de pós-graduação

Profissionais liberais

Lucro:

outros

R$ 171.700,00 R$ 16.165,00


Cursos

2013

(mais informações nas páginas 4 e 5)

Os cursos de extensão e especialização proporcionados pelo CELG rendem números à parte. Foram tantos dados que precisamos das páginas 4 e 5 para contar de que forma os cinco cursos e quase 200 alunos se destacaram nesta gestão.

CEPIA - duração

05 193 02 04 cursos

alunos

anos

carga horária

iCelg

Educação Continuada em Psicoterapia

disciplinas

Simpósio interno

30 87%

horas semanais

1 Mini-grupo de supervisão de infância-adolescência – com Eneida Iankilevich

Em 2013, novos integrantes - Betina Kruter, Paula Saffer, Stefânia Teche e Vitor Breda.

Grupo de estudos sobre adolescência, com a psicanalista Alice Lewcowicz – tem o objetivo de aprofundar conhecimentos e discutir as peculiaridades da adolescência de forma dinâmica, contemplando temas como técnica de atendimento de adolescentes, crise dos pais na adolescência, conceitos contemporâneos do desenvolvimento adolescente, assim como reflexões do ponto de vista antropológico.

Grupo de estudos “De Bion às ideias do campo terapêutico”, com a psicanalista Jussara Dal Zot - O grupo tem como objetivo estudar as idéias psicanalíticas desenvolvidas por Wilfred Bion. Através de uma bibliografia previamente elaborada, os alunos discutem assuntos relacionados à técnica psicanalítica segundo Bion com o enfoque no campo analítico. Ocorrem com frequencia quinzenal.

- Grupo de estudos “Freud e seus modelos de funcionamento da mente”, com a psicanalista e atual presidente da SPPA Viviane Mondrzak – se propõe a aprofundar a compreensão das duas tópicas criadas por Freud para compreender o funcionamento da mente, através do estudo e discussão de trabalhos selecionados onde se percebe o surgimento e a mudança de algumas de suas idéias sobre este funcionamento.

Atelier sobre sexualidade, com o psicanalista José Carlos Calich - proposta diferenciada de discussão, a cada encontro é selecionado o tema específico de discussão do próximo. Cada componente do grupo realiza suas leituras livremente e escreve um texto onde busca expressar a compreensão que desenvolveu sobre o tema. Os textos são lidos e discutidos por todos tanto no aspecto conceitual quanto estrutural.

3 Mini-grupos de supervisão de adultos – com Ruggero Levy, Jair Knijnik e Matias Strassburger

Curso “Complexo de Édipo: do mito ao campo”, com o psicanalista Raul Hartke – curso que já teve duas edições, se propôs a debater o complexo de Édipo desde o Mito de Édipo até as evoluções atuais do conceito.


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Divulgação e Relações com a Comunidade - Thiago Pianca

Relatório da Diretoria de Divulgação e Relações com a Comunidade Em nossa gestão, sempre teve quem pensasse o quão importante seria deixar o associado do CELG mais próximo, ainda que à distância. Explico: Temos percebido que, devido às novas configurações da vida moderna, está cada vez mais difícil, em todos os sentidos do termo, participar e comparecer às atividades presenciais. Trânsito, segurança, falta de tempo, mundo conectado; são muitas as coisas que mudaram e que determinaram também, alterações na nossa maneira de pensar a participação dos sócios. Desta forma, a diretoria de Divulgação e Relações com a Comunidade têm se voltado cada vez mais para o que parece o meio de contato que requer o menor esforço: o digital. Mesmo sem abandonar os antigos meios de divulgação, a difusão por meio da internet foi o que mais evoluiu no nosso trabalho. Já contávamos – e ainda contamos – com a fundamental colaboração do grupo iCelg, que de forma muito inovadora, sempre se voltou para os meios virtuais, e com muito sucesso. A divulgação da Jornada Sul-Rio-Grandense de Psiquiatria Dinâmica, ainda que contasse também com car-

tazes e folders, se deu muito através do e-mail e das redes sociais, como o Facebook, na qual foi possível fazer uma espécie de “cobertura ao vivo” do evento. Dentro desta ideia, estamos preparando um projeto para deixar o próprio Jornal do CELG mais disponível em sua forma digital, para todos que preferem o uso dos e-readers à leitura no papel. Desta forma, contará com as facilidades de ser um jornal acessível em qualquer lugar e hora, independente de contar com a sua versão física ou não. Foi com base nestas inquietações, pelas mudanças do mundo como o sentimos, que organizamos a aula inaugural deste ano. Com o título “Deu a louca no mundo?: dinâmicas culturais em épocas de globalização”, o professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, dr. Ruben Oliven, versou sobre diversas questões que são próprias do mundo globalizado, sempre usando como contraponto um período de mundo pré-globalizado, há 30 anos. Foi uma aula bastante comentada, e um grande sucesso. Sucesso que desejamos também para a próxima diretoria do CELG.

Publicações - Claudio Moojen Abuchaim

Relatório da Diretoria de Publicações Encerramos dois anos de um trabalho intenso e profícuo. Começo agradecendo ao nosso presidente pela confiança e oportunidade de permanecer nesta diretoria por mais dois anos. Agradeço também aos demais colegas de diretoria pelo clima amistoso e sério no desenvolvimento de nossas tarefas. Estabelecemos como meta principal uma ampla reformulação da Revista Brasileira de Psicoterapia. Para isto, colocou-se em dia sua publicação, passou a ser editada exclusivamente de forma eletrônica e bilíngue, buscando uma pluralidade e nacionalização de suas publicações. O objetivo final foi a obtenção de novos indexadores que aumentariam seu impacto. Aproveito para cumprimentar a editora dra. Simone Hauck e seus editores associados

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pelo excelente trabalho realizado. Concluo meu trabalho com o sentimento de pleno dever cumprido e tendo auxiliado na evolução e crescimento de nossa querida revista.

a diretoria de Divulgação e Relações com a Comunidade têm se voltado cada vez mais para o que parece o meio de contato que requer o menor esforço: o digital.


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Ponto de vista

O DSM-5 em perspectiva O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) é um dos dois principais sistemas classificatórios de transtornos mentais no cenário mundial. O DSM-5 foi inicialmente concebido para ser uma mudança de paradigma na psiquiatria, ligando os diagnósticos à patofisiologia. Porém, a falta de marcadores biológicos com suficiente desempenho diagnóstico na psiquiatria frustrou esta expectativa. Neste contexto, abordamos abaixo as principais mudanças da nova edição. Devido a falta de validade do modelo categórico de diagnóstico previamente enfatizado nos sistemas classificatórios, uma perspectiva diagnóstica mais dimensional foi introduzida. A abordagem categórica tende a diminuir a capacidade de diagnosticar apresentações atípicas e enfraquecer o poder estatístico em pesquisas. Além disso, não há dados suficientes para embasar um ponto de corte de número de sintomas não arbitrário para diversos transtornos psiquiátricos, do TDAH aos Transtornos de Personalidade. A presença da perspectiva dimensional na nova versão da DSM já pode ser evidenciada na criação das chamadas dimensões supra-diagnosticas. O Manual propõe o uso de questões de triagem para 12 dimensões diferentes na avaliação clínica, conectadas com um nível mais profundo de questionamentos em caso de respostas positivas, o que se assemelha mais a uma postura clínica ideal. No novo manual, os Transtornos são agrupados baseados em fatores etiológicos (Andrews, Goldberg, et al., 2009), o que é, na verdade, a única revisão maior do manual baseada parcialmente em mecanismos neurobiológicos. Desta forma, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo “se independizou” dos Transtornos de Ansiedade, Jogo Patológico foi incluído nos Transtornos Aditivos e Relacionados a Substâncias, e uma seção nova relacionada a Trauma e Transtornos Relacionados a Estressores, foi criada. Consonante com a recomendação da OMS de que os transtornos mentais são distúrbios crônicos da infância (Guilbert, 2003), uma visão mais focada no desenvolvimento foi incorporada ao manual. O capítulo Transtornos Geralmente Diagnosticados Pela Primeira Vez na Infância e Adolescência não existe mais, e há uma tentativa, ainda tímida, de incorporar considerações desenvolvimentais em alguns diagnósticos, como o TDAH e o TEPT. A nova organização de capítulos se deu por uma perspectiva de ciclo de vida: primeiro, os geralmente iniciados na infância, depois os normalmente identificados na idade adulta e, por fim, os da velhice. Não existe, no novo manual, a abordagem multiaxial. Ela se mostrou muito complexa para

Luis Augusto Paim Rohde Thiago Gatti Pianca

médicos não-psiquiatras e reforçava uma ideia de que doenças psiquiátricas não são doenças médicas. Desta forma, os antigos eixos I, II e III foram unificados, com a ideia de melhorar a relação da psiquiatria e da medicina em geral (Kupfer, Kuhl, & Wulsin, 2013). Cerca de 160 revisores dos 143 grupos de trabalho e 6 grupos de estudos e quase 300 consultores trabalharam por cinco anos para revisar e melhorar os critérios diagnósticos de vários transtornos. Eles revisaram a literatura sobre o diagnóstico específico de vários transtornos, além de utilizarem dados dos testes de campos e análises secundárias de pesquisas já feitas. A partir deste trabalho é que foram feitas estas modificações, com cuidado de balancear os prós (melhora da validade diagnóstica) e os contras (aumentar a prevalência artificialmente, incapacidade de usar pesquisas usando critérios do DSM-IV). É importante abordar a ideia errônea de que o DSM cria transtornos mentais. Ele inclui, como um diagnóstico aceitável, aqueles distúrbios que, após uma revisão cuidadosa da literatura, demonstram evidência suficiente de sua existência como entidade diagnóstica separada. Na verdade, o DSM-5 apresenta menor número de diagnósticos que as edições anteriores. Exemplos de novos diagnósticos do DSM-5 são o Hoarding Disorder (Colecionismo ou Acumulação) e o Disruptive Dysregulation Mood Disorder. Exemplos de diagnósticos que já eram cogitados no apêndice de pesquisa do DSMIV que apresentaram evidência suficiente e foram incluídos são: o Distúrbio de Compulsão Periódica (alimentar) e Transtorno Disfórico Pré-menstrual. É importante enfatizar que o DSM-5 continua a ter uma seção para possíveis transtornos que requerem mais pesquisa para serem incluídos no manual, e exemplos destes são a Attenuated Psychosis Syndrome e a Nonsuicidal Self-Injury. Como salientado pelo Professor Kenneth Kendler, o progresso maturacional de várias áreas da ciência ocorre por um processo iterativo, onde cada vez mais conseguimos nos aproximar do mundo como ele é. A DSM-5 representa mais um passo na direção de nos aproximarmos do real constructo latente dos transtornos mentais.

“Cerca de 160 revisores dos 143 grupos de trabalho e 6 grupos de estudos e quase 300 consultores trabalharam por 5 anos para revisar e melhorar os critérios diagnósticos de vários transtornos. Eles revisaram a literatura sobre o diagnóstico específico de vários transtornos, além de utilizarem dados dos testes de campos e análises secundárias de pesquisas já feitas”.

Referências: Andrews, G., Goldberg, D. P., Krueger, R. F., Carpenter, W. T., Hyman, S. E., Sachdev, P., & Pine, D. S. (2009). Exploring the feasibility of a meta-structure for DSM-V and ICD-11: could it improve utility and validity? Psychol Med, 39(12), 1993-2000. doi: 10.1017/S0033291709990250 Guilbert, J. J. (2003). The world health report 2002 - reducing risks, promoting healthy life. Educ Health (Abingdon), 16(2), 230. doi: 10.1080/1357628031000116808 Kupfer, D. J., Kuhl, E. A., & Wulsin, L. (2013). Psychiatry’s integration with medicine: the role of DSM-5. Annu Rev Med, 64, 385-392. doi: 10.1146/annurev-med-050911-161945

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Resenha livro

Valiosa contribuição para o entendimento do ciclo vital humano

Claudia Hilgert - Médica Psiquiatra especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência

A considerável expansão do conhecimento médico e psicológico sobre o desenvolvimento humano na última década, além de importantes pesquisas realizadas nessa área, gerou a necessidade de lançar uma edição revista e ampliada do livro “O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica – 2ª edição”. Além disso, a estimulante convivência com estudantes do curso de medicina e de outras áreas da saúde com os quais os autores trabalharam ao longo dos últimos anos, serviu de inspiração para reformular vários capítulos dessa nova versão, incluindo de forma pertinente, aspectos éticos, filosóficos e desenvolvimentais às fases do ciclo vital. Os autores Cláudio Laks Eizirik e Ana Margareth Siqueira Bassols, renomados psiquiatras e psicanalistas, reuniram novamente o grupo de professores do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da FAMED/UFRGS e colaboradores vinculados ao Centro de Estudos Luis Guedes para revisar e ampliar o conhecimento de cada um dos capítulos da primeira edição, lançada em 2001. Nessa versão, este seleto grupo de profissionais, com larga experiência nas disciplinas envolvendo o desenvolvimento humano, enfatizou importantes aspectos da relação entre profissionais de saúde e pacientes, forneceu sugestões de obras da literatura e do cinema que ilustram aspectos essenciais de cada fase, além de terem incluído novas vinhetas clínicas em alguns capítulos e de ter destacado trechos importantes. Dessa forma, estudos recentes foram incorporados aos capítulos, como por exemplo, ocorreu em “Noções Básicas sobre o Funcionamento Psíquico” que nos informa sobre a importância da qualidade de cuidados nos primeiros anos de vida. Os autores enfatizaram também

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nesse capítulo, o quanto as experiências adversas precoces impactuam a forma como as pessoas se relacionam ao longo da vida, dando ênfase ao desenvolvimento cognitivo básico. Não deixaram de lado as valiosíssimas noções psicanalíticas básicas como as contribuições de Winnicott e de Bowlby que na primeira edição não foram abordadas. Alguns capítulos de extrema relevância para o momento atual foram incluídos como “Aspectos Bioéticos no Ciclo Vital”, onde o autor faz uma reflexão sobre a adequação da vida e do viver em todas as suas fases. Já em “O Cuidado de Si: Uma Perspectiva Filosófica”, a autora rastreia de forma instigante o conceito de cuidado de si e as diversas conotações que esse termo foi assumindo ao longo do tempo. A importância do reconhecimento precoce de transtornos mentais para que se identifique indivíduos em risco e se tente a prevenção da futura psicopatologia na vida adulta foi abordado em mais um novo capítulo sobre a “Psiquiatria do Desenvolvimento”. Com pesquisas direcionadas ao neurodesenvolvimento, experiências ambientais, interação geneambiente e mecanismos epigenéticos, os autores impulsionam o desenvolvimento de uma nova abordagem terapêutica para os transtornos mentais. Já outros capítulos foram reformulados para ficarem mais didáticos, como o que ocorreu em “A Criança Pré-Escolar”, onde o entendimento do desenvolvimento se deu ano a ano, com tabelas e quadros que tornaram a leitura mais confortável. Nesse capítulo foram incluídas as particularidades deste período como o desenho, o brinquedo e o mundo de fantasia, a chegada de irmãos e o início da socialização. Em “A Puberdade” deu-se ênfase às modificações hormonais e fatores de regulação, modificações físicas, além de descrever os estágios de Tanner de uma forma mais clara. No capitulo sobre “Adolescentes” foi incluída uma revisão sobre as par-

ticularidades da geração Y, a virtualidade e a relação com o adolescente no consultório do psicoterapeuta, além de pertinentes sugestões de filmes e leituras sobre essa fase de vida tão dinâmica. Em “Adultos Jovens e Seus Scripts: Novas Gerações em Novos Cenários” os autores mantiveram a intenção da edição anterior de contribuir para a desidealização das gerações X e, recentemente a Y, além de acrescentar as mudanças a partir da descoberta do genoma humano, diferenças culturais, doenças e mortalidade em adultos jovens, violência e corrupção. Termos surgidos nos últimos 10 anos como globalização e cibercultura também foram abordados. O capítulo sobre meia-idade sofreu alterações consideráveis, iniciando pelo título que passou a ser “Madurescência”, com o intuito de dar conta de um processo de transformação rumo à maturidade. De forma instigante, o autor abordou a produção de mitos da humanidade, metapsicologia, sexualidade, trabalho de luto e morte nessa fase. Com a inversão da pirâmide demográfica no Brasil e no mundo, estamos vivendo uma modificação radical na maneira como encaramos a velhice, abordada no penúltimo capítulo. O autor discorre sobre as perdas vivenciadas nessa fase, mas também ganhos são destacados, vida amorosa e sexualidade. E finalmente, a morte e o ato de morrer são discutidos no capítulo 17. Como se pode perceber, a segunda edição de “O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica” é uma jornada instigante por todas as fases pelas quais o ser humano atravessa desde a sua gênese. De forma consistente e sólida, com informações oriundas de recentes pesquisas, o leitor profissional de saúde terá uma ferramenta valiosa para compreender melhor as vicissitudes da vida humana e poder intervir, quando for necessário.

“(...) a segunda edição de “O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica” é uma jornada instigante por todas as fases pelas quais o ser humano atravessa desde a sua gênese”.


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Resenha filme

Análise do filme “Aqui é o meu lugar” Gabriela Lotin Nuernberg Psiquiatra gabrielalotin@gmail.com

“Aqui é o meu lugar” (This Must Be the Place) Ano: 2011 Diretor: Paolo Sorrentino

No longa-metragem Aqui é o Meu Lugar, do diretor italiano Paolo Sorrentino, Sean Penn interpreta Cheyenne, um ex-astro do rock de aproximadamente 50 anos, casado e sem filhos, que vive em uma mansão com sua esposa, em Dublin. As cenas iniciais do filme mostram como ele vive, sua casa, suas interações familiares e sociais. Mesmo afastado dos palcos há duas décadas, segue se vestindo como se estivesse na época do sucesso artístico, sempre de preto e com maquiagem. Apresenta-se de maneira bastante pueril, mas perspicaz. Parece (e se percebe) estar deprimido, até mesmo lentificado. A dinâmica familiar parece funcionar de maneira complementar, em que a esposa é a “cabeça” da família e resolve os problemas do dia a dia, como os investimentos em ações e a reforma da casa. O personagem não mais apresenta grandes objetivos na vida: já é rico, não trabalha, não tem filhos, não compõe e nem toca mais. Do ponto de vista do ciclo vital, a família se aproxima mais do período em que o casal volta a viver só após a saída dos filhos de casa, quando os membros se deparam com sua maturidade (ou com a falta dela), bem como a perspectiva do seu envelhecimento e do envelhecimento e morte dos pais. No entanto, o casal não teve filhos, e Cheyenne se arrepende disso. Talvez para compensar este fato, convive com uma jovem que tem em torno de 20 anos e uma mãe deprimida. Em alguns momentos ele se comporta como amigo, mas o que predomina são cuidados parentais com a garota. A história toma um rumo diferente quando o personagem recebe a notícia de que seu pai está morrendo,

em Nova York. Ele muda a sua rotina, indo ao encontro dele. Não o via há 30 anos. Viaja de navio porque tem fobia de avião. Lá, descobre que o pai havia dedicado sua vida a buscar o exsoldado nazista que o humilhou em um campo de concentração. Fica evidente a transgeracionalidade do trauma quando Cheyenne decide seguir a busca do pai, o que o leva a empreender uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. A trama ganha um caráter de roadmovie, mesclando a exploração daquele país com as descobertas interiores do protagonista. O filme mostra Cheyenne contraidentificado com o pai, já que se afastou por muitos anos e fez escolhas aparentemente opostas. No entanto, pode-se perceber a sua proximidade quando decide ir atrás do seu torturador. Cheyenne, assim como o pai, estava preso a traumas não elaborados. O pai estava preso à vingança da procura pelo seu agressor no campo de concentração, enquanto Cheyenne estava preso à culpa que carregava pelo suicídio de dois garotos que ouviam suas músicas. Durante a viagem, Cheyenne compra uma arma, o que cria a expectativa de que a vingança será consumada com a morte do torturador. No entanto, a opção do protagonista de não executá-lo, mas sim submetê-lo a humilhação equivalente àquela a qual o pai foi submetido, sugere a interrupção e a elaboração do trauma, com a consequente mudança do personagem. Além dos conflitos exibidos pelos personagens, “Aqui é o Meu Lugar” tem cenas inesperadas e bonitas, que deixam o espectador perplexo diversas vezes. Carregadas de contrastes, valem a pena serem assistidas.

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Artigo

Freud e Maquiavel: “mestres da suspeita” e, por que não? “mestres do escândalo”? Há exatamente quinhentos anos, em 1513, Niccoló Machiavelli (Maquiavel, 1469-1527) escreveu em Florença uma obra que marcou o mundo da cultura. Trata-se do clássico intitulado “O Príncipe”. Maquiavel e Freud, sob muitos aspectos, podem ser lidos conjuntamente. Além de Marx, Nietzsche e do próprio Freud, Maquiavel também poderia ser incluído na lista de pensadores que o filósofo Paul Ricoeur classificou como “mestres da suspeita” e, por que não? “mestres do escândalo”. O intrigante fascínio da obra de Maquiavel nos remete ao que Freud afirmara em relação à figura trágica de Édipo: existe ali uma verdade que nos toca (e nos afronta) incondicionalmente. Maquiavel escreveu num contexto específico de extrema complexidade sociopolítica mas, desde já, importa considerar que uma obra clássica (e exatamente por isto é “clássica”) transcende os limites do tempo e nos remete, forçosamente, a uma dimensão “a-histórica”. Certamente o contexto histórico influencia as ideias e as produções intelectuais mas convêm não perder de vista que essas mesmas circunstâncias são criações humanas e têm origem nas suas motivações mais elementares. Neste sentido, O Príncipe de Maquiavel, resgata elementos que perpassam os tempos não obstante as marcas de sua retórica e os relatos específicos da sua época. Sob este aspecto podemos entender a afinidade intelectual de pensadores tão separados no tempo como Maquiavel e Freud. O lastro comum entre ambos nos conduz a um outro olhar, mais profundo e consequente, que transcende a circunstancialidade dos fatos históricos. O Príncipe fala de ambiguidades e angústias visceralmente humanas: a violência, a crueldade, a necessidade da figura carismática do Soberano, a ânsia voraz por poder e mais poder. Mas, o ponto mais fascinante da obra de Maquiavel seria a ênfase no resgate do elemento “cruel” instituindo-o no rol de uma positividade impensada para a cultura ocidental; a “utilização” do mal, sem vulgaridade ou banalização. Esta teria sido a grande proeza do pensamento “maquiavélico” que ainda hoje nos surpreende com um misto de atração e perplexidade e, aqui, podemos complementar a originalidade de Maquiavel com a originalidade

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de Freud: ambos enfrentam o espinhoso problema da duplicidade da natureza humana abrindo à racionalidade e ao engenho criativo a possibilidade em tirar proveito e usufruir das vantagens que esta condição é capaz de proporcionar. É ilustrativo quando, no capítulo XVIII de O Príncipe, o autor utiliza-se de uma metáfora retórica: “Aquiles e tantos outros príncipes antigos foram deixados aos cuidados do centauro Quíron, que os manteve sob sua disciplina. Isso quer dizer que, tendo por preceptor um ser metade animal e metade homem, um príncipe deve saber usar de ambas as naturezas: e uma sem a outra não produz efeitos duradouros”. Na época renascentista em que O Príncipe foi escrito, a política era o palco privilegiado onde se encenavam as paixões humanas numa ferocidade desregrada e cruenta. Os acontecimentos se precipitavam num fluxo de atuações que expressavam os impulsos mais primitivos de voracidade e poder, ou seja, o império do gozo absoluto. Maquiavel percebeu a necessidade de tirar proveito deste potencial inerente ao ser do homem. Inútil e imprudente seria reprimi-lo ou negá-lo. Seu procedimento “terapêutico” foi tentar entender a ordem natural das motivações humanas e, através de uma análise realista sem preconceitos ou escrúpulos, transformar o primitivismo passional em elementos pensáveis e disponíveis à reflexão estratégica. Para introduzir ideias novas e revolucionárias seria preciso pensar na contracorrente da cultura vigente. Diríamos que sob este aspecto Maquiavel suspendeu o raciocínio norteado pelas regras morais e procurou pensar a realidade do homem e sua ânsia de sobrevivência em tempos difíceis onde imperava a lei do mais forte. Neste nível de raciocínio onde nem sempre o racional é moral os conceitos da moralidade, no sentido tradicional do termo, não entravam no rol das suas cogitações. Como é afirmado no capítulo XV, “é preciso que o Príncipe aprenda, caso queira manter-se no poder, a não ser bom e a valer-se disso segundo a necessidade” pois “o homem que quiser ser bom em todos os aspectos terminará arruinado entre tantos que não são bons”. A principal virtude do Soberano é fazer o que dita a necessidade, independente de padrões morais, afim de alcançar objetivos mais amplos e consequentes que assegurem a estabilidade e a

“Mas, o ponto mais fascinante da obra de Maquiavel seria a ênfase no resgate do elemento “cruel” instituindo-o no rol de uma positividade impensada para a cultura ocidental; a “utilização” do mal, sem vulgaridade ou banalização”.

Paulo Seixas Psiquiatra, Mestre em Filosofia, professor do curso de especialização em Psicoterapia Psicanalítica, UFRGS


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ordem. Não há como desqualificar a preocupação de Maquiavel com a ordem e o bem-estar social e político como objetivos finais e recomenda que um príncipe não deve se desviar da conduta correta se possível. Tais considerações nos lembram Freud quando no Mal-estar na Cultura afirma que “Eros e Ananké, Amor e Necessidade, se tornaram os pais da civilização humana”. Maquiavel encara o “estado de natureza” na volúpia do domínio cruel e, ele próprio parece se deleitar com a brutalidade que descreve os atos do temível César Bórgia, seu venerado e temido contemporâneo. O animal usa sua ferocidade impiedosa em proveito próprio para defender-se e garantir sua sobrevivência, o homem pode e deve usar como referencial o “ferocíssimo leão e a astuciosíssima raposa”, afirma no capítulo XVIII ( O Príncipe). No apogeu das cruentas lutas políticas do século XVI Maquiavel percebeu a importância de reverter a dinâmica da violência e instituiu como ponto nuclear do raciocínio a estratégia de utilizar o ímpeto destrutivo enquanto elemento precioso à serviço da própria sobrevivência individual e social. Aqui reside a escandalosa elegância do seu raciocínio: conceder cidadania aos elementos primordiais da “pulsão de morte” que o aparato civilizatório preferia, ou prefere, ignorar. As teses maquiavélicas escandalizaram mais fortemente que os próprios fatos imorais e cruentos que se desenrolavam inescrupulosamente no seio das Casas Reais e da poderosa Igreja. Impossível não associarmos Maquiavel e Freud: “nossas mais elevadas virtudes desenvolveram-se, como formações reativas e sublimações, de nossaS piores disposições”, e “a educação deve escrupulosamente abster-se de soterrar essas preciosas fontes de ação” (Freud, 1923, vol. 13, pag. 225). Não havendo como negar a força da pulsão enquanto parte irrevogável da natureza humana, importa fusioná-la com Eros, princípio de vida e, assim, contornar o caráter errático do poder destrutivo. Decorridos quinhentos anos e, hoje, munidos do arsenal psicanalítico, podemos apreciar e, de alguma forma, resgatar o que existe de melhor no pensamento maquiavélico. Mais do que cinismo ou ceticismo a leitura destes autores, “mestres da suspeita” - Maquiavel e Freud - revela os aspectos sombrios e a fragilidade humana sem cair no niilismo mas, ao contrário, apresentando a alternativa de que estes mesmos aspectos podem se tornar fontes “preciosas de ação”. Todavia, antes de tudo e acima de tudo, é necessário a coragem para penetrar neste “sub-mundo” e encarar a verdade crua afim de poder utilizar seu potencial libertador. A coragem de pensar a natureza humana

“Mais do que cinismo ou ceticismo a leitura destes autores, “mestres da suspeita” Maquiavel e Freud - revela os aspectos sombrios e a fragilidade humana sem cair no niilismo mas, ao contrário, apresentando a alternativa de que estes mesmos aspectos podem se tornar fontes “preciosas de ação”

no seu em-sí dilacerado em tendências opostas sem demonizá-la mas, ao contrário, aproveitando-a produtivamente, como se faz com a corrente impetuosa de um rio visando transformá-la em energia disponível. Sem dúvida, utilizando a experiência e a sabedoria acumuladas durante cinco séculos, incluindo o instrumental psicanalítico, podemos criticar algumas teses “maquiavélicas” que parecem justificar um estado de “infantilização” das massas populares através do culto idealizado da figura do Soberano como, por exemplo, aparece no capítulo XXI de O Príncipe onde louva as qualidades e a virtú de Fernando de Aragão, rei da Espanha, que “sempre fez e urdiu grandes coisas, as quais mantiveram os ânimos de seus súditos continuamente suspensos, admirados e concentrados em seu êxito”. Segundo Maquiavel, o Soberano pode e deve tirar proveito de tudo para manter sua imagem idealizada. Ao defender que o Príncipe deve se impor como um objeto de admiração e temor, utilizando todas as artimanhas necessárias, termina por justificar a “idealização” do líder através do mecanismo psicológico que hoje, segundo o entendimento psicanalítico, chamaríamos de “identificação projetiva”. As massas projetam seus ideais narcísicos, sua segurança pessoal e a própria pulsão agressiva na figura do chefe o qual, como um pai onipotente, fica detentor, por projeção, destas capacidades e tendências. Mantêm-se, justifica-se e perpetua-se a polaridade do circuito senhor-escravo, líder-liderado, esvaziando conceitos como autonomia e cidadania, festejadas conquistas da nossa contemporaneidade. Seja como for, e este mérito temos que reconhecer: o referencial “maquiavélico” resiste ao tempo como um grande legado do pensamento e nos fascina por sua crua honestidade. Seu despudor é o eterno alerta da nossa força e da nossa fragilidade e importa registrar aquilo que teria sido a grande tônica da sua mensagem: O Príncipe prenuncia uma sutileza psicológica que hoje podemos bem avaliar à luz de outros “mestres da suspeita”, na sua real profundidade e “escandalosa” realidade.

Bibliografia: FREUD, Sigmund (1913). O interesse educacional da psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro; Imago, 1974. v.13. FREUD, Sigmund (1930). O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro; Imago, 1974, v. XXI. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. SKINNER, Q; PRINCE, R. (ed.). The Prince. Cambridge, 1988 SKINNER, Quentin. Maquiavel. Porto Alegre: L&PM, 2010.

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Psiquiatria & Cultura- Médica Psiquiatra Betina Cardoso

Culinária: a arte do encontro entre o eu e o outro por Luciele Copetti, jornalista

A psiquiatra Betina fala sobre o seu hobby e os caminhos pelas fronteiras da ciência e literatura Na ciência, os processos metodológicos precisam ser considerados, aliando paciência e observação como pontos relevantes para o resultado final. Igualmente, no “laboratório da cozinha”, esses aspectos são cruciais. No entanto, a liberdade de criação permite que a criatividade e as percepções lúdicas de cada indivíduo sejam incluídas nas receitas culinárias. É a hibridização de sabores, cores, aromas, gostos, memórias, e um jogo estético que a culinária apresenta-se como hobby para alguns, e o compartilhamento de novas experiências gastronômicas para outros. Essas descobertas feitas ao acaso, nos levaram a esse encontro entre a literatura e a arte da culinária. O encontro para essa entrevista aconteceu entre a médica psiquiatra Betina Mariante Cardoso e a jornalista do Jornal do CELG, Luciele Copetti, na sede do centro. Entre os livros e a sala, as palavras da psiquiatra ecoavam como poesia, misturando ingredientes da culinária e do conhecimento profissional. Nas mãos, carregava cinco livros da sua editora, a Luminara Casa Editorial. Um deles, o “Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras”, é a obra literária dessa médica. Betina expressa suas opiniões e fundamentos com a leveza de escritora, com o zelo de médica, com um amor de mãe que prepara o bolo para o lanche da tarde. O encantamento pela culinária é notável no seu olhar e no modo como discorre sobre o assunto. Assim, a hibridez do seu contexto profissional e suas vivências pessoais se transformam na literatura culinária. “Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras” Lançado no início deste ano, o livro de co-

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“a sensação de vivenciar o criativo, a permissão para o prazer e o compartilhamento com o outro e consigo mesmo”.

zinha e o caderno de receitas é apresentado em duas partes. A primeira reúne 66 crônicas culinárias divididas em cinco capítulos. Na segunda parte, intitulado o “Caderno de receitas de”, é destinado a criatividade do leitor e suas receitas que podem ser registradas nas 50 páginas em branco. Betina preza pela liberdade na cozinha, pelo processo lúdico no qual o indivíduo constrói as suas receitas através da observação e dos cinco sentidos, e também, dos processos de erro e acerto. “Por isso eu fiz um livro caderno, exatamente com essa ideia de tornar o leitor um autor do seu projeto. Ele vai ler o livro, mas ele também vai fazer desse caderno um livro, um espaço de lúdico”, conta Betina. Assim, a ideia de escrever o livro se mistura com o seu blog. Do hobby a escrita culinária O blog “Serendipity in Cucina” foi criado em março de 2012, durante as férias, e é o resultado da sua experiência com a escrita culinária (food writing). Como a autora mesma define, é um espaço onde escreve sobre cozinha e bem-estar, “como aquelas saborosas conversas em volta da mesa. A ideia do blog veio de um aspecto de criatividade exposto na minha vida de hobby. É um trabalho principalmente com a escrita, e também, com a culinária dentro de um espaço no meu momento de lazer”, relata Betina. Do singular ao plural A culinária é o encontro entre o eu e o outro. Betina aprendeu a cozinhar em família, observando e experimentando novas receitas. Agora, mantém a tradição familiar repassando esses ensinamentos também para amigos e leitores. O compartilhamento é a base da culinária, e o ato de preparar os alimentos e unir sabores, estabelece o encontro. Segundo Betina, a pluralidade da arte culinária está exatamente nesses aspectos: “a sensação de vivenciar o criativo, a permissão para o prazer e o compartilhamento com o outro e consigo mesmo. Sempre tive essa possibilidade de ver no ato culinário, um ato subjetivo. Que mesmo eu me encontro, mas que é possível também encontrar as outras pessoas. É construir algo em comum”, finaliza Betina.

Blog: serendipityincucina.blogspot.com.br Livro: “Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras” Porto Alegre: Casa Editorial Luminara, 2012. R$32,00 Casa Editorial Luminara: (51) 3335.3008


Jornal do CELG - 72