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Jornal do Centro

O FADO EM VISEU | ABERTURA 7

09 | Dezembro | 2011

“Seria interessante começar a pensar-se uma escola de fado” João Paulo Sousa, 45 anos, advogado, natural de Viseu, é cultor de fado de Coimbra e professor de guitarra portuguesa no Conservatório Regional de Música de Viseu Dr. José de Azeredo Perdigão.

música no ensino da guitarra portuguesa?

Felizmente nos últimos anos, a maioria dos conservatórios tentaram alargar o ensino ao instrumento (Conservatório de Viseu ensina guitarra portuguesa há seis anos). A partir do momento em que aparece mais gente a cantar e a tocar, isso desenvolve um centro de interesses. Seria interessante começar a pensar-se uma escola de fado, não querendo separar o fado de Lisboa do fado de Coimbra.

Viseu é uma cidade de fado?

Qual é a maior tradição do fado em Viseu? Lisboa ou Coimbra?

Menos a nível do fado de Lisboa, mais a nível da canção de Coimbra, mas muita gente aqui nascida teve obra importante em qualquer um dos géneros musicais. Porque é que Viseu não tem uma casa onde se ouça o fado?

Parece-me que em termos económicos é inviável ter programas de qualidade em regime de permanência.

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Quais são as diferenças entre o fado de Coimbra e o fado de Lisboa?

DR

Não. Não é e nunca foi uma cidade de fado, o que não quer dizer que não tenha havido desde sempre na região muitas pessoas importantes ligadas ao fado. Em Viseu, o fado sempre se fez de uma forma amadora, com uma transmissão oral de algumas pessoas que têm interesse no fenómeno e que vai passando de boca em boca ou de mão em mão, mas nunca houve fenómenos com duração certa e prolongada no tempo. Ainda hoje existem quatro/cinco projectos de gente que continua a fazer fado, mas de uma forma perfeitamente amadora. E, tirando alguns grandes centros, como Lisboa, Porto e eventualmente a zona do Oeste e Algarve, pela questão turística, não haverá outros pontos importantes de uma escola mais ou menos sedimentada em termos de fado de Lisboa.

A “Viseu acaba por receber sempre bem o fado, agora, não evita limitações económicas aos projectos” Pode dizer-se que do Hilário ao Sousa, Viseu representou sempre bem os dois géneros do fado?

Há uns intervalos pelo meio, mas há pessoas importantes. Não podemos falar exclusivamente de Viseu cidade, porque a família Menano era do concelho de Fornos de Algodres e forneceu dois ou três grandes cantores e compositores, que mantiveram uma tradição até aos anos 40/50. A partir daí, houve outras pessoas ligadas a um certo cançonetismo nacional mas também ligado ao fado e que aí tiveram mais influência em Lisboa. A partir da década de 60 recomeçaram a aparecer outras pessoas importantes a nível instrumental. Estou-me a recordar do mestre Octávio Sérgio, do Hermínio Menino… que foram mantendo uma tradição. Neste momento, até mais a nível de Coimbra, temos pelo menos dois be-

líssimos cantores naturais de Viseu, o Nuno Silva e o Luís Alvelos, pessoas importantes no meio. Por isso é que Viseu acaba por receber sempre bem o fado, sabe ouvir e gosta de ouvir, agora, não evita limitações económicas aos projectos. Os viseenses gostam mais do Fado de Lisboa ou do de Coimbra?

Apesar de em Viseu haver um círculo que cultiva o fado de Lisboa e que as pessoas gostam de ouvir, a atracção é maior pela canção de Coimbra. Tradicionalmente também é assim, Hilário tinha a ver com Coimbra. Dá-me a sensação que é mais abrangente e mais genérico, embora o fado de Lisboa tenha um nicho mais militante. Hilário deixou um legado a Viseu?

Deixou sobretudo uma imagem. É através de

Coimbra que Hilário se revela, mas o que levou para Coimbra era de Viseu e trouxe-o de volta quando regressou, infelizmente para morrer. Fruto de um estudo que fiz recentemente, conclui-se que havia algumas pessoas a nível académico em finais do século XIX que deveriam ter sido extremamente interessantes a esse nível. O Hilário tinha características próprias, nomeadamente uma voz com um timbre muito especial e único, agregando a isso a capacidade de executar a guitarra. Ao mesmo tempo que cantava, tinha um valor artístico elevado, reconhecido a nível nacional, como foi na altura. A cidade, de alguma forma, usa a figura do filho da terra para se promover e promover a obra de Hilário?

Há alguns elementos monumentais. A casa dele preservada, a rua com o seu

nome, tivemos desde a sua morte várias serenatas evocativas de períodos da vida do Hilário. Poderia haver mais coisas, mas a cidade é rica em personalidades, agora, não deixa de ser interessante criar à volta da figura de Hilário um pólo de algum desenvolvimento. A cidade conhece o que se faz no tal nicho de que falava há pouco?

As pessoas vão sendo conhecidas. Houve dois fenómenos recentes relacionados com o fado de Lisboa, a Sónia Lisboa e a Mara Pedro. São fenómenos conhecidos, as pessoas sabem que nasceram aqui, e haverá outras. Mas não é fácil para quem está sediado em Viseu obter projecção em termos nacionais. O meio do fado, ao contrário do que as pessoas pensam, é um meio comercial feroz. Qual é o papel das escolas de

Dizia-me um amigo que somos um país tão pequeno, que ao estarmos a dividir estas coisas, não pode ser benéfico para toda a gente. Eu concordo por essa perspectiva, mas discordo relativamente ao que aconteceu. Tenho algumas dúvidas que as pessoas que lideram a candidatura sejam tão proactivas como as de Lisboa foram e, obviamente, Lisboa dispôs de meios financeiros para promover a candidatura de uma forma que talvez Coimbra nunca venha a ter. Quando falamos em fado de Coimbra e fado de Lisboa, não estamos a falar no mesmo género musical. Os instrumentos são diferentes, são executados numa afinação diferente, com técnicas diferentes. Por outro lado, por enquanto, a canção de Coimbra ainda é um canto exclusivamente masculino, ao contrário do fado de Lisboa. Na temática sobre cada um dos géneros também não tem a ver um com o outro, o fado de Lisboa é muito mais do quotidiano e a canção de Coimbra é mais elitista na forma de cantar.

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