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O vestido rosa choque

Mauro Bomfim “A mente selvagem é igual à civilizada”. Este ensinamento do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que no início deste mês morreu em Paris, poderia explicar a reação de estudantes da Uniban no episódio da universitária Geisy Arruda, aquela do micro-vestido cor de rosa choque. A mente humana às vezes se volta para reações mais primitivas. Os estudantes que cercaram Geisy com gritos de “vamos estuprar”, “vamos linchar” , por um momento instantâneo e por um comando do cérebro, devem ter regredido às hordas selvagens. O antropólogo que narrou suas viagens ao Brasil central na obra “Tristes Trópicos”, concluiu como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro.  A visão por um grupo de alunos de um micro-vestido, cor de rosa choque e de pernas desnudas alunos, a princípio, seria absolutamente normal. Pernas de fora se vê à todo momento nas ruas, nos estádios, nos shopinggs. O nu das telas de novelas. Biquínis fio-dental inundam as praias. A promiscuidade sexual rola solta na internet. Acho exagero comparar os estudantes da Uniban a nazistas ou membros da ku-klux-klan, grupos de fanáticos que combatem judeus e negros em busca de uma sonhada raça ariana. Esses radicais tinham em mente um objetivo determinado. Bem diferente de alunos da Uniban no episódio isolado da moça do vestido curto.  O desvão da mente humana que de repente volta ao primitivismo pode talvez ter ditado o comportamento dos

estudantes da Uniban, tudo facilitado pela ação em grupo, o encorajamento da massa sobre o costumeiro retraimento do impulso individual em situações dessa natureza. A atitude deplorável da direção da Uniban de expulsar a jovem e depois voltar atrás por pressão da mídia colocou mais lenha na fogueira. A notícia foi uma das mais clicadas no mundo no site da CNN. Toda forma de preconceito ou intolerância contra o corpo deve ser combatida. Como sempre ocorre em episódios que ganham destaque na mídia, a revista Playboy agiu rápido para convidar Geisy a posar nua. Isso já aconteceu com a namorada do Senador Renan Calheiros, Mônica Bittencourt. Ou com Débora, a rainha dos caminheiros. A secretária de Marcos Valério, Karina Fromaggio também foi convidada a posar nua na revista. A iconoclastia do despudor, a criação de mulheres-ídolos, ainda que por uns instantes de uma edição da revista. Fotos sensuais equalizadas pelos fotoshops, criando ícones sobre base de barro, que logo, logo se desfaz, feito cortina de fumaça.  Imagino que a juventude hoje , talvez pelo automatismo da internet e robotização dos costumes, pela naturalidade com que o mundo-pornô se apresenta nas redes de comunicação de massa, se ressente de um certo quê de romantismo. Os gestos de cavalheirismo estão cada vez mais raros.   Se voltássemos ao tempo em que circulava a revista O Cruzeiro, por exemplo, iríamos deparar com as “certinhas do Lalau”, seleção de moças de lindo corpo e belas pernas desnudas, organizada pelo cronista Stanislaw Ponte Preta. Em público, talvez recebessem rosas colombianas, galanteios civilizados dos homens, um convite prá jantar à luz de velas. Jamais um sentimento de intolerância ou de reação selvagem ou bestial. Se pudéssemos visualizar no tempo o caminhar glamouroso pelas ruas do bairro carioca da musa Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema cantada em prosa e verso por Vinicius de Morais e Tom Jobim, o ambiente seria de mais poesia e afeto, não de reações bizarras , grotescas e primitivas. Como já cantou Rita Lee, “dondoca é uma espécie em extinção, por isso não provoque, é cor de rosa choque”   MAURO BOMFIM é jornalista e advogado

16 de novembro  

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